PSSAROS FERIDOS
Colleen McCullough

9 EDIO

TRADUO DE
OCTVIO MENDES CAJADO

EDIO PORTUGUESA REVISTA POR
AYALA MONTEIRO

Bertrand/Difel

para a grande irm
Jean Easthope

Ttulo original: THE THORN BIRDS
(c) by Colleen McCullough, 1977
Todos os direitos reservados para a publicao desta obra em Portugal por:
Livraria Bertrand, S.A.R.L.
Impresso e acabamento: Tipografia Guerra, Viseu
Depsito Legal n G5017/93
ISBN 972-29-O113-3

***

Existe uma lenda acerca de um pssaro que s canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa
o ninho comea a procurar um espinheiro, e s descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acleo mais agudo e mais comprido.
E, morrendo, sublima a prpria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preo  a existncia. Mas o mundo inteiro
pra para ouvi-lo, e Deus sorri no cu. Pois o melhor s se adquire  custa de um grande sofrimento... Pelo menos  o que diz a lenda.

1915-1917 - MEGGIE

No dia 8 de Dezembro de 1915, Meggie Cleary completou o seu quarto ano de vida. Depois de retirar os pratos do pequeno-almoo, a me, sem proferir palavra, enfiou-lhe
um embrulho de papel pardo debaixo do brao e mandou-a sair. Meggie foi acocorar-se atrs da moita de tojos que crescia ao p do porto da frente
e comeou a puxar o papel com impacincia, mas os seus dedos eram desajeitados e o embrulho grosso; o cheiro dele, muito leve, lembrava o da loja de Wahine, donde
concluiu que o que se achava dentro do pacote, fosse l o que fosse, tinha sido milagrosamente comprado e no fora feito em casa nem oferecido.
Uma coisa linda e vagamente dourada principiou a surgir a um canto; ela puxou o papel mais depressa, descascando o embrulho como se descascasse uma banana, em tiras
compridas e irregulares.
- Agnes! Oh, Agnes! - exclamou com amor, pestanejando para a boneca deitada num ninho de trapos.
Um milagre, com efeito. S uma vez em toda a sua vida Meggie estivera em Wahine; em Maio, havia muito tempo, por ter sido uma menina boazinha. Encarrapitada na charrette,
ao lado da me, muito bem comportada, sentira-se to emocionada que no vira quase nada e lembrava-se de menos ainda. Excepto Agnes, a linda boneca sentada no balco
da loja, que vestia uma saia-balo de cetim cor-de-rosa, com folhos de renda cor de creme. Ali mesmo, naquele momento, baptizara-a com o nome de Agnes, o nico que
conhecia suficientemente elegante para uma criatura sem par como aquela. Entretanto, nos meses que se seguiram, o seu desejo de possuir Agnes no se nutria de esperana
alguma; Meggie no tinha bonecas e no sabia que as meninas e as bonecas haviam sido feitas umas para as outras. Brincava, feliz, com os apitos

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e soldados estropiados que os irmos deitavam fora, sujava as mos e enlameava as botas.
Nunca lhe ocorrera que Agnes fora feita para brincar. Passando a mo sobre as pregas rseas e brilhantes do vestido, mais bonito que qualquer outro que j vira em
alguma mulher, pegou nela com ternura.
Como os braos e as pernas da boneca eram articulados, podiam ser movidos em qualquer direco, e o mesmo sucedia com o pescoo e a cinturinha fina e graciosa. Os
cabelos cor de ouro estavam primorosamente arranjados num alto penteado  Pompadour, salpicados de prolas, e o plido regao deixava-se entrever apesar das rendas
cor de creme presas com um alfinete de prola. O lindo rosto de porcelana, muito bem pintado, no fora polido, para dar  tez, delicadamente colorida, uma contextura
mate natural. Olhos azuis, parecidssimas com olhos de verdade, brilhavam entre clios feitos de plos verdadeiros, com as ris estriadas e circundadas de um azul
mais forte; fascinada, Meggie descobriu que, reclinada bem para trs, Agnes cerrava as plpebras. Numa das faces levemente coroadas havia um sinal de beleza, e a
boca, ligeiramente entreaberta, mostrava uma fileira de dentinhos brancos. Meggie colocou a boneca no colo com toda a delicadeza, cruzou os ps confortavelmente
debaixo do corpo e ficou a olhar.
Continuava ainda sentada atrs da moita de tojos quando Jack e Hughie se aproximaram pelo meio da erva alta, num stio perto da cerca onde no se lhe podia chegar
a foice. Os cabelos da pequenita eram tpicos dos Cleary, pois todas as crianas da famlia, excepto Frank, tinham-nos marcados por um tom de vermelho; Jack segredou
para o irmo e apontou, jubiloso. Os dois separaram-se, sorrindo um para o outro, de qualquer maneira, e fingiram ser polcias a cavalo atrs de um renegado maori.
Meggie no os teria ouvido chegar, to absorta se achava na contemplao de Agnes, trauteando baixinho para si mesma.
- O que foi que te emprestaram, Meggie? - gritou Jack, saltando sobre ela. - Mostra-nos!
- Sim, mostra-nos! - repetiu Hughie, reprimindo o riso e flanqueando-a.
Ela aconchegou a boneca ao peito e abanou a cabea.
- No,  minha! Deram-me como presente de aniversrio!
- Mostra-nos, vamos! S queremos dar uma olhadela.
O orgulho e a alegria levaram a melhor. Ela levantou a boneca de modo que os irmos pudessem v-la.
- Vejam, no  linda? Chama-se Agnes.
- Agnes? Agnes? - repetiu Jack, simulando nsias de vmito.
- Que nome mais idiota! Porque no lhe chamas Margaret ou Betty?
- Porque ela  Agnes!
Hughie notou a articulao no punho da boneca e assobiou.
- Jack, olha para isto! Ela  capaz de mexer a mo!
- Onde? Deixa-me ver.
- No ! - Meggie tornou a estreitar a boneca contra o peito, enquanto os olhos se lhe enchiam de lgrimas. - No, vocs vo quebr-la! Oh, Jack, no ma tires...
vais quebr-la!
- Larga isso!
As mos escuras e sujas do rapaz fecharam-se em torno dos pulsos dela, apertando com fora.
- Queres uma queimadura chinesa? E no fiques a chorar dessa maneira, olha que eu conto ao Bob. - Ele apertou-lhe a pele em direces opostas at deix-la esbranquiada,
enquanto Hughie agarrava as saias da boneca e puxava-as. - D-me a boneca, se no aperto de verdade!
- No! No faas isso, Ja, por favor, no faas isso! Vais quebr-la, eu sei que vais! Por favor, deixa a boneca em paz! No lhe pegues, por favor!
Apesar da dor que sentia nos pulsos, Meggie continuava agarrada  boneca, soluando e distribuindo pontaps.
- Agarrei-a ! - bradou Hughie, quando a boneca escorregou por entre os braos de Meggie.
Jack e Hughie acharam-na to fascinante quanto a achara a prpria Meggie e foram-lhe arrancando o vestido, os saiotes e as calas de baixo, compridas e cheias de
pregas. Agnes agora estava nua, e os rapazes puxavam-na em urravam-na, forando um p a passar por trs do pescoo, obrigando-a a olhar para a prpria espinha, impondo-lhe
todas as contores possveis que lhes ocorriam. No deram ateno a Meggie, que continuava a chorar e nem pensava em pedir auxlio, pois na famlia Cleary quem
no soubesse ou no pudesse sustentar as suas prprias batalhas merecia dos outros escassa ajuda ou simpatia, e isso aplicava-se tambm s raparigas.
Os cabelos dourados da boneca desmoronaram-se, as prolas voaram, tremeluzentes, e sumiram-se no meio da erva alta. Uma bota suja pisou, sem querer, o vestido abandonado,
besuntando o cetim com graxa. Meggie caiu de joelhos, escarafunchando freneticamente o cho na nsia de recolher as pequenas peas de roupa antes que viessem a sofrer
maiores danos, e, depois, ps-se a afastar uma das outras as

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hastes da erva, onde supunha que as prolas haviam cado. As lgrimas cegavam-na, e a dor que sentia no corao era nova, pois nunca possura at ento coisa alguma
por que valesse a pena chorar.
Frank atirou a ferradura incandescente para a gua fria e endireitou as costas; j no lhe doam e, portanto, era possvel que se tivesse afeito ao ofcio de ferreiro.
J no era sem tempo teria dito o pai, depois de seis meses de prtica, mas Frank sabia muito bem h quanto tempo fora apresentado  forja e  bigorna; medira-o
com o estalo do dio e do ressentimento. Jogando o malho na caixa, afastou da testa com mo trmula a mecha de cabelos pretos e escorridos e desatou o velho avental
de couro amarrado  volta do pescoo. A sua camisa jazia sobre um monte de palha, num canto; caminhou lentamente at l e quedou-se, por um momento, a mirar a parede
escalavrada do celeiro como se ela no existisse, com os olhos negros arregalados e fixos.
Era muito baixo, no media mais que um metro e sessenta, e era magro como o so os rapazes nessa idade, mas os msculos dos ombros e dos braos nus j comeavam
a aparecer em virtude de trabalhar com o malho, e a pele plida e perfeita brilhava de suor.
Havia um ressaibo estrangeiro no negrume dos cabelos e dos olhos, a boca de lbios cheios e o largo cavalete do nariz no tinham a forma comum na famlia, mas corria
sangue maori nas veias de sua me, esse sangue transparecia nele. Frank tinha quase dezasseis anos, ao passo que Bob mal completara onze, Jack dez, Hughie nove,
Stuart cinco e a pequenina Meggie trs. Lembrou-se, ento, de que aquele era o dia do quarto aniversrio de Meggie: 8 de Dezembro. Vestiu a camisa e saiu do celeiro.
A casa erguia-se no topo de um outeiro e ficava, quanto muito, a uns trinta metros acima do celeiro e dos estbulos. De madeira, como todas as casas da Nova Zelndia,
era trrea e espalhava-se por ampla rea, na suposio de que, se houvesse um terremoto, parte dela talvez continuasse de p. Em toda a volta crescia o tojo, naquela
poca do ano inteiramente coberto de lindas flores amarelas; verde e luxuriante, como toda a relva da Nova Zelndia, nem mesmo em pleno Inverno, quando a geada persiste,
s vezes, sem derreter o dia todo, a relva se acastanhava, e o Vero, longo e moderado, s a coloria de um verde ainda mais rirn. As chuvas caam mansamente, sem
magoar a tenra suavidade das coisas que cresciam, no havia neve e o sol tinha apenas a fora necessria para alimentar, nunca para esgotar. Os flagelos da Nova
Zelndia subiam, trovejantes, das entranhas da terra, raro desciam

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do cu. Existia sempre uma sensao sufocada de espera, um estremecer intangvel, que, de facto, se transmitia pelos ps. Na realidade, debaixo do solo jazia o poder
medonho, o poder de tamanha magnitude que trinta anos antes uma montanha inteira, que dominava a plancie, desaparecera; o vapor jorrava, ululante, de fendas nas
encostas de colinas inocentes, vulces arremessavam fumo para o cu e os regatos alpinos corriam quentes. Imensos lagos de lama fervilhavam, oleosos, os mares atiravam-se
a rochedos que talvez no estivessem ali para saudar o preamar seguinte, e havia lugares em que a crosta da terra no tinha mais de duzentos e setenta metros de
espessura.
Exceptuando isso, era uma terra graciosa e amena. Alm da casa estendia-se uma plancie ondulada, to verde como a esmeralda que fulgia no anel de noivado de Fiona
Cleary, salpicada de milhares de embrulhozinhos cor de creme que, mais perto, se via serem carneiros. No ponto em que os morros curvos recortavam a fmbria do cu
azul-claro, o monte Egmont subia a trs mil metros de altura, enfiando o cume entre as nuvens, as vertentes ainda alvas de neve, com uma simetria to perfeita que
at os que o viam todos os dias, como Frank, nunca deixavam de maravilhar-se.
Era uma boa subida do celeiro at casa, mas Frank apressou-se, sabedor de que no devia fazer aquilo; as ordens do pai eram terminantes.
Depois, quando rodeou o canto da casa, deu com o grupinho ao p da moita de tojos.
Frank levara a me de charrette a Wahine para comprar a boneca de Meggie, e ainda perguntava a si mesmo o que a induzira a faz-lo.
Ela no costumava dar presentes pouco prticos de aniversrio, no havia dinheiro para tanto, e nunca dera um brinquedo a ningum.
Todos apanhavam roupa; os aniversrios e os Natais reabasteciam os poucos armrios. Aparentemente, porm, Meggie vira a boneca no seu primeiro e nico passeio 
cidade, e Fiona no se esquecera. Quando Frank a interrogou, ela murmurou qualquer coisa sobre as meninas precisarem de bonecas e mudou logo de assunto.
Jack e Hughie entretinham-se com a boneca no caminho que se estendia  frente da casa, manipulando-lhe as juntas sem d nem piedade.
A nica coisa que Frank pde ver de Meggie foram as costas, enquanto ela, em p, assistia  profanao de Agnes. As meias, brancas e limpas, tinham-lhe escorregado
pelas pernas e caam-lhe agora, em dobras, sobre as botinas pretas, deixando ver uns dez centmetros de pernas, de pele rosada debaixo da barra do vestido dos domingos,
de veludo castanho. Pelas costas a baixo cascateava a basta cabeleira cuidadosamente

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anelada, cintilando ao sol; nem vermelha nem ouro, mas de um matiz intermdio. A fita branca de tafet, que segurava os cachos da frente, pendia-lhe suja e inerte
da cabea e o vestido estava manchado de terra. Ela apertava as roupas da boneca numa das mos e estendia a outra, em vo, para Hughie.
- Miserveis !
Jack e Hughie levantaram-se de um salto, esquecidos da boneca; quando Frank se zangava era de boa poltica correr.
- Se eu os vejo, seus malandros, a mexerem nessa boneca outra vez, juro que lhes marco com um ferro em brasa os traseiros sujos de merda! - gritou Frank para os
dois em plena fuga.
Inclinou-se e agarrou com as mos os ombros de Meggie, sacudindo-a com meiguice.
- Ei, ei, ei, que  isso. No precisas de chorar. Vamos eles foram-se embora e nunca mais tocaro na tua boneca, prometo-te. Ento, no te ris no dia do teu aniversrio?
O rosto de Maggie estava inchado, os olhos vermelhos; ela fitou em Frank dois olhos cinzentos to grandes e to cheios de tragdia que o rapaz sentiu apertar-se-lhe
a garganta. Tirando um trapo sujo do bolso das calas, esfregou-o, desajeitado, no rosto dela, depois prendeu-lhe o nariz entre as dobras do pano.
- Assoa-te !
Ela fez o que lhe mandavam, soluando ruidosamente enquanto as lgrimas secavam.
- Oh, Fruh-Fruh-Frank, eles ti-ti-tiraram-me Agnes ! - fungou Meggie. - O ca-ca-cabelo dela per-per-perdeu todas as lindas pe-pe-perolazinhas que vinham nele! Caram
na rel-rel-relva e no consigo encontr-las !
As lgrimas voltaram a correr, caindo na mo de Frank; ele olhou por um momento para a pele molhada e lambeu-a.
- Pois, ento, teremos de encontr-las, no  assim? Mas no encontrars nada se ficares a a chorar. E que negcio  esse de falares como um bebezinho? Ei, nada
disso! Assoa de novo o nariz e depois agarra na pobre... Agnes. Se no a vestires j, ela ficar toda queimada do sol.
F-la sentar-se  beira do caminho e deu-lhe gentilmente a boneca; depois, comeou a esquadrinhar a relva, at que deu um grito de entusiasmo enquanto mostrava uma
prola.
- Pronto! Aqui est a primeira! Ns acharemos todas, vais ver.
Meggie ficou a observar o irmo mais velho com um semblante

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de adorao, enquanto ele revolvia a relva, erguendo cada prola  medida que as ia encontrando; lembrou-se, ento, de que a pele de Agnes, muito delicada, devia
queimar-se com grande facilidade, e dedicou toda a sua ateno a vestir a boneca. No parecia existir qualquer ferimento srio. O cabelo ficara embaraado e solto,
as pernas e os braos estavam sujos onde os rapazes os tinham puxado e torcido, mas tudo continuava a funcionar. Havia um pente de tartaruga preso por cima de cada
uma das orelhas de Meggie; ela puxou um deles com fora at arranc-los do lugar e ps-se a pentear a eabeleira de Agnes, feita de cabelos humanos, habilidosamente
amarrados e presos a uma base de cola e gaze e descorados at ficarem da cor da lha dourada.
Ela puxava desajeitadamente um grande n quando algo de horrvel aconteceu. L se foi o cabelo todo, que ficou pendendo, numa maaroca desgrenhada, dos dentes do
pente. Acima da testa lisa e ampla de Agnes no havia mais nada: nem cabea, nem a tampa do crnio, s um buraco medonho, escancarado. Trmula, aterrada, Meggie
inclinou-se para a frente a fim de espiar o interior do crnio da boneca. Os contornos invertidos das faces e do queixo entremostravam-se vagamente, formando com
a luz brilhante que se filtrava entre os lbios separados e os dentes uma silhueta preta, animal. O pior de tudo, porm, eram os olhos
de Agnes, duas horrveis bolas apertadas, trespassadas por um pedao
de arame que lhe furava cruelmente a cabea.
O grito de Meggie foi agudo e fino, e no parecia um grito de criana; ela atirou Agnes para longe e continuou a gritar, cobrindo o rosto com as mos, tremendo,
horrorizada. Depois sentiu que Frank a puxava pelas mos e a tomava nos braos, empurrando-lhe o rosto contra o pescoo dele. Enlaando-o com os braos, ela foi,
aos poucos, sentindo-se melhor at que a proximidade do irmo a acalmou o suficiente para que reparasse no cheiro que ele exalava, a cavalos, suor e ferro.
Quando ela se aquietou, Frank f-la contar o que acontecera; apanhou a boneca e olhou para a cabea vazia, sem compreender, procurando lembrar-se se o seu universo
de criana fora assim frequentado por terrores estranhos. Mas os seus fantasmas desagradveis eram feitos de pessoas, de sussurros e de olhares frios, do rosto fino,
macilento e contrado de sua me, da mo dela que tremia quando segurava a sua, da inclinao dos seus ombros.
Que vira Meggie para ficar daquela maneira? Ele imaginou que ela no se teria perturbado tanto se a pobre Agnes houvesse apenas sangrado ao perder o cabelo. A hemorragia
era um facto concreto: algum na famlia Cleary sangrava copiosamente pelo menos uma vez por semana.

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- Os olhos dela, os olhos dela! - murmurou Meggie, recusando-se a olhar para a boneca.
- Ela  maravilhosa, Meggie! - murmurou Frank, mergulhando o rosto no cabelo da irm. Como era bonito, como era rico e cheio de cor!
Foi-lhe preciso amim-la durante meia hora para a obrigar a no desviar os olhos da boneca e outra meia hora se passou antes que ele a persuadisse a espiar pelo
horrvel buraco. Mostrou-lhe como funcionavam os olhos, como haviam sido cuidadosamente zlzhados a fim de se ajustarem da maneira mais natural possvel aos movimentos
que deles se esperavam.
- Agora vamos, j  hora de entrar - disse ele, erguendo-a nos braos e enfiando a boneca entre o peito dele e o dela. - Vamos pedir  me que a arranje, no ?
Lavaremos e passaremos a ferro a roupa dela e tornaremos a rolar-lhe o cabelo. Farei tambm uns alfinetes melhores com essas prolas, para que no caiam e possas
pentear-lhe o cabelo como quiseres.

Fiona Cleary estava na cozinha a descascar batatas. Era uma mulher bonita, muito loira, de altura inferior  mdia, mas de rosto duro e severo; tinha um corpo bem
feito e uma cintura fina, que no engrossara apesar das seis crianas que carregara debaixo dela. O seu vestido era de morim cinzento e as saias varriam o cho imaculado,
ao passo que toda a parte da frente contava com a proteco de um enorme avental branco engomado, que dava a volta em torno do pescoo e se prendia,  altura dos
rins, com um lao firme, perfeito. Desde que se levantava at que se deitava vivia na cozinha e no quintal e as suas botas pretas e rijas at tinham traado um caminho
circular do fogo  lavandaria, da lavandaria  horta, da horta aos estendais e dos estendais de volta ao fogo.
Ela ps a faca em cima da mesa e ficou a olhar para Frank e Meggie, ao passo que lhe descaam os cantos da boca bem feita.
- Meggie, deixei-te pr hoje cedo o vestido dos domingos com a condio de que no te sujasses. Ora v bem camo ests! s mesmo uma desmazelada!
- Me, a culpa no foi dela - acudiu Frank. - Jack e Hughie tiraram-lhe a boneca para descobrir como funcionam os braos e as pernas. Prometi-lhe que a deixaramos
como nova. Podemos faz-lo, no podemos ?
- Deixa-me ver.

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Fee estendeu a mo para receber a boneca.
Era uma mulher calada, desabituada  conversao espontnea.
Ningum nunca soube o que ela pensava, nem mesmo o marido; deixava-o encarregar-se da educao das crianas e fazia tudo o que ele mandava sem comentrios nem queixas,
a no ser que as circunstncias fossem demasiado inslitas. Meggie ouvira os irmos murmurar que a me tinha tanto medo do pai como eles, mas, se isso era verdade,
ela escondia-o debaixo de uma camada de calma impenetrvel e levemente torva. Nunca se ria e nunca se irritava.
Concluda a inspeco, Fee colocou Agnes sobre o aparador, perto do fogo, e olhou para Meggie.
- Lavarei as roupas dela amanh cedo e darei um jeito no cabelo. Acho que Frank poder colar o cabelo hoje  noite, depois do ch, e dar-lhe um banho.
As palavras foram ditas num tom mais objectivo do que consolador.
Meggie fez que sim com a cabea, sorrindo com insegurana; sentia, s vezes, uma grande vontade de ouvir a me rir, mas ela nunca se ria.
Sabia que ambas compartilhavam de algo especial, no comum ao pai nem aos rapazes, mas no conseguia chegar alm daquelas costas rgidas; daqueles ps que nunca
paravam. A me concordaria com um gesto ausente de cabea e moveria com sacudidelas bruscas e hbeis as saias volumosas entre o fogo e a mesa, enquanto continuava
a trabalhar, trabalhar, trabalhar.
O que nenhum dos filhos, a no ser Frank, compreendia era que Fee se sentia permanente e incuravelmente cansada. Havia tanta coisa para fazer, to pouco dinheiro,
to pouco tempo e apenas um par de mos para faz-lo! Ela ansiava por ver chegar o dia em que Meggie tivesse idade bastante para ajudar; a criana j executava algumas
tarefas simples, mas os seus escassos quatro anos no lhe permitiriam aliviar a carga. Seis filhos e apenas um deles, o ltimo, o mais moo, do sexo feminino. Todas
as suas conhecidas demonstravam, ao mesmo tempo, compreenso e inveja, mas isso tambm no dava conta do servio.
Na sua cesta de costura erguia-se uma montanha de meias ainda no cosidas, nas suas agulhas achava-se outro par ainda no terminado; Hughie j no cabia dentro da
camisola e Jack ainda no estava pronto para legar-lhe a sua.

Padraic Cleary voltou para casa no dia do aniversrio de Meggie
por mero acaso. Ainda faltava muito para comear a temporada da
tosquia, e, ali, ele tinha trabalho para fazer, arando e plantando. Era,

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PASSAROS FEftIDOS

por profisso, tosquiador de carneiros, ocupao sazonal que durava
dos meados do Vero ao fi;m do Inverno, logo seguida da poca da
pario. Geralmente conseguia arranjar muito trabalho para toda a Pri-
mavera e o primeiro ms do Vero, ajudando na pario ou substi-
tuindo um fazendeiro local nas duas interminveis ordenhas dirias.
Onde havia trabalho l estava ele, deixando a fanai Zia no velho casaro
a arranjar-se como pudesse; atitude, alis, menos impiedosa do que
parecia. A menos que algum tivesse a sorte de possuir uma nesga
de terra, era exactamente isso o que deveria fazer.
 Quando ele enttou, pouco depois do pr do Sol, as lmpadas
estavam acesas e as sombras danavam, trmulas, no tecto alto. Reuni-
dos na varanda dos fundos, os rapazes brincavatn com um sapo, excepto
Frank; Padraic soube logo onde ele estava, pois ouvia o firme bater
de um machado vindo da direco da pilha de lenha. Deteve-se na
varanda apenas o tempo suficiente par dar um pontap no traseiro
de Jack e puxar as orelhas de Bob.
- Vo ajudat Frank a cortar lenha, seus vagabundos. E  melhor
que acabem tudo antes de a me pr o ch na mesa, pois, de contrrio,
haver cabelos a voar por a.
 Com uma incllnao da cabea cumprimentou Fiona, atarefada ao
p do fogo; no a beijava nem abraava, pois entendia que as demons-
traes de afecto entre marido e mulher s ficavam bem num quarto
de dormir. Enquanto ele manejava a descaladeira para se livrar das
botas enlameadas, Meggie, saltitando, trouxe-lhe os chinelos, e o pai
sorriu para a menina com a curiosa sensao de pasmo que ela sempre
lhe despertava. Era to bonita, possua cabelos to lindos! Pegou num
cacho e puxou-o, alisando-o, depois soltou-o, s para v-lo ressaltar
e retomar a feio de sempre. Erguendo a ilha do cho, foi sentar-se
na nica poltrona confortvel que havia na cozinha, uma poltrona
Q indsor com uma almofada presa ao assento, colocada perto do fogo.
Suspirando, sentou-se, tirou o cachixnbo do bolso e bateu-o de leve
 no cho, sem reparar no que fazia, para sacar do fornilho a crosta
 de cinza do tabaco j queimado. Meggie aninhou-se-lhe no colo e passou
 os braos  roda do seu pescoo, com o rostinho frio erguido para ele,
 enquanto se entregava  distraco de todas as noites: observar a luz
 que se coava atravs do restolho de barba dourada.
- Como vais, Fee? - per < ntou Padraic Cleary  esposa.
- Muito em, Paddy. Conseguiste terminar hoje o estbulo
 de baixo?

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PASSAROS FERIDOS

- Consegui, est tudo pronto. Amanh cedo poderei comear
a trabalhar no de cima. Safa!, como estou cansado!
- Pudera! Mac Pherson deu-te outra vez aquela velha gua maluca?
- Que  que achas? Que ele seria capaz de ficat com o animal
para si e deixar-me o ruo? Sinto os braos como se me tivessem sido
arrancados dos ombros. Juro que aquela gua tem a boca mais dura
de toda a Nova Zelendia.
- No te incomodes. Os cavalos do velho Robertson so bons,
e amanh irs para l.

 Padtaic Cleary encheu  cachimbo de tabaco ordinrio e tirou
um pavio encerado de um jatro grande que havia perto do fogo.
Bastou-lhe um movimento rpido pata acend-lo no forno; em seguida,
inclinou-se para trs e chupou to profundamente que o pito chegou
a borborejar.
- Como te sentes ao fazeres quatro anos, Meggie? - perguntou

- Muito bem, pai.
-A me j te deu o presente?
-Oh, pai, como foi que tu e a me adivinharam que eu queria

- Agnes? - Ele olhou depressa para Fee, sorrindo e interrogando-a
com as sobrancelhas. - Agnes  o nome dela?
- . E  linda, pai. Quero ficar a olhar para ela o dia inteiro.
-  uma sorte ter ainda alguma coisa para olhar - inter eio Fee,
carrancuda. - Jack e Hughie tomaram conta da boneca antes que
a pobre Meggie tivesse oportunidade de a ver bem.
- , rapazes so rapaz s. O estrago foi muito grande?
- Nada qe no se possa consertar. Frank apanhou-os antes que
eles fossem longe de mais.
- Frank? O que  que estava ele a fazer aqui? Tinha ordens
para ficar na forja o dia todo. Hunter est a precisar dos portes.
- Ele esteve na forja o dia todo. S veio aqui procurar uma
ferramenta; ou coisa que o valha - replicou Fee depressa; Padraic era
muito duro com Frank.
- Oh, pai, Frank  o melhor dos irmos ! Ele salvou a minha Agnes
da morte e vai colar-lhe de novo o cabelo depois do ch.
- Que bom! - disse o pai com voz sonolenta, inclinando a cabea
par trs e fechando os olhos.

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 Fazia calor diante do fogo, mas ele no pareceu not-lo; gotas de
suor surgiram-lhe na testa, rebrilhando. Colocou os braos atrs da
cabea e adormeceu.
 Fora Padraic Cleary quem legara aos filhos os seus vrios matizes
de cabelo basto, ondulado e vermelho, se bem que nenhum deles herdasse
uma cabea to agressivamente vermelha como a dele. Era um homem
pequeno, todo construdo de ao e molas, as pernas arqueadas por haver
passado uma existnci inteira no meio de cavalos, os braos compridos
depois de tantos anos a tosquiar carneiros; cobria-lhe o peito e os braos
uma densa penugem dourada, que seria feia se fosse escura. Os olhos,
de um azul brilhante, viviam contrados nuzna vesgueira permanente,
como os de um marinheiro, de tanto olhar para a distncia, e o rosto,
agradvel, parecia estar sempre pronto para sorrir, o que fazia os outros
homens gostarezn dele  primeira vista. O nariz era magnfico, verdadeiro
nariz romano que deve ter maravilhado os seus colegas irlandeses,
mas a Irlanda sempre foi uma costa de nufragos. Ele ainda falava
com a pronncia suave, rpida e pouco inteligvel dos irlandeses de
Galway, pronunciando o t final das palavras como se fosse um th,
mas quase vinte anos nos antpodas haviam imposto uma curiosa sobre-
rarga  sua maneira de falar, de modo que os as Ihe soavam como ais
e a velocidade da fala diminura um pouco, como um velho relgio
necessitado de corda. Homem feliz, conseguira suportar a sua existncia
dura e extenuante melhor do que muita gente e, embora fosse um
rgido disciplinador, cuja bota levava sempre um impulso pesado, todos
os filhos, menos um, o adoravam. Quando no havia po suficiente
para todos, ele ficava sem po; quando se tratava de escolher entre
roupas novas para ele e roupas novas para uma das crianas, era ele
quem ficava sem as roupas novas. A sua maneira, essa prova de amor
valia mais que um milho de beijos dados a esmo. Tinha um gnio
danado e, certa feita, matara um homem, mas tivera sorte; o fulano
era ingls e havia um navio no porto de Dun Laoghaire que zarparia
para a Nova Zelndia com a mar.
 Fiona dirigiu-se  porta dos fundos e gritou:
- Venham tomar ch!
 Os meninos foram entrando aos poucos, um aps outro, e Frank
entrou por ltimo com uma braada de lenha, que despejou na caixa
grande, ao lado do fogo. Padtaic ps Meggie no cho e encaminhou-se
para a cabeceira da mesa, na extremidade oposta da cozinha, ao passo
que os rapazes se sentavam em torno dela e Meggie se empoleirava

24

no caixote de madeira colocado pelo pai na cadeira que Ihe ficava
mais prxima.
 Fee serviu a comida directamente para os pratos na sua mesa
de trabalho, com maior rapidez e eficincia do que um empregado
de restaurante, e levou-os, dois de cada vez,  fanalia, primeiro a Paddy,
depois a Frank, e assim at Meggie, ficando ela para o fim.
 Os pratos, grandes, estavam literalznente repletos de comida:
batatas cozidas, ensopado de carneiro e feijo colhido naquela manh,
servidos em pores imensas. Apesar dos resmungos e sons de repug-
nncia abafados, todos acabaram por limpar o prato com miolo de po,
do qual comeram ainda vrias fatias, cobertas de grossas camadas de
manteiga e geleia de groselha. Fee sentou-se, engoliu a coznida sem
mastigar, levantou-se depressa e voltou a correr para a mesa de tra-
balho, onde repartiu, em grandes pratos fundos, vastas quantidades de
biscoito feitos com muito acar e misturados com geleia. Em seguida,
deitou um rio de creme quente e'fumegante sobre cada um deles e voltou
a arrastar-se at  mesa, levand dois de cada vez. Finalmente, sentou-se
com um suspiro; agora, sim, poderia comer sem pressa.
- Oh, que bom! Rocambole com geleia! - exclamou Meggie,
enfiando a colher no creme e retirando-a depois at a geleia aparecer
 vista, fortnando listas cor-de-rosa no amarelo.
- Ests a ver, Meggie? Por ser o teu aniversrio, a me fez hoje
o teu pudim favorito - disse o pai, sorrindo.
 No se ouviram queixas dessa vez; fosse do que fosse o pudim,
foi consumido com prazer. Todos os Cleary gostavam de doces.
 No entanto, apesar da vasta quantidade de comida  base de amido
que ingeriam, nenhum deles tinha um quilo sequer de carne suprflua,
pois gastavam tudo a trabalhar ou a brincar. Comiam verduras e frutas
porque estas faziam bem  sade, mas eram o po, as batatas, a carne
e os pudins farinhentos e quentes que afugentavam a exausto.
 is de Fee haver servido a todos uma xcara de ch do seu
gigantesco jarro, eles continuaram ali, conversando, bebendo ou lendo
durante uma hora ou mais; Paddy cachimbava com a cabea enfiada
num livro da biblioteca, Fee enchia xcaras sem parar, Bob estava imerso
noutro livro da biblioteca e os mais pequenos faziam planos para o dia
 te. A escola mandara embora os alunos para as longas frias de
Vero e os r-apazes ansavam pot comear as tarefas que lhes cabiam
na casa e no jatdim. Bob fora encarregado de retocar a pintura exterior
 fosse necessrio, Jack e Hughie teriam de tratar da lenha, dos
aneeos e da ordenha, Stuart ficara incumbido da horta; tudo brinca-

25

PABSAROS FERIDOS

PASSAROS FERIDOS

- uma pena que no haja dinheiro para manter os pequenos que a luz inundou a cama dupla, no canto. Deitado de costas, mm
na escola. So to inteligentes! a boca arqueada e aberta, Bob tremia e contorcia-se. Fee foi at  cama

- Oh, Frank! Se os desejos fossem cavalos, os mendigos fariam e f-lo virar-se sobre o lado direito antes que ele mergulhasse num
equitao - disse a me em tom can . d assou a mo pelos olhos, pesadelo, depoi P dddou-se a contempl-lo por um momento. Como
tremendo um pouco, e espetou e cerzir numa bola de l se pareci
cor de cinza. - No posso fazer mais nada. Estou to cansada que j No uarto pegado, Jack e Hughie estavam quase entrelaados.
no vejo hem.
 Que tratantes aqueles Sempre metidos em travessuras, embora sem

- V para a cama, me. Eu apagarei os candeeiros. maldade. Fee tentou em vo separ-los e restituir um pouco de ordem

- Assim que eu tiver atiado o fogo. s roupas da cama, mas as duas cabeas vermelhas e encaracoladas nega-

- Deixe que eu fao isso. ram-se a isso. Com um suspiro manso, desistiu. Como conseguiam sen-
 Ele levantou-se da mesa e colocou a delicada boneca de porcelana, tir-se revigorados depois de passarem uma noite naquela posio, eis
com todo o cuidado, atrs de uma lata de bolos, no aparador, onde o ue no lhe entrava na cabea, mas eles pareciam medrar assim
estaria a salvo de qualquer dano. No o preocupava a possibilidade de mesmo.
que os irmos tentassem utna nova rapina; eles tinham mais medo da O quarto em que Meggie e Stuart dormiam era um cmodo escuro
vingana dele que da do pai, pois Frank era rancoroso. Quando estava e sem alegria para duas crianas pequenas; paredes pintadas de um
com a me ou com a irm, essa caracterstica no aparecia, mas todos pardo montono, cho recoberto de um linleo pardo tambm, nenhum
os rapazes j tinham sofrido por causa dela. quadro nas paredes. Exactamente igual aos outros quattos de dormir.

 Fee observava-o rnm o corao apertado; havia em Frank algo de Stuart virara-se de cabea para baixo e estaria quase invisvel se
selvagem e desesperado, uma aura de angstia. Se ao menos ele e Paddy no fosse o pequeno traseiro devidamente encamisolado, mas saindo
se dessem melhor! Mas os dois nunca viam as coisas pelo mesmo prisma das rnbertas no lugar onde deveria estar a cabea; Fee encontrou-a
e brigavam constantemente. Ele talvez estivesse preocupado de mais encostada aos joelhos e, como sempre, admirou-se de que ele no
com ela, talvez fosse o filhinho da mam. A ser isso verdade, a culpa tivesse morrido sufocado. Enfiou a mo com extremo cuidado por baixo
seria dela. No entanto, era mais uma prova do seu corao amoroso, do lenol e inteiriou-se. Molhado outra vez! Bem, isso teria de esperar
da sua bondade. Ele s queria tornat-lhe a vida um pouco mais fcil at  manh seguinte, quando, sem dvida, o travesseiro j estaria
e Fee voltou a surpreender-se ansiando pelo dia em que Meggie tivesse molhado tambm. Ele fazia sempre isso, depois invertia a posio
idade suficiente para tirat esse fardo dos ombros de Frank. e tornava a urinar. Mas afinal, pensando bem, um mijo entre cinco

 Pegou numa lamp a que estava sobre a mesa, recolocou-a no garotos no era assim muito mau.
lugar e caminhou,para onde Frank, de ccoras diante do fogo, deitava Meggie, dobrada sobre si mesma, formava uma bola, com o pole-
lenha na grande fornalha e brincava com o registo. Viu-lhe o bran alvo gar na boea e o c belo esparramado  sua volta. A nica rapariga. Fee
encordoado de veias salientes, as mos bem feitas to manchadas que o Ihe dirigiu mais que um olhr de passagem antes de sair do quarto;
 nunca mais se poderiam lmpar. A mo dela estendeu-se, tmida, nao havia mistrio para Meggie, uma mulher. Fee sabia qual seria a sua
 e, muito ao de leve, afastou-lhe dos olhos a mecha de cabelo preto eorte, e no tinha inveja nem pena dela. Os rapazes eram diferentes;
 e liso; era o mgimo que seria capaz de fazer em matria de carcias. < lagres, homens formados por artes de alquimia no seu corpo

- Boa noite, Frank, e muito obrigada. de mulher. Era duro no ter ningum para ajudar em casa, mas valia
 pena. Entre os seus pares, os filhos vares de Paddy representavam
 As sombras giravam e corriam diante da luz que avanava, a melhor recomendao de carcter que ele possua. O homem que gera

 transpunha em silncio a porta que comunicava cotn vates  um homem de verdade.
 enquanto Fee Ela ferbou de mansinho a porta do prprio quarto e deps a lam-
 a pa F nt b am o primeiro quarto de dormir; ela descetrou a sobre a esctivaninha. Os seus dedos geis desabotoaram as dzias
 a porta sem fazer barulho e segurou a lmpada bem alto, de modo < nsculos botezinhos que havia entre a gola alta e os quadtis

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29

do vestido; em seguida, desenvencilhou os braos das mangas. Livrou
tamb,m os braos do corpete de baixo e, segurando-o com cuidado
de encontro ao peito, enfiou-se numa comprida camisola de flanela.
S ento, decentemente coberta, se desfez do corpete, das calas que
lhe chegavam aos tornozelos e do espartilho, j frouxo. Logo veio
a baixo o cabelo de ouro que estivera muito bem preso, e todns os gram-
pos e alfinetes foram colocados na casca de uma orelha-de-so-pedto,
sobre a escrivaninha. Mas nem assim, belo como era, basto, brilhante
e liso, lhe seria permitida alguma liberdade; Fee ergueu os cotovelos
ama da cabea e as mos atrs do pescoo, e comeou a entrela-lo
rapidamente. Voltou-se, ento, para a cama, suspendendo inconsente-
mente a respirao; mas Paddy estava a dnrmir e ela soltou um suspiro
ruidoso de alvio. No que Ihe desagradasse quando Paddy estava dis-
posto, pois era um am te tmido, terno e cheio de atenes, mas
enquanto Meggie no tivesse mais dois ou trs anos seria muito duro
gerar outros filhos.

2

 o5 domingos, quando os Cleary iam  igreja, Meggie tinha de ficar
 em casa com um dos irmos mais velhos, ansiando pelo dia em
 que tambm tivesse idade bastante para ir. Na apinio de Padtaic
 Cleary, s havia um stio onde as crianas pequenas podiam estar
- a sua casa - e essa regra aplicava-se at  casa de Deus. Quando
Meggie comeasse a frequentar a escola e aprendesse a ficar sentada quie-
tinha, poderia ir  igreja. Antes, no. Por isso mesmo, todos os domingos
de manh ela ficava ao p da moita de tojos, junto aa porto da frente,
dsolada, en uanto a faxnlia se eznpilhava na velha traquitana e o irmo
incumbido de ficar com el tentava fingir que fora uma sorte escapar
d missa. O nico Cleary que gostava de separar-se do resto era Frank.
 A religio de Paddy formava uma parte intrfnseca da sua vida.
Quando desposara Fee fizera-o com a relutante aprovao catlica, pois
Fee pertena  Igreja da Inglaterra; e conquanto ela renunasse  sua
f por atnor de Paddy, recusou-se a adoptar a dele em seu lugar.  dif-
cil dizer porqu, se no que os Armstrong constituam uma velha
estirpe de pioneiros de impecvel extracn anglicana, ao asso que
Paddy era um imigrante sem eira nem beira, que viera do lado errado
do Pale. J havia Armstrong na Nova Zelndia muito antes de che-
garem os primeiros colonos <<oficiais >, o que representava um passaporte
pet'a a aristocraa colonial. Do ponto de vista dos Armstrong, s se
podia dizer, portanto, que Fee contrara uma chocante msalliance.
 Roderick Armstrong fundara o cl da Nova Zelndia de um modo
 s curioso.
 Cameata com um acontecimento que teria muitas repercusses
 vistas na Inglaterra dn sculo xvlli: a Guerra da Independna
 Amrica. At 1776, mais de um milhar de criminosos sem impor-

30 31

PASSAROS FEftIDOS

tna era enviado, todos os anos, para a Virgnia e para as Carolinas,
presos a um contrato de trabalho pouco melhor que a escravido. Impie-
dosa e infle vel, a justia britnica daquele tempo punia com n forca
o assassnio, o intndio premeditado e o furto de importncia, supe-
riores a um xelim. Os crimes menores significavam o desterro para
as Amricas pelo tempo que durasse a vida natural do criminoso.

 Mas quando, em 1776, as Amricas se fecharam, a Inglatetra viu-se
a braos, sem ter onde aloj-la, com uma populao de condenados que
aumentava assustadoramente. Com as prises abarrotadas, o excedente
foi colocado, como sardinhas em lata, nos navios-ptises que apodre-
ciam atracados nos esturios do rio. Era preciso fazcr alguma coisa e, por
isso, tomou-se uma deciso. Com muita relutncia, porque a medida
implicava o gasto de alguns milhares de libras, ordenou-se ao capito
A phillip que se fizesse  vela para a Grande Terra do Sul. Corria
o ano de 1787. A sua frota de onze navios levava mais de mil senten-
ados, fora os anarinheiros, ofiais de marinha e um contingente de
fuzileiros navais, mas no se tratava de uma odisseia gloriosa em busca
de liberdade. No fim de Janeiro de 1788, oito meses depois de zarpar
da Inglaterra, a frota chegou a Botany Bay. Sua Majestade Jorge III
encontrara um novo terreno baldio para despejar os seus condenados,
a mlnia de Nova Gales.
 Em 1801, quando mal completara vinte anos de idade, Roderick
Armstrong foi sentenciado ao degredo por toda a vida. Geraes subse-
quentes insistiram em que ele provinha de gente de boa famlia de
Somerset, que perdera o que tinha por haver abtaado a Revoluo
americana e que o seu crime nunca existira, mas nenhuma se esforara
jamais por descobrir os antecedentes do ilustre antepassado. Compra-
ziam-se apenas na sua glria reflectida e improvisavam alguma coisa.

 Fossem quais fossem as suas origens e o seu status na Inglaterra,
 o jovem Roderick Armstrong era uma fera. Durante os indizveis oito
 meses de viagem para a Nova Gales mostrou ser um prisioneiro obsti-
 nado e difcil, granje < do ainda mais a estima dos oficiais do seu navo
 por se recusar a morrer. Quando chegou a Sidnei em 1803, o seu com-
 portamento piorou, de modo que o embarcaram para a ilha de Norfolk
 e para a priso dos intratveis. Contudo, a sua conduta em nada melho-
 rou. Fizeram-no passar fome; encarceraram-no numa cela to pequena
 que ele no podia estar sentado, nem de p, nem deitado; aoitaram-no
 at e1e ficat com o corpo em sangue; acorrentaram-no a uma rocha no
 mar e ali o deixaram, meio afogado. E ele ria-se deles, escanzelada
 coleco de ossos envolta numa lona imunda, sem um dente na boca,

sem um centmetro de pele limpo de cicatrizes, mas inflarnado por
dentro cam um fogo de amargura e de rebeldia que nada lograva apagar.
No princpio de cada dia determinava no morrer e, ao fim de cada
dia, ria-se, triunfante, ao ver-se ainda vivo.
 Em 1810 foi mandado para a Terra de Van Diemen, acorrentado
a uma leva de forados incumbida de abrir uma estrada atravs da durs-
sima regio de arenito at Hobart. Na primeira oportunidade, utilizou
a picareta para fazer um buraco no peito do soldado da Polcia Montada
que comandava a expedio; depois, com outros dez presos, chacinou
mais cinco soldados da Polcia Montada, raspando-lhes a carne dos
ossos centmetro por centmetro, at v-los morrer berrando de dor.
Na erdade, tanto eles como os guardas eram animais selvagens, cria-
turas primrias cujas emoes, atrofiadas, no ultrapassavam o plano
sub-humano. Roderick Armstrong no poderia ter fugido deixando
inclumes os seus atormentadores nem poderia deix-los morrer depressa,
assm como no se conformara com o facto de ser um degredado.
 Com o rum, o po e a carne seca tirada aos soldados, os onze
homens abriram caminho atravs de quilmetros de frias florestas
e foram parar  estao de pesca de baleias de Hobart, onde roubaram
uma chalupa, nela cruzando o mar de Tasman sem comida, sem gua
e sem velas. Quando a chalupa arribou  selvagem costa ocidental da
ilha do Sul da Nova Zelndia, Roderick Armstrong e dois outros homens
ainda estavam vivos. Ele nunca aludiu a essa viagem incrvel, mas
dizia-se,  boca pequena, que os trs tinham conseguido sobreviver
matando e comendo os companheiros mais fracos.
 Isso aconteceu exactamente nove anos depois de haver sido depor-
 ado da Inglaterra. Se bem que ainda fosse moo, parecia ter sessenta
nos. Quando os primeiros colonos oficialmente autorizados chegaram
 Nova Zelndia em 1840, ele desbravara terras para si no rico distrito
dr Canterbury da ilha do Sul, casara>> com nma mulher maori e pro-
iara tteze belos filhos semipolinsios. Assim, por volta de 1860,
 Armstrongs eram aristocratas coloniais, mandavam os fi.lhos vares
% studar em escolas gr-finas da Inglaterra e provavam  saciedade,
 do  sua astcia e ganneia, serem, de facto, autnticos deseendentes
 # c um homem notvel, formidvel. Em 1880, James, neto de Roderick,
 ' Fiona, nica filha num total de quinze filhos.
 Se Fee sentia saudades dos austeros ritos protestantes da sua infn-
 , nunca o disse. Tolerava as convices religiosas de Paddy e ia
 ssa com ele, alm de zelar para que seus filhos adorassem um Deus
 usivamente catlieo. Mas porque nunca se convertexa; faltavam na

33

vida deles os pequenos toques, como a aco de graas antes das refei-
es e as oraes antes de se deitarem, a santificao de todos os dias.

 Excepto um passeio a Wahine dezoito meses antes, Meggie nunca
sara de casa para ir alm do celeiro e da forja, l em baixo. Na manh
do seu primelro dia de escola sentiu-se to comovida que vomitou
o pequeno-almoo e teve de ser levada de volta, entrouxada, para
o quarto a fim de a lavarem e lhe mudarem a roupa. L se foi o lindo
ttaje novo azul-marinho com a grande gola branca de marinheiro, e l
voltou o vestido grosso e horrvel, com botes at ao alto do pescoo,
que Ihe dava sempre a impresso de a sufocar.

- Pelo amor de Deus, Meggie, da prxima vez que te sentires
enjoada avisa! No fiques a sentada feita parva at ser tarde de mais
e at eu ter essa porcaria toda para limpar, fora o resto! E agora ters
de apressar-te, porque, se chegares atrasada para o toque do sino,
a irm Agatha com certeza que te d umas boas palmatoadas. Porta-te
bem e obedece aos teus irmos.

 Bob, Jack, Hughie e Stu estavam aos pulos diante do porto
quando Fee, finalmente, empurrou Meggie pela porta fora com o lanche
de sanduches de geleia arrumado numa sacola velha.

- Anda, Meggie, vamos chegar atrasados! - gritou Bob, diri-
gindo-se para a estrada.
 Meggie comeou a correr atrs das silhuetas dos irmos, que cada
 vez lhe pareciam mais pe'guenas.
 Passava um pouco das sete da manh, e h j vrias horas que
 o Sol, ameno, nascera; o orvalho secara sobre a relva, excepto nos stios
 onde a sombra era mais profunda. A estrada de Wahine no passava
 de um caminho de terra, com dois sulcos feitos pelas rodas dos carros,
 duas fitas vermelho-escuras separadas por uma ampla faixa de capim
 verde brilhante. Alvos copos de leite e capuchinhas cor de laranja flo-
 resam em profuso de cada lado do caminho, no meio da relva alta,
 onde as cercas de madeira das herdades limtrofes advertam de que era
 proibida a invaso da propriedade.

 Bob seguia sempre para a escola encostado s cercas da direta
 e balanando a sacola de couro sobre a cabea, em vez de lev-la
  maneira de um bornal. As da esquerda pertenciam a Jack, o que
 permitia aos trs Cleary mais moos ficarem com o domnio da estrada.
 Chegando ao topo da longa e ngreme colina que tinham de galgar desde
 a depresso em que ficava a forja at o ponto onde a estrada de Robert-
 son se juntava  de ahine, pararam por um momento, ofegantes,

as cinco cabeas brilhantes aureoladas de encontro ao cu de nuvens
fofas. Vinha agora a melhor parte, a descida do morro; deram-se as
mos e galoparam at ao fim da zona relvada, que terminava num ema-
ranhado de flores, desejando ter tempo para passar por baixo da cerca
do Sr. Chapman e rolar pela encosta a baixo como se fossem pedras.
 A casa dos Cleary ficava a oito quilmetros de Wahine e quando
Meggie viu, ao longe, os primeiros postes telegrficos, as pernas tre-
miam-lhe e as meas estavam a cair. Com os ouvidos atentos  espera
do toque do sino, Bob fitava-a, impaciente, enquanto ela avanava
a custo pela estrada, puxando as calas de baixo e arquejando, de vez
em quando, de exausto. Debaixo da massa de cabelos, o rosto era
rseo e, no entanto, curiosamente plido. Suspirando, Bob entregou
a sua sacola a Jack e correu as mos pelos cales.
- Vamos, Meggie, eu levo-te s cavalitas o resto do caminho
-disse, enquanto mostrava um ar carrancudo aos irmos, a fim de
que estes no o julgassem, erroneamente, capaz de amolecet.
 Meggie iou-se para as costas dele, o suficiente para enlaar-lhe
a cintura com as pernas, e ajeitou a cabea, com uma sensao de bem-
-aventurana, sobre o ombro largo do irmo. Agora poderia contemplar
Wahine com todo o conforto.
 No havia muita coisa para ver. Pouco mais que uma grande
aldeia, Wahine crescia desordenadamente para os dois lados de uma
rua alcatroada que a atravessava. O maior edifcio era o hotel, de dois
andares, com um toldo que o protegia do sol e postes que sustentavam
o toldo ao longo do passeio. Segundo edifcio em tamanho, o armazm
tambm se ufanava de ter um toldo protector e dois compridos bancos
de madeira, debaixo das janelas abarrotadas de mercadoria, onde os
transeuntes podiam descansar. Havia um pau de bandeira diante da
loja manica, em cujo topo drapejava, desbotada, ao perpassar da
brisa forte, uma bandeira do Reino Unido. A cidade ainda no possua
uma oficina para automveis, pois o nmero de veculos de traco
mecnica era anuito pequeno, mas havia uma oficina de ferreiro perto
 a loja manica, um estbulo logo atrs e uma bomba de gasolina
 eira de um abrigo para cavalos. O nico edifcio em todo o povoado
que realmente alegrava os olhos era uma loja pintada d um azul bri-
lhante especial, muito pouco britnico; todos os outros prdios exibiam
a mesma sbria tonalidade pardacenta. A escola pblica e a igreja angli-
cana achavam-se lado a lado, mesmo defronte da Igreja do Sagrado
Cotao e da escola paroquial.

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 Quando os Cleary passaram apressados pelo armazm, soou o sino
catlico, seguido do tanger mais pesado do sino grande no poste fron-
teiro  escola pblica. Bob ps-se a correr, e eles entraram no ptio
coberto de cascalho, onde umas cinquenta crianas se alinhavam diante
de uma freirinha que segurava uma vara flexvel, maior do que ela.
Sem precisar que lho dissessem, Bob dirigiu a irm para um lado, sepa-
rado das fileiras de crianas, e ali ficou com os olhos cravados na vara.

 O Convento do Sagrado Corao era uma construo de dois anda-
 g ,
res, mas, por estar afastado da rua atrs de um radeamento o facto
passava despercebido. As trs freiras da Ordem das Irms da Miseri-
crdia que constituam todo o seu pessoal viviam no segundo andar
em compa a de uma quarta freira, que exercia as funes de zeladora
 e nunca era vista; no andar trreo ha- ia trs grandes divises que ser-
 viam de salas de aula. Circundava todo o edifcio rectangular uma
 ampla e sombreada varanda, onde, nos dias de chuva, se permitia s
 crianas permanecerem decorosamente sentadas durante os intervalos
 do recreio e do lanche, e onde, nos dias de sol, nenhuma tinha licena
 para pr os ps. Vrias figueiras de grande porte sombreavam parte
do espaoso terreno dentro do qual se erguia o convento e, atrs da
 escola, o cho descia um pouco at chegar a um crculo zelvado eufemis-
 ticamente baptizado com o nome de <<campo de crquete , em virtude
 da principal actividade que se realizava ali.

 S m dar ateno s risadinhas abafadas e esptemidas que partiam
 das crianas enfileiradas, Bob e a irm quedaram-se imveis enquanto
 os alunos marchavam para o interior do prdio ao som do piano da
 escola, onde a irm Catherine e s t r i d u 1 av a A F dos Nossos Pais.
 S depois e desaparecer a ltima criana, a irm Agatha desfez a sua
 rgida postura e, afastando o cascalho imperiosamente para os lados
 com as pesadas saias de sarja, dirigiu-se aos Cleary, que esperavam.
 p is nunca tinha visto uma
 Meggie olhou embasbacada ara ela, po
 freira. O espectculo era deveras extraordinrio; trs salp.cos de pes-
 soa, a saber, o rosto e as mos de irm Agatha, juntamente com a touca
 e o peitilho, brancos e engomados, destacavam-se das camadas do preto
 mais preto, ao passo que a corda macia de contas de madeira do rosrio
 pendia de um arlel de ferro, em que se juntavam as pontas do cinto
 de couro que cingia a robusta cintura da religiosa. A pele da itm
 Agatha era permanentemente vermelha, em virtude do excesso de asseio
 e da presso das bordas da touca, afiadas como facas, que lhe encai-
 xilhavam a cabea numa coisa to separada do corpo que no se poderia
 chamar de rosto; pequenos plos brotavam em tufos por todo o queixo,

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que a touca, impiedosa, dividia em dois. Os lbios eram quase invi-
sveis, comprimidos numa nica linha resultante da concentrao exigida
pela rdL,a tarefa de ser a noiva de Cristo num atrasado povoado
colonial, onde as estaes andavam de pernas para o ar, depois de ter
feito os seus votos na mansa suavidade da abadia de Killarney, cin-
quenta anos antes. Duas pequeninas marcas carmesins, de cada lado
do nariz, revelavam o aperto implacvel dos culos de aros redondos
de ao, atrs dos quais os seus olhos, de um azul desmaiado, espiavam,
suspeitosos e amargos.
- E ento, Robert Cleary, porque chegaste atrasado? - pergun-
tou, spera, a irm Agatha com a sua voz seca, que j fora irlandesa.
- Sinto muito, irm - replicou Bob em tom inexpressivo, mas
sem tirar os olhos azul-esverdeados da ponta da vara, que vibrava
enquanto oscilava. de um lado para outro.
- Porque chegaste atrasado? - repetiu ela.
- Sinto muito, irm.
- Este  o primeiro dia do novo ano escolar, Robert Cleary, e eu
pensava que, ao menos esta manh, poderias ter feito um esforo para
chegares a horas.
 Meggie sentiu um calafrio, mas criou coragem.
- A culpa foi minha, irm! - guinchou.
 Os olhos de um azul desmaiado desviaram-se de Bob e pareceram
ttespassar a prpria alma de Meggie, que se achava ali de olhos erguidos
em total inocncia, sem perceber qu.e estava a inftingir a primeira norma
de conduta no duelo mortal que se travava entre professores e alunos
ad i>>finitum: nunca se devia prestar uma informao. Bob deu-lhe um
rpido pontap na perna e Meggie enviesou os olhos para ele, perplexa.
- Porque foi tua a culpa? - perguntou a freira no tom mais
frio que Meggie j ouvira.
- Bem, eu vomitei  mesa e sujei as calas, de modo que a me
teve de lavar-me e mudar-me a roupa, e assim fiz com que todos se
atrasassem - explicou Meggie candidamente.
 Os traos de irm Agatha no se- alteraram, mas a sua boca aper-
tou-se ainda mais, como mola excessivamente enrolada, e a ponta da
vara abaixou-se alguns centmetros.
- Quem  esta? - perguntou, desabrida, dirigindo-se a Bob, como
 se o objecto da sua indagao fosse uma espcie nova e particularmente
 antiptica de inseeto.
-  minha irm Meghann, irm.

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- Nesse caso, de futuro, deves faz-la compreender que existem
assuntos que nunca mencionamos, Robert, se formos damas e cavalhei-
ros de verdade. Em hiptese alguma, entendeste?, em hiptese alguma
aludimos, pelo nome, a uma pea das nossas roupas de baixo, como
os filhos de qualquer famlia decente deveriam saber automaticamente.
Estendam as mos, todos.
- Mas a culpa foi minha, irm! - gemeu Meggie, enquanto esten-
dia as mos com as palxnas viradas para cima, pois vira os irmos faz-lo
em casa mil vezes em pantomimas.

- Silncio! - silvou a irm Agath , voltando-se para ela. - No
me importa conhecer o responsvel. Isso -me indiferente. Todos esto
atrasados e, portanto, todos sero castigados. Seis chibatadas.

 Ela pronunciou a sentena com montono prazer.

 Aterrorizada, Meggie observou as mos firmes de Bob, viu a chi-
bata descer assobiando, quase mais depressa do que a vista podia acom
panh-la, e estalar no centro das palmas dele, onde a pele era mole
e tenra. Um vergo purpurino apareceu imediatamente; a chibatada
seguinte acertou na juno dos dedos com a palma, mais sensvel ainda,
e a ltima, na ponta dos dedos, onde o crebro acumula mais sensaes
do que em qualquer outro lugar, excepto os lbios. A pontaria da irm
Agatha era perfeita. Seguiram-se mais trs pancadas desferidas na outra
mo de Bob antes que ela desviasse a ateno para Jack, o seguinte
 da fila. O rosto de Bob estava plido, mas ele no grtou nem fe'c
 movimento algum, e o mesmo aconteceu com os outros ao chegar
 a sua vez; at o quieto e meigo Stu.
 Quando acompanharam a ascenso da vara acima das prpras
 mos, os olhos de Megge fecharam-se sem querer, de modo que ela
 no a viu descer. Contudo, a dor foi como que uma vasta exploso.
 uma invaso causticante e cauterizante da sua carne, que lhe chegava
 aos ossos; a dor anda no se acabara de espalhar, num formigueiro,
 pelo antebrao, quando veo a chibatada seguinte e, j esta lhe atingia
 o ombro, a pancada fnal, que lhe acertou na ponta dos dedos, seguiu,
 gritando, o mesmo caminho, at ao corao. Ela cravou os dentes no
 lbio inferior e mordeu-o, envergonhada e orgulhosa de mais para cho-
 rar, e to colrica e indignada com aquela injustia que no se atrevia
 a abrir os olhos e fit-los na irm Agatha; a lio estava a penetrar,
 posto que o seu ponto crucal no fosse o que irm Agatha tencio-
 nava ensinar.
 Chegada a hora do lanche a dor no lhe desaparecera de todn
 das mos. Megge passara a manh num ofuscamento mental provocado

38

PASSAROSFERIDOS

pelo medo e pelo assombro, sem compreender coisa alguma do que
se disse e se fez. Empurrada para uma carteira dupla na ltima fila
da classe dos mais pequenos, s veio a dar conta da colega do lado
depois de uma lamentvel hora de lanehe, que passou encolhida atrs
de Bob e de Jack, num canto isolado do recreio. S a ordem severa
de Bob logrou persuadi-la a comer as sanduches de geleia de groselha
que Fee lhe preparara.
 Quando o sino anunciou o incio das aulas da tarde e Meggie encon-
trou lugar na fila, sentiu finalmente os olhos bastante claros para se dar
conta do que estava a acontecer  sua volta. A vergonha das chibatadas
continuava a pungi-la como antes, mas ela conservou a cabea erguida
e fingiu no notar as risadas e murmrios das rapariguinhas sentadas
ao seu lado.
 A irm Agarha estava em p, na frente, com a sua vara; a irm
Declan rondava de um lado para outro, atrs das filas; a rm Catherine
sentou-se ao piano, perto da porta da sala dos mais pequenos, e prin-
cipiou a toear Para a Frente, Soldados Cristos, dando nfase ao tempo
da msica. Era, a bem dizer, um hino protestante, mas a guerra
tornara-o comum a todas as denominaes. As queridas crianas mar-
chavam ao som do hino como se fossem pequeninos soldados, pensou
com orgulho a irm Catherine.
 Das trs freiras, a irm Declan era uma rplica da irm Agatha
com qulnze anos menos, ao passo que a irm Catherine ainda parecia
remotamente humana. Tinha trinta e poucos anos, nascera na Irlanda,
naturalmente, e o fogo do seu entusiasmo no se dissipara de todo;
ainda encontrava alegria no ensinar, ainda via a Imagem imperecvel
de Cristo nos rostinhos mais erguidos para o seu em atitude adorativa.
Mas ensinava os mais crescidos, que a irm Agatha julgava ter sovado
o suficiente para se comportarem bem, apesar da mocidade e da bran-
dura da supervisora. A prpria rm Agatha se encarregava dos mais
pequenos, a fim de, do bairro infantil, formar mentes e coraes,
deixando os mdios para a irm Declan.
 Seguramente escondida na ltima fila de carteiras, Meggie atreveu-
-se a olhar para a pequenita sentada junto dela. O seu olhar assustado
deu com um sorriso amistoso e dois imensos olhos negros que a contem-
plavam francamente do alto de um rosto escuro e luzidio. Habituada
 alvura e s sardas, pois at Frank, eom os seus olhos e cabelos escuros,
tinha a pele alva, Meggie sentia-se fascinada e acabou por achar a sua
colega de carteira a mais bela criatura que j vira.

39

PASSAROS FERIDOS

- Como te chamas? - per8 ntou a beldade morena, murmurando
as palavras com o canto da boca, enquanto mascava a ponta do lpis
e cuspia os pedacinhos mastigados no buraco vato do tinteiro.

- Meggie Cleary - spond a com outro murmrio.

- Tu ai! - isse uma voz seca e spera, vinda da frente da sala.
 Meggie deu um salto olhando atnita  sua volta. Ouviu-se um
barulho surdo quando vinte crianas, ao mesmo tempo, descansaram
os lpis nas carteiras e um rudo abafado quando empurraram para o lado
preciosas folhas de papel a fim de poderem coloear os cotovelos sub-
-reptiamente sobre a tampa da carteira. Enquanto o corao lhe
parecia saltar do peito, Meggie percebeu que todos olhavam para ela.
A irm Agatha aproximava-se depressa pelo corredor ntre as carteiras;
to agudo era o terror d pequenita, que ela teria fugido para sa ar
a pele, se houvesse para onde. Mas atrs dela erguia-se a parede ue
separava a sua sala da dos mais crescidos, de ambos os lados havia
as earteiras dos alunos e,  sua frente, estava a irm Agatha. Os olhos
quase que lhe ocuparam todo o rostinho agoniado ao encarar a freira
com um medo sufocado, ao passo que as mos se abriam e fechavam
sobre o tampo da carteira.
- Falaste, Meghann Cleary.
- Sim, irm.
- E o que foi que disseste?
- O meu nome, irm.
- O teu nome! - A irm Agatha sorriu com uma expresso
 escarninha e olhou para as outras crianas, como se elas devessem parti-
 lhar tambm do seu desprezo. - E ento, meninos, quanta honra para
 ns! Outro =leary na nossa escola, que no pode sequer esperar para
 apregoar o seu nome! - Voltou-se p M ggi  ev t te a mo
 te dirigir a palavra, minha selvagenz
 por favor.
 Meggie levantou-se da carteira com a ajuda das mos, ao passo ue
 os longos cachos Ihe balanavam diante do rosto e depois voltavam aos
 seus lugares. Juntando as mos, ela torceu-as num desespero, porm
 a irm Agatha no se moveu. S esperava, esperava, esperava... Depois,
 apesat de tudo, Meggie conseguiu apresentar-lhe as mos, mas, quando
 a vara desceu retirou-as, arfando de terror. A irm Agatha fechou os
 dedos em torno do carrapito de abelos que encimava a cabea da peque-
 nita e puxou-a para perto de si, de modo que o rosto dela ficou apen s
 a alguns centmetros de distncia daqueles culos temveis.

- Estende as mos, Meghann Cleary.

40

 As palavras eram ditas em tom corts, frio e implacvel.
 Meggie abriu a boca e uma go ada de vmito mundou a frente
do hbito da irm Agatha. Todas as crianas que estavam na sala
suspenderam, horrorizadas, a respirao, enquanto a freira permanecia
de p, com a matria nauseante a escorrer-lhe pelas dobras negras do
hbito, o rosto escarlate de raiva e de espanto. Em seguida, a vara
desceu, atngindo o eorpo de Megge ao acaso, enquanto esta erguia
os braos para proteger o rosto e se encolhia, ainda agoniada, no canto.
Quando o brao da itm Agatha, cansado, se recusou a erguer nova-
mente a vara, ela apontou para a porta.
- Agora vai para casa, minha repugnante filisteiazinha - ordenou,
girando sobre os calcanhares e rumndo para a sala de aulas da irm
Declan.
 O olhar desvairado de Meggie encontrou Stu; ele fez-lhe um sinal
com a cabea, como a dizer-lhe que fizesse o que lhe ordenavam,
os meigos olhos azul sverdeados cheios de piedade e compreenso.
Enxugando a boca com o leno, ela transps, aos tropees, a soleira
da porta e chegou ao recreio. Como ainda faltavam duas horas para
 em as aulas, a pequenita arrastou-se desinteressadamente pela rua,
sabendo que no poderia ser alcanada pelos irmos e assustada de mais
para procurar um lugar onde pudesse esperar por eles. Teria de voltar
sozinha para casa, confessar tudo sozinha  me.
 Fee quase caiu ao sair, cambaleante, pela porta dos fundos com
a cesta cheia de roupa ainda molhada. Meggie estava sentada no degrau
mais alto da vatanda das traseras, a cabea baiga, as pontas dos cachos
soltas e a frente do vestdo manchada. Pondo no cho o peso esmagador
da cesta, Fee suspirou e afastou dos olhos uma mecha recalcitrante
de cabelo.
- E ento, que aconteceu? - petguntou, em tom lasso.
- Vomitei em cima da irm Agatha.
- Oh, Senhor! - exclamou a me, com as mos nas ancas.
- E apanhei, tambm, chibatadas - murmurou Meggie, com as
 grimas no derramadas a danarem-lhe nos olhos.
- Bonita embrulhada, sim, senhora. - Fee tornou a erguer a cesta,
osrilando at conseguir equilibr-la. - Positivamente, Meggie, no sei
o que fazer de ti. Teremos de esperar e ouvir o que diz o pai.
 E afastou-se pelo quintal, na direco dos estendais, j meio cheios.
 Esfregando as mos no rosto com ar de cansao, Meggie acompa-
ahou com a vista, por um momento, a me, que se afastava; depois
1tvantou-se e enveredou pelo camin o que conduzia  forja.-

41

 Frank acabara de ferrar a gua baia do Sr. Robertson e conduzia-a
 cocheira quando Meggie assomou  porta. Virou-se, viu-a e as lembran-
as do seu prprio sofrimento na escola voltaram-lhe em torrente.
Ela era pequenna, um bebezinho ainda, inocente e meiga, mas a luz
dos seus olhos fora brutalmente apagada e neles escondia-se agora uma
expresso que o fez desejar matar a irm Agatha. Mat-la, mat-la mesmo,
agatrar no queixo duplo e apertar... Desfez-se  pressa das ferramentas,
tirou o avental e caminhou para junto dela.
- Que aconteceu, minha uerida? - perguntou, inclinando-se,
at que o rosto dela ficou no mesmo nvel do dele. O cheiro a vomitado
subia dela como um miasma, mas Frank venceu o impulso de virar-se
para o outro lado.
- Oh, Fruh-Fruh-Frank! - gemeu, enquanto o rosto se lhe
 contraa e deixava correr, afinal, as lgrimas at a contidas. Meggie
 atirou os braos ao pescoo do irmo e abraou-o com paixo, chorando
 ao jeito curiosamente silencioso e doloroso de todas as crianas da fam-
 lia Cleary depois de emergirem da infncia. Era algo horrvel de observar,
 que nem palavras suaves nem beijos logravam cutar.

 Quando ela-tornou a acalmar-se, ele ergueu-a nos braos e levou-a
para uma pilha cheirosa de feno bem perto da gua do Sr. Robettson;
ali se sentaram os dois perdidos para o mundo, deixando que o animal
 tocasse com os beios as bordas da sua cama de palha. A cabea de Meggie
 aninhara-se no peito liso e nu de Frank, e anis do seu cabelo esvoaavam
 enquanto a gua fungava forte sobre o feno, resfolegando com prazet.

- Porque foi que ela nos bateu a todos, Frank? - indagou Meggie.

- Eu disse-lhe que a culpa era minha.
 Frank j se acostumara ao cheiro dela, que, agora, deixara de
 incomod-lo; estendeu a mo e, num gesto distrado, passou-a pelo
 focinho da gua, empurrando-o quando este se mostrava demasiado
 importuno.
- Somos pobres, Meggie, essa  a razo principal. As freiras
 sempre odiaram os alunos pobres. Depois de passares alguns dias na
 velha e bolorenta escola da irm Ag, vers que no so apenas os Clearv
 que ela persegue, mas tambm os Marshall e os Mac Donald. Somos todos
 pobres. Se fssemos ricos e chegssemos  escola numa carruagem,
 como os O'Brien, o caso mudaria de figura. Acontece, porm, que no
 podemos doar rgos  igreja, nem vestes de ouro  sacristia, nem uma
 charrette e um cavalo s freiras. Por isso no temos importncia alguma,
 por isso elas podem fazer-nos o que muito bem entenderem.

42

 <<Lembro-me de um dia em que a irm Ag ficou to furiosa comigo
que no parava de gritar: "Chora, pelo amor de Deus! Faz qualquer
cosa, Francis Cleary! Se me desses a satisfao de te ouvir berrar,
eu no te bateria com tanta fora, nem com tanta frequncia! "

 <<Essa  outra razo por que ela nos odeia; porque nisso somos
melhores do que os Marshall e os Mac Donald. Ela no consegue fazer-
-nos chorar. Imagina que deveramos lamber-lhe as botas. Pois muito
bem, eu disse aos rapazes o que faria ao Cleary que soltasse uma lgrima
por apanhar, e isso vale para ti tambm, Meggie. Por mais que a irm
Ag te bata, nem um gemido, entendeste? Hoje choraste?
- No, Frank - replicou ela, bocejando, enquanto as plpebras
se cerravam e o polegar Ihe passeava s cegas pelo rosto  procura
da boca. Frank deitou-a sobre o monte de feno e volLou ao trabalho,
cantarolando e sorrindo.
 Meggie ainda estava a dormir quando Paddy entrou. Trazia os
braos sujos por haver feito uma boa limpeza na vacaria de Jarman,
e o chapelo de abas largas cado sobre os olhos. Viu, num relance,
Frank modelando um eixo na bigorna, enquanto as fagulhas lhe dana-
vam em torno da cabea, e logo o seu olhar encontrou a filha encolhida
sobre o feno, junto da gua do Sr. Robertson.
- Pensei logo que ela estivesse aqui - disse Paddy, deixando cair
o chicote de montar e conduzindo o velho cavalo para o estbulo,
na extremidade do celeiro.
 Frank fez um breve sinal com a cabea, dirlgindo ao pai o escuro
olhar de suspeita e incerteza que Paddy achava sobremaneira irritante,
e depois voltou para o eixo aquecido ao rubro, enquanto o suor lhe fazia
brilhar o torso nu.
 Desarreando o cavalo, Paddy ievou-o para a baia, encheu o com-
pattimento de gua e, em seguida, misturou farelo e aveia com um
pouco de gua. O animal rosnou afectuosamente quando ele despejou
a forragem na manjedoura, e seguiu-o com os olhos ao v-lo dirigir-se
pata o grande alguidar, colocado perto da forja, e despir a camisa.
Paddy lavou os braos, o rosto e o torso, ensopando as calas e o cabelo.
Enquanto se enxugava num saco velho, olhou com expresso irnica
para o filho.
- A me disse-me que Meggie foi mandada para casa de castigo.
 bes o que aconteceu exactamente?
 Frank largou o eixo assim que o calor da pea principiou a motrer.
- A pobrezinha vomitou para cima da irm Agatha.
 Disfarando o sorriso que ameaava contrair-lhe o rosto, Paddy

43

Eitou os olhos na parede distante enquanto se recompunha. Depois voltou-
se na direco de Meggie.
- Ela ficou, com certeza, muito excitada por ir  escola

- No sei. Sei que vomitou antes de sarem hoje, o que lhes
retardou a partida, e acabaram por chegar atrasados para o toque do sino.
Cada um levou seis palmatoadas, mas Meggie ficou terrivelmente trans-
tornada, pois achava que devia ser a nica punida. Depois do lanche,
a irxn Ag caiu sobre ela outra vez e a nossa Meggie vomitou o po
e a geleia no hbito preto e limpo da irm Ag.

- Que aconteceu ento?
- irm Ag deu-lhe uma sova em regra e mandou-a para casa
de castigo.
- em, eu diria que ela j foi bastante castigada. Tenho muito
 respeito s freiras e sei que no nos cabe duvidar do que elas fazem,
 mas ostaria que sentissem menos entusiasmo pela vara. Sei que elas
 tm gde enfiar muita coisa nas nossas espessas cabeas irlandesas, mas,
 afinal, era o primeiro dia de escola da Meggiezinha.

 Frank olhava assombrado para o pai. At aquele momento, Padd
nunca tivera com o filho mais velho uma conversa de homem para
homem. Deixando, por efeito do choque, o perptuo ressentimento.
 Frank compreendeu que, apesar da sua sobranaria, Paddy queria mais
 a Meggie do que aos filhos homens. Surpreendeu-se quase a gostar
 do pai e, por isso mesmo, sorriu sem desconfiana.

- Ela  muito especial, no ? - perguntou.

 Paddy fez que sim com a cabea, num gesto distrado, al,sorto
 a observ-la. A  ua soprou os beios para dentro e para fora, ruidosa-
 mente Me ie mexeu-se, rolou sobre si mesma e abriu os olhos.

 uando viu o pai em p ao lado de Frank, sentou-se num pulo,
 enquanto o medo lhe tirava o sangue da pele.

- Ento, parece que tiveste hoje um dia em cheio, no foi?-
 Paddy aproximou-se dela e ergueu-a do monte de feno, respirando com
 dificuldade ao sentir, de repente, o cheiro que se exalava de Meggie.
 IV'o entanto, encolheu os ombros e apertou-a com fora de encontro
 ao peito.
- hevei uma tareia, pai - confessou a garota.

- Bem, conhecendo a irm Agatha como conheo, sei que no
 foi a ltima - disse ele, a rir, encarrapitando-a no ombro. -  anelhor
 veres se a me tem um pouco de gua quente no tacho para te dar
 um banho. Cheiras pior do que a vacaria do Jarman.

44

 Frank foi at  porta e contemplou as duas cabeas cor de fogo
que seguiam, bamboleantes, pelo caminho a cima; depois voltou-se
e encontrou os mansos olhos da gua postos nele.
- Pronto, minha cavalona velha. Eu levo-te para casa - prometeu,
encabrestando-a.

 O vomitrio de Meggie acabou por se revelar uma bno. A irm
Agatha ainda a vergastava regularmente, mas sempre a uma distncia
prudente, a fim de poder escapar s conse uncias, o que lhe diminua
a fora do brao e lhe estragava a pontaria.
 A menna trigueira que se sentava ao seu lado era a filha mais nova
de um italiano, dono do caf azul brilhante de Wahine. Chamava-se
Teresa Annunzio, e era suficientemente estpida para escapar  ateno
da irm Agatha, mas no tanto que se transformasse em alvo da freira.
Quando lhe cresceram os dentes, ficou muito bonita, e Meggie adorava-a.
Nos intervalos entre as aulas, no recreio, passeavam as duas com o brao
na cintura uma da outra, sinal evidente de que eram <<amigas ntimas>>
e no podiam ser requestadas por mais ningum. E falavam, falavam,
falavam.
 Certa vez,  hora do lanche, Teresa lvou-a ao caf para lhe apre-
sentar a me, o pai, as irms e os irmos mais velhos. Ficaram todos
encantados com o seu brilho de ouro, tal como Meggie se deliciara com
a trigueirice deles, comparando-a a um anjo quando ela fitava neles
os grandes olhos mosqueados cor de cinza. Meggie herdara da me um
at indefinvel de boa educao que todos sentiam de pronto, e o mesmo
aconteceu com a famlia Annunzio: To ansiosos como Teresa por
cottej-la, deram-lhe grandes e gordas lascas de batatas, fritas em grandes
caldeires, onde caam os pingos de gordura do carneiro que estava
a assar, e um pedao de peixe de sabor delicioso, envolto em massa
de farinha e frito no caldeiro fumegante de gordura lquida juntamente
rnm as lascas de batatas, mas numa cesta de arame separada. P eggie
jamais provara comida to deliciosa e desejou poder lanchar mais vezes
no caf. Contudo, aquilo fora uma verdadeira festa, que exigira licena
especial da me e das religiosas.
 A sua conversa em casa era toda entremeada de <<Teresa diz>>
c acvocs sabem o que Teresa fez?>>, at que Paddy, um belo dia,
gritou, dizendo que estava farto de ouvir falar em Teresa.
w' -No sei se  boa ideia andares sempre metida com esses
 os - murmurou compartilhando da instintiva desconfiana
`i t mmunidade britnica contra todos os povos morenos ou mediter-

45

- Os Italianos so porcos, Meggiezinha, no gostam de se
rneos.
lavar - explicou de modo pouco convincente, encolhendo-se debaixo
do olhar de magoada censura que Meggie lhe dirigiu.

 Terrivelmente ciumento, Frank concordou carm o pai. Por isso
Meggie passou a falar com menos fre unca da sua amiga quando
estava em casa, mas a desaprovao domstica no poderia interferir
nas suas relaes, limitadas, pela distncia, aos dias e s horas da escola;
Bob e os rapazes exultaram ao v-la to interessada por Teresa, pois isso
permitia-lhes correr como loucos pelo recreio como se a irm no
existisse.
 As coisas ininteligveis que a irm Agatha escrevia no quadro negro
comearam a fazer sentido, e Meggie aprendu que um <<mais>> significava
que se contavam todos os nmeros at chegar ao total, ao passo que
um <<menos>> significava que se tiravam os nmeros de baixo dos nme-
ros de cima e se chegava ao fim com menos do que se tinha no comeo.
Criana inteligente, teria sido aluna excelente, se no brilhante, se fosse
eapaz de vencer o medo que lhe inspirava a irm Agatha, mas a partir
 do momento em que os olhos de verruma se viravam para o seu lado
 e a voz velha e seca lhe fazia uma breve e rspida pergunta, ela gague-
 ava tartamudeava e no conseguia pensat. Achava fcil a aritmtica,
 xnas, quando chamada a demonstrar verbalmente a sua habilidade,
 no conseguia lembrar-se de quanto eram dois mais dois. A leitura
 representava para ela o ingresso num mundo to fascinante que nunca
 Ihe parecia cansar-se, mas, quando a irm Agatha a fazia levan r-se
 para ler algum trecho em voz alta, mal lograva pronunciar < ato>>
 e muito menos <<miau>>. Tinha a impresso de estar a tremer devido
 aos comentrios sarcsticos da irm Agatha e ficava vermelha como
 um pimento porque o resto da classe se ria dela. De facto, era sem re
 a sua lousa que a irm Agatha erguia para a achincalhar, eram sem re
 as suas folhas de papel laboriosamente escritas que a freira utilizava
 ara mostrar quanto lhe repugnava um trabalho desmazelado. Algumas
 rianas mais ricas tinham a sorte de possuir borrachas, mas Meggie
 era obrigada a utilizar a ponta do dedo, que molhava na lngua e esfre-
 gava sobre os seus erros nervosos at borrar toda a escrita e fazer
 com o papel uma espcie de miniaturas de salsichas. Esburacar a folha
 era rigorosamente proibido, mas ela estava to desespetada que fara
 qualquer coisa para evitar as censuras da irm Agatha.

 At  vinda de Meggie, Stuart fora o alvo principal da vara e do
 veneno da religiosa, mas a pequenita era um bode expiatrio muito
 melhor, pois a tranquilidade atenta e o quase santo alheamento de Stuart

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faziam dele um osso duro de roer, at para a irm Agatha. Por outro
lado, Meggie tremia e ficava corada como uma beterraba, por mais que
tentasse seguir a linha de comportamento dos Cleary tal como a definira
Frank. Stuart tinha muita pena de Meggie e tentava facilitar-lhe as coisas
desviando de propsito para a prpria cabea a elera da freira, mas esta
descobria logo os estratagemas dele e voltava a enfurecer-se ao ver to
em evidncia na pequenita, tal como s mpre estivera nos rapazes, o sen-
tido de cl. Se algum tivesse perguntado  irm Agatha a verdadeira
razo da sua m vontade contra os Cleary, no teria sabido responder,
mas para uma velha freira como ela, amargurada pelo curso tomado
pela sua vida, uma famlia orgulhosa e sensvel como a dos Cleary no
era fcil de engolir.
 O pior pecado de Meggie consistia em ser canhota. Quando ela
pegou, com o mximo cuidado, na pena da ardsia para se aventurar
 primeira lio de escrita, a irm Agatha caiu sobre ela como Csar
sobre os Gauleses.
- Meghann Cleary, pe essa pena na carteira - trovejou a irm.
 Assim comeou uma esplndida batalha. Meggie era incurvel
e irremediavelmente canhota. Quando a irm Agatha lhe dobrou,  fora,
os dedos da mo direita em torno do lpis e a colocou na ardsia,
Meggie quedou-se ali sentada, com a cabea  roda e sem nenhuma ideia
acerca da maneira de obrigar o membro aflito a fazer o que a freira
queria. Sentia-se mentalmente surda, muda e cega; o apndice intil
que era a sua mo direita estava to ligado aos seus processos mentais
como os dedos dos ps. Traou uma linha completamente fora da borda
da ardsia, porque no conseguia dobr-los, deixando cair a pena coxno
se estivesse paralisada; nada do que a irm Agatha fizesse conseguiria
que a mo direita de Meggie formasse um A. Depois, sub-repticiamente,
a garota transferia a pena para a mo es Querda e, com o brao abran-
 gendo canhestramente trs lados da ardsia, desenhava uma fileira de
 bonitos e ntidos AA.
 No entanto, a irm Agatha venceu a batalha. Numa bela manh,
quando Meggie ocupou o seu lugar na fila, antes de entrar, amarrou-lhe
o brao esquerdo ao corpo com uma corda e s a desatou depois de soar
o sino de sada, s trs da tarde. At  hora do lanche Meggie teve
de comer, andar e brincar com o lado esquerdo imobilizado. Isso levou
trs meses, mas, finalmente, ela aprendeu a escrever direito, de acordo
mm os dogmas da freira, se bem que o desenho das suas letras nunca
fosse grande coisa. Para certificar-se de que a menina jamais voltaria
a us-lo para escrever, o brao esquerdo permaneceu amarrado ao eorpo

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por mais dois meses; feito isso, a irm Agatha reuniu todos os alunos
da escola para rezarem um tero de agradecimento a Deus Todo-Poderoso,
por este ter feito com que Meggie percebesse o erro dos seus hzbitos.
Os filhos de Deus eram todos manidestros; os canhotos eram produto
do Demnio, sobretudo quando tinham o cabelo vermelho.

 Nesse primeiro ano de escola Meggie perdeu a rechonchudez de
beb e ficou muito magrinha, se bem que crescesse pouco. Comeou
a roer as unhas at ao sabugo, e teve de obedecer  ordem da irm A atha,
que a fazia passar por toda a escola, de cartera em carteira, mostrando
as mos, a fim de que todos vissem camo so feias as unhas rodas.
E isto apesar de metade, ou quase, das crianas entre cinco e quinze anos
de idade roerem tanto as unhas como Meggie.

 Fee desencantou a garrafa de alos e pintou as pontas dos dedos
da filha com aquele suco horrvel. Todos os membros da famlia icaram
 encrregados de impedir que ela tivesse a oportunidade de lavar os
 dedos e, quando as outras alunas da escola notaram as manchas pardas
 indicadoras, Meggie sentiu-se mortificada. Se pusesse os dedos na boca,
 o gosto era amargo, indescritvel, asqueroso, como o do banho desinfec-
 tante para carneiros; desesperada, cuspia no leno e com ele esfregava
 os dedos at os deixar esfolados, mas sem a parte pior das manchas.
 Paddy foi buscar o seu chicote, instrumento muito mais delicado que
a vara da irm Agatha, e obrigou a garota a andar aos saltos pela cozinha.
Ele no aceitava a ideia de bater nas mos, no rosto ou no traseiro
 dos filhos s nas pernas, que doam tanto como qualquer outra parte
 do corpo Entretanto, apesar do alos, do ridculo, da irm Agatha
 e do chicote de Paddy, Meggie continuou a roer as unhas.

 A amizade com Teresa Annunzio era a alegria da sua vida. a nica
 coisa que tornava a escola suportvel. Ela passava o perodo das lies
 ansiando pela hora do recreio, para se poder sentar, enlaando com
 o brao a cintura de Teresa e tendo o brao de Tetesa em torno da sua
 cintura, debaixo da figueira grande, enquanto falavam, falavam. Corriam
 histrias sobre a extraordinria famlia estrangeira de Teresa, as suas
 inmeras bonecas e o seu autntico servio de ch decorado com ramos
 de salgueiro, a imitar as porcelanas chinesas.

 Quando Meggie viu o servio de ch, ficou extasiada. Eram cento
 e oito peas, entre chvenas, pires e pratos, um bule, um jarro de leite
 e um jarro de creme em miniatura, e minsculas colheres, facas e garfos,
 do tamanho exacto para serem usados pelas bonecas. Teresa possua um
 sem-nmero de brinquedos; alm de ser muito mais moa do que a irm
 que a precedia, pertencia a uma fam a italiana, o que significava que

48
PASSAftOS FERIDOS

 era amada com paixo e com franqueza, e satisfeita em todas as suas
 vontades at ao limite dos recursos paternos. As duas crianas encaravam-
- se com respeito, medo e inveja, conquanto Teresa nunca invejasse
 a educao calvinstica e estica de Meggie. Ao invs disso, sentia pena
 dela. No poder atirar-se aos braos da me para abra-la e beij-la?
 Pobre Meggie !
 Por seu lado, Meggie no chegava a pr em paralelo a alegre
 e robusta me de Teresa e a sua prpria me, severa e magra, e por isso
 nunca pensava: <<Eu gos ava que a minha me me abraasse e beijasse>>,
 mas, pelo contrrio: <<Eu gostava que a me de Teresa me abraasse
 e beijasse. > Contudo, as imagens de abraos e beijos eram muito menos
 frequentes no seu esprito do que as do servio de ch decorado com
 ramos de salgueiro, to delicado, to fino, to bonito Oh, como ambicio-
 nava gossuir um servio igual para poder servir o ch da tarde de Agnes
 numa chvena azul e branca e num pires azul e branco!
 Durante a bno de sexta-feira na velha igreja com suas lindas
 e grotescas obras de talha maoris e a pintura maori do forro, Meggie,
 de joelhos, rezava para que lhe dessem tambm um servio de ch
 decorado com ramos de salgueiro. Quando o padre Hayes erguia
 o ostensrio, a hstia entremostrava-se atravs do vidro, entre raios
: incrustados de gemas, e abenoava as cabeas inclinadas da congregao.
 Isto , todas menos a de Meggie, que nem sequer via a hstia, ocupada
 como estava a tentar lembrar-se do nmero exacto de pratos existentes
 no servio de ch de Teresa, decorado com ramos de salgueiro. E quando
 os mao:is, na galeria do rgo, irrompiam num cntico glorioso, a cabea
 de Meggie girava num aturdimento azul, muito distante do catolicismo
 ou da Polinsia.

 O ano escolar aproximava-se do fim, Dezembro e o seu aniversrio
comeavam a anunciar o Vero, quando Meggie aprendeu como custa
caro a realizao dos nossos maiores desejos. Estava sentada num tambo-
rete alto, perto do fogo, e Fee penteava-a, como sempre, para ir  escola;
era uma tarefa complicada. O cabelo de Meggie tinha uma tendncia
natural para encaracolar, o que a me considerava uma sorte muito
grande. As meninas de cabelo liso viam-se mais tarde em dificuldades,
quando cresciam, para tentarem reproduzir, com fios finos e lisos,
massas gloriosas de cabelo ondulado.  noite, Meggie dormia com os
eachos, que lhe chegavam quase at aos joelhos, penosamente enrolados
em pedaos de um velho lenol branco rasgado em longas tiras, e todas

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as manhs trepava para o tamborete a fim de que Fee lhe desatasse
os trapos e rematasse os cachos.
 Usando uma escova de cabelo, Fee pegava num longo e desgre-
nhado cacho na mo esquerda e escovava-o destramente em torno do
dedo indicador at transform-lo numa brilhante e grossa salsicha;
em seguida, retirava com cuidado o dedo do centro do roIo e sacudia-o,
convertendo-o num cacho comprido, invejavelmente grosso. Repetida
a manobra umas doze vezes, os cachos da frente eram depois reunidos
no alto da cabea de Meggie com uma fta branca de tafet recm-
-passada a ferro, e ela estava pronta para o dia. Todas as outras meninas
iam  escola com o cabelo entranado, reservando os cachos para ocasies
especiais, mas, nesse ponto, Fee era nflexvel; Meggie usaria sempre
cachos, por mais dificil que fosse arranjar, todas as manhs, os minutos
necessrios para pente-la. Se soubesse das coisas, Fee perceberia que
a sua boa vontade era mal orientada, pois a filha possua, sem sombra
de dvida, o cabelo mais bonito de toda a escola. Sublinhar esse facto
com cachos, todos os dias, s servia para atrair sobre Meggie muita
invej a e averso.
 O processo era doloroso, mas Meggie j estava to habituada que
nem o notava, e no se lembrava de um dia sequer em que ele tivesse
sido omitido. O brao musculoso de Fee passava a escova aos estices,
com vontade, pelos ns e embaraos, at que os olhos de Meggie se
 marejavam e ela precisava agarrar-se com ambas as mos ao tamborete
 para no cair. Na segundafeira da ltima semana de escola, quando
 faltavam apenas dois dias para o seu aniversrio, agarrada ao tamborete,
 Meggie sonhava com o servio de ch decorado com ramos de salgueiro,
 embora soubesse que isso nunca passaria de um sonho. Havia um no
 armazm de Wahine, e ela j sabia o suficiente a respeito de preos
 para conhecer que o seu custo o colocava muito acima das magras posses

 do pai.
 De repente, Fee emitiu um som to estranho que arrancou Meggie
 do seu devaneio e fez com que os homens, ainda sentados  mesa
 a tomar o pequeno-almoo, virassem, curiosos, a cabea.

- Santo Deus! -disse Fee.
 Paddy ps-se de p, com a estupefaco estampada no rosto;
 nunca a ouvira pronunciar o santo nome de Deus em vo. Ela segurava
 um cacho de Meggie na mo, a escova suspensa, os traos contrados
 numa expresso de horror e repugnncia. Paddy e os rapazitos acotove-
 laram-se em torno dela; Meggie tentou ver o que estava a acontecer

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e levou uma pancada de travs, com o lado peludo da escova, que Ihe
encheu os olhos de lgrimas.
- Olha! - murmurou Fee, segurando o cacho sob um raio de luz,
para que Paddy pudesse ver.
 O cabelo era uma massa de ouro que brilhava e rebrilhava ao sol e,
a princpio, Paddy no viu coisa alguma. De repente, percebeu que algo
caminhava sobre as costas da mo de Fee. Pegou noutro cacho e, por
entre os reflexos luminosos, distinguiu uns pequenos bichos, atarefados
nas suas idas e vindas. Viu umas coisinhas brancas presas em blocos
ao longo dos fios separados e reparou que os referidos bichos produziam
com energia novas quantidades de blocos de coisinhas brancas. O cabelo
de Meggie era uma colmeia activssima.
- Ela tem piolhos ! - disse Paddy.
 Bob, Jack, Hughie e Stu deram uma olhadela e, como o pai,
recuaram para uma distncia segura; somente Frank e Fee se quedaram
a olhar para o cabelo de Meggie, atnitos, enquanto a pequenita perma-
necia sentada, curvada, perguntando a si mesma o que teria eito.
Paddy sentou-se pesadamente na sua cadeira indsor, com os olhos
postos no fogo, piscando sem parar.
- Foi aquela maldita italiana! - disse, afinal, voltando-se para
fitar a mulher com expresso feroz. - Malditos bastardos, bando imundo
de porcos do diabo!
- Paddy! - arquejou Fee, escandalizada.
- Desculpa-me os palavres, me, mas, quando penso naquela
desavergonhada italiana a passar os seus piolhos para Meggie, seria
capaz de ir a Wahine agora mesmo e rebentar aquele caf sebento
e imundo! -explodiu batendo selvaticamente com o punho sobre
o joelho.
- Que foi, me? - conseguiu Meggie, finalmente, perguntar.
- Olha para isto, minha relaxada! - retorquiu a me, colocando
a mo diante dos olhos de Meggie. - Tens o cabelo todo cheio destas
coisas, que te pegou aquela italiana com quem andas agora to agarrada.
Que  que te vou fazer?
 M ggie olhou, embasbacada, para a minscula coisinha que vagueava
s cegas pela pele nua de Fee  procura de um local mais hirsuto,
e desatou a chorar.
 Sem que fosse preciso mand-lo, Frank ps o tacho de cobre ao
lume, enquanto Paddy percorria a cozinha de um lado para outro,
vociferando, a raiva a crescer dentro dele todas as vezes que olhava
para Meggie. Por fim, dirigiu-se para a fileira de cabides presos  face

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interna da porta clas traseiras, enfiou o chapu na cabea e trou o lonno
chicote do seu prego.
- Vou a Wahine, Fee, vou dizer quele mal ito italiano o que
pode fazer com as suas batats fritas e os seus peixes sujos! Depois irei
visitar a irm Agatha e dir-lhe-ei o que penso dela por permitir crianas
piolhosas na sua escola!
- Tem cuidado, Paddy! - suplicou Fee. - E se no tiv r sido

a italiana? Mesmo que tenha piolhos,  possvel que ela e Meggie os
tenham pegado de outra pessoa qualquer.
- Parvoce! - disse Paddy, desdenhoso.

 Desceu a eseada das traseiras e dali a poucos minutos Fee e os
filhos ouviram o tropel dos cascos do cavalo na estrada. Ela suspirou,
olhando para Frank com expresso desolada.
- Tomara que ele no acabe na cadeia. Frank, acho melhor trazeres
os teus irmos para dentro de casa. Hoje no haver escola.

 Um por um, Fee examinou o cabelo dos filnos minuciosamente,
depois verificou a cabea de Frank e obrigou-o a fazer o mesmo com
a dela. .No havia indcios de que algum tivesse contrado o mal
da pobre Meggie, mas Fee no queria arriscar-se. Quando a gua comeou
a fervet no imenso tacho de cobre de lavar roupa, Frank tirou do prego
em que estava pendurada a tina de lavar pratos e encheu metade com
gua quente e metade com gua fria. Depois foi ao barraco buscar
uma lata fechada de cinco gales de petrleo, tirou uma barra de sabo
de lixvia da lavandaria e comeou o trabalho com Bob. Cada cabea
foi rapidamente mergulhada na tina, vrias chvenas de petrleo bruto
foram despejadas sobre ela e cobriu-se o cabelo enxovalhado e gorduroso
de espuma de sabo. O petrleo e a lixvia queimavam; os rapazes
 urravam e esfregavam os olhos como doidos, coando o couro cabeludo
 avermelhado e formigante e jurando sonzbriamente vingar-se de todos
 os italianos.
 Fee dirigiu-se aonde estava a caixa de costura e dela tirou a tesoura
 grande. Voltou para junto de Meggie, que no se atrevera a descer
 do tamborete, apesar de j se haver passado mais de uma hora, e ficou
 com a tesoura na mo, olhando para a formosa massa de cabelos.
 Depois principiou a cort-los, at que todos os cachos se empilharam
 em montes brilhantes no cho e a pele branca de Meggie comeou
 a aparecer, em reas itregulares, por toda a cabea. Com a dvida
 nos olhos, voltou-se para Frank.
- Corto tudo? - perguntou, com os lbios apertados.
 Frank estendeu a mo, revoltado.

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- fln, me, no!  claro que no! Creio que um bom banho
de petrleo ser mais do que suficiente! Por favor, no faa isso!
 Assim, Meggie foi levada para a mesa de trabalho e obrigada
a debruar-se sobre a tina, enquanto lhe derramavam chvena aps
chvena de petrleo sobre a cabea e esfregavam sabo corrosivo no que
sobrara do cabelo. Quando se deram, afinal, por satisfeitos, a pequenita
estava quase cega de tanto esfregar os olhos para tirar o mordente
do custico, e fileirinhas de bolhas invadiam-lhe o rosto e o couro
cabeludo. Frank reuniu os caehos cortados numa folha de papel
e atirou-os ao fogo, depois pegou na vassoura e colocou-a num recipiente
de petrleo. Ele e Fee lavaram os cabelos, suspendendo a respirao
quando a lixvia lhes queimava a pele, depois Frank foi buscar um balde
e esfregou o cho da cozinha com desinfectante para carneiros.
 Quando a cozinha ficou to esterilizada como um hospital, foram
ambos vistoriar os quartos, tiraram todos os lenis e cobertores das
camas, e passaram o resto do da a ferver, a torcer e a estender ao sol
a roupa da famlia. Os colches e travesseiros foram colocados sobre
z cezca das traseiras e encharcados de petrleo, e os tapetes da sala
de visitas batidos quase a ponto de se desintegrarem. Convocaram-se
tcdos os garotos para ajudar, e s Meggie foi dispensada do servio
por estar de castigo. Ela arrastou-se para trs do celeiro e chorou.
 cabea pulsava-lhe de dor em virtude da esfregadela, das queimaduras
e das bolhas, e sentia-se to envergonhada que no quis olhar para
Frank quando este foi busc-la, nem se deixou persuadir a voltar para

 Por fim, o irmo precisou de arrast-la  fora, esbracejando e esper-
neando, e ela enfiara-se num canto quar.do Paddy voltou, bastante tarde,
de VPahine. Ele olhou para a cabea quase rapada de Meggie e comeou
a chorar, balanando-se na cadeira Windsor onde se sentara e cobrindo
o rosto com as mos, ao passo que a famlia, no sabendo o que fazer,
mudava a todo momento de posio e desejava estar em qualquer outro
lugat, menos ali. Fee preparou um bule de ch e serviu uma chvena
r Paddy quando este principiou a recompor-se.
- Qae aconteceu em Wahine? - perguntou. - Demoraste-te l
muito tempo.
- Em primeiro lugar, fu  casa do maldito italiano e atirei-o
para o bebedouro dos cavalos. Depois, vendo Mac Leod em p,  porta
da loja, olhando, contei-lhe o que acontecera. Mac Leod reuniu alguns
rapazes no botequim e ns pregmos com os italianos todos no bebe-
douro dos cavalos, as mulhetes tambm, e derrammos sobre eles alguns

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gales de desinfectante ara carneiros. Depois fui  escola e falei com
a irm Agatha, que me jurou a ps juntos nada haver notado.
Mas arrancou a italiana da carteira a fim de examinar-lhe o cabelo e,
naturalmente, encontrou piolhos  farta. Por isso mandou a pequenita
para casa e prorbiu-a de voltar  escola enquanto no tivesse acabado
com os parasitas. Deixei-a a examinar, em companhia da irm Declan
e da irm Catherine, todas as cabeleiras da escola, e acabaram por
achar uma poro de cabeas piolhosas. At as freiras se coavam
como loucas quando supunham que ningum estava a olhar. - Sorriu ao
lembrar-se disso, mas tornou a ver a cabea de Meggie e cerrou os
lbios. Olhou para ela carrancudo.-Quanto a ti, minha menina,
acabaram-se os italianos e todos os outros; excepto os teus irmos.
Se eles no servirem, pacincia. Bob, estou a dizer-te que Meggie no
pode ter relaes com ningum, a no ser contigo e os teus irmos
enquanto estiver na escola, entendeste.

 Bob assentiu com a cabea.
- Entendi, sim, senhor.
 Na manh seguinte, Meggie descobriu, horrorizada, que esperavam
 que ela fosse  escola como de costume.
- No, no, no posso ir! - gemeu, com as mos na cabe a

- Me, me, no posso ir  escola desta maneira, a irm Agatha est l.

- Podes, sm - replicou a me, sem dar ateno aos olhares
 splices de Frank. - Servir-te- de lio.

 Assim foi Meggie para a escola, arrastando os ps e com a cabe a
 envolta num leno castanho. A irm Agatha no lhe deu a menor ateno,
 mas,  hota do recreio, as outras raparigas, agarrando-a, arrancaram-lhe
 o leno da cabea para ver como ficara. O rosto no estava muito desfi-
 gurado, mas o crnio, quase rapado e inflamado, era um espectculo

 uco recomendvel. Assim que viu o que estava a acontecer, Bob apro-
 ou-se e levou a irm para um canto afastado do campo de crquete.

- No Ihes ds importnca, Meggie - aconselhou com ternura,
 amarrando desajeitadamente o leno em volta da cabea dela e dando-lhe
 uma leve almada nos ombros retesados. - Gatas maldosas! Eu gostava
 de ter apanhado alguns daqueles piolhos que havia na tua cabea;
 tenho a certeza de que no morreriam. E quando toda a gente os tivesse
 esquecido, eu poria alguns em certas cabeas.

 Os outros garotos da famla Cleary juntaram-se aos dois e ficaram
 a guardar Meggie at ao toque do sino. omento com a cabe
 Teresa Annunzio apareceu na escola or um m

 rapada. Tentou atacar Meggie, mas os rapazes seguraram-na com facili-

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dade. Enyuanto se afastava, atirou o brao direito para o ar, com
o punho fechado, e bateu com a mo esquerda no bceps do brao
estendido, num gesto fascinante e misterioso, que ningum compreendeu,
mas que todos guardaram avidamente para emprego futuro.
- Odeio-te! - gritou Teresa. - O meu pai ter de sair daqui
por causa do que o teu lhe fez!
 Em seguida virou-se e saiu a correr do ptio, gritando.
 Meggie continuou de cabea erguida e olhos enxutos. Estava
a aprender. No importava o que as outras pessoas pensavam, fossem
quem fossem! As outras raparigas evitavam-na, em parte por medo
de Bob e Jack, em parte porque a notcia chegara aos ouvidos dos pais
e estes Ihes haviam recomendado que se afastassem dela; muita amizade
com os Cleary geralmente acabava em encrenca. Por isso Meggie passou
os ltimos dias da escola uem Coventry", segundo a expresso deles,
o que queria dizer no mais completo ostracismo. At a irm Agatha
respeitava a nova poltica e despejava as suas cleras sobre Stuart
em vez de faz-lo sobre Meggie.
 Como acontecia com todos os aniversrios dos pequenos que caam
num dia de aula, a comemorao do de Megge foi adiada para sbado,
altura em que ela recebeu o to desejado servio de ch decorado com
ramos de salgueiro, arrumado numa bela mesa azul-marinho de boneca,
com duas minsculas cadeiras da mesma cor, todas feitas nas folgas
inexistentes de Frank; e Agnes, sentada numa das duas cadeirinhas,
usava um vestido novo, tamb m azul, feito nas horas vagas inexistentes
de Fee. Meggie olhou, sem entusiasmo, para os desenhos azuis e brancos
que serpenteavam em redor de cada uma das peas, para as rvores
fantsticas com as suas engraadas flores balofas, para os farfalhudos
pagodezinhos, para o par estranhamente slencioso de pssaros e para
es minnseulas figuras que no paravam de passar pela ponte retorcida.
.Tudo aquilo erdera o seu encantamento. Vagamente, porm, compreen-
deu por que motivo a famlia se desfizex do ltimo xelim para dar-lhe
o qne ela, na opinio dos pais e dos irmos, mais desejava na vida.
E assim, submissa, fez ch para Agnes no pequeno bule quadrado
 egecutou todo o ritual como que num enlevo. E continuou, teimosa,
` ` s us-lo anos e anos a fio, sem jamais quebrar ou mesmo lascar uma
 ca pea. A ningum ocorreu, em momento algum, que ela execrava
 . setvio de ch decorado com ramos de salgueiro, a mesa e as cadeitas
 s e o vestido azul de Agnes.

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PASSAftOS FEftIDOS

 I)ois dias antes daquele Natal de 1917, Paddy trouxe para casa
.o seu jornal sem io e uma nova pilha de livros para a biblioteca.
Pela primeira vez, no entanto, o 9ornal teve preferncia em relao aos
livros. Os seus redactores tinham concebido uma ideia nova, baseada
nas grandes revistas norte-americanas que, de longe em longe, conse-
guiam chegar  Nova 7eln a; toda a seco central era uma reportagem
sobre a guerra. Havia fotografias dos soldados do Exrcito australiano-
-neoeelands escalando os rochedos impiedosos de Galipoli, longos arti-
gos que e altavam a brawra dos soldados dos antpodas, reportagens
sobre todos os australianas e neozelandeses que tinham ganho a Victoria
Cross desde a sua instituio, e um magnifico desenho de pgina inteira
de um solddo australiano de cavalaria montado no seu cavalo de bata-
lha, de sabre em punho e com longas plumas sedosas a enfeitar-lhe
um dos lados do chapu desabado.

 Na primeira oportunidade, Frank apoderou-se do jornal e leu
a reportagem com avidez, absor endwll're a prosa patrioteira, enquanto
os olhos lhe brilhavam estranhamente.

- Pai, eu quero ir! - ex< ou, colocando o jornal sobre a mesa
com gesto reverente.

 A cabea de Fee virou-se de repente, enquanto ela denamava
o cozido sobre o fogo e Paddy se retesava na sua cadeira DDindsor,
esquecido do Iivro em que entretanto peg a
- s muito novo, Frank - sse.

- No, no sou! Tenho dezass te anos, pai, sou um homem
 Porque havero os hunos e os turcos de matar os nossos homens como
 porcos enquanto eu fico aqui sentado, na maior segurana? J  tempo
 de um Cleary partipar na guerra.
- ls menor, Frank, no te aceitaro.
- Aceitaro se o pai no puser objeces - recalcitrou Frank,
  pressa, com os olhos escuros fitos no rosto paterno.

- Mas eu ponho objeces. s o nico que ests a trabalhat
 agora e precisamos do dinheiro que trazes para casa, sabes muito
 bem disso.
- Mas no Exrcito tambm me pagam.
 Paddy soltou uma gargalhada.
- O exelim do soldadom? Pois olha, garanto-te que ganhars
 muito mais como ferreiro em ahine do que como soldado na Europa.

- Indo ara l, talvez eu tenha oportunidade de ser algo mais
 p ferreiro. 1 a nica maneira de melhorar a mi ha
 que um simpls
 vida, pai.

PASSAROS FEftIDOS

- Que criancice! Francamente, rapaz, no sabes do que ests
a falar. A guerra  terrvel. Nasd num pas que se encontra h mil
anos em guerra, por isso sei o que digo. No ouviste os tipos da Guerra
dos Beres a conversar? Pois ouve. Quando fores a ahine da pr-
xima vez, presta ateno. E, de qualquer maneira, tenho a impresso
de que os malditos ingleses usam os soldados australianos e neozelan-
-deses como carne para os canhes inimigos, colocando-os em lugares
onde no querem desperdiar os seus preciosos soldados. V como
aquele aldrabo do Churchill mandou os nossos homens conquistar
uma coisa to intil como GaIpoli! Dez mil mortos em cinquenta mil!
Foi uma autntca carnificina.
 nE, afinal, porque participarias tu nas guerras da Me Inglaterra?
Que fez ela por ti alm de explorar as suas colnias at  ltima gota
de sangue? Se fosses para Inglaterra, serias desprezado, por seres
colono. A Nova Zelndia no corre perigo algum, tal eomo a Austrlia.
Talvez fosse um grande benefcio para a Me Inglaterra ser derrotada;
j  tempo de algum lhe fazer o que ela tem feito  Irlanda. Olha,
juro que no derramaria uma nica lgrima se o Kaiser entrasse com
suas tropas no Strand.
- Mas, pai, eu quero alistar-me!
- Podes querer o que quiseres, Frank, mas no te alistars, por
isso  melhor esqueceres-te disso. Ainda no tens tamanho para ser
soldado.
 Frank ruborizou-se, os lbios comprimiram-se-lhe; a estatura
pequena constitura sempre um dos seus pontos mais sensveis. Na
 cola, era o mais baixo dos garotos da classe, e brigava duas vezes
mais do que qualquer outro por causa disso. Ultimamente, uma dvida
tstrivel principiara a invadir-lhe a mente; pois aos dezassete anos media
os mesmos um metro e cinquenta e oito centmetros que aos eatorze;
 lvez tivesse parado de crescer. S ele conhecia os sofrimentos a que
 sbmetia o corpo e o esprito, os exerccios, a esperana intil.
 O trabalho de ferreiro dera-lhe, porm, uma fora totalmente des-
 porcionada, em relao  altura; se Paddy tivesse escolhido propo-
: tadamente uma profisso para algum com o temperamento de Fra .,
 poderia ter arranjado melhor. Aos dezassete anos, ele era uma
 a estrutura de fora pura, que nunca fora derrotado numa briga
 ja fama j se espalhara por toda a pennsula de Taranaki. A sua
 aa, a sua frustrao e o seu complexo de inferioridade iam para
 rnm ele e, aliados a um corpo em soberbas condies fsicas,
 nm crebro excelente, ao rancor e a uma vontade indmita, repre-

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sentavam um advezsrio imbatvel, at para rapazes de porte mais avan-
tajado e maior fora fsica.
 Quanto mais altos e mais rijos fossem, tanto mais Frank queria
v-los beijar o p. Os seus adversrios procuzavam manter-se  dis-
tncia, pois conheciam-lhe a agressividade. Ultimamente, ele afastara-se
dos jovens, em busca de brigas, e " homens do lugar ainda se lem-
bravam do dia em que sovara Jim Collins de tal modo que o trans-
formara numa pasta, se bem que Jim tivesse vinte e dois anos, medisse
um metro e noventa centmetros de altura e fosse capaz de erguer um
cavalo. Com o brao esquerdo quebrado e as costelas partidas, Frank
contnuara a brigar at ver o adversrio eonvertido numa massa inerme
e ensanguentada de carne a seus ps, e fora preciso empregar a fora
para impedi-lo de Ihe pontapear o rosto indefeso. Assim que o brao
 sarou as costelas se livraram das ligaduras, Frank foi  cidade
 e levantou um cavalo, s para mostrar que Jim no era o nico homem
 capaz de faz-lo, e -que a proeza no dependia da altura.

 Por causa de tudo i sto, Paddy conhecia muito bem a reputao
 e Frank e cwmpz ndia a su batalha para conquistar o respeito dos
 outros, mas isso no o impedia de zangar-se quando o caso interferia
no trabalho da forja. Sendo tambm de pequena estatura, Paddy tivera
o seu quinho de brigas para provar a prpria coragem, mas na Irlanda
 ele no era assim to baixo em confronto com os outros e, quando
 chegara  Nova Zelndia, onde os homens so mais altos, j era homem
 feito. Desse modo, a altuza nunca constitura para o pai a obsesso
 que repzesentava paza o filho.

 Agora observava atentamente o rapaz, procurando compreend-lo
 e no o conseguindo; ele sempre fora o mais afastado do seu corao,
 por mais que ele lutasse por no fazer discriminaes entre os filhos.
 Sabia ue isso mortificava a mulher, que ela se preocupava com o mudo
 antaganismo existente entre ambos, mas nem o amor que sentia por
 Fee superava a exasperao que Frank lhe provocava.

 As mos curtas e bem torneadas do rapaz estavam estendidas sobre
 o jornal aberto em atitude defensiva, e nos olhos cravados no rosto de
 Paddy lia-se-lhe uma curiosa mistura de splica e orgulho, mas um
 orgulho demasiado teimoso para suplicar. Como era estranho aquele
 rosto! Nada tnha de Cleary nem de Armstrong, excepto talvez uma
 li eira semelhana cam Fee m redor dos olhos, se os olhos desta fos-
 s escuros e chamejassem, como os de Frank,  menor provocao.
 e uma cosa no carecia o rapaz: de coragem.

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 O assunto terminou de maneira abrupta om a observao de
Paddy arerca da altura de Frank; a famlia comeu cozido de coelho
num silncio incomum, e at Hughie e Jack travaram, cautelosos, uma
tmida conversao, pontilhada de risadas agudas. Meggie recusou-se
a co,mer, olhos fitos no irmo, como se este pudesse desaparecer da
sua vista a qualquer momento. Frank mastigou do que havia no prato
por algum tempo e, assim ue Ihe foi possvel, pediu desculpa e levan-
tou-se da mesa. Um minuto depois todos ouviram os golpes surdos
do machado, vindos do depsito de lenha; Frank atacava os troncos
de madeira que Paddy trouxera, com a inteno de guard-los para
os demorados lumes do Inverno.
 Quando toda a gente a supunha na cama, Meggie esgueirou-se do
quarto, pela janela, e desceu at ao depsito de lenha. Era uma rea
importantssima na existncia quotidiana da casa; eerca de noventa
metros quadrados de cho recoberto por uma grossa camada de lascas
de madeira e cascas de rvores, com grandes e altas pilhas de um lado,
 espera de serem cortadas, e, do outro, paredes que se diriam mosaicos
de lenha muito bem talhada, do tamanho certo para caber na fornalha
dn fogo. No espao livre, trs cepos de rvores ainda enraizados eram
utilizados para rachar a lenha a alturas diferentes.
 Frank no estava em qualquer dos cepos; entretinha-se a cortar
um tronco macio de eucalipto com a inteno de reduzi-lo a um tama-
nho que lhe permitisse coloc-lo no cepo mais baixo e mais largo.
O tronco, de sessenta centmetros de dimetro, jazia sobre a terra, com
as extremidades imobilizadas por grampos de ferro, e Frank, de p em
cima deIe, dividia-o em dois pedaos, golpeando-o entte as pernas aber-
tas. O machado movia-se to depressa que assobiava, e o cabo produzia
um silvo agudo, ao ir e vir entre as palmas escprregadias das suas
mos. E subia-lhe, reluzente, acima da cabea, para descer logo depois
:num opaco borro prateado, talhando um bom pedao de madeira dura
 em forma de cunha, com a mesma facilidade com que cortaria um
 inheiro ou uma rv4re pequena. Lascas de madeira voavam em todas
s s reces, o suor escorria do peito e das costas nuas de Frank, e ele
 amarrara o leno ao nvel das sobrancelhas para que o lquido no
 o cegasse. O trabalho naquelas condies era perigoso, pois bastava-lhe
 alcular maI golpe ou enganar-se na direco para ficar sem um p.
 Entolara nos pulsos os braceletes de couro destinados a absorver o suor
 dos braos, mas as mos delicadas, sem luvas, seguravam com leveza
 o c bo do machado e brandiam-no com habilidade e preciso.

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 Meggie acocorou-se ao lado da camisa e da jaqueta que ele despira
e ficou a observ-lo, presa de um temor reverente. Trs machados de
reserva jaziam ali perto, pois a madeira do eucalipto depressa embotava
o mais afiado dos gumes. Ela pegou num deles pelo cabo e arrastou-o
at coloc-lo sobre os joelhos, desejando poder rachar lenha como Frank.
O instrumento era to pesado que a pequenita mal conseguia levant -lo.
Os machados coloniais tinham uma lmina s, to afiada que at podia
cortar um fio de cabelo, pois os maehados de duas lmnas eram dema-
siado leves para o eucalipto. A parte posterior da cabea, com quase
trs centmetros de grossura, ainda levava lastro, e o cabo, que passava
atravs dela, ficava bem preso por meio de cunhas de madeira. Se hou-
vesse folga entre o cabo e a cabea, esta poderia desprender-se daquele
 m pleno golpe e, voando pelo ar com a violncia e a rapidez de uma
bala de canho, matar algum
 Frank trabalhava quase instintivamente  luz cada vez mais fraca;
 Meggie es uivava-se das lascas com a facilidade da longa prtica e espe-
 rava, paciente, que ele a visse. O tronco estava quase decepado quando
 Frank deu meia volta, ofegando, atirou de novo o machado ara o a to
 e comeou a cortar do outro lado. Fizera um talho profundo e estreito,
 para no desperdiar madeira e apressar o processo;  medida que se
aproximava do centro do tronco, a cabea do machado desaparecia com-
 pletamente no interior do talho, e as grandes cunhas de madeira pas-
 savam cada vez mais prximas do corpo. Sem fazer caso delas, Frank
 cortava ainda mais depressa. O tronco partiu-se ao moio de repente
 e ele saltou de lado ao mesmo tempo, sentindo que a madeira se parta
 antes at da ltima maehadada. E enquanto o tronco se dividia em
 dois pedaos, ele ps os ps no cho, sorrindo, mas no era um so:-
 tiso feliz.
 Frank voltou-se para apanhar outro machado e viu a irm pacien-
 temente sentada, envolta na sua camisola nova, abotoada de alto a baixo.
 Ainda lhe causava uma estranha impresso o cabelo enfeixado numa
 poro de aneizinhos curtos em lugar de estar arranjado como de
 ostume, mas Frank chegou  concluso de que o estilo agarotado lhe
 ficava bem, e desejou que ela permanecesse assim. Aproximando-se da
 irm, agachou-se com o machado entre os joelhos.

- Como foi que saste, mi a marota?
- Subi  janela depois de Stu adormecer e saltei.

- Se no tomares cuidado, acabars por ser uma rapazona.

- No faz mal. Acho melhor brincar com os rapazes do que brin-
 car sozinha.

- Tambm acho. - Frank sentou-se com as costas apoiadas num
tronco e, com uma expresso de cansao, virou a cabea para ela.
-Que aconteceu, Meggie?
- Frank, no te vais embora, pois no? - Ela ps as mos com
as unhas rodas na coxa dele e ergueu os olhos, ansiosa, para o irmo,
com a boca aberta porque o nariz, entupido por causa das lgrimas,
no a deixava respirar bem.
- Pode ser que sim, Meggie - respondeu com brandura.
- Oh, Frank, no pode ser! A me e eu precisamos de ti. Fran-
catnente no sei o que faremos sem ti!
 Ele sorriu apesar do seu sofrimento, ouvind a imitar inconscien-
temente o modo de falar da me.
- As coisas, Meggie, nem sempre acontecem como ns gostara-
mos que acontecessem. J devias saber isso. Ns, os Cleary, fomos
ensinados a trabalhar pelo bem de todos e a nunca pensar em ns
mesmos, mas no concordo com isso; acho que devamos poder pensar
primeiro em ns. Quero ir-me embora porque tenho dezassete nos e j
 altura de dar um jeito  vida. Mas o pai diz que no; que sou neces-
 rio em casa pelo bem da famflia em geral. E porque ainda no fiz
vinte e um anos, tenho de seguir o que o pai diz.
 Meggie assentiu vgorosamente com a cabea, tentando desenredar
qs fios da explicao de Frank.
- Bem, Meggie, pensei muito em tudo isto. E est decidido:
vou-me embora, e pronto. Sei que tu e a me tero saudades de mim,
mas Bob est a crescer depressa, e o pai e os nossos irmos no sen-
tito a minha falta.  s o dinheiro que trago para casa que nteressa

 pai.
- J no gostas de ns, Frank?
 Ele voltou-se para estreit-la nos braos, abraando-a e acariciando-a
 um prazer torturado, feito, na sua maior parte, de mgoa, sofri-
 nto e fome.
 -Oh, Meggie! Eu gosto mais de ti e d me do que de todos
 outros juntos! Meu Deus, por que razo no s um pouco mas
 , para podermos conversar? No, talvez seja melhor assim, seres
 pequenina, talvez seja melhor...
 Ele largou-a de sbito, tentando recobrar o domnio de si mesmo,
 do de um lado para outro a cabea, enquanto a garganta e a boca
 bal havam. Depois olhou para ela.
- Quando fores mais velha, Meggie, compreenders melhor.
 ^ - Por favor, Frank, no te vs embora - repetiu a garota.

60 61

 Ele riu-se e o seu riso era quase um soluo.
- Oh, Meggie! No ouviste nada do que dissemos? Bem, de qual-
quer maneira isso no tem muita importnca. O principal  no dizeres
a ningum que me viste a ui esta noite, entendeste? No quero que
pensem que ests metida nisto.
- Ouvi, sim, Frank, ouvi tudo - disse Meggie. - E prometo no
dizer nada a ningum. Mas como eu gostaria que tu no precisasses de
te ires embora!
 Ela era to pequena que no sabia explicar ao itmo o que no
passava de um impulso desarrazoado do seu corao; quem mais haveria
ali, se Frank se fosse? Ele era o nico que tinha por Meggie uma afeio
ftanca, o nico que a punha no colo e a abraava. Quando ela era
mais pequena, o pai pegava-lhe muitas ezes, mas desde que comeara
a frequentar a escola ele j no a deixava sentar-se nos seus joelhos
nem enlaar-lhe o pescoo com os braos. E dizia: Agora j ests cres-
cidinha, Meggie.>> E a me vivia sempre to ocupada, to cansada, to
absorta nos filhos e na casa! Era Frank quem estava mais perto do
seu corao, era Frank quem brilhava como um astro no seu limitado
firmamento, j que era o nico que parecia gostar de sentar-se para
canversar com ela, e lhe explcava as coisas de um modo que ela com-
preendia. Desde o dia em que Agnes perdera o cabelo, Frank estivera
l e, apesar dos seus dolorosos contratempos, nada, a partir de ento,
lograra penetrar-lhe o corao. Nem a pancada, nem a irm Agatha,
nem os piolhos, porque Frank existia para  consolar e confortar.
 A pequenita, porm, levantou-se e conseguiu scrrir.
- Mas se precisas mesmo de ir, Frank, est bem - rematou.
- Meggie, devias estar na cama, e acho melhor voltares para l
antes da inspeco da me. Vamos, corre, depressa!

 A lembrana varreu tudo o mais da sua cabea; ela olhou para
o cho,  procura da camisola, enfiou-a entre as pernas, segurou-a como
uma cauda ao contrrio e largou a correr, enquanto os ps nus atiravam
para os lados estilhaos e lascas afiadas de madeira.

 De manh, Frank fora-se. Quando Fee apareceu para tirar Meggie
 da cama, a sua expresso era sombria e torva; a garota saltou da cama
 como um gato escaldado e vestiu-se sem pedir a ajuda de nin um,
 apesar de todos os botezinhos.

 Na cozinha, os rapazes haviam-se sentado, macambzios, em torno
 da mesa, e a cadeira de Paddy estava vazia. Vazia tambm se encontrava
 a de Frank. Meggie esgueirou-se at ao seu lugar e ali se dexou ficar,
 com os dentes batendo de medo. Concludo o pequeno-almoo, Fee

calou-os no quintal, com uma expresso sombria, e, atrs do celeiro,
Bob ttansmitiu a notcia a Meggie.
- Frank fugiu - murmurou Bob.
- Talvez tenha ido apenas a Whine - sugeriu Meggie.
- No sejas parva! Ele foi alistar-se no Exrcito. Oh, como eu
gostaria de ter idade suficiente para ir com ele! Que raio de sorte!
- Pois eu gostaria que ele ainda estivesse em casa.
 Bob encolheu os ombros.
- No passas de uma rapariga, e eu no esperava ouvir outra
coisa de ti.
 A observao, normalmente merecedora de resposta, no foi con-
testada; Meggie entrou em casa  procura da me, a fim de saber o que
poderia fazer.
- Onde est o pai? - perguntou a Fee, depois de esta a incumbir
de passar os lenos a ferro.
- Foi a Wahine.
- Ele trar Frank de volta?
 Fee respondeu com aspereza:
. - impossvel tentar guardar um segredo nesta famlia. No, ele
neo apanhar Frank em Wahine, e sabe disso, mas vai telegrafar
 Polcia e ao Exrcito, em Wanganui, e eles tr-lo-o de volta.
- Oh, me, espero que o encontrem! No quero que Frank se
 v e mbora !
` ` Fee atirou o contedo da batedeira para cima de mesa e atacou
 monte amarelo e aquoso ccm duas ps de madeira.
 ' -Nenhum de ns quer que Frank se v embora.  por isso que
 pai foi ver se o trazem de volta. - Os lbios tremeram-lhe por um
 omento e ela bateu a massa com mais fora. - Pobre Frank! - sus-
 u, no para Meggie mas para si mesma. - No sei por que motivo
 filhos ho-de pagar pelos nossos pecados. Meu pobre Frank, to
 da realidade...
 Notando, ento, que Meggie parara de engomar os lenos, cerrou
 lbios e nada disse mais.
 Trs dias depois a Polcia trouxe Frank de volta. Ele lutara como
 leo, contou a Paddy o sargento da escolta que vinha de Wanganu.
- Safa! Que belo lutador o senhor tem a! Quando percebeu
 os rapazes do Exrcito no estavam para brincadeiras, partiu eomo
 taio, desreu a escada de um salto e saiu em corrida desabalada com
 s soldados atrs dele. Se no tivesse tido o azar de chocar com um

62 63

PSSAftOS FERIDOS

polcia de servio, acredito que teria conseguido fugir. Mas lutou como
um doido, foram precisos cinco para pr-lhe as algemas.

 Assim falando, tirou z Frank as pesadas correntes e empurrou-o
om brutalidade pelo porto a dentro; o rapaz acabou por dar, sem
querer, um encontro no pai e recuou, como se tivesse levado uma
ferroada.
 Escondidas ao lado da casa, alguns metros atrs dos adultos, as
crianas observavam e aguardavam. Bob, Jack e Hunhie mantinham-se
tensos,  espera que Frank travasse outra luta; Stuart limitava-se a olhar,
tranquilo, da janela da sua almazinha compassiva e pacffica; Meggie
mantinha as mos nas faces, esticando-as e massajando-as, apavorada
com a ideia de que algum pudesse magoar Frank.

 Ele voltou-se a fim de olhar primeiro para a me, os olhos negros
 penetrando os olhos cor de cinza, numa escura e amarga comunho
 que nunca foi expressa e nunca o seria. Desdenhoso e causticante,
 o olhar azul e feroz de Paddy quebrantou-o, como se fosse o que ele
 j esperava, e as plpebras abaixadas de Frank reconheceram-lhe o direito
 de estar zangado. A partir desse dia, Paddy nunca mais dirigiu ao filho
 palavras que no fossem as da mais estrita civilidade. Entretanto no
 foi ele, foratn as crianas que Frank achou mais difces de encarar,
envergonhado e desconcertado, pssaro brilhante trazido de volta para
casa sem ter explorado e conhecido o cu, as asas cortadas rente e o
 canto afogado no silncio.

 Meggie esperou que Fee tivesse feito a ronda de todas as noites
 para insinuar-se pela janela abert_a e transpor, num salto, a distncia
 que a separava do quntal. Sabia onde Frank estava, no meio do feno,
 no celeiro, a salvo de olhos curiosos e do pai.

- Frank, Frank, onde ests? - perguntou num cochicho audivel
 ao introduzir-se no plcido negrume do celeiro, enquanto explorava,
 com os dedos dos ps, sensivel como um animal, o tetreno desconhecido
  sua frente.
- Aqui, Meggie - chegou-lhe a voz cansada do irmo, to sem
 vida e sem paixo que nem parecia a dele.

 Seguindo o som, ela foi dar com ele estendido sobre o feno,
 e aconchegou-se ao irmo, envolvendo-lhe o peito com os braos at
 onde estes podiam chegar.

- Oh, Frank, sinto-me to feliz por estares de volta - disse.
 Ele gemeu, escorregou pelo feno at ficar mais baixo do que a irm,
 e descansou a cabea no corpo dela. Meggie agarrou-se-lhe ao cabelo
 espesso e liso, cantarolando. Estava to escuro que ele no podia v-la,

64

PSSAftOS FERIDOS

e a substncia invisvel da solidariedade dela desconcertou-o. Frank
desatou a chorar, enredando o corpo em lentas investidas deformantes,
enquanto as suas lgrimas empapavam a camisola da garota. Meggie
no chorou. Alguma cosa na sua almazinha era bastante velha e femi-
nina para sentir a alegria irresistvel e pungente de ser necessria; ficou
sentada, balanando a cabea do irmo para a frente e para trs, at
que a mgoa dele se consumiu no vazio.

65

II

1921-1928 - RALPH

 estrada de Drogheda no lhe trazia lembranas da juventude,
 pensou o padre Ralph de Bricassart, os olhos semicerrados
 para resguatdar-se da luz ofuscante, enqnanto o seu novo
 Duimler pulava nos buracos do catninho que se estendia pela
 rida relva prateada. Aquilo no era, positivamente, a linda, bru-
 e verde Irlanda. E Drogheda Nem campo de batalha, nem alta
de poder. Seria isso rigorosamente exacto? Mais disciplinado nesses
mas agudo como sempre, o seu senso de humor invocou mental-
e uma imagem da cromweliana lary Carson distribuindo a sua
a particular de malevolnda imperialista. To-pouco se tratava de
comparao exagerada, pois a dama detinha, sem dvida, tanto
r e mntrolava tantos indivduos como qualquer dspota de antanho.
A ltima eancela surgiu depois c!e um boscjue de buxos e de um
liptal; o automvel estacou, vibrando. Pondo na cabea um inde-
Po chapu cinzento de abas largas, a fim de precaver-se contra
l, o padte Ralph apeon-se do carro, arrastou-se at ao ferrolho de
pugou-o para trs e abriu a cancela com cansada impacincia. Havia
 e sete cancelas entre o presbitrio de Gillanbone e a residncia
 r , e cada uma delas significava que era preciso parat, deseer
arto, abri-la, enttar no carro, conduzi-lo at ao outro lado, parar,
 , voltar a fech-la, regressar ao carro e continuar at  cancela
inte. Muitas e muitas vezes ansiara por dispensar ao menos metade
iral e dispatat pelo cam;nl,o deixando-as abertas como uma srie
 espantadas atrs de si, mas nem mesmo a aura da sua profisso,
 itava um respeitos temor, impediria os donos das -cancelas
 in-lo por isso: Ele ostaria que os cavalos fossem to rpidos

e eficientes como os automveis, porque o cavaleiro no precisava de
desmontar para abrir e fechar cancelas.

- No h nada que no tenha as suas desvantagens - disse
dando uma leve palmada no painel de instrumentos do novo Daimler
e partindo para o ltimo quilmetro e meio relvoso e sem rvores do
Home Paddock, deixando a cancela aferrolhada atrs de si.

 At para um irlands habituado a castelos e manses, a residncia
australiana era inaponente. Sendo a mais velha e a maior propriedade
do distrito, Drogheda fora dotada pelo seu ltimo e afeioadssimo
proprietrio de uma residncia condigna. Feita de blocos de arenito
amarelo-manteiga, talhados  mo em pedreiras situadas a oitocentos
quilmetros a leste, a casa tinha dois pavimentos e a sua eonstruo
obedecera a um desenho austeramente georgiano, com grandes janelas
de muitas vidraas e uma ampla varanda com pilares de ferro  volta
de todo o pavimento inferior. Adornando os lados de cada janela havia
venezianas pretas de madeira, to ornamentais como teis, pois no calor
do Vero eram fechadas para manter fresco o interior da casa.

 Posto fosse Outano e a esguia trepadeira estivesse verde, a glicnia
plantada no dia em que se concluiu a construo da casa, cinquenta
anos atrs, era uma slida massa de plmas lilases espalhadas pelas
paredes externas e pelo tecto da varanda. Vrios acres de relva meti-
culosamente cortada rodeavam a casa, juncados de jardins formais, ainda
coloridos graas s rosas, aos goivos, s dlias e aos cravos-de-defunto.
Uma plantao de magnficos eucaliptos de plidos troncos brancos
e pequenas folhas amontoadas a vinte e tantos metros acima do solo
protegia a casa do sol impiedoso, com os galhos engrinaldados de
magenta brilhante, onde se entrelaavam as buganvlias. At os indis-
pensveis tanques de gua, espessamente revestidos de robustas trepa-
 deiras nativas, rosas e glicnias, conseguiam parecer mais decorativas
 que funcionais. Merc da sua pa o pela residncia de Drogheda,
 o finado Mchael Carson fora prdigo em matria de tanques de gua;
 segundo os boatos que corriam, Drogheda poderia dar-se ao luxo de
 manter os seus relvados e os seus canteiros floridos mesmo que no
 chovesse durante dez anos.
 Quando algum se aproximava do Home Paddock, a casa e os
 seus eucaliptos eram o que primeiro chamava a ateno, mas logo o visi-
 tante reparava em muitas outras casas trreas de arenito aznarelo atrs
 e dos lados ela, ligadas  estrutura principal por rampas cobertas e dis-
 faradas por trepadeiras. Um amplo caminho de cascalho substitua
 o caminho de terra batida do Home Paddock e conduzia, depois de

 a curva, a uma rea circular de estacionamento ao lado da casa
 ande, continuando para alm dela at ao centro da verdadeira activi-
 de de Drogheda: os currais, o barraco da tosquia e os celeiros. Pes-
_ ente, o padre Ralph preferia as gigantescas aroeiras-moles que
 vam sombra a todos esses edifcios aos eucaliptos da casa principal.
: Is aroeiras moles possuam densas frondes glaucas, estuantes de vida
 nm o zumbido das abelhas, exactamente a espcie preguiosa de folha-
 apropriada a uma fazenda.
 Enquanto o padre Ralph estacionava o automvel e atravessava
 rrlvado, a criada esperava na varanda da frente, com o rosto sardento
 nchado em sorrisos.
- Bom dia, Minnie - disse o padre.
- Oh, padre, como  bom v-lo nesta manh to bonita - disse
 no seu vigoroso sotaque irlands, segurando a porta aberta com
 a das mos e estendendo a outra para receber-lhe o chapu velho
 to pouco clerical.
 No vestbulo escuro, com os ladrilhos de mrmore e a grande
 da de corrimo de bronze, ele esperou que Minnie lhe fizesse um
 com a cabea para entrar na sala.
 Sentada na sua bergre ao p de uma grande janela aberta, que
 va quatro metros e meio entre o soalho e o tecto, Mary Carson
 : r-
 _ a indiferente ao ar frio que invadia a sala. O seu cabelo vermelho
 quase to brilhnte quanto o fora na juventude, e embora a pele
 a e sardenta houvesse ganho mais algumas manchas com a idade,
 as eram poucas para uma mulher de sessenta e cinco anos e antes
 am uma fina rede de minsculos coxins em forma de diamantes,
 rlembrava um acolchoado ornamental. As nicas indicaes da sua
 a intratvel residiam nas duas fissuras profundas que desciam de
 lado do nariz romano para terminar nos cantos da boca, puxan-
 para baixo, e no olhar ptreo dos olhos azul-plidos.
 `. 4 padre Ralph cruzou em silncio o tapete Aubusson e beijou-lhe
 ; o gesto apropriava-se bem a um homem alto e gracioso como
 :esperialmente por usar uma simples sotaina preta que lhe dava,
 ponto, um ar corteso. Com o olhar sem expresso repenti-
 te coquete e brilhante, Mary Carson quase sorriu.
- Toma ch, padre? - perguntou.
 ~=- Depende da senhora. Se quiser ouvir missa... - respondeu
 sentando-se na cadeira defronte, cruzando as pernas e erguendo
 a batina, o suficiente para mostrar que, debaixo dela,
 s e botas de cano longo, at aos joelhos, numa concesso

'70

 localizao da sua parquia. - Eu trouxe-lhe a comunho, mas se
quiser ouvir missa estarei pronto para rez-la em poucos minutos.
No me importa de jejuar por mais algum tempo.
- O senhor  bom de mais comigo, padre - disse Mary com
garridice, sabendo muito bem que ele, como toda a gente, no lhe
prestava homenagem, mas ao seu dinheiro. - Tome ch, por favor-
prosseguiu. - Basta-me a comunho.
 Ele no deixou que o ressentimento lhe transparecesse no rosto;
aquela parquia fora excelente para o seu domnio de si mesmo.
Se alguma vez lhe osse oferecido o ensejo de sair da obscuridade em
que o lanara o seu temperamento, no tornaria a cometer o mesmo
erro. E se jogasse bem as cartas, aquela velha talvez fosse a resposta
s suas preces.
- Devo confessar, padre, que o ano passado foi muito agrad-
vel - disse Mary. - O senhor  um pastor muito mais satisfatrio do
que o velho padre Kelly, que Deus lhe apodrea a alma.
 Ao pronuneiat a ltima ftase, a voz soou-lhe desarmoniosa e vin-
gativa.
 Os olhos dele erguetam-se pata o rosto dela, piscando.
- Minha querida Senhora Carson! Eis um sentimento no muito
catlico.
- Mas  a verdade. Era um velho bbedo, embrutecido pelo
lcool, e tenho absoluta certeza de que Deus lhe apodrecer a alma
como a bebida lhe apodreceu o corpo. - Inclinou-se pata a frente.

- Agora, que j o conheo muito bem, creio que posso fazet-lhe algu-
mas perguntas, no Ihe parec ? Afinal de contas, o senhor tem plena
liberdade para utilizar Drogheda como seu recreio particular, apren-
dendo a ser pastor de ovelhas, aperfeioando a sua equitao e fugindo
s vicissitudes da vida em Gilly. Tudo a convite meu,  claro, mas
ainda assim acho que mereo algumas respostas, no acha tambm?

 Ralph de Bricassart no gostava que o lembrassem de que pre-
cisava de ser grato, mas j estava  espera do dia em que ela pensasse
 ter sobre ele direitos sufientes para comear a fazer exigncias.

-  evidente que merece, Senhora Carson. Nunca lhe agradecerei
 o bastante por me permitir o livre acesso a Drogheda e por todos
 os seus presentes... os meus cavalos, o meu carr .
- Que idade tem? - petguntou ela sem mais prembulos.

- Vinte e oito anos.
- l mais novo do que eu supunha. Mesmo assim, eles no man-
 dam padres como o senhor para stios como Gilly. Que foi que fez

 qu.e o enviassem at um lugar como este, onde Judas perdeu
 otas?
- Insultei o bispo - disse o padre, calmamente, sorrindo.
- No podia ser outra coisa ! Mas no consigo imaginar um sacer-
te com os seus talentos especiais sentindo-se feliz num lugar como

-  a vontade de Deus.
- No diga disparates ! O senhor est aqui em virtude de falhas
maanas... suas e do bispo; s o Papa  infalvel. Est totalmente
ta do seu elemento natural em Gilly, todos sabemos isso, embora
 sintamos gratos por ter algum assim para variar, em lugar dos
dios tonsurados que costumam mandar-nos. Mas o seu elemento
 Ztal est nalgum corredor de palcio eclesistico, e no aqui, entre
 s e carneiros. Ficaria magnfico com a prpura cardinalcia.
; -Receio que no haja possibilidade alguma disso. Imagino que
 bone no seja exactamente o epicentro do mapa de Sua Exceln-
 Q Legado Papal: E olhe que poderia ser pior. Aqui tenho a senhora

Ela aceitou a lisonja espalhafatosa com o esprito que a ditara,
ceando a beleza, a polidez e o esprito subtil do interlocutor, que
verdadeiramente um magnfico cardeal. Em toda a sua vida no
mbrava de ter visto um homem mais belo, nem que usasse a beleza
ela maneira. Ele no podia deixar de ter conscincia da prpria
 cia: a altura e as perfeitas propores do corpo, os traos finos
6tocrticos, o modo como tinham sido reunidos todos os elementos
 , com um zelo pelo aspecto do produto final que Deus no prodi-
~va a todas as suas criaes. Desde os anis pretos e soltos do
b e o azul impressionante dos olhos at s ms e aos ps pequenos
 iosos, era perfeito. Sim, devia ter conscincia da prpria pessoa.
eo entanto, havia nele um alheamento, um modo muito prprio
 -la sentir que a beleza nunca o escravizara e nunca o escravizaria.
Id-la-ia sem escnpulos para conseguir o que desejava, se ela o aju-
G mas no como enamorado; antes como se julgasse abaixo da
 s pessoas que se deixavam influenciar por ela. E Mary Carson
 uita coisa para saber o que, na sua vida passada, o fizra assim.
: ra curiosa a quantidade de padres que tinham a beleza de Adnis
 esmo sexual de Don Juan. Escolheriam eles o celibato como
 contra as consequncias disso?
 Porque tolera Gillanbone? - perguntou ela. - No seria pre-
 renunciat ao sacerdcio a suportar isto aqui? O senhor seria

92

rico e poderoso com os seus talentos, e no me dir que a ideia do
poder pelo m nos no o seduz.
 A sobrancelha esquerda dele ergueu-se.
- A senhora  catlica, minha querida Senhora Carson. Sabe que
cs meus votos so sagrados. Serei padre at morrer. No posso neg-lo.
 Ela riu-se, desdenhosa.
- Ora, deixe-se disso! Acredta realmente que, se renunciasse aos
seus votos, seria perseguido pelos quatro cantos da Terra com raios,
troves, ces e espingardas de caa?
- Est claro que no. Nem a suponho to estpida que pense
que  o medo do castigo que me mantm encerrado no aprisco
sacerdotal.
- Oh! Como  susceptvel, padre de Bricassart! Nesse caso, que 
que o segura? Que  que o obriga a suportar a poeira, o calor
e as moscas de Gilly? Pelo que lhe  dado saber, a sentena pode ser
at d prso perptua.
 Uma sombra anuviou momentaneamente os olhos azuis, mas ele
sorriu, com pena dela.
- A senhora  um grande consolo, no  verdade? - Os seus
lbios separaram-se, o sacerdote ergueu a vista para o forro e suspi-
rou. - Fui educado desde o bero para ser padre, mas  muito mais
do que isso. Como poderei explic-lo a uma mulher? Sou um vaso
Senhora Carson, e, s vezes, estou cheio de Deus. Se fosse um padte
melhor, no haveria perodos de vacuidade. E a plenitude, a unicidade
com Deus, no  uma questo de lugar, ocorrer se eu estiver em
Gillanbone ou no palcio do bispo. Contudo,  difcil defini-la, pois at
para os padres  um grande mistrio. Uma posse divina, que os outros
homens jamais conhecero. Talvez seja por isso. Abandon-lo? Eu no
poderia faz-lo.
- Com que ento  um poder, no ? Nesse caso, porque seria
 dado aos padres? Que  que o faz pensar que o simples besuntar da
 crisma durante uma cerimnia exaustivamente longa  capaz de conferi-lo
 a algum homem?
 O religioso sacudiu a cabea.
- Oua, so anos de vida, antes de chegar  altura da ordenao.
 O cuidadoso desenvolvimento de um estado de esprito que abre o vaso
 para Deus  algo que se adquire, que se adquire todos os dias. Sabe quais
 so os propsitos dos votos? Que nenhuma coisa mundana se interponha
 entre o padre e o seu estado de esprito... nem o amor de uma mulher,
 nem o amor do dinheiro, nem a relutncia em obedecer s ordens de

,s homens. A pobreza no  novidade para mim; no venho de
 ia rica. Aceito a castidade sem que me parea difcil mant-la.
obedincia? No meu caso,  a mais dura das trs. Mas obedeo,
ue se eu me considerar mais importante do que a inha funo
, receptculo de Deus, estarei perdido. Obedeo. E, se for preciso,
ei disposto a aceirar Gillanbone como uma sentena de priso

- Ento, o senhor  um tolo - disse Mary. - Tambm acho que
coisas mais importantes do que amantes, mas o facto de ser um
 pt culo de Deus no  uma delas.  estranho, nunca o supus capaz

 tar em Deus com tamanho ardor. Ilnaginei que talvez fosse
bomemcapaz de duvidar.
-Eu duvido. Qual  o homem que pensa e no duvida?  por
, que, s vezes, estou vazio. -Olhou para alm dela, para alguma
 que ela no podia ver. - Sabe que eu abriria mo de todas as
 , de todos os desejos que existem em mim, pela oportunidade
 um padre perfeito?
- A perfeio em qualquer coisa - disse Mary Carson -  insu-
tgvelmente enfadonha. Prefiro um toque de imperfeio.
 Ele riu-se, encazando-a com uma admirao em que existia uma
I ; de inveja. Era uma mulher notvel.
 viuvez dela durava h trinta e trs anos e o seu nico filho,
 paz, morrera na infncia. Por causa do seu status peculiar na
 e de Gillanbone, no aceitara nenhuma das propostas que
 viam feito os homens mais ambiciosos do seu crculo de amizades;
* viva de Michael Carson, era indiscutivelmente uma rainha, mas,
 csposa de outro homem, teria de transferir para ele o controle
 o que possua. E no era ess-e o tipo de vida que Mary Carson
 va: ser o segundo-violino. Por isso abjurara a carne, preferindo
_ o poder; seria inconcebvel que rranjasse um amante, porque,
 tratando de mexericos, Gillanbone era to receptiva como o fio
 mrrente elctrica. Mostrar-se humana e fraca no fazia parte
 obsesso.
 . gora chegara a uma idade que a deixava oficialmente imune
 sos do corpo. Se o novo e jovem padre cumprisse com assidui-
 suas obrigaes para com ela e ela o recompensasse com pre-
 "< mo utn automvel, no haveria nisso inconveniente algum.
 pilar da Igreja durante toda a vida, sustentara a parquia e o
 espiritual de maneira apropriada, at quando o padre Kelly
 a de soluos as oraes da missa. No era s ela que se

74

senta caridosamente inclinada em relao ao sucessor do padre Kelly;
o padre Ralph de Bricassart tornara-se merecidamente popular entre
todos os membros do seu rebanho, ricos ou pobres. Quando os paro-
quianos mais distantes no podiam ir a Gilly para v-lo, ele ia procur-
-los, e at ganhar o automvel de Mary Carson sempre viajara a cavalo.
A sua pacincia e a sua bondade haviam-lhe gtanjeado a zfeio de
todos e o amor sincero de alguns; Martin King, de Bugela, remobilara
o presbitrio, no que gastou muito dinheiro, e Dominic O'Routke,
de Dibban-Dibban, pagava o ordenado a uma boa governanta.
 Nessas condies, do alto do pedestal da sua idade e da sua posi-
o, Mary Carson queria poder comprazer-se com segurana no padte
Ralph; gostava de medir o seu esprito com um crebto to inteligente
como o dela, gostava de prever-lhe as reaces porque nunca tinha
a certeza de que realmente as previa.
- Voltando ao que disse acerca de Gilly no ser o epicentro
do mapa de Sua Excelncia o Legado Papal - insistiu repoltreando-se
na bergre-, qual seria, na sua opinio, o facto capaz de abalar
tanto esse reverendo cavalheiro que Gilly passasse a ser o centro do
seu mundo?
 O padre sorriu melancolicamente.
-  impossvel dizer. Um golpe qualquer? O sbito salvamento
de um milhar de alnaas uma repentina capadade de curar coxos
e cegos... Acontece, parm, que a era dos milagres j passou.

- Pois olhe, duvido muito! Apenas a tcnica foi alterada e nos
dias de ho e usa-se dinheiro.
i se a or isso ue eu a a recio tanto,
- Quanto umsmo. Talvez p q p
Senhora Carson.
- O meu nome  Mary. Por favor, chame-me Mary.
 o o carrinho de ch ao mesmo tempo
 Mmnie entrou empurrand
que o padre de Bricassart dizia:
- Obrigado, Mary.
 Diante dos pes frescos de farinha de cevada e torradas com
anchovas, Mary Carson suspirou.
- Meu caro padre, quero que reze Qor mim hoje mais do que

nu ca.
- Chame-me Ralph - disse ele, e continuou, malicioso: - Duvido
de que me seja possvel rezar mais por si do que o fao todos os dias,
mas tentarei.
- Voc  um sedutor! Ou essa observao foi uma piada indirecta?
Por via de regra no ligo para o bvio, mas, tratando-se de si,

ca sei com certeza se o bvio, na verdade, no esconde algo mais
imdo. Como uma cenoura defronte de um burro. Que pensa real-
ite de mim, padre de Bricassart? Nunca o saberei, porque nunca
 a falta, de tacto de revelar-mo, no  assim? Fascinando, fasci-
do... Mas precisa de rezar por mim. Estou velha e pequei muito.

- A velhice chega para todos e eu tambm tenho pecado.
 Ela no pde deixar de rir por entre dentes.
- Eu daria muita coisa para saber como foi que pecou! Juro que
 . - Calou-se por um momento e depois mudou de assunto. - Neste
o to estnu sem o chefe dos meus pastores.

- Outra vez ?
- Cinco no ano passado. Est a tornar-se difcil encontrar um
icm decente.
- Correm rumores de que no  exactamente uma patroa gene-
i nem cheia de atenes para com os empregados.
- Que atrevimento! - arquejou Mary, rindo-se. - Quem foi que
;, omprou Um Daimler novinho em folha para que no precisasse
 ajar a cavalo?
- -Ah, mas veja tambm quanto rezo por si!
- Se Michael tivesse tido metade do seu esprito e do seu carcter,
 lvez o tivesse amado - acudiu ela, de repente. A sua expresso
- se, tornou-se rancorosa.- Est talvez a pensar que no tenho
 algum neste mundo e que terei de deixar o meu dinheiro e as
 terras  Santa Madre Igreja, no  isso?
- No tenho a menor ideia - retorquiu o padre, pachorrento, ser-
 de mais ch.
- Na verdade, tenho um irmo com uma grande e florescente
 de filhos.
- Que bom para si - disse o padre, circunspecto.
-Quando casei, eu no possua nada de meu. Sabia que jamais
 bem na Irlanda, onde uma mulher precisa de ter educao e vir
 afidalgada para apanhar um marido rico. Por isso trabalhei
 nma condenada a fim de poupar o dinheiro da passagem para
 onde os homens ricos no fossem to exigentes. Tudo o que
 quando cheguei aqui era um rosto, um corpo e uma cabea
 do que a que se atribui s mulheres, e isso foi o suficiente para
 Michael Carson, que era um tolo endinheirado. Ele foi louco
 at ao dia em que morreu.
 E o seu irmo? -lembrou o tiadre, imaainando que ela pre-

76

- O meu irmo  onze anos mais novo do que eu e deve ter agora,
portanto, cinquenta e quatro. Somos os dois nicos sobreviventes.
Mal o canheo; era um garotinho quando sa de Galway. Agora vive
na Nova Zelndia, ms, se emigrou para fazer fortuna, no foi bem
sucedido.
 <<Ontem  noite, quando o homem da estao me trouxe a notcia
de que Arthur T viot arrumara a trouxa e partira, pensei de repente
em Padraic. Aqui estou eu, envelhecendo  medida que passam os anos,
sem ningum de famlia  minha volta. Ocorreu-me ento que Paddy
 um lavrador experimentado, embora s m recutsos para possuir o seu
bocado de terra. Por ue no lhe escrevo, pensei, e no o convido a vir
para c cam a mulher e os filhos? Quando eu morrer ele herdar
Drogheda e a Michar Limitada, pois  o meu nico parente vvo,
fota alguns primos desconhecidos que ainda vivem na Irlanda.

 Mary sorriu.
- Parece tolice esperar, no parece? J que ele ter de vir mais
tarde, que venha agora, que se acostu me a criar carneiros nas plancies
de solo negro, o que  muito diferente, cam certeza, de criar carneiros
na Nova Zelndia. Z pois, quando eu me for, ele ficar no meu lugar
sem dar por isso.
 Com a cabea baixa, Mary observou o padre Ralph.
- No sei porque no pensou nisso antes - disse este.
- Pensei, sim, mas at h pouco tempo eu supunha que a ltima
coisa que desejava era ter um bando de abutres  minha volta, espe-
rando, ansiosos, que eu exalasse o ltimo suspiro. Ultimamente,
porm, a dia da minha morte tem-me paredo muito mais prximo,
e sinto... no sei, que talvez fosse bom ver-me cercada de pessoas
do meu sangue.
- Que aconteceu, acha ue est doente? - apressou-se ele a per-
guntar, com uma preocupao sincera estmpada nos olhos.
 Mary encolheu os ombros.

- Estou perfeitamente bem. No entanto, h qualquer coisa de
pressago em completar sessenta e cinco anos. De repente, a velhice deixa
dz ser um fenmeno que vai ocorrer; j ocorreu.

- Percebo o que quer dizer, e acho que tem razo. Ser-lhe- muito
 agradvel ouvir vozes jovens pela casa.

- Eles no vivero aqui - disse Mary. - Podero ficar na easa
 do chefe dos pastores, perto do riacho, bem longe de mim. No gosto
 de crianas nem das suas vozes.

78

- No ser essa uma maneira esquisita de tratar o seu nico irmo,
 , ainda que as idades dos dois sejam to diferentes?
- Ele vai herdar... deixe-o merec-lo - respondeu cruelmente.

 Fiona Cleary deu  luz outro rapaz ses dias antes de Megge com-
pletar nove anos, considerando-se muito feliz por nada haver acontecido
no ntervalo alm de um par de abortos. Aos nove anos Meg ie tnha
idade suficente para udar de verdade. Fee acabara de completar
quarenta anos e j estava demasiado velha para ter filhos sem que
muita dor lhe minasse as foras. A criana, baptizada com o nome
de Harold, era um beb delcado; pela prmeira vez, de acordo cam
as mais remotas lembranas, o mdico faza visitas tegulates  casa.
 E como regra geral acontece com os dssabores, os dos Cleary
multplicaram-se, pois o resultado da guerra no fo um perodo de pros-
peridade mas de depresso rural. O trabalho tornava-se cada vez mais
dfcil de consegur.
 Um dia, no momento em que aca avam de tnmar ch, o velho Angus
Mac lZirter entregou-lhes um telegrama, que Paddy abtiu com mos
trmulas; os telegramas nunca trazam oas notcias. Os rapazes agru-
param-se etn torno, com egcepo de Frank, que pegou na sua chvena
de ch e se levantou da mesa. Os olhos de Fee seguram-no, depois
voltaram ao ponto de partda quando Paddy gemeu.
- Que foi? - perguntou.
 Paddy olhava para o pedao de papel como se este trouxesse
a nota de uma morte.
- Atchbald no nos q er.
 Bob deu um,murro selvagem na mesa; tinha ohegado a hora de
acompanhar o pai como aprendiz de tosquiador, e o redil de Archibald
setia o szu primero.
- Porque h-de ele fazer uma coisa dessas connosco, pai? Deva-
mos comear amanh.
- Ele no diz porqu, Bob. Imagino que algum empreiteiro sem
vergonha se ofereceu pata fazer o s toio mais barato.
- Oh, Paddy! - suspirou Fee.
 Hal, o beb, comeou a ohorar no fundo do ero de vime colocado
perto do fogo, mas, antes que Fee esboasse um movimento, Meggie
lev ntau-se; Frank voltara  cozinha e, com a chvena de ch na mo,
observava atentamente o pai.
- Bem, acho que terei de falar com Archibald - disse Paddy
por fim. - Agora j  tarde de mais para procurar outro barraco que

79

substitua o dele, mas entendo que me devem uma explicao melhor
do que esta. S nos restar a esperana de encontrar trabalho de ordenha
at o barraco de Willoughby comear, em Julho.
 Meggie puxou um quadrado de pano btanco da imensa pilha que
secava ao p do fogo e est ndeu-o com cuidado sobre a mesa de tra-
balho, depois tirou a criana, que chorava, do bercinho de vime. O cabelo
dos Cleary brilhava, espaadamente, pelo seu craniozinho enquanto
Meggie lhe trocava a ftalda com a rapidez e a zficincia com que sua
me o teria feito.
- Mamzinha Meggie - disse Frank para se meter com ela.
- No sou tal! - respondeu a garota indignada. - S estou
a ajudar a me.
- Eu sei - volveu Frank com brandura. - s uma boa menina,
Meggie.
 E puxou-lhe a fita branca de tafet atrs da cabea at v-la pender,
torta, para um lado.
 E, mais uma vez, os grandes olhos cor de cinza de Meggie pousaram
no rosto dele com uma expresso adorativa; por cima da cabea incli-
nada do beb, ela poderia ter a sua idade, ou ser mais velha. Frank sentiu
apertar-se-lhe o corao ao pensar que isso acontecia  garota numa idade
em que o nico beb de que ela devia cuidar era de Agnes, ora relegada,
esquecida, no quarto de dormit. Se no fosse por Meggie e por Fee,
j teria partido h muito tempo. Olhou acidamente para o pai, a causa
da nova vida que estava a provocar tamanho caos em casa. Bem feito
para ele, se tinha perdido o barraco.
 I)e certo modo, os outros rapazes e a prpria Meggie nunca lhe
haviam invadido tanto os pensamentos como Hal; mas quando, desta vez,
a linha da cintura de Fee comeou a engrossar, ele j tinha idade sufi-
ciente para estar casado e ser pai. Todos, excepto Meggie, haviam ficado
embaraados por causa disso, mormente a me. Os olhares furtivos
dos filhos faziam-na encolher-se como um coelho; ela no conseguia
enfrentar os olhos de Frank nem apagar a vergonha que existia nos seus.
No se devia permitir que mulher alguma passasse por isso, disse Frank
a si mesmo pela milsima vez, lembrando-se dos gemidos e gritos
aterradores que tinham sado do quarto da me na noite em que Hal
nascera; maior de idade agora, no fora mandado para longe, como os
outros. Bem feito se o pai perdera o barraco. Um homem decente
t-la-ia deixado em paz.
 A cabea da me sob os raios da luz elctrica recm-instalada era
feita de ouro desfiado, e o puro perf concentrado em Paddy, do outro

80

PABSAROS FEftIDOS

lado da mesa comprida, possua uma beleza indizvel. Como pudera
uma criatura to linda e requintada casar com um tosquiador itinerante,
vndo dos charcos de Galway, consumind se e consumindo a sna
porcelana de Spode, o se servio de jantar de damasco e os seus tapetes
persas na sala de vstas que nunca nngum via porque ela no se dava
com as mulheres dos colegas de Paddy? Fee no suportava as suas vozes
altas e vulgates e o assombro delas quando se viam s voltas com mais
de um garfo.
 As vezes, aos domingos, Fee entrava na solitria sala de visitas,
sentava-se  espineta debaixo da janela e tocava, embora houvesse
perdido o ritmo hava muito tempo por falta de prtiea e s pudesse
egecutar agora as peas 2nas simples. Ele sentava-se ao p da janela,
cntre os llases e os lrios, e fechava os olhos para ouvir. Nessas ocasies,
uma vso surgia diante dele e Frank via a me trajando um longo
vestido tufado, feito de rendas cor-de-rosa plidas, sentada  espineta
num menso salo de marfim, cercada por todos os lados de grandes
braos de candelabros. Isso dava-lhe vontade de chorar, mas ele j no
chorava desde a note em que a Polcia o trouxera de volta para casa.
 Meggie tornara a colocar Hal no bero e fora postar-se ao ado
da me. L estava outra que iria pelo mesmo caminho. O msmo perfil
orgulhoso e sensvel; algma coisa de Fiona nas mos e no corpo
de criana. Seria muito parecida com a me quando tambm fosse mulher.
E quem a desposaria? Outro estpido tosquiador irlands, ou algum
labrego boal dalguma fazenda de Wahine? Ela valia mais, mas no
nascera para mais. No havia outra sada, dizia toda a gente, e cada ano
que passava mais parecia confirm-lo.
 Subitamente cnscias do seu olhar fixo, Fee e Meggie voltaram-se
ao mesmo tempo, sorrindo para ele com a ternura especial que as
mulheres reservam para o homem que mais amam. Frank colocou
a chvena sobre a mesa e saiu para dar de comer aos cachorros,
desejando poder chorar ou matar algum, fazer qualquer coisa capaz
de eliminar a dor.

 Trs dias depois de Paddy perder o barraco de Archibald, chegou
a carta de Mary Carson. Ele abrira-a na prpria estao do correio
de ahine, assim que a recebera, e voltara para casa feliz como uma
criana.
- Vamos para a Austrlia! - berrou, agitando as folhas de papel
debaieo dos narizes assombrados da famlia.

81

 Fez-se silncio e todos os olhares se cravaram nele. Os olhos de Fee
estavam assustados, tal como os de Meggie, mas os de todos os outros
brilhavam de alegria. Ss os de Frank chamejavam.
- Mas, Paddy, porque haveria ela de pensar em ti to de repente,
depos de tantos anos? - perguntou Fee aps ter lido a carta. - O di-
nheiro que ela possui no  novo para ela, como to-pouco o  o seu
isolamento. No me lembro de que se tivesse, algum dia, oferecido para
ajudar-nos.
- Parece que est com medo de morrer sozinha - disse Paddy,
querendo tranquilzar-se tanto quanto desejava sossegar a mulher.-
Vste o que ela escreveu: No sou nova e tu e os teus flhos so os
mus herderos. Creio que devemos ver-nos antes da minha morte e j
 tempo de aprenderes a gerir a tua herana. Tencono fazer-te chefe
dos meus pastores, o que ser um excelente treino, e os teus filhos,
se j tiverem idade para trabalhar, tambm podero empregar-se como
pastores. Drogheda passar a ser a empresa de uma famlia, sem a parti-
cipao de estranhos.>>
- Ela no diz que nos manda o dnheiro da vagem? - per-
guntou Fee.
 As costas de Paddy retesaram-se.
- Eu jamais sonharia em incomod-la com uma coisa dessas!

- retorquiu, rusco. - Podemos ir para a Austrlia sem nada mendgar
dela; tenho gardado o sufciente.
- Pois acho que Mary devia pagar-nos a viagem - teimou Fee,
ante a assustada surpresa de todos, visto que ela no expressava com
frequncia as suas opnies. - Porque hs-de desstir da vida aqui e ir
trabalhar para ela s por uma romessa feita numa carta? At agora,
a tua irm nnea levantou um dedo para ajudar-nos, e no confio nela.
A nca coisa que me lembro de te ter ouvido a seu respeito  que era
a mulher mais sovina de que j ouviste alar. E, afinal de contas, Paddy,
nem a conheces bem; h uma grande dferena de idade entre os dois,
e ela embarcou para a Austrlia antes de ires para a escola.

- No vejo como pode isso alterar as coisas agora e, se ela  ava-
renta, melhor, herdaremos mais. No, Fee, iremos para a Austrlia
e pagaremos a nossa viagem.
 Fee no disse mais nada. Era impossvel saber, pela expresso
do seu rosto, se ficara ressentida-ou no por ver a sua opinio to
 sumariamente dispensada.
- Hurra! Vamos para a Austrlia! - gritonz Bob, agarrando
 o ombro do pai. Jack, Hughie e Stu pulavam e danavam, e Frank sorria,

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os olhos postos em algo muito longe da sala. Somente Fee e Meggie
pasmavam e temim, esperando dolorosamente que tudo aquilo desse
em nada, pois as suas vidas no seriam mais fceis na Austrlia, onde as
coisas no mudariam e s as condies seriam estranhas.
- Onde fica Gillanbone? - perguntou Stuart.
 O velho atlas apareceu; embora os Cleary fossem pobres,
havia vrias prateleiras de livros atrs da mesa de antar, na cozinha.
Os rapazes examinaram atentamente as pginas, que amareleciatn,
at encontrar a Nova Gales do Sul. Habituados s pequenas distncias
da Nova Zelndia, no Ihes ocorreu a ideia de consultar a escala de
quilmetros no canto esquerdo inferior da pgina. Presumiram apenas
que a Nova Gales do Sul fosse do mesmo tamanho da ilha do Norte
da Nova Zelndia. E l estava Gillanbone, na direco do canto esquerdo
superior, parecendo distar de Sidnez mais ou menos o mesmo que
Wanganui de Auckland, embora os pontos que indicavam as cidades
fossem muito menos numerosos do que no mapa da ilha do Norte.
- Esse atlas  velho - disse Paddy. - A Austrlia  como
a Amrica, cresce aos saltos e aos arrancos. Tenho a certeza de que
existem muito mals cidades hoje em dia.
 Eles teriam de viajar em terceira classe, mas como a travessia
duraria apenas trs dias, no seria assim muito naau. Pelo menos no
era como a viagem de semanas e semanas entre a Inglaterra e os
-antpodas. As nicas coisas que poderiam dar-se ao luxo de levat eram
roupas pessoais, loua, talheres, roupas de cama e mesa, utenslios de
cozinha e os preciosos livros; a moblia teria de ser vendida para cobrir
o custo da remessa da meia dzia de peas de Fee que estavam na sala
de visitas, a espineta, os tapetes e as cadeiras.
- No quero que deixes c essas coisas - disse Paddy a Fee
com firmeza.
- Tens a certeza de que estamos em condies de lev-las?
- Absoluta. Quanto  outra moblia, Mary diz que est a arranjar
a casa do chefe dos pastores e que l h de tudo o que  preciso.
O que me alegra  no termos de morar com Mary na mesma casa.
- A mim tambm - disse Fee.
 Paddy foi para anganui a fim de reservar uma cabina de terceira
classe com oito beliches no IK ahine; er estranho que o navio e a cidade
mais prxima tivessem o mesmo nome. Embarcariam no fim de Agosto,
de modo que, no princpio desse ms, todos comearam a compreender
 que a grande aventura iria realmente acontecer. Seria preciso dar os
cachorros, vender os cavalos e a charrette, amontoar os mveis na catroa

83

PASSAROS FERIDOS

de Angus Mac Whirter e lev-los para Wanganui, a fim de os leiloar,
e engradar as poucas peas de Fee juntamente com a loua, a roupa
de mesa, os livros e os apetrechos de cozinha.

 Frank encontrou a me de p, ao lado da bela e velha espineta,
passando a mo sobre o almofadado listrado, levemente rseo, e olhando
vagamente para a poeira dourada que Ihe ficara na ponta dos dedos.
- Ela sempre foi sua, me? - perguntou.
- Sempre. O que era realmente meu no puderam tirar-me quando
casei. A espineta, os tapetes persas, o sof e as cadeiras Lus XV,
a escrivaninha Regna. Pouca coisa, mas tudo meu, muito meu.
 Os olhos cinzentos e sfregos cravaram-se, alm do ombro dele,
no quadro a leo pendurado na parede, m pouco obscurecido pelo
tempo, mas que ainda mostrava claramente a mulher de cabelos de ouro
com o plido vestido de rendas cor-de-rosa, guarnecido com cento
e sete folhos.
- Quem era? - perguntou Frank curioso, virando a cabea.-
Eu gostava de saber.
- Uma grande dama.
- Devia ser sua parenta;  parecida consigo.
- Minha parenta? - Os olhos deixaram de contemplar o quadro
e pousaram, irnicos, no rosto do filho. - Pareo, acaso, algum que
tivesse uma parenta como ela?
- Parece.
- Tens teias de aranha na cabea;  melhor varr-las.
- Eu gostaria que me contasse, me.
 Ela suspirou e fechou a espineta, limpando o p da ponta dos dedos.
- No h nada para contar, absolutament nada. Varmos, ajuda-me
a levar essas cosas para o meio da sala, onde o pai as possa acondicionar.

 A viagetn foi um pesadelo. Antes de o ah ne sair do porto de
Wellington, j estavam todos enjoados e assim continuaram durante
todo o trajecto, mil e duzentas milhas atravs de mares invernosos,
aulados por ventos fortes. Paddy levou os garotos para o convs e l
os conservou, a despeito do vento cortante e da chuva mida, s des-
cendo para ir ver a mulher e o beb quando alguma alma bondosa
se oferecia pata vigiar os quatro garotos nauseados e agoniados. Embora
suspirasse por ar fresco, Frank decidira permanecer l em baixo, para
tomar conta da me e da irm. A cabina era minscula, abafada e tre-
sandava a leo, pois ficava abaixo da linha de gua e perto da proa,
onde os movimentos do navio eram mais volentos.

84

PASSAROS FERIDOS

 Algumas horas depois de sarem de Wellington, Frank e Meggie
convenceram-se de que a me ia morrer; o mdico, chamado da pri-
rneira classe por um camareiro preocupadssimo, examinou-a e abanou
a cabea com uma expresso pessimista.
- Ainda bem que a viagem  curta - disse, ordenando  enfer-
meira que arranjasse leite para a criancinha.
 Entte acessos de nsias, Frank e Meggie conseguiram dar o ibero
a Hal, que no o aceitou de boa vontade. Fee desistira de tentar vomitar
e cara numa espcie de coma, da qual os filhos no conseguiram des-
pert-la. O camareiro ajudou Frank a coloc-la no beliche superior,
onde o ar era um pouco menos viciado e, segurando uma toalha  altura
da boca, para cnter a blis aquosa que vomitava ainda, Frank empo-
leirou-se na borda da tarimba, ao lado dela, afastando delicadamente
com a mo o cabelo louro emaranhdo que lhe caa sobre a testa.
Hora aps hora ele manteve-se no seu posto, apesar das prptias nu-
seas; todas as vezes que Paddy entrava encontrava-o ao lado da me,
acariciando-lhe o cabelo, enquanto Meggie, encollvda num beliche infe-
rior, junto de Hal, segurava tambm uma toalha diante da oca.
 Quando faltavam trs horas para chegar a Sidnei, o mar aquietou-se
numa calma vtrea e o nevoeiro aproximou=se furtivamente, vindo da
distante Antrctida, envolvendo o velho arco. Revivendo um pouco,
Meggie imaginou-o bramindo regularmente de dor, terminada a luta
terrvel. O navio moveu-se devagar atravs do pzgajoso lusco-fusco, to
lentamente como um caador, at que tornou a soar o berro profundo
e montono vindo de algum lugar da superstrututa, m rudo perdido
e s, de uma tristeza indescritvel. Depois, ezn torno, o ar encheu-se de
bramidos lamentosos enquanto o barco se esgueirava, pela gua fantas-
magrica e fumegante, para o interior do porto. Meggie nunca se
esquwceria do som das buzinas de nevoeiro, o. seu primeiro contacto
com a Austrlia.
 Paddy trouxe Fee nos braos para fora do 1=Y ahine, seguido de
Frank com o beb, de Meggie com uma caixa e de cada um dos rapazes
tropeando, cansados, sob o pes de um fardo qualquer. Tinham che-
gado a Pyrmont, nome sem sentido para eles, numa manh nevoenta
de Inverno, no fim de Agosto de 1921. Uma enorme fila de txis
esperava fora do ponto de ferro dti cais; Meggie, embasbacada, esbu-
galhava os olhos, pois nunca vira tantos carros ao mesmo tempo. Com
dificuldade, Paddy acomodou todos num crro de aluguer, cujo moto-
rista se prontificou a lev-los ao Palcio do Povo.

85

-  o melhor lugar para vocs, companheiro - disse a Paddy.
-Um hotel para trabalhadores, dirigido pelo Exrcito de Salvao.
 As ruas estavam apinhadas de automveis, que pareciam correr
em todas as direces; havia pouqussimos cavalos. Eles puseram-se
a olhat, embasbacados, pelas 9anelas do txi para os altos edifcios de
tijolos, para as ruas sinuosas, para a rapidez com que multides de
pessoas pareciam fundir-se e dissolver-se em algum estranho ritual
urbano. Wellington amedrontara-os, mas Sidnei fazia-a parecer-se com
uma cidadezinha do interior.
 Enquanto Fee descansava num dos inumerveis quartos da coelheira
a que o Exrcito de Salvao chamava pomposamente Palcio do Povo,
Paddy dirigiu-se  Central Railway Station a fim de saber quando
poderiam apanhar um comboo para Gillanbone. Totalmente refeitos,
os garotos gritaram que queriam ir com ele, pois tinham sabido que
a estao no ficava muito longe, e que o caminho era s de lojas,
entre as quais uma que vendia doces de albarr. Invejando-lhes a moci-
dade, Paddy cedeu, pois no sabia at onde o levariam as suas pernas
depois de trs dias de enjoo de mar. Frank e Meggie ficaram com Fee
e o beb, desejando ir tambm, mas mais preocupados com o estado
de sade da me. Na realidade, ela parecia recobrar foras rapidamente
logo depois que sara do navio, pois j tomara uma tigela de sopa
e mordiscara uma torrada que lhe trouxera um anjo de bon.
- Se no partirmos hoje  noite, Fee, o prximo comboio s sair
daqui a vma semana - disse Paddy ao voltar. - Julgas-te capaz de
viajar esta noite?
 Fee sentou-se, tiritando.
- Farei o possvel.
- Acho que devamos esperar - acudiu Frank, corajoso. - No
creio ue a me esteja suficientemente forte para viajar.
- O que no parece compreenderes, Frank,  que, se perdermos
o comboio de hoje  noite, teremos de esperar uma semana inteira
e acontece que no tenho dinheiro para ficar uma semana em Sidnei.
A Austrlia  um grande pas, e o lugar para onde vamos no tem com-
boio todos os dias. Poderamos ir a Dubbo num dos trs que partem
amanh, mas, nesse caso, seria preciso agua dar uma ligao local,
e disseram-me que, dessa maneira, a viagem ser muito mais comprida
do que se fizermos um esforo para embarcar no expresso desta noite.

- Darei um jeito, Paddy - repetiu Fee. - Tenho Frank e Meg-
 gie; tudo correr em.
 E olhava para Frank, suplicando-lhe que se calasse.

- Nesse caso, vou tele rafar para Mary, dizendo-lhe que nos
espere amanh  noite.
 A Central Station era maior do que qualquer outro edifcio em
que os Cleary j haviam entrado. Vasto cilindro de vidro, parecia ecoar
e absorver simultaneamente a algazarra de milhares de pessoas, que
esperavam ao lado de malas escalavradas e amarradas com cordas
e tinham os olhos fixados num imenso quadro indicador, alterado
 mo por homens munidos de grandes varas. Quando d ram pela coisa,
na escurido da noite que se adensava, eles faziam patte da multido,
e no tiravam os olhos dos portes de ao da plataforma nmero cinco,
que, embora fechados, ostentavam uma grande tabuleta pintada  mo:
 Comboio para Gillanbone.>> Na plataforma nmero um e na plataforma
nmero dois uma tremenda actividade anunciava a partida iminente
dos expressos nocturnos de Brisbane e Melburne e os passageiros agl
meravam-se junto das cancelas. Depressa chegou a vez deles, quando
se escancararam os portes da plataforma nmero cinco e a mole come-
ou a mover-se, pressurosa.
 Paddy arranjou um compartimento vazio de segunda classe, ps
os garotos mais velhos perto das janelas e Fee, Meggie e o beb junto
das portas corredias que abriam para o longo corredor atravs do
qua1 se fazia a ligao entre os compartimentos. Rostos esprritavam,
esperanosos,  procura de um lugar vazio, xnas logo desapareciam hor-
rorizados  vista de tanta criana pequena. As vezes era vantajoso ser
uma grande famlia.
 A noite estava to fria que justificava o uso das grandes mantas
de viagem de tecido axadrezado que todas as znalas traziam presas
do lado de fora; conquanto o comboio no fosse aquecido, caixas de
ao cheias de cinzas quentes, dispostas ao longo do cho, irradiavam
calor. De qualquer maneira, alis, ningum esperaria aquecimento, visto
que tal no existia na Austrlia ou na Nova Zelndia.
- Fica muito longe, pai? - perguntou Meggie quando o comboio
partiu, estrepitando e balanando suavemente sobrr os carris.
- Fica muito mais do que parecia no nosso atlas, Meggie. Nove-
omtos e setenta e seis quilmetros. Estaremos l amanh  noite.
 Os garotos olhavam boqulabertos para o pai, mas logo se esque-
 disso diante das luzes fericas do pas encantado que ficava l
iEota; todos se apinharam s janelas e o ser aram a passagem dos pri-
meiros quilmetros sem que o nmero das casas dlminusse. A veloci-
 e aumentou, as luzes foram rareando e por fim apagaram-se,
 aibstituidas pelo revolutear constante das fagulhas, que ondeavam

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PSSAftOS FEftIDOS

levadas pelo vento ululante. Quando Paddy tirou os rapazes do com-
partimento a fim de que Fee desse de mamar a Hal, Meggie acompa-
nhou-os com olhos compridos. Segundo tudo indica a, ela no seria
mais ineluda entre os garotos, e isso acontecia desde que o beb Ihe
transtornara a vida, acorrentando-a  casa com tanta firmeza eomo sua
me o estava. No que lhe importsse muito, disse lealmente para
consigo. Ele era engraado, o principal encanto da sua vida, e era agra-
dvel ser tratada como ma pessoa crescida. No fazia ideia da forma
como a me arranjava os bebs, mas o resultado era lindo. Meggie deu
Hal a Fee; o comboio parou logo a seguir, rangendo e guinehando,
e pareceu ficar ofegante, at recuperar o flego. A pequenita estava
cheia de vontade de abrir a janela e de olhar para fora, mas o compar-
timento j esfriara muito, apesar das cinzas quentes do cho.
 Paddy entrou, vindo do corredor, com uma chvena fumegante
de ch para Fee, que tornou a colocar Hal no assento, saciado
e sonolento.
- Onde estamos?
- Num lugar chamado Valley Heights. Vamos atrelar outra
locomotiva para subir at Lithgow. Foi o que disse a rapariga da loja
dos refrescos.
- Quanto tempo estaremos parados aqui?
- Quinze minutos. Frank est a arranjar sanduches para vocs
e eu darei de comer aos rapazes. Depois dagut s pararemos para comer
qualquer coisa em Blayney, mas j de madrugada.
 Mengie partilhou da chvena de ch quente e aucarado, sentin-
do-se de repente insuportavelmente excitada, e engoliu com voracidade
a sanduche que Frank lhe trouxera. O irmo acomodou-a depois no
longo banco debaixo de Hal, prendeu com firmeza uma das mantas
em torno dela, e a seguir fez o mesmo eom Fee, que esticara o corpo
no hanco fronteiro. Stuart e Hughie foram postos a dormir no cho
entre os dois bancos, mas Paddy disse a Fee que levaria Bob, Frank
e Jack vrios compartimentos mais adiante para eonversar com aleuns
tosquiadores, e ali passaria a noite. O comboio era muito mais agradvel
que o navio, estalejando pelo caminho com o rudo caracterstico
e rtmico das duas locomotivas, enquanto o vento salmodiava nos fios
do telgrafo e as rodas de ao, de vez em quando, tinham acessos furio-
sos ao patinar sobre os trilhos nos deelives, buscando frenetieamente
a traco; Meggie adormeceu.
 De manh, os Cleary contemplaram, entre atemorizados e cons-
ternados, uma paisagem to estranha que nunca tinham imaginado

pudesse existir no mesmo planeta onde se situava a Nova Zelndia.
As colinas ondulantes l estavam, sem dvida, mas nada mais lhes recor-
dava a terra que haviam deixado. Tudo pardo e cinzento, at as tvores!
O trigo do Inverno j fora convertido em prata acastanhada pelo Sol
ofuscante, e eram quilmetros de trigo, que se arrepiavam e inelinavam
com o vento, interrompidos apenas por pequenos bosques de rvores
altas e esguias, de folhas azuis, e moitas de cansados arbustos cinzentos.
Os olhos esticos de Fee cont nplaram a cena sem mudar de expres-
so, mas os da pobre Meggie eneheram-se de lgrimas. Era horrvel,
aberto e vasto, sem um trao de verde.
 A noite enregelante transformou-se em dia escaldante  proporo
que o Sol subia para o znite e o comboio estrondeava pelos campos
fora, parando de vez em quando numa cidade cheia de bicicletas e de
veculos puxados por cavalos, e onde os automveis pareciam raros.
Paddy correu os batentes das duas janelas, a despeito da fuligem que
entrava remoinhando e se instalava sobre tudo; o calor era tanto que
eles anfavam, e as pesadas roupas neozelandesas de Inverno, adetindo-
-lhes ao corpo, comichavam. No parecia possvel que algum lugat, a no
ser o Inferno, fosse to quente no Inverno.
 Gillanbone chegou com o nlorrer do Sol, estranha colecozinha
de edifcios desconjuntados de madeira e ferro ondulado, dos dois lados
de ma rua larga, poeirenta, cansada e sem rvores. O Sol, que tudo
derretia, passara uma pasta de ouro sobre as coisas e dava  cidade
uma transitria dignidade dourada, que se dissipou enquanto eles per-
maneciam na plataforma a observar, tornando-a, mais uma vez, numa
tipica povoao fronteiria do fim do mundo, derradeiro posto avanado
numa regio em que as chuvas diminuam drasticamente; no muito
longe dali, na direco do oeste, principiavam trs mil e seiscentos qui-
lmettos de terra do nunca mais, zonas desrticas onde no chovia.
 Um reluzente carro preto estava parado no largo da estao
e, caminhando despreocupado, a passos largos, pelo cho forrado de
vtios centmetros de poeira, acercava-se um padre. A longa sotaina dava-
-lhe o aspecto de uma figura do passado, como se ele no se movesse
sobre os ps, como os outros homens, mas se deixasse levar, como
um sonho; a poeira erguia-se e encapelava-se em torno dele, vermelha
 s ltimas claridades do pr do Sol.
 _ - Ol, sou o padre de Bricassart - disse, estendendo a mo
a Paddy. - Voc deve ser o irmo de Mary;  a imagem viva dela.

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 Voltou-se para Fee e ergueu-lhe a mo flcida at aos lbios,
sorrindo com genuno espanto; ningum identificava uma dama com
maior rapidez do que o padre Ralph.

- A senhora  bonita! - disse, como se fosse a observao mais
natural do mundo na boca de um padre e, em seguida, os seus olhos
passatam para os garotos, reunidos num grupo. Demoraram-se por um
instante com intrigada perplexidade ezn Frank, que ficara encarregado
do beb, e examinaram, um por um, os rapazes  medida que diminuiam
de tamanho. Atrs dos irmos, sozinha, Megige olhava >ata ele de boca
abetta, como se contemplasse Deus. Sem parecer dar-se conta de que
a fina batina de sarja chafurdava na poeira, passou pelos garotos, aga-
chou-se e segurou Meggie entre as mos fitmes, delicadas e bondosas.

- Muito bem! E quem s tu? - perguntou-lhe, sorrindo.

- Meggie - respondeu a garota.
- O nome  Meghann - acudiu Frank franzindo o cenho e detes-
 tando aquele homem bonito e a sua altura extraordinria.

-  o meu nome favorito. - O padre endireitou o corpo, mas
 continuou a segurar a me de Meggie na sua. - Ser melhor ficarem
 esta noite na casa paroquial - continuou, conduzindo Meggie para
 o carro. - Eu lev-los-ei de automvel a Drogheda amanh cedo ;
  muito longe para quem acaba de vir de Sidnei de comboio.

 Excepto o Hotel Imperial, a igreja catlica, o convento e a casa
paroquial eram os nicos edifcios de tijolos que havia em Gillanbone,
e at a grande escola pblica tinha de contentar-se com uma estrutura
de madeira. Agora que escurecera, o ar tornara-se incrivelmente frio,
 mas na sala de estar da casa paroquial ardia um imenso fogo de troncos,
 e o cheiro a comida chegava-lhes, tranquilizante, de algum lugar.
 A governanta, uma velha escocesa murcha, dotada de surpreendente
 energia, azafamava-se pela casa, mostrando-lhe os seus quartos e falando
 com o sotaque carregado dos Highlands ocidentais.

 Habituados  cerimoniosa reserva dos padres de Wahine, os Cleary
 acharam difcil enfrentar a fcil e jovial bonomia do padre Ralph.
 Somente Paddy se descontraiu, ainda lembrado do estilo amistoso dos
 sacerdotes da sua terra natal, a intimidade com que tratavam os pobres.
 Os outros jantaram em cuidadoso silncio e fugiram para os quattos
 assim que puderam, seguidos com relutncia por Paddy, para o qual
 a religio era cordialidade e consolao; para o resto da sua famlia,
 porm, ela eta algo enraigado no medo, uma obrigao do gnero uobe-
 dece ou vais para o inferno>>.

 Quando se foram, o padre Ralph refastelou-se na poltrona favo-
rita, olhos postos no lume, fumando um cigarro e sorrindo. Em esprito,
passou os Cleary em revista, como os vira pela primeira vez,na gare
da estao. O homem to patecido com Mary, mas curvado pelo tra-
balho duro e, manifestamente, sem a disposio maldosa da irm;
a esposa cansada e bela, que parecia ter acabado de descer de um landau
puxado por cavalos brancos; o trigueiro e intratvel Frank, de olhos
negros, muito negros; os filhos, quase todos parecidos com o pai, excepto
o mais moo, Stuart, parecidsslmo com a me, e que viria a ser um
belo homem quando crescesse; era impossvel dizer no que se transfor-
mariam o beb e Meggie. A mais suave, a mais adorvel rapariguinha que
ele j vira, com um cabelo de uma cor que dzsafiava qualquer descrio,
nem vermelho nem cor de ouro, mas uma perfeita fuso de ambos,
e uns olhos de um cinzento-prateado de t radiosa pureza que se
diriam jias funddas. Encolhendo os ombros, arremessou o cigarro
para o fogo e ps-se de p. Estava a ficar velho e sonhador; jias fun-
didas, pois sim! Era at mais provvel que os olhos dele se estivessem
a estragar, queimados pela areia.
 Pla manh, levou de automvel a Drogheda os hsped s da vs-
pera, e to habituado estava j  paisagem que os comentrios deles
o divertiram. A ltima colina ficara a trezentos e vinte quilmetros
a leste; aquela era a terra das plancies de solo negro, explicou. S pas-
tagens imensas, planas como tbuas, aqui e ali salpicadas de grupos
de rvores. O dia estava to quente como o anterior, mas o Daimler
eta muitssimo mais confortvel para viajar do que o comboio que os
trougera. E eles tinham sado cedo, em jejum, com os paramentos -do
padre Ralph e o Santissimo Sacramento cuidadosamente acondicionados
numa caixa preta.
- Os carneiros so sujos ! - observou Meggie com expresso des-
consolada, olhando para as muitas centenas de animais vermelhos, mas
de um vermelho a atirar para a ferrugem, com os focinhos indagativos
voltados para o capim.
- Ah, vejo que deveria ter escolhido a Nova Zelndia - disse
 o padre. - Deve ser como a Irlanda, cheia de bonitos carneiros cor
de creme.
- Sim,  como a Irlanda em muitos sentidos; tem o mesmo belo
 apim vetde. Mas  mais selvagem, muito menos domesticada - acudiu
sPaddy, que gostava cada vez mais do padre Ralph.
 Nesse exacto momento um bando de emas ergueu-se, cambaleante,
 :c digparou a correr, ligeiro como o vento, com as petnas desajeitadas,

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os pescoos compridos esticados para a frente. As crianas sustiveram
a respirao a princpio e depois desataram a rir, encantadas por ver
pssaros gigantescos como aqueles a correr em vez de voar.

- Que prazer  no precisar descer do carro para abrit essas abor-
recidas cancelas - disse o padre Ralph quando a liima delas se fechou
e Bob, encatregado de abri-las e fech-las, subiu de novo para o carro.

 Depois dos choques que a Austrlia lhes ministrara com assom-
brosa rapidez, a casa grande de Drogheda tinha para eles qualquer coisa
do prprio lar, com a sua graciosa fachada georgiana, as suas glicnias
trepadoras, que principiavam a lanar rebentos, e os seus milhares de
roseiras.
-  aqui que vamos morar? chou Meggie.

- No exactamente - apressou-se a dizer o padre. - A casa onde
vocs vo morar fca a um quilmetro e meio daqui, l em baixo,
 perto do rio.
 Mary Carson esperava-os na vasta sala de estar e no se levantou
 para cumprimentar o irmo. Ao invs disso, forou-o a chegar at onde
 ela se achava, sentada na sua bergre.

- Muito bem, Paddy - disse, em tom prazenteiro, olhando fixa-
 mente, atrs dele, para o padre Ralph, que trazia Meggie nos braos,
 e tinha os bracitos dela em volta do pescoo. Mary Carson levantou-se
pesadamente, sem cumprimentar Fee nem as erianas.
- Vamos assistir  missa imediatamente - disse. - Estou certa
 de que o padre de Bricassart tem pressa de terminar as suas obrigaes.

- De maneira alguma, minha querida Mary. - Ele riu-se, enquanto
 os olhos azuis cintilavam.-Rezarei a missa, comeremos todos um
 bom pequeno-almoo quente  sua mesa, e depois, como prometi, mos-
 trarei a Meggie o stio onde ela vai morar.
- Meggie? - repetiu Mary Carson.
- Sim, esta  Meggie. O que, pelos vistos, nos faz iniciar as apre-
 sentaes pelo fim, no  verdade? Deixe-me comear pelo prinpio,
 Mary. Esta  Fiona.

 Mary Carson fez um breve aceno com a cabea e prestou pouca
 ateno aos nomes dos garotos recitados pelo padre Ralph; estava dema-
 siado ocupada obs rvando-o a ele e a Meggie.

4

 casa do chefe dos pastores erguia-se sobre estacas uns nove
 metros acima da estreita ravina orlada de altos e desgarrados
 eucaliptos e de uma infinidade de salgueiros. Depois do esplen-
 dor da casa grande de Drogheda parecia desguarnecida e pe-
quena, mas na sua diviso interna no era muito diferente da que
havia m deixado na Nova Zelndia. Slida moblia vitoriana abarrotava
os aposentos, recoberta de uma poeira vermelha muito fina.
- Vocs aqui tm sorte, dispem de casa de banho - disse o padre
Relph ao conduzi-los pelos degraus de tbuas  varanda da frente; dir-
-se-ia uma escalada, pois as estacas sobre as quais assentava a casa
tinham quase cinco metros de altura. - Caso o crrego transborde
- explicou o padre Ralph -, ficaro muito por cima dele e j ouvi
 zer que  capaz de subir dezasseis metros numa noite.
 Dispunham, com efeito, de casa de banho; uma velha banheira de
' (r)lha-de-flandres e um velho aqueeedor de gua tinham sido colocados
 a recmara adaptada na extremidade da varanda das traseiras. Mas,
_ mo as mulheres descobriram com desagrado, a retrete nada mais era
 um huraco ftido feito na terra, a uns duzentos metros de distncia
 casa. Em confronto com a Nova Zelndia, primitivo.
- Quem quer que tenha morado aqui no era muito asseado-
 se Fee, passando o dedo pelo p acumulado no aparador.
 O padte Ralph riu-se.
- A senhora travar uma batalha j perdida se tentar livrar-se
- acudiu. - Isto  o interior, e h tts coisas que jamais con-
  derrotar: o calor, a poeira e as moseas. Faa o que fizer, estaro
 r ao seu lado.
 Fee olhou para o padre.

92 93

- O senhor  muito bom para ns, padre.
- E porque no o seria? Trata-se de ajudat os nicos parentes
da minha querida amiga Mary Carson.
 Ela encolheu os ombros, no se deixando impressionar.

- No estou habituada a manter relaes amistosas com padres.
Na Nova Zelndia so muito fechados e do pouca ateno s pessoas.

- A senhora no  catlica, pois no?
- No, Paddy  que  catlico. As crianas, naturalmente, foram
todas educadas no catolicismo, se  isso que o preocupa.

- A mim, no. Nem pensei no assunto. Mas a senhora, por acaso,
no se sente mortificada?
- Na realidade, ouco me importa.
- No se converteu?
- No sou hipcrita, padre de Bricassart. Perdi a f na minha
prpria igreja e no sinto vontade alguma de abraar outro credo igual-
mente sem sentido.
- Entendo. - Ele observou Meggie, que, na varanda da frente,
acompanhava com a vista o caminho que conduzia  casa grande de
Drogheda. - A sua filha  to linda! Gosto muito do louro veneziano,
sabe? O cabelo dela faria Ticiano sair a correr em busca de pinc is
e tintas. At agora nunca vi ningum com essa cor de cabelo.  a sua
nica filha?
- . Os rapazes so a regra na fam ia de Paddy e na minha;
as raparigas so raras.
- Pabrezinha - disse o padre tristemente.

 Depois d a bagagem chegar de Sidnei, a casa assumiu um aspecto
mais familiar, com os lvros, a loua e os enfeites. Os mveis de Fee
enchetam a sala de visitas e as cosas comearam a assentar. Paddy e os
rapazes mais velhos do que Stu passavam fora a maior patte do tempo,
em companhia dos dois empregados da fazenda que Mary Carson
conservara para lhes ensinarem as diferenas entre os carneiros do
Noroeste da Nova Gales do Sul e os da Nova Zelndia. Fee, Meggie e Stu
descobriram tambm as diferenas ue havia entre dirigir uma casa
na Nova Zelndia e morar na residncia do chefe dos pastores em
Drogheda; de acordo com um tcito entendimento, os Cleaty nunca
perturbariam Mary Carson pessoalmente, mas a governanta e as empre-
gadas dela ansiavam tanto por ajudat as mulheres como os empregados
da fazenda por auxiliar os homens.

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 Drogheda, como todos ficaram a saber, era um nzundo em si mesma,
to apartada da civilizao que, volvido algum tempo, Gillanbone passou
a ser pouco mais que um nome que evocava lembranas remotas.
Drntro dos limites do grande Hozne Paddock, havia estbulos, uma
ferraria, garagens, um sem-nmero de barraces onde se guardava tudo,
desde alimentos at mquinas, carris e cercas para ces, uma confuso
labirntica de currais, um gigantesco barraco para a tosquia com
o nmero pasmoso de vinte e seis estrados no seu interior e outro ddalo
de currais atrs dele. Havia galinheiros, chiqueiros, estbulos para vacas
e uma vacaria, aposentos para os vinte e seis tosquiadores, choas para
os biscateiros, duas casas como a deles, mas mais pequenas, para pastores,
barracas para empregados inexperientes, um matadouro e depsitos
de lenha.
 Tudo isso ficava exactamente no meio de um crculo sem rvores
de cinco quilmetros de dimetro: o Home Paddock. S no ponto
onde se erguia a casa do chefe dos pastores  que o conglomerado de
prdios quase tocava na floresta. Havia, contudo, muitas rvores em
torno dos barraces, currais e cercas, para dar a sombra bem-vinda
e necessria; sobretudo aroeiras-moles enorxnes, vigorosas, densas e sono-
lentamente belas. Mais adiante, no longo capim do Home Paddock,
cavalos e vacas leiteiras pastavam, amodorrados.
 1Vo fundo da ravina que ladeava a casa do chefe dos pastores corria
um insignificante regato de gua barrenta. Ningum deu crdito  histria
do padte Ralph de que o crrego poderia subir dezasseis metros da noite
para o dia; no parecia possvel. A sua gua era bombeada  mo para
servir na casa de banho e na cozinha, e as mulheres s ao fim de muito
tempo se habituaram  ideia de se lavarem e de lavarem os pratos
e roupas numa gua pardacenta e esverdeada. Seis tanques de ferro
macios, colocados no alto de torres de madeira que lembravam
guindastes, recolhiam a gua da chuva que caa no telhado, que devia
ser consumida com parcimnia e nunca usada para lavar o que quer
que fosse, pois ningum sabia quando as prximas chuvas tornariam
a encher os tanques.
 Os carneiros, as vacas e os cavalos bebiam gua artesiana, no
extrada de um lenol acessvel, mas verdadeira gua artesiana, trazida
de mais de novecentos metros abaixo da superfcie do solo, a qual
jorrava de um cano na chaznada cabea de perfurao e, depois de
percorrer minsculos canais orlados de um capim venenosamente verde,
chegava s cercas existentes na propriedade. Esses canais eram os drenos

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da perfurao e a sua gua, muito sulfurosa, carregada de mineras,
no era prpria para o homem 1> r
 A princpio, as distncias assombraram-nos; Drogheda tinha duzen-
tos e cinquenta mil acres de superfcie e o seu maior comprimento
atingia cento e vinte e oito quilmetros. A casa grande distava sessenta
e quatro quilmetros de Gillanbone, o nico povoado mais prximo
num raio de cento e sessenta e nove quilmetros. O limite oriental da
fazenda era formado pelo rio Barwon, nom que a gente do lugar dava
ao curso setentrional do rio Darling, grande curso de gua lodosa de
mil e seiscentos quilmetros de comprimento que se juntava ao rio Mur-
ray para desaguar no oceano meridional, a dois mil e quatrocentos qui-
lmetros de distncia, no Sul da Austrlia. O ribeiro Gillan, que corria
na ravina ao lado da casa do chefe dos pastores, desembocava no Barwon,
cerca de trs quilmetros alm do Home Paddock.

 Paddy e os garotos adoraram aquilo. Passavatn, s vezes, dias e dias
na sela, a quilmetros de casa, acampando  noite debaixo de um cu
 to vasto e to cheio de estrelas que tinham a impresso de ser uma
 parte de Deus.
 A terra pardo-acinzentada fervilhava de vida. Milhares de cangurus
 passavam em bandos, cleres, aos saltos, por entre as rvores, trans-
 pondo vedaes sem mudar de andamento, adorveis na sua graa, liber-
 dade e quantidade; emas construam os seus ninhos no meio da plancie
relvada e passeavam, altivas e majestosas como gigantes, pelas suas
 fronteiras territoriais, assustando=se com tudo o que fosse estranho
e correndo mais do que cavalos para longe dos seus ovos verde-escuros,
do tamanho de bolas de futebol; trmites erguiam torres ferrugentas
que pareciam arranha-cus em miniatura; formigas imensas, que tinham
uma picada dolorosssima, desapareciam como rios por buracos feitos
 no cho.
 A vida alada era to rica e variada que as espcies novas pareciam
 no ter fim; os seus representantes, no entanto, no viviam isolados
 ou aos pares mas aos milhares; minsculos periquitos vetdes e ama-
 relos, que Fee costumava designar por pssaros-do-amor, mas que
 os locais chamavam budgerigars; pequenos papagaios escarlates e azuis
 cognominados rosellas; grandes papagaios cinza-claros com o peito,
 a cabea e parte das asas cor de prpura, conhecidos pelo nome de
 galahs; e grandes pssaros inteiramente brancos, as cacatuas, de inso-
 lentes cristas amarelas. Lindos e minsculos tentilhes chilreavam
 e revoluteavam, e o mesmo faziam prdais e estorninhos, e os robustos
 e pardos peixes pescadores, os kookaburras, riam-se e exultavam, jubi-

96

PSSAROS FEftIDOS

losos, ou mergulhavam  procura de cobras, o seu alimento predilecto.
Eram quase humanos todos esses pssaros e, completamente  vontade,
pousados s centenas nas rvores, olhavam curiosos  sua volta com
os olhinhos brilhantes e inteligentes, gritando, falando, rindo e imitando
tudo o que produzia sons.
 Temveis lagartos de um metro e meio ou um metro e oitenta
de comprimento avanavam pesadamznte pelo cho ou trepavam, geis,
aos altos galhos das rvores, to  vontade fora da terra como sobre
ela: eram os goannas. E havia muitos outros, mais pequenos mas no
menos assustadores, com o pescoo adornado de cristas crneas dinos-
suricas, ou com lnguas tumefactas, de um azul brilhante. A variedade
de cobras era quase infinita, e os Cleary ficaram a saber que as maiores
e de aspecto mais terrvel nem sempre eram as mais perigosas, ao passo
que uma criaturinha atarracada, de trinta centmetros de comprimento,
poderia ser uma v'bora mortal; ptons, cobras-corais cor de cobre,
cobras arborcolas, cobras-pretas de barriga vermelha, cobras-pardas,
mortferas ibiocas.
 E os insectos! Gafanhotos, cigarras, grilos, abelhas, moscas de
todos os tamanhos e espcies, lavandeiras, mariposas gigantes e tantas
outras borboletas! Aranhas medonhas, umas coisas imensas e peludas,
com pernas de vrios centmetros de comprimento, ou enganosamente
pequenas, mas pretas e mortais, escondidas na retrete; algumas viviam
em vastas teias, suspensas entre as rvores, outras embalavam-se em
densos beros de fios prateados, presos entre hastes de capim, outras
ainda enfiavam-se no cho em buraquinhos completos, com tampas, que
se fechavam depois de elas passarem.
 Tambm havia predadores: porcos bravos que no tinham medo
de nada, selvagens e comedores de carne, umas coisas pretas e peludas,
grandes como vacas; dingos, os ces nativos selvagens que se movem
s furtadelas, rentes ao solo, e se fundem com a relva; corvos, s cen-
tenas, desolados e aflitos, empoleirados nos brancos e murchos esque-
letos de rvores mortas; gavies e guias, pairando imveis acima
das correntes de ar.
 Dalguns era preciso proteger os carneiros e o gado, mormente
quando pariam. Os cangurus e os coelhos comiam o capim precioso;
os porcos e os dingos devoravam cordeiros, bezerros e bichos doentes;
os corvos arrancavam os olhos dos animais com o bico. Os Cleary
tiveram de aprender a atirar e levavam espingardas quando saam
a cavalo, s vezes para acabar com o sofrimento de um animal conde-
nedo, outras para abater um porco bravo ou um dingo.

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 Isto, pensavam os garotos exultantes, era vida. Nenhum tinha sau-
dades da Nova Zelndia; quando as moscas se apinhavam como calda
nos cantos dos seus olhos, lhes subiam pelo nariz, lhes entravam pela
boca e pelas orelhas, eles aprenderam o truque australiano de prender
cordes  volta da aba do chapu e amarrar uma rolha de cortia na
ponta de cada cordo. Para impedir que sevandijas rastejantes lhes
subissem pelas pernas, por baixo das calas largas, amarravam tiras
de pele de canguru, chamadas bozuyangs, abaixo dos joelhos. A Nova
Zelndia era mansa comparada com a Austrlia, mas aquilo era vida.

 Presas  casa e s suas imediaes, as mulheres achavam a exis-
tncia muito menos interessante, pois no tinham tempo nem pretexto
para montar a cavalo, nem o estmulo de actividades variadas. Era-lhes
apenas mais duro fazer o que sempre fizeram as mulheres: cozinhar,
limpar, lavar, passar a ferro, cuidar das crianas. Pelejavam contra
o calor, a poeira, as moscas, os muitos degraus, a gua barrenta, a quase
permanente ausncia de homens para cortar e carregar lenha, bombear
a gua, matar aves. O calor, sobretudo, era difcil de aguentar e, no
entanto, ainda estavam no comeo da Primavera; mesmo assim, o ter-
mmetro colocado na varanda, onde havia sombra, marcava trinta
e oito graus todos os dias. Na cozinha, com o fogo a funcionar, a tem-
peratura chegava a quarenta e nove graus.
 As roupas que elas usavam, grossas e justas, haviam sido feitas
para a Nova Zelndia, onde, no interior das casas, estava quase sempre
 frio. Mary Carson, que caminhara,  guisa de exerccio, at  casa da
 cunhada, olhava com desdm para o vestido de algodo de Fee, fechado
 no pescoo e que lhe chegava aos ps. Ela mesma envergava, de acordo
 com a nova moda, um vestido de seda creme que no lhe passav
 da metade das pernas, com mangas largas e decote e sem cintura.
- No h dvida, Fona, de que est irremediavelmente antiquada

- disse, correndo a vista pela sala de visitas recm-pintada de creme,
 pelos tapetes persas e pelos mveis finos e valiosos.
- No tenho tempo para me vestir doutra maneira - redarguiu
Fee, com excessivo laconismo para uma anfitri.
- Passar a ter, a ora que os homens se demoram longe de casa
e h menos refeies para preparar. Suba as bainhas e deixe de usar
espartilho, pois acabar por morrer quando chegar o Vero. Sabe que
a temperatura ainda pode aumentar de oito a onze graus? -Os olhos
de Mary demoraram-se no retrato da bela mulher loura com a saia-balo
  imperatriz Eugnia. - Quem ? - perguntou, apontando.
- A minha av.

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-Ah, sim? E os mveis, os tapetes?
-So meus, herdados da minha av.
-No me diga! Pelos vistos, a minha querida Fiona desceu na
escala soal, no  verdade?
 Fee nunca perdia as estribeiras,
mas os seus lbios cerraram-se.

de modo que se manteve calma,

-Pois eu no penso assim, Mary. Tenho um bom marido,
io sabe.
- Mas que no tem sequer um gato para lhe puxar pelo rabo.
al era o seu nome de solteira?
- Armstrong.
- Pertence, por acaso,  famlia de Roderick Armstrong?
-  o meu irmo mais velho. Ele recebeu o nome do meu av.
 Mary Carson levantou-se, aoitando com o chapu  Gainsbrough
moscas atrevidas, que nem sequer respeitavam as pessoas mais
importantes.
- Voc  mais bem-nascida do que os Cleary, sou eu quem o diz.
Era assim to grande o seu amor a Paddy que preferiu desistir de
tudo isso?
- As razes por que o fz - voltou Fee, sem alterar o tom de
voz - apenas me dizem respeito, Mary, e no a si. No discuto acerca
do meu marido com ningum, nem com a irm dele.
 As linhas de cada lado do nariz de Mary Carson acentuaram-se,
os seus olhos tornaram-se um tudo nada mais protuberantes.
- Ora essa! - disse.
 Mary Carson no voltou  casa de Fee, mas a Sr.a Smith, a sua
governanta, vinha com frequncia, e repetiu-lhe o conselho a respeito
das roupas.
- Oua - disse -, no meu quarto h uma mquina de costura
de que nunca me sirvo. Mandarei traz-la para aqui. E se eu, um dia,
precisar de us-la, virei at c. - Os seus olhos dirigiram-se para onde
Hal, o beb, se rebolava no cho, feliz da vida. - Gosto de ouvir o baru-
lho das crianas, Senhora Cleary.

 De seis em seis semanas chegava a correspondncia de Gillanbone
numa grande catroa puxada por cavalos; era esse o nico contacto
eom o mundo exterior. Drogheda possua um camio Ford vulgar, outro
camio Fo,d construdo especialmente com um tanque de gua na car-
roatia, um automvel Ford modelo T e uma limusina Rolls-Royce,

99

mas ningum parecia utiliz-los para ir a Gilly, a no ser Mary Carson,
e raramente. Sessenta e quatro quilmetros eram longe como a Lua.

 Bluey Wi ams conseguira obter um contrato para distribuir
a correspondncia em todo o dstrito e levava seis semanas para cobrir
o territrio. Puxavam-lhe a carroa, munida de um toldo e com rodas
de trs metros, carregada de todas as coisas encomendadas pelas fazen-
das distantes, seis magnficas parelhas de cavalos de tiro. Juntamente
com o Correio Real, ele transportava artigos de mercearia, gasolina em
tambores de quarenta e quatro gales, petrleo em latas quadradas de
cinco gales, feno, sacos de milho, sacos de acar e farinha, caixas de
ch, sacos de batatas, mquinas agrcolas, brinquedos e roupas pedidos
pelo correio  casa de Anthony Horden, em Sidnei, e tudo o mais que
pudesse ser trazido de Gilly ou de fora. Deslocando-se  esplndida
velocidade de trinta e dois quilmetros por dia, recebam-no muito l>em
onde uer que parasse, assediavam-no com perguntas acerca do que
se passava e do tempo que fazia noutros lugares e entregavam-lhe peda-
os de papel rabiscados, cuidadosamente enrolados em torno do dinheiro,
para comprar mercadorias em Gilly, e as cartas laboriosamente escritas,
que iam parar ao saco de lona onde se lia Correio Real GVR ,.

 A oeste de Gilly s havia duas fazendas no seu caminho: Drogheda
a mais prxima, e Bugela, a mais afastada; pata alm desta ficava
o territrio que s recebia a correspondncia de seis em seis meses.
A carroa de Bluey descrevia um grande arco ziguezagueante ao per-
correr todas as fazendas a sudoeste, a oeste e a noroeste, e depois
regressava a Gilly antes de partir rumo a leste, jornada mais curta
porque a cidade de Booroo distava apenas noventa e seis quilmetros.
s vezes, trazia pessoas sentadas ao seu lado, no assento de couro da
boleia descoberta, vsitantes ou gente  procura de trabalho; outras
levava pessoas, visitantes ou pastores, criadas ou biscateiros descon-
tentes e, de quando em quando, uma governanta. Os criadores de car-
neiros possuam meios de transporte prprios, mas os que trabalhavam
 para eles dependiam de Bluey para o seu transporte, assim camo para
 as suas mercadorias e sua correspondncia.
 Depois de as peas de fazenda encomendadas por Fee chegarem
 pelo correio, ela sentou-se  mquina de costura emprestada e comeou
 a fazer vestidos folgados para si e para Meggie, calas e fatos=macaco
 leves para os homens, fatinhos para Hal e cortinas para as janelas,
 tudo de algodo. No havia dvda de que no se sentia tanto calor
 com roupas leves e mais folgadas.

100

 A vida era solitria para Meggie, que dos irmos s tinha Stuart
para lhe fazer companhia, pois Jack e Hughie saam com o pai a fim
de aprender o ofcio de pastor de ovelhas - jackaroos, como se cha-
mva aos jovens aprendizes. Contudo, Stuart no era comp nhia para
ela como n haviam sido Jack e Hughie. Garoto sossegado, vivia num
mundo prprio e preferia ficar sentado horas a fio observando o com-
portamento de um formgueiro, ao passo que Meggie adorava trepar
s rvores e achava maravilhoso os eucaliptos australianos, de varie-
dades infinitas. No entanto, no lhes sobrava muito tempo para trepar
s rvores ou para observar formigas, pois Meggie e Stuart trabalhavam
como gente grande. Rachavam e transportavam a lenha, abriam buracos
para o lixo, cuidavam da horta e tratavam das aves e dos porcos.
Tambm aprenderam a matar cobras e aranhas, conquanto nunca deixas-
sem de tem-las.
 As chuvas haviam sido razoveis durante vrios anos; o crrego
baixara, mas os tanques estavam meios, e embora apresentasse bom
aspecto, o capim ficava muito aqum das suas pocas de maior vio.
-  provvel que fique pior - disse Mary Carson em tom
somhtio.
 Mas eles conheceriam uma enchente antes de defrontarem a seca.
Em meados de Janeiro a reglo foi apanhada pela orla meridional das
mones de noroeste. Extremamente insidiosos, os grandes ventos sopra-
ram  vontade. As vezes, apenas as extremidades setentrionais mais
afastadas do continente Ihes sentiam os encharcantes aguaceiros de
Vero, outras, desciam at s regies mais remotas e inenos povoadas
e proporeionavam aos infelizes habitantes de Sidnei um Vero molhado.
Naquele ms de Janeiro as nuvens turbilhonaram, negras, pelo cu,
rasgadas em frangalhos ensopados pelo vento, e comeou a chover; no
foi uma chuva delicada, mas um dilvio persistente e atroador, qu
parecia no acabar mais.
 Os Cleary tinham sido avisados; Bluey DPilliams aparecera de
repente com a carroa carregada at ao tecto e doze cavalos de reserva
atrs de si, pois pretendia terminar a sua volta antes que as chuvas
tornassem impossvel novos fornecimentos s fazendas.
- As moes esto a chegar - disse, enrolando um cigarro
e indicando as pilhas de artigos suplementares de mercearia que trou-
xera. - O Cooper, o Barcoo e o Diamantina transbordaram. Todo
o Queensland est mais de meio metro debaixo de gua e aqueles des-
graados esto a tentar encontrar um morro qualquer para guardar
os carneiros.

101

PASSAROS FERIDOS

 De sbito, declarou-se um nico controlado; Paddy e os rapazes
comearam a trabalhar como doidos, trando os carneiros dos pastos
mais baixos e levanda-os para o mas longe possvel do crrego e do
Batwon. O padre Ralph apareceu, selou a sua montada e saiu com
Frank e a melhor matilha de ces na direco de dois pastos ainda no
evacuados ao longo do Barwon, enquanto Paddy e os dois pastores de
ovelhas, cada qual acompanhado de um garoto, seguiam noutras
direces.
 O prprio padre Ralph era um excelente pastor. Montava uma
gua castanha, puro-sangue, que Mary Carson lhe dera, e trajava calas
de montar amarelo-plidas de mrte perfeito, botas amarelas reluzentes
que lhe chegavam aos joelhos e uma camisa branca imaculada com
as mangas arregaadas sobre os braos vigorosos e deixando ver o peito
moreno e liso. Vestindo velhas e largas calas cinzentas de sarja, presas
abaixo do joelho com tiras de couro de canguru, e uma camiseta cin-
zenta de flanela, Frank sentia-se como um parente pabre. Exactamente
o que ele era, pensou, seguindo o cavaleiro erecto sobre a bonita gua
atravs de uma moita de buxos e de um pinhal, alm do crrego. Ele
prprio cavalgava um an de lida, molhado, duro de boca, um diabo
geniquento e voluntarioso, que odiava, feroz, os outros cavalos.
Os a ais ladravam e cabriolavam, excitados, lutando entre si e ros-
nando at que uma chicotada magistralmente aplicada pelo padre Ralph
os separava. Dir-se-ia que no havia nada que o homem no soubesse
fazer; f miliarizado com os assobios convenonais para incitar os ces
ao trabalho, ele manejava o chicote muito melhor do que Frank, que
estava ainda a aprender essa extica arte australiana.
 O grande co azul de Queensland, que dirigia a matilha, simpatizou
com o padre e seguia-o servilmente, sem discutir, o que dava a Frank,
decididatnente, uma situao subalterna. Contudo, Frank no se impor-
tava com isso; s ele, entre os ilhos de Paddy, no gostava da vida em
Drogheda. O seu maior desejo fora deixar a Nova Zelndia, mas no
para aquilo. Detestava o incessant-e patrulhar dos pastos, o cho duro
para dormir na maior parte das noites, os ces selvagens que no podiam
ser tratados como animais damsticos e eram sacrificados quando no
cumpriam a sua obrigao.
 Mas a cavalgada sob as nuvens que se adensavam continha em
si um elemento de aventura; at as rvores que vergavam e estalavam
pareciam danar com brbara alegria. O padre Ralph trabalhava como
um homem dominado por uma obsesso, atiando os caohorros no
encalo de grupos de carneiros e fazendo as idiotas bolas de l saltar

102

e balir assustadas, at que as formas baixas que listavam a relva as
agrupavam e punham a correr. Somente a aco dos ces : -ermitia a um
punhado de homens dar conta de uma propriedade do tamanho de
Drogheda; educado para lidar com carneiros ou com o gado, o dingo,
inteligentssimo, necessitava de muito pouca direco.
 Ao cair da noite o padre Ralph e os ces, ajudados por Frank,
que procurava fazer o melhor que podia e no fazia grande coisa, haviam
retirado todos os carneiros de um pasto, servio que, em pocas nor-
mais, levava vrios dias. O padre desarreou a gua ao p da cancela
do segundo pasto, afirmando, optimista, que ainda tirariam tambm
os carneiros dali antes de comear a chuva. Os ces estavam espar-
ralhados na erva com a lngua de fora, enquanto o grande azul de
Queensland sacudia a cauda, subserviente, aos ps do padre Ralph. Frank
tirou do alforje uma repugnante poro de carne de canguru e artemes-
sou-a aos animais, que se atiraram a ela abocanhando-a e mordendo-se

medonhas e san uinrias - disse Frank. - No se com-
portam como ces; parecem antes chacais.
- Pois creio que esto, provavelmente, muito mais prximos do
que Deus pretendia que fossem os ces - acudiu o padre Ralph
com mansido. - Inteligentes, agressivos e quase selvagens. Pessoal-
mente, eu prefiro-os  espcie dos animaizinhos de estimao. - O padre
sorriu. - Os gatos tambm. No os observou em torno dos barraces?
Bravos e maus como panteras; no deixam qualquer ser humano aproxi-
mar-se deles. Contudo, so magnficos caadores, que a nenhum homem
do o ttulo de amo ou senhor.
 Extraiu um pedao de carne de carneiro e um pacote de po com
manteiga do seu alforje, cortou um bom naco e estendeu o resto a Frank.
Colocando o po com manteiga sobre um tronco entre ambos, enterrou
os dentes brancos na carne com evidente prazer. Mitigou a sede com
o contedo de um cantil de lona e, a seguir, enrolou um cigarro.
- Este stio  bom para dormir - disse, desencorreando o cober-
tor e pegando na sela.
 Frank seguiu-o at  rvore, comummente considerada a mais bela
nessa parte da Austrlia. As folhas, quase perfeitamente arredondadas,
tinham uma cor verde-plida de lima e a folhagem, densa, crescia to
perto do solo que os carneiros alcanavam-na com facilidade, de modo
que o fundo de cada wilga era cortado to a direito como uma sebe
divisria. Se a chuva comeasse a cair, encontrariam melhor abrigo
debaixo dela do que de qualquer outra, pois as rvores australianas,

103

PSSAftOS FERIDOS

regra geral, tinham uma folhagem menos espessa do que as dos pases
mais chuvosos.
- No te sentes feliz, Frank? - perguntou o padre Ralph, dei-
tando-se no cho com um suspiro e enrolando outro cigarro.
 Da posio em que se encontrava, a pouco menos de um metro
de distncia, Frank voltou-se ara mir-lo, desconfiado.
- Quem  feliz?
- Neste momento, o teu pai e os teus irmos. Mas nem tu, nem
a tua me, nem a tua irm. Que se passa? No gostam da Austrlia?

- Desta parte, no. Quero ir para Sidnei. Talvez encontre ali
oportunidade de fazer alguma coisa.
- Sidnei  um antro de niquidades.
 O padre Ralph sorria.
- Pouco me importa! Aqui estou to atolado como na Nova
Zelndia; no consigo afastar-me dele.
- Dele?
 Mas Frank no tencionara dizer isso, e no quis adiantar mais nada.
Continuou deitado, olhando para as folhas.
- Quantos anos tens, Frank?
- Vinte e dois.
- Oh, sim! J estiveste, algum dia, separado da famlia?

- No.
- J foste a um baile, j namoraste?

- No.
 Frank recusava-se a trat-lo por padre.
- Nesse caso, ele no te segurar por muito tempo.
- Ele segurar me- at eu morrer.
 O padre Ralph bocejou e preparou-se para dormir.
- Boa noite - disse.
 De manh, as nuvens estavam mais baixas, mas a chuva esperou
 o dia todo para cair, e eles conseguiram evacuar o segundo pasto. Uma
 pequena crista atravessava Drogheda de noroeste para sudoeste; nos
 seus pastos, concentravam-se os rebanhos de carneiros, pois tinham ali
 um terreno mais alto se a  nza ultrapassasse as ribas do reato e do
 Bar von.
 A chuva chegou quase ao cair da noite, quando Frank e o padre
 se apressavam, num trote ligeiro, na direco do vau do crrego, um
 pouco abaixo da casa do chefe dos pastores de ovelhas.
- No adianta preocupares-te em no os esfalfar agora ! - gritou

104

PSSAftOS FERIDOS

o padre Ralph.-Crava-lhe as esporas, rapaz, ou morrers afogado
na lama !
 Dali a segundos estavam os dois ensopados, como ensopado ficou
o solo crestado. A terra fina, no porosa, converteu-se num nar de
lama, onde os cavalos, atolados at os jarretes, patinhavam. Enquanto
houve relva, puderam continuar, mas, perto do riacho, onde a terra,
pisada, estava nua, tiveram de desmontar. Livres dos seus fardos,
os cavalos no sentiram dificuldades, mas Frank percebeu que no
lograria conservar o equilbrio. Aquilo era pior que um rinque de pati-
nagem. Valendo-se das mos e dos joelhos, arrastaram-se at o topo da
margem do arroio e escorregaram por ela como projcteis. O leito de
pedra, que costumava estar coberto por trinta centmetros de guas
preguiosas, achava-se agora debaixo de um metro e tanto.de espuma
impetuosa; Frank ouviu o padre rir-se. Instigados pelos gritos e por
golpes desferidos com chapus empapados, os cavalos esealaram a mar-
gem oposta sem acidentes, mas Frank e o padre Ralph no conseguiram
imit-los. Todas as vezes que o tentavam, escorregavam. O padre aca-
bara de sugerir que trepassem a um salgueiro, quando Paddy, alertado
pelo aparecimento dos cavalos sem cavaleiros, surgiu com uma corda
e iou os dois.
 Sorrindo e sacudindo a cabea, o padre Ralph recusou o ofereci-
mento de hospitalidade de Padd_y.
- Esto  zninha espera na casa grande - explicou.
 Mary Carson ouviu-o chamar antes de qualquer outra pessoa da
casa, pois ele decidira caminhar at junto da entrada principal, julgando
que assim Ihe seria mais fcil chegar ao seu quarto.
- Voc no pode entrar assim todo sujo - disse Mary, em p na
varanda.
- Ento seja boazinha e d-me umas toalhas e a minha caixa.
 Sem nenhum constrangimento, encostada ao peitoril da janela
semiaberta da sala de estar, ela viu-o despir a camisa e as calas e descal-
ar as botas.
- Voc  o homem mais bonito que j vi, Ralph de Bricassart
- disse. - Porque ser que h tantos padtes bonitos ? Pelo facto
de serem irlandeses? Os Irlandeses so um povo bonito. Ou ser porque
os homens bonitos encontram no sacerdcio um refgio contra as con-
sequncias da sua beleza? Aposto que as raparigas de Gilly andam todas
loucas por si.
- Aprendi h muito tempo a no fazer caso das raparigas loucas
de amor. - Ele riu-se. - Qualquer padre com menos de cinquenta

105

anos  um alvo para algumas delas, e um padre com menos de trinta
e cinco costuma ser um alvo para todas. Mas so s as protestantes que
tentam descaradaznente seduzir-me.
- Nunca responde direito s minhas perguntas, no  verdade?

- Endireitando-se, Mary Carson colocou a palma da mo no peito dele
e ali a deixou. - Voc  um sibarita, Ralph, toma banhos de sol. Todo
o seu corpo est assim queimado?
 Sorrindo, ele inclinou a cabea para a frente e riu-se com a boca
no cabelo dela, enquanto as mos desabotoavam as ceroulas de algodo;
quando estas caram, empurrou-as com os ps, e ali ficou, como uma
esttua de Praxteles, enquanto el dava uma volta completa em torno
dele, devagar, olhando.
 Os ltmos dois dias haviam-no estimulado, como o estimvlava
a sbita conscincia de que ela talvez fosse mais vulnervel do que
ele imaginara; mas, conhecendo-a, sentiu-se perfeitamente seguro a
perguntar:
- Quer que eu a galanteie, Mary?
 Ela contemplou-lhe o pnis flcido, e comeou a rir.
- Eu seria inca az de exigir-lhe tamanho sacrifcio! Voc precisa
de mulheres, Ralph?
 A cabea dele recuou, num gesto desdenhoso.

- No !
- E de homens?
- So piores que as mulheres. To-pouco preciso deles.
- Interessante. - Abrindo a janela toda, ela entrou na sala de
estar. - Ralph, cardeal de Bricassart! - anunciou, em tom escarninho.

 Quando, porm, se viu longe dos olhos penetrantes dele, deixou-se
cair na bergre e cerrou os punhos, num gesto de vituprio contra
as incoerncias do destino.
 Nu, o padre Ralph desceu da varanda para ficar no relvado bem
aparado com os braos erguidos acima da cabea e os olhos fechados,
 deixando que a chuva casse sobre ele, em grossas gotas quentes, pene-
 trantes, alanceantes, deliciosa sensao na pele nua. Estava muito escuro.
 Mas ele continuava flcido.

 O crrego transbordou e a gua subiu ainda mais pelas estacas
da casa de Paddy, estendendo-se at ao Home Paddock na direco da
prpria casa grande.
- Descer amanh - disse Mary Carson quando Paddy, preo-
cupado, foi inform-la do facto.

106

 Como sempre, ela acertou; na semana seguinte a gua refluiu e,
finalmente, voltou aos canais normais. O sol apareceu, a temperatura
subiu a quarenta e seis graus  sombra, e o capim parecia querer alcan-
ar o cu, da altura da coxa de um homem, to limpo, brilhante e dou-
rado que feria a vista. Lavadas, as rvores reluziam e as hordas de
papagaios voltaram donde se haviam refugiado enquanto a chuva caa
para mostrar os seus corpos de arco-ris no meio das rvores, mais
loquazes do que nunca.
 O padre Ralph regressara em auxlio dos seus paroquianos desam-
parados, sereno por saber que no seria censurado; debaixo da imaculada
camisa branca, junto ao corao, trazia um cheque de mil libras. O bispo
ficaria extasiado.
 Os carneiros foram levados de volta aos pastos normais e os
Cleary viram-se obrigados a aprender o hbito sertanejo da sesta. Levan-
tavam-se s cinco da manh, faziam tudo o que tinham de fazer antes
do meio-dia e depois caam, prostrados, como vultos espasmdicos
e exsudantes at s cinco da tarde. Isto tanto se aplicava s mulheres,
em casa, como aos homens, nos pastos. As tarefas no executadas cedo
eram-no depois das cinco, e tomava-se a refeio da noite aps o ocaso.
na mesa colocada na varanda. As camas tambm tinham sido levadas
para o exterior, pois o calor persistia durante a noite. Dir-se-ia que nas
ltimas semanas a coluna de mercrio no descera abaixo dos quarenta,
quer de dia quer de noite. A carne de vaca era uma lembrana esque-
cida, e para comer s havia um carneiro suficientemente pequeno para
durar sem se estragar at ser todo deglutido. Por isso, todos ansiavam
 por uma mudana da eterna rotina de costeletas assadas de carneiro,
cozido de carneiro, torta de carne de carneiro bem picada, carne de car-
neiro temperada com caril, pernil assado de carneiro, carne de carneiro
rnzida e conservada em vinagre, carne de carneiro cozida e servida numa
panela de barro.
 No comeo de Fevereiro, porm, a vida mudou de repente para
Meggie e Stuart, que foram mandados, como internos, para o convento
de Gillanbone, pois no havia escola mais prxima. Hal, disse Paddy,
faria o curso por correspondncia da Escola dos Dominieanos em Sidnei
quando tivesse idade para isso, mas, entretanto, como M ggie e Stuart
estivessem acostumados a professoras, Mary Carson oferecera-se, gene-
rosa, para lhes pagar a penso e o ensino no Convento de Santa Cruz.
Alm disso, Fee andava to ocupada com Hal que no poderia vigiar
tambm as aulas por correspondncia. Ficara tacitamente entendido,

107

desde o comeo, que Jack e Hughie no prosseguiriam os estudos;
Drogheda precisava delcs nos pastos e era isso que eles queriam.
 Meggie e Stuart encontraram uma existncia estranha e sossegada
em Santa Cruz, depois da sua vida agitada em Drogheda, mas, sobretudo,
depois do Sagrado Corao em Wahine. O padre Ralph dera a entender
subtilmente s freiras que, alm de serem as duas crianas suas prote-
gidas, a tia delas era a mulher mais rica de Nova Gales do SuI.
Assim sendo, a timidez de Meggie passou de vcio a virtude, e o estranho
isolamento de Stuart, o seu hbito de ficar, durante horas, a contemplar
distncias incomensurveis, valeu-lhe o epteto de <<santo>>.
 O ambiente no convento era, na realidade, muito calmo porque
havia pouqussimos internos, pois os moradores do distrito que tinham
dinheiro bastante para internar os filhos num colgio preferiam sempre
Sidnei. O convento cheirava a verniz e a flores, e os seus altos
e escuros corredores ressumavam quietude e uma tangvel santidade.
As vozes eram abafadas, a vida prosseguia por trs de um vu negro
e fino. Ningum Ihes batia, ningum gritava com eles, e havia sempre
o padre Ralph.
 Este vinha v-los com frequncia e hospedava-os na casa paroquial
com tanta regularidade que decidiu pintar o quarto usado por Meggie
com um delicado tom verde-ma e comprar cortinas novas para as
janelas e um colcho novo para a cama. Stuart continuou a dormir num
quarto que se mantinha castanho e creme apesar de duas redecoraes;
o facto  que nunca ocorria ao padre Ralph perguntar a si mesmo se
Stuart se sentia feliz. Ele era a lembrana de ltima hora que, para no
ofender ningum, tatnbm precisava de ser convidado.
 O padre Ralph no sabia exactamente porque gostava tanto de
Meggie e, alis, no perdia muito tempo a pensar nisso. O sentimento
comeara por ser piedade, no dia da chegada, no ptio empoeirado da
estao do caminho de ferro, quando a vira atrs dos outros, separada
do resto da famlia em virtude do sexo, conjecturara ele com sagacidade.
Entretanto, pouco se lhe dava saber por que razo Frank se movia
tambm num perfmetro externo, nem se sentia movido a ter pena dele.
Havia em Frank qualquer coisa que matava as emoes ternas: um cora-
o negro, um esprito cateeido de luz interior. Mas Meggie? Meggie
impressionara-o estranhamente, e ele no sabia porqu. Havia a cor do
 seu cabelo, que lhe agradava; a cor e a forma dos olhos, parecidos com
 os da me e, portanto, belos, mas muito mais doces e expressivos;
 e o seu carcter, que ele via como o perfeito carctgr feminino, passivo
 mas enormemente forte. Meggie no era uma rebelde, pelo contrrio:

108

obedeceria durante toda a vida e mover-se-ia dentro das fronteiras do
seu destino feminino.
 Entretanto, a soma de todos esses elementos no dava o total
procurado.  possvel que, se tivesse olhado mais profundamente para
dentro de si mesmo, ele descobrisse que o que sentia por ela era
o curioso resultado do tempo, do lugar e da pessoa. Ningum a julgava
importante, o que significava que havia um espao na sua vida em que
ele poderia encaixar-se e ter a certeza do seu amor; ela era uma criana e,
portanto, no representava perigo para o seu estilo de vida nem para
a sua reputao sacerdotal; ela era bela, e o padre Ralph apreciava
a beleza; e, o que ele menos admitia, Meggie enchia um espao vazio
na sua vida, que Deus no poderia ocupar, pois possua calor e solidez
humana. Para no embaraar a famlia dela oferecendo-lhe presentes,
ele dava-lhe o mximo possvel da sua companhia, e gastava tempo
e ideias na redecorao do quarto da garota, na casa paroquial; no tanto
para a ver satisfeita como para criar um engaste apropriado  sua jia.
 Nada de pechisbeques para Meggie.
 No princpio de Maio os tosquiadores chegaram a Drogheda.
Mary Carson tinha plena conscincia do modo como tudo se fazia na
fazenda, desde a distribuio dos carneiros at ao estalar de um chicote;
mandou chamar Paddy  casa grande alguns dias antes da chegada
dos tosquiadores e, sem sair da sua bergre, disse-lhe precisamente o que
ele teria de fazer at ao ltimo pormenor. Acostumado  tosquia na
Nova Zelndia, Paddy ficara abismado com o tamanho do barraco e os
seus vinte e seis estrados; agora, depois da entrevista com a irm,
os iactos e os nmeros comearam a baralhar-se dentro da sua cabea.
No eram somente os carneiros de Drogheda que seriam tosquiados,
mas tambm os de Bugela, de Dibban-Dibban e de Beel-Beel. Isso signifi-
cava uma quantidade extenuante de trabalho para todas as pessoas,
homens e mulheres. Por costume a tosquia era comunal e as fazendas
que se valiam das instalaes de Drogheda tambm arregaariam as
mangas, mas o impacte do trabalho eventual recairia sobre os ombros
da gente desta ltima.
 Os tosquiadores trariam o seu prprio cozinheiro e comprariam
a comida no armazm da fazenda, mas era preciso arranjar vastas quanti-
dades de alixnentos e lavar, limpar e equipar de colches e cobertores
as choas decrpitas, providas de cozinha e de uma casa de banho
primitiva. Nem todas as fazendas eram to generosas com os tosquia-
dates como Drogheda, que se orgulhava da sua hospitalidade e da sua
reputao. Na verdade, sendo esta a nica actividade de que participava,

109

Mary Carson no fazia economias. No somente o seu barraco era
um dos maiores de toda a Nova Gales do Sul como tambm requeria
o trabalho dos melhores homens, homens do calibre de Jackie Howe;
mais de trezentos mil carneiros seriam ali tosquiados antes de os tosquia-
dores colocarem as suas trouxas no velho camio Ford do empreiteiro
e desaparecerem no canzinho, rumo ao barraco seguinte.
 Havia duas semanas que Frank no aparecia em casa. Com o velho
Beerbarrel Pete, o pastor de ovelhas, uma matilha de ces, dois cavalos
de lida e um carro leve atrelado a um macho relutante para transportar
as modestas provises, ele partira em demanda dos pastos mais ocidentais
no intuito de trazer de l os carneiros, para os juntar, apartar e escolher.
Trabalho lento e tedioso, que no se podia comparar com o ajuntamento
realizado antes da cheia. Cada pasto tinha os prprios currais, onde se
faria parte do trabalho de classificao e marcao e onde os rebanhos
ficariam at chegar a sua vez. Os currais de tosquia do barraco s
comportavam dez mil carneiros, de modo que a vida no seria fcil
enquanto os tosquiadores l estivessem, num constante vaivm de
rebanhos que se trocavam, os j tosquiados pelos ainda no tosquiados.
 Quando Frank entrou na cozinha, encontrou a me em p  beira
da pia, entretida numa tarefa que nunca tinba fim: descascar batatas.

- Me, cheguei! - disse, com alegria na voz.

 Quando ela se virou para v-lo, mostrou a barriga, e as duas semanas
que ele passara fora acrescentaram-lhe a percepo.
- Meu Deus! - murmurou.
 Os olhos dela perderam o prazer que a chegada do filho lhes causara,
enquanto a vergonha lhe purpureava o rosto; estendeu as mos sobre
o avental bojudo, como se elas pudessem esconder o que as roupas no
conseguiam faz-lo.
 Frank tremia.
- Velho bode sujo!
- Frank, no posso permitir que digas essas coisas. ls um homem,
 devias compreender. Isto no  diferente da maneira como vieste ao
 mundo, e merece o mesmo respeito. No  sujo. Quando nsultas o pai,
 insultas-me tambm.
- Ele no tinha esse direito! Ele devia t-la deixado em paz!

- sibilou Frank, enxugando uma partcula de escuma que lhe ficara
 no canto da boca trmula.
- No  sujo - repetiu Fee em tom cansado, e ftou nele os olhos
 claros e fatigados, como se tivesse decidido, de sbito, deixar a vergonha

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definitivamente para trs. - No  sujo, Frank, como no foi sujo o acto
que te ctiou.
 Desta vez o rosto de Frank ficou vermelho. No podendo continuar
a sustentar o olhar da me, virou-se, saiu da cozinha e foi enfiar-se
no quarto que partilhava com Bob, Jack e Hughie. As paredes nuas
e as camas de solteiro troaram dele, do seu aspecto estril e descarac-
terizado, da falta de uma presena para aquec-lo, de um propsito
para santific-lo. E o rosto dela, o belo e cansado rosto dela, com o seu
halo formalista de cabelo dourado, todo se iluminava por causa do que
ela e aquele peludo bode velho tinham feito no calor terrvel do Vero.
 Frank no podia livrar-se disso, no podia livrar-se dela, dos pensa-
mentos que ficavam no fundo da sua mente, das fomes naturais da sua
idade e da sua virilidade. Na maior parte das vezes, conseguia empurrar
tudo aquilo para debaixo da conscincia, mas quando ela lhe exibia
uma prova palpvel da sua sensualidade, quando expunha diante dele
a sua misteriosa actividade com aquela besta lbrica... Como poderia
ele pensar nisso, como poderia consentir nisso, como poderia sofr-lo?
Frank desejava poder imagin-la totalmente santa, pura e imaculada
como a Me Santssima, um ser que se elevava acima dessas coisas,
embora as suas irms no mundo inteiro as praticassem. V-la provar
o que ele concebia como o erro dela era o caminho para a loucura.
Tornara-se necessria  sanidade dele supor que ela se deitava com
aquele velho feio em perfeita castidade, para ter onde dormir, mas que,
durante a noite, eles nunca se voltavam um para o outro, nem se
tocavam ! Oh, Deus !
 Um som metlico f-lo olhar para baixo e, ao faz-lo, verificou que
toreera o varo de metal do p da cama transformando-o num S.
- Porque no s o pai? - perguntou ao p da cama.
- Frank - disse a me da soleira da porta.
 Ele ergueu os olhos, olhos negros cintilantes e molhados como
pedaos de carvo sobre os quais houvesse chovido.
- Ainda acabarei por mat-lo - disse.
- Se fizeres isso, matar-me-s tambm - volveu Fee, aproximando-
-se e sentando-se na cama.
- No, eu hei-de libert-la - ripostou o rapaz num tom selvagem,
cheio de esperana.
- Frank, nunca poderei ser livre, e no quero ser livre. Eu gostava
de saber donde vem a tua cegueira, mas no sei. No vem de mim,
e to-pouco do teu pai. Sei que no s feliz, mas  preciso, por acaso,
culpar-nos disso, a mim e ao pai? Porque insistes em tornar as coisas

111

to difceis? Porqu? -Ela abaixou os olhos para as prprias mos e,
em seguida, tornou a ergu-los para ele. - Eu no queria dizer isto,
mas preciso diz-lo. J  tempo de arranjares uma namorada, Frank,
despos-la e constituir famlia. H espao em Drogheda. Nunca me
preocupei com os teus irmos nesse sentido; eles no parecem, de modo
algum, ter a tua natureza. Mas tu precisas de uma esposa, Frank.
Se tivesses uma mulher no te restaria tempo para pensares em mim.

 Ele voltara-lhe as costas e no quis virar-se. Durante uns cinco
minutos, talvez, Fee ficou sentada na cama  espera de que o filho
dissesse qualquer coisa. Depois suspirou, levantou-se e saiu.

112

5

 EPoIs de os tosquiadores partirem, o distrito caiu na semi-
- inrcia do Inverno at  festa anual da Exposio de Gillan-
 bone e das Corridas do Piquenique. Era o acontecimento mais
 importante do calendrio social, e durava dois dias. Como Fee
no se sentisse muito bem para ir, Paddy levou Mary Carson  cidade
no seu Rolls-Royce, sem a esposa para apoi-lo ou para conservar em
silncio a lngua de Mary. Ele notara que, por alguma razo misteriosa,
a prpria presena de Fee reprimia a irm, colocava-a em situao de
inferioridade.
 Os outros iriam todos. Ameaados de morte se no se portassem
bem, os garotos foram de camio em companhia de Beerbarrel Pete,
Jim, Tom, a Sr " Smith e as crianas, mas Frank foi mais cedo, sozinho,
no Ford modelo T. Os adultos do grupo ficariam na cidade para assistir
s corridas do dia seguinte; por motivos que s eIa conhecia, Mary
Carson recusou o oferecimento do padre Ralph de acomod-la na casa
paroquial, mas insistiu com Paddy para que aceitasse para si e para
Frank. Ningum soube onde dormiram os dois pastores e Tom, o apren-
diz de jardineiro, mas a Sr.a Smith, Minnie e Cat tinham amigos em Gilly
que as hospedaram.
 Eram dez horas da manh quando Paddy depositou a irm no
melhor quarto que o Hotel Imperial tinha para oferecer; de l, dirigiu-se
ao bar, onde encontrou Frank com uma caneca de cerveja na mo.
- Deixa-me pagar a prxima, meu velho - disse Paddy jovial-
mente ao filho. - Tenho de levar a tia Mary ao almoo das Corridas
do Piquenique, e preciso de apoio moral para aguentar o sacrifcio sem
a p esena da me.

113

 O hbito e o respeito so mais difceis de superar do que as pessoas
supem quando tentam realmente modificar o procedimento de anos;
Frank descobriu que no poderia fazer o que desejava, no poderia
atirar o contedo da caneca ao rosto do pai, pelo menos diante da
multido que estava no bar. Por isso emborcou de uma vez o resto
da cerveja, esboou um riso amarelo e disse:
- Desculpe, pai, mas acontece que prometi encontrar-me com uns
amigos no recinto da exposio.
- Ento vai at l. Olha, toma isto e gasta-o como quiseres.
Diverte-te e, se ficares alegre, no deixes a tua me perceber.
 Frank deteve os olhos na nota azul e amarfanhada de cinco libras,
sentindo uma vontade quase insopitvel de rasg-la ezn pedacinhos
e atir-los ao rosto de Paddy, mas o hbito venceu outra vez; dobrou-a,
enfiou-a no bolsinho do relgio e agradeceu ao pai, saindo do bar
o mais depressa que pde.
 Ostentando o seu melhor fato azul, colete abotoado, o relgio
de ouro seguro por uma corrente de ouro e um peso feito de uma
pepita procedente dos campos auriferos de Lawrence, Paddy puxou
com fora o colarinho de celulide e correu os olhos pelo bar  procura
de um rosto conhecido. No estivera muitas vezes em Gilly desde que
chegata a Drogheda, nove meses atrs, mas a sua posio como irmo
de Mary Carson e seu herdeiro aparente significava que o tinham tratado
muito hospitaleiramente todas as vezes que fora  cidade, e que todos
se lembravam do seu rosto. Vrios homens cumprimentaram-no sorriden-
tes, oferecendo-se para lhe pagar uma cerveja e logo se viu cercado
de uma confortvel multido; Frank estava esquecido.
 Meggie, naquela poca, usava o cabelo entranado, pois nenhuma
freira se mostrava disposta ( apesar do dinheiro de Mary Carson )
a cuidar-lhe dos cachos, e, por isso, duas grossas tranas eaam-lhe por
cima dos ombros, amarradas com fitas azul-marinho. Vestindo o sbrio
uniforme tambm azul-marinho de aluna de Santa Cruz, ela atravessou
o relvado que separava o convento da casa paroquial, escoltada por
uma freira, e foi entregue  governanta do padre Ralph, que a adorava.
- Oh,  o bonito cabelo escocs da garotinha - explicou aquela,
certa vez, ao padre que a intermgava, divertido; Annie no era dada
a gostar de crianas e costuxnava queixar-se da proximidade entre a casa
paroquial e a escola.
- Ora, essa Annie! O cabelo  inanimado; voc no pode gostar
de uma pessoa s por causa da cor do cabelo - disse o padre, para impli-
car com ela.

114

- Bem, ela  uma pobre garotinha... uzn salmozinho, o senhor
sabe como .
 O padre no sabia, mas to-pouco lhe perguntou o que significava
<<salmozinho>>. s vezes era melhor no saber o que Annie queria dizer,
nem incentiv-la dando muita ateno s suas palavras; de acordo com
a sua prpria linguagem, ela era meio tonta e, se tinha pena da garota,
Ralph no queria ouvir dela que a pena se referia ao futuro e no
ao passado.
 Frank chegou, trmulo ainda do encontro com o pai no bar, e sem
ter que fazer.
- Anda comigo, Meggie, vou levar-te  feira - disse, esten-
dendo a mo.
- E porque no posso eu levar os dois? - acudiu o padre Ralph,
estendendo a mo.
 Ensanduichada entre os dois hamens que mais adorava, e dando
a mo a ambos, Meggie sentia-se no stimo cu.
 O recinto da feira de Gillanbone fora instalado numa das mar ens
do rio Barwon, ao lado da pista de corridas. Embora a inundao tivesse
ocorrido h mais de seis meses, a lama ainda no secara de todo, e os ps
ansiosos dos prmeiros a chegar j a haviam convertido em atoleiro.
Depois das baias onde ficavam os carneiros, as vacas, os touros, os porcos,
as cabras e os bodes, gado excelente e perfeito que disputava os prmios
a serem conferidos, erguiam-se tendas cheias de peas de artesanato
e guloseimas. Eles admiraram o gado, os bolos, os xailes de croch,
as roupas de tric, as toalhas de mesa bordadas, os gatos, os ces e os
canrios.
 Na extremidade mais afastada de tudo isto ficava a pista de equita-
o, onde jovens cavaleiros e amazonas passavam com os seus cavalos
a meio galope diante dos juzes que pateciam, como se afigurou  risonha
Meggie, to cavalares como os animais que desfilavam diante deles.
Viam-se amazonas com magnficos vestidos de montar encarrapitadas
em silhes no alto de cavalos enormes, com as suas cartolinhas envoltas
em vaporosos vus. Como poderia uma pessoa montada e enchapelada
 de modo to precrio manter-se imperturbvel em cima de um cavalo
 que andasse mais depressa do que a asso era coisa que Meggie no
 mnseguia entender, at que viu uma esplndida criatura obrigar o seu
 gil animal a dar uma srie de saltos difceis e terminar de forma to
 impecvel como comeara. Em seguida, a dama esporeou a montada
 com gesto impacente e, partindo a meio galope pelo solo encharcado,
 f-la parar diante de Meggie, Frank e o padre Ralph para atalhar-lhes

115

PASSAROS FERIDOS

o avano. Endireitando a perna, que descrevia uma curva em torno
do silho, a dama sentou-se efectivamente de lado na sela, com as mos
enluvadas estendidas num gesto imperioso.
- Padre! Tenha a bondade de ajudar-me a apear!
 Ralph colocou-lhe as mos na cintuta, ela ps as mos nos ombros
dele e pulou do cavalo; mas assim que os saltos tocaram o solo ele
deixou-a, pego nas rdeas do cavalo e comeou a ndar, enquanto
a dama, ao seu lado, lhe acompanhava sem esforo as largas passadas.
- Pretende vencer a Caada, Senhorita Carmichael? - perguntou
o padre em tom de total indiferena.
 Ela amuou; era jovem e muito bonita, e o tom curioso e impessoal
dele irritou-a.
- Espero vencer, mas no posso ter a certeza. A Senhorita Hopeton
e a Senhorita Anthony King tambm vo competir. Entretanto, vencerei
o Dressage e, por isso, se no vencer a Caada, no me zangarei.
 Ela falava arredondando as vogais e com a fraseologia estranha-
mente afectada de uma senhorita educada com tanto esmero que j
nenhum indcio de calor ou de dialecto lhe coloria a voz. Ao dirigir-se-lhe,
o modo de falar do padre Ralph tornava-se tambm mais requintado,
perdendo a sua sedutora sugesto de sotaque irlands, como se a jovem
senhora Ihe evocasse um tempo em que ele tambm fora assim. Meggie
franziu o cenho, intrigada e impressionada pelas palavras ligeiras mas
cautelosas que eles trocavam, sem saber que espcie de modificao
se operara no padre Ralph, mas verificando apenas que ocorrera uma
mudana e que ela no era do seu agrado. Soltou a mo de Frank,
pois tornara-se difcil para eles continuarem caminhando lado a lado.
 Quando chegaram a uma grande poa de gua, Frank ficara para
trs. Os olhos do padre Ralph pareceram sorrir enquanto inspecconava
a gua, que era quase um poo raso; voltou-se para a criana, cuja mo
continuara a segurar com firmeza, e inclinou-se para ela com uma tetnura
especial que a dama no poderia deixar de notar, pois faltara de todo
na sua troca de palavras com ela.
- No uso capa, querida Meggie, e por isso no posso ser o seu
Walter Raleigh. Estou certo de que me perdoar. minha cara Senho-
rita Carmichael - prosseguiu, entregando as rdeas  jovem -, mas no
posso permitir que minha amiga predilecta suje de lama os seus sapatos.
 Ele levantou Meggie e apertou-a de encontro ao quadril, deixando
que a Senhorita Carmichael arrepanhasse as saias roagantes com uma
das mos, pegasse nas rdeas com a outra e atravessasse a poa de gua
sem ajuda de ningum. O som da gargalhada de Frank, logo atrs deles,

116

PSSAROSFERIDOB

no co eribuiu para melhorar-lhe o humor; chegados ao extremo oposto
do charco, deixou-os abruptamente.
- Acredito que ela o mataria, se pudesse - disse Frank enquanto
o padre Ralph punha Meggie no cho. Sentia-se fascinado por aquele
embate e pela crueldade deliberada do sacerdote. Ela parecera a Frank
to bela e to soberba que nenhum homem poderia contrari-la, nem
mesmo um padre; no obstante, Ralph, caprichosamente, propusera-se
abalar-lhe a confiana em si mesma, naquela impetuosa feminilidade
que ela manejava como uma arma. Como se a odiasse e odiasse o que
ela representava, pensou Frank, o mundo das mulheres e o seu requin-
tado mistrio, que nunca tivera a oportunidade de perscrutar. Espicaado
pelas palavras da me, gostaria que a Srta Carmichael reparasse nele,
o filho mais velho do herdeiro de Mary Carson, mas ela no se dignara
sequer admitir-lhe a existncia. Toda a sua ateno estivera concen-
ttada no padre, um ser sem sexo e desvirilizado, embora alto, moreno
e bonito.
- No te preocupes, ela voltar - respondeu o padre Ralph com
cinismo. -  rica e, portanto, no prximo domingo, deixar cait com
muita ostentao uma nota de dez libras no prato da colecta. - Ele riu-
-se ao ver a expresso de Frank. - No sou muito mais velho do que tu,
meu filho, mas, apesar da minha profisso, sou um homem do mundo.
No me censures por isso; pe-o simplesmente na conta da experincia.
 Entretanto, j haviam deixado para trs a pista de equitao
e entrado no recinto reservado s diverses. Tanto para Meggie como
para Frank tudo aquilo era um verdadeiro encantamento. O padre Ralph
dera a Meggie cinco xelins e Frank tinha as suas cnco libras; era mara-
vilhoso possuir dinheiro para pagar a entrada de todas aquelas barracas
sedutoras. Multides apinhavam-se ali, crianas corriam por toda a parte
contemplando de olhos esbugalhados as legendas pintadas lgczbre
e um tanto imperfeitamente  frente das barracas em franca decadncia:
uA Mulher mais Gorda do Mundo>>; <<A Princesa Huri>>; <<A Danarina
da Serpente (Veja-a Atiar as Chamas de Fria de Uma Cobra!)>>;
n0 Homem de Borracha Hindu>>; <<Golias, o Homem mais Forte do
Mundo>>; <<Ttis, a Sereia>>. Em cada uma eles delxaram os seus pence
e viram tudo, extasiados, sem reparar nas escamas tristemente deslu-
zidas de Ttis nem no sorriso desdentado da cobra.
 Na extremidade oposta, to grande que ocupava um quarteiro
inteiro, havia um barraco gigantesco com um alto estrado de tbuas
 sua frente e um friso que se estendia por todo o comprimento do

117

PSSAROS FERlDOS

passeio, cheio de figuras pintadas ameaando a multido. m homem
com um megafone na mo gritava pata o povo reunido.
- Aqui est, cavalheiros, a famosa companhia de pugilistas de
Jimmy Sharman! Oito dos melhores praticantes do mundo, e uma bolsa
para ser arrecadada por qualquer camarada que tenha a coragem de
experimentar !
 Mulheres e raparigas iam saindo do meio da turba com a mesma
rapidez com que homens e rapazes iam chegando de todas as direces,
engrossando-a, apinhando-se debaixo do estrado de tbuas. Com a sole-
nidade de glacladores que desfilassem no Circus Maximus, oito homens
subiram em fila para o passeio de tbuas e ali ficaram, com as mos
na cintura e as pernas afastadas, olhando com arrogncia para a mul-
tido aclmirativa. Meggie sups que eles estivessem de ceroulas, pois
vestiam camisetas pretas e cales cinzentos bem apertados, que iam
da cintura ao meio das coxas. No peito de cada um, grandes letras
maisculas brancas dlZlam COMPANHIA DE JIMMY SHARMAN. No havia
dois do mesmo tamanho, pois alguns eram altos, outros baixos, outros
ainda medianos, mas todos exibiazn um corpo particularmente bem
desenvolvido. Cavaqueando e rindo com a maior naturalidade do mundo,
como se aquela fosse uma ocorrncia quotidiana, friccionavam os ms-
culos e tentavam fingir que no estavam a gostar daquilo.
- Vamos, rapazes, quem vai calar as luvas? - bradava o orador.
-Quem quer experimentar? Calcem as luvas, ganhem cinco libras!
-continuava a berrar entre os ribombos de um tambor.
- Eu quero! - gritou Frank. = Eu quero, eu quero!
 Desenvencilhou-se da mo do padre Ralph, que o retinha, enquanto
as pessoas mais prximas, gue podiam ver-lhe a pequena estatura, come-
atam a rir e, com bonacheirice, o empurraram para a frente.
 Mas o pregoeiro falou muito a srio quando um elemento da com-
panhia estendeu a mo amistosa e puxou Frank escada a cima, a fim
de coloc-lo ao lado dos oito que j estavatn no estrado.
- No se riam, cavalheiros. Ele no  muito grande, mas  o pri-
meito a apresentar-se como voluntrio! O tamanho do cachorro na
briga no tem importncia, o que importa  o tamanho da briga do
cachorro! Vamos ver, aqui est o pequeno corajoso que vai experimen-
tar... onde esto os grandes valentes? Hem? Que tal? Calcem as luvas
e ganhem uma nota de cinco libras, enfrentem um dos membros da
companhia de Jitnmy Sharman!
 Pouco a pouco, as fileiras dos voluntrios foram aumentando.
Os rapazes, tmidos, de chapu na mo, olhavam para os profissionais

118

como um bando de seres de lite. Se bem que morresse por ficar para
ver o que aconteceria, o padre Ralph decidiu, com relutncia, que j era
tempo de afastar Meggie dali. Levantou-a do cho e girou nos calca-
nhares para partir. Meggie comeou a gritar e, quanto mais ele se
afastava, mais alto ela gritava; as pessoas comeavam j a olhar para
os dois, e o facto de o padre ser muito conhecido tornava a cena embara-
osa, para no dizer inconveniente.
- Deixa-te disso, Meggie, no posso levar-te para l. O teu pai
esfolar-me-ia vivo e teria toda a razo!
- Quero ficar cam Frank, quero ficar com Frank! - berrava ela
o mais alto que podia, desferindo pontaps e tentando morder.
- Merda! - disse o padre Ralph.
 Cedendo ante o inevitvel, enfiou a mo no bolso  procura das
moedas necessrias e aproximou-se do guich do barraco, olhando de
esguelha  procura de algum dos Cleary; mas, no conseguindo divisar
nenhum, presumiu que estivessem a tentar a sorte com as ferraduras
ou empanturrando-se de pastis de carne e de sorvetes.
- O senhor no pode entrar com ela, padre ! - disse o homem
que vendia as entradas, escandalizado.
 O padre Ralph ergueu os olhos para o cu.
- Se me disser como poderemos afast-la daqui sem que toda
a fora policial de Gilly nos prenda por molestarmos uma criana, terei
muito prazer em faz-lo! Mas o irmo ofereceu-se para combater e ela
no est disposta a ir-se embora sem travar uma luta que far os seus
rapazes parecerem amadores!
 O bilheteiro encolheu os ombros.
- Bem, padre, no posso discutir com o senhor. Entre, se quiser,
mas... mas... pelo amor de Deus, mantenha-a longe do ringue. No,
no, padre, guarde o seu dinheiro. Jiznmy no gostaria de receb-lo.
 O barraco estava cheio de homens e rapazes, que se comprimiam
em torno de um ringue central; o padre Ralph encontrou um lugar atrs
da multido, junto  parede e ali ficou agarrado a Meggie com todas
as foras. O ar estava enevoado de fumo de cigarro e de charuto e chei-
rava  serradura atirada para o cho a fim de absorver a lama. Frank,
j com as mos enluvadas, era o primeiro candidato do dia.
 Embora fosse inusitado, no era indito um homem sado da mul-
tido enfrentar com xito um pugilista prafissional. Os pugilistas de
Ji my Sharman no seriam, evidentemente, os melhores do mundo,
mas eram os melhores da Austrlia. Colocado diante de um peso-mosca
por causa da sua estatura, Frank abateu-o ao terceiro golpe que desferiu,

119

e ofereceu-se para lutar com outro. Quando chegou ao seu terceiro pro-
fissional, a notcia j circulara pela feira e o barraco ficou to cheio
que no cabia mais ningum.
 Frank mal fora atingido pelas luvas adversrias, e os poucos golpes
que recebera s tinham servido para lhe exacerbar a fria, que no
cessava de crescer. Com os olhos esgazeados, quase crepitantes de pai-
xo, pois cada um dos seus oponentes subia ao ringue com a cara de
Paddy, ouvia os gritos e os aplausos da multido, que lhe martelavam
na cabea como uma vasta e nica voz a ordenar: < Vai! Vai! Vai!>>
Como ele ansiara pela oportunidade de lutar, que lhe fora negada desde
que chegara a Drogheda! S lutando conseguia livrar-se da clera e da
dor e, quando desferia um golpe demolidor, parecia-lhe que a grande
voz rouca do povo lhe diza : << Mata ! Mata ! Mata ! >>
 Depois, puseram-no a lutar com um dos verdadeiros campees, um
peso-leve que recebera instrues para mant-lo  distncia e vetificar
se ele jogava to bem como batia. Os olhos de Jimmy Sharman brilha-
vam. Vivia  procura de campees, e esses pequenos espectculos do
interior j lhe haviam fornecido mais de um. O peso-leve fez o que Ihe
tinham ordenado, apertado de rijo apesar da sua maior categoria,
enquanto Frank, dominado pela sanha assassina, no via mais nada
e perseguia sem cessar a figura danarina e esquiva. Sendo uma dessas
pessoas estranhas que, mesmo no meio de uma fria titnica,  capaz
de pensar, ele aprendia com cada esquiva e com cada saraivada de gol-
pes. E aguentou a luta, apesar do castigo que Ihe infligiram os punhos
experimexitados; tinha um olho inchado, a sobrancelha e o lbio cor-
tados, mas ganhara vinte libras e o respeito de todos os homens
presentes.
 Meggie escapou, num repelo, do aperto de mo j menos firme
do padre e saiu a correr do barraco antes que Ralph pudesse segur-la.
Quando ele a encontrou l fora, a garota vomitara e tentava limpar os
sapatos salpicados com um leno minsculo. Em silncio, o padre deu-lhe
o seu, acariciando-lhe a cabea loira e soluante. A atmosfera l dentro
tambm no lhe fizera bem ao estmago, e ele lamentou que a dignidade
da sua profisso no lhe permitisse o alvio de alij-lo em pblico.
- Queres esperar por Frank ou preferes ir para casa?
- Vou esperar por Frank - murmurou Meggie encostando-se a ele,
imensamente grata pela sua calma e simpatia.
- Eu pergunto a mim prprio por que razo gosto tanto de ti-
comentou ele, julgando-a demasiado nauseada e infeliz para Ihe prestar
ateno, mas precisando expressar os seus pensamentos em voz alta,

120

como o fazem tantas pessoas que levam uma vida solitria. - No me
fazes lembrar a minha me e nunca tive irms, mas eu gostaria de saber
o que se passa contigo e com a tua desgraada famlia... A tua vida tem
sido difcil, minha Meggiezinha?
 Frank saiu da tenda com um pedao de ligadura por cima do olho
e mexendo ao de leve no lbio magoado. Pela primeira vez desde que
o padre Ralph o conhecera, parecia feliz. <<Como parece feliz a 2naioria
dos homens depois de passarem uma boa noite na cama com uma
mulher>>, pensou o padre.
- Que est a Meggie a fazer aqui? - rosnou Frank, ainda no de
todo dissipada a exaltao do ringue.
- Sem lhe amarrar as mos e os ps e sem amorda-la, eu no
conseguiria mant-la longe daqui - disse o padre Ralph, tnordaz, abor-
redo por precsar de justificar-se, mas sem muita certeza de que Frank
no estaria a querer medir-se com ele tambm. Embora no sentisse
medo, tinha receio de fazer uma cena em pblico. - Ela estava preo-
cupada por tua causa, Frank; quer a ficar perto de ti para ver com
os prprios olhos se te saas bem. No a recrimines, Meggie j patece
bastante transtornada.
- No deixes o pai saber que estiveste a menos de um quilmetro
deste lugar - disse Frank a Meggie.
- Vocs no se importam de desistirmos do resto do passeio?
- perguntou o padre. - Creio que nos faria bem a todos um pequeno
descanso e uma chvena de ch na casa paroquial.-E acrescentou,
beliscando a ponta do nariz de Meggie. - E a ti, minha marota, um
bom banho no te far mal.

 Paddy teve um dia atormentado com a irm, ao colocar-se  dis-
posio dela como nunca se colocara  de Fee, ajudando-a a escolher
o seu caminho, fastienta e desabtida, atravs da lama de Gilly, com os
seus sapatos importados, sorrindo e dirigindo-se s pessoas, que cum-
primentava como uma rainha, ficando em p ao seu lado quando fez
a entrega do bracelete de esmeraldas ao vencedor da corrida principal,
o 'i'rofu de Gillanbone. Porque haveriam eles de gastar todo o dinheiro
do prmio numa bugiganga de mulher em vez de entregarem uma taa
folheada a ouro e um bonito mao de notas ao vencedor era uma coisa
que Paddy no entendia, pois no pereebia a natureza profundamente
amadora das corridas,  inferncia de que as pessoas que inscteviam os
seus cavalos no precisavam de dinheiro e, na realidade, poderiam com-
prar s esposas tudo aquilo que elas quisessem. Harry Hopeton, cujo

121

cavalo baio, King Edward, conquistara o bracelete de esmeraldas, j
possua um de rubis, outro de brilhantes e outro ainda de safiras,
ganhos nos anos anteriores; tinha mulher e cinco filhas e declarou que
no poderia parar enquanto no tivesse ganho cinco braceletes.
 A camisa engomada e o colarinho de celulide de Paddy incomo-
davam-no, o fato azul era demasiado quente e os exticos frutos do
mar de Sidnei, servidos ao almoo, com champanhe, no tinham che-
gado  carne de carneiro. E ele sentia-se mal, tinha a impresso de que
parecia um idiota. Conquanto fosse o melhor, o seu fato cheirava
a alfaiate barato e a um buclico desconhecimento da moda. No eram
da sua espcie aqueles rudes fazendeiros vestidos de tweed, aquelas
matronas arrogantes, aquelas jovens pretensiosas, a nata do que o Bul-
leti>z denominava <<fazendocracia>>. De facto, eles faziam o que podiam
para esquecer o perodo do sculo passado em que, chegando quela
rea, haviam tomado posse de vastas extenses de terras devolutas, que
foram depois tacitamente reconhecidas como suas com o advento da
federao e da autonomia poltica. Tinham-se tornado assim o grupo
de pessoas mais invejado do continente, fundado o seu prprio partido
poltco, mandado os filhos para escolas particulares de Sidnei e conver-
sado amistosamente com o prncipe de Gales quando este visitara a Nova
Gales do Sul. Ele, o simples Paddy Cleary, era um trabalhador, nada
tinha em comum com aqueles aristocratas coloniais, que lhe recordavam
a famlia da esposa.
 Assim, quando chegou  sala de estar da casa paroquial e encon-
trou Frank, Meggie e o padre Ralph sentados  volta do lume, como se
tivessem passado um dia maravilhoso e descuidado, i:ritou-se. O apoio
bem-educado de Fee fizera-lhe uma falta insuportvel e ele continuava
a antipatizar com a irm tal como durante a sua primeira infncia, na
Irlanda. De repente, notou o penso sobre o olho de Frank, o rosto
inchado; era um pretexto mandado pelo cu.
- Como  que vais enfrentar a tua me com essa cara? - gritou.
-Basta-te ficar menos de um dia fora da minha vista para brigares
com qualquer um que olhe de lado para ti!
 Assustado, o padre Ralph ps-se em p de um salto, tentando inter-
vir, mas Frank foi mais rpido.
- Eu ganhei dinheiro com sto! - disse, suavemente, apon-
tando para o penso. - Vinte libras por um trabalho de poucos minutos,
mais do que a tia Mary nos paga a si e a mim juntos num ms! Pus
a dormir trs bons pugilistas e ainda aguentei um assalto com um
campeo peso-leve no barraco de Jimmy Sharman, hoje  tarde.

122

E ganhei vinte libras. Eu talvez no me adapte s suas ideias do que
devo ou no fazer, mas hoje conquistei o respeito de todos os homens
que  estavam presentes !
- Meia dzia de tipos cansados e fracassados num espectculo
rasca do interior, e ests todo entusiasmado? Ora, cresce e aparece,
Frank! Sei que no podes crescer mais de corpo, mas poderias fazer
um esforo, por amor da tua me, e cresceres um pouco mais de
espirito!
 O rosto de Frank ficou branco camo cera. Era o insulto mais
terrvel que nm homem poderia dirigir-lhe, e o homem que o insultara
era o seu pai; ele no poderia vingar-se. A respirao comeou a vir-lhe
do fundo do peito com o esforo que fazia para cons rvar as mos
na cintura.
- No so fracassados, pai. O pai conhece Jimmy Sharman to
bem como eu. E o prprio Jimmy Sharman disse-me que tenho um
grande futuro como pugilista; pretende que eu entre para a sua com-
panhia e quer treinar me. E quer pagar-me! Pode ser que eu no cresa
mais, tnas j tenho o tamanho suficiente para sovar qualquer homem...
e isto  tambm para si, seu velho bode fedorento!
 A inferncia por trs do epteto no escapou a Paddy, que ficou to
branco como o filho.
- No te atrevas a chamar-me isso!
- E o que  o senhor? l um nojento,  pior que um carneiro no
cio! No foi capaz de deix-la em paz, no foi capaz de manter as mos
Ienge dela?
- No, no, no! - gritou Meggie. As mos do padre Ralph fir-
matam-se nos ombros dela como garras e conservaram-na junto dele.
As lgrimas corriam-lhe pelo rosto, a garota contorceu-se, desesperada,
para libertar-se, mas em vo. -No, pai, no! Oh, Frank, por favor!
Por favot, por favor! - suplicava em tom agudo.
 Mas o nico que a ouviu foi o padre Ralph. Frank e Paddy esta-
vam defronte um do outro, admitindo afinal a averso e o medo
redpro<os que ambos sentiam. O dique do amor mtuo a Fee rom-
pera-s por fim e a amarga rivalidade entre ambos fora reconhecida.
- Sou marido dela. E pela graa de Deus fomos abenoados com
os nossos filhos - disse Paddy mais calmo, forcejando por dominar-se.
- No  melhor que um velho cachorro de merda atrs de qual-
quer cadela em que possa enfiar a sua coisa! - retorquiu Frank.
- E tu no s melhor que o velho cachorro de merda que te gerou,
seja l quem for! Graas a Deus nunca tive participao nisso! -ber-

123

rou Paddy, e deteve-se. - Oh, meu Deus ! - A clera deixou-o como
um vento ulutante, e cambaleou, as mos sobre a boca, como se
quisessem arrancar a lngua que pronunciara o impronuneivel. - Eu
no queria dizer isto! Eu no queria dizer isto!
 Assim que as palavras foram proferidas, o padre Ralph soltou
Meggie e agarrou Frank. Torcera-lhe o brao direito atrs das costas,
enquanto passava o seu brao esquerdo pelo pescoo do rapaz, sufo-
cando-o. Ele era forte e o aperto paralisante. Frank lutou para libertar-se
mas, de repente, como a sua resistncia diminusse, sacudiu a cabea
num gesto de submisso. Meggie ajoelhara-se, chorando, enquanto alter-
nava os olhos entre o pai e o irmo, numa agonia impotente e splice.
No compreendia o que acontecera, mas sabia que, doravante, no
poderia conservar os dois ao p de si.
- Queria dizer, sim, senhor - rosnou Frank. - Eu j sabia isso
h muito tempo, creio. - Tentou virar a cabea para o padre Ralph.
- Largue-me, padre. Juro por Deus que no lhe tocarei.
- Juras por Deus? Pois Deus h-de apodrecer a alma de vocs
dois! Se causaram algum mal irremedivel a esta garota, mat-los-ei
- rugiu o padre, o nico, agora, ue estava com raiva. - Tive de man-
t-la aqui, obrig-la a ouvir o que vocs disseram, com medo de que
se matassem um ao outro na minha ausnca! E era o que eu devia
t-los deixado fazer, cretinos miserveis e egostas!
- Est bem, eu vou-me embora - disse Frank com voz estranha
e vazia. - Vou juntar-me  companhia de Jimmy Sharman e no
voltarei.
- Tens de voltar! - murmurou Paddy. - Que direi  tua me?
s mais importante para ela do que todos ns juntos. Ela nunca me
perdoar.
- Diga-lhe que me juntei a Jimmy Sharxnan porque desejo ser
algum.  a verdade.
- O que eu disse... no  verdade, Frank.
 Os olhos negros e estranhos de Frank fuzilaram desdenhosos,
os olhos que haviam intrigado o padre quando este os vira pela primeira
vez; como  que Fee, de olhos cinzentos, e Paddy, de olhos azus, haviam
tido um filho de olhos negros? O padre Ralph conhecia as Leis de
Mendel, e achava que nem o tom dos olhos de Fee poda tornar pos-
svel a terceira cor.
 Frank agarrou no chapu e no casaco.
-  verdade! Pressenti-o h muito. Lembro-me da me a tocar
piano numa sala que o senhor nunca poderia possuir! A sensao de

124
PSSAROSFERIDOS

que no estivera sempre ali" de que veo depois de mim, de que ela foi
minha primeiro. - Soltou uma gargalhada seca. - E pnsar que em
todos esses anos censurei-o por hav-la destrudo, e quem fez isso fui eu.
Fui eu !
- No foi ningum, Frank, ningum! - bradou o padre, tentando
segur-lo. - Isso faz parte do grande plano imperscrutvel de Deus;
pensa nisto desta maneira.
 Frank livrou-se da mo que procurava det-lo e dirigiu-se  porta
com o seu jeito leve de andar na ponta dos ps. Nascera para ser
pugilista, pensou o padre Ralph num canto ignorado do seu crebro,
a uele crebro de cardeal.
- O grande plano imperscrutvel de Deus! - zombou a voz do
rapaz j da porta. - O senhor no  melhor do que um papagaio
quando faz o papel de sacerdote, padre de Bricassart! Peo a Deus que
o proteja porque, de todos ns aqui,  a nica pessoa que no faz ideia
do que ele realmente !
 Sentado numa cadeira, plido, Paddy ps os olhos horrorizados
em Meggie, que, ajoelhada e encolhida ao p do fogo, chorava e balana-
va-s para a frente e para trs. Levantou-se para ir ter com ela, mas
o padre Ralph afastou-o com rudeza.
- Deixe-a em paz. J fez o suficiente. H usque no aparador;
beba um copo. Vou pr a criana na cama, mas voltarei para conver-
sarmos, por isso no se v embora. Est a ouvir, homem?
- Fiearei aqui, padre. Ponha-a na cama.

 Em cima, no encantador quarto de dormir verde-ma, o padre
desabotoou o vestido e a camisa da garota e f-la sentar-se na beira
da cama para poder tirar-lhe os sapatos e as meias. A camisola de dormir
estava sobre o travesseiro, onde Annie a deixara; enfiou-lha por cima
da cabea e cobriu-lhe o corpo decentemente antes de puxar-lhe
as calas. Enquanto isso, falava com ela, contando-lhe histrias tolas
a respeito de botes que se recusavam a sair das casas, de sapatos que
teimavam em no se desatacar, de fitas que nunca se desatavam.
Eta imposslvel dizer se ela o ouviu; tal como as suas histrias no
nartadas de tragdias infantis, de desgraas e sofrimentos superiores
 sua idade, os olhos olhavam, tristonhos, para alm do ombro dele.
- Agora deita-te, minha querida, e procura dormir. Voltarei daqui
a pouco, por isso no te preocupes, ouvistes? Ento falaremos sobre
tudo isto.

125

- Ela est bem? - perguntou Paddy quando o padre voltou
 sala de estar.
 Ralph de Bricassart estendeu a mo para pegar na garrafa de usque
colocada sobre o aparador e serviu-se de meio copo.
- Sinceramente, no sei. Por Deus que est no cu, Paddy,
eu gostaria de saber qual  a maior maldio de um irlands, se a bebida,
se o gnio. Que foi que lhe deu para dizer aquilo? No, no precisa
de responder! J sei, foi o gnio. E  verdade, naturalmente. Descobri
que ele no era seu filho logo quando o vi pela primeira vez.
- Poucas coisas lhe escapam, no  verdade?
- Acho que sim. Entretanto, no so necessrios poderes extraordi-
nrios de observao para perceber quando alguns membros da minha
parquia esto perturbados ou sofrem. E, tendo-o percebido,  meu
dever fazer o que posso para ajudar.
- O senhor  muito querido em Gilly, padre.
- O que, sem dvida, devo agradecer ao meu rosto e ao meu
fsico - disse o padre com amargura, incapaz de fazer com que a obser-
vao soasse to leve como pretendera.
- L isso que pensa? Pois eu no concordo consigo, padre. Ns
apreciamo-lo porque o senhor  um bom pastor.

- Seja como for, parece que estou inteiramente enredado nas vossas
dificuldades - disse o padre Ralph sem entusiasmo. -  melhor abrir-
-se comigo, homem.
 Paddy olhou para o fogo que ateara at dar-lhe as propores
de uma fornalha, enquanto o padre punha Meggie I:a cama, num excesso
de remorso e desesperado por fazer alguma coisa.  copo vazio tremeu-
-lhe na mo numa srie de rpidos movimentos convulsivos; o padre
Ralph levantou-se para pegar na garrafa de usque e tornou a ench-lo.
Depois de um longo gole, Paddy suspirou, enxugando as lgrimas esque-
cidas no rosto.
- No sei quem  o pai de Frank. Isso aconteceu antes de eu
conhecer Fee. Do ponto de vista social, a famlia dela, praticamente,
 a primeira da Nova Zelndia, e o pai possua uma grande propriedade,
onde semeava trigo e criava carneiros, perto de Ashburton, na ilha do Sul.
O dinheiro no era a finalidade deles, e Fee era a nica filha. Pelo que
pude depreender, o pai j tinha planeado a vida dela - uma viagem
 Inglaterra, a estreia na corte, o marido certo. Ela, naturalmente,
nunca precisara de mexer um dedo dentro de casa, pois tinham criadas,
mordomos, cavalos e grandes carruagens; viviam como fidalgos.

12g

 aEu era o leiteiro e, s vezes, via Fee  distncia, a passear com
um garotinho de um ano e meio, mais ou menos. Depois disso, o velho
James Armstrong veio falar comigo. A sua filha, disse, desonrara
a famlia: no era casada e tinha um filho. Tudo fora abafado,  claro,
mas, quando tentaram mand-la embora, a av provocara tamanho
estardalhao que no puderam fazer outra coisa seno mant-la ali,
apesar da inconvenincia. Agora, porm, a av estava a morrer e nada
havia que os impedisse de livrarezn-se de Fee e do filho. Eu era um
homem solteiro, dsse James; se casasse com ela e me comprometesse
a tir-la da ilha do Sul, eles pagariam as nossas despesas de viagem
e dar-nos-iam mais quinhentas libras.
 <<Bem, padre, isso era uma fortuna para mim, e eu j estava cansado
da vida de solteiro. Mas sempre fui to tmido que nunca tive sorte
com mulheres. A ideia pareceu=me boa e, sinceramente, no me incomodei
com a criana. A av soube da histria e mandou=me ehamar, embora
estivesse a passar muito mal. Ela devia ter sido uma pessoa intratvel
no seu tempo, embora fosse uma verdadeira dama. Contou me alguma
coisa sobre Fee, mas no disse quem era o pai, nem eu senti vontade
de perguntar. De qualquer maneira, fez-me prometer que eu seria bom
para a neta - sabia que a expulsariam de casa assim que ela fechasse
os olhos, e por isso sugerira a James que lhe encontrasse um marido.
Senti pena da pobre velha, que gostava loucamente de Fee.
 <<O senhor acredita, padre, se eu Ihe disser que s cheguei suficiente-
mente perto de Fee no dia em que casei com ela?
-  claro que acredito - disse o padre a meia voz. Olhou para
o lquido no copo, bebeu-o de um sorvo e, em seguida, estendeu a mo
para pegar na garrafa e tornar a encher os dois copos. - Isso quet dizer
que desposou uma dama que estava muito acima de si, Paddy.
- Sim. A princpio, eu tinha um medo danado dela. Era to bonita
naquele tempo, padre, e to... fora de tudo, percebe o que quero dizer?
Como se nem estivesse ali, como se tudo aquilo estivesse a acontecer
a outra pessoa.
- Ela ainda  bonita, Paddy - disse o padre Ralph com bran-
dura. - Posso ver em Meggie como deve ter sido Fiona antes de comear
a envelhecer.
- A vida no tem sido fcil para ela, padre, mas no sei que
outra coisa eu poderia ter feito. Comigo, pelo menos, estava segura
e no era maltratada. Levei dois anos para criar coragem e ser... bem,
um marido de verdade para ela. Tive de ensin-la a cozinhar, a varrer
o cho, a lavar e a passar roupa, pois no sabia fazer nada disso.

127

 < E nem uma s vez durante todos estes anos que estivemos casados,
padre, ela se queixou, riu, ou chorou. S na parte mais ntima da nossa
vida em comum  que manifesta, algumas vezes, os seus sentimentos,
e mesmo ento no fala. Espero que fale e, no entanto, no, quero
que o faa, porque tenho sempre a impresso de que, se o fizer,
dir o nome dele. No quero afirmar que Fee no goste de mim nem
dos nossos filhos, mas eu amo-a de mais, e parece-me que ela j no
tem dentro de si esse tipo de sentimento. A no ser por Frank,
eu sempre soube que ela o amava mais do que a todos ns juntos.
Deve ter amado tambm o pai dele, mas nada sei a respeito do homem,
quem era e porque no puderam casar.
 O padre Ralph olhou para as mos, piscando.
- Oh, Paddy, que inferno  estarmos vivos! Graas a Deus no
tenho a coragem de experimentar mais que um pedao da periferia
da vida.
 Paddy levantou-se, sem muita firmeza.
- Bem, padre, agora est tudo acabado, no est? Mandei Frank
embora e Fee nunca me perdoar.
- Voc no deve contar-lhe isso, Paddy. Diga-lhe apenas que Frank
fugiu com os pugilistas e deixe as coisas assim. Ela sabe como Frank tem
sido rrequieto; acreditar em si.
- Eu no posso fazer uma coisa dessas, padre! - Paddy estava
assombrado.
-  preciso, Paddy. No acha que Fee j sofreu bastante e teve
bastantes aflies? No amontoe mais desgostos sobre a cabea dela.

 E consigo mesmo pensava: <<Quem sabe? Quem sabe se ela apren-
 der afinal a dar ao marido o amor que tem por Frank, ao marido
 e quela garotinha que est l em cima.
- Pensa mesmo assim, padre?
- Penso. O que aconteceu hoje  noite no deve transpirar.
- E que me diz de Meggie? Ela ouviu tudo.
- No se preocupe com Meggie, eu encarregar-me-ei dela. No reio
 que tenha compreendido, de tudo o que aconteceu, seno que houve
uma zanga entre si e Frank. Eu f-la-ei ver que, agora que Frank se foi,
falar  me a respeito da briga seria apenas proporcionar-lhe mais um
motivo de sofrimento. Alm dissa, algo me diz que Meggie, para comear,
no conta muita coisa  me. - Levantou-se. - V para a cama,
Paddy. Ter de parecer normal e estar  disposio de Mary amanh,
lembra-se?

128

 Meggie no adormecera ainda; estava deitada, de olhos atregalados,
na penumbra produzida pela lampadazinha colocada  beira da cama.
O padre sentou-se ao lado dela e viu que a garota ainda tinha as tranas.
Com todo o cuidado, desatou as fitas azul-marinho e puxou-lhas com
delicadeza, at que o cabelo se espalhou, ondulado e fulvo, sobre o tra-
vesseiro.
- Frank foi-se embora, leggie. - disse.
- Eu sei, padre.
- E sabes porqu, minha querida?
- Ele zangou-se com o pai.
- E que  gue vais fazer?
- Vou-me embora com Frank. Ele precisa de mim.
- No podes fazer isso, Meggie.
- Posso, sim. Eu queria ir procur-lo hoje  noite, mas as minhas
pernas no me seguravam em p e tambm no gosto do escuro.
Mas amanh de manh irei.
- No, Meggie, no deves fazer isso. V bem, Frank precisa de
viver a sua prpria vida, e j est na altura de partir. Sei que no queres
que v, mas h muito tempo que ele deseja ir. No sejas egosta;
deixa-o viver a sua prpria vida. - A monotonia da repetio, pensava
o padre,  preciso martelar. - Quando crescemos,  natural que dese-
jemos uma vida fora da famlia, e Frank j cresceu. Ele agora deve
ter o seu lar, a sua esposa, os seus filhos. Compreendes, Meggie?
A briga entre o teu pai e o teu irmo foi apenas um sinal do desejo
de Frank de sair de casa. No aconteceu por eles no gostarem um
do outro, mas porque  assim que muitos rapazes saem de casa,
uma espcie de pretexto. A briga foi um pretexto para Frank conseguir
o que queria h muito tempo, um pretexto para se it embora.
Compreendes, Meggie?
 Os olhos dela transferiram-se para o rosto do padre e ali ficaram.
Estavam to cansados, to cheios de sofrimento, to velhos!
- Eu sei - disse -, eu sei. Frank queria sair de casa quando
u era pequena, e no saiu. O pai trouxe-o de volta e obrigou-o a ficar
connosco.
- Mas desta vez o teu pai no o trar de volta, porque j no pode
obrig-lo a ficar. Frank foi-se embora para sempre, Meggie. No voltar.
- E nunca mais tornarei a v-lo?
- No sei - retorquiu o padre, sincero.- Eu gostaria de dizet
que sim, que  claro que tornars a v-lo, mas ningum pode predizer
o futuro, Meggie, nem mesmo os padres. - Respirou fundo. - E outra

129

coisa: no contes  tua me que houve uma briga, Meggie, ests a ouvir?
Isso deiv-la-ia muito nervosa, e ela no tem passado bem.
- Porque vai ter outro beb?
- Que  que sabes acerca disso?
- A me gosta de fazer bebs; ela j fez muitos. E faz uns bebs
to bonitinhos, padre, mesmo quando no est a passar bem. Eu tambm
vou fazer um como Hal e, ento, no sentirei tanto a falta de Frank,
no  verdade?
- Partenognese - disse Ralph. - Boa sorte, Meggie. E se no
conseguires fazer um beb?

- Ainda tenho Hal - disse ela sonolenta, ajeitando-se na cama.
Depois perguntou: - Padre, o senhor tambm se ir embora? Tambm?
- Talvez um dia, Meggie, mas no ser to cedo, no te preocupes.
Tenho a impresso de que ainda ficarei em Gilly por muito, muito
tempo - respondeu o padre Ralph com os olhos amargos.

130

6

 o havia outta soluo, Meggie teve de voltar para casa. Fee
 no podia arranjar-se sem ela e, assim que o deixaram sozinho
 no Convento de Gilly, Stuart comeou a fazer greve de fome.
 E tambm voltou para Drogheda.
 Era Agosto e fazia muito frio. Havia um ano que eles tinham
chegado  Austrlia, mas este Inverno era mais frio que o anterior.
No chovia e o ar, de to gelado, feria os pulmes. Nos topos da Great
Divide, a quase quinhentos quilmetros a leste, a neve acumulara-se
em grande quantidade, mas no chovera a oeste de Barren Junction
desde a cheia provocada pelas mones do Vero anterior. As pessoas,
em Gilly, j falavam de outra seca: ela estava atrasada, teria de vir,
talvez j tivesse comeado.
 Quando Meggie viu a me, sentiu como que um peso terrvel
a cair sobre si; talvez uma despedida da infncia, um pressentimento
do que significava ser mulher. Exteriormente no se via em Fee mudana
alguma, exceptuando-se a barriga enorme; interiormente, porm, dimi-
nuta o ritmo, como um velho relgio cansado que andasse cada vez
mais devagar, at parar para sempre. A vivacidade que Meggie sempre
Ihe notara desaparecera. Fee erguia os ps e tornava a p-los no cho
como se j no tivesse a certeza do modo correcto de faz-lo. Uma espcie
de hesitao espiritual instalara-se na sua maneira de andar, e no
mostrava alegria pela vinda do beb, nem mesmo o contentamento
tigidamente controlado que revelara em relao a Hal.
 O pequenito de cabelos vermelhos andava aos trambolhes pela
casa, tropeando constantemente em tudo, mas Fee no fazia a menor
 cntativa para discipln-lo, nem mesmo pata vigiar-lhe as tropelias,
entretida no crculo vicioso formado pelo fogo, pela mesa de trabalho

131

e pela pia da cozinha, como se nada mais existisse. Meggie, portanto,
no teve alternativa; encheu simplesmente o vazio que havia na vida
da criana e passou a ser a sua me, o que no constitua sacrifcio
para ela, pois queria-lhe muito e via no pequerrucho o alvo indefeso
de todo o amor que j estava em condies de dispensar a uma criatura
humana. Ele chorava chamando-a, pronunciou o nome dela primeiro
que qualquer outro, erguia os braos para que lhe pegasse ao colo.
E isso enchia-a de um contentamento to grande que, apesar do trabalho
pesado, do tric, dos remendos, da costura, da lavagem de roupa,
das galinhas e de todas as outras tarefas de que estava sobrecarregada,
Meggie achava a sua vida muito agradvel.
 Ningum falava em Frank, mas, de seis em seis semanas, Fee erguia
a cabea ao ouvir o grito do carteiro e, durante algum tempo, mostrava-se
animada. Depois, a Sr  Smith trazia-lhes o que acabara de chegar para
eles e, quando no vinha carta de Frank, o breve assomo de interesse
desaparecia.
 Havia agora duas vidas novas na casa. Fee deu  luz gmeos,
mais dois minsculos Cleary de cabelo vermelho, baptizados com os
nomes de James e Patrick. Possuindo o gnio alegre do pai e a sua
natural amabilidade, os bebs em breve passaram a ser propriedade
comum, pois, alm de amament-los, Fee no demonstrava qualquer
interesse por eles. Pouco depois, os seus nomes foram abreviados para
Jims e Patsy; eles eram os ai-jesus das mulheres da casa grande, as duas
criadas solteironas e a governanta viva e sem filhos, que sentiam imensa
falta das delcias de um beb. Tornou-se extremamente fcil para Fee
esquec-los - tinham trs mes dedicadssimas - e,  medida que
os dias se escoavam, foi-se admitindo que eles passassem a maior parte
do tempo na casa grande. Meggie no podia tom-los sob a sua proteco
e tratar de Hal ao mesmo tempo, pois este era muito possessivo e no
Ihe interessavam as carcias desajeitadas e inexperientes da Sr ' Smith,
de Minnie e de Cat. Meggie era o centro afectivo do seu mundo; ele no
queria saber de ningum a no ser de Meggie, no queria ter ningum
a no ser Meggie.

 Bluey Williams negociou os seus formosos cavalos de ro e a sua
carroa macia, trocando-os por um camio, e a cortespondncia passou
a chegar de quatro em quatro semanas, em vez de seis em seis.
No entanto, continuava a no haver notcias de Frank, cuja lembrana
se foi esvaindo aos poucos, como sempre sucede, at com aqueles a quem
dedicamos muito amor;  como se, no nosso crebro, existisse um

132

processo curativo inconsciente, que nos faz esquecer, apesar da nossa
desesperada determinao. Para Meggie, foi um gradativo e doloroso
desvanecimento da ima em de Frank, um anuviamento dos traos
queridos, transformados numa imagem imprecisa, como de um santo,
to relacionada com o verdadeiro Frank como as imagens convencionais
do Cristo ho-de parecer-se com o Que deve ter sido o Homem. E para
Fee, das profundezas silenciosas em que ela calara a evoluo da sua
alma, foi uma substituio.
 Aquilo aconteceu to discretamente que ningum notou, pois Fee
mantinha-se recolhida em quietude e numa falta absoluta de exterioriza-
o; a substituio foi uma coisa interior, que ningum teve tempo
de ver, excepto o novo objecto do seu amor, que tambm nada revelou.
Uma coisa oculta, no expressa, entre eles, para amortecer-lhes a solido.
 Talvez fosse inevitvel, pois de todos os seus filhos era Stuart
o nico que se parecia com ela. Aos catorze anos ele representava um
mistrio to grande para o pai e para os irmos como representara Frank,
mas, ao contrrio deste, ele no provocava hostilidade nem irritao.
Fazia o que lhe ordenavam sem se queixar, trabalhava tanto como os
outros e no criava encrespamentos no lago tranquilo da vida dos Cleary.
Conquanto tivesse o cabelo vermelho, era o mais atrigueirado de todos
os rapazes, a puxar para o moreno, e as seus olhos, claros como a  ua
plida na sombra, pareciam ter remontado ao eomeo do tempo e visto
tudo como tudo realmente era. Era tambm o nico filho de Paddy
que prometia ser bonito ao atin ir a idade adulta, se bem que Meggie,
em particular, julnasse que Hal lhe faria sombra uando che asse a sua
ver de crescer. Ningum sabia jamais o que Stuart pensava; tal como Fee,
curiosa de se manter totalmente imvel, to imvel por dentro como
por fora, e para Meggie, a mais prxima dele na idade, Stuart arecia
capaz de ir a lugares a que ningum jamais lograria segui-lo. O padre
Ralph expressou-o de outro modo:
- Esse garoto no  humano! - exclamou no dia em que descar-
regou em Drogheda um Stuart que iniciara uma greve de fome ao ver-se
 nho no convento, sem Meggie. - Ele disse, porventura, que queria
voltar para casa? Disse que sentia a falta de Meggie? No! Apenas deixou
de comer e esperou, paciente, que a razo penetrasse nos nossos crnios
espessos. Nem uma vez abriu a boca para se queixar e, quando me
ac rquei dele e lhe perguntei, gritando, se queria voltar para casa, sorriu
sin plesmente para mim e disse que sim com a cabeca!
 A medida, porm, que se passava o tempo, decidiu-se tacitamente
Que Stuart no iria para os pastos trabalhar com Paddv e os outros

133

rapazes, ainda que a idade lho permitisse. Ficaria a guardar a casa,
a cortar a lenha, a cuidar da horta, a ordenhar - desincumbindo-se
das imensas tarefas que as mulheres no tinham tempo de executar
com trs criancinhas em casa. Era prudente ter sempre um homem perto,
ainda que no fosse um homem feito, pois seria uma prova da presena
de outros homens por ali. Na verdade, s vezes havia visitantes - o passo
pesado de botas estranhas subindo a escada de tbuas da varanda das
traseiras e uma voz estzanha a perguntar:
- Bom dia, dona, tem um pouco de comida para um homem?
 Eles enxameavam o serto, os andarilhos que carregavam as suas
trouxas de uma fazenda para a outra, de Queensland paza baixo e de
Vitria para cima, homens que tinham perdido a sorte ou no queriam
saber de empregos regulares e preferiam percorrer, a p, milhares de
quilmetros  cata s eles sabiam de qu. Sujeitos decentes quase todos,
apareciam, comiam uma refeo abundante, enfiavam na trouxa um
pouco de ch, acar e farinha, que ganhavam, e desapareciam no
caminho que conduzia a Barcoola ou a Narrengang, a gamela a saltar-
-lhes nas costas, ces escanzelados a trotarem atrs deles. Os itinerantes
australianos raro andavam a cavalo ou de carro; caminhavam.
 De vez em.quando aparecia um homem mau,  espreita de mulheres
cujos homens estivessem ausentes, no pensando em estupro, mas em
roubo. Por isso Fee tinha uma espingarda carregada num canto da cozi-
nha, onde os mais pequenos no pudessem alcan-la, e certificava-se
de que estava mais prxima dela do que o seu visitante, at que a sua
vista experimentada lhe avaliasse o carcter. Depois de a casa ter sido
oficialmente declarada domnio de Stuart, Fee passou-lhe a espingarda
com prazer.
 Nem todos os visitantes eram andarilhos, se bem que estes
 constitussem a maioria; havia, por exemplo, o homem da Watkins
 e o seu velho Ford T, onde carregava tudo, desde linimento para cavalos
 at sabonete cheiroso, muito diferente do sabo, duro como pedra,
 que Fee fazia no tacho de cobre da lavandaria, com sebo e soda custica;
 gua de lavanda e gua-de-colnia, ps e ctemes para rostos ressequidos
 pelo sol. Havia coisas que ningum sonhava em comprar seno do
homem da atkins, por exemplo, o seu unguento, muito melhor do
que qualquer unguento de farmcia e capaz de curar tudo, desde o talho
na ilharga de um co-pastor at  ferida numa canela humana.
As mulheres amontoavam-se em todas as cozinhas que ele visitava,
ansiosas por v-lo abrir a sua grande mala de mercadorias.

134

 E havia outzos vendedores, que visitavam com menos regulari-
dade as regies nteriores do que o homem da Watkins, mas que eram
igualmente bem recebidos, os quais negociavam em tudo, desde cigarros
feitos sob encomenda e cachimbos de fantasia at peas inteiras de
tecido e, s vezes, roupas de baixo escandalosamente sedutoras e esparti-
Ihos cobertos de fitas. As mulheres do serto, limitadas, no raro,
a uma ou duas viagens por ano  cidade mais prxima, longe das lojas
brilhantes de Sidnei, longe das modas, tinham muita fome dessas coisas.
 A vida parecia feita rincipalmente de poeira e de moscas. H muito
tempo que no chovia, nem sequer um chuvisco caa para assentar
a poeira e afogar as moscas; e quanto menos chuva, mais moscas e mais
poeira.
 Todos os tectos estavam enfeitados com longas e preguiosas
espirais revoluteantes de pap l pega-moscas, que ficavam pretas de
corpos um dia depois de haverem sido pregadas. No se podia deixar
nada descoberto nem por um instante sem que o objecto em causa se
transformasse numa orgia ou num cemitrio de moscas, e minsculos
pontinhos de excr mentos enchiam os mveis, as paredes e o cho.
 E a poeira! No havia maneira de fugir desse p fininho e pardo
que se introduzia at nos recipientes mais bem fechados, sujava o cabelo
recxn-lavado, deixava a pele areenta, enfiava-se nas dobras das roupas
e das cortinas e revestia as mesas polidas de uma pelcula que voltava
a formar-se assim qu era removida. Os soalhos estavam sempre com
altura de poeira, proveniente das botas limpas sem cuidado e do vento
quente e seco que entrava pelas portas e janelas abertas. Fee viu-se
obrigada a enrolar os seus tapetes persas na sala de visitas e mandou
Stuart pregar o linleo que comprara sem ver na loja de Gilly,
 O soalho da cozinha, por onde passava a maior parte das pessoas
quando entravam, era feito de tbuas de teca que j tinham a cor de
ossos velhos de tanto serem esfregadas com uma escova de arame
e sabo de barrela. Fee e Meggie cobriam o soalho de serradura,
recolhida com cuidado por Stuart no depsito de lenha, borrifavam-na
cam preciosas partculas de gua e varriam a mixrdia hmida e de
cheiro acre para a varanda, e da varanda para a horta, a fim de que l
se decompusesse e transformasse em estrume.
 Nada, porm, conseguia deter a poeira por muito tempo e, volvidos
alguns dias, o arroio secou e dele sobraram apenas umas poas, de modo
 ue j no se podia ir l buscar gua para a cozinha e para a casa
de banho. Stuart levava o camio-tanque at ao poo e trazia-o cheio.
 flespejava-o depois num dos tanques vazios de gua de chuva e as

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mulheres tinhazn de acostumar-se a uma espcie diferente de gua horrvel
na loua, nas roupas e nos corpos, pior do que a barrenta do riacho.
O lquido ranoso, com cheiro de enxofre, tinha de ser eliminado eseru-
pulosamente dos pratos e tornava o cabelo opaco e grosso, como palha.
A pouca gua de chuva que ainda restava era estritamente usada para
 eber e cozinhar.

 O padre Ralph observava Meggie com ternura. Ela estava a escovar
a cabea vermelha e encaracolada de Patsy, enquanto Jims, em p,
esperava, obediente, a sua vez, ao mesmo tempo que dois pares de
brilhantes olhos azuis erguiam-se, adorativos, para ela. Era o que a garota
parecia, uma minscula mezinha. Teria de ser alguma coisa nascida
com elas, ponderou o padre, essa peculiar obsesso das mulheres pelas
crianas, pois, de contrrio, na sua idade, ela consideraria isso muito
mais como obrigao do que como prazer puro, e j teria ido em busca
de algo mais atraente para fazer. Ao invs, Meggie prolongava, de pro-
psito, o trabalho, anelando o cabelo de Patsy entre os dedos a fim
de converter em ondulaes toda aquela desordem. Durante algum tempo
o padre encantou-se com a actividade dela, depois bateu com o chicote
na bota empoeirada e ficou a olhar, macambzio, da varanda para a casa
grande, escondida pelos eucaliptos e trepadeiras, pela profuso de prdios
da fazenda e pelas pimenteiras que se erguiam entre o seu isolamento
e o fulero da vda da propriedade, a residncia do chefe dos pastores.
Que trama estaria a urdir a aranha l em cima, no centro da sua
vasta teia?
- Padre, o senhor no est a prestar ateno! - acusou-o Meggie.
- Desculpa-me, Meggie. Eu estava a pensar. - Voltou-se para ela
no momento em que a garota conelua o trabalho na cabea de Jims,
e os trs quedaram-se a observ-lo em atitude expectante, at ue ele
se inelinou e ergueu os gmeos, colocando um em cada quadril. - Que
tal se fssemos ver a tua Ta Mary, hem?
 Meggie seguu-o pelo caminho a cima carregando-lhe o chicote
e conduzindo a gua castanha; ele levava nos braos os pequerruchos
com fcil familiaridade e parecla no lhe custar, embora o arroio distasse
 um quilmetro e meio da casa grande. Chegados  cozinha, entregou os
 Qmeos a uma exttica Sra. Smith e enveredou pelo caminho que con-
 duzia  casa grande, com Meggie ao seu lado.
 1\ ary Carson estava sentada em sua b rgre, donde quase se no
 levantava; j no tinha necessidade de faz-lo, agora que Paddy se
 mostrava capaz de superintender as coisas. Quando o padre Ralph entrou

136

PASSAROS FEftIDOS

segurando a mo de Meggie, o seu olhar malvolo fez a criana abaixar
o dela; o padre sentiu que o pulso de Meggie se acelerava e apertou-o,
solidrio com ela. A pequena fez  tia uma canhestra cortesia, murmu-
rando uma saudao inaudvel.
- Va para a eozinha, menina, vai tomar ch com a Senhora
Smith - disse Mary Carson, lacnica.
- Porque no gosta dela? - perguntou o padre Ralph, deixando-
se cair na cadeira que j passara a considerar como sua.
- Porque voc gosta.
- Ora, deixe-se disso! - Daquela vez, pelo menos, ela fazia-o
sentir-se perplexo. -  apenas uma criana desamparada, Mary.
- Mas no  isso que v nela, bem o sabe.
 Os formosos olhos azuis pousaram em Mary Carson, sardnicos;
; se sentia mais  vontade.
- E acha-me capaz de me meter com crianas? Afinal de contas,
sou um padre!
- Em primeiro lugar  um homem, Ralph de Bricassart! O facto
de ser padre f-lo sentir-se seguro, mais nada.
 Chocado, ele riu-se. Fosse l como fosse, no poderia esgrimir com
ela naque?e dia; dir-se-ia que Mary havia encontrado a brecha na sua
armadura e por l se houvesse esgueirado com o seu veneno de aranha.
E eIe estava a mudar, a ficar mais velho, talvez a reconciliar-se com
a obscuridade de Gillanbone. Os fogos esta ,am a morrer; ou arderia ele,
agora, por outras coisas?
- No sou um homem - disse. - Sou um padre...  o calor,
talvez, a poeira, as moscas... Mas no sou um homem, Mary. Sou um
padre.
- Oh, Ralph, como voc mudou! - motejou ela. - Ser real-
mente o cardeal de Bricassart que estou a ouvir?
- Isso no  possvel - disse, com uma sombra passageira de
tristeza nos olhos. - Creio que j no me interessa.
 Ela principiou a rir-se, balanando-se pata a frente e para trs
na bergre, observando-o.
- Ser verdade que no quer, Ralph? No quer? Pois bem,
eu deix-lo-ei em paz por mais algum tempo, mas o seu dia de juzo
est a chegar, no tenha d ida. No agora, talvez no nos prximos
dois ou trs anos, mas chegar. Serei como o Demnio e oferecer-lhe-ei...
No digo mais nada! Mas no duvide de que o farei. Voc  o homem
mais fascinante que j conheci. Atira a sua beleza ao nosso rosto,
desdenhoso da nossa insensatez. Mas eu encost-lo-ei  parede, vtima

137

da sua prpria fraqueza, f-lo-ei vender-se como qualquer prostituta
pintada. Duvida?
 Ele inclinou-se para trs, sorrindo.
- No duvido de que o tente. Mas no creio que me conhea to
bem como julga.
- Acha que no? O tempo o dir, Ralph, e s o tempo. Estou
velha; o tempo  a nica coisa que me resta.
- E que pensa que me resta a mim? - perguntou ele. - O tempo,
Mary, nada mais que o tempo. O tempo, a poeira e as moscas.

 As nuvens amontoaram-se no cu, e Paddy comeou a acalentar
esperanas de chuva.
- Tempestades secas - prenunciou Maty Carson. - Essas nuvens
no nos traxo gua. No teremos chuva durante muito tempo.
 Se os Cleary supunham ter visto o pior que a Austrlia poderia
oferecer-lhes em matria de rigor climtico, era porque ainda no
haviam experimentado as tempestades secas das plancies taladas pela
seca. Despojada da humidade confortante, a secura da terra e a do ar
esfregavam-se uma na outra, speras e crepitantes, num atrito irritante
que aumentava sempre, at terminar numa gigantesca descarga da enetgia
acumulada. O cu ficava to escuro que Fee se via obrigada a acender
as luzes dentro de casa; fora, nas cocheiras, os cavalos estremeciam
e saltavam ao menor rudo; as galinhas procuravam os poleiros e escon-
diam a cabea em peitos apreensivos; os ces brigavam e rosnavam;
os porcos mansos que fossavam no lixo do chiqueiro da fazenda enfia-
vam os fonhos na poeira e espiavam atravs dela com olhos brilhantes
e assustadios. Foras sombrias encerradas nos cus punham medo nos
ossos de todos os seres vivos, enquanto vastas nuvens profundas engo-
liam o Sol e preparavam-se para vomitar o fogo solar sobre a Terra.
 O trovo veio marchando de muito longe com passo cada vez ma;s
rpido, minsculos lampejos no horizonte davam ntido relevo a vaga-
lhes que se elevavam, cristas de surpreendente alvura, espumantes
e encrespadas, sobre profundezas azul-ferrete. Depois, corz um vento
que rugia e aspirava a poeira para arremess-la aos olhos, aos ouvidos
e s bocas, veio o cataclismo. Eles j no precisavam de tentar imaginar
a clera bblica de Deus; viveram-na. Homem algum teria deixado de
pular quando o trovo estalou - explodiu com o fragor e a fria de um
mundo que se desintegrasse =, mas, transcorrido algum ternpo, a fam-
lia reunida habituou-se de tal modo a ele que saram todos para a varanda
e de l cravaram os olhos, do outro lado do crrego, nas pastagens dis-

138

tantes. Grandes relmpagos zebravam o cu com veias d fogo, cada
qual composto de dzias de raios que no cessavam; clares de nafta,
em cadeia, riscavam as nuvens saindo dos vagalhes e voltando a eles,
numa fantstica brincadeira. rvores crestaram-se sozinhas no meio do
capm, fumegavam, e eles compreenderam, afinal, porque tinham mor-
rido essas solitrias sentinelas dos pastos.
 Um brilho fantstico, sobrenatural, tomou conta do ar, um ar que
j no era invisvel, mas ardia por dentro, lanando fluorescncias rseas,
lilases e amarelas e exalando um perfume obsessivamente doce e esquivo,
inteiramente irreconhecvel. As rvores tremeluziam, o cabelo vermelho
dos Cleary era aureolado por lnguas de fogo, os plos dos seus braos
ficavam rigidamente em p. E durante toda a tarde aquilo continuou,
s se desvanecendo e s os livrando do seu medonho fascnio ao pr
do Sol. Todos estavam excitados, nervosos, irrequietos. Nem um pingo
de chuva cara, mas o haver sobrevivido inclume ao furor atmosfrico
era como ter morrido e ressuscitado, e durante uma semana no pude-
ram falar noutra coisa.
- Ainda teremos muitas mais - disse Mary Carson, aborrecida.
 E tiveram-nas, de facto. O segundo Inverno seco, sem neve, veio
mais frio do que haviam julgado possvel; a geada depositava-se no
cho,  noite, com vrios centmetros de espessura, e os ces
encolhiam=se, trmulos, nos canis, empanturrando-se de carne de can-
guru e de montes de gordura do gado abatido na fazenda, para se aque-
cerem. O mau tempo significava, pelo menos, que se podia comer carne
de vaca e de porco em lugar da eterna carne de carneiro. Dentro de
casa faziam-se grandes fogueiras crepitantes, e os homens voltavam
para casa sempre que podiam, pois  noite, nos pastos, morriam de
frio. Mas os tosquiadores pareciam chegar contentes; poderiam fazer
o servio mais depressa e suando menos. No espao destinado a cada
homem no grande barraco formara-se, no soalho, um crculo de cor
muito mais clara do que o resto. Era stio onde os tosquiadores, durante
nquenta anos, tinham deixado cair o seu suor alvejante sobre as tbuas
do piso.
 Ainda havia capim nascido da j longnqua cheia, mas em muito
pequena quantidade. Dia aps dia os cus toldavam-se e a luz atnorte-
cia-se, mas no chovia. O vento cortava os pastos, uivando, lgubre,
e fazia girar  sua frente turbilhonantes e pardos lenis de poeira, ator-
mentando a mente com imagens de gua, to parecidos com chuva eram
aqueles farrapos de poeira.

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 As crianas ficaram com frieiras nos dedos, tentavam no sorrir
com os lbios rachados, tinham de tirar com muito cuidado as meias
pata no transformar numa ferida os calcanhares e as canelas, que san-
gravam. Era de todo impossvel petmanecer aquecido diante do vento
spero e forte, sobretudo por as casas terem sido construdas para atrair
cada sopro desgarrado de ar, e no para impedi-lo de entrar. Deitavatn-se
em quartos gelados, levantavam-se em quartos gelados  esperavam,
pacientes, que a me poupasse um pouco de gua quente da chaleira
grande, ao p do fogo, a fim de que o lavar-se no fosse uma expe-
rincia dolorsa, que fazia rilhar os dentes.
 Um dia, o pequenino Hal comeou a tossir e a respirar com difi-
culdade, com uma grande chiadeira no peito. Fee preparou uma cata-
plasma quente de carvo vegetal e aplicou-a sobre o peitinho dolorido,
mas a mezinha no pareceu alivi-lo. A princpio, a me no ficou
excessivamente preocupada, mas,  proporo que o dia foi passando,
ele comeou a piorar to depressa que Fee j no tinha ideia do que
fazer e Meggie, sentada ao seu lado, torcia e retorcia as mos, rezando
uma srie de padres-nossos e ave-marias sem palavras. Quando Paddy
chegou, s seis da tarde, a respirao da criana ouvia-se da varanda,
e os seus lbios estavam azuis.
 Paddy partiu logo para a casa grande a fim de telefonar, mas
o mdico achava-se a sessenta e tantos quilmetros de distncia, ocupado
com outro caso. Eles aqueceram uma panel de enxofre e seguraram
o menino em cima dela, na tentativa de faz-lo tossir e expelir a mem-
brana que se instalara na sua garganta e que o ia, pouco a pouco,
sufocando, mas ele no conseguia contrair a caixa torcica com fora
suficiente para remover a membrana. A sua cara ia ficando de um azul
cada vez mais profundo, a sua respirao era convulsiva. Meggie, sen-
tada, segurava-o nos braos e rezava, com o corao apertado por uma
cunha de dor, ao ver o esforo que o pobrezinho precisava de fazer
cada vez que respirava. Ela queria a Hal como a nenhum outro dos
irmos: era sua me. Nunca at ento desejara to desesperadamente
ser uma me adulta, pois, se fosse uma mulher como Fee, teria, de uma
maneira ou doutra o poder de cur-lo. Fee no podia porque no era
a me. Confusa e aterrorizada, Meggie aconchegava a si o corpinho
arquejante, tentando ajud-lo a respirar.
 No lhe ocorreu que ele poderia morrer, nem quando Fee e Paddy,
ajoelhados  beira da cama, comearam a rezar, sem saber o que mais
poderiam fazer. A meia-noite, Paddy tirou a criana in vel dos btaos

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de Meggie, que a entrelaavam, e deitou-a ternamente sobre a pilha
de travesseiros.
 Os olhos de Meggie abtiram-se; la se amodorrara, porque Hal
cessara de lutar.
- Oh, pai, ele est melhor! - disse.
 Paddy sacudiu a cabea; parecia enrugado e velho, enquanto a lm-
pada lhe captava fios encanecidos do cabelo e plos encanecidos da
barba de uma semana.
- No, Meggie, ele no est melhor, como julgas, mas est em
paz. Fo para Deus, no sofre mais.
- O pai quer dizer que ele est morto - intetveio Fee com uma
voz sem tom.
- Oh, pai, no! Ele no pode estar morto!
 IVlas a criancinha estava morta no ninbo de cobertores. Meggie
teve a certeza assim que olhou para ela, embora nunca tivesse visto
a morte. Parecia uma boneca, no uma criana. Levantou-se e foi
procurar os irmos, sentados cabisbaixos numa viglia apreensiva, em
torno do fogo da cozinha, enquanto a Sr.a Smith, numa cadeira dura
ao lado deles, no tirava os olhos dos minsculos gmeos, cujo catre
havia sido levado para a cozinha, por causa do calor.
- Hal acaba de morrer - disse Meggie.
 Stuart ergueu os olhos, voltando de um devaneio distante.
- Foi melhor assim - disse. - Pensa na paz.
 Ergueu-se quando Fee saiu para o corredor e dirigiu-se a ela, sem
Ihe tocar.
- Deve estar cansada, me. Venha deitar-se. Eu acenderei uma
fogueira para si, no seu quarto. Venha da, v deitar-se.
 Fee voltou-se e seguiu-o sem dizer palavra. Bob levantou-se e saiu
para a varanda. Os outros rapazes ficaram a esfregar os ps no cho
durante algum tempo e depois saram no seu encalo. Paddy no apa-
recera. Sem pronunciar uma palavra, a Sr.a Smith pegou no carrinho
de beb que estava a um canto da varanda e, com muito cuidado,
ajeitou nele Jims e Patsy adormecidos. Olhou para Meggie, enquanto
as lgrimas Ihe corriam pelo rosto.
- Meggie, vou para a casa grande e levo Jims e Patsy comigo.
Voltarei amanh cedo, mas ser melhor que os bebs fiquem com
Minnie, eom Cat e comigo durante algum tempo. Diz isto  tua me.
 Meggie szntou-se numa cadeira e dobrou as mos sobre o regao.
Ele era dela e estava morto! O pequenino Hal, de quem cuidara,
que amara e protegera. O espao que ele ocupara na sua vida ainda no

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se esvaziata; ela ainda sentia o peso quente dele de encontro ao peito.
Era terrvel saber que aquele peso nunca mais descansaria ali, onde ela
o sentira durante quatro longos anos. No, no era uma coisa pela
qual se devesse chorar; as lgrimas destinava-as a Agnes, s feridas
na frgil banha do amor prprio,  infncia que, para sempre, deixara
para trs. Aquele era um fardo que ela teria de carregar at ao fim
dos seus dias, e continuar a viver apesar dele. A vontade de sobreviver
 muito forte em alguns, menos forte noutros. Em Meggie era to
requintada e dctil como um cabo de ao.
 Foi assim que o padre Ralph a encontrou ao chegar com o mdico.
Ela indicou em silncio o corredor, mas no fez qualquer esforo para
acompanh-los. E s muito tempo depois o padre pde fazer, finalmente,
o que desejara desde que Mary Carson telefonara para a casa paroquial;
ir ter cam Meggie, ficar eom ela, dar  pobre rapariguinha algo dele
mesmo para o mais ntimo dela. Duvidava de que mais algum tivesse
sequer percebido o que Hal significava para ela.
 Mas levou muito tempo. Havia que atender s ltimas cerimnias,
pois era possvel que a alma ainda no tivesse abandonado o corpo,
e urgia ver Fee, urgia ver Paddy, urgia dar eonselhos. O mdico
retirara-se, abatido mas acostumado havia muito tempo s tragdias
que a distncia tornava inevitveis. Do que ele disse se depreendia que,
de qualquer maneira, ponca coisa se poderia ter feito to longe do
hospital e de pessoal experimentado. Essa gente arriscava-se, enfrentava
os seus demnios e esperava. A certido de bito diria apenas udifteria",
uma molstia conveniente.
 Finalmente j no havia mais nada que o padre Ralph precisasse
de ver. Paddy fora procurar Fee, Bob e os rapazes tinham ido  carpin-
taria fazer o pequeno caixo. No cho do quarto de Fee, o perfil puro
de Stuart, to parecido com o dela, destacava-se do eu nocturno,
com a cabea no travesseiro e a mo apertando a de Paddy, enquanto Fee
no desfitava os olhos da sombra escura encolhida no cho frio do
quarto. Eram cinco horas da madrugada e os galos j se mexiam,
sonolentos, mas a escurido perduraria por muito tempo ainda.
 Com a estola de prpura em torno do pescoo, porque se esquecera
de que a pusera, o padre Ralph inelinou-se diante do fogo da cozinha e,
espevitando as brasas quase apagadas, transfotmou-as num fogo vivo,
apagou a lmpada na mesa de trs e sentou-se num banco de madeira
defronte de Meggie, a fim de observ-la. Ela crescera, calara botas
de sete lguas que ameaavam deix-lo para trs, superado; observando-a,
sentiu mais profundamente a sua inadaptao do que a sentira durante

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toda a vida, em que o corroera e obcecara uma dvida sobre a prpria
coragem. Afinal, de que tinha medo? Que era o que supunha no poder
enfrentar se um dia lhe surgisse pela frente? Ele podia ser forte pelos
outros, no tinha medo de outras pessoas, mas dentro de si, esperando
que essa alguma coisa sem nome lhe chegasse, deslizante,  conscincia
quando menos a esperasse, conhecia o medo: Ao passo que Meggie,
nascida dezoito anos depois dele, estava a cresce- e, crescendo, superava-o.
 No que ela fosse uma santa, ou mesmo algo mais que a maioria
das pessoas. S que nunca se queixava, possua o dom - ou seria
a maldio? -da aceitao. Fosse o que fosse que xivesse acontecido
ou pudesse acontecer, enfrentava-o e aceitava-o, guardava-o para
alimentar a fornalha do seu ser. Quem ou o que lhe ensinara isso?
E seria algo que se pudesse er.sinar? Ou seria a ideia que ele fazia
dela uma inveno das suas fantasias? Teria isso, de facto, algum valor?
Que seria mais importante, o que ela verdadeiramente era ou o que ele
supunha que fosse?
- Oh, Meggie - disse o padre, num gesto de impotncia.
 Ela voltou os olhos para ele e ofereceu-lhe um sorriso tirado do seu
sofrimento, um sorriso de amor absoluto e transbordante, sem reservas,
visto que os tabos e inibies da sua feminilidade ainda no faziam
patte do seu mundo. O facto de ser amado assim abalou-o, f-lo desejar,
perante o Deus de cuja existncia s vezes duvidava, ser qualquer outra
pessoa no universo, menos Ralph de Bricassatt. Seria isto a coisa
desconhecida? Oh, Senhor, porque haveria ele de am-la assim?
Mas, como sempre, ningu m lhe respondeu, e Meggie continuava sen-
tada, sorrindo para ele.
 Ao despontar da aurora, Fee levantou-se para preparar o pequeno-
-almoo, com a ajuda de Stuart. Pouco depois, a Sra. Smith voltou
com Minnie e Cat, e as quatro mulheres icaram juntas  beira do fogo.
mnversando com voz montona e abafada, presas a alguma liga de
sofrimento que nem Meggie nem o padre compreendiam. Coneluda
a refeio, Megge foi forrar a caixinha de madeira que os rapazes
tinham feito, alisado e envernizado. Sem dizer uma palavra, Fee dera-lhe
um vestido de baile de cetim branco que assumira, havia muito tempo,
com a idade, a colorao do marfim, e ela cortou pedaos da fazenda
para ajustar aos duros contornos do interior da caixa. Enquanto o padre
Ralph a fortava com um atoalhado  e isa de estofo, ela dava forma
aos pedaos de cetim na mquin de costura e, em seguida, juntos,
os dois fixaram o forro no lugar com a ajuda de pequenos pregos.
Feito isto, Fee vestiu o seu beb com a melhor roupa de veludo,

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penteou-lhe o cabelo e deitou-o no ninho macio que cheirava a ela,
mas no cheirava a Meggie, que fora a sua me. Paddy fechou a tampa
do caixozinho chorando: era o primeiro filho que perdia.
 Durante anos, a sala de visitas de Drogheda fora usada como capela;
erguera-se um altar numa das extremidades, e sobre ele se estendera
um pano dourado, bordado pelas monjas de Santa Maria de Urso,
a quem Mary Carson pagara mil libras pelo servio. A Sr Smith
enfeitara a sala e o altar com flores de Inverno dos jardins de Drogheda,
goivos amarelos, prematuros goivos vermelhos raiados de branco e rosas
tardias, massas de flores semelhantes a pinturas cor-de-rosa, que encon-
travam magicamente a dimenso da fragrncia. Ostentando alva branca,
sem rendas, e casula preta, sem adornos, o padre Ralph celebrou o oficio
dos mortos.
 Como acontecia na maior parte das grandes fazendas do serto,
Drogheda enterrava os seus mortos na sua prpria terra. O cemitrio
ficava alm dos jardins, nas margens do crrego ornadas de salgueiros,
e era cercado por uma grade de ferro fundido pintada de branco e por
vegetao que continuava verde at durante a seca, pois era regada
com a gua dos tanques da sede da fazenda. Michael Carson e o seu
filho pequeno estavam ali sepultados numa imponente abbada rnorturia
de mrmore sobre cujo fronto triangular se erguia a esttua de um anjo
em tamanho natural, com a espada desembainhada para guardar-lhes
o repouso. Contudo, uma dzia de tmulos menos pretensiosos cercava
o mausolu, marcados apenas por singelas cruzes brancas de madeira
e arcos brancos, que lhes definiam os limites exactos, alguns at mesmo
sem nome: um tosquiador sem parentes conhecidos, morto numa briga
nos alojamentos; dois ou trs andarilhos cujo ltimo local de actividade
na terra fora Drogheda; alguns ossos assexuados e totalmente annimos
encontrados numa das pastagens; o cozinheiro chins de Michael Carson,
sobre cujos restos mortais se via um curioso guarda-chuva vermelho,
cheio de sininhos tristes, que pareciam repicar perpetuamente o nome
de Hee Sing; um tropeiro cuja cruz dizia apenas < Tankstand Charlie
era um bom sujeito>>; e outros mais, ao lado, alguns dos quais mulheres.
Mas essa simplicidade no era para Hal, sobrinho da proprietria:
enfiaram-lhe o caixo feito em casa numa prateleira no interior da
abbada morturia e fecharam sobre ela trabalhadas portas de bronze.

 Volvido algum tempo, toda a gente deixou de falar em Hal, a no
ser de passagem. Meggie guardou a sua tristeza exclusivamente para si;
o seu sofrimento tinha a desolao que  peculiar s crianas, aumentada

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e misteriosa, embora a prpria juventude a sepultasse sob os aconteci-
mentos de todos os dias e lhe diminusse a importncia. Os rapazes
no sentiram muito, excepto Bob, que tinha idade suficiente para se
afeioar ao irmo. Paddy sofreu profundamente, mas ningum chegou
a saber se Fee sofreu tambm. Ela parecia afastar-se cada vez mais
do marido e dos filhos, de todos os sentimentos. Por causa disso,
Paddy sentiu-se muito grato a Stu pelo modo com que este se ocupava
da me, a grave ternura com que a tratava. S Paddy sabia como
ficara Fee no dia em que ele voltara de Gilly sem Frank. No se lhe
notara o menor indcio de emoo nos mansos olhos cinzentos,
nem endurecimento, nem acusao, nem dio, nem tristeza. Como se
ela tivesse simplesmente  espera do golpe que seria desferido, como o co
condenado espera a bala que o matar, conhecendo o prprio destino
e sem foras para fugir-lhe.
- Eu sabia que ele no voltaria - disse.
- Talvez volte, Fee, se Ihe escreveres depressa - disse Paddy.
 Ela sacudiu a cabea, mas no deu explicaes. Era melhor que
Frank construsse uma vida nova para si, longe de Drogheda e dela.
Conhecia suficientemente o filho para saber que uma palavra sua
o traria de volta, de modo que nunca devia pronunciar essa palavra.
Se os dias eram longos e amargos e traziam uma sensao de malogro,
cumpria-lhe suport-los em silncio. Paddy no fora o homem da sua
escolha, mas jamais existira um homem melhor do que ele. Fee era
uma dessas pessoas cujos sentimentos so to intensos que se tornam
intolerveis, de convivncia impossvel, e a lio que a vida lhe reservara
fora dura. Durante quase vinte e cinco anos ela preoeupara-se em
esmagar a emoo, arrancando-a da existncia, e estava convencida
de que, no fim, a persistncia venceria.
 A vida prosseguiu no ciclo rtmico, interminvel, da terra;
no Vero seguinte vieram as chuvas, no trazidas pelas mones,
mas como subproduto delas, enchendo o crrego e os tanques,
socorrendo as razes sedentas do capim, aplacando a poeira furtiva.
Quase chorando de alegria, os homens lanaram-se ao trabalho, sabendo
que no precisariam de alimentar os cordeiros com biberes. O capim
durara o tempo sufieiente, remediado com a poda das tvores mais
frondosas, mas no era assim em todas as fazendas de Gilly. A quanti-
dade de cabeas que havia numa proprie ade dependia inteiramente
do criador que a dirigia e, para o seu grande tamanho, Drogheda tinha

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menos cabeas do que as que podia comportar, de modo que o seu capin>
durava correspondentemente mais.
 O perodo de pario e as semanas febris que a ele se seguiam
eram as mais atarefadas de todo o calendrio ovino. Todos os carneiros
recm-nascidos tinham de ser examinados; enrolava-se um anel na cauda
de cada um, marcava-se-lhe a orelha e, s fosse macho e no se destinasse
 reproduo, castrava-se. Trabalho asqueroso e abominvel, que os
empapava de sangue at  pele, pois s havia uma maneira de dar conta
do servio em milhares e znilhares de carneiros machos no curto espao
de tempo de que ciispunham. Apertavam-se os testculos entre os dedos,
cortavam-se com os dentes e cuspiam-s-e no cho. Rodeados de tiras
de metal que no lhes permitiam expanso alguma, as caudas dos
cordeiros, machos e fmeas, iam perdendo aos poucos o suprimento
vital de sangue, inchavam, secavam e caam.
 Aqueles eram os melhores rebanhos langeros do mundo, criados
numa escala que no existia em qualquer outro pas, e com pouca
mo-de-obra. Tudo funcionava para produzir l perfeita. Havia o corte
das entrepernas: em torno da extremidade posterior do carneiro a l
ficava suja de excrementos e lndeas de moscas, que formavam frocos
pendentes a que se dava o nome de cardinas. Essa rea tinha de ser
bem raspada ou cortada. Se bem que fosse um trabalho de tosquia
secundrio, muito pouco agradvel, malcheiroso e empestado de moscas,
rendia mais dinheiro aos tosquiadores. Depois havia o banho: milhares
e milhares de animais, que baliam e saltavam, eram conduzidos,
com a ajuda de ces, para um ddalo de cercas, onde entravam e saam
dos banhcs de fenil, que os livravam de carraas pragas e parasitas.
E havia ainda os remdios, mnistrados por meio de imensas seringas
enfiadas pela garganta a baxo, a fim de livrar o carneiro de parasitas
intestinais.
 1Va verdade, o trabalho com os carneiros nunca terminava;
assim que zcabava um servio, logo era tempo de encetar outro.
Reuniam-se e classificavam-se os animais, levavam-se de um pasto para
outro, enxertavam-se ou no as fmeas, tosquiavam-se, banhavam-se,
medicavam-se, abatiam-se e embarcavam-se para serem vendidos.
Drogheda tinha tambm cerca de mil cabeas de gado bovino de pri-
meira qualidade alm dos carneiros, mas, como estes ltimos fossem
muito mais lucrativos, Drogheda, nos bons tempos, abrigava, em mdia,
trs carneiros por alqueire, o que dava um total aproximado de cento
e vinte e cinco mil cabeas. Sendo merinos, no eram vendidos: ao cabo

146

dos anos de produo de l, despachavam-no para os curtumes e mata-
douros, onde os transformavam em peles, lanolina, sebo e cola.
 Foi assim que os clssicos da literatura do serto australiano adqui-
riram significado. A leitura tornara-se mais importante do que nunca
para os Cleary, isolados do mundo em Drogheda; o seu nico contacto
com ele fazia-se atravs da mgica palavra escrita. Contudo, no havia
biblioteca que emprestasse livros nas proximidades, como em ahine,
no se faziam excurses semanais  cidade para ir buscar a correspon-
dncia, os jornais e uma nova pilha de livros, como em ahine.
O padre Ralph preencheu a lacuna saqueando a biblioteca de Gillanbone,
a sua e as estantes do convento, e descobriu, espantado, que, quase
sem dar por isso, organizara uma biblioteca itinerante por intermdio
de Bluey Williams e do camio postal; que andava agora carregado de
livros - livros gastos, manuseados, que percorriam os caminhos cheios
de sulcos entre Drogheda e Bugela, Dibban-Dibban e Braich y Pwll,
Cunnamutta e Each-Uisge, e dos quais se apossavam mentes sequiosas
de distraco. As histrias muito apreciadas eram sempre devolvidas
com grande relutncia, mas o padre Ralph e as freiras mantinham um
cuidadoso registo dos livros que ficavam fora da biblloteca por mais
tempo do que o devido. Em seguida, o padre Ralph encomendava novos
exemplares por intermdio do quiosque de jornais e revistas de Gilly
e punha-os gentilmente na conta de Mary Carson, cmo donativos para
a Sociedade Biblifila de Santa Cruz do Serto.
 Esses eram os tempos em que um livro apenas continha um beijo
casto, em que os sentdos no eram excitados por passagens erticas,
de modo que se traava com menos rigor a linha de demarcao entre
as obras destinadas aos adultos e as prprias para crianas, e no era
v rgonhoso para um homem da idade de Paddy preferir os livros que
os filhos tambm adoravam: Dot and tbe Kangaroo, a srie Billabong,
a respeito de Jim, Norah e Wally, o imortal lK e of tbe Never-Never,
da Sr Aeneas Gunn. Na cozinha,  noite, eles revezavam-se para ler
em voz alta os poemas de Banjo Paterson e C. J. Dennis, emocionando-se
com a cavalgada de < O Homem do Rio Nevado>>, ou rindo-se com
<<O Sujeito Sentimental,> e a sua Doreen, ou enxugando lgrimas sub-
-reptcias  leitura da uRisonha Mary,>, de John O'Hara.

 Eu havia-lhe escrito uma carta, gue, por falta de maior conhe-
cimento, mandara para onde o conheci, no Lachlan, h anos;
 Ele estava a tosguiar guando o conbeci, de modo que lhe

147

mandei a carta, s para experimentar, com este endereo, < Clancy,
do Overflow>>;
 E veio uma resposta redigida numa escrita inesperada (e acho
que a mesma foi escrita com uma unha embebida em alcatro);
 Foi o seu companheiro de tosguia guem a escreveu, e vou
cit-la - verbatim: <<Clancy foi para Queensland trabalhar e no
sabemos onde est>>;
 Em minha fantasia errtica e selvagem me acudiram vises
de Clancy, caminhando <<pelo Cooper a baixo>>, para onde vo
os tosguiadores do Oeste;
 Enguanto o gado segue devagar, Clancy cavalga atrs dele
cantando, pois a vida do peo tem prazeres gue a gente da cidade
desconhece;
 E o serto tem amigos para encontr-Io e as suas vozes
bondosas sadam-no no murmrio das brisas e do rio em seus
baixios, e ele v a esplndida viso das intrminas planicies
soalheiras, e,  noite, a beleza sem par das estrelas sempiternas.

 <<Clancy do Overflow,> era o favorito de todos e Banjo, o poeta
predilecto. Versos de p meio quebrado, talvez, mas os poemas no
se destinavam aos olhos sapientes de intelectuais sofisticados; eram para
o povo, e havia mais australianos naquele tempo que os sabiam de cor
do que os que conheciam as obras clssicas, aprendidas na escola,
de Tennyson e Wordsworth, pois os poemas destes haviam sido escrtos
sob a inspirao da Inglaterra. Multides de narcisos e campos de
asfdelos nada siginificavam para os Cleary, que viviam num clima
onde eles no poderiam existir.
 Os Cleary compreendiam melhor os poetas do serto do que
muita gente, visto que o Overflow era o seu quintal e os rebanhos
de carneiros em viagem uma realidade na estrada destinada ao gado
(havia uma estrada oficial para o transporte do gado que passava perto
do rio Barwon, faxa de terra da Coroa reservada,para a transferncia
de mercadoria viva de um ponto para outro da metade oriental do
continente ). Antigamente os pastores, com os seus rebanhos nmadas
e famintos que acabavam com o capim, no eram bem-vindos, e odiavam-
-se tambm os boieiros, principalmente quando enfiavam as suas mana-
das de vinte a oitenta bois pelo meio das melhores pastagens dos fazen-
deiros. Agora, com estradas oficiais para os primeiros e tendo os boeiros
desaparecido na lenda, as relaes eram mais amistosas entre nmadas
e sedentrios.

148
PSSAROSFERIDOS

 Os pastores ocasionais eram acolhidos com alegria e convidados
a tomat uma cerveja, a dar dois dedos de conversa, a provar a comida
caseira. Vinham, s vezes, em companhia de mulheres, que dirigiam
velhas carroas com pilecas esfoladas, que j tinham sido animais de lida,
entre os varais, enquanto potes, bules e garrafas estrondeavam e retiniam
em redor. Eram as mulheres mais joviais ou mais taciturnas do serto,
que viajavam de Kynuna ao Paroo, de Goondiwindi a Gundagai,
do Katherine ao Curry. Mulheres estranhas; no sabiam o que era ter
um tecto sobre a cabea nem conheciam a maciez de um colcho debaixo
das espinhas duras como ferro. Nenhum homem as subjugava; eram to
rijas e resistentes como c pas que se estendia debaixo dos seus ps
inquietos. Selvagens como os pssaros nas tvores encharcadas de sol,
os seus filhos esgueiravam-se, tmidos, para trs das rodas da carroa
ou saam disparados em busca da proteco do palheiro, enquanto cs
pais conversavam diante de xcaras de ch, trocavam histrias incrveis
e livros, prometiam transmitir mensagens vagas a Hoopiron Collins
ou a Brumby aters, e narravam a fantstica aventura do colono novato
de Pommy Gnarlunga. E, de um modo ou de outro, poderia ter-se
a certeza de que esses nmadas sem razes haviam aberto uma cova
e enterrado um filho, uma esposa ou um companheiro debaixo de algum
coolibah, que nunca seria esquecido, num trecho da estrada que s
parecia o mesmc aos que no sabiam como podem os coraes singula-
rizar uma rvore no meio de uma floresta.
 Meggie desconhecia at o significado de uma expresso to cedia
como < os factos da vidav, pois as circunstncias haviam conspirado
para bloquear todos os caminhos por meio dos quais lhe poderia ter
chegado esse conhecimento. Seu pai traara uma linha rgida entre os
homens e as mulheres da famlia; assuntos como proctiao ou acasala-
mento nunca se discutiam em presena das mulheres, e os homens s
apareciam diante delas completamente vestidos. A espcie de livros que
teria podido dat-lhe uma pista nunca apareceu em Drogheda, e la no
conhecia amigas da mesma idade capazes de contribuir para a sua
educao. A sua vida era toda ela dedicada aos trabalhos domsticos,
e ao redor da casa no havia actividades sexuais de espcie alguma.
As criaturas do Home Paddock eram quase que literalmente estreis.
Mary Carson no criava cavalos, comprava-os a Martin King, de Bugela;
na realidade, os garanhes so uma fonte de aborrecimento, de modo
que Drogheda no tinha nem um. Possua um touro, um animal selvagem
e feroz, cuja cocheira ficava rigorosamente fora dos limites da sede,

149

e Meggie sentia tanto medo dele que nunca se aproximava dos seus
domnios. O acasalamento dos ces, mantidos no canil e acorrentados,
era um exerccio cientfico, supervisado pelos olhos de guia de Paddy
ou de Bob e, portanto, efectuado tambm fora dos limites da sede.
Nem havia tempo para observar os porcos, que Meggie detestava e no
gostava de alimentar. Na verdade, no Ihe sobrava tempo para v r quem
quer que fosse alm dos minsculos irmozinhos, e a ignorncia gera
ignorncia; um corpo e um esprito no despertados dormem atravs
de acontecimentos que o conhecimento cataloga automaticamente.
 Pouco antes do dcimo quinto aniversrio de Meggie, quando
o calor do Vero principiava a subir, rumo ao seu mximo asfixiante,
ela notou umas manchas pardas e irregulares nas cuecas. Um ou dois
dias depois, as manchas desapareceram, mas, seis semanas mais tarde,
voltaram, c a vergonha transformou-se em terror. Da primeira vez
julgara-as causadas por sujidade no orifcio anal, e da a sua mortificao,
mas, da segunda, viu que se tratava inegavelmente de sangue. No tinha
a menor ideia da sua procedncia, mas presumiu que viesse do mesmo
orifcio. A lenta hemorragia desapareceu trs dias depois e no voltou
por mais de dois meses; a lavagem furtiva das cuecas passara desperce-
bida, pois era ela mesma que lavava quase toda a roupa. O ataque
seguinte provocou-lhe dores, as primeiras clicas no hepticas da sua
vida. E a hemorragia foi pior, muito pior. Ela furtou algumas fraldas
dos gmeos, que tinham sido postas fora de uso, e tentou amarr-las
por baixo das cuecas, horrorizada pela perspectiva de que o sangue
pudesse trespass-las.
 A morte que levara Hal havia sido como que uma visita tempes-
tuosa de algo fantasmagrico, mas aquela cessao do prprio ser era
aterradora. Como poderia ela procurar Fee ou Paddy para dar-lhes
a notcia de que estava a morrer de alguma doena indecorosa e proibida?
Somente a Frank teria podido contar as suas dificuldades, mas ele estava
to longe que no sabia onde encontr-lo. Meggie ouvira as mulheres
falar,  mesa do ch, em tumores e cncros, mortes lentas e horripilantes
que as amigas, as mes ou as irms haviam sofrido, e aquilo parecia-lhe,
sem dvida, uma espcie qualquer de tumor que lhe comia as entranhas,
roendo-as em silncio na direco do corao assustado. E ela no queria
morrer !
 As suas ideias sobre a morte eram vagas, como vaga era a ideia
que fazia do seu futuro status naquele incompreensvel outro mundo.
Para Meggie, a religio era muito mais um conjunto de leis do que
uma experincia espiritual, e no poderia ajud-la de maneira alguma.

150

PASSAROS FEftIDOS

Palavras e frases acotovelavam-se, aos pedaos, na sua consncia tomada
de pnico, proferidas pelos pais, pelas amigas, pelas freiras, pelos padres
nos sermes, pelos homens maus nos livros quando ameaavam vingar-se.
No havia maneira de chegar a um acordo com a morte; deixava-se ficar,
noite aps noite, presa de um terror confuso, procurando imaginar se
a morte era uma noite perptua, um abismo de chamas que teria de
transpor num salto para chegar aos campos dourados do lado oposto,
ou uma esfera, como o interior de um balo gigantesco, cheio de coros
que se alteavam e luzes atenuadas por janelas sem fim.
 Meggie assumiu uma atitude de extrema quietao, mas totalmente
diversa do isolamento pacfico e sonhador do Stuart; o seu era o conge-
lamento petrificado de um animal preso ao olhar serpentino do basilisco.
Quando lhe dirigiam a palavra de repente ela estremecia, quando os
pequenitos choravam, chamando-a, ela enchia-os de atenes exageradas,
parecendo querer eYpiar assim o seu infortnio. E, sempre que tinha
um raro momento de folga, fugia para o cemitrio e para Hal, a nica
pessoa morta que conhecia.
 Todos notaram a mudana que nela se operara, mas aceitaram-na
como consequncia natural do crescimento, sem jamais perguntarem
a si mesmos o que esse crescimento acarretava para Meggie; ela escondia
com perfeio as suas aflies. As velhas lies tinham sido bem apren-
didas: o seu domnio de si mesma era fenomenal e o seu orgulho,
imenso. Ningum deveria saber jamais o que estava a acontecer dentro
dela, a fachada continuaria impecvel at ao fim; de Fee a Frank
e deste a Stuart, os exemplos l estavam, e ela era do mesmo sangue,
isso fazia parte da sua natureza e da sua herana.
 Contudo, como o padre Ralph visitava Drogheda com frequncia
e a mudana em Meggie se aprofundava, passando de uma bonita meta-
morfose feminina para uma extino de toda a sua vitalidade, a sua
solicitude por ela cresceu e transformou-se em preocupao e depois
em medo. Debaixo do seu nariz ocorria um depauperamento fsico
e espiritual, ela fugia-lhe, e ele no suportava a ideia de a ver conver-
tida noutra Fee. O seu rosto delicado era todo olhos arregalados e fitos
em alguma perspectiva medonha, e a pele leitosa e opaca, que nunca
ficava bronzeada nem sardenta, tornava-se cada vez mais translcida.
Se o processo continuasse, pensou, ela desapareceria um dia no interior
dos prprios olhos como a cobra que engc,le a sauda, at vogar  deriva
pelo universo como um fuste quase invisvel de vtrea luz cinzenta,
vista apenas do canto da viso onde se emboscam sombras e coisas
ptetas descem, rastejantes, por uma parede branca.

151

 Mas o padre jurou descobrir o que hava, nem que tivesse de
empregar a fora. Mary Carson estava na sua fase de maiores exigncias,
mostrando cimes de todos os momentos que ele passava na casa
do chefe dos pastores, e s a pacincia infinita de um homem subtil
e tortuoso no a deixava perceber a rebelio dele contra o temperamento
possessivo dela. Nem mesmo a preocupao que Meggie Ihe causava Ihe
suplantaria jamais a sabedoria poltica, o reconfortante contentamento
que lhe advinha de observar a aco do seu charme sobre uma criatura
birrenta e refractria como Mary Carson. E ao passo que o cuidado,
h tanto tempo adormecido, pelo bem-estar de outra pessoa mordia
o freio e batia o p, andando de um lado para outro da sua mente,
ele reconhecia a existncia de outra entidade que morava ao l do da
primeira: a fria crueldade felina de levar a palma a uma mulher pre-
sunosa e dominadora, de troar dela. Sempre gostara de fazer isso!
A velha aranha nunca o levaria de vencida.
 Finalmente, conseguiu livrar-se de Mary Carson e foi atrs de
Meggie, alcanando,a no cemiteriozinho,  sombra do plido e to pouco
belicoso anjo vingador. Ela estava a olhar para o enjoativamente plcido
rosto do anjo com o prprio rosto contrado de medo, contraste admir-
vel entre o sensvel e o insensvel, pensou. Mas que estava ele a fazer ali,
correndo atrs dela como uma velha galinha cacarejante quando,
na verdade, aquilo no lhe dizia respeito, quando cabia  me ou ao pai
descobrir o que estava a acontecer? Fee e Paddy, entretanto, nada tinham
visto de anotmal, pois Meggie no era importante para eles da maneita
que o que era para Ralph. E a ele, como padre, cumpria-lhe confortar
os solitrios e os desesperados. Era-lhe insuportvel v-la infeliz e,
no entanto, assustava-o o modo como estava a ligar-se a ela por uma
sucesso de aconteeimentos. Ele ia-a transformando num arsenal de
acontecimentos e lembranas, e sentia medo. O seu amor por ela e o
seu instinto sacerdotal de oferecer-se em qualquer capacidade espiritual
entrava em guerra com um horror obsessivo de tornar-se inteiramente
necessrio a um ser humano, e de fazer com que este se lhe tornasse
tambm inteiramente necessrio.
 Quando ela o ouviu caminhar pela relva, voltou-se para enfrent-lo,
cruzando as mos no colo e abaixando os olhos para os prprios ps.
Ralph sentou-se ao lado dela, com os braos em torno dos joelhos,
a sotaina em dobras, to graciosa como o desafectado comprimento
do corpo que a habitava. No se justificavam rodeios naquele momento;
se pudesse, ela escapar-lhe-ia.

152

PtlSSAROS FERIDOS

- Que aconteceu, Meggie?
- Nada, padre.
- No acredito.
- Por favor, padre, por favor! Eu no posso contar-lhe!
- Ora, Meggie! Criatura de pouca f! Podes contar-me tudo,
tudo o que acontece debaixo do Sol.  para isso que estou qui,
 para isso que sou padre. Sou o representante escolhido de Nosso Senhor
na Terra, ouo as pessoas em Seu nome, posso at perdoar em Seu nome.
E, minha pequena Meggie, no h nada no universo de Deus que Ele
e eu no possamos encontrar motivos em nossos coraes para perdoar.
Precisas de contar-me o que h, porque se algum pode ajudar-te,
esse algum sou eu. Enquanto eu viver, tentarei ajudar-te e proteger-te.
Se quiseres, serei uma espcie de anjoda=guarda, muito melhor do que
esse pedao de mrmore que est a por cima da tua cabea. - Fez
uma pausa para respirar e inclinou-se para a frente. - Meggie, se gostas
de mim, conta-me.
 El enclavinhou as mos.
- Padre, estou a morrer! Estou com um cancro!
 Primeiro sobreveio-lhe um desejo selvagem de rir-se, uma grande
vaga de ruidoso anticlmax; depois olhou para a pele fina e azulada,
os bracinhos magros, e acudiu-lhe um desejo horrvel de chorar, de gritar
a injustia daquilo perante os cus. No, Meggie no inventaria uma
coisa daquelas; era preciso que houvesse uma razo vlida.
- Como  que sabes, minha querida?
 Ela levou muito tempo para diz-lo e, quando o fez, Ralph precisou
de inclinar a cabea at deix-la ao nvel dos la'bios da jovem, nuzn
arremedo inconsciente da pose confessional, a mo escondendo-lhe
o rosto dos olhos dela, ao passo que apresentava  sujidade do mundo
a orelha finamente modelada.
- Faz seis meses, padre, que comeou. Tive umas dores horrveis
na barriga, mas no como clicas de fgado, no, e. . oh, padre!...
uma poro de sangue saiu do meu traseiro!
 Ele atirou a cabea para trs, o que nunca fizera no interior do
confessionrio; em seguida, abaixou a vista para a cabea inclinada
e envergonhada de Meggie, assaltado por tantas emo6es que no con-
seguia controlar os prprios pensamentos. Um absurdo, um delicioso
alvio; uma raiva to grande contra Fee que sentia vontade de mat-la;
uma admirao mesclada de respeito por aquela rapariguita, que tanta
coisa suportara; e um enleio horrvel, que tudo penetrava.

153

 Ralph era to prisioneiro dos tempos como ela. As raparigas vulga-
res de todas as cidades que conhecera, de Dublin a Gillanbone, pro-
curavam de propsito o confessionrio para murmurar-lhe as suas
fantasias como se fossem realidades, preocupadas com a nica faceta
dele que lhes interessava, a sua virilidade, e no querendo admitir que
no tinham o poder de desp rt-la. Falavam em homens que violavam
todos os orifcios, de jogos ilcitos com outras brincadeiras de lu:;ria
e adultrio, e uma ou duas, dotadas de maior imaginao, chegaram
a porznenorizar as relaes sexuais que teriam tido com um padre.
E ele ouvia-as sem o menor vestgio de comoo, a no ser um desprezo
nauseado, pois passara pelos rigores do seminrio e, para um homem
do seu tipo, era fcil pr em prtica essa lio. Mas as raparigas nunca
mencionavam a secreta actividade que as colocava  parte, que
as degradava.
 Por mais que o tentasse, no conseguiu impedir que a onda abra-
sadora se lhe difundisse por baixo da pele; o padre Ralph de Bricassart
continuou sentado, com o rosto voltado para outro lado, escondido
pela mo, e sentiu a humilhao do primeiro rubor.
 Mas isso no ajudava a sua Meggie. Quando se certifieou de que
a vermelhido passara, levantou-se, ergueu-a donde a encontrar i sen-
tada e colocou-a sobre um pedestal de mrmore, de modo que o rosto
dela e o dele ficassem ao mesmo nvel.
- Meggie, olha para mim. No, olha para mim!
 Ela ergueu os olhos chorosos e viu que Ralph estava a sorrir; um
contentamento incomensurvel inundou-lhe a alma, pois ele no sorriria
assim se ela estivesse a morrer; sabia perfeitamente quanto significava
para o padte, ele nunca fizera segredo dsso.
- Meggie, tu no ests a morrer nem tens um cancro. lVo me
cabe a znim dizer-te o que te est a acontecer, mas creio que serei obri-
gado a isso. A tua me j to devia ter contado, h anos, e confesso que
no atino com a razo por que nn o fez.
 O padre ergueu os olhos para o inescrutvel anjo de mrmore
que se erguia acima dele e soltou uma risada peculiar, semiestran-
gulada.
- Meu Deus! Que coisa Tu me ds para fazer. - E logo depois,
dirigindo-se  expectante Meggie: -Em anos que viro, quando fores
mais velha e souberes mais a respeito das coisas do mundo, poders
sentir-te tentada a recordar o dia de hoje com embarao e at com
vergonha. Mas no o recordes assim, Meggie. No h nisto absolu-
tamente nada de vergonhoso nem de embaraoso. Nisto, como em tudo

154

o que fao, sou apenas o instrumento de Nosso Senhor. L a minha nica
funo na Terra, nem devo aceitar nenhuma outra. Estavas muito assus-
tada, precisavas de ajuda, e Nosso Senhor mandou-te essa ajuda atravs
da minha pessoa. S te deves lembrar disso, Meggie. Sou o padre de
Nosso Senhor e falo em Seu nome.
 u0 que te aconteceu sucede a todas as mulheres, Meggie. Uma
vez por ms, durante vrios dias, perders sangue. Isso costuma comear
por volta dos doze ou treze anos de idade... a propsito, quantos tens?
- Tenho quinze, padre.
- Quinze? - Ele szcudiu a cabea, quase no acreditando.-
Bem, se s tu que o dizes, terei de aceitar a tua palavra. Nesse caso,
ests Tnais atrasada do que a maiora das jovens. Mas sso continuar
todos os tneses, at por volta dos cinquenta anos. Em algumas mulheres
o aparecimento do sangue  to regular como as fases da Lua, noutras
j  menos predizvel. Nalgumas mulheres a perda de sangue no acar-
reta dores, noutras  um processo muito doloroso. Ningum sabe porque
difere tanto de uma mulher para outra. Contudo, a perda de sangue todos
os meses  um sinal de que ests madura. Sabes o que quer dizer
umadura>>?
-  claro, padre! Quer dizer crescida.
- Est bem, isso j serve. Enquanto persistir a hemorragia, pode-
rs ter filhos, pois esta  uma parte do ciclo da procriao. Diz-se que
antes da Queda, Eva no ficava menstruada, pois o nome correcto
disso  menstruao, ficar menstruada. Mas quando Ado e Eva caram,
Deus puniu mais a mulher do que o homem, porque foi realmente por
culpa dela que eles caram. Foi ela quem tentou o homem. Lembras-te
das palavras da histria bblica? uTu parirs os teus filhos na dor.>>
O que Deus quis dizer foi que, para a mulher, tudo o que se refere
aos filhos envolve dor. Grande alegria, mas tambm grande dor.  a tua
sina, Meggie, e tPrs de aceit-la.
 Meggie no o saba, mas era assim me mo que ele teria oferecido
conforto e ajuda a qualquer um dos seus paroquianos, embora com
um envolvimento pessoal menos intenso; com a mesma bondade, mas
sem se identificar com a dificuldade. E, talvez um tanto curiosamente,
desse modo o conforto e a ajuda que ele oferecia eram ainda maiores,
como se, tendo passado alm dessas ninharias, elas devessem tambm
passar. Nem era nele uma coisa consciente; ningum que j o procurara
em busca de auxho se sentlra olhado de cima ou censurado pela sua
fraqueza. Muitos padres deixavam os seus confessados sentir-se cul-
pados, indignos ou bestiais, mas ele nunca, pois dava aos outtos

155

PSSAROS FEftIDOS

a impresso de que tambm tinha as suas tristezas e as suas lutas;
tristezas estranhas e lutas incompreensveis, talvez, mas no menos reais.
Ele nunca soube, nem o poderia saber, que a maior parte do fascnio
e da atraco que exercia no residia na sua pessoa mas sim nesse
algo alhe:o, quase divino e, no entanto, muito humano da sua alma.
 No tocante a Meggie, falava-lhe, como Frank lhe falaria, como
seu igual. Mas era mais velho, mais sbio e muito mais instrudo que
Frank, um confidente mais completo. E como era bonita a sua voz,
com o seu leve sotaque irlands e o seu acentuado toque britnico.
Uma voz que levava consigo todo o medo e toda a angstia. Entre-
tanto, ela era jovem, cheia de curosidade, ansiava agora por saber tudo
o que havia para saber, e no se sentia perturbada pelas desconcer-
tantes filosofias dos que pem em dvida constantemente no o <<quem>>
de si mesmos; mas o <<porqu>>. Ele era amigo dela, era o dolo querido
do seu corao, o novo sol do seu firmamento.
- Porque no deveria o senhor contar-me issa, padre? Que foi
que me disse que deveria t-lo sido pela minha me?
- Trata-se de um assunto que as mulheres costumam guardar
para si mesmas. Falar em menstruao ou em regras femininas diante
de homens ou de rapazes  uma coisa que normalmente no se faz,
Meggie.  coisa estritamente para mulheres.
- Porqu?
 Ele abanou a cabea e riu-se.
- Para ser inteiramente sincero, confesso que tambm no sei.
i 'Ias precisas de acreditar em mim quando digo que  assim. Nunca,
ouviste bem?, nunca fales nisso a ningum a no ser  tua me, e nem
lhe digas que discutiste o caso comigo.
- Est bem, padre, no direi.
 Era terrivelmente difcil ser me; havia tantas consideraes pr-
ticas que cumpria no esquecer!
- Meggie, tens de ir para casa contar  tua me que pPrdeste
sangue, e perguntares-lhe o que se deve fazer nestas alturas.
- A me tambm tem isto?
- Todas as mulheres sadias tm. S quando esto  espera de
beb param de perder sangue at ao nascimento da criana.  assim que
as mulheres sabem que esto grvdas.
- Porque deixam de perder sangue quando esperam bebs?
- Isso no sei.  verdade, no sei. Desculpa, Meggie.
- Porque sai o sangue do meu traseiro, padre?
 Ele lanou um olhar penetrante ao anjo, que lho devolveu sere-

156

namente, imperturbvel ante as perturbaes das mulheres. As coisas
estavam a tornar-se muito complicadas para o padre Ralph. Era pasmoso
que Meggie insistisse quando sempre se mostrava to reticente! Com-
preendendo, todavia, que se transformara na fonte dos seus conheci-
mentos a respeito de tudo o que ela no encontrava nos livras, ele
sabia que no devia aparentar o menor constrangimento ou desconforto.
Se o fizesse, ela fugiria para dentro de si mesma e nunca mais lhe per-
guntaria coisa alguma.
 Por isso respondeu, paciente:
- O sangue no vem do traseiro, Meggie. Existe uma passagem
oculta na frente e  essa que se relaciona com os filhos.
- Oh !, o senhor quer dizer que  por a que eles saem, no  ?-
acudiu ela. -Eu sempre desejei saber como  que eles saam.
 Ralph sorriu e desceu-a do pedestal.
- Pois agora j sabes. E sabes como  que se fazem bebs, Meggie?
- Ah, isso sei - respondeu ela com importncia, contente por
saber ao menos alguma coisa. -Ns fazmo-los, padre.
- E como se comea?
- Desejando-os.
- Quem te disse isso?
- Ningum. Eu mesma deseobri.
 O padre Ralph cerrou os olhos e disse para si que ningum pode-
ria chamar-lhe covarde por deixar as coisas no p em que estavam.
Sentia ter pena dela, mas no era possvel ajud-la mais do que j
fizera.

157

7

 uarrno Mary Carson ia completar setenta e dois anos de idade,
 planeou a maor festa que j se realizara em Drogheda nos
 ltimos cinquenta anos. A sua data natalcia festejava-se no
 princpio de Novembro, quando j fazia calor, mas um calor
 ainda suportvel - pelo menos para os naturais de Gilly.
- Tome nota disso, Senhora Smith! - sussurrou Minnie. - Tome
nota disso! Foi em Novembro que a t'urrd nasceu!
- Que  que pretende agora, Min? - perguntou a governanta.
O cltico pendor de Mnnie para o mstrio bulia com os seus bons
e slidos nervos ingleses.
- Isso significa que ela  uma mulher do Escorpio, no  ver-
dade? Uma mulher do Escorpio, vejam bem!
- No tenho a menor ideia acerca do que voc est a falar, Min!
- Esse  o pior signo em que uma mulher pode nascer, minha
querida Senhora Smith. Safa, elas so filhas do Diabo, sem tirar nem
pr! -acudiu Cat, de olhos arregalados, persignando-se.
- Francamente, Minnie, voc e Cat so o mximo - disse
a Sr.a Smith, que no se deixara impressionar.
 A comoo, porm, j era grande e seria maior ainda. A velha
aranha na sua bergre, no centro exacto da sua teia, emitiu uma torrente
infindvel de ordens; isto tinha de ser feito, aquilo tinha de ser feito.
tais e tais coisas deviam ser tiradas do depsito ou colocadas no dep-
sito. As duas criadas irlandesas passavam os dias polindo as pratas,
lavando as melhores porcelanas de Haviland, retransformando a capela
em sala de visitas e aprontando as salas de jantar adjacentes.
 Mais atrapalhados do que ajudados pelos pequenos Cleary, Stuart
e um grupo de biscateiros cortavam e aparavam a relva, limpavam

158

os canteiros de flores, espalhavam serradura molhada nas varandas, para
tirar a poeira que ficava entre os ladrilhos espanhis e giz seco no
soalho da sala de visitas, a fim de prepar-lo para as danas. A banda
de Clarence O'Toole viria de Sidnei juntamente com ostras, caranguejos
e lagostas; vrias mulheres de Gilly tinham sido contratadas eomo aju-
dantes temporras. Todo o distrto, de Rudna Hunsh a Inishmurrav
e de Bugela e Narrengang, se achava em plena fermentao.
 Enquanto nos corredores de mrmore ecoavam sons no habituais
de objectos mudados de lugar e de pessoas que gritavam, Mary Carsou
transferiu-se da bergre para a eserivaninha, pegou numa folha de papel
de pergaminho, molhou a pena no tinteiro e comeou a eserever, sem
qualquer hesitao, sem uma pausa sequer para pensar na posio de
uma vrgula. No decorrer dos ltimos cinco anos ela estudara mental-
mente todas as frases intrincadas, at torn-las perfeitas. No levou
muito tempo para termnar; duas folhas de papel, a segunda com uma
quarta parte, pelo menos, em branco. Mas por ora, coneluda a ltima
sentena, acomodou-se na cadeira. A eserivaninha de tampa de correr
ficava ao lado de uma das grandes janelas, de modo que Ihe bastava
vrar a cabea para enxergar os relvados. Um riso vindo de fora f-la
olhar, a princpio ociosamente, depois com uma raiv t que Ihe retesot
os msculos. Maldito fosse ele e a sua obsesso!
 O padre Ralph ensinara I\ Ieggie a montar; filha de uma famlia
do campo, ela nunca cavalgara escarranehada na montaria, at que
o padre remediou a deficincia. De facto, por mais estranho que pare-
cesse, as filhas de famlias pobres do campo no cavalgavam com muita
frequncia. A equitao eta um passatempo para :zs raparigas ricas do
campo e da cidade. As jovens com a experincia de Meggie poderiam
dirigir carros, carroas e parelhas de animais pesados, at tractores
e s vezes automveis, mas raro montavam a cavalo. Custava muito
dinheiro ensinar uma filha a montar.
 O padre Ralph trouxera, de Gilly, botinas de elstico e calas de
sarja e deixou-as cair pesada e ruidosamente sobre a mesa da cozinha
dos Cleary. Paddy erguera os olhos do livro que costumava ler depois
do jantar, levemente surpreendido.
- Que traz a, padre? - perguntou.
- Roupas de montar para Meggie.
- Qu? - mugiu a voz de Paddy.
- Qu? - guinehou a voz de Meggie.
- Sim, roupas de montar para Meggie. Francamente, Paddy, voc
 um idiota de primeira classe! Herdeiro da maior e mais rica fazenda

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da Nova Gales do Sul, nunca deixou a sua nca filha montar a cavalo!
Como acha que ela ocupar o lugar a que tem direito ao lado da Senho-
rita Carmichael, da Senhorita Hoperton e da Senhorita Anthony King,
todas exmias amazonas? Meggie precisa de aprender a montar, tanto
em silho com em sela comum, ouviu? Compreendo que tenha muita
coisa que fazer, por isso eu mesmo a ensinarei, e tanto me faz que
goste ou no disso. Se as aulas de equitao interferirem nas suas obri-
gaes dentro de casa, pacincia. Durante algumas horas por semana
ter de se arranjar sem Meg e, e pronto.
 Uma coisa de que Paddy era incapaz seria de discutir com um
padre; Meggie aprendeu a montar num instante. Durante anos ansiara
pela oportunidade e, certa vez, aventurara=se a pedir ao pai, timida-
mente, que a deixasse aprender, mas ele esquecera-se do pedido logo
a seguir, e ela nunca mais o repetira, cuidando ser aquela a sua maneira
de dizer no. Aprender com o padre Ralph deixou-a numa alegria que
ela no demonstrou, pois nessa altura a sua adorao pelo padre trans-
formara-se em paixonite aguda, muito infantil. Sabendo ser uma coisa
totalmente impossvel, dava-se ao luxo de sonhar com ele, de pensar
em como se sentiria nos braos dele, recebendo as seus beijos. Os sonhos
no poderiam ir alm disso, visto que ela no tinha ideia do que vinha
depois, nem mesmo de que viesse sequer alguma coisa. E se soubesse
que era errado sonhar assim com um padre, no parecia haver maneira
de ela se disciplinar e deixar de faz-lo. O mximo que conseguia era
certificar-se de que ele no tinha a menor ideia do rumo que haviam
tomado os seus pensamentos.

 Enquanto Mary Carson observava pela janela da sala de estar,
o padre Ralph e Meggie vinham caminhando das cocheiras, que fica-
vam na extremidade mais afastada da casa grande, do lado da residncia
do chefe dos pastores. Os homens da fazenda montavam ossudos ani-
mais de lida que nunca tinham visto o interior de uma cocheira em
toda a sua vida: s entravam nos cercados quando eram destacados para
o trabalho e cabriolavam pelo capim de Home Paddock quando eram
revezadas. Mas havia cocheiras em Drogheda, onde Mary Carson man-
tinha dois cavalos de raa para uso exclusivo do padre Ralph. Quando
este lhe perguntou se Meggie poderia usar tambm as suas montadas,
ela no encontrou pretexto para objectar. A rapariga era sua sobrinha,
e ele tinha razo. Ela precisava de saber montar decentemente.
 Com toda a acrimnia que cabia no seu velho corpo inchado,
Mary Carson desejara ter sido capaz de recusar ou, ento, de cavalgar

160

com eles. Mas no podia fazer uma coisa nem outra. E mortific va-a
v-los agora, atravessando juntos o relvado, ele de calas de montar,
botas que lhe chegavam aos joelhos e camisa branca, gracioso como
um bailarino, ela esguia e puerilmente linda no seu trajo de mazona.
Ambos irradiavam uma amizade natural; pela milionsima vez Mary
Carson perguntou a si mesma por que razo ningum, alm dela, lhes
censurava a estreita e quase ntima amizade. Paddy achava-o maravi-
Ihoso, Fee - uma palerma! - nada dizia, como sempre, ao passo que
os rapazes os tratavam como irmos. Seria porque ela prpria amava
Ralph de Bricassart que via o que ningum mais via? Ou estaria apenas
a iznaginar coisas, e no havia em tudo aquilo nada mais que a atnizade
de um homem de trinta e tantos anos por uma garota que nem sequer
chegara  plenitude da sua feminilidade? Tolice. Nenhum homem que
tivesse mis de trinta anos, nem mesmo Ralph de Bricassart, poderia
deixar de ver a rosa que desabrochava. Nem mesmo Ralph de Bricassart?
Ah!, principalmente Ralph de Bricassart ! Nada escapava quele homem.
 Tremiam-lhe as mos; a pena salpicou de manchas azul-ferrete
o fundo do papel. O dedo nodoso tirou outra folha de um escaninho,
tornou a mergulhar a pena no tinteiro e reescreveu as palavras com
a mesma segurana da primeira vez. Em seguida, ergueu-se, ofegante,
e dirigiu o seu vulto para a porta.
- Minnie! Minnie! - chamou.
- Valha-nos Deus,  ela! - disse claramente a criada, da sala de
visitas fronteira. O seu rosto sem idade, cheio de sardas, surgiu  porta.
- Em que posso ser-lhe til, querida Senhora Carson? - perguntou,
indagando a si mesma por que razo a velha no tocara a campainha
chamando  Sr.a Smith, como costumava faz-lo.
- V procurar o Tom e o homem que anda a consertar as cercas.
Mande-os vir falar comigo imediatamente.
- Devo informar primeiro a Senhora Smith?
- No! Faa apenas o que Ihe estou a dizer, rapariga!
 Tom, o faz-tudo do jardim, era um velho encarquilhado, que,
dezassete anos antes, passara pela fazenda com a sua trouxa de anda-
rilho e o seu bule, e a eitara trabalho por uns dias; mas apaixonara-se
pelos jardins de Drogheda e agora no suportava a ideia de deix-los.
O outro, nmada como tdos os da sua raa, fora desviado da tarefa
interminvel de esticar fios de arame entre as cercas a fim de consertar
as estacas brancas da sede para a festa. Aterrados pelo chamamento,
apareceram poucos minutos depois e ali ficaram com as calas de tra-

161

balho, os suspensrios e as camisas de flanela, torcendo netvosamente
o chapu entre as mos.
- Vocs sabem escrever? - indagou a Sr.a Carson.
 Os dois assentiram com a cabea, engolindo em seco.
- Bem. Quero que me vejam assinar este pedao de papel e depois
escrevam os vossos nomes e endereos logo ahaixo da minha assinatura.
Entenderam ?
 Eles disseram que sIm com a cabea.
- Tomem o cuidado de assinar como o fazem sempre e escrevam
os vossos endereos permanentes com bastante clareza. No me importa
que seja a posta-restante do correio. O que  preciso  poderem receber
correspondncia atravs desse endereo.
 Os dois homens viram-na escrever o seu nome; foi a nica vez
em que ela no escreveu apertando as letras. Tom adiantou-se e fez
estalar a pena sobre o papel com dificuldade; depois o consertador de
cercas escreveu <<Chas. Hawkins>> em letras grandes e redondas, e um
endereo em Sidnei. Mary Carson observou-os com ateno; quando
terminatam, deu a cada um uma nota vermelha de dez libras e man-
dou-os embora com instrues categricas para no abrirem a boca acerca
daquilo.
 Meggie e o padre tinham desaparecido havia muito tempo. Marv
Carson tornou a sentar-se pesadamente  sectetria, puxou outra folha
de papel para junto de si e recomeou a escrever. Mas no rematou
essa comunicao com a facilidade e a fluI cia da anterior. Muitas e mui-
tas vezes parou pata pensar e logo, com os Ibios contrados num
sorriso sem alegria, continuava. Dir-se-ia que tinha muita coisa para
dizer, pois as suas palavras eram apertadas, as suas linhas muito juntas
umas das outras e, mesmo assim, precisou de uma segunda folha de
papel. No fim, releu o que escrevera, juntou todas as folhas, dobrou-as
e enfiou-as num sobtescrito que fechou com cera vermelha.

 S Paddy, Fee, Bob, Jack e Meggie iriam  festa; Hughie e Stuart
foram incumbidos de cuidar dos mais pequenos, para secreto alvio de
ambos. Por uma vez ao menos na sua vida, Mary Carson abrira a car-
teira o suficiente para deixar sair algumas notas, e todos tinham com-
prado roupas novas, as melhores que Gilly poderia proporonar.
 Paddy, Bob e Jack viram-se imobilizados atrs de camisas de pei-
tilhos engomados, colarinhos altos e gravatas-borboleta brancas, casaca
preta, calas pretas e colete branco. Seria uma festa muito formal, casaca
e gravata branca para os homens, vestidos compridos para as mulheres.

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 O vestido de crepe de Fee, de um azul-cnzento particularmente
co, assentava-lhe muito bem, chegando at ao cho em pregas suaves;
 o decote baixo, as mangas apertadas nos pulsos e era generosa-
mente aljofrado, anuito ao estilo da rainha Mary. Como aquela imperial
datna, Fe trazia o cabelo alto com rolos cados para trs, e a loja de
Gilly fornecera-lhe uma gargantilha e brlncos de imitaes de prolas,
que s seriam reconhecidas mediante rigorosa inspeco. Um magnfico
leque de penas de avestruz, tingidas da mesma cor do vestido, com-
pletava o conjunto, menos ostentoso do que parecia  primeira vista;
a temperatura estava inusitadamente elevada e, s sete horas da noite,
o termmetro ainda marcava mais de trinta e oito graus.
 Quando Fee e Paddy saram do quarto, os garotos ficaram embas-
bacados, pois nunca tinham visto os pais to sumptuosamente belos,
to esttanhos. Paddy aparentava, com efeito, os seus sessenta e um anos,
mas com tanta distino que poderia passar por um estadista. Fee
parea ter perdido, de repente, dez dos seus quarenta e oito anos, bela
e magicamente sorridente. Jims e Patsy comearam a chorar, recusan-
do-se a olhar para a me e o pai, at que estes voltaram ao normal e, no
rebulio da consternao, a dignidade foi esquecida; Fee e Paddy com-
portaram-se como sempre o faziam e, dali a pouco, os gmeos tambm
estavam radiantes de admirao.
 Contudo, foi para Meggie que todos olharam durante mais tempo.
Recordando=se talvez da prpria infncia e despeitada porque todas
as outras jovens convidadas tinham encomendado os seus vestidos em
Sidnei, a costureira de Gilly izera com o corao o vestido de Meggie,
que era sem mangas e decotado; a princpio, Fee mostrara-se relutante,
mas, em face das splicas de Meggie e tendo-lhe a costureira asse rado
que todas as raparigas usariam modelos semelhantes - quereria ela que
chamassem  filha antiquada e mal vestida? -, Fee acabara por ceder.
De crepe georgette, levemente cintado, o vestido tinha uma faixa do
mesmo tecido em torno da cintura. A sua cor, misto de cinzento-palha
e de cor-de-rosa plido, davam, naquele tempo, o nome de rosa-cinza;
ambas, a costureira e Meggie, haviam-no bordado todo com minsculos
botes de rosa. E Meggie mandou cortar o cabelo da maneira mais
parecida possvel com o corte das moas de Gilly, rente ao pescoo,
d Iu garonne. Se bem que fosse muito encaracolado para ajustar-se
inteitamente  moda, ficava-lhe melhor curto do que comprido.
 Paddy abriu a boca para dizer que ela assim a nao era a sua
pequena Meggie, mas tornou a fech-la, setn pronunciar uma palavra;
a cena com Frank na casa paroquial, tantos anos atrs, ensinara-lhe

163

PASSAROS FEftIDOS

muita coisa. No, ele no poderia consider-la, para sempre, uma garo-
tinha; Meggie j era uma mulher, uma mulher algo surpreendida ante
a assombrosa transformao que o espelho lhe mostrara. Porque tornar
as coisas ainda mais difceis para a pobre jovem?
 Ele estendeu-lhe a mo, sorrindo com ternura.
- Como ests linda, Meggie! Eu mesmo te darei o brao, e Bob
e Jack levaro a me.
 Faltava exactamente um ms para ela completar dezassete anos
e, pela ptimeira vez na vida, Paddy sentiu-se velho. Mas Meggie era
o tesouro do seu corao, e nada haveria de estragar-lhe a primeira festa.
 Cazninharam devagar at  sede da fazenda, muito cedo; eles jan-
tariam com Mary Carson e deveriam ajud-la a receber os convidados
 medida que fossem chegando. Ningum queria sujar os sapatos, mas
um quilmetro e meio pela poeira de Drogheda signficava uma pausa
na cozinha para limp-los e sacudir a poeira da bainha das calas e da
orla dos vestidos que arrastavam pelo cho.
 O padre Ralph estava de batina, como sempre: nenhum fato mas-
culino Ihe cairia to bem como aquela tnica severamente cortada, que
se alargava levemente de cima para baixo, com os inmeros botezinhos
de fazenda preta que a fechavam da bainha at o pescoo e a faixs
de monsenhor de bordas purpurinas
 Mary Carson decidira usar cetim branco, rendas brancas e penas
brancas de avestruz. Fee quedou-se a olhar aparvalhada para ela, arran-
cada  sua indiferena habitual. Aquilo Pra incongruentemente nupcial,
grosseiramente inadequado - porque carga de gua se vestira ela daquela
maneira, como uma velha solteirona que estivesse a brincar aos casa-
mentos? Ela engordara muito ultimamente, e isso no melhorava as
coisas.
 Paddy, contudo, no parecia ver nada de errado; adiantou-se para
agarrar, radiante, nas mos da irm. Era um tipo amvel, pensou
o padre Ralph enquanto observava a cena, entre divertido e alheado.
- Ora, viva, Mary! Ests linda! Pareces uma jovem!
 Na verdade ela parecia uma cpia quase exacta da famosa foto-
grafia da rainha Vitria tirada no muito antes da sua morte. L esta-
vam as duas linhas pesadas de cada lado do nariz dominador, e boca
obstinada feita de traos indmitos, os olhos glaciais e levemente salien-
tes cravados insistentemente em Meggie. Os formosos olhos do padre
Ralph passaram da sobrinha  tia e voltaram  sobrinha.
 Mary Carson sorriu para Paddy e ps a mo no brao dele.
- Podes levar-me para jantar, Padraic. O padre de Bricassart dar

164

PASSAROS FERIDOS

o brao a Fiona e os rapazes tero de arranjar-se com Meggie. - Voltou-
 para a sobrinha, por cima do ombro. - Vais danar esta noite?

- Ela  muito novinha ainda, Mary, no completou dezassete
 s - apressou-se a dizer Paddy, lembrando-se de mais uma deficin-
cia paterna: nenhum dos seus filhos aprendera a danar.
- Que pena - disse Mary Carson.
 Foi unaa festa esplndida, sumptuosa, brilhante gloriosa; foram
esses, pelo menos, os adjectivos mas empregados para descrev-la. Royal
O'Mara l estava, vindo de Inishmurray, a trezentos e sessenta quil-
metros de distncia; fora ele quem viera de mais longe, em companhia
da esposa, dos filhos e da nica filha, embora no se avantajasse dema-
 aos outros nesse particular. As pessoas de Gilly no achavam
grande coisa viajar trezentos e sessenta quilmetros para assistir a uma
partida de crquete, quanto mais para ir a uma festa. Duncan Gordon
vera de Each-Uisge; ningum jamais lograra persuadi-lo a explicar
porque dera  sua fazenda, to longe do oceano, o nome escocs do
cavalo-marinho. Martin King, a esposa, o filho Anthony e a Sr.a An-
thony; era o fazendeiro mais velho de Gilly, j que Mary Carson no
podera chamar-se assim por ser mulher. Evan Pugh, de Braich y Pwll,
que o distrito pronunciava Brakeypull. Dominic O'Rourke, de Dibban-
-Dibban; Horry Hopeton, de Beel-Beel; e dzias de outros.
 Quase todas as famlas presentes eram catlicas e poucas ostenta-
vam nomes anglo-saxes; havia, praticamente, uma distribuio igual
de irlandeses, escoceses e galeses. No, eles no poderiam aguardar pela
autonomia na ptria-me, nem, se fossem catlicas na Esccia ou no
Pas de Gales, esperar muita simpata dos protestantes. Mas aqui,
nos mlhares de quilmetros quadrados em torno de Gillanbone,
donos de tudo o que a vista alcanava, podiam estar-se nas tintas para
os senhores ingleses; Drogheda, a maior propriedade, tinha uma rea
superior  de vrios principados europeus. Principezinhos monegascos,
duques lechtensteinianos, cuidado! Mary Carson  maior do que vocs.
Por isso mesmo rodopiavam ao som das valsas executadas pela macia
orquestra de Sidnei e recuavam, indulgentes, para ver os filhos danar
o charleston, enquanto comiam bolinhos de lagosta e ostras cruas,
bebiam champanhe francs de quinze anos de idade e usque escocs
de doze. Pata dizer a verdade, teriam preferido comer uma perna assada
de carneiro ou um bom naco de carne de vaca preservada em salmoura,
e terim gostado muito mais de beber um rum barato, muito forte,

165

de Bundaberg ou o bitter de Grafton tirado do barril. Mas era bom
saber que as melhores coisas da vida estavam ao alcance das suas mos.
 Sim, havia tambm anos magros. O dinheiro ganho com a l era
cuidadosamente guardado nos anos bons para valer-lhes contra as depre-
daes dos anos maus, pois ningum poderia prever se haveria cfiuvas
ou no. Mas vivia-se um bom perodo, fora-o durante algum tempo,
e, em Gilly, havia pouca coisa onde gastar dinheiro. Para quem nascera
nas plancies de solo negro do Grande Noroeste, no existia na Terra
outro lugar como aquele. No faziam nostlgcas peregrinaes  velha
terra natal ue nada fizera por eles seno persegui-los pelas suas convic-
es relgiosas, ao passo que a Austrlia era um pas catlico de mais
para que l se fizessem perseguies. E o Grande Noroeste era a casa
deles.
 De mais a mais, Mary Carson pagava as despesas naquela noite e,
alis, bem poderia dar-se a esse luxo. Dizia-se dela  boca pequena que
tinha uma fortuna sufieiente para comprar e vender o rei da Inglaterra.
Possua dinheiro em ao, dinheiro em prata, chumbo e zinco, dinheiro
em cobre e ouro, dinheiro numa centena de coisas diferentes, que,
literal e metaforicamente, davam dinheiro. H muito tempo j que
Drogheda deixara de ser a sua principal fonte de rendimento; a fazenda
no era mais que um hobby lucrativo.
 O padre Ralph no dirigiu a palavra directamente a Meggie durante
o jantar nem depois, e, durante toda a noite, no deu pela existncia
dela. Magoados, os olhos da jovem procuravam onde quer que ele esti-
vesse na sala. Cnscio disso, Ralph ardia por explicar-lhe que seria desas-
troso para a reputao dela (e para a dele) dar-lhe maior ateno do
que a que prestava, digamos,  Sr  Carmichael,  Sr  Gordon ou
 Sr.a O'Mara. Como Meggie, ele no danava e, como em Meggie,
nele estavam postos inmeros olhares, pois os dois eram, sem sombra
de dvida, as duas pessoas mais bonitas da sala.
 Metade dele detestava a aparncia da rapariga naquela noite,
o cabelo curto, o lindo vestido, os delicados sapatos de seda rosa-cinza,
com uns saltos de cinco centmetros; ela estava a crescer e o seu corpo
assumia contornos muito femininos. Entretanto, a outra metade dele
ocupava-s.e em verificar, tetrivelmente orgulhoso, que ela punha num
chinelo todas as outras jovens. A Sr.tg Carmichael tinha feies patrcias,
mas carecia da beleza especial daquele cabelo entre vermelho e ouro;
a Sr.ta King possua deliciosas tranas loiras, mas faltava-lhe o corpo
elstico; a Sr. Mackail era assombrosa de corpo, mas, de rosto,
parecia um cavalo a comer ma. A sua reaco global, no entanto,

166

foi de decepo, ao mesmo tempo que sentia um desejo angustiado
de fazer recuar o tempo. No queria que Meggie crescesse, queria-a
uma garotinha que pudesse tratar como o seu querido beb. Vislumbrou
no rosto de Paddy uma expresso que lhe espelhava os prprios pensa-
mentos, e sorriu debilmente. Que felicidade a sua se, pelo menos uma
vez na vida, pudesse mostrar os seus sentimentos! Mas o hbito,
o treino e a discrio estvam nele demasiado entranhados.
 A medida que a noite se adiantava, as danas tornaram-se cada vez
mais desinibidas, a bebida mudou de champanhe e usque para rum
e cerveja, e quase todos passaram a proceder como se estivessem num
baile eminentemente popular. As duas da manh, s a ausncia total
de trabalhadores rurais e empregadas domsticas poderia diferen-lo
dos vulgares entretenimentos democrticos organizados no distrito
de Gilly.
 A meia-noite, Bob e Jack saram com Meggie, mas nem Fee nem
Paddy se deram conta disso; estavam a divertir-se. Se os filhos no
sabiam danar, eles sabiam e danavam; quase sempre juntos, pareceram
de repente ao observador padre Ralph muito mais prximos, talvez por
serem raras as ocasies que se lhes deparavam de relaxar-se e apreciar
a companhia um do outro. Ele no se lembrava de t-los visto alguma
vez sem que estivesse pelo menos um filho perto, e ponderou que devia
ser duro para os pais de famlias numerosas no poderem passar um
momento a ss fora do quarto, onde seria perfeitamente desculpvel
que tivessem em mente outras coisas que no a conversao. Paddy
mostrava-se, como sempre, jovial e agradvel, mas Fee, naquela noite,
estava esfuziante, e quando Paddy ia buscar para danar, por simples
obrigao, a esposa de um fazendeiro, no Ihe faltavam pares ansiosos;
havia, na sala, muitas mulheres bem mais jovens que no eram to
procuradas.
 Entretanto, os momentos de que o padre Ralph disps para observar
o casal Cleary foram limitados. Sentindo-se dez anos mais moo, assim
que viu Meggie sair da sala, mostrou-se mais animado e deixou estupe-
factas as Sr 5 Hopeton, Mackail, Gordon e O'Mara danando - e muito
bem - o black bottom com a Sr ta Carmichael. Depois disso, foi a vez
de cada uma das raparigas solteiras da sala, e at da feia Srta Pugh;
e como, nessa altura, toda a gente estava completamente relaxada
e ressumbrava boa vontade, ningum condenou o padre, cujo zelo
e bondade foram, com efeito, muito admirados e comentados. Ningum
poderia dizer que a filha no tivera a oportunidade de danar com
o padre de Bricassart. Claro est que, se no fosse uma festa particular,

167

 ele no teria podido fazer um movimento sequer na dircco da pista
 de dana, mas era agradvel ver um homem to extraordinrio divertir-se
 de verdade ao menos uma vez na vida!
 As trs horas da madrugada Mary Carson ps-sc em p e bocejou.
- No, no parem a festa! Se eu estiver cansada, posso ir para
 a cama, e  o que vou fazer. Mas h ainda muita comida e muita bebida,
 a orquestra foi contratada para tocar enquanto houver algum com
 vontade de danar, e um pouco de barulho s poder ajudar-me a sonhar
 mais depressa. Padre, quer ajudar-me a subir a escada, por favor?
 I.ogo que saiu da sala de visitas, no se voltou para a majestosa
escadaria, mas, acompanhada pelo padre, dirigiu-se para a sala de estar,
pesadamente apoiada no brao dele. A porta encontrava-se fechada;
Mary espetou enquanto Ralph usava a chave que ela Ihe entregara
e depois precedeu-o na sal.
- Foi uma boa festa, Mary - disse o padre.
- A minha ltima festa.
- No diga isso, querida.
- Porque no? Estou cansada de viver, Ralph, e vou parar. - Os
seus olhos duros zombavam. - Duvida do que digo? Durante mais
de setznta anos fiz exactamente o que desejei e quando desejei. Por isso,
se a morte imagina que  ela quem vai escolher o momento da minha
partida, est muitssimo enganada. Morrerei quando ez< tiver escolhido
a hora, e olhe que no pretendo suicidar-me.  a vontade de viver
que nos mantm a espernear, Ralph; no  difcil parar quando realmente
o desejamos. Estou cansada e quero parar.  muito simples.
 Ele tambm estava cansado; no exactamente de viver, mas da
fachada, do clima, da ausncia de amigos com interesses comuns, de s
mesmo. A sala estava apenas debilmente iluminada por um alto lampio
de petrleo, que projectava, atravs do estojo de rubi, sombras carmi-
nadas sobre o rosto de Mary Carson, evocando-lhe, dos ossos intratveis,
algo mais diablico. Doam-lhe os ps e as costas; h muito tempo
que no danava tanto, embora s orgulhasse de acompanhar sempre
a ltima moda, fosse ela qual fosse. Trinta e cinco anos de idade,
um monsenhor de provncia. Como fora da Igreja, terminara antes
de haver comeado. Oh, os sonhos da juventude! E a imprudncia
da lngua da juventude, a violncia do gnio da juventude. Ele no fora
suficientemente forte para enfrentar a prova, mas nunca tornaria
a cometer o mesmo erro. Nunca. Nunca...
 Mexeu-se, inquieto, e suspirou; que adiantava? A oportunidade

168

nunca mais voltaria. J era tempo de enfrentar o facto eom coragem
e realismo, j era tempo de renunciar aos sonhos e esperanas.
- Lembra-se de eu lhe haver dito, Ralph, que o enganaria, que fatia
com que o tiro Ihe sasse pela culatra?

 A voz seca da velha arrancou-o ao devaneio a que o cansao
o induzira. Ele olhou para Mary Carson e sorriu.
- Querida Mary, nunca me esqueo de :nada do que diz. Franca-
mente, no sei o que teria feito sem si nos ltimos sete anos. O seu
esprito, a sua malignidade, a sua percepo...
- Se fosse mais nova, t-lo-ia conseguido de nm modo diferente,
Ralph. Nunca saber quanto desejei atirar pela janela trinta anos da
minha vida. Se o Diabo me tivesse procurado e se se oferecesse para
me rnmprat a alma em troca da oportunidade de ser jovem outra vez,
eu t-la-ia vendido num segundo, e nunca me lamentaria estupi-
damente, como fez o velho idiota do Fausto. Mas no h Diabo.
Voc sabe que no consigo persuadir-me a acreditar em Deus ou no
Diabo. Ainda no encontrei a menor prova de que eles existem. O Ralph
j encontrou?
- No. Mas a crena no repousa em provas da existncia, Mary.
Repousa na f, e a f  a pedra de toque da Igreja. Sem f, no h nada.
- Eis a um dogma muito efmero.
- Talvez. Creio que a f nasce com o homem ou com a mulher.
Reconheo que para mim  uma luta constante, mas no desistirei.
- Eu gostaria de destru-lo.
 Os olhos azuis dele riram-se, assumindo uma colorao cinzenta.
- Eu sei disso, minha querida Mary.
- E sabe porqu?
 Uma ternura aterradora invadiu-o, instalou-se quase dentro dele,
mas o padre lutou desesperadamente contra ela.
- Eu sei porqu, Mary, e acredite, lamento muito.
- Alm da sna me, quantas mulheres o amaram?
- No sei se minha me me amou. De qualquer maneira, acabou
por odiar-me.  o que acontece  maioria das mulheres. Eu deveria
ter sido baptizado com o nome de Hiplito.
- Ohhhhhh! Isso  extremamente revelador!
- Quanto a outras mulheres, s penso em Meggie... Mas ela
 uma garota. Eu talvez no exagere dizendo que centenas de mulheres
me desejaram, mas ter-me-o amado? Duvido muito.
- Eu amei-o - disse Mary, pattica.
- No, no amou. Eu sou o estmulo da sua velhice, nada mais.

169

Quando olha para mim, eu recordo-lhe o que j no pode fazer,
por causa da idade.
- Engana-se. Eu amei-o. E s Deus sabe quanto! Cuida, porven-
tura, que os meus anos impossibilitam automaticamente o amor?
Pos bem, padre de Bricassart, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Dentro deste
corpo estpido ainda sou nova... ainda sinto, ainda desejo, ainda sonho,
ainda me divirto a valer e me impaciento com as restries a que
o meu corpo me obriga. A velhice  a mais amarga vingana que o nosso
vingativo Deus nos inflige. Porque no envelhece Ele tambm os nossos
espritos? -Encostou-se ao espaldar da poltrona e fechou os olhos
enquanto entremostrava irritadamente os dentes. - Irei para o inferno,
 claro, mas, antes de ir, espero ter a oportunidade de dizer a Deus
que Ele no passa de uma mesquinha, rancorosa e deplorvel imitao
de um Deus!
 Calou-se por um momento, enquanto as mos agarravam com
fora os braos da poltrona; depois comeou a descontrair-se e abriu
os olhos. Estes cintilaram com tonalidades vermelhas  luz do lampio,
sem lgrimas, mas com algo mais duro, mais brilhante. O padre susteve
a respirao, sentiu medo. Ela parecia uma aranha.
- Ralph, h um sobrescrito sobre a minha escrivaninha. Quer
fazer-me o favor de ir busc-lo?
 Dolorido e amedrontado, ele ergueu-se, foi at  escrivaninha
sopesou a earta e olhou-a com curiosidade. O anverso do sobrescrito
estava em branco, mas o reverso fora convenientemente lacrado e selado
com o selo de Mary, onde se via uma cabea de carneiro e um D grande.
Levou-o at onde ela estava e estendeu-lho, mas Mary fez-lhe sinal
que se sentasse, sem pegar na carta.
- l sua - disse, soltando uma risada nervosa. - O instrumento
do seu destino, Ralph, eis o que . O meu golpe derradeiro e o
mais revelador da nossa longa batalha. Infelizmente no estarei aqui
para ver o que acontece, mas sei o que ser, porque conheo-o, conheo-o
muito melhor do que voc imagina. Presuno insuportvel! Dentro do
sobrescrito encontra-se o destino da sua vida e da sua alma. Terei de
perd-lo para 1\ eggie, mas teci a minha teia pata que ela tambm no
fique consigo.
- Porque a odeia tanto?
- Eu j lhe disse uma vez. Porque a ama.
- Mas no dessa maneira! Ela  a filha que nunca poderei ter,
a rosa da minha vida. Meggie  uma ideia, Maty, uma ideia!
 A velha, porm, contraiu os la'bios num sorriso zombeteiro.

170

- IVo me interessa falar sobre a sua querida Meggie! No tornarei
a v-lo, de modo que no quero perder tempo a falar acerca dela.
Queto que jure pelos seus votos de religioso que no abrir a carta
enquanto no vir com os seus prprios olhos o meu corpo morto;
nesse momento, porm, abri-la- sem demora, antes do enterro. Jure!
- No h necessidade de jutar, Mary. Farei o que me pede.
- Jure ou tiro-lha!
 Ele encolheu os ombros.
- Est bem. Juro-o pelos meus votos de sacerdote. No abrirei
a c rta enquanto no a vir morta, e depois abri-la-ei antes do seu
enterro.
- Bom, om !
- Mary, por favor no se preocupe. Isso no passa de uma
f ntasia sua. Amanh cedo rir-se- de tudo.
- No verei o amanh cedo. Morrerei esta noite; no sou to
fraca que espere s para ter o prazer de tornar a v-lo. Que anticlmax!
Vou para a cama agora. Quer levar-me at ao alto da escada, por favor?
 O padre no acreditava nela, mas percebeu que no adiantatia
discutir, e Mary no parecia disposta a ouvir-lhe as btincadeiras nesse
sentido. S Deus estabelecia a hora da morte de uma pessoa, a menos
que, valendo-se do livre arbtrio que Ele Ihe dera, essa pessoa desse
cabo da prpria vida. E ela dissera que no faria isso. Portanto, ajudou-a
a subir, resfolegante, a escada e, chegados ao patamar, tomou-lhe as
mos nas suas e inclinou-se para beij-las.
 Ela afastou-o de si.
- No, esta noite, no. Na minha boca, Ralph! Beije-me na boca
como se fssemos amantes!
 A luz brilhante do candelabro com quatrocentas velas de cera,
aceso pata a festa, ela viu a repugnncia no rosto dele, o seu recuo
instintivo; e quis morrer nesse momento, quis tanto morrer que a espera
se lhe tornou intolervel.
 =Mary, sou um padre! No posso!
 Ela riu=se. Um riso agudo, sobrenatural.
- Ora, Ralph, que grandessssimo impostor me saiu! Impostor
como homem, impostor como padte! E pensar que j teve a temeridade
de oferecer-se para fazer amor comigo! Estava assim to certo de que
eu tecusaria? Como eu gostatia de o no ter feito! Daria a minha alma
pata v-lo esquivar-se do compromisso, se pudssemos ter de volta
aquela noite! Impostor, impostor, impostor! l o que voc , Ralph
um impostor impotente e intil! Homem impotente e padre impotente!

171

No creio que conseguisse levant-lo e mant-lo levantado, nem mesmo
para a Santssima Virgem! J conseguiu levant-lo alguma vez, padre
de Bricassart? Impostor!

 L fora ainda no despontara a aurota nem a claridade que a pre-
cede. A treva pairava macia, densa e muito quente sobre Drogheda.
Os folies estavam a tornar-se extremamente barulhentos; se a fazenda
possusse vizinhos prsmos, havia muito tempo que a polcia teria
sido chamada. Algum vomitava coposa e repulsivamente na varanda e,
debaixo de um arbusto, duas formas indistintas estavam agarradas uma
 outra. O padre Ralph evitou o vomitador e os amantes, caminhando
em silno sobre o relvado recm-aparado, com tamanha tormenta
a agitar-se-lhe na mente que no sabia nem qeria saber aonde ia.
S queria estar longe dela, da medonha aranha velha convencida de que
teceria o casulo da sua morte naquela noite maravilhosa. O calor ainda
no era asfixiante; havia uma tnue brisa e um odor de lnguidos
perfumes de boronias e rosas, a quietude celestial que s as latitudes
tropicais e subttopicais podem conhecer. Oh, De s, estar vivo, estar
realmente vivo ! Abraar a noite e viver, e ser livre !
 Deteve-se na extremidade mais distante do relvado e elevou os
olhos para o cu, numa instintiva busca de Deus. Sim, Ele devia estar
l em cima, algutes, entre os pontos tremeluzentes de luz to pura
e celestial; sim, devia ser verdade o que se dizia, que s a contemplao
da paisagem e das estrelas podetia convencer o homem de que o infinito
e Deus existiam.
 <<Ela tem razo, naturalmente. Um impostor total. Nem padre,
nem homem. Apenas algum que desejaria ser uma coisa ou outra.
No! Uma coisa ou outra, no! O padre e o homem no podem
coexistir - ser homem  no ser padre. Porque haveria eu de enredar
os meus ps na teia dela? O seu veneno  forte, mais forte talvez
do que suponho. Que conter a carta?  muito prprio de Mary
atormentar-me com provocaes! Que saber ela, ou imagina que sabe?
Que haver para saber ou imaginar? Apenas futilidade e solido,
dvida e dor. Sempre dor. Entretanto, est enganada, Mary, eu posso
levant-lo. Acontece que no quero faz-lo, que passei anos a provar
a mim mesmo que ele pode ser controlado, dominado, subjugado.
Faz-lo levantar-se  actividade de homem, e eu sou padre.
 Algum chorava no cemitrio. Meggie, naturalmente. Mais ningum
pensaria numa coisa dessas. Ele arregaou as fraldas da batina e passou
por cima do gradil de ferro forjado, sentindo a inevitabilidade do

172

cncontro com Meggie naquela noite. Tendo enfrentado uma das mulheres
da sua vida, tinha tambm de enfrentar a outra. O seu divertido
 ento voltava lentamente; ela no poderia afugent-lo por muito
tmnt>o. a velha aranha. <<A velha aranha m. Deus a apodrea, Deus

 ^r
 erda Meggie, no chores - disse, sentando-se na relva mo-
 de orvalho, ao lado dela. - Pronto. Aposto que no tens utn
)eno decente. As mulheres nunca tm. Pega no meu e enxuga os olhos
rnmo uma boa menina.
 E1a pegou no leno e fez o que lhe mandavam.
- Ainda no mudaste de vestido... Estiveste aqui sentada desde
a meia-noite?
- Estive.
- Bob e Jack sabem onde ests?
- Eu disse-lhes que ia para a cama.
- Que aconteceu, Meggie?
- O senhor no falou comigo esta noite!
- Eu imaginava que talvez fosse isso mesmo. Vamos, Meggie,
olha pata mim!
 L longe, no oriente, va-se um brilho perolado, uma fuga da
escurido total, e os galos de Drogheda j gritavam precoces boas-vindas
 autora. Ele pde assim ver que nem o choro prolongado lhe atenuara
a beleza dos olhos.
- Meggie, tu eras, sem comparao, a rapariga mais bonita da
festa, e toda a gente sabe que eu venho a Drogheda mais vezes do que
preciso. Sou um padre e, portanto, devo estar acima de qualquer
suspeita... mais ou menos como a mulher de Csar... mas receio que
as pessoas no pensem com a mesma pureza. C:omo padre, sou jovem
e no sou feio. - Fez uma pausa, pensou em como teria Mary Carson
rr do quela atenuao da verdade e riu-se por dentto. - Se eu te
desse a mais pequena ateno, a notcia ter-se-ia propagado por todo
o distrito de Gilly num tempo record. Todas as linhas telefnicas do
distrito propagariam a novidade. Sabes o que quero dizer?
 Ela sacudiu negativamente a cabea; os cachos cortados ficavam
cada vez mais brilhantes  luz que avanava.
- Bem, s ainda nova de mais para teres conhecimento das coisas
do mundo, mas tens de aprender, e parece ser funo minha ensinar-te,
no parece? Quero dizer que as pessoas falariam que eu estava interes-
sado em ti como homem, no como padre.
- Padte!

173

- Horrvel, no ? - Ralph sorru. - Mas eu garanto-te que as
pessoas no falariam doutra coisa. V bem, Meggie, tu j no s uma
garotinha, s uma rapariga, mas ainda no aprendeste a esconder
a afeio que sentes por mim, de forma que, se eu falasse contigo
quando toda a gente estava a ver, olharias para mim de tal modo que
poderia ser mal interpretado.
 Ela fitava-o de um modo estranho, com uma sbita perplexidade
a entaipar-lhe o olhar; depois, de surpresa, virou a cabea e apresentou-
-lhe o perfil.
- Sim, compreendo. Foi tolice minha no ter pensado nisso.
- E agora no achas que j est na hora de voltares pata casa?
 claro que toda a gente deve estar a dorm:r, mas, se algum acordar
 hora do costume, estars em maus lenis. E no poders dizer que
estiveste comigo, Meggie, nem mesmo  tua famflia.
 Ela ps-se em p e ficou a olhar pata ele.
- Vou indo, padre. Mas gostaria que o conhecessem melhor,
para que nunca pensassem essas coisas a seu respeito. O senhor no
sente nada disso, no  verdade?
 Por uma razo qualquer, a pergunta doeu-lhe, doeu-lhe bem no
fundo da alma, mais do que as chufas cruis de Mary.
- No, Meggie, tens razo. No sinto. - Ele ergueu-se de um
salto, com um sorriso forado. -Julgarias estranho se eu dissesse que
desejaria sentir? - Levou a mo  cabea. - No, no desejo nada
disso! Vai para casa, Meggie, vai para casa!
 O rosto dela estava triste.
- Boa noite, padre.
 Ele tomou-lhe as mos nas suas, nclinou-se e beijou-as.
- Boa noite, Meggie.
 Viu-a caminhar por entre os tmulos, passar por cima da grade;
envolta no vestido de botes de rosa, a forma que se retirava era gra-
ciosa, feminina e um tanto ou quanto irreal.
- Muito apropriado - disse ao anjo.
 Os carros deixavam Drogheda no meio do estardalhao dos motores
enquanto ele percorria o relvado em sentido contrrio; a festa final-
mente acabara. Dentro da casa, os msicos guardavam os seus instru-
mentos, cambaleando por efeito do rum e do cansao, e as criadas
e ajudantes temporrias, esfalfadas, tentavam pr um pouco de ordem
na desordem. O padre Ralph cumprimentou a.Sra. Smith com uma
inclinao de cabea.
- Mande toda a gente para a cama, minha amga.  muito mais

174

fcil lidar com esse tipo de coisas quando se est com a
N o deixatei que a Senhora Carson se zangue.
- Gostaria de comer alguma coisa, padre7

cabea fresca

- No, pelo amor de Deus! Eu vou mas e para a cama

 A tardinha, uma mo tocou-lhe no ombro. Ele estendeu a sua
para agartar a mo que o tocara, sem foras para abrir os olhos, e tentou
aproxim-la do rosto.
- Meggie - murmurou.
- Padre, padre! Acorde, por favor!
 Ouvindo o tom da voz da Sr Smith, os seus olhos ficaram, de
sbito, bem despertos.
- Que foi, Senhora Smith?
- a Senhora Carson, padre. Ela est morta.
 O seu relgio informou-o de que eram seis horas da tarde; aturdido
e trpego em consequncia do torpor que o terrvel calor do dia lhe
produzira, lutou para livrar-se do pijama e vestir as roupas de sacer-
dote, passou uma estreita estola de prpura em redor do pescoo e pegou
nos leos da extrema-uno, na gua benta, na grande cruz de prata
e no rosrio de contas de ouro. No lhe ocorreu sequer por um momento
perguntar a si mesmo se a Sra. Smith falara verdade; sabia que a aranha
estava morta. Teria ela, afinal, tomado alguma coisa? Prouvesse a Deus
que, caso assim fosse, isso no estivesse obviamente presente no quarto
nem fosse bvio para um mdico. No chegava a atinar com a possvel
utilidade da extrema-uno naquele caso, mas era uma coisa que se
tinha de fazer. Se ele a recusasse, haveria autpsias e toda a sorte de
complicaes. A sua dvida, no entanto, no tinha relao alguma com
a oculta suspeita de suicdio; simplesmente, no seu entender, era obsceno
colocar coisas sagradas sobre o corpo de Mary Carson.
 Maty estava morta h muito tempo. Devia ter morrido alguns
minutos depois de recolher-se, umas quinze horas atrs, pelo menos.
As janelas continuavam bem fechadas e o quatto hmido, merc das
grandes panelas com gua que ela insistia em deixar em todos os cantos,
a fim de manter a pele fresca. Havia um rudo peculiar no ar; depois
de um estpido momento de pasmo, ele compreendeu que estava a ouvir
moscas, hordas de moscas que zumbiam e faziam um barulho danado
quando se regalavam com ela, quando copulavam sobre ela, quando
punham os seus ovos em cima dela.
- Pelo amor de Deus, Senhora Smith, abra as janelas! - arquejou
ele, abeirando-se da cama com o rosto muito plido.

175

 Mary Carson j passara pela fase do rigor mortis e estava nova-
mente flcida, repugnantemente flcida. Tinha os olhos abertos, sarapin-
tados, e os lbios finos, pretos; em todo o seu corpo havia moscas
e o padre teve de pedir  Sr  Smith que as enxotasse enquanto rezava
o seu ofcio, murmurando as antigas exortaes latinas. Que farsa!
E o cheiro dela! Oh, Deus! Pior que o de qualquer cavalo morto no
meio do pasto. Esquivou-se de toc-la na morte, como se esquivara
de toc-la em vida, sobretudo os lbios entufados de moscas. Ela seria
uma massa repugnante dali a algumas horas.
 Afinal, chegou ao fim. Endireitou-se.
- V imediatamente  casa do Senhor Cleary, Senhora Smith, e,
pelo amor de Deus, diga-lhe que mande os rapazes preparar um caigo
sem demora. No h tempo para mandar buscar um a Gilly; ela est
a apodrecer diante dos nossos olhos. Santo Deus!, estou a sentir-me mal.
Vou tomar um banho e deixarei as minhas roupas do lado de fora
da porta do meu quarto. Queime-as. Nunca conseguirei limp-las do
cheiro dela.
 De volta ao quat-to e j vestindo calas e camisa - pois no pusera
duas batinas na maleta de viagem - lembrou-se da carta e da promessa.
Haviam soado sete horas e chegavam aos seus ouvidos os sons de um
caos reprimido. As criadas e ajudantes temporrias limpavam a confuso
da festa, transformavam de novo a sala de visitas em capela, aprontavam
a casa para o funeral do dia seguinte. No havia outta soluo, ele teria
de ir a Gilly naquela noite buscar outra sotaina e os paramentos do
ofcio fnebre. Ao deixar a easa paroquial em demanda de alguma
fazenda afastada, o padre levava sempre consigo certas coisas, cuidadosa-
mente guardadas em compartimentos na caixinha preta, os sacramentos
para o nascimento, a morte, a bno e o culto, e os paramentos apro-
priados  missa em qualquer poca do ano. Mas, como bom irlands,
achava que andar para baixo e para cima com as vestes negras de uma
missa de defunto era tentar o destino. Ouviu a voz de Paddy  distncia,
mas no poderia enfrent-lo naquele momento; a St  Smith faria tudo
o que fosse preciso.
 Sentado ao p da janela, que se abria para uma vista de Drogheda
ao pr do Sol, com os eucaliptos dourados e a massa de rosas vermelhas,
rseas e brancas, tirou da caixa a carta de Mary Carson e segurou-a
entre as mos. Ela insistira em que ele a lesse antes do enterro e,
nalgum recanto da sua mente, uma vozinha dizia-lhe que devia l-la
agora, no depois de avistar-se com Paddy e Meggie, mas agora, antes
de ver outra pessoa alm de Mary Carson.

176

 O sobrescrto continha quatro folhas de papel; separou-as
imediatanaente que as duas ltimas constituam o testamento
enquanto as duas primeiras lhe eram dirigidas em forma de carta.

Meu muito guerido Ralph:

e viu
dela,

 J deve ter visto gue o segundo documento deste sobrescrito
 o meu testamento. J tenho um perfeitamente em ordem,
ussinado e selado, no escritrio de Harry Gougb, em Gilly; o testa-
mento incluso neste sobrescrito  muito mais recente e, natural-
mente, unula o gue est em poder de Harry.
 Na realidade, eu fi-lo no outro dia, e mandei que o ussinassem,
como testemunbas, Tom e o bomem gue anda a consertar as cercas,
pois, segundo me consta, no  permitido gue nenhum beneficirio
ussine o testamento como testemunha. Apesur de no ter sido
redigido por Harry,  perfeitamente legal e eu asseguro-lhe que
nenbum tribunal deste pais lhe contestar a validade.
 Porque no pedi a Harry gue redigisse tambm este testa-
mento, j que gueria alterar a disposio dos meus bens? muito
simples, meu caro Ralph. Eu fazia questo de que ningum soubesse
da existncia deste testamento alm de ns dois. Esta  a nica
cpia, e voc ficar com ela. Ningum sabc que a tem e isso repre-
sent uma parte muito importante do meu plano.
 Lembra-se do trecho do Evangelho em gue Satans levou
Nosso Senhor Jesus Cristo para o alto de uma montanha e o tentou
com o mundo todo? Como  agradvel saber que eu tenbo um
pouco do poder de Satans, e posso tentar aquele gue amo (voc
duvida de que Satans amasse Cristo? Eu no duvido) com
o munda inteiro. A contemplao do seu dilema avivo:< conside-
ravelmente os meus pensamentos nos ltimos anos e, quanto mais
perto chego da morte, mais deleitosas se tornam as minbas vises.
 Depois de ler o testamento, compreender o que quero dizer.
Quando eu estiver  arder no Inferno, alm das fronteiras desta
vida gue conheo agora, voc ainda estar nela, mas ardendo num
inferno de chamas ainda mais aterradoras do gue as que qualquer
Deus conseguir atear. Oh, meu Ralph, eu avaliei-o com a m-
xima preciso! Ainda que nunca soubesse fazer outra coisa, sempre
soube fazer sofrer as pessoas que amo. E consigo  um jogo muito
melhor do que o foi a gum dia com o meu querido e finado N Iicbael.

177



 Quando o conheci, o Ralph queria Drogheda e o meu dinheiro,
no  verdade? Via-os como um modo de comprar o seu mtier
natural. Mas depois veio Meggie, e ps de lado o seu propsito
original de cativar-me, no ps? Passei a ser um pretexto para
as suas visitas a Drogheda, a fim de gue pudesse estar com Meggie.
Contudo, no sei se voc seria capaz de virar casaca com tanta
facilidade se soubesse guanto valho realmente. Sabe, Ralph?
No creio gue tenha sequer uma vaga ideia. Creio que no fica
bem a uma dama mencionar a soma exacta dos seus bens no prprio
testamento, por isso ser melhor dizer-lhe aqui, para certificar-me
de que ter todas as informaes necessrias ao alcance das mos
quando chegar o momento da deciso. Com uma pequena diferena
de umas centenas de milha-res, para mais ou para menos, a minha
fortuna ora por uns treze milhes de Iibras.
 Estou a chegar ao fim da segunda pgina, e no posso
incomodar-me transformando esta carta numa tese. Leia o meu
testamento, Ralph, e, depois de o ter lido, decida o gue vai fazer
com ele. Apresent-lo- a Harry Gough para homolog-lo ou
queim-lo- e nunca dir a ningum gue e1e existiu? Eis a a deciso
gue ter de tomar. Devo acrescentar gue fiz o testamento que
se encontra no escritrio de Harry um ano depois da chegada
de Paddy, e nele deixo a este tudo o que tenho. De modo que
voc agora sabe o que est na balana.
 Eu amo-o, Ralph, eu amo-o tanto que o teria morto por no
me querer, com a diferena de gue esta  uma forma muito melhor
de represlia. No perteno  espcie nore; eu amo-o, mas guero
que grite de dor. Procure, veja bem, eu sei qual ser a sua deciso.
Sei-o com a mesma certeza gue teria se pudesse estar perto,
observando. Voc gritar, Ralph, e saber o gue  sofrimento.
Por isso, continue a ler, meu belo, meu ambicioso padre! Leia
o meu testamento e decida sobre o seu destino.
 A folha no estava assinada nem continha quaisquer iniciais.
Ele sentiu o suor na testa, sentiu-o escorrendo da cabea para a nuca,
e teve impetos de levantar-se naquele mesmo instante para queimar
os dois documentos, sem ler o que continha o segundo. Mas a velha
aranha avaliara muito bem a sua presa.  claro que ele continuaria a ler;
era demasiado curioso para resstir. Deus! Que havia ele feito para
ela lhe querer fazer uma coisa daquelas? Por que razo as mulheres

1?8

o faziam sofrer daquela maneira? Porque no teria ele nascido pequeno,
torto, feio? Se assim fosse, poderia ter sido feliz.
 As duas ltimas folhas estavam cobertas com a mesma letrinha
mida e precisa, to sovina e rancorosa como a alma dela.
 Eu, Mary Elizabeth Carson, no gozo de todas as minhas facul-
dades fisicas e mentais, declaro por meio deste instrumento ser
esta a minha ltima vontade e o meu testamento, tornando deste
modo nulos e sem valor quaisguer testamentos anteriores feitos
por mim.
 Com a nica excepo das doaes testamentrias cnumeradas
abaixo, lego todos os meus bens materiais, dinheiro e propriedades
 Santa Igreja Catlica Aposilica Romana, respeitadas as seguintes
condies:

 Primeiro: gue a mencionada Santa Igreja Catlica Apostlica
 Romana, doravante denominada apenas a Igreja, conhea a estima
 e o afecto gue consagro ao seu sacerdote padre Raph de Bricassart.
  unicamente graas  sua bondade,  sua orientao espiritn<al
 e ao seu apoio inquebrantvel gue assim disponho dos meus bens;
 Segundo: gue o legado s continuar a beneficiar a Igreja
 enguanto ela tiver o devido apreo pelo valor e capacidade do
 citado padre Ralph de Bricassart;
 Terceiro que o citado padre Ralph de Brcassart ser respon-
 svel pela administrao e pela canalizao dos meus mencionados
 bens materiais, dinheiro e propriedades, como autoridade mxima
 encarregada do meu esplio;
 Quarto: que, por morte do citado padre Ralph de Bricassart,
 a subseguente administrao do meu esplio depender unicamente
 do gue dispuser a ltima vontade e testamento do citado padre
 Ralph de Bricassart. Isto , a Igreja continuar na plena posse dele,
 mas o padre Ralph de Bricassart ser o nico responsvel pela
 nomeao do seu sucessor na administrao, no sendo obrigado
! a escolher um eclesistico ou um membro Ieigo da Igreja.
 Quinto: que a fazenda Drogheda nunca poder ser vendida
 nem subdividida 
 Sexto: que meu irmo, Padraic Cleary, ser mantido como
 gerente da fazenda Drogheda com o direito de morar na minha
 casa, e que Ihe ser pago um salrio ao critrio do padre Ralph
 de Bricassart e de mais ningum.

179

 Stimo: que, no caso da morte de meu irmo, o mencionado
Padraic Cleary, a sua viva e os seus filhos tero permisso para
permanecer na fazenda Drogheda e que o cargo de gerente passar
sucessivamente para cada um dos seus filhos, Robert, John,
Hugh, Stuart, James e Patrick, excluindo-se Francis.
 Oitavo que, por morte de Patrick ou de qualquer outro
filho, excluindo-se Francis, que se a o ltimo filho vivo, sero os
mesmos direitos transmitidos aos netos do mencionado Padraic
Cleary.

Legados especiais

 A Padraic Cleary, tudo o que est contido nas minbas casas
na fazenda Drogheda.
 A Eunice Smith, minha governanta, que continuar como tal,
recebendo um bom salrio, enquanto assim o dese ar, a soma de
cinco mil libras, gue lhe ser entregue imediatamente, sendo-lhe
ainda concedida, quando se aposentar, uma penso usta.
 A Minerva O'Brien e a Catherine Donnelly, que continuaro
a trabalhar, mediante um bom salrio, durante o tempo que qui-
serem, a soma de mil libras a cada uma, que Ihes ser entregue
imediatamente, sendo-lhes ainda concedida, quando se aposenta-
rem, uma penso usta.
 Ao padre Ralph de Bricassart a soma de dez mil libras, que
Ihe ser paga anualmente, enquanto viver, para seu uro particular
e incontestado.

 O testamento estava devidamente assinado, datado e teste-
munhado.
 O quarto de Ralph dava para oeste. O Sol punha-se naquele mo-
mento. O manto de poeira, que vinha com o Vero, enchia o ar silente,
e o Sol enfiava os seus dedos atravs das pardculas de p, de modo
que o mundo inteiro parecia haver-se transmudado em ouro e prpura.
Nuvens raiadas, orladas de um fogo brilhante, metiam flmulas de
prata atravs da grande bola sangrenta suspensa logo acima das rvo-
res da5 pastagens distantes.
- Bravo! - disse o padre em voz alta. - Reconheo, Mary, que
me venceu. Um golpe de mestre. O tolo fui eu, no foi voc.

180

 Ele no podia ver as folhas, nas suas mos, atravs das lgrimas,
 e afastou-as de si antes de manch-las. Treze milhes de libras. Fora
 isso realmente que estivera planeado abichar antes da vinda de Meggie.
 E quando ela chegara, abrira mo dos seus planos, pois no poderia
 levar por diante, a sangue-frio, uma campanha destinada a defraud-la
 da sua herana. Mas como teria agido se soubesse quanto valia a aranha
 velha? Sim, como teria agido? Ele no supusera sequer que o total
 orasse pela dcima parte daquela soma. Treze milhes de libras!
 Durante sete anos Paddy e a famlia tinham vivido na casa do
 chefe dos pastores e trabalhado como condenados para Mary Carson.
 A troco de qu? Dos salrios zniserveis que ela pagava? Nunca che-
 gara ao conhecimento do padre Ralph que Paddy se houvesse queixado
 de ser tratado com mesquinhez, pensando, sem dvida, que, por morte
 da irm, seria amplamente compensado do tempo que gerira a pro-
 priedade recebendo o ordenado de um pastor comum, enquanto os filhos
 faziam o trabalho de pastores recebendo o salrio de biscateiros. Ele
 conseguira arranjar-se e acabara por amar Drogheda como se fosse sua,
 presumindo com razo que o viria a ser.
- Bravo, Mary! - disse de novo o padre Ralph, enquanto as
 lgrimas, as primeiras que derramava desde a meninice, lhe caam sobre
y o dorso das mos, mas no sobre o papel.
; Treze milhes de libras, e a possibilidade de ainda vir a ser car-
 deal de Bricassart, contra Paddy Cleary, a esposa, os filhos - e Meggie.
 Com que diablica penetrao Mary soubera l-lo! Se ela tivesse des-
 pojado Paddy de tudo, a obrigao dele teria sido clarssima: levar
 o testamento at ao fogo da cozinha e enfi-lo, pura e simplesmente,
 na fornalha. Mas ela dispusera as coisas de modo que Paddy no pas-
y saria necessidades e depois da morte da irm ele viveria meIhor em
 Drogheda que durante a sua vida, a fazenda no lhe poderia ser total-
 mente arrebatada. Os lucros e o ttulo, sim, mas a terra propriamente
 dita, no. Paddy no seria o dono dos fabulosos treze milhes de libras,
 mas seria respeitado e teria com que viver confortavelmente. Meggie
 no passaria fome, nem seria posta na rua, mas to-pouco seria
 a Sr. a Cleary, capaz de ombrear com a Sr. Carmichael e com outras
 da mesma laia. Respeitvel, sem dvida, socialznente admissvel, mas
 no pcrtenceria  nata. Nunca pertencetia  nata.
 Trez milhes de libras. A oportunidade de sair de Gillanbone
.; e da perptua obscuridade, a oportunidade de ocupar o seu lugar na
 hierarquia da administrao da Igreja, a garantia da boa vontade dos
 seus pares e superiores. E tudo isso numa idade em que ainda poderia

181

PSSAROS FEftIDOS

recuperar o terreno que perdera. Mary Carson fizera de Gillanbonc,
violentamente, o epicentro do mapa do Legado Papal, e os tremores
chegariam ao prprio Vaticano. Embora a Igreja fosse riqussima, treze
milhes de libras eram muito dinhiro, no se tratava de uma impor-
tncia desprezvel, nem para a Igreja. E seria a sua mo que a levaria
ao redil, a sua mo reconhecida com tinta azul do prprio punho de
Mary Carson. Ele sabia que Paddy jamais impugnaria o testamento,
e Mary Carson, que Deus a apodrecesse, sabia-o tambm. Sim, era
evidente que Paddy ficaria furioso, nunca mais quereria v-lo, nunca
mais quereria falar com ele, mas a sua fria no chegaria ao litgio
judicial.
 Haveria, acaso, uma deciso a tomar? Ele, porventura, j no sabia,
no o soubera desde o momento em que lera o testamento, o que iria
fazer? As lgrimas tinham secado. Com a graa habitual, o padre Ralph
levantou-se, certificou-se de que a camisa estava toda enfiada nas calas
e dirigiu-se  porta. Precisava de ir a Gilly buscar uma sotaina e os
paramentos. Mas primeiro queria ver Mary Carson outra vez.
 Apesar das janelas abertas, o mau cheiro empestara a sala e nem
uma leve brisa agitava as cortinas frouxas. Com passo firme, dirigiu-se
 cama e ali ficou a olhar para baixo. Os ovos de moscas comeavam
a produzir manchas em todas as partes hmidas do rosto, gases em
expanso enchiam-lhe as mos e os braos rolios de bolhas esverdinha-
das, a pele principiava romper-se. Oh, Deus. A repugnante aranha
velha. Ela vencera, mas que vitria! O triunfo de uma caricatura podre
da humanidade sobre outra. Mas ela no podia.derrotar Meggie, nem
tirar-lhe o que nunca fora seu. <<Eu talvez arda no inferno ao teu lado,
Mary Carson, mas conheo o inferno que Ele planeou para ti: ver
a minha indiferena por ti persistir enquanto apodrecermos juntos por
toda a eternidade... N
 Paddy estava  sua espera na sala, ao p da escada, parecendo
nauseado e atnito.
- Oh, padre! - exclamou, adiantando-se. - No  horrvel? Que
choque! Nunca imaginei que ela se fosse assim; estava to bem ontem
 noite! Santo Deus, que vou fazer?
- Viu-a?
- Valha-me Deus, vi, sim!
- Nesse caso, sabe como  preciso agir. Nunca vi um cadver
decompor-se com tanta rapidez. Se no conseguir coloc-la decente-
mente num caixo nas prximas horas, ter de atir-la mais tarde para
dentro de um tambor de gasolina. l indispensvel enterr-la amanh

182

PASSAROS FERIDOS

muito cedo. No perca tempo a enfetar o caixo; cubra-o com rosas
do jardim, ou qualquer coisa assim. Mas mexa-se, homem! Vou a Gilly
buscar os paramentos.
- Volte o mais cedo que puder, padre! - suplicou Paddy.
 O padre Ralph, todavia, demorou-se mais do que o exigiria uma
simples visita  casa paroquial. Antes de virar o automvel nessa direc-
o, enveredou por uma das ruas laterais mais prsperas de Gillanbone
e parou diante de uma casa pretensiosa, eercada por um jardim muito
bem tratado.
 Harry Gough acabara de sentar-se  mesa para jantar, mas levan-
tou-se e foi at  sala de visitas quando a criada lhe disse quem era
o visitante.
- Padre, quer jantar connosco? Carne de vaca conservada em
salmoura, repolho, batatas cozidas e molho de salsa. E, pela primeira
vez, a carne no est muito salgada.
- No, Harry, no posso ficar. S vim contar-lhe que Mary Car-
son faleceu esta niadrugada.
- Santo Deus! Pos se ainda ontem  noite estive l! Ela pare-
ceu-me to bem, padre!
- Eu sei. Ela estava perfeitamente bem quando a ajudei a subir
a escada, por volta das trs horas da manh, mas deve ter morrido
praticamente no momento em que se recolheu. A Senhora Smith encon-
trou-a s seis da tarde: A essa hota, ela j estava morta h tanto tempo
que tinha um aspecto medonho, pois o quarto ficou fechado como uma
incubadora durante todo o dia. Misericrdia, eu rezo para esquecer
o espectculo que ela oferecia! Uma coisa pavorosa, Harry, terrvel.
- O enterro ser amanh?
- Ter de ser.
- Que horas so? Dez? Com este calor presamos de jantar to
tarde como os Espanhis, mas assim no temos de preocupat-nos com
o adiantado da hora para avisar as pessoas pelo telefone. Quet que eu
faa isso, padte?
- Muito obrigado, seria muita bondade da sua parte. S vim
a Gilly  procura dos paramentos. Eu no esperava ter de dizer uma
missa fnebre quando sa daqui hoje cedo. Necessito de voltar a Dto-
gheda to depressa como vm; eles precisam l de mim. A missa ser
s nove da manh.
- Diga a Paddy que levarei o testamento dela, de modo que assim
poderei arrumar o assunto logo a seguir ao enterro. E como o senhor

183

tambm  um dos beneficirios, padre, eu gostaria que ficasse para
a leitura.
- Receio que tenhamos um problema, Harry. Acontece que Mary
fez outro testamento. Ontem  noite, depois de deixar a festa, entre-
gou-me um sobrescrito selado e fez-me prometer que o abriria no mo-
mento em que, com os meus prprios olhos, a visse morta. Quando
 o abri, verifiquei que continha um novo testamento.
- Mary fez um novo testamento? Sem mim?
- 7 o que parece. Se no me engano,  qualquer coisa que ela
 ndava a tramar h muito tempo, mas no sei potque fez questo de ser
 to reservada a esse respeito.
- O se:nhor tem o testamento a, padre?
- Tenho.
 O padre enfiou a mo por dentro da camisa e passou-lhe as folhas
de papel, muito bem dobradas.
 O advogado no teve escrpulos de as ler ali mesmo. Concluda
a leitura, ergueu a vista e o padre Ralph viu nos olhos dele uma por-
o de coisas que preferiria no ter visto. Admirao, raiva e um certo
desprezo.
- Muito bem, padre, os meus parabns! O senhor, afinal, con-
seguiu pr a mo na massa.
 Ele podia dizer isso, pois no era catlico.
- Acredite-me, Harry, a surpresa foi maior para mim do que est
a ser para si.
- Esta  a nica via?
- Tanto quanto sei, .
- E ela entregou-lho ontem  noite?
- Exactamente.
- Ento, porque no o destruiu, para que o pobre Paddy receba
o que por direito Ihe pertence? A Igreja no tem o direito de herdar
as propriedades e os bens de Mary Carson.
 Os belos olhos do religioso tinham uma expresso de meiguice.
- Mas no teria sido correcto, Harry, no lhe parece? Afinal de
contas, as propriedades eram de Mary, ela poderia dispor delas como
bem entendesse.
- Aconselharei Paddy a impugnar.
- Pois acho que deve fazer isso mesmo.
 Separaram-se depois desta troca de palavras. Quando, de manh,
chegaram os amigos para assistir ao enterro de Mary Carson, toda a Gil-
lanbone e todos os pontos da bssola ao redor da cidade j sabiazn

184

para onde iria dinheiro. Os dados tinham sido lanados, agora era
impossvel retroceder.

 Eram quatro horas da manh quando o padre Ralph transps
a ltima cancela e entrou no Home Paddock, pois no se apressara
na viagem de regresso. Durante todo o caminho obrigara a prpria
mente a permanecer em branco; no queria pensar. Nem em Paddy,
nem em Fee, nem em Meggie, nem naquela coisa gorda e malcheirosa
que eles haviam ( contava devotadamente com isso ) enfiado no caixo.
Mas abria os olhos e o esprito para a noite, para a prata fantasma-
grica das rvores mortas que se erguiam, solitrias, no meio da relva
brilhante, para as sombras do corao das trevas projectadas pelas
florestas, para a lua cheia que percorria o cu como uma bolha etrea.
De sbito, parou o carro, apeou-se, caminhou at uma cerca de rame
e inclinou-se sobre o fio esticado, enquanto aspirava o aroma dos euca-
liptos e a fragrncia feiticeira das flores do campo. A terra era to
bela, to pura, to indiferente aos destinos das criaturas que supunham
govern-la. Elas podiam pr a mo nela, mas, ao fim e ao cabo, era
ela quem as governava. Enquanto os homens no pudessem controlar
o clima e chamar as chuvas, a terra estaria por cima.
 Estaconou o carro a alguma distncia das traseiras da casa e cami-
nhou lentamente para ela. Todas as janelas estavam inundadas de luz;
dos aposentos da governanta chegava-lhe o som discreto do tero rezado
pelas duas criadas irlandesas sob a direco da Sr  Smith. Uma sombra
moveu-se debaixo da escurido das glicnias; ele estacou de golpe, sen-
tindo que os plos do corpo se lhe eriavam. A velha aranha apanhara-o
j de muitas maneiras. Mas era apenas Meggie, que esperava, paciente,
pelo seu regresso. Envergava calas e botas e estava muito bonita.
- Pregaste-me um susto - disse.
- Desculpe, padre, no tive essa inteno. Eu no queria ficar
l dentro de casa com o pai e os rapazes, e a me ainda est na nossa
casa com os bebs. Eu talvez devesse rezar com a Senhora Smith e com
Nlinnie e Cat, mas confesso que no sinto vontade de o fazer por ela.
Isto  pecado, no ?
 Ele no estava disposto a apaparicar a memria de Maty Carson.
- No acho que seja pecado, Meggie, a hipocrisia, sim,  que
 pecado. Tambm no sinto vontade de rezar por ela. Ela no era...
uma pessoa muito boa. - O seu sorriso iluminou-se. - Portanto, se
pecaste ao dizer isso, eu tambm pequei, e mais seriamente do que tu,

185

PASSAROS FEftIDOS

pois tenho obrigao de amar toda a gente, e esse fardo no te foi
imposto.
- O senhor sente-se bem, padre?
- Muito bem. - Ele ergueu os olhos para a casa e suspirou. - S
no quero  ficar l dentro, nada mais. No quero estar junto dela
enquanto no houver luz e os demnios da treva no tiverem sido expul-
sos. Se eu selar os cavalos, cavalgars comigo at ao raiar da aurora?
 A mo dela tocou-lhe a manga preta e caiu.
- Tambm no quero entrar.
- Espera um minuto enquanto ponho a batina no carro.
- Eu vou andando para as cocheiras.
 Pela primeira vez ela tentava encontr-lo no terreno dele, no ter-
reno adulto; ele pressentia a diferena, to seguramente como sentia
o perfume das rosas nos belos jardins de Mary Carson. Rosas, rosas,
em toda a parte. Ptalas na relva. Rosas de Vero, vermelhas, braneas
e amarelas. Perfume de rosas, pesado e doce na noite. Rosas cor-de-rosa,
alvejadas pela lua at se transformarem em cinzas. <<Minha Meggie, eu
abandonei-te, mas no percebes que te transformaste numa ameaa?
Por isso esmaguei-te sob o taco da minha ambio; para mim, no tens
mais substncia do que uma rosa amachucada no capim. O cheiro das
rosas. O cheiro de Mary Carsan.>>
- Cheira a rosas - disse, montando. - Vamos para to longe
como a Lua. Amanh a casa estar cheia delas.
 Ele esporeou com o calcanhar a gua czstanha e saiu a meio galope
 frente de Meggie pelo caminho que conduzia ao regato, com vontade
de chorar, pois enquanto no tivesse cheirado os futuros adornos do
caixo de Mary Carson este no lhe invadiria realmente o crebro como
um facto iminente. Partiria logo a seguir. Pensamentos em demasia,
emoes em excesso, todos ingovernveis. No o deixariam ficar em
Gilly nem mais um dia assim que se inteirassem dos termos do incrvel
testamento, cham-lo-iam imediatamente a Sidnei. Imediatamente! Ele
fugia da sua dor, pois jamais a conhecera, mas ela acompanhava os seus
passos sem qualquer esforo. No se tratava de alguma coisa num dia
vago; aquilo ia acontecer de imediato. E quase via o rosto de Paddy,
a repulsa, as costas voltadas para ele. Depois disso j no seria bem-
-vindo a Drogheda, e nunca mais veria Meggie.
 A displina imps-se ento, fincada a poder de cascos, numa sen-
sao de fuga. Era melhor assim, melhor assim, galopar sempre. A dor,
P: to, doeria, menos, quando estivesse escondido com segurana numa
cela do palcio de um bispo, doeria cada vez menos, at que, afinal,

186

1

desapareceria da conscincia. Tinha de ser assim. Era melhor do que
ficar em Gilly e v-la converter-se numa criatura de quem no gostava,
para depois cas-la, um dia, com algum desconhedo. Longe da vista,
longe do corao.
 Mas, ento, que estava ele a fazer agora com Meggie, cavalgando
por entre as moitas de buxos e coolibah, do outro lado do arroio?
Dir-se-ia que no podia atinar com a razo, apenas sentia a dor. No
a dor da traio, no havia lugar para isso, mas apenas a dor de deix-la.
- Padre! Padre! No consigo acompanh-lo! V um pouco mais
devagar, padre, por favor!
 Era o chamamento do dever e da realidade. Como em cmara
lenta, puxou sbita e violentamente as rdeas da gua, que deu meia
volta, e esperou que o animal serenasse e que Meggie o alcanasse.
Eis a a dificuldade. Meggie alcanava-o.
 Perto deles ouvia-se o rugido do poo, o grande poo fumegante
com chero a enxofre, com um cano parecido com o ventilador de
um navio, que lhe arremessava gua a ferver nas profundezas. A toda
a volta do permetro do lagozinho elevado, como raios sados do cubo
de uma roda, os drenos do poo rasgavam a plancie eriada de uma
relva incongruentemente verde. As margens do lago eram de um lodo
cinzento resvaladio, e os lagostins de gua doce, chamados yabies,
viviam no meio da lama.
 O padre Ralph desatou a rir.
- Isto cheira a inferno, no , Meggie? Enxofre. Flor-de-enxofre.
Aqui, bem aqui, na propriedade dela, no quintal dela. Mary dever
reconhecer o cheiro quando chegar l toda coberta de rosas, no deve?
Oh, Meggie...
 Os cavalos estavam treinados para ficar parados com as rdeas
soltas; no havia cercas por ali perto, e as rvores mais prximas fica-
vam a pouco menos de um quilmetro. lVlas existia um tronco deitado
do outro lado do poo, onde a gua era mais fria, assento preparado
para os banhistas de Inverno, enquanto deixavam secar os ps
e as pernas.
 O padre Ralph sentou-se e Meggie tambm, virando-se para poder
observ-lo melhor.
- Que aconteceu, padre?
 Parecia estranha aquela pergunta, feita tantas vezes por ele, e que
ela agora lhe dirigia. O adre Ralph sorriu.
- Eu vendi-te, Meggie, eu vendi-te por treze milhes de moedas
de prata.

187

PASSAROS FERIDOS

- Vendeu-me ?
-  um modo de dizer. No tem importncia. Vamos, senta-te
mais perto de mim. Pode ser que no tenhamos outra oportunidade
de conversar assim.
- Enquanto estivermos de luto pela tia, quer o senhor dizer!
- Ela foi-se aproximando at chegar perto dele. - Que diferena faz
estarmos de luto?
- No me refiro a isso; Meggie.
- O senhor quer dizer que  porque estou a crescer e as pesso is
podero falar de ns?
- No exactamente. Quero dizer que me vou embora.
 Pronto: encarar o problema de acetar outro fardo. Sem gritos,
sem choros, sem protestos. Apenas uma leve contraco, como se o fardo,
colocado de travs, teimasse em no se distribuir de modo que ela
pudesse suport-lo convenientemente. E uma respirao presa, que no
chegava a ser um suspiro.
- Quando?
- Uma questo de dias.
- Oh, padre!,Ser mais duro do que Frank.
- E para mim, ser mais duro do que qualquer outra coisa na
minha vida. Eu no tenho consolao. Tu, pelo menos, tens famlia.
- O senhor tem o seu Deus.
- Bem dito, Meggie! Ests, de facto, a crescer!
 Mas, mulher tenaz, o seu esprito voltara  pergunta que ela caval-
 ara cinco quilmetros sem ter oportunidade de formular. Ele ia-se
embora, seria muito difcil viver sem ele, mas a pergunta tambm tinh
importncia.
- Padre, na cocheira o senhor falou muito em rosas. Referia-se
 cor do meu vestido?
- De certo modo, talvez. Mas creio que eu realmente queria dizer
outra coisa.
- O qu?
- Nada que pudesses compreender, Meggie. A morte de uma
ideia que no tinha o direito de nascer, e muito menos de ser ali-
mentada.
- No h nada que no tenha o direito de nascer, nem mesmo
uma ideia.
 Ele virou a cabea pata observ-la.
- Sabes do que estou a falar, no sabes?
- Creio que sim.

188

- Nem tudo o que nasce  bom, Meggie.
- No. Mas se chegou a nascer  porque deve existir.
- Argumentas como um jesuita. Que idade tens?
- Vou fazer dezassete anas daqui a um ms, padre.
- E trabalhaste como uma pessoa crescida durante todos esses
dezassete anos. Muito bem, o trabalho pesado envelhece-nos mais de-
pressa do que os anos. Em que pensas, Meggie, quando arranjas tempo
para pensar?
- Penso em Jims, em Patsy e nos meus outros irmos, penso
no pai e na me, penso em Hal e na tia Mary. As vezes penso em ter
filhos, gostaria muito de t-los. E penso em andar a cavalo, nos carnei-
ros. Em todas as coisas sobre as quais os homens falam. Penso no
tempo, na chuva, na horta, nas galinhas, no que terei de fazer no dia
seguinte.
- No pensas em ter um marido?
- No, embora eu imagine que precisarei de um se quiser ter
filhos. No  bom para uma criana nascer sem pai.
 Apesat do safrimento, ele sorriu; ela era uma mistura to singular
de ignorncia e moral! De sbito, virando-se de lado, pegou-lhe no
queixo com a mo e baixou a vista para ela. Como dizer o que tinha
de ser dito?
- Meggie, ainda no h muito tempo compreendi uma coisa que
devia ter visto mais cedo. No foste muito sincera quando me falaste
acerca de tudo em que pensas, no  verdade?
- Eu comeou ela, e calou-se.
- No disseste que pensavas em mm. Se no havia culpa nisso,
terias mencionado o meu nome ao lado do nome do teu pai. Creio que
talvez seja uma boa coisa eu ir-me embora, no achas tambm? J ests
demasiado crescida para teres paixonetas de menina de escola, mas
tambm no s muito velha com os teus quase dezassete anos. Gosto
da tua inexperincia do mundo, mas sei quanto so penosas as paixo-
netas das garotas da escola; eu mesmo sofri muito por causa disso.
 Ela fez meno de falar, mas as plpebras caram-lhe sobre os olhos
brilhantes de lgrimas, e sacudiu a cabea.
- Ouve, Meggie,  simplesmente uma fase, um marco na estrada
da tua vida. Quando te tornares uma mulher, conhecers o homem des-
tinado a ser teu marido e estars to ocupada em viver que nem pensars
em mim, a no ser como um velho amigo que te ajudou em alguns
dos terrveis espasmos do crescimento. O que no deves  adquirir
o hbito de sonhar comigo de modo romntico. Nunca poderei ver-te

189

l SSAROSFERIDOS

como um marido te ver. No penso em ti dess maneira, ests a enten-
der-me, Meggie? Quando digo que te amo, no quero dizer que te amo
eomo homem. Sou padre, no sou homem. Por isso, no enchas a cabea
com sonhos a meu respeito. Vou-me embora e duvido muito que tenha
tempo, algum dia, de voltar, nem que seja para uma visita.
 Embora tivesse os ombros curvados, como se o fardo fosse muito
pesado, ela ergueu a eabea para encar-lo.
- No encherei a minha cabea de sonhos a seu respeito, no se
preocupe. Sei que o senhor  padre.
- E estou convencido de que no errei ao escolher a minha pro-
fisso. Ela satisfaz-me uma necessidade que nenhuma criatura humana
poderia satisfazer, nem mesmo tu.
- Eu sei. Vejo-o quando o senhor reza a missa. Vejo a sua fora.
Tenho a impresso de que deve sentir-se como Nosso Senhor.
- Posso ouvir cada respirao suspensa na igreja, Meggie! Morro
em cada dia que passa e, em cada manh, ao dizer a missa, renaso.
Mas sso acontece porque sou o padre escolhido de Deus, ou porque
ouo essas respiraes respeitosas e conheo o poder que tenho sobre
cada uma das almas presentes?
- Isso tem importneia? Basta que seja assim.
- Talvez nunca tivesse para ti, mas tem para mim. Eu duvido,
eu duvido.
 Ela desviou a conversa para o assunto que lhe interessava.
- No sei como conseguirei viver sem si, padre. Primeiro Frank,
agora o senhor. Com Hal, de certo modo, a coisa  diferente; sei que
est morto e nunca poder voltar. Mas o senhor e Frank esto vivos!
Estarei sempre a pensar em si, no que estar a fazer, se passar bem,
se no haveria alguma coisa que eu pudesse fazer para ajud-lo. Terei
at de perguntar a mim mesma se ainda est vivo, no  verdade?
- Sentirei a mesma cisa, Meggie, e tenho a certeza de que Frank
tambm sente.
- No. Frank esqueceu-nos... E o senhor igualmente nos esquecer.
- Nunca poderei esquecer-te, Meggie, enquanto for vivo. E, para
meu castigo, terei de viver muito, muito tempo. - Ele levantou-se
e levantou-a tambm. Em seguida ps os braos em torno dela, frouxa
e afectuosamente. -Creio que isto  um adeus, Meggie. No voltare
mos a estar sozinhos.
- Se o senhor no fosse padre casaria comigo?
 O ttulo martelou-lhe nos ouvidos, e ele procurou iludir a per-
gunta.

190

PASSAROS FERIDOS

- No me chames sempre padre. Tenho um nome e o meu nome
 Ralph.
 Embora continuasse a segur-la, no tinha inteno alguma de bei-
j-la. O rosto erguido para o seu era quase invisvel, pois a Lua desapa-
recera e estava muito escuro. Sentiu-lhe os seios, pequenos e rijos, no
peito; uma sensao curiosa, perturbadora. Ainda mais perturbador era
o facto de os braos dela lhe terem envolvido o pescoo e se enlaarem
apertada e naturalmente, como se estivesse acostumada a aninhar-se
todos os dias nos braos de um homem.
 Ralph jamais beijara algum como amante, nem queria faz-lo
agora; Meggie to-pouco haveria de quer-lo, pensou. No mximo,
um beijo quente no rosto, um rpido abrao, como os que ela daria
ao pai se este partisse em viagem. Sensvel e orgulhosa, devia ter-se
sentido profundamente magoada quando ele descobriu os seus queridos
sonhos e os esmiuou friamente. Meggie devia estar to an5iosa como
o padre para acabar com a despedida. Servir-lhe-ia, acaso, de conforto
saber que o sofrimento dele era muito pior que o dela? Quando ele
inclinou a cabea para alcanar-lhe o rosto, ela ergueu-se na ponta dos
ps e, mais por acaso do que de propsito, tocou-lhe os lbios com
os seus. Ralph recuou de sbito, como se tivesse provado o veneno da
aranha e, logo a seguir, inelinou a cabea para a frente antes de perd-la,
tentou dizer qualquer coisa junto dos seus lbios cerrados e, ao tentar
responder, ela abriu-os. Meggie sentiu que o seu corpo parecia perder
todos os ossos, tornava-se fluido, uma quente escurido que se derretia;
um dos braos dele envolvia-lhe a cintura, o outro, rodeandwlhe as
costas, segurava-lhe o crnio, os cabelos, e erguia-lhe o rosto, como se
tivesse medo de que ela lhe fugisse antes que ele pudesse captar e cata-
logar essa presena inacreditvel, demasiado estranha para ser familiar,
pois essa Meggie no era uma mulher, no sentia como uma mulher,
nunca seria uma mulher para ele. Exactamente como Ralph nunca seria
um homem para ela.
 O pensamento dominou-lhe os sentidos, que principiavam a sub-
mergir; arrancou os braos dela, com violncia, do pescoo, empurrou-a
para trs e tentou ver-lhe o rosto no escuro. Mas a jovem abaixara
a cabea, no Queria olhar para ele.
- J  hor de irmos, Meggie - disse o padre.
 Sem uma palavra, ela voltou-se para o seu cavalo, montou e ficou
 espera; habitualmente sucedia o contrrio.

191

PASSAROS FERIDOS

 O padre Ralph tivera razo. Naquela poca do ano, Drogheda
estava inundada de rosas, de modo que a casa ficou a abarrotar delas.
Por volta das oito horas da manh j no restava uma nica flor no
jardim. Os primeiros acompanhantes do fretro camearam a chegar
pouco depois de a ltima rosa ser arrancada da roseira; um pequeno-
-almoo leve, caf e pezinhos recm-feitos, com manteiga, fora servido
na pequena sala de jantar. Aps Mary Carson ser depositada na abbada
oferecer-se-ia um repasto mais substancial na sala de jantar grande,
a fim de fortificar os visitantes para as suas longas jornadas de volta.
A notcia espalhara-se, no se podia duvidar da eficincia da fonte de
informaes confidencais de Gilly, o circuto telefnico. Enquanto os
lbios modelavam frases convencionais, os olhos e as mentes especulavam,
deduziam, sorriam, maliciosos.
- Ouvi dizer que vamos perd-lo, padre - acudiu a Sr.t Carmi-
chael, com maldade.
 Ele nunca parecera to remoto, to destitudo de sentimentos
humanos como naquela manh, ao envergar a alva sem rendas e a
casula preta e sem brilho com a cruz de prata. Ihr-se-ia que s estava
presente o corpo, enquanto o esprito errava muito longe dali. Mas ele
abaixou os olhos para a Sr ta Carmichael com exptesso ausente, pareceu
recompor-se e sorriu com genuna jovialidade.
- Deus age de maneiras estranhas, Senhorita Carmichael - res-
pondeu, e foi falar com outra pessoa.
 Ningum teria adivinhado o que lhe passava pela cabea: a iminente
confrontao com Paddy a respeito do testamento, e seu medo de ver
a fria de Paddy, a sua necessidade da fria e do desprezo de Paddy.
 Antes de iniciar o ofcio de corpo presente, voltou-se para enfrentar
a sua congregao; a sala estava repleta e rescendia tanto a rosas que
as janelas no alcanavam dssipar-lhes o perfume pesado.
- No pretendo fazer um longo panegrico - disse com a sua
dico clara, quase oxfordana, e o seu leve substrato irlands.- Mary
Carson era canhecida de todos vs. Um pilar da comunidade, um pilar
da Igreja, que ela amava mais do que qualquer outro ser vivo.
 Nesse ponto havia os que juravam que os seus olhos pareciam rir,
mas tambm havia os que sustentavam, com o mesmo vigor, que os
toldava um pesar verdadeiro e permanente.
- Um pilar da Igreja, que ela amava mais do que qualquer outro
ser vivo - repetiu, com maior clareza ainda. - Na sua hora derradeira
ela parecia s e, no entanto, no o estava, pois na hora da nossa morte
Nosso Senhor Jesus Cristo acompanha-nos, suportando o fardo da nossa

agonia. Nem o maior nem o mais humilde dos seres morre s, e a morte
 suave. Estamos aqui reunidos para rezar pela sua alma imortal,
para que ela, que ammos em vida, desfrute da sua justa e eterna
recompensa. Oremos.
 O atade feito  pressa estava to coberto de rosas que mal se
divisava, e repousava sobre uma carreta que os rapazes tinham construdo
com vrias peas de equipamentos agrcolas. Mesmo assim, com as
janelas escancaradas e o perfume avassalador das rosas, sentia-se-lhe
o cheiro. O mdico tambm falara.
- Quando cheguei a Drogheda ela j estava to podre que
no consegui segurar o estmago - disse, pelo telefone, a Martin
King. - Nunca tive tanta pena de algum como de Paddy Cleary,
no s por lhe tirarem Drogheda mas por ser obrigado a colocar aquele
monte de carne fervilhante num caixo.
- Nesse caso no me oferecerei para carreg-lo - disse Martin,
to baixo por causa do excesso de extenses ocupadas do mesmo circuito
que o mdico teve de faz-lo repetir a declaxao trs vezes antes de
compreender.
 Por isso fez-se a earreta, pois ningum estava disposto a carregar
aos ombros os restos mortais de Mary Carson e atravessar com eles
todo o relvado at  abbada. E pessoa alguma ficou triste quando
as portas da cmara morturia se fecharam sobre ela e a resprao,
por fim, se normalizou.
 Enquanto os acompanhantes do enterro se apinhavam na grande
sala de jantar, comendo ou fingindo comer, Harry Gough levou Paddy,
a famlia, o padre Ralph, a Sr Smith e as duas criadas para a sala
de estar. Nenhum dos presentes tinha a menor inteno de voltar
para casa, e por isso simulavam comer; queriam estar l para ver
a cara de Paddy quando este sasse da sala aps a leitura do testamento.
Ele e a famlia, justia seja feita, no se haviam comportado durante
o enterro como se tivessem eonscincia do seu elevado status.
Bonacheiro como sempre, Paddy chorara a morte da irm, e Fee
afivelara a sua habitual express ausente, como se pouco lhe importasse
o que pudesse acontecer-lhe.
- Paddy, quero que impugne o testamento - disse Harry Gough
depois de haver lido o surpreendente documento at ao fim, com voz
dura e indignada.
- Velha cadela malvada! - resmoneou a Sr  Smith; conquanto
estimasse o padre, ela gostava muito mais dos Cleary, que haviam tra-
zido crianas  sua vida.

19 193

 Paddy, porm, abanou a cabea.
- No, Harry! Eu no posso fazer uma coisa dessas. A proprie-
dade era dela, no era? Ela tinha todo o direito de fazer o que bem
entendesse com o que era seu, inclusive do-lo  Igreja. No nego que
fiquei um pouco decepcionado, mas acontece que sou um tipo perfeita-
mente comum, por isso talvez seja melhor assim. No creio que me
agradasse a responsabilidade de possuir uma propriedade do tamanho
de Drogheda.
- Voc no compreende, Paddy - disse o advogado em voz lenta
e distinta, como se estivesse a dar uma explicao a uma criana. - No
falo apenas em Drogheda, que era a parte mais pequena do que a sua
irm tinha para lhe deixar, acredite-me. Ela  uma das principais
accionistas de uma centena de grandes companhias, possu fbricas de ao
e minas de ouro, ela  Michar Limited, com um prdio de scritrios
de dez andares, em Sidne. Ela era mais rica do que qualquer outra
pessoa na Austrlia! Engraado, Mary pediu-me h menos de quatro
semanas que me entendesse com os directores da Michar Limited para
saber a soma exacta dos seus bens. Quando morreu, possua qualquer
coisa acima de treze milhes de libras.
- Treze milhes de libras ! - Paddy pronunciou a soma como
quem diz a distncia da Terra ao Sol, qualquer coisa totalmente ncom-
preensvel. - Isso resolve a questo, Harry. Jamais quereria ter a respon-
sabilidade de lidar com tanto dinheiro.
- No h qualquer responsabilidade, Paddy! Voc ainda no
compreendeu? Uma fortuna desse tamanho cuida de si mesma! No teria
necessidade alguma de cultiv-la e colh-la; existem centenas de pessoas
cuja nicz suno  tomar conta dela. Impugne o testamento, Paddy,
por favor! Eu arranjar-lhe-ei os melhores advogados do pas e lutarei
por si, nem que seja preciso apelar para o Conselho Privado.
 Compreendendo, de repente, que a sua famlia tinha tanto interesse
como ele, Paddy voltou-se para Bob e Jack, que ouviam, pezplexos,
sentados num banco de mrmore florentino.
- Que dizem, rapazes? Querem reivindicar os treze milhes de
libras esterlinas da tia Mary? Se quiserem, eu impugnarei, caso con-
trrio, no.
- Ns poderemos viver em Drogheda, no  isso que diz o testa-
mento? - perguntou Bob.
 Foi Harry quem respondeu:
- Ningum poder expuls-los de Drogheda enquanto viver pelo
menos um neto do vosso pai.

- Viveremos aqui na casa grande, teremos a Senhora Smith
e as empregadas para cuidar de ns, e ganharemos um bom orde-
nado - acudiu Paddy, como se o mais difcil para ele fosse acredtar
na sua boa fortuna e no na m.
- Nesse caso, que mais haveremos de querer, Jack? - perguntou
Bob ao irmo. -No ests de acordo comigo?
- Inteiramente - respondeu Jack.
 O padre Ralph mexeu-se, intranquilo. Ele nem sequer trocara as
vestes que usara para celebrar a missa de requiem, nem se sentara
para ouvir a leitura do testamento; como um escuro e belo feiticeiro,
permaneca meio oculto na sombra, no fundo da sala, isolado, as mos
debaixo da casula preta, o rosto impassvel e, no fundo dos distantes
olhos azuis, um ressentimento horrorizado, assombrado. No receberia
sequer a punio to desejada de fria ou de desprezo; Paddy entregava-
-lhe tudo na bandeja dourada da boa vontade, e ainda lhe agradecia
por livrar os Cleary de um fardo.
- E quanto a Fee e a Meggie? - perguntou o padre em tom
spero.- O Paddy faz to pouco caso das mulheres que no se d
ao trabalho de consult-las?
- Fee? - perguntou Paddy, com ansiedade.
-  o que decdres. No me importo.
- Meggie ?
- No quero os treze milhes de moedas de prata dela - disse
Meggie com os olhos fitos no padre Ralph.
 Paddy voltou-se para o advogado.
- Ento est decidido, Harry. No queremos impugnar o testa-
mento. A Igreja que fique com o dinheiro de Maty e que lhe faa bom
proveito.
 Harry juntou as mos.
- Com seiscentos diabos! Eu detesto v-lo ser enganado!
- Pois eu stnto-me muito grato a Mary - disse Paddy suave-
mente. - Se no fosse ela, ainda estaria a tentar no morrer de fome
na Nova Zelndia.
 Quando saam da sala de estar, Paddy deteve o padre Ralph
e estendeu-lhe a mo, diante de todos os acompanhantes do enterro,
aglomerados  porta da sala de jantar.
- Padre, no pense que existe algum ressentimento da nossa parte.
Mary nunca se deixou influenciar por outro ser humano em toda a sua
vida, padre, irmo ou marido. Oua o que lhe digo, ela fez o que queria

194 I 195

fazer. O senhor foi muito bom para ela e tem-no sido tambm para ns.
Nunca o esqueceremos.
 A culpa. O fardo. O padre Ralph quase no se moveu para apertar
a mo nodosa e manchada, mas o crebro de cardeal venceu; aceitou-a
febrilmente e sorriu, agoniado.
- Obrigado, Paddy. Fique descansado que zelarei porque nunca
lhes falte coisa alguma.
 No meio da semana ele foi-se, mas no voltou a Drogheda. Passou
os poucos dias que lhe restavam em Gilly acondicionando os seus poucos
pertences e visitando as fazendas do distrito onde havia famlias cat-
licas, excepto Drogheda.
 O padre atkin Thomas, procedente do Pas de Gales, chegou
para assumir as funes de proco do distrito de Gillanbone, enquanto
o padre Ralph de Bricassart passava a exercer o cargo de secretrio
particular do arcebispo Cluny Dark. Mas o seu trabalho era leve e tinha
dois subsecretrios. Assm, gastava a maior parte do tempo investigando
no que e em quanto consistia exactamente o esplio de Marv Carson
e investindo-se na posse dele em nome da Igreja.

III

1929-1932 - PADDY

196

8

 O ano novo chegou com a festa anual de Hogmanay, em Rudna
 Hunish, dada por Angus Mac Queen, e a mudana para a casa
 grande ainda no se realizara. No era coisa que se pudesse
 fazer da noite para o dia, entre acondicionar os mil e um
trastes acumulados durante mais de sete anos e a declarao de Fee
de que s se mudaria depois de a sala de estar da casa grande ficar
pronta. Ningum tinha a menor pressa, conquanto todos antegozassem
a mudana. Em alguns aspectos, a casa grande no se revelaria diferente:
s,o tinha electricidade e as moscas povoavam-na com a mesma intensi-
dade. No Vero, todavia, a temperatura no interior era cerca de oito
 raus mais baixa do que fora, graas  espessura das paredes de pedra
e dos eucaliptos que lhe protegiam o telhado. Alm disso, a casa de
banho era um verdadeiro luxo, tinha gua quente durante todo
o Inverno, vinda atravs de canos instalados atrs do vasto fogo da
eozinha, e cada gota que passava pelos canos era de gua da chuva.
Embora os banhos de imerso e de chuveiro tivessem de ser tomados
nessa grande estrutura com os seus dez cubculos separados, a casa
grande era liberalmente dotada de retretes, grau indito de opulncia
que havia surpreendido os invejosos habitantes de Gilly. Tirando o Hotel
Imperial, duas hospedarias, a casa paroquial catlica e o convento,
o distrito de Gillanbone s conhecia retretes fora de easa. Isto era
possvel em Drogheda, graas ao enorme nmero de tanques que capta-
vam a gua da chuva. As regras eram estritas: nada de descargas
desnecessrias e muito desinfectante de carneiro. Mas, depois dos buracos
feitos no eho, aquilo era o paraso.
 O padre Ralph mandara a Paddy um cheque de cinco mil libras
no comeo do ms de Dezembra, para que ele se fosse arranjando,

199

PSSAftOS FERIDOS

dizia a carta; Paddy passou-o a Fee com uma exclamao de deslum-
bramento.
- Duvido que tenha conseguido ganhar tanto dnheiro em todos
os dias que j trabalhei na miiiha vida - disse.
- Que vou eu fazer com isto? - perguntou Fee, alternando os
olhos cintilantes entre o cheque e o marido. -  dinheiro, Paddy!
 dinheiro, compreendes? No fao caso dos treze milhes de libras
da tia Mary... no h nada de real nisso. Mas isto  real ! Que vou
fazer com as Iibras?
- Gasta-as - disse Paddy simplesmente. - Que tal umas roupas
novas para as crianas e para ti? E talvez haja coisas que queiras comprar
para a casa grande. Sei l! No consigo imaginar mais nada de que
precisemos.
- Nem eu, no  divertido? - Fee levantou-se da mesa do
pequeno-almoo, chamando Meggie com um gesto imperioso. -Vamos
andando, menina, vamos dar uma olhadela,  casa grande.
 Embora j se tivessem passado trs semanas depois dos dias de
terrvel excitao que se seguiram  morte de Mary Carson, nenhum
dos Cleary havia chegado perto da casa grande. Mas agora a visita de Fee
compensou-os de sobra da relutncia anterior. Ela passou de uma sala
para outra em companhia de Meggie, da Sr  Smith, de Minnie e de Cat
animada como a atnita Meggie nunca a vira. Falava consigo mesma,
em murmrio: uIsto era medonho, aquilo era um pavor; Mary devia
ser daltnica ou, ento, nunca tivera o mnimo bom gosto. ,
 Na sala de estar, Fee demorou-se mais tempn, inspeccionando-a
com ares entendidos. S a sala de recepes a excedia em tamanho,
pois media doze metros de comprimento por nove de Iargura e quatro
e meio de altura. Reunia uma mistura do melhor e do pior na sua
decorao, e a pintura creme uniforme, j amarelada, no concorria
para realar os magnficos frisos do tecto nem os painis esculpidos
nas paredes. As janelas enormes, que iam do soalho ao tectn e que se
sucediam, ininterruptas, ao Iongo dos doze metros que davam para
a varanda, tinham cortinas pesadas de veludo castanho, que projectavam
uma sombra densa sobre as encardidas poltronas, dois belssimos bancos
de malaquita e dois bancos, igualmente belos, de mrmore florentino.
e uma lareira macia de mrmore creme com veios cor-de-rosa. No soalho
polido de tbuas de teca, trs tapetes de Aubusson tinham sido dispos-
tos com geomtrica preciso, e um candelabro de Waterford, de quas
dois metros de comprimento, tocava o tecto, com a corrente enrol d ,
 sua volta.

- Est de parabns, Senhora Smith - declarou Fee. A decorao
 positivamente horrorosa, mas tudo est imaculadamente limpo.
Eu dar-lhe i alguma coisa de que valha a pena cuidar. Estes preciosos
bancos sem nada que os evidencie!  uma vergonha! Desde que vi esta
sal pela primeira vez, desejei transform-la em algo to bonito que
despertasse a admirao dos que entrassem e, ao mesmo tempo, to con-
fortvel que eles desejassem ficar.
 A escrivaninha de IVlary Carson era uma hediondez vitoriana;
Fee encaminhou-se para ela e para o telefone l colocado, batendo-lhe
de leve e com desprezo na madeira sombria.
- A minha secretria ficar lindamente aQui - disse. - Come-
arei com esta sala e, quando a tiver terminado, mudar-me i l de baixo,
antes disso no. Teremos ento, afinal, um lugar onde nos poderemos
reunir sem nos sentirmos deprimidos.
 Sentou-se e tirou o auscultador do gancho.
 Enquanto a filha e as criadas formavam, extticas, um pequeno
grupo aturdido, ela ps Harry Gough em aco. Mark Foys mandaria
amostras de tecidos pela mala nocturna; Nock & Kirbys, amostras de
tintas; Grace & Brothers, amostras de papis de parede; essas e outras
lojas de Sidnei enviariam catlogos especialmente compilados para ela,
descrevendo os artigos que podiam fornecer. Com risos na voz,
Harry garantiu que arranjaria um decorador competente e um grupo
de pintores capazes de realizar o trabalho meticuloso exigido por Fee.
Bravo, Sr Cleary! Ela varreria da casa os ltimos refgios de Mary
Carson.
 Concludo o telefonema, todas receberam instrues para arrancar
imediatamente as cortinas de veludo castanho das janelas, e elas l
foram para o monte de lixo, numa orgia de desperdcio que a prpria
Fee supervisou, fazendo questo de chegar-lhes pessoalmente a tocha
redentora.
- No precisamos delas - disse - e no tenho coragem de as dar
aos pobres de Gillanbone.
- Sm, me - concordou Meggie, paralisada.
- No colocarei cortinas nas janelas - anunciou Fee, sem se
preocupar com essa quebra flagrante dos costumes decorativos da
poca. - A varanda  to larga que no deixa o sol entrar ditecta-
mente, de modo que no precisaremos delas. Quero que esta sala
seja vista.
 Os materiais chegaram, como tambm os pintores e o decorador;
Meggie e Cat foram mandadas para o alto de uma escada a fim de

200 201

lavarem os vdros superiores das janelas, enquanto a Sr.a Smith e Minnie
se haviam com os inferiores; Fee, andando de um lado para outro,
inspeccionava tudo com olhos de guia.
 Na segunda semana de Janeiro estava tudo pronto e, de uma
maneira ou doutra, naturalmente, a notcia espalhou-se pelo circuito
telefnico. A Sr.a Cleary transformara a sala de estar de Drogheda num
palcio, e a Sr  Hopeton no faria mas que um acto de cortesia acom-
panhando a Sr.a King e a Sr  O'Rourke numa vista  Sr  Cleary,
a fim de lhe desejarem felicidades na nova residncia.
 Ningum negou que os esforos de Fee redundaram em beleza pura.
Os tapetes creme de Aubusson, com os seus ramalhetes desbotados
de rosas vermelhas e folhas verdes, tinham sido colocados mais ou menos
ao acaso pelo cho, que brilhava como um espelho. Uma nova pintura
creme cobria as paredes e o tecto, e cada friso e entalhe fora cuidadosa-
mente pintado de dourado, mas os imensos espaos ovalados e lisos
dos painis tinham sido revestidos de seda preta descorada, que ostentava
os mesmos ramalhetes de rosas desenhados nos tapetes, como pinturas
japonesas postas sobre andas e cercadas de creme e ouro. Abaixara-se
o candelabro de Waterford at que o seu fundo, suspenso do tecto,
distasse apenas dois metros do soalho, e polira-se cada um dos seus
milhares de prismas at arrancar-lhes flgidos arco-ris. A grande corrente
de bronze estava presa  parede em lugar de se enrolar no tecto.
Sobte mesas altas e esguias, creme e ouro, viam-se lampes Waterford
ao lado de cinzeiros Waterford e de vasos Waterford cheios de rosas
brancas e rseas; todas as grandes poltronas confortveis tinham sido
recobertas de seda creme acolchoada e colocadas de modo a fotmarem
pequenos grupos aconchegados com grandes escabelos convidativos;
num canto soalheiro, colocara-se a antiga e delicada espineta, encimada
por um enorme vaso de rosas. Por cima da lareira pendia o retrato
da av de Fee na sua plida saia-balo cor-de-rosa e, olhando para ela,
no extremo oposto da sala, o retrato ainda maior de uma juvenil
e ruiva Mary Carson, com o rosto parecido com o c Ta juvenil rainha
Vitria, num vestido preto engomado, segundo a moda do tempo.
- Muito bem - disse Fee -, agora podemos mudar-nos l de
baixo. Arrumarei as outras salas devagar. No  agradvel ter dinheiro
e uma casa decente onde gast-lo?
 Uns trs dias antes da mudana, to cedo que o Sol ainda nem
nascera, os galos na capoeira cantavam alegremente.
- Patifes - disse Fee, embnzlhando a loua em jornais velhos.-
No sei o que eles imaginam que fizeram para cantar dessa maneira.

Nem um ovo em casa para o pequeno-almoo, e todos os homens c
at terminar a mudana. Meggie,  preciso que vs  capozira; tenho
muito que fazer. - Ela correu os olhos por uma pgina amarelada
do Sydney Morning Herald, rindo-se s gargalhadas com um anncio
de espartilhos que deixavam a cintura fina como cintura de vespa.-
No sei por que razo Paddy insiste em recebermos todos estes jornais;
ningum tem tempo para l-los e eles vo-se empilhando depressa de
mais para poderem ser queimados no fogo. Vejamos este aqui!
 de antes de virmos para esta casa. Bem, pelo menos servem para
empacotar as coisas.
 Era bom ver a me to prazenteira, pensou Meggie ao descer
a escada das traseiras a correr e ao atravessar o ptio empoeirado.
Se bem que toda a gente aguardasse com natural interesse o dia da
mudana, a me parecia ansiar por isso, como se pudesse lembrar-se
de como era a vida numa casa grande. E quanta inteligncia e bam
gosto ela revelara! Coisas de que ningum se dera conta ainda, porque,
at ento, no houvera tempo nem dinheiro para que pudessem
manifestar-se. Meggie felicitava-se, comovida; o pai fora procurar
o joalheiro de Gilly e utilizara parte das cinco mil libras para eomprar
uma gargantilha e um par de brincos de prolas verdadeiras para a me,
s que no meio das prolas havia tambm uns brilhantezinhos. Ele pre-
tendla dar-lhe as jias no seu primeiro jantar na casa grande. Agora que
ela vira o rosto da me liberto da torva expresso habitual, mal conse-
guia esperar para apreciar o seu semblante quando recebesse as prolas.
Desde Bob at aos gmeos, todos aguardavam com ansiedade esse
momento, pois o pai mostrara-lhes o grande estojo achatado de couro
e abrira-o para revelat as leitosas contas opalescentes sobre o leito de
veludo negro. A felicidade da me, que desabrochava, exercera profunda
influncia neles; era como presenciar o incio de uma boa ehuvada
refrescante. At ento no tinham compreendido perfeitamente quanto
 ela deveria ter sido infeliz durante todos aqueles anos.
 A capoeira, muito grande, abrigava quatro galos e mais de quarenta
 galinhas, que passavam a noite debaixo de um telheiro em runas,
cujo cho, cuidadosamente varrido, tinha, de espao a espao, cestos
cheios de palha para a postura; mais atrs, viam-se os poleiros a vrias
alturas. Durante o dia, porm, as aves passeavam, cacarejando, num
grande cercado de rede. Quando Meggie abriu o porto do cercado
e se esgueirou para dentro, as galinhas reuniram-se, vidas,  sua volta,
imaginando que seriam alimentadas, mas, como s lhes dava de comer

202 203

PSSAROS FERIDOS

 tardinha, Meggie riu-se das suas tolas momices e, passando por entre
elas, entrou debaixo do telheiro.
- Francamente, que bando incorrigvel de galnhas vocs me
saram! - recriminou-as, severa, enquanto examinava os ninhos. - Qua-
renta bicos e apenas quinze ovos! No do nem para o pequeno-almoo,
quanto mais pata um bolo. Pois vou dizer-lhes uma coisa e  bom
que prestem ateno... se a situao no melhorar, iro todas para
a panela, e isto tanto se aplica aos senhores da capoeira quanto s suas
excelentssimas esposas. Portanto, no fiquem assim de cauda erguida
e pescoo inchado como se eu no me referisse tambm aos senhores,
cavalheiros !
 Com os ovos cuidadosamente ajeitados no avental, Meggie voltou
depressa para a cozinha, cantando.
 Sentada na cadeira de Paddy, Fee tinha os olhos parados numa
folha do Smith's Z> eekly, o rosto branco, os lbios em movimento.
Dentro de casa, Meggie ouvia os homens a andar de um lado para
outro e os sons de Jims e Patsy, de seis anos, rindo-se; eles no podiam
levantar-se enquanto os homens no tivessem sado.
- Que aconteceu, me? - perguntou Meggie.
 Fee no respondeu. Continuou sentada, olhando em frente,
enquanto bagas d suor lhe corriam ao longo do lbio superior, os olhos
imobilizados por uma dor desesperadamente racional, como se dentro
de si mesma ela estivesse a reunir todos os recutsos que possua para
no gritar.
- Pai, pai! - chamou Meggie em tonz lancinante, assustada.
 O tom da sua voz trouxe-o depressa, ainda a abotoar a camisa
de flanela, seguido de Bob, Jack, Hughie e Stu. TVleggie, sem dizer
uma palavra, apontou para a me.
 O corao de Paddy pareceu bloquear-lhe a garganta. Ele inclinou-
-se sobre Fee e agarrou-lhe na mo.
- Que foi, querida? - perguntou com uma ternura que nenhum
dos filhos Ihe conhecia; dum modo ou doutro, porm, compreenderam
que era a ternura com que devia trat-la quando eles no estavam perto
para ouvir.
 Fee pareceu reconhecer aquele tom de voz especial, e isso foi
o suficiente para emergir do seu estado de choque. Os gratzdes olhos
cinzentos fitaram-se no rosto dele, to bom e to cansado.
- Aqui - murmurou, apontando para uma notcia sem muito
destaque, quase no fundo da pgina.

 Stuart colocara-se atrs da me, com a mo levemente pousada no
ombro dela; antes de comear a ler o artigo, Paddy ergueu a vista
para o filho, para os olhos to parecidos com os de Fee, e fez um sinal
com a cabea. O que lhe despertara o cime em Frank nunca o fara
em Stuart, como se o amor que amhos votavam a Fee os unisse anda
mais em lugar de separ-los.
 Paddy leu em voz alta, devagar, ao passo que o tom de sua voz
se tornava cada vez mais triste. O pequeno cabealho dizia: <<Pugilista
condenado a priso perptua.>>

 Francis ArmstrDng Cleary, de vinte e seis anos, pugilista,
foi julgado hoje no Tribunal Distrital de Gouldbourn pelo assassinio
de Konald Albert Cumming, de trinta e dois anos, operrio,
ocorrido no ms de Julho prximo passado. O jri chegou  sua
deciso depois de apenas dez minutos de deliberao, recomendando
a punio mais severa gue o tribunal pudesse aplicar. Era, disse
o juiz Fitz-Hugh Cunneally, um caso simples e evidente. Cumming
e Cleary tinham brigado violentamente no bar pbico do Harbor
Hote no dia 23 de Julho. Mais tarde, na mesma noite, o sargento
Tom Beardsmore, da policia de Goulbourn, acompanhado de alguns
agentes, foi chamado ao Harbor Hotel pelo seu proprietrio,
o Sr. James Ogilvie. Na alameda atrs do hotel a policia descobriu
Cleary esmurrando a cabea do insensivel Cumming. Nos seus
punhos ensanguentados viam-se tufos de cabelo de Cumming.
Quando foi detido, Cleary estava bbedo, mas lcido. Foi acusado
de agresso com a inteno de produzir ferimentos graves, nzas essa
acusao foi mudada para a homicidio depois de Cumming ter
;norrido, devido a leses cerebrais, no Hospital Distrital de Gould-
bourn, no dia seguinte.
 O advogado Sr. Arthur 1' hyte alegou, em defesa do ru,
a atenuante de insanidade mental, mas guatro peritos mdicos
da Coroa afirmaram peremptoriamente que, de acordo com o que
dispem as regras de M'Naghten, Cleary no poderia ser declarado
irresponsvel. Dirigindo-se aos jurados, o juiz Fitz-Hugh Cunneally
disse-lhes que no se tratava de decidir se o ru era culpado
ou inocente, pois a sua culpa era clara. Solicitava-lhes, porm,
que pensassem bem antes de recomendar clemncia ou severidade
ao tribunal, pois este pautaria a sua deciso pela opinio deles.
Ao proferir a sentena contra Cleary, o juiz Fitz-Hugh Cunneall5
disse que se tratava de um acto de < selvajaria su6-hs<mana, , e lame>z-

204 205

PASSAROS FERIDOS

tou gue a natureza do crime, no premeditado por ter sido come-
tido em estado de embriaguez, excluisse o enforcamento, pois,
no seu entender, as mos de Cleary eram uma arma to mortal
como um revlver ou uma faca. Cleary foi condenado a priso
perptua com trabalhos forados, devendo a sentena cumprir-se
na cadeia de Gouldbourn, instituio destinada aos prisioneiros
que revelam disposio para a violncia. Ao perguntarem-lhe se
tinha alguma coisa para dizer, Cleary respondeu: ccNo contem
 minha me.>>

 Paddy olhou para o alto da pgina  procura da data: 6 de Dezem-
bro de 1925.
- Isto aconteceu h mais de trs anos - observou, em tom vazio.
 Ningum Ihe respondeu, pois ningum sabia o que dizer; da frente
da casa veio o riso alegre dos gmeos, cujas vozes se elevavam numa
interminvel conversa fiada.
- No... contem...  minha me - disse Fee num murmrio.-
E ningum contou! Oh, meu Deus! Meu pobre Frank!
 Paddy enxugou as lgrimas do rosto com as costas da mo livre,
depois acocorou-se diante dela, batendo-lhe de leve no colo.
- Fee querida, arruma as tuas coisas. Vamos v-lo.
 Ela semiergueu-se mas tornou a cair, e os olhos, no rosto mido
e branco, brilhavam como se estivessem mortos, as pupilas enormes
revestidas de uma pelcula dourada.
- No posso it - disse, sem nenhuma sugesto de sofrimento,
mas fazendo toda a gente sentir que o sofrimento l estava. - Ele
morreria se me viss . Oh, Paddy, isso mat-lo-ia! Conheo-o to bem...
o seu orgulho, a sua ambio, a sua determinao de ser algum impor-
tante. Deixa-o sofrer a vergonha sozinho,  o que ele quer. Acabaste
de ler: <<No contem  minha me.>> Precisamos de ajud-lo a guardar
o seu segredo. Que bem lhe far visit-lo?
 Paddy ainda estava a chorar, mas no por Frank; chorava pela
vida que se fora do rosto de Fee, pela morte que lia nos seus olhos.
Um Jonas, era o que o rapaz sempre fora, um amargo portador da
desgraa, erguendo-se para sempre entre Fee e ele, a causa da fuga
dela do seu corao e do corao dos seus filhos. Todas as vezes que
parecia haver alguma felicidade  espera de Fee, Frank arrebatava-lha.
Mas o amor que Paddy votava a Fee era to profundo e to impossvel
de ser erradicado como o que ela votava a Frank; depois daquela noite

na casa paroquial, Paddy nunca mais poderia usar o rapaz como o seu
l,ode expiatrio.
 Por isso, dsse:
- Bem, Fee, se achas que  melhor no tentarmos entrar em
contacto com ele, no tentaremos. Mas eu gostaria de saber se ele
est bem, se se fez tudo o que  possvel por ele. E se eu escrevesse
ao padre de Bricassart e lhe pedisse que olhasse um pouco por Frank?
 Os olhos de Fee no se animaram, mas um leve tom rseo acudiu-
-lhe s faces.
- Sim, Paddy, faz isso. S quero que lhe recomendes que no
diga que ns sabemos o que aconteceu. Talvez at Frank se sentisse
me hor tendo a certeza de que no sabemos de nada.
 Poucos dias depois, Fee recuperou quase toda a energia, e o interesse
pela redecorao da casa grande manteve-a ocupada. Mas o seu silncio
tornou-se melanclico outra vez, embora menos severo, apenas traduzido
por uma calma inexpressiva. Dir-se-ia que lhe interessava mais o aspecto
que teria afinal a casa grande do que o bem-estar da famlia. Ela talvez
julgasse os filhos capazes de cuidar de s mesmos espiritualmente, e a
Sr.a Smith e as raparigas l estavam para cuidar deles fisicamente.
 Apesar de tudo, a descoberta do destino de Frank comovera pro-
fundamente todos os membros da famlia. Os mais velhos afligiam-se
intensamente por causa da me e passavam noites sem dormir lembrando-
-se do seu rosto no momento terrvel. Amavam-na, e a sua alegria
nas poucas semanas anteriores dera-lhes uma viso dela que nunca rnais
os abandonaria e lhes inspirava um desejo apaixonado de traz-la de
volta. Se o pai havia sido o fulcro em torno do qual tinham girado
as suas vidas at ento, a partir desse instante a me foi colocada ao
lado dele. Comearam a trat-la com um zelo terno e absorto, que
nenhum grau de indiferena da parte dela conseguia eliminar. De Paddy
a Stu, os membros masculinos da famlia Cleary conspiraram para fazer
da vida de Fee o que ela desejasse, e todos se exigiam mutuamente
fidelidade a esse propsito. Ningum deveria jamais feri-la ou mago-la
outra vez. E quando Paddy lhe deu as prolas de presente e ela as
aceitou com uma palavra breve e inexpressiva de agradecimento, sem
nenhum prazer e sem manifestar interesse em examinar as jias, todos
concluram que a sua reaco seria muito diferente se no fosse Frank.
 Se a mudana para a casa grande no tivesse ocorrido, a pobre
Meggie teria sofrido muito mais, pois, embora no fosse admitida plena-
mente como membro da sociedade masculina de proteco  me (sen-
tindo, talvez, que a sua participao era mais relutante do que a deles ),

206 207

o pai e os irmos mais velhos esperavam que ela arcasse com todas as
tarefas que a Fee obviamente repugnavam. Na realidade, a Sr Smith
e as criadas partilharam do fardo com Meggie, e, no que tocava parti-
cularmente a cuidar de Jims e Patsy, a Sr  Smith assumiu todo o encargo,
com tamanho ardor que Meggie no poderia ter pena dela; ao invs disso,
sentia-se de certo modo contente, porque os dois poderiam, afinal,
pertencer inteiramente  governanta. Meggie sentia igualmente pena
da me, mas no de um modo to completo como os rapazes, pois a sua
lealdade estava a ser cruelmente posta  prova; a grande veia materna
que havia nela sentia-se profundamente ofendida pela indiferena cada
vez maior de Fee por Jims e Patsy. <<Quando eu tiver os meus filhos>>.
pensava no mais ntimo de si mesma, <<nunca gostarei mais de um deles
do que dos outros.>>
 Viver na casa grande era, de facto, muito diferente. A princpio
todos estranharam ter um quarto, e, as mulheres, no precisarem de
preocupar-se com as tarefas domsticas, dentro ou fora de casa. Minnie,
Cat e a Sr  Smith davam conta de tudo sozinhas, desde lavar e passar
a ferro at cozinhar e limpar, e ficavam horrorizadas com as ofertas
de ajuda. Por outro lado, em troca de muita comida e minguados salrios,
uma procisso interminvel de andarilhos registava-se nos livros da
fazenda como biscateiros, e eram eles que rachavam lenha para os foges
e lareiras da casa, alimentavam as aves e os porcos, ordenhavam,
ajudavam o velho Tom a tomar conta dos belos jardins e faziam toda
a limpeza pesada.
 Paddy recebera noticias do padre Ralph.
 a0 rendimento das propriedades de Mary totaliza aproximadamente
quatro milhes de libras por ano, graas ao facto de a Michar Limited
ser um companhia particular, com a maior parte do seu activo empre-
gado em ao, navios e minrios>>, escreveu o padre Ralph. <<Por isso
o que Ilie destinei no passa de uma gota de gua no balde da fortuna
Carson e no chega sequer a um dcimo dos lucros de Drogheda
num ano. To-pouco se preocupe com os anos maus. A conta-corrente
da fazenda tem um saldo positivo to grande que eu poderia pagar-lhe
s com o dinheiro dos juros, se fosse necessrio. Por conseguinte,
o dinheiro que lhe chega s mos  apenas o que merece, e no abala
a Michar Limited. Voc est a receber dinheiro da fazenda, e no da
companhia. S lhe peo que mantenha actualizados e correctamente
escriturados os livros d fazenda para os auditores.>>
 Foi depois de receber esta carta que Paddy celebrou uma confe-
rncia na bela sala de estar, numa noite em que estavam todos em casa.

Sentou-se, com os meios-culos de aros de metal empoleirados no nariz
romano, numa grande poltrona creme, ajeitou confortavelmente os ps
num escabelo da mesma cor e colocou o cachimbo num cinzeiro de
Waterford.
- Como isto  agradvel! - Sorriu, olhando  sua volta com
prazer. - Creio que devemos aprovar um voto de agradecimento  me,
no acham, rapazes?
 Ouviram-se murmrios de assentimento dos <<rapazes>>; sentada no
que havia sido a bergre de Mary Carson, recoberta agora de seda creme,
Fee inclinou a cabea. Meggie enroscou os ps em torno do eseabelo
que lhe servia de poltrona, e obstinou-se em manter os olhos fitos
na meia que estava a cerzir.
- Bem, o padre de Bricassart organizou tudo e mostrou-se muito
generoso - continuou Paddy. - Depositou sete mil libras no banco
em meu nome, e abriu cadernetas de poupana com a importncia inicial
de duas mil para cada um de ns. Receberei quatro mil libras por ano
como gerente da fazenda e Bob, trs mil, como subgerente. Os rapazes
que j esto a trabalhar ( Jack, Hughie e Stu ) recebero duas mil e os
pequenos, mil libra.s anuais at chegarem  idade de saber o que querem
 fazer.
 <<Quando os pequenos crescerem, o esplio pagar a cada um uma
' renda anual igual  dos irmos que estiverem a trabalhar em Drogheda,
 mesmo que no o queiram fazer. Quando Jims e Patsy eompletatem
 doze anos, sero enviados para o Riverview College, em Sidnei,
 como internos, e ali sero educados a expensas do esplio.
 aA me ter duas mil libras por ano para si, e o mesmo ser dado
 a Meggie. Para custear as despesas da casa receberemos cinco mil libras,
 embora eu no saiba onde foi que o padre descobriu que precisamos
 de tanto dinheiro. Segundo ele, isso servir para a hiptese de querermos
 fazer maiores alteraes. Recebi as suas instrues no tocante ao que
 deve set pago  Sr Smith, a Minni, a Cat e a Tom, e devo dizer
 que ele no foi mesquinho. Quanto aos outros salrios, sero fixados
 por mim. Mas a minha primeira deciso como gerente  contratar pelo
 menos mais seis pastores, para que Drogheda possa ser dirigida como
 deve ser. A fazenda  grande de mais para to pouca gente.

 Isso foi o mximo que ele disse em toda a sua vida,  guisa de
 censura, sobre os mtodos usados pela irm para gerir a propriedade.
 Nunca passara pela cabea de ningum a ideia de ter tanto dinheiro;
 continuaram todos sentados, em silncio, tentando assimilar a boa sorte
 que lhes caa do cu.

208 209

- No chegaremos a gastar nem metade disso, Paddy - dsse
Fee. - Ele no nos deixou nada em que gastar.
 Paddy olhou bondosamente para ela.
- Eu sei, querida. Mas no  bom pensar que nunca mais teremos
de preocupar-nos com dinheiro? - Ele aclarou a garganta. - Agora
tenho a impresso de que a me e Meggie ficaro quase sem ter que
fazer - prosseguiu. - Mas, como eu nunca fui muito bom com nmeros,
e, pelo contrrio, a me soma, diminui, divide e multiplica como uma
professora de aritmtica, ela ser a guarda-livros de Drogheda, em substi-
tuio de Harry Gough. Eu no sabia disso, mas Harry tem um empre-
gado s para ttatar das contas de Drogheda e, de momento, ele est
com falta de pessoal, de modo que no se importa de nos passar o ser-
vio. Alis, foi ele quem sugeriu que a me seria uma boa contabilista,
e vai mandar uma pessoa de Gilly para ensin-la a fazer tudo como
deve ser. O nego, aparentemente,  muito complicado. Ela ter de
escriturar os livros razo, o livro caixa, os dirios, o livro de registo,
e assim por diante. O bastante para mant-la ocupada, embora no seja
um trabalho to estafante como o do fogo e o do tanque de lavar
roupa, creio eu.
 Meggie por pouco no gritou: e eu? Eu lavei tanta roupa e cozinhei
tanto cnmo a me!
 Fee sorria, realmente, pela primeira vez desde que tivera notcas
de Frank.
- Vou gostar muito do servio, Paddy. Assm, sentir-me-ei parte
de Drogheda.
- Bob vai ensinar-te a conduzir o novo Rolls, pois ficars com
a incumbnca de fazer as viagens a Gilly para ir ao banco e ver Harry.
Alm disso, ser bom para ti saberes-te capaz de ir onde quiseres sem
dependeres de qualquer de ns. Estamos muito isolados aqui. Sempre
tive a inteno de te ensinar, e  Meggie, a conduzir, mas at agora
nunca tive tempo para isso. Est bem, Fee?
- Est bem, Paddy - retorquiu ela com expresso feliz.
- Agora, Meggie, vamos tratar de ti.
 Meggie deps a meia e a agulha e ergueu os olhos para o pai
com uma expresso em que se mesclavam a interrogao e o ressenti-
mento, certa de saber o que ele diria: a me estaria ocupada com os
livros e, portanto, caber-lhe-ia o servio de supervisar a casa e os
atredores.
- Eu detestaria ver-te transformada numa ociosa e snobe senhorita,
como algumas filhas de fazendeiros que conhecemos - disse Paddy

com um sorriso que Ihe trou das palavras qualquer indcio de des-
dm. - Por isso vou dar-te um servio que te oeupe tambm todo
o tempo, Meggie. Inspeccionars as pastagens internas: Borehead, Cteek,
Carson, Winnemurra e North Tank, enfim, tomars conta do Home
Paddoek. Sers responsvel pelos cavalos de lida, e ters de saber quais
so os que esto a trabalhar e quais os que esto a precisar de ser
substitudos. Nas pocas de reunio dos carneiros e de pario, andaremos
todos juntos,  claro, mas nas pocas normais actuars sozinha, Jack
poder ensinar-te a lidar com os ces e a usar o chicote. l s uma garata
mexida e, por isso, calculei que talvez gostasses mais de trabalhar
nas pastagens do que ficar aqui em casa - rematou, com um sorriso
maior do que nunca.
 O ressentimento e o descontentamento haviam fugido pela janela
 medida que ele, falando, voltava a ser o pai que a amava e pensava
nela. Que lhe acontecera para duvidar dele dessa maneira? Meggie sentiu
tanta vergonha de si mesma que teve mpetos de enfiar a grande agulha
de cerzir na perna, mas estava to feliz que no poderia pensar por
muito tempo em qualquer espcie de autopunio. De qualquer Qnaneira,
aquele eta apenas um modo extravagante de expressar o seu remorso.
 Iluminou-se-lhe o rosto.
- Oh, pai, adorarei fazer isso!
- E eu, pai? - perguntou Stuart.
- As mulheres j no precisam de ti aqui em casa, de modo que
voltats para as pastagens, Stu.
- Est bem, pai.
 Ele olhou com ternura para Fee, mas no disse nem mais uma
palavra.

 Fee e Meggie aprenderam a conduzir o novo Rolls-Royce que
Mary Carson recebera uma semana antes de morrer, e Meggie aprendeu
tambm a lidar com os ces, e Fee a escritutar os livros.
 No fora a ptolongada ausncia do padre Ralph e Meggie, pelo
menos, ter-se-ia sentido inteiramente feliz. Era aquilo mesmo que sempre
ambicionara fazer: estar l foza, nos pastos, escarranchada num cavalo,
executando o trabalho dos pastores. Entretanto, o desejo de ver
o padre Ralph continuou ali tambm, a lembrana do seu beijo era
algo com que ela sonhava, que guardava como um tesouro, que relem-
brava um milhar de vezes. A lembrana, contudo, no se podia compatar
com a realidade; por mais que tentasse, no conseguia evocar a verda-
deira sensao, somente uma sombra dela, como uma nuvem fina e triste.

210 211

 Quando o padre escreveu para falar-lhes sobre Frank, as su :
esperanas de que ele se valeria do assunto como pretexto para visit-los
foram repentinamente por gua a baixo. A descrio que ele fez da
viagem para ir ver Frank  cadeia de Gouldbourn foi cuidadosamente
redigida, despojada da dor que provocara e sem a menor aluso
 psicose de Frank, que se agravava dia a dia. Ele tentara em vo
internar o rapaz no asilo de Morisset, destinado a eriminosos portadores
de perturbaes mentais, mas ningum Ihe dera ouvidos. Por isso mesmo,
limitou-se a transmitir a imagem idealista de um Frank resignado
a pagar a sua dvida para com a sociedade e, num trecho bem sub-
linhado, contou que o rapaz no tinha a menor ideia de que a faznilia
sabia o que Ihe acontecera. A notcia chegara ao seu conhecmento,
assegurara o padre a Frank, atravs dos jornais de Sidnei, e ele diligen-
ciaria manter os Cleary na ignorncia de tudo. Depois de ouvir-lhe
essa afirmao, disse ele, Frank ficou mais calmo e o assunto morreu a.
 Paddy falou em vender a gua castanha do padre Ralph. Meggie
utilizava o cavalo preto como animal de lida, pois era mais leve de boca
e de natureza mais dcil do que as guas caprichosas e os cavalos intra-
tveis dos cerrados. Os animais de lida eram inteligentes, mas raramente
mansos, e nem mesmo a total ausncia de garanhes servia para torn-los
muito amveis.
- Oh, por favor, pai! Posso montar a gua castanha tambm!
- rogou Meggie. - Pense em como seria horrvel se, depois de tudo
o que fez por ns, o padre voltasse aqui para visitar-nos e descobrisse
que vendemos a sua gua!
 Paddy encarou-a com bondade.
- Meggie, no creio que o padre volte aqui algum dia.
- Mas pode voltar! Nunca se sabe!
 Os olhos, to parecidos com os de Fer, desarmaram-no. No poderia
mago-la mais do que j estava, pobrezinha!
- Est bem, Meggie, ficaremos com a gua, mas no te esqueas
de montar regularmente os dois, a gua e o cavalo, pois no quero
animais gordos em Drogheda, ouviste?
 At ento no Ihe agradara usar a montada do padre Ralph, mas,
depois disso, ela passou a usar ora um ora outro, para dar aos dos
a oportunidade de fazer jus  aveia que comiam.
 E ainda bem que a St' Smith, Minnie e Cat etam loucas pelos
gmeos, pois, estando Meggie l fora nos pastos e Fee sentada horas
e horas  sua secretria na sala de estar, os dois pequenitos divertiam-se
 grande. Estavam em toda a parte, mas to alegres e com um bom

humor to constante que ningum se poderia zangar com eles por
muito tempo. A noite, na sua pequena casa, a Sr.a Smith, que se conver-
tera ao catolicismo havia muito tempo, punha-se de joelhos para dizer
as suas oraes com uma gratdo to profunda no seu corao que mal
conseguia cont-la. Filhos, nunca os tivera para alegr-la enquanto Rod
fora vvo e, durante anos, a casa grande vivera vazia de crianas;
as suas ocupantes tinham sido at terminantemente proibidas de se
misturarem com os habitantes das casas dos pastores, l em baixo,
ao p do arroio. Mas quando os Cleary, parentes de Mary Carson,
chegatam, chegaram tambm as crianas. Mormente agora, que Jims
 Patsy viviam permanentemente na casa grande.

 O Inverno fora seco e as chuvas de Vero no apareceram. Vioso
e alto, batendo nos joelhos das pessoas, o capim fulvo secou de tal
maneira sob o sol implacvel que o mago de cada haste de relva ficou
tostado. Para olhar por cima das pastagens era preciso semicerrar os
olhos e manter o chapu bem puxado sobre a testa; a relva assemelhava-
-se a um espelho de prata, e pequenos remoinhos de vento espiralados
passavam atarefados por entre miragens azuis tremeluzentes, transfe-
rindo folhas mortas e hastes pattidas de um monte inquieto para outro.
 E como tudo estava seco! At as rvores o estavam, e a casca
eala-lhes em fitas duras e estrepitosas. Ainda no existia o perigo de
os carneiros morrerem de fome - a relva duraria mais um ano pelo
menos, talvez mais-, mas ningum gostava de ver tudo to seco.
Havia sempre muitas probabilidades de que as chuvas no viessem
no ano seguinte, nem no outro. Num ano bom, as precipitaes atingiam
de duzentos e cinquenta a trezentos e oitenta milmetros, num ano mau
no chegavam a cento e vinte e, s vezes, mal subiam acima de zero.
 A despeito do calor e das moscas, Meggie amava a vida nos pastos,
conduzindo a gua castanha atrs de um rebanho de carneiros que alia,
enquanto os ces, estatelados no cho, com a lngua de fora, pareciam
desatentos. Bastava, porm, que uma ovelha se desgarrasse do magote
bem comprimido para que o animal mais prximo disparasse no seu
encalo, como um raio de vingana, os dentes afiados ansiando por
morder um pescoo infeliz.
 Meggie cavaIgou  frente do rebanho, bem-vindo alvio depois de
haver respirado o p que os carneiros tinham levantado durante vrios
quilmetros, e abriu a cancela do pasto. Esperou, paeiente, que os ces,
deliciados com a oportunidade de mostrar o que sabiam fazer, mor-
dessem e apeneassem, obrigando os carneiros a passar pela abettura.

212 213

 Era mais difcil reunir e tocar o gado vacum, que escoiceava e investia
 com os ces, matando, no raro, algum desatento; nesse momento
o pastor precisava de estar preparado para entrar em aco e usar
o chicote, mas os ces gostavam do sabor do perigo ao trabalhar com
bois e vacas. Essa parte, porm, no se exigia dela; era o prprio Paddy
quem lidava com tal gado.
 Os ces, contudo, nunca dexavam de fascin-la; a sua inteligncia
era fenomenal. A maioria dos ces de Drogheda, pertencentes  raa
dos kelpies, tinham um lindo plo castanho-amarelado, e patas, peito
e testa creme, mas havia tambm os blues de Queensland, maiores, de
plo cinzento-azulado, malhado de preto, e todas as variedades resul-
tantes de cruzamentos entre kelpies e blues. Quando as cadelas ficavam
com cio, eram cientificamente acasaladas, emprenhadas e pariam;
depois de desmamados e crescldos, experimentavam-se os cachorros nas
pastagens; se fossem bons, guardavam-se ou vendiam-se, se no pres-
tassem, matavam-se.
 Assobiando para os ces a fim de cham-los  ordem, Meggie fechou
a cancela aps a passagem do ltimo carneiro e guiou a gua castanha
em direco a casa. Ali perto havia um grupo grande de rvores, vrias
espcies de eucaliptos e buxos e uma ou outra wilga na periferia.
Cavalgou, agradecida, at  sua sombra e, tendo agora vagar para olhar
em torno, circunvolveu os olhos com prazer. Os eucaliptos estavam
cheios de periquitos que gritavam e assobiavam; tentilhes pulavam de
galho em galho; duas cacatuas de grande crista, sentadas com a cabea
inclinada para o lado, observavam-lhe o avano com olhos faiscantes;
lavandiscas esquadrinhavam a terra  procura de formigas, com os seus
absurdos traseiros bamboleando; corvos crocitavam eterna e lamento-
samente. O rudo que faziam era o mais detestvel de todo o repertrio
musical do serto, falto de alegria, desolado e de certo modo enrege-
lante, a sugerir carne podre e moscas varejeiras. Pensar num corvo
a cantar como uma araponga era impossvel: o grito e a funo ajusta-
vam-se perfeitamente.
  evidente que havia moscas em toda a parte; Meggie usava um
vu sobre o chapu, mas os seus braos nus eram constantemente asse-
diados, e a cauda da gua castanha no parava de zunir, tal como
a sua carne no parava de tremer e arrepiar-se. Meggie admirava-se de
que, mesmo atravs do couro e do plo, um cavalo pudesse sentir algo
to delicado e leve como uma mosca. Elas bebiam o suor, e por isso
atormentavam cavalos e seres humanos, mas estes nunca lhes deixavam
fazer o que os carneiros permitiam, pois elas utilizavam-nos para um

propsito mais ntimo, pondo ovos em torno da l do traseiro, ou
onde quer que encontrassem l hmida e suja.
 O zumbido das abelhas enchia o ar, animado tambm por bri-
lhantes e ligeiras liblulas, que procuravam os drenos do poo, ao lado
de borboletas lindamente coloridas e mariposas diurnas. Com um casco,
a gua virou um tronco podre; Meggie olhou para o lado do tronco
que estivera colado  terra e a sua pele arrepiou-se. Havia larvas de
mariposas, gordas, brancas e asquerosas, bichos de conta e lesmas, imen-
sas centopeias e aranhas. Das suas tocas, coelhos saltavam e disparavam
de novo para dentro da lura, esguichando jactos de p branco, e depois
voltavam para espiar, torcendo o focinho. Mais adiante uma quidna
interrompeu a sua busca de formigas, tomada de pnico ante a apro-
ximao de Meggie. Escavando a terra to depressa que as suas robustas
patas providas de garras se sumiram em poucos segundos, ela comeou
a desaparecer debaixo de um tronco imenso. Fazia trejeitos divertidos
enquanto cavava, e os espinhos cruis achatavam-se-lhe ao longo do
corpo, a fim de Ihe facilitar a entrada no buraco, enquanto a terra
voava de todos os lados.
 Ela saiu do meio das rvores para o caminho principal que con-
duzia  sede da fazenda. Uma camada cinzenta malhada cobria a poeira
de um trecho do caminho: eram cacatuas  cata de insectos ou vermes;
ouvindo-a aproximar-se, levantaram voo em massa. Meggie teve a im-
presso de ser avassalada por uma onda cor-de-rosa; peito e faces
inferiores de asas ergueram-se-lhe acima da cabea, o cinzento magi-
camente transformado em rseo. uSe tivesse de deixar Drogheda ama-
nh para nunca mais voltar>>, pensou ela, <<v-la-ia em sonhos como
uma aguarela de peitos cor-de-rosa de cacatuas... >> Mais para diante,
devia estar a ficar muito seco; os cangurus chegavam em quantidades
cada vez maores...
 Um grande banho de cangurus, de umas duas mil cabeas, inter-
rompeu o seu plcido passeio, assustado pelas cacatuas, e perdeu-se na
distnca em longos e graciosos saltos, que engoliam lguas mais depressa
 do que qualquer outro animal, mm excepo da ema. Os cavalos no
 conseguiam acompanh-los.
 Nos intervalos do seu alegre estudo da natureza, Meggie pensava
 em Ralph, como sempre. No seu ntimc, ela jamais classificara o que
 sentia por ele como paixoneta de menina de escola, e simplesmente lhe
 chamava amor, como se fazia nos livros, pois os seus sintomas e senti-
 mentos no se diferenavam dos de uma herona de Ethel M. Dell.
 Nem to-pouco Ihe parecia justo que uma barreira to artificial como

214 215

 o sacerdcio pudesse erguer-se entre ela e o que ela queria dele, isto ,
 t-lo por marido. Viver com ele como o pai vivia com a me, em to
 grande harmonia que ele a adoraria como o pai adorava a me. Fee nunca
 fizera muita coisa para conquistar a adorao de Paddy, pensava Meggie,
e, no obstante, ele adorava-a. Dessa maneira, Ralph logo veria que
viver com ela era muito melhor do que estar sozinho, pois ela ainda
no se compenetrara de que o sacerdcio era alguma coisa a que Ralph
no poderia renunciar em hiptese alguma. Sim, sabia que era proibido
ter um padre por marido ou por amante, mas adquirira o hbito de
contornar a dificuldade despindo Ralph do seu ofcio religioso. A sua
educao catlica formal nunca chegara  discusso da natureza dos votos
religiosos, e como ela mesma no precisasse da religio, no a conti-
nuou voluntariamente. Visto que a orao no Ihe p~oporcionava satis-
fao, Meggie obedecia s leis da Igreja simplesmente porque, se o no
fizesse, arderia no inferno por toda a eternidade.
 No seu actual devaneio, comprazia-se na bem-aventurana de viver
com ele e dormit com ele, como o pai vivia e dormia com a me.
Depois, a ideia da proximidade dele excitava-a, fazia-a mexer-se na sela
desassossegada, e Meggie traduzia o desassossego num dilvio de beijos,
pois carecia de outro critrio. As cavalgadas pelas pastagens no lhe
tinham aprimorado a educao sexual, j que o simples latido de
um co ao longe expulsava todo o desejo de acasalamento da mente de
qualquer animal e, como em todas as fazendas, o aeasalamento indiscri-
minado no era permitido. Quando os carneiros reprodutores eram
levados para as ovelhas de determinado pasto, Meggie tomava outro
rumo, e o facto de ver um co ligado a outro era apenas sinal para
separar o par com o chicote e fazer os dois desistir da ubrincadeira ,.
 2alvez nenhum ser humano esteja em condies de julgar o que
 pior: se o desejo incipiente, com a inquietude e a irritabilidade dele
decorrentes, se o desejo especfico, com o seu impulso voluntrio para
satisfaz -lo. A pobre Meggie desejava, embora no soubesse bem o qu,
mas o impulso bsico l estava, e arrastava-a inexoravelmente na direc-
o de Ralph de Bricassart. E sonhava com ele, ansiava por ele, dese-
java-o, deplorando que, apesar do amor que ele mesmo declarara, ela
significasse to pouco que no o movesse sequer a visit-la.
 No meio dos seus pensamentos, avistou Paddy, que tambm se
dirigia a casa e seguia o mesmo caminho; sorrindo, sofreou a gua
castanha e esperou que o pai a alcanasse.
- Que boa surpresa - disse Paddy, emparelhando o velho cavalo
com a gua quase nova da filha.

- De facto - conveio Meggie. - Est muito seco daquele lado?
- Um pouco pior do que aqui, creio eu. Misericrdia, nunca vi
tanto canguru! Deve estar tudo queimado no eaminho de Milparinka.
l lartin King andou a falar numa grande matana, mas no vejo como
se poderia reduzir suficientemente o nmero dos cangurus, nem mesmo
usando metralhadora.
 Paddy estava amvel, atencioso, parecia disposto a perdoar e a
amar, e era raro que ela tivesse o ensejo de estar com ele sem ter pelo
menos um dos rapazes ao seu lado. Antes que pudesse mudar de ideias,
iVleggie fez a pergunta que lhe resumia todas as dvidas, a pergunta
que a atormentava e afligia.
- Pai, porque  que o padre de Bricassart nunca nos vem visitar?
- Ele est ocupado, Meggie - respondeu Paddy, cuja voz se tor-
nara cautelcsa.
- Mas at os padres tm frias, no tm? Ele gostava tanto de
Drogheda que tenho a certeza de que apreciaria passar as frias aqui.
- De certo modo os padres tm frias, Meggie, mas, de outro,
nunca esto de folga. Por exemplo, eles tm de rezar missa todos os dias
da sua vida, nem que estejam inteiramente ss. Creio que o padre
de Bricassart  um homem muito inteligente e no ignora que nunca
se pode voltar a um estilo de vida que j passou. Para ele, Meggie,
Drogheda  um pedao do passado. Se voltasse aqui, j no lhe daria
o mesmo tipo de prazer a que est habituado.
- O pai quer dizer que ele nos esqueceu - disse a jovem com
voz surda.
- No, no verdadeiramente. Se nos tivesse esquecido, no nos
escreveria com tanta frequncia, nem pediria notcias de cada um de
ns. - Ele virou-se na sela e havia piedade nos seus olhos azuis. - Mas,
como entendo que  melhor ele no voltar nunca mais, no o animo
a pensar nisso convidando-o a vir aqui.
- Pai !
 Paddy mergulhou obstinadamente em guas turvas.
- Ouve, Meggie,  errado pensares num padre, e j  tempo de
compreend-lo. Guardaste muito bem guardado o teu segredo, e creio
que mais ningum sabe o que sentes por ele, mas  a mim que se
dirigem as tuas perguntas, no ? No muitas, mas o bastante. Pois
ouve o que vou dizer-te:  preciso que o esqueas, entendeste? O padre
de Bricassart fez votos sagrados, que sei que no tem a menor inteno
de quebrar, e enganaste-te a respeito dos sentimentos dele por ti. Ralph
j era um homem adulto quando te conheceu, e tu, uma garotinha

216 217

PSSAROS FEftIDOS

Pois muito bem,  dessa maneira que pensa em ti Meggie, at ao dia
de hoje.
 A rapariga no respondeu, nem o seu rosto se alterou. <<Ela  bem
a filha de Fee>>, pensou o pai, <<no h dvida>>.
 Volvido um momento, Meggie disse, tensa:
- Mas ele poderia deixar de ser pad e. Acontece apenas que ainda
no tivemos oportunidade de conversar sobre isso.
 O choque estampado no rosto de Paddy era to autntico que ela
no poderia deixar de acreditar nele. E a expresso do pai pareceu-lhe
mais convincente do que as palavras, por veementes que fossem.
- Meggie! Oh, meu Deus,  nisto que d morar no mato! Devias
estar na escola, minha filha, e se a tia Mary tivesse morrido um pouco
antes, eu mandar-te-ia pata Sidnei com tempo suficiente para te dar,
pelo menos, mais dois anos de estudos. Mas agora ests muito crescida,
no  verdade? Eu no gostaria de que as outras troassem d ti por
causa da tua idade, pobre Meggie. - Prosseguiu mais suavemente,
espaando as palavras para lhes imprimir uma crueldade incisiva e lcida,
embora no tivesse a inteno de ser cruel, mas apenas de varrer iluses
de uma vez por todas. - O padre de Bricassart  um sacerdote, Meggie.
Compreende bem, ele nunca poder eixar de s-lo. Os votos que fez
so sagrados, sagrados de mais pata quebrar. Depois de um homem
se fazer padre, no pode voltar a trs, e os seus supervisores, no semi-
nrio, certificaram-se de modo absoluto de que ele sabia o que esta ,a
a jurar antes de jur-lo. Um homem que presta esses votos sabe, sem
qualquer sombra de dvida, que, depois, eles no podem ser quebrados.
O padre de Bricassart f-los, e nunca os quebrar. - Paddy suspirou.
- Agora j sabes, no sabes, Meggie? A partir deste momento no ters
mais desculpas para sonhar com o padre de Bricassart.
 Tinham chegado  frente da casa e, por sso, as cocheiras estavam
mais prximas do que os cercados; sem dizer uma palavra, Meggie virou
a gua castanha na direco das primeiras, e deixou o pai sozinho.
Durante algum tempo ele ficou a dar voltas para no a perder de vista,
mas, depois de ela desaparecer do outro lado da cerca que rodeava
as cocheiras, esporeou com os calcanhares os flancos do cavalo e ter-
minou a cavalgada com um meio galope, odiando-se e odindo a neces-
sidade que tivera de dizer o que dssera. Maldta histria a das relaes
entre o homem e a mulher! Parecia ter um conjunto de regras que
destoavam de todas as outras.

 Embora muito fria a voz do padre Ralph de Bricassart era, assim
mesmo, mais quente que os seus olhos, que nunca se desviavam do rosto
lvido do jovem padre, enquanto pronunciava palavras duras e meddas.
- O senhor no se conduziu como Nosso Senhor Jesus Cristo
exige que os Seus padres se conduzam. Creio que o sabe melhor do
que ns, que o censuramos, poderemos jamais sab-lo, mas ainda assim
 preciso repreend-lo em nome do nosso arcebispo, que  para si no
apenas um colega de profsso mas tambm o seu superior hierrquico.
O senhor deve-lhe obedincia perfeita, e no Ihe compete discutir as opi-
nes nem as decses de Sua Excelncia.
 <<Compreende realmente a vergonha que acarretou para si para
a sua parquia e, sobretudo, para a Igreja que diz amar mais do que
a qualquer ser humano? O seu voto de castidade foi solene e imperativo
como os demais, e quebr-lo  pecar gravemente. Est claro que nunca
mais ver a mulher, mas cumpre-nos assisti-lo nas suas lutas para vencer
a tentao. Por isso determinamos que parta imediatamente a fim de
servir na parquia de Darwin, no Territrio do Norte. Embarcar para
Brisbane esta noite no comboio-expresso e de l seguir, tambm de
comboio, at T ongreach, onde tomar um avio da QANTAS para
Darwin. Os seus pettences esto a ser empacotados neste momento
e chegaro ao expresso antes da sua partida, de modo que o senhor
no tem necessidade de voltar  sua actual parquia.
 < Agora v para a capela com o padre John e reze. Ficar l at
ao momento de ir pra a estao. A fim de confort-lo e consol-lo,
o padre John far-lhe- companhia at Darwin. Est dispensado.
 Etam sbios e acautelados os padres encarregados da administta-
o; no concederiam ao pecador nenhuma oportunidade de um novo
contacto com a jovem com quem se amantizara. Aquilo fora o escndalo
da sua actual parquia, e muito constrangedor. Quanto  rapariga - ela
que esperasse, observasse e conjecturasse. Desde aquele momento at
 sua chegada a Darwin, ele setia vigiado pelo excelente padre John,
que tinha recebido instrues taxativas e, depois disso, todas as cartas
que mandasse de l seriam abertas, no lhe sendo permitido fazer quais-
quer ligaes interurbanas. Ela nunca saberia para onde ele fora, e ele
no poderia contar-lhe. Tambm no lhe seriam dadas mais oportuni-
dades de se interessar por outras raparigas. Darwin era uma cidade de
fronteira e as mulheres ali quase no existiam. Os seus votos eram
absolutos, ele jamais podetia ser dispensado deles; e se era to fraco que
no conseguia dominar-se, a Igreja o faria em seu lugar.

218 / 219

 Depois de ver o jovem padre e o co de guarda que lhe haviam
impingido sair da sala, o padre Ralph levantou-se da sua mesa e passou
a uma cmara interna. O arcebispo Cluny Dark estava sentado na pol-
trona habitual e, formando um ngulo recto com ele, outro homem de
faixa e calote purpurinas, tambm sentado, permanecia em silncio.
O arcebispo era um homenzarro, com uma bela cabeleira branca e olhos
intensamente azuis; sendo do tipo vigoroso, tinha um senso agudo de
humor e amava entranhadamente a mesa. O seu visitante era quase
o oposto: pequeno e magro, uns poucos fiapos esparsos de cabelo preto
em torno do solidu e, debaixo deles, um rosto asctico, a tez plida
realada pela sombra escura da barba e dois olhos grandes e escuros.
Na aparncia, poderia ter qualquer idade entre trinta e cinquenta anos,
mas, na realdade, tinha trinta e nove e era, portanto, trs anos mais
velho do que o padre Ralph de Bricassart.
- Sente-se, padre, tome uma chvena de ch - convidou o arce-
bispo jovialmente. - Eu j estava a pensar que teramos de mandar
buscar um novo bule. Dispensou o rapaz com uma adequada admoes-
tao, para que se emende?
- Sim, Excelncia - respondeu o padre Ralph, e sentou-se na
terceira cadeira ao lado da mesa do ch, cheia de sanduches fininhas
de pepino, bolos cobertos de um glac rseo e branco, bolinhos assados
na chapa, ainda quentes, besuntados de manteiga, e pratos de cristal com
geleia e nata batida, alm de um servio de ch de prata e chvenas
de porcelana de Aynsley revestida de delieada camada de folhas
de ouro.
- Tais incidentes s lamentveis, meu caro arcebispo, mas at
ns, que fomos ordenados padres de Nosso Senhor, somos criaturas
fracas, demasiado humanas. Sinto no meu corao profunda pena dele,
e rezarei esta noite para que encontre mais fora no futuro - disse
o visitante.
 O sotaque era manifestamente estrangeiro e a voz, suave, tinha
uma sugesto de sibilncia nos esses. De nacionalidade italiana, o seu
ttulo e o seu nome eram Sua Excelncia e Legado Papal  Igreja Cat-
lica Australiana, Arcebispo Vittorio Scarbanza di Contini-Verchese.
Incumbia-lhe o papel delicado de estabelecer um elo entre a hierarquia
australiana e o centro nervoso do Vaticano, o que significava que era
o padre mais importante desta parte do mundo.
 Antes de conhecer a sua nomeao, ele esperara, naturalmente,
ser indicado para os Estados Unidos da Amrica, m s depois, pensando
bem, chegou  concluso de que a Austrlia tambm lhe setviria. Con-

quanto fosse um pas mais pequeno em populao, mas no em rea,
era muito mais catlico. Ao contrrio do resto do mundo de lingua
inglesa, o ser catlico no representava na Austrlia qualquer desme-
recimento socal, nem constitua desvantagem alguma para um candi-
dato a poltico, a homem de negcios ou a juiz. E era um pas rico,
 ustentava bem a Igreja. No havia perigo de que Roma o esquecesse
enquanto estivesse na Austrlia.
 O legado papal era tambm um homem subtilssimo, e os seus
olhos, por cima da borda dourada da chvena de ch, no se fixavam
no arcebispo Cluny Dark, mas no padre Ralph de Bricassart, que iria
tornar-se o seu prprio secretrio. Que o arcebispo Dark gostava enor-
memente do padre era um facto sabido e ressabido, mas o legado papal
pensava no quanto ele prprio haveria de gostar de um homem assim.
Eram todos to grandes aqueles padres irlandeses e australianos, muito
mais altos do que ele; estava cansado de precisar enviesar a cabea
e erguer a vista para ver-lhes o rosto. A maneira como o padre Ralph
de Bricassart tratava o seu actual chefe era perfeita: leve, fcil, respei-
tosa, mas de homem para homem, cheia de humor. Como se ajustaria
e1e ao servio de um chefe muito diferente? Era costume nomear para
secretrio do legado um padre tirado das fileiras da Igreja italiana, mas
o Vaticano nutria especial interesse pelo padre Ralph de Bricassart.
No somente possua a curiosa distino de ser pessoalmente rico (ao
cohtrrio do que supunha o povo, os seus superiores no estavam auto-
rizados a tirar-lhe o dinheiro, nem ele se oferecera para entreg-lo ),
mas tambm, sozinho, carreara uma grande fortuna para a Igreja.
Por isso o Vaticano decidira incumbir o legado papal de escolher para
secretrio o padre Ralph de Bricassart, a fim de estud-lo e descobrir
exactamente como ele era.
 Um dia o Santo Padre teria de recompensar a Igreja australiana
com um barrete cardinalcio, mas ainda no seria agora. Cumpria-lhe,
pois, estudar os padres da faixa de idade do padre de Bricassart, e destes
era ele, evidentemente, o principal candidato. Muito bem: que o padre
Bricassart experimentasse o seu vigor contra um italiano, por algum
tempo, talvez fosse interessante, mas porque no seria o homem um
pouco mais baixo?
 Enquanto sorvia o seu ch, o padre Ralph mostrava-se inusitada-
mente calmo. O legado papal notou que ele comeu uma pequena san-
duche de formato triangular e se absteve dos outros salgadinhos e doces,
mas tomou quatro chvenas de ch com sofreguido, sem lhe deitar leite
nem acar. Alis, isso mesmo dizia o seu relatrio: nos seus hbitos

220 221

PSSAROS FERIDOS

pessoais de vida, o padre era notavelznente abstmio, e a sua nica fra-
queza era um carro bom ( e veloz ).
- O seu nome  francs, padre - disse por fim o legado papal
com suavidade-, mas, ao que me consta, o senhor  irlands. Como
se explica o fenmeno? A sua famlia era francesa?
 O padre Ralph sacudiu a cabea, sorrindo.
- O nome  normando, Excelncia, muito antigo e honrado. Sou
descendente directo de um Ranulf de Bricassart, que foi baro na corte
de Guilherme, o Conguistador. Em 1066 ele invadiu a Inglaterra com
Guilherme, e um dos seus filhos apoderou-se de terras inglesas. A fam-
lia prosperou sob os reis normandos da Inglaterra e, mais tarde, alguns
dos seus membros cruzaram o mar da Irlanda, durante o reinado de
Henrique IV, e estabeleceram-se na ilha. Quando Henrique VIII sub-
traiu a Igreja da Inglaterra  autoridade de Roma, ns mantivemos a f
de Guilherme, o que significava que continumos leais primeiro a Roma
e, depois, a Londres. Mas quando Cromwell fundou a Repblica Inglesa
de 1649, perdemos as nossas terras e os nossos titulos, que nunca mais
nos foram restituidos. Carlos tinha favoritos ingleses para recompensar
com terras irlandesas. E no  sem motivo, como sabe, o dio irlands
aos Ingleses.
 HEntretanto, camos numa relativa obscuridade, ainda leais  Igreja
e a Roma. Meu irmo mais velho possui um prspero haras no condado
de Meath, e espera criar um campeo do Derby ou do Grand National.
Sou o segundo filho, e sempre foi tradio da minha famlia que
o segundognito entrasse para a Igreja, se sentisse vontade de faz-lo.
Tenho muito orgulho do meu nome e da minha linhagem. Ilurante
mil e quinhentos anos tem havido Bricassart.
 Ah, isso era bom! Um velho nome aristocrtico e um perfeito
registo de manuteno da f atravs de emigraes e petseguies.
- E o Ralph?
- Uma contraco de Ranulf, Excelncia.
- Entendo.
- Vou sentir muita falta do senhor, padre - acudiu o arcebispo
Cluny Dark, empilhando geleia e nata batida sobre a metade de um
bolinho quente e enfiando-o inteiro na boca.
 O padre Ralph riu-se para ele.
- Vossa Excelncia coloca-me num dilema! Aqui estou eu, sen-
tado entre o meu antigo e o meu novo chefe e, se responder agradando
a um, desagradarei ao outro. Ser-me-, porm, permitido dizer que sen-
PSSAROSFERIDOS

tirei falta de Vossa Excrlncia, ao mesmo tempo que aguardo com
ansiedade o momento de servir Vossa Excelncia?
 Resposta bem formulada, de diplomata. O arcebispo di Contini-
-Verchese comeava a crer que se daria bem com um secrettio assim.
No obstante, ele era demasiado bonito, com os seus belos traos,
a impressionante colorao da pele, o corpo magnfico.
 O padre Ralph voltou ao silncio antzrior, olhando para a mesa
do ch sem v-la. Revia o jovem padre que aeabara de repreender,
a expresso dos olhos j atormentados ao compreender que no lhe
permitiriam dizer adeus  sua amada. Santo Deus, e se tivesse sido
ele o padre, e a rapariga fosse Meggie? Um clrigo poderia levar adiante
um caso destes por algutn tempo, se fosse discreto, e para sempre, se
limitasse o contacto com mulheres s frias anuais longe da parquia.
Bastaria, porm, que um sentimento srio, despertado por uma mulher,
entrasse em cena para ser inevitavelmente descoberto.
 Momentos havia em que s ajoelhando no cho de mrmore da
capela do palcio, at que a dor fsica o deixasse entorpecido, conseguia
no tomar o prximo comboio de volta para Gilly e para Drogheda.
Ele dissera a si prprio, pura e simplesmente, que era apenas vtima
da solido, que estava a sentir a falta do afecto humano que conhecera
em Drogheda. Dissera tambm que nada mudara quando cedera a uma
fraqueza passageira e retribura o beijo de Meggie e que o seu amor por
ela ainda vivia nos reinos da fantasia e do encantamento, no passara
para um mundo diferente, com uma inteireza enlouquecedora e pertur-
badora que os primeiros sonhos no tinham. Na realidade, no podia
admitir que alguma coisa tivesse mudado, e Meggie continuaria a ser
no seu esprito uma garotinha, excluindo quaisquer vises capazes de
contradiz-lo.
 Ele enganara-se. A dor no se dissipava, antes parecia acentuar-se
de um modo mais frio, mais forte. Antigamente, a sua solido fora uma
coisa impessoal, nunca pudera dizer a si mesmo que a presena de algum
ser humano na sua vida seria capaz de remedi-la. Agora, todavia, a soli-
do tinha um nome: Meggie, Meggie, Meggie...
 O padre Ralph saiu do seu devaneio para encontrar o arcebispo
di Contini-Verchese perscrutando-o sem pestanejar, e percebeu que
aqueles grandes olhos escuros eram muito mais perigosamente omniscien-
 tes do que as rbitas redondas e vvidas do seu chefe actual. Inteligente
de mais para simular que nada o impelira  meditao profunda,
 o padre Ralph endereou ao futuro chefe um olhar to penetrante
 como o dele; depois sorriu levemente e encolheu os ombros, como se

222 223

PSSAROSFERIDOS

dissesse: todo o homem tem uma tristeza dentro de si, e no  pecado
recordar um desgosto.
- Diga-me, padre, o sbito colapso que se verificou no campo
econmico produzin algum efeito no esplio a seu cargo? - perguntou
suavemente o prelado italiano.
- Por enquanto no temos de que nos queixar, Excelncia.
A Michar Limited no sofre facilmente a influncia das flutuaes do
mercado. Sou levado a crer que aqueles cujas fortunas foram investidas
com menos cuidado do que a da Senhora Carson so os que tm maiores
probabilidades de perder.  evidente que Drogheda no ir to bem;
o preo da l est a baixar. Entretanto, a Senhora Carson era to inteli-
gente que no investiu dinheiro em empreendimentos agrcolas; preferia
a solidez do metal. No entanto, a meu ver, atravessamos uma poca
eecelente para comprar terras, no s fazendas no interior como tambm
casas e prdios nas cidades principais. Os preos esto ridiculamente
baixos, mas, no permanecero assim para sempre. No vejo como pode-
remos perder em imveis nos anos vindouros, se comprarmos agor.
A Depresso acabar um dia.
- Naturalmente - concordou o legado papal.
 Com que ento, o padre de Bricassart no tinha apenas o estofo
de um diplomata, possua tambm o de um homem de negcios!
Bom seria, verdadeiramente, que Roma ficasse de olho nele.

9

 oRxla o ano de 1930, e Drogheda sabia tudo acerca da Depresso.
 Havia homens sem trabalho em toda a Austrlia. Os que podiam,
 deixavam de pagar aluQuer e renunciavam  futilidade de procurar
 ocupao, pois era coisa que no existia. Tendo de atranjar-se
sozinhas, as mulheres e as crianas aboletavam-se em choas erguidas
em terras municipais e faziam filas para receber o subsdio governa-
mental concedido aos desempregados; pais e maridos tinham partido
em busca de algo melhor. Um homem arrumava os seus poucos tarecos
dentro do cobertor, amarrava-o com tiras de couro, jogava-o s costas
e metia-se  estrada, esperando, ao menos, arranjar comida das fazendas
que atravessava, se no emprego.
 O preo dos alimentos estava baixo, e Paddy encheu at mais no
as despensas e armazns da fazenda. Da que os caminheiros tivessem
sempre a certeza de encher a barriga quando chegassem a Drogheda.
O estranho era que o desfile de vagabundos prosseguia ininterrupta-
mente; assim que se apanhavam com uma boa refeio quente no bucho
e provises no saco para o caminho, no faziam qualquer tentativa
para ficar, antes saam vagueando  procura de alguma coisa que s eles
sabiam o que era. Nem todas as fazendas se mostravam hospitaleitas
e generosas como Drogheda, o que apenas aumentava o espanto geral
quando os viandantes se recusavam a ficar. Talvez o cansao e o sem-
-propsito de no ter um lar, de no ter um lugar para onde ir,
os fizesse continuar  deriva. A maioria conseguia sobreviver, alguns
morriam e, quando eram encontrados, enterravam-se antzs que os corvos
e os porcos os reduzissem a um monte de ossos limpos. O setto era
uma rea imensa e solitria.

224 225

PASSAftOS FERIDOS

 Mas Stuart estava de novo permanentemente em casa e a espingarda
nunca ficava muito longe da porta da cozinha. No era difcil aparecerem
bons pastores, e Paddy tinha nove homens registados nos seus livros
e aboletados nas velhas barracas dos aprendizes, de modo que Stuart
no precisava de voltar aos pastos. Fee passou a no deixar o dinheiro
espalhado por ali e pediu ao filho que fizesse um armrio camuflado
para o cofre, atrs do altar da capela. Poucos andarilhos eram maus.
Os homens maus preferiam ficar nas grandes cidades e nas cidades
maiores do interior, pois a vida na estrada era pura de mais, solitria
de mais e escassa de proveitas para malfeitores. Entretanto, ningum
censurava Paddy por no querer correr riscos com as suas mulheres;
Drogheda era um nome muito famoso e no seria inconcebvel que
atrasse os poucos indesejveis que palmilhavam a estrada.
 Aquele Inverno trouxe t e m p e s t a d e s violentas, algumas secas,
outras no, e na Primavera e Vero seguintes caiu uma chuva to
pesada que o capim de Drogheda cresceu mais vioso e comprido do
que nunca.
 Jims e Patsy estudavam laboriosamente as suas lies por correspon-
dncia  mesa da cozinha da Sr  Smith, e conversavam acerca do que
aconteceria quando chegasse o momento de irem para Riverview, o seu
internato. Mas a Sr Smith ficava to rspida e azeda ao ouvir esse
tipo de conversa que eles aprenderam a no falar em sair de Drogheda
quando ela estivesse perto e pudesse ouvi-los.
 O tempo seco voltou; o capim alto, que atingia o joelho das pessoas,
secou de todo e queimou-se, convertido em hastes de prata encrespadas
num Vero sem chuvas. Habituados, depois de viver dez anos nas
plancies de solo negro, s oscilaes entre a seca e a cheia, os homens
encolhiam os ombros e enfrentavam a tarefa de cada dia como se fosse
o nco que realmente importava. O que era verdade; no caso deles,
o essencial era sobreviver entre um ano bom e o seguinte, fosse ele
como fosse. Ningum poderia adivinhar quando chovia. Em Brisbane.
um homem chamado Inigo Jones costumava acertar nas previses do
tempo a longo prazo, empregando um novo conceito da actividade das
manchas do Sol, mas l nas plancies de solo preto ningum dava nuito
crdito ao que ele dizia. As noivas de Sidnei e de Melburne que Ihe
solicitassem as predies; os homens das plancies de solo preto conti-
nuriam com aquela velha sensao nos ossos.
 No Inverno de 1932 voltaram as tempestades s eas, junto com
um frio intenso, mas o capim luxutiante manteve a poeira reduzida ao
mnimo e a quantidade de moscas diminuiu. Contudo, no havia consola-
PASSAROS FERIDOS

o para os carneiros recm-tosquiados, que tiritavam miseravelmente.
A Sr Dominic O'Rourke, que morava numa vulgar casa de madeira
adorava receber vistas de Sidnei; um dos pontos altos do seu programa
de excurses era uma paragem em Drogheda, a fim de mostrar aos seus
convidados que at ali nas plancies de solo negro havia gente que
sabia viver. E a conversa derivava invariavelmente para os carneiros
magricelas, que mais pareciam ratos afogados, condenados a enfrentar
o Inverno sem os seus velos, que chegavam a ter doze ou quinze cent-
metros de comprimento quand rompia o calor do Vero. Mas, como
Paddy disse gravemente a um dos visitantes, isso melhorava a l.
E o importante era a l, no era o carneiro. Pouco depois de haver feito
essa declarao, apareceu uma carta no Sydney Morning Herald que
exigia pronta aco parlamentar para acabar com o que denominava
<<crueldade dos criadores, . A pobre Sr. ` O'Rourke ficou horrorizada
mas Paddy riu at lhe doerem as ilhargas.
- Aposto que esse tonto nunca viu um tosquiador rasgar a barriga
de um carneiro e costur-la com uma agulha de saco - confortou ele
a enleada Sr  O'Rourke. - No vale a pena aborrecer-se por causa
disso, Senhora Dominic. L na cidade eles no sabem como vive a outra
metade, e podem dar-se ao luxo de amimar os animais como se fossem
crianas. Aqui  diferente. A senhora nunca ver um homem, uma mulher
ou uma criana precisados de ajuda que no encontrem quem lhes d
a mo; mas na cidade esses mesmos que amimalham os seus bichos de
estimao nem ouviro o grito de socorro de um ser humano.
 Fee ergueu os olhos.
- Paddy tem razo, Senhora Dominic - disse. - Temos sempre
tendncia para desprezar o que existe em grande quantidade. Aqui so
os carneiros, na cidade, as pessoas.

 S Paddy estava longe, no campo, quando estourou a grande tem-
pestade. Apeau-se do cavalo, amarrou bem o animal a uma tuilga
e sentou-se debaixo dela,  espera de que a trovoada passasse. Tremendo
de medo, os seus cinco ces formaram um bolo ao seu lado, enquanto os
carneiros que ele tencionava transferir para outro pasto se espalhavam
em grupinhos saltadores, trotando, sem rumo, em todas as direces.
E foi uma tempestade terrvel, que reservava o pior da sua fria para
quando o centro do redemoinho estivesse directamente em cima dele.
Paddy enfiou os edos nos ouvidos, fechou os olhos e rezou.
 No longe do lugar onde Paddy estava, debaixo da wilga curvada
para a terra e cujas folhas se entrebatiam, num desespero,  medida

226 ~: 229

que o vento se tornava cada vez mais forte, havia um pequeno monte
de tocos e troncos mortos de rvores cercados de capim alto. No meio
do monte branco, esqueltico, erguia-se um macio eucalipto j sem vida,
cujo corpo nu subia doze metros em direco s nuvens negras como
a noite, e se afinava no topo para formar uma ponta aguda e recortada.
 Um fogo azul e florido, to brilhante que lhe feru os olhos atravs
das plpebras cerradas, ps Paddy de p num salto, para logo ser
derrubado como um boneco pelo deslocamento provocado por uma
terrvel exploso. Ele ergueu o rosto da terra para ver a glria final
do raio, que punha halos ttmulos de azul e prpura fulgurante em
toda a extenso do eucalipto morto; depois, to rapidamente que mal
teve tempo de compreender o que estava a acontecer, tudo pegou fogo.
Havia muito que a ltima gota de humidade se evaporara dos tecidos
daquele conjunto de coisas em decadncia, e o capim estava, em toda
a parte, comprido e seco como papel. Como resposta desafiadora da
terra ao cu, a rvore gigantesca arremessou um pilar de chamas muito
acima da sua ponta, os troncos e tocos ao redor ergueram-se no mesmo
instante e, num crculo  roda do centro, grandes lenis de fogo pre-
cipitavam-se, impetuosos, tangidos pelo vento uivante, num torvelinho
dementado. Paddy no teve sequer tempo de alcanar o cavalo.
 A wilga ressequida pegou fogo e a sua resina interior explodiu.
Slidas paredes de fogo erguiam-se em todas as direces para onde
Paddy volvesse os olhos; as rvores ardiam furiosamente e a relva rugia
debaixo dos seus ps  medida que se convertia em chamas. Ele ouviu
os relinchos do cavalo e quis acudir-lhe; no podia deixar o pobre animal
morrer amarrado e indefeso: 'Um co uivou e o uivo transformou-se
num grito quase humano de agonia. Chamejou e danou pot um
momento, qual tocha viva, depois caiu sobre o capim em chamas.
Outros uivos se ouviram  medida que os outros ces eram, ao fugir,
envolvidos pelo fogo, mais rpido que eles, mais rpido que qualquer
coisa com ps ou asas. Um meteoro em chamas chamuscou-lhe o cabelo
enquanto ele se detinha, por um milsimo de segundo, p nsando na
melhor maneira de se acercar do cavalo; abaixou os olhos e viu uma
grande cacatua a assar aos seus ps.
 De repente, Paddy verificou que era o fim. No havia sada do
inferno, nem para ele nem para o cavalo. No momento em que pensou
nisso, um eucalipto seco, atrs de si, despedu chamas em todas as
direces, quando a resina que havia dentro dele explodiu. A pele
dos braos de Paddy murchou e enegreceu, o cabelo foi fnalmente
ofuscado por algo mais brilhante. Morrer assim  indescrtvel, porque

228

PSSAftOS FERIDOS

o fogo age de fora para dentro e os ltimos rgos a ser atingidos so
o crebro e o corao. Com as roupas em chamas, Paddy dava camba-
Ihotas, gritando durante todo o holocausto. E cada um dos seus medo-
nhos gritos era o nome da mulher.

 Todos os outros homens voltaram antes da tempestade, deixaram
as montadas no cercado e dirigiram-se para a casa grande ou para as
barracas dos aprendizes. Na sala de estar de Fee, brilhantemente ilumi-
nada por um fogo de troncos que rugia na lareira de mrmore creme
e rseo, juntaram-se os Cleary, atentos  tempestade, sem vontade
de sair para ir v-la l fora. O cheiro agradvel da madeira de eucalipto
que ardia na lareira e os bolos e sanduches empilhados no carrinho
do ch eram demaslado sedutores.
 Por volta das quatro horas as nuvens rolaram para leste e todos,
inconscientemente, respiraram melhor; fosse como fosse, ningum conse-
guia descontrair-se durante uma tempestade seca, muito embora todos
os edifcios de Drogheda estivessem equipados com pra-raios. Jack
e Bob levantaram-se e saram da sala para respirar um pouco de ar
fresco, disseram, mas, na realidade, para soltar a respirao contida.
- Olha! - disse Bob, apontando para oeste.
 Por cima das rvores que rodeavam todo o Home Paddock,
um grande manto bronzeo de fumo crescia a olhos vistos, com as orlas
desfeitas como bandeirolas esfarrapadas pelo vento.
- Jesus ! Mi ericrdia ! - gritou Jack, correndo para dentro de
casa  procura do telefone.
- Fogo, fogo! - gritou para o bocal do aparelho, enquanto os
que se chavam ainda na sala o olhavam boquiabertos e depois saam
a correi. - Incndio em Drogheda e dos grandes!
 Em seguida, desligou; rra o suficiente para alertar o circuito tele-
fnico de Gilly e as pessoas que, ao longo da linha, costumavam atender
ao primeiro toque da campainha. Se bem que ainda no tivesse havido
um grande incn iio no distrito de Gilly desde a chegada dos Cleary
 a Dro heda, toda a ente conhecia a rotina.
 Os rapazes foram buscar os cavalos e os pastores saram das
barracas dos zprendizes, enquanto a Sr.a Smith abria um dos armazns
 e distribua sacos de serapilheira s dzias. O incndio comeara a oeste
 e o vento soprava dessa direco, o que queria dizer que as chatnas
 se dirigiam para a sede. Fee despiu a sua comprida saia, enfiou um par
 de calas de Paddy e depois correu com Meggie para as cncbeiras;
 seriam necessri s todas as mos capazes de segurar um saco.

229

 Na rnzinha, a Sr e Smith catregou a fornalha do fogo e as criadas
comearam a descer imensos potes dos seus ganchos presos no tecto.
- Ainda bem que matmos um novilho ontem - disse a gover-
nanta. - Minnie, aqui est a chave do armazm das bebidas. Voc e Cat
tragam toda a cerveja e todo o rum que tivermos, depois comecem
a fazer po sem fermento enquanto eu adianto o cozido. E depressa,
depressa!
 Desassossegados pela tempestade, os cavalos tinham sentido o cheiro
do fumo e estavam difceis de selar; Fee e Meggie fizeram recuar os
dois indceis puros-sangues, que escarvavam o cho, e tiraram-nos da
cocheita, levando-os para o cercado, onde era mais fcil lidar com eles.
Enquanto Meggie lutava com a gua castanha, dois andarilhos aparece-
ram a correr pela estrada que conduzia a Gilly.
- Fogo, fogo! Tem um par de cavalos de reserva e alguns sacos
que nos d, minha senhora?
- Vo por a a baixo at s cocheiras. Santo Deus!, espero que
nenhum de vocs fique encurralado l em baixo!-disse Meggie,
que no sabia onde estava o pa.
 Os dois homens pegaram nos sacos de serapilheira e nos cantis
que a Sr e Smith lhes oferecia; h cnco minutos que Bob e os homens
tinham partido. Os dois andarilhos foram-lhes no encalo e, por fim,
Fee e Meggie dispararam a galope para o crrego, atravessaram-no
e subiram o barranco do outro lado, em direco do fumo.
 Atrs deles Tom, o jardineiro, acabou de encher o gtande camio-
-tanque, com gua do poo e depois ps o motor a trabalhar.  claro
que no havia gua capaz de apagar um inendio daquele porte, mas ela
seria necessria para manter molhados os sacos e as pessoas que os
usavam. Quando engatou a primeira do camio para subir o declive
da outra margem, olhou para trs por um momento e viu a casa do chefe
dos pastores e as duas casas para alm dela; l estava o ponto vulnervel
da sede, o nico local onde as chamas poderiam chegar suficientement
perto das rvores do lado de c do crrego para lhes pegar fogo.
O velho Tom olhou para oeste, abanou a cabea numa sbita deciso
e conseguiu fazer com que o camio, de marcha a trs, atravessasse
de novo o rio e subisse a ribanceira. Eles nunca deteriam aquele incndio
l nos pastos; teriam de voltar para trs. No alto do barranco, ao lado
da casa do chefe dos pastores, ligou a mangueira ao tanque e principiou
a regar o edifcio; depois, passando para as duas habitaes mais peque-
nas, regou-as tambm. Era ali que mais poderia ajudar, mantendo as
trs casas to molhadas que no pudessem incendiar-se.

230

 Enquanto Meggie cavalgava ao lado de Fee crescia a nuvem no
ocidente e, cada vez mais forte, empurrado pelo vento, sentia-se o cheiro
da queimada. Escurecia; animais fugiam atravessando os pastos em
grupos sempre mais densos, cangurus e poreos bravos, carneiros e bois
assustados, emas e lagartos, coelhos aos milhares. Bob ia deixando as
cancelas abertas, observaram elas ao passar de Borehead para Billa-Billa,
pois cada pasto de Drogheda tinha um nome. Mas os catneiros eram
to estpidos que ficavam diante de uma cerca, a um metro da sada,
e no a enxergavam.
 O fogo cobrra j dezasseis quilmetros quando elas o alcanatam
e espalhava-se tambm lateralmente, ao longo de uma frente que se
ampliava a cada segundo. A medida que o capim comprido e seco e o
vento forte propagavam o fogo de um magote de rvores para outro,
elas detiveram os cavalos assustados e indceis e olharam, impotentes,
para oeste. No adiantava tentar det-lo ali; um exrcito no o conse-
guiria. Teriam de voltar para a sede e defend-la, se pudessem. A frente
j tinha oito quilmetros de extenso e, se elas no espevitassem as
montadas cansadas, corriam o risco de ser alcanadas e ultrapassadas.
Era uma pena que acontecesse aquilo aos carneiros, mas no havia nada
a fazet.
 O velho Tom ainda estava a regar as casas ao p do arroio quando
os cavaleiros transpuseram o tnue lenol de gua do vau.
- Boa, Tom! - gritou Bob. - Continua a molhar at poderes,
 mas no te demores muito, ouviste? Nada de herosmos idiotas;
 s mais importante do que uns pedaos de madeira e vidro.
 A sede enchera-se de carros e novos faris se viam de longe,
 na estrada de Gilly; um grande grupo de homens estava  espera deles.
- O fogo  muito grande Bob? - perguntou Martin King.
- Grande de mais para ser combatido, acho eu - disse Bob,
 com desespero na voz. - Caleulo uns oito quilmetros de largura e,
 com este vento, avana to depressa como um cavalo a galope. No sei
se poderemos salvar a sede, mas creio que Harry tem de preparar-se
 para defender as suas terras. Ele ser o prximo, porque no vejo
 como segurar isto aqui.
- Bem, o caso  que mais cedo ou mais tarde tinha de havet
um fogo assim, pois o ltimo j foi em 1919. Vou organizar um grupo
para ir a Beel-Beel, mas ainda est a vir muita gente para c. Gilly pode
mobilizar quase quinhentas pessoas para combater um incndio. Alguns
ficaro aqui para ajudar. Graas a Deus estou a oeste de Drogheda,
 a nica coisa que posso dizer.

231

 Bob sorriu.
- Isso  uma grande consolao, Martin.
 Este olhou  sua volta.
- Onde est o teu pai, Bob?
- A oeste do fogo, como Bugela. Estava em Q ilga reunindo
algumas ovelhas para a pario, e Wilga fica, pelo menos, a oito quil-
metros a oeste do lugar onde o fogo comeou, acho eu.
- E no ests preocupado com mais ningum?
- Hoje, no, graas a Deus.
 De certo modo era como estar numa guerra, pensou Meggie ao
entrar em casa: a rapidez controlada, a preocupao com a comida e a
bebida, o esforo para sustentar a fora e a coragem e, por fim, a ameaa
de desastre iminente. A medida que chegavam, outros homens vlnham
juntat-se aos que j estavam no Home Paddock, cortando as poucas
rvores que tinham nascido perto da margem do crrego, e celfando
o capim mais comprido que cresca no permetro. Meggie lembrava-se
de ter pensado, ao chegar a Drogheda pela primeira vez, que o Home
Paddock poderia ser muito mais bonito, pois, comparado com a riqueza
de rvores que havia em toda a volta, era nu e descampado. Agora
compreendia porqu. O Home Paddock no passava de um gigantesco
aceiro circular.
 Todos falavam nos incndios que Gilly presenciara nos seus
setenta e tantos anos de existncia. Por mais curioso que parecesse,
os fogos nunca representavam grande ameaa durante uma seca pro-
longada, pois, nesse caso, no havia capim suficiente para que as chamas
alastrassem. Fora em pocas como aquela, um ou dois anos depois
de as chuvas pesadas terem feito a relva crescer tanto, que Gilly assistita
a grandes catstrofes, que s vezes atingiam, sem controle, centenas de
quilmetros.
 Martin King assumira a chefia dos trezentos homens que tinham
ficado para defender Drogheda. Sendo o fazendeiro mais velho do
distrito, comatera incndios durante cinquenta anos.
- Tenho cento e cinquenta mil acres em Bugela - disse-
e em 1905 perdi toda a ctiao e todas as rvores que havia nas minhas
terras. Levei quinze anos para recompor-me e, durante algum tempo,
pensei que no o conseguiria, porque a l no estava a dar muito
naquele tempo, nem a carne.
 O vento continuava a uivar, sentia-se em toda a parte o cheiro
a queimado. A noite cara, mas o cu no ocaso resplandecia com um
brilho perverso e o fumo, cada vez mais baixo, fazia-os tossir. No tardou

32

muito que vissem as primeiras chamas, saltando e contorcendo-se a trinta
e tantos metros de altura, no meio do fumo, e chegou-lhes aos ouvidos
um rugido como de imensa multido desvairada num jogo de futebol.
As rvores do lado ocidental do pequeno bosque que circundava
o Home Padock incendiaram-se e ergueram-se como um slido lenol
de fogo; enquanto da varanda da casa, Meggie assistia, petrificada,
quelas cenas, pequenas silhuetas de pigmeus destacavam=se do claro,
pulando e eabriolando como almas angustiadas no Inferno.
- Meggie, fazes o favor de entrar e empilhar estes pratos no
aparador, menina! Lembra-te de que no estamos num piquenique!-
chegou-lhe a voz da me. Ela afastou-se, relutante.
 Duas horas depois, o primeiro grupo de homens exaustos entrou
cambaleando para comer e beber alguma coisa, recobrar as foras, que j
estavam no fim, e continuar a luta. Para isso se haviam afadigado as
mulheres da fazenda, providenciando para que houvesse cozido, po sem
fermento, ch, rum e cerveja em quantidade suficiente at para trezentos
homens. Num incndio, cada qual fazia o que sabia de melhor, e isso
significava que as mulheres cozinhavam para manter a fora fsica
dos homens. Esvaziavam-se as bebidas, caixa aps caixa, logo pronta-
mente substitudas; negros de fuligem e cambaleantes de cansao,
os homens, em p, bebiam copiosamente e enfiavam nacos imensos
de po na boca, ou engoliam, vorazes, um prato cheio de cozido;
emborcavam depois um derradeiro copo de rum e voltavam.
 Entre as idas e vindas  cozinha, Meggie observava o fogo, pasmada
e aterrada.  sua maneira, ele tinha uma beleza que excedia tudo quanto
havia na terra, pois era uma coisa do cu, de sis to distantes que
a sua luz chegava fria, de Deus e do Diabo. A frente do incndio galo-
para no rumo do nascente, cercando-os totalmente, e Meggie divisou
pormenores que o indefinido holocausto da frente no lhe permitira
enxergar. Entremisturavam-se o preto, o alaranjado, o vermelho, o branco
e o amarelo: a silhueta negra de uma rvore alta, cercada de uma casca
alatanjada, que fremia e refulgia; as brasas vcrmelhas, que flutuavam
e danavam no ar como fantasmas travessos; as pulsaes amarelas
dos coraes exaustos de rvores consumidas pelo fogo; a chuva de
centelhas rubras rodopiantes quando um eucalipto explodia; as sbitas
lambidelas de chamas alaranjadas e brancas de algo que resistira at
ento e que finalmente entregava o corpo ao fogo. Oh, sim, era belo
 noite e ela ardaria a uela lembran a durante toda a vida.
 Um sbito aumento da velocidade do vento fez com que todas
as mulheres subissem pelos ramos da glicnia at ao tecto de ferro,

233

envoltas em sacos, pois todos os homens estavam l fora, no Home
Paddock. Munidas de sacos molhados, chamuscando as mos e os
joelhos mesmo atravs dos sacos, abafavam as brasas que caam,
sobre o tecto, aterradas pela ideia de que o ferro, cedendo ao peso
dos carves, deixasse cair bocados flamejantes sobre o vigamento de
madeira, em baixo. Mas o pior do fogo j estava a dezasseis quil-
metros a leste, na direco de Beel-Beel.
 A sede de Drogheda distava apenas cinco quilmetros da extre-
midade oriental da propriedade, a mais prxima de Gilly. Beel-Beel
confinava com elas e, alm, mais para leste, ficava Narrengang. Quando
o vento passou de oitenta para cem quilmetros por hora, toda a gente
reconheceu que s uma chuva impediria o fogo de lavrar por semanas
a fio e de assolar centenas de quilmetros quadrados de terras de pri-
meira qualidade.
 Durante a maior fora do incndio, as casas ao p do crrego
haviam resistido, e Tom, como um possesso, enchia o camio-tanque,
regava as casas, tornava a encher, tornava a regar. Mas no instante
em ue o vento aumentou de intensidade, as casas explodiram e Tom,
chorando, retirou-se com o camio.
- Vocs deviam ajoelhar-se e agradecer a Deus que a fora do
vento no tivesse aumentado enquanto a frente estava a oeste de ns
- advertiu Martin King. - Se isso tivesse acontecido, no somente
a sede teria ardido, mas ns tambm. Santo Deus, espero que estejam
todos bem em Beel-Beel!
 Fee estendeu-lhe um copo grande de rum puro; ele j no era moo,
mas lutara enquanto fora preciso e dirigira as operaes com mestria.
-  uma parvoce - disse -, mas, quando tudo parecia perdido,
eu s me lembrava das coisas mais esquisitas. No pensava em morrer,
nem nas crianas, nem nesta bonita casa em runas. As nicas coisas
de que conseguia recordar-me eram o meu cesto de costura, o meu tric
inacabado, a caixa de botes que guardo h anos e as minhas formas
de bolo, em forma de corao, que Frank me fez h tanto tempo.
Como poderia eu sobreviver sem elas? Todas essas coisas, sabe?,
que no podem ser substitudas, nem se compram nas lojas.
- Sim,  assim mesmo que a maioria das mulheres costuma pensar.
 cutioso, de facto, a maneira como reagem. Lembro-me, em 1905,
da minha mulher a correr para casa, enquanto eu a chamava, gritando
como louco, s para ir buscar um pano em que comeara a bordar
qualquer coisa. - Martin sorriu. - Mas conseguimos sair a tempo,
embora petdssemos a casa. Quando constrL,mos a nova, a primeira

234

coisa que ela fez foi terminar o trabalho. Um daqueles bordados antigos,
que as meninas faziam nas escolas, a Fee sabe o que quero dizer.
E estava escrito nele <<Lar, Doce Lar>>. - Deps o copo vazio na mesa,
sacudindo a cabea, num mudo comentrio sobre a estranha forma de
ser das mulheres. -Vou-me embora. Gareth Davier precisar de ns,
em Narrengang, e, ou muito me engano, Angus, em Rudna Hunish,
tambm.
 Fee empalideceu.
- Oh, Martin! To longe?
- A notcia espalhou-se, Fee. Booroo e Bourke esto a preparar-se.

 Por mais trs dias o fogo lavrou em direco do oriente, numa
frente que no cessava de dilatar-se. Depois caiu um aguaceiro repen-
tino e pesado, que durou quase quatro dias e apagou os ltimos carves.
Mas o incndio percorrera mais de cento e sessenta quilmetros e deixara
um rasto carbonizado e enegrecido de mais de trinta quilmetros de
largura, que se estendia de Drogheda at ao limite da ltima proprie-
dade na parte oriental do distrito de Gillanbone, Rudna Hunish.
 Enquanto no comeou a chover ningum esperava receber notcias
d Paddy, pois todos o julgavam em segurana do outro lado da zona
calcinada, isolado pelo calor do solo escaldante e pelas rvores que
ainda ardiam. Se o incndio no tivesse derrubado a linha telefnica,
Bob imaginava que j teriam reeebido notclas de Martin King, pois era
lgico que Paddy se dirigisse para poente,  procura de abrigo na sede
de Bugela. Mas seis horas depois de a chuva principiar a cair, ainda no
se sabia dele, e o rapaz comeou a ficar preocupado. Tinha levado
quase quatro dias tentando persuadir-se de que no havia motivos para
sobressaltos, de que o pai, naturalmente, impossibilitado de comunicar
com a sede, decidira esperar at poder voltar para casa, em vez de ir
a Bugela.
- J devia ter chegado - disse Bob, andando de um lado pata
outro da sala de estar, enquanto os outros observavam; a nota irnica
em tudo aquilo era que a chuva deixara um frio hmido no ar e,
mais uma vez, um fogo brilhante ardia na lareira de mrmore.
- Que achas, Bob? - perguntou Jack.
- Acho que  mais do que tempo de irmos procur-lo. O pai pode
 estat ferido, ou desmontado, tendo pela frente uma longa caminhada.
 O cavalo pode ter-se assustado, derrubando-o, e ele talvez esteja cado
 nalgum stio, incapaz de mover-se. Levava comida, mas no a suficiente
 para quatro dias, embora ainda no deva ter desmaiado de fome.

235

 melhor no darmos, por agora, o alarme, porque no quero chamar
os homens de Narrengang. Mas se no o encontrarmos at ao cair
da noite, rei a cavalo  casa de Dominc e poremos o distrito inteiro
em movimento amanh. Ah!, como gostaria de que esses tipos do
correio reparassem depressa as linhas do telefone!
 Fee tremia. Tinha os olhos febris, quase selvagens.
- Eu visto umas calas - disse. - No aguento ficar aqui
 espera.
- Fique em casa, me! - pediu Bob.
- Se ele estiver magoado, poder encontrar-se em qualquer stio,
Bob, e em quaisquer condies. Mandaste os pastores para Narrengang,
e por isso temos muito pouca gente para fazer uma busca. Se eu sair
em companhia de Meggie, ns duas arranjaremos fora suficiente para
enfrentar o que quer que seja, mas se s for Meggie,  preciso que
um de vocs a acompanhe, o que equvale a ser intil a sua ptesena.
 Bob cedeu.
- Est bem, ento. A me ir no cavalo de Meggie; j o montou
no primeiro dia do incndio. Cada um pegue numa espingarda e em
muitos cartuchos.
 Atravessaram o arroio e penetraram no corao da paisagem
crestada. Nada verde ou castanho ficara em parte alguma, s uma vasta
extenso de carves pretos e enchareados, que ainda fumegava n inctivel-
mente depois de horas de ehuva. Todas as folhas de todas as rvores
tinham sido transformadas num cordozinho encolhido e flcido e,
onde houvera capim, divisavam-se novelos pnetos aqui e ali, carneitos
surpreendidos pelo fogo, ou um volume maior de vez em quando,
restos de um novilho ou de um porco. As lgrimas, nos tostos de todos,
misturaram-se com a chuva.
 Bob e Fee encabeavam o grupo, Jack e Hughie iam no meo,
Meggie e Stuart formavam a retaguarda. Para estes, confortava-os
o simples facto de estarem juntos, sem falar, cada qual contente com
a companha do outro. As vezes os cavalos aproximavam-se ou afastvam-
-se  vista de algum novo horror, mas isso no parecia impressionar
o nltimo par de cavaleiros. A lama retardava e dificultava a marcha,
embora a erva torrada e enegrecida se estendesse sobre o solo como
um tapete de fibras de coco para dar apoio aos cavalos. A cada meia
dzia de jardas que transpunham esperavam ver Paddy aparecer no
hvrizonte distante e plano, mas o tempo ia passando e ele no aparecia.
 Com o corao apertado, compreenderam que o fogo principiara
mais longe ainda do que haviam imaginado a princpio, no pasto

de Wilga. As nuvens da borrasca deviam ter disfarado o fumo enquanto
o fogo percorria o seu caminho. A regio fronteiria era surpreendente:
de um lado da linha, traada com absoluta clareza, tudo era preto
e brilhante como alcatro, ao passo que, do outro, a terra continuava
como sempre a haviana conhecido, castanha, azul e triste sob a chuva,
mas viva. Bob parou e voltou-se para falar com os outros.
- Muito bem,  aqui que comeamos. Irei directamente para
oeste;  a direco mais provvel e eu sou o mais fotte. Todos tm
bastantes munies? Bom. Quem descobrir alguma coisa dar trs tiros
para o ar, e os que ouvirem respondero com um. Depois esperem.
Quem tiver dado os trs tiros, disparar mais trs cinco minutos depois,
e assim sucessivamente. Os que ouvirem, um tiro s em resposta.
 uJack, irs para sul, acompanhando a linha do fogo. Tu, Hughie,
para sudoeste. A me e Meggie, para noroeste. Stu, acompanhas a linha
d4 fogo directamente para norte. E vo todos devagar, por favor.
Com esta chuva no se pode ver muito longe, e ainda h muitos troncos
espalhados pelo cho. Chamem-no muitas vezes; ele talvez no os veja,
mas poder ouvi-los. Todavia, lembrem-se, nada de tiros enquanto no
encontrarem alguma coisa, porque o pai no est armado e, se ouvir
um tiro e estiver muito longe para responder, ser terrvel para ele.
Boa sorte, e Deus os abene.
 Como peregrinos nas encruzilhadas finais, apattatam-se uns dos
outros debaixo da chuva firme e cinzenta, distanciando-se cada vez mais,
ficando cada vez menores, at desaparecerem ao longo do rumo indicado.
 Stuart no chegara a percorrer um quilmetro quando avistou,
bem prxmo da linha de demarcao do fogo, um grupo de rvores
queimadas. Havia uma pequena wilga, preta e encrespada como a gafo-
rina de um negro, e os restos de um grande toco. Ento viu o que
tinha sido o cavalo de Paddy, estatelado e fundido com o tronco de
um grande eucalipto, e dois ces, coisas hirtas e pretas, com as
quatro patas esticadas para cima, como bengaias. Desceu do cavalo,
as botas afundaram-se at ao tornozelo no barro, e tirou a espingarda
do estojo amarrado  sela. Os lbios moviam-se-lhe, rezando, enquanto
escolhia o caminho resvaladio por entre os carves pegajosos. No fosse
o cavalo e os ces e poderia supor que se tratava de um andarilho ou
de um viajante surpreendido pelo fogo, mas Paddy estava a cavalo
e levava cinco ces, e os caminheiros que percorriam a estrada andavam
a p e nunca tinham mais de um. Alm disso, o local era to dentro
das terras de Drogheda que no se podia pensar num pastor de Bugela
que tivesse chegado at l. Um pouco adiante, mais trs ces incinetados;

236 239

cinco ao todo, cinco ces. Sabia que no encontraria um sexto, como no
encontrou.
 E no muito longe do cavalo, oculto por um tronco, viu, ao apro-
ximar-se, o que fora um homem. No havia engano possvel. Faiscando
e reluzente debaixo da chuva, o corpo preto estava de costas, e as costas,
dobradas como um grande arco, faziam com que ele s tocasse o solo
com os ombros e os quadris. Os braos, abertos e curvados  altura
dos cotovelos, pareciam implorar misericrdia, e os dedos, cuja carne
se despegava para mostrar os ossos torrados, davam a impresso de
agarrar e segurar qualquer coisa. As pernas tambm se haviam separado
uma da outra, dobrados pelos joelhos, e a bola da cabea olhava, sem
olhos, para o cu.
 Por um momento, o olhar claro e lcido de Stuart demorou-se
no pai, e no viu o corpo arruinado, mas o homem, como este fora
em vida. Apontou a espingarda para o cu, deu um tiro, recarregou-a,
deu o segundo, recarregou-a, deu o terceiro. Fracamente,  distncia,
ouviu a primeira resposta, depois, mais longe e mais fraca ainda,
a segunda. Nesse momento, lembrou-se de que o tiro mais prximo
deveria ter vindo da me e da irm. Elas estavam a noroeste, ele, a norte.
Sem aguardar os cinco minutos estipulados, ps outro cartucho na
espingarda, apontou directamente para sul e disparou. Uma pausa para
recarregar, o segundo tiro, outra pausa, o terceiro. Colocou a arma no
cho e ficou a olhar para sul, de cabea erguida, prestando ateno.
Desta feita, a primeira resposta veio de oeste. O tiro de Bob. O segundo
de Jack, ou de Hughie, o terceiro da me. Suspirou, aliviado; no
queria que as mulheres chegassem primeiro.
 Por isso no viu o grande porco bravo sair do meio das rvores,
ao norte; sentiu-o pelo cheiro. Grande como uma vaca, o corpanzil
macio gingava e fremia sobre as pernas eurtas e robustas, enquanto
abaixava a cabea, farejando o solo queimado e molhado. Os tiros
haviam-no perturbado e ele estava ferido. Os ralos plos pretos de
um lado do corpo tinham sido arrancados, a pele ficara em carne viva;
o que Stuart sentiu enquanto olhava para sul foi o cheiro deleitoso de
couro de porco, exactamente como fica um quarto de leito recm-sado
do forno. Surpreendido na sua tristeza curiosamente pacfica, que sem-
pre parecia ter conhecido, virou a cabea, no momento preciso em Que
dizia para si prprio que j estivera ali, que aquele stio preto e empa-
pado se lhe gravara nalguma parte de crebro no dia do seu nas-
cimento.

238

 Inclinando-se, tacteou o cho  procura da rma, lembrando-se de
que estava descarregada. O javali continuava imvel, os olhinhos aver-
melhados loucos de dor, as grandes presas amarelas afiadas e curvadas
para cima, formando um meio crculo. O cavalo de Stuart relinchou,
farejando o animal; a cabeorra do porco virou-se para observ-lo
e depois abaixou-se para o ataque. Enquanto a ateno do javardo se
concentrava no cavalo, Stuart aproveitou a oportunidade; abaixou-se
rapidamente para pegar na espingarda e abriu-lhe a culatra, ao mesmo
tempo Que a outra mo procurava um cartucho, no bolso do colete.
A volta a chuva caa, abafando os outros sons com o seu tamborilar
uniforme. Mas o porco ouviu o ferrolho deslizar para trs e, no derra-
diro instante, mudou a direco da investida, do cavalo para Stuart.
A fera j estava quase sobre ele quando conseguiu acertar-lhe bem no
meio do peito, mas no Ihe diminuiu a fria da carga. As presas,
viradas para cinia e para o lado, furaram-lhe a virilha. Stuart caiu,
o sangue principiou a jorrar, como se uma torneira tivesse sido aberta,
encharcando-lhe as roupas e esguichando para o cho.
 Virando-se, desajeitado, quando comeou a sentir o tiro, o porco
voltou para feri-lo outra vez, tropeou, vacilou e desabou. O corpanzil
de setecentos e tantos quilos caiu sobre o rapaz e comprimiu-lhe o rosto
de encontro  lama enfarruscada. Por um momento as mos enterra-
ram-se no cho, de cada lado, num esforo frentico e ftil para liber-
tar-se; era isso, ento, o que sempre soubera, era por isso que nunca
esperara, nunca sonhara, nunca fizera planos, deixando-se ficar sentado,
a beber o que podia do mundo, to profundamente que no tivera
tempo para lamentar o destino que o abatera. E pensou: <<Me, me!
No posso ficar consigo, me!>>, no mesmo momento em que o corao
rebentava dentro dele.
- Porque ser que Stu no tornou a atirar? - perguntou Meggie
 me, enquanto trotavam para o local donde viera o som das duas
 inca azes de avan ar mais de ressa, mas desespera-
descargas triplas, p
damente ansiosas.
- Com certeza achou que j tnhamos ouvido - disse Fee. Con-
tudo, no fundo da sua mente lembrava-se do rosto do filho quando
se haviam separado para procurar em direces diferentes, do modo
como a mo dele se estendera para apertar a sua, da maneira como
ele lhe sorrira. - Agora no podemos estar longe - disse, e obrigou
a montada a um meio galope desajeitado e perigoso.
 Mas Jack chegara primeiro, tal como Bob, e ambos afastaram

239

as mulheres quando estas se aproximaram do local onde o incndio
ptincipiara.
- No v at l, me - disse Bob, quando ela desmontou.
 Jack aproximara-se de Meggie e segutava-lhe os braos.
 Os dois pares de olhos cinzentos voltaram-se, menos assombrados
ou temerosos do que sabedorrs, como se no fosse preciso dizer-lhes
coisa alguma.
- Paddy? - perguntou Fee com uma voz que no era a dela.
- Sim. E Stu.
 Nenhum dos filhos pde olhar para ela.
- Stu? Stu! Que queres dizer? Oh, meu Deus, mas que foi, que
foi que aconteceu? Os dois, no... no!
- O pai ficou preso no incndio; est morto. Stu deve ter per-
turbado um javali, que o atacou. Stu atingiu , mas o javali caiu em
cima dele, ao morrer, e sufocou o. Ele tambm est morto, me.
 Meggie gritou e esbracejou, tentando livrar-se de Jack, mas Fee
permaneceu entre as mos tisnadas e ensanguentadas de Bob, como
algum que se tivesse transformarlo em pedra, os olhos to vtreos
como duas bolas de cristal.
- de mais - disse por fim, e ergueu a vista para Bob enquanto
a chuva lhe escorria pelo rosto e pelo cabelo espalhado em madeixas
dispersas em torno do pescoo, como arroios de ouro. -Deixa-me ir
at l, Bob. Sou mulhet de um e me do outro. No podes manter-me
afastada... no tens o direito de manter-me afastada. Deixa-me ir para
o p deles.
 Meggie aquietara-se e permanea entre os braos de Jack, com
a cabea no ombro do irmo. Quando Fee comeou a caminhar por
entre as runas com o brao de Bob em torno da cintura, Meggie con-
templou-os, mas no fez meno de segui-los. Hughie apareceu, sado
da chuva que toldava tudo; com a cabea, Jack mostrou-lhe a me
e Bob.
- Vai atrs deles, Hughie, fica mm eles. Meggie e eu vamos
 voltar a Drogheda para trazer a catroa. - Ele soltou Meggie e ajudou-a
 a montar a gua castanha. - Vamos, Meggie; est quase escuro. No
 podemos deix-los aqui toda a noite, e eles no se iro embora enquanto
 no voltarmos.
 Era impossvel pr a carroa ou qualquer outta cosa com rodas
 naquele lodo; por fim, Jack e o velho Tom atrelaram uma chapa de
 ferro ondulado a dois cavalos de tiro. Tom conduzia a parelha, mon-

240

 tado num cavalo de lida, enquanto Jack cavalgava  frente, empu-
 nhando o maior lampio que havia em Drogheda.
 Meggie ficou em casa, sentada diante da lareira da sala de estar,
 enquanto a Sr.a Smith tentava convenc-la a comer. As lgrimas corriam-
- lhe pelo rosto ao ver o estado de choque em que ficata a jovem,
 imvel e muda, sem chorar. Ao som da aldrava da porta da frente,
 virou-se e foi atender, perguntando a si mesma quem teria conseguido
 atravessar aquele lameiro todo, e espantada, como sempre, com z rapi-
 dez com que as notcias transpunham os quilmetros solitrios entre
 as sedes das fazendas, to distantes umas das outras.
 O padre Ralph estava em p na varanda, molhado e sujo, vestindo
 roupas de montar e um impermevel.
- Posso entrar, Senhora Smith?
- Oh, padre, padre! - gritou ela, e atirou-se nos braos estar-
 redos dele. - Como foi que soube?
- A Senhora Cleary telegrafou-me, numa eortesia de gerente para
 proprietrio que muito me sensibilizou. Obtive uma licena do arce-
 bispo di Contini-Verchese. Que nome comprido! A senhora actedita
 que sou obrigado a pronunci-lo cem vezes por dia? Vim logo para c.
 O avio atolou-se ao aterrar e espetou o nariz no cho, de modo que
 eu j sabia como estava o solo antes mesmo de toe-lo com os ps.
 Querida e formosa Gilly! Deixei a minha mala com o padre atty
 na casa paroquial e pedi um cavalo ao cobradot de impostos, que me
 julgou louco e apostou comigo uma garrafa de Johnnie alker, rtulo
 preto, em como eu no chegaria at aqui. Oh, Senhora Smith, no chore
 assim! O mundo no acabou por causa de um incndio, por maior
 e por pior que fosse! - acrescentou a sorrir e a bater-lhe nos ombtos
 arquejantes. - Aqui estou eu a fazer o possvel para no dar muita
 importncia s coisas, e a senhora no me quer ajudar. No chore assim,
 por favor.
- Quet dizet que o senhor no sabe -- sussurrou a governante.
- O qu? Que  que eu no sei? Que foi... que aconteceu?
- O Senhor Cleary e Stuart morreram.
 O rosto dele perdeu a cor e as suas mos afastaram a governanta
 da frente.
- Onde est Meggie? - perguntou, em tom rspido.
- Na sala de estar. A Senhora Cleary ficou no pasto com os cor-
 pos. Jack e Tom foram busc-los. Oh, padre, s vezes, apesar da minha
 f, no posso deixar de pensar que Deus  demasiado cruel! Porque
 precisava Ele de levar os dois?

241

PSSAftOS FERIDOS

 O padre Ralph, no entanto, s ficara o tempo suficiente para saber
onde estava Meggie; entrara na sala de estar, desenvencilhando-se do
impermevel pelo caminho e deixando um rasto de gua barrenta
atrs de si.
- Meggie! - disse, abeirando-se dela e ajoelhando-se a um lado
da cadeira, enquanto lhe tomava com firmeza as mos frias entre as
suas mos molhadas.
 Ela escorregou da cadeira e aninhou-se-lhe nos braos, encostando
a cabea na camisa gotejante, to feliz a despeito da dor e do luto
que no queria que aquele momento acabasse. Ralph viera, era uma
prova do poder dela sobre ele, ela no falhara.

- Estou molhado, Meggie querida; ficars ensopada - murmu-
rou ele com o rosto no cabelo dela.
- No faz mal. O Ralph veio.
- Sim, eu vim. Queria ter a certeza de que estavam todos bem,
tive a impresso de que precisavam de mim, queria certificar-me pes-
soalmente. Oh, Meggie, teu pai e Stu! Como foi que isso aconteceu?
- O pai ficou preso no meio do fogo e Stu encontrou-o. Stu. foi
morto por um javali, que lhe caiu em cima depois de ele o matar. Jack
e Tom foram busc-los.
 O padre Ralph no disse mais nada, mas ficou a segur-la e a emba-
l-la como a um beb, at que o calor do fogo lhe secou parcialznente
a camisa e ele sentiu que Meggie perdia um pouco da sua rigidez.
Em seguda, ps-lhe a mo debaixo do queixo, puxou-lhe a cabea para
cima at que ela o olhou e, sem pensar, beijou-a. Foi um impulso con-
fuso, sem razes no desejo, apenas algo que Ralph instintivamente ofe-
receu quando viu o que havia nos olhos cinzentos. Algo  parte, uma
 espcie diferente de sacramento. Os braos dela deslizaram por baixo
 dos seus braos e foram juntar-se nas suas costas; ele no pde deixar
 de encolher-se, suprimindo a exclamao de dor.
 Meggie recuou um pouco.
- Que aconteceu?
- Devo ter magoado as costelas, quando o avio capotou. O apa-
 relho enfiou o nariz na velha e boa lama de Gilly, de modo que a ater-
 ragem no foi nada calma. Acabei por bater no espaldar do assento
 da frente.
- Deixe-me ver.

 Com dedos firmes, ela desabotoou a camisa hmida e tirou-a pelos
braos, libertando-a do aperto das calas. Sob a pele trigueira e glabra

242

uma mancha arroxeada estendia=se de um lado a outro, abaixo da caixa
torcica; ela susteve a respirao.
- Oh, Ralph! Veio de Gilly at aqui nesse estado! Como lhe deve
ter dodo! Sente-se bm? Poderia ter quebrado qualquer coisa por
dentro !
- No, estou bem, e nem senti nada, palavra. Eu ansiava tanto
por chegar aqui, certificar-me de que tudo corria bem, que devo ter
simplesmente eliminado a dor da minha ideia. Se estivesse a sangrar
por dentro eu sab-lo-ia h muito tempo, imagino. Por Deus, Meggie,
no faas isso!
 Ela abaixara a cabea e, delicadamente, tocava com os lbios a zona
magoada, enquanto as palmas das mos subiam pelo peito dele at aos
ombros com uma sensualidade deliberada que o atordoou. Fascinado,
aterrado, querendo libertar-se por qualquer preo, ele empurrou-lhe
a cabea; mas, fosse como fosse, a nica coisa que conseguiu fazer foi
t-la de novo nos braos, serpente enrolada, apertada, em torno da
sua vontade, estrangulando-a. Esqueceu-se da dor, esqueceu-se da Igreja,
esqueceu-se de Deus. Encontrou-lhe a boca, forou-a a abri-la, querendo
mais e mais dela, sem poder mant-la sufcientemente aconchegada a si
para minorar o impulso medonho que crescia dentro dele. Meggie deu-
-lhe o pescoo, desnudou os ombros, cuja pele era fria, mais macia
e acetinada que o cetim; era como um afogar-se, um afundar-se cada vez
 mais, arquejante e impotente. A mortalidade desceu sobre ele, um grande
 peso comprimiu-lhe a alma, libertando o vinho escuro e amargo dos
 sentidos numa torrente sbita. Sentiu vontade de chorar; o resto do
 desejo escapou-se-lhe debaixo do fardo da sua mortalidade, e arrancou
 os braos dela do seu corpo lamentvel, sentou-se nos calcanhares com
 a cabea a pender para a frente, parecendo inteiramente absorto na
 contemplao das prprias mos, que Ihe tremiam sobre os joelhos.
 uMeggie, que me fizeste, que  que me farias se eu te deixasse?>>
- Meggie, eu amo-te, sempre te amarei. Mas sou um padte, no
 posso... Simplesmente no posso!
 Ela ergueu-se de um mpeto, recomps a blusa, ficou a olhar para
 ele ainda acocorado, enquanto crispava os lbios num sorriso breve,
 gue s serviu para dar maior realce  dor que havia nos seus olhos.
- Est certo, Ralph. Vou ver se a Senhor Smith pode arranjar-
 -lhe alguma coisa para comer, de ois trar-lhe-ei o linimento de cavalo.
 maravilhoso para curar ndoas negras; acho que tira a dor muito
melhor do que os beijos.

243

- O telefone funciona? - conseguiu ele perguntar.
- Sim. Esticaram uma linha provisria entre as rvores e h duas
horas que o ligaram.
 Mas s alguns minutos depois de ela o d ixar  que o padre con-
seguiu recompor-se suficientemente para se sentar  escrivaninha
de Fee.
- Interurbano, por favor, telefonista.  o padre de Bricassart,
que est a falar de Drogheda... Oh,  voc, Doreen! Pelo que vejo,
continua no telefone. Tive muito prazer tambm em ouvir a sua voz.
Nunca se sabe quem  a telefonista em Sidnei; apenas uma voz abor-
recida. Quero uma ligao urgente para Sua Excelna o Legado Papal
em Sidn i. O nmero  XX-2324. E enquanto espero a chamada de
Sidnei, ligue-me a Bugela, Doreen.
 Mal tivera tempo de contar a Martin King, o que havia acontecido
quando se completou a ligao de Sidnei, mas uma palavra transmitida
a Bugela era mais do que suficiente. Gilly saberia de tudo por Martin
e pelos escutadores espalhados ao longo da linha telefnica, e os que
estivessem dispostos a enfrentat o lodaal de Gillv acompanhariam
o enterro.
- Excelncia? Aqui  o padre de Bricassart... Sim, muito obri-
gado a Vossa Excelncia, cheguei bem, mas o avio enterrou o nariz
na lama, de modo que terei de voltar de comboio... Lama, Excelncia,
la-ma, lama! No, Excelncia, aqui fica tudo intransitvel quando chove.
Tive de vir a cavalo de Gillanbone at Drogheda;  o nico meio de
transporte que se pode tentar em goca de chuvas... por isso que
estou a telefonar, Excelncia. Ainda bem que vim. Devo ter tido uma
espcie de premonio... Sim, as coisas esto ms, muito ms. Padraic
Cleary e seu filho Stuart morreram, um queimado no incndio, outro
sufocado por um javali... Um ja-va-li, Excelncia, um porco bravo...
Sim, Vossa Excelncia tem razo, aqui fala-se um ingls esquisito.
 Ralph ouvia, por toda a linha, os arquejos das escutas, e sorria
 mau grado seu. No poderia gritar ao telefone dizendo s pessoas que
 deviam sair da linha - aquele era o nico entretenimento que Gilly
tinha para oferecer aos seus cidados famintos de contacto humano -,
mas se todos o fizessem era provvel que Sua Excelncia o ouvisse
melhor.
- Com sua licena, Excelncia, ficarei para clirigir os funetais
e certificar-me de que a viva e os outros filhos esto bem... Sim, Exce-
lncia, muito obrigado. Voltarei a Sidnei assim que puder.

 A telefonista ouvia tambm; ele accionou a alavanca e tornou
a falar de imedato.
- Doreen, ligue-me de novo com Bugela, por favor.
 Conversou com Martin King durante alguns minutos e decidiu,
visto que estavam em Agosto e fazia um frio de Inverno, marcar
o enterro para dois dias depois. Muita gente gostaria de estar presente,
apesar da lama, mas tinha de preparar-se para a viagem a cavalo, o que
era um trabalho rduo e demorado.
 Meggie voltou com o linimento, mas no se ofereceu para esfre-
g-lo, estendeu-lhe apenas a garrafa em silncio. Informou-o com brus-
quido de que a Sr.a Smtih estava a preparar uma refeio quente para
ele na saleta de jantar, que seria servida dali a uma hora, de modo que
ainda teria tempo de tomar um banho. Ralph sentia-se desagravelmente
cnscio de que, no entender de Meggie, ele falhara, mas no sabia porque
haveria ela de ensar assim, ou em que baseava o seu julgamento.
Ela sabia c que ele era; porque se zangava?

 Na madrugada cinzenta a pequena cavalgada que escoltava os cor-
pos chegou ao riacho e parou. Se bem que a gua ainda estivesse contida
dentro das margens, o Gillan transformara-se num rio caudaloso, rpido
e profundo. O padre Ralph fez a gua castanha cruz-lo a nado para
encontrar-se co m eles, com a estola em torno do pescoo e os instru-
mentos da sua profisso num alforje. Enquanto Fee, Bcb Jack, Hughie
e Tom formavam um crculo, ele tirou a lona que cobria os corpos
e preparou-se para ungi-los. Depois de Mary Carson j nada poderia
nause-lo; entretanto, Paddy e Stu no lhe pareceram repu nantes. Esta-
vam ambos negros  sua maneira, Paddy por causa do fogo, Stu por
efeito da sufocao, mas o padre beijou-os com amor e respeito.
 . Num trajecto de vinte e quatro quilmetros a tosca folha de ferro
ressaltara sobre o solo, atrs da parelha de cavalos de tiro, deixando
no lodo fundas cicatrizes que seriam ainda visveis anos depois, na relva
de outras temporadas. Dir-se-ia, porm, que eles no podiam ir mais
longe; o torvelinhante curso de gua det-los-ia naquela margem, a pouco
mais de um quilmetro e meio de Drogheda. Quedaram-se todos a olhar
para os topos dos eucaliptos espectrais, claramente visveis por entre
a cortina de chuva.
- Tenho uma ideia - disse Bob, voltando-se para o padre Ralph.
- Padre, o senhor  o nico que tem um cavalo folgado; ter de set
o senhor mesmo. Os nossos s atravessaro o rio a nado uma vez...
j no tm fora depois de tanta lama e tanto frio. Volte, procure alguns

244 245

tambores vazios, dos maiores, e feche-os de modo que no deixem entrar
nem uma gota de gua no seu interior. Solde-os, se for necessrio. Pre-
cisaremos de doze tambores, ou de dez se no for possvel encontrar
niais. Amarre-os e traga-os at aqui. Ns coloc-los-emos debaixo da
folha d ferro e f-los-emos flutuar de uma margem  outra como um
batelo.
 O padre Ralph fez o que lhe pediam sem discutir; era uma ideia
melhor do que qualquer outra que pudesse oferecer-lhes. Dominic
O'Rourke, de Dibban-Dibban, chegara a cavalo com dois filhos; vizinho,
a distna entre as sedes das duas propriedades era relativamente
pequena. Quando o padre Ralph explicou o que devia ser feito, puse-
ram-se imediatamente em campo, vasculhando os barraces  procura
de tambores vazios, despejando o farelo ou a aveia que havia dentro
deles - pois agora serviam para guardar mantimentos -, procurando
tampas e soldando-as nos tambores que no estavam enferrujados e pare-
ciam capazes de aguentar os golpes que receberiam dentro de gua.
A chuva continuava a cair, a cair. S pararia dali a dois dias.
- Dominic, no queria pedir-lhe uma coisa destas, mas, quando
aquela gente chegar, estar mais morta do que viva. Teremos de reali-
zar o enterro amanh e, mesmo que o cangalheiro pudesse fazer os
caixes, jamais conseguiramos tr nsport-los at aqui com esta lama
toda. Que tal se um dos de vocs tentasse faz-los? S preciso de um
homem para transpor o ribeiro comigo.

 Os filhos de O'Rourke assentiram com a cabea; no queriam ver
o que o fogo fizera a Paddy nem o que o javali fizera a Stuart.
- Ns encarregamo-nos disso, pai - prometeu Liam.
 Arrastando os tambores atrs dos cavalos, o padre Ralph
e Dominic O'Rourke desceram at ao rio e atravessaram-no.
- H uma coisa, padre! - gritou Dominic. - No ser preciso
 abrir covas aesta maldita lama! Eu costumava pensar que a velha Mary
 estava a querer salientar-se de mais quando mandou construir um jazigo
 de mrmore para Michael, mas, neste exacto momento, se ela estivesse
 aqui, dar-lhe-ia um beijo.
- Certssimo! - gritou o padre Ralph.
 Amarraram os tambores debaixo da chapa de ferro, seis de cada
 lado, prenderam firmemente a mortalha de lona por baixo e fizeram
 os exaustos cavalos de tiro atravessar o rio a nado, com a corda que
serviria, afinal, para puxar o batelo de tambores. Tom e Dominic
cavalgaram os grandes animais e, chegados ao alto da margem que ficava
do lado da sede de Drogheda, estacaram, olhando para trs, enquanto

246

 os que tinham ficado na outra margem agarraram no batelo provisrio,
 empurraram-no at  beira do ribeiro e lanaram-no  gua. Os eavalos
 de tiro puseram-se em marcha e Tom e Dominic soltaram um grito
 estridente de aviso quando o batelo comeou a flutuar. Este balanou
 violentamente, mas aguentou-se o suficiente para ser retirado na outra
 margem em perfeito estado; em lugar de perderem tempo a desmanchar
 os caixes flutuantes, os dois postilhes improvisados, instigaram os
 cavalos para a trilha que levava  casa grande, enquanto a chapa de ferro
 deslizava sobre os tambores melhor do que sem eles.
 Uma rampa conduzia aos grandes portes da extremidade do bar-
 raco de tosquia, de modo que colocaram o batelo e a sua carga na
 imensa construo vazia, entre os cheiros misturados de suor, alcatro,
 lanolina e esterco. Embuadas em impermeveis, Minnie e Cat haviam
 descdo da casa grande para fazer a primeira viglia e ajoelharam-se,
 cada qual de um lado do esquife de ferro. As contas do rosrio comea-
 ram a entrechocar-se e as vozes a erguer-se e abaixar-se em cadncias
 to bem conhecidas que dispensavam o esforo da memria.
 A casa principiara a encher-se. Duncan Gordon chegara de Each-
- Uisge, Gereth Davis, de Narrengang, Horry Hopeton, de Beel-Beel,
 Eden Carmichael, de Barcoola. O velho Angus Mac Queen fizera parar
 no meio do caminho um dos vagarosos comboios de mercadorias e seguira
 viagem ao lado do maquinista at Gilly, onde pedira emprestado um
 cavalo a Harry Gough, indo para Drogheda na sua companhia. Per-
 correra, assim, mais de trezentos e vinte quilmetros de lama, nos dois
' sentidos.
- Estou liquidado, padre - disse Horry, mais tarde, quando sete
 deles se sentaram na saleta de jantar para comer torta de carne.
- O incndio varreu as minhas terras de ponta a ponta e quase no
 dexou um carneiro vivo nem uma rvore verde. A nica coisa que
 posso dizer  que foi uma sorte os ltimos anos terem sido bons. Estou
 em condies de substituir o meu rebanho e, se a chuva continuat por
 mais algum tempo, o capim voltar depressa. Mas Deus nos lvre de
 outro desastre igual a este nos prximos dez anos, porque, nesse caso,
 no terei nada guardado para enfrent-lo.

- Voc ficou pior do que eu, Horry - acudiu Grareth Davies,
 enfrentando com manifesto prazer as massas folhadas da Sr Smith
 que se derretiam na boca, de to leves. Nada em matria de desastres
 estragaria por muito tempo o apetite dos habitantes das plancies de
 solo negro, pois eles precisavam de fora para arrost-los. - Calculo

247

que, infelizmente, perdi metade das minhas terras e talvez dois teros
do meu rebanho de carneiros. Padre, precisamos das suas oraes.
-  verdade - interveio o velho Angus. - No fui to atingido
como o pequeno Horry, nem mesmo como Garry, mas apesar disso
a coisa foi feia. Perdi sessenta mil acres e metade dos carneiros. So
desastres como este, padre, que me fazem arrepender de ter deixado
Skye quando era um rapazola.
 O padre Ralph sorriu.
- l um sentimento passageiro, Angus, e voc sabe-o bem. Saiu
de Skye pela mesma razo por que eu sa de Clunamara. O lugat era
pequeno de mais para ns.

- Nisso o senhor tem razo. As urzes no fazem um fogo to
bonito como os eucaliptos, no , padre?
 Estranho funeral, pensou o padre Ralph olhando em volta; as ni-
cas mulheres seriam as de Drogheda, pois todos os acompanhantes de
fora eram homens. Levara uma grande dose de ludano a Fee depois
de a Sr' Smith a despir, enxugar e colocar na cama enorme que ela
pattilhara com Paddy e, quando ela se recusara a beb-lo, chorando his-
tericamente, metera-lhe o remdio  fora pela garganta a baixo. Engra-
ado, no imaginara que Fee sucumbisse. O ludano surtira efeito
depressa, pois h vinte e quatro horas que ela no descansava. Sabendo-a
profundamente adormecida, ficou mais sossegado. Quanto a Meggie,
tinha-a debaixo de olho; naquele momento, a rapariga estava na cozinha,
ajudando a Sr  Smith a preparar a comida. Os rapazes haviam-se dei-
tado, to cansados que mal tinham conseguido tirar a roupa molhada.
Quando Minnie e Cat concluram a sua parte da vigflia, indispensvel
porque os corpos se achavam em lugar deserto e no abenoado, Gareth
Davies e o seu filho Enoch substituram-nas; os outros distriburam
entre si os perodos restantes de uma hora, enquanto falavam e comiam.

 Nenhum dos moos se juntara aos mais velhos na sala de jantar.
Estavam todos na cozinha ajudando ostensivamente a Sr  Smith, mas,
na verdade, contemplando Meggie. Quando compreendeu esse facto,
o padre Ralph entiu-se, ao mesmo tempo, agastado e aliviado. Afinal,
era no meio deles que ela teria, inevitavelmente, de escolher um marido.
Enoch Davies, com vinte e nove anos, era um <<gals negro>>, o que
queria dizer que tinha cabelos pretos e olhos muito escuros, um belo
homem; Liam O'Rourke, de vinte e seis, possua o cabelo ruivo e olhos
azuis, tal como seu irmo Rory, de vinte e cinco; mais velho do que
a irm, com trinta e dois anos, e parecidssimo com ela, Connor Carmi-

248

ehael era, de facto, muito bem-parecido, ainda que um pouco arrogante;
mas a flor do grupo, na opinio do padre Ralph, era Alastair, o neto
do velho Angus, o mais prximo de Meggie na idade, pois mal com-
pletara vinte e quatro anos; moo agradvel, tinha os belos olhos azuis
escoceses do av e o cabelo j grisalho, trao de famflia. aEla que se
apaixone por um deles, case com ele e tenha os filhos que tanto deseja.
Oh, meu Deus, se fizerdes isso por mim, suportarei alegremente a dor
de am-la, alegremente... N

 No havia flores sobte os caixes, e os vasos, em toda a volta
da capela, estavam vazios. As flores que tinharm sobrevivido ao terrivel
calor de duas noites atrs haviam sucumbido  chuva, e jaziam pros-
tradas na lama como borboletas estragadas. Nem uma haste de cava-
linha, nem uma rosa tempor. E todos estavam cansados, to cansados... !
Os que tinham eavalgado os longos quilmetros no lodo para mostrar
o seu apreo a Paddy, os que haviam trazido os corpos, as que tinham
moure ado como escravas para cozinhar e limpat, todos se sentiam exaus-
tos. O padre Ralph estava to fatigado, que cuidava mover-se num
sonho, e os olhos fugiam-lhe do rosto angustiado e descsperanado de
Fee, da expresso de tristeza e clera de Meggie, do sofrimento colec-
tivo de Bob, Jack e Hughie...
 No fez o panegrico dos mortos; Martin King, em nome dos que
se achavam ali reunidos, falou pouco, mas comoveu todos, e o padre
passou sem demora para a naissa de rquiem. Trougera, natur.almente,
o seu clice, os seus sacramentos e uma estola, pois nenhum padte saa
sem eles quando ia oferecer conforto ou ajuda, mas no viera prevenido
com vestimentas adequadas. O velho Angus, porm, passara pela casa
paroquial de Gilly, a caminho de Drogheda, e carregara os paramentos
lutuosos da missa dos mortos num impermevel amarrado  sela.
De modo que ele estava convenientemente trajado, enquanto a chuva
silvava de encontro s vidraas das janelas e tamborilava sobre o telhado
de ferro, dois andares mais acima.
 Depois saram para a chuva impiedosa e atravessaram o relvado
tostado e causticado pelo calor, em direco ao cemiteriozinho com
grades brancas. Desta feita havia gente disposta a carregar aos ombros
os caixes singelos e rectangulares, embora escotregassem e deslizassem
no batro, enquanto procuravam enxergar o caminho atravs da chuva
que Ihes batia nos olhos. E os sininhos, no tmulo do cozinheiro chins,
tilintavam, montonos: Hee Sing, Hee Sing, Hee Sing. Concluida a ceri-
mnia, os acompanhantes partiram nos seus cavalos, as costas atqueadas

249

debaixo dos impermeveis, alguns pensando, acabrunhados, na perspec-
tiva da runa, outros agradecendo a Deus por haverem escapado  morte
e ao fogo. Quanto ao padre Ralph, reuniu as poucas coisas que trou-
xera, sabendo que precisava de partir antes que no pudesse faz-lo.
 Foi ter com Fee onde ela estava, sentada  sua escrivaninha, com
os olhos cravados nas mos.
- Fee, sente-se bem? - perguntou, sentando-se donde pudesse
v-la.
 Ela voltou-se para ele, to calma e reprimida na sua dor que Ralph
ficou com medo, e fechou os olhos.
- Sim, padre, estou bem. Tenho os livros para escriturar e cinco
filhos que me sobraram... seis, incluindo Frank, embora ache que no
podemos contar com ele, no  verdade? A propsito, nunca poderei
dizer-lhe quanto Ihe estou grata por isso. : um consolo to grande
para mim saber que a sua gente vela por ele, tornando-lhe a vida um
pouco mais fcil. Oh, se eu pudesse v-lo ao menos uma vez!
 Ela era como um farol, pensou Ralph; despedia lampejos de dor
todas as vezes que o seu esprito chegava erto desse nvel de emoo
grande de mais para ser contido. Um claro imenso e, depois, um longo
perodo de escurido.
- Fee, quero que pense numa coisa.
- Sim, que ? - Ela escurecera outra vez.

- Est a prestar ateno? - perguntou Ralph, severo, preoeupado,
e ainda mais assustado do que antes.
 Por um longo momento cuidou que Fee se houvesse recolhido
to dentro de si mesma que nem a severidade da voz dele a penetrara,
mas o farol tornou a luzir e os la'bios separaram-se.
- Meu pobre Paddy! Meu pobre Stuart! Meu pobre Frank!

- carpiu-se ela. Mas logo readquiriu, mais uma vez, o seu autocontrole,
como se estivesse decidida a prolongar os perodos de escurido at
que a luz no voltasse a brilhar na sua vida.
 Os seus olhos erraram pela sala sem parecer reconhec-lo.
- Sim; padre, estou a prestar ateno - disse por fim.
- Fee, que me diz da sua filha? Lembra-se alguma vez de qL,e
tem uma filha?
 Os olhos cinzentos ergueram-se para o rosto do padre e nele
pousaram, quase penalizados.
 =E qual  a mulher que se lembra disso? Que  uma filha?
Apenas uma lembrana do sofrimento, uma verso mais jovem de ns
 mesmas, que far todas as coisas que ns fizemos, que chorar as

250

PASSAROS FERIDOS

mesmas lgrimas. No, padre. Procuro esquecer que tenho uma filha...
e, quando penso nela,  como se fosse um dos meus filhos. l dos filhos
que a me se lembra.
- Voc chora muitas vezes, Fee? S vi uma vez as suas lgrmas.
- E nunca mais as ver. Acabei com as lgrimas para sempre.-
O corpo todo tremia-lhe. - Sabe uma coisa, padre? Dois dias atrs
descobri quanto amava Paddy, mas foi como tudo na minha vida...
tarde de mais. Tarde de mais para ele, tarde de mais para mim.
Se soubesse quanto desejei ter oportunidade de tom-lo nos braos,
dizer-lhe que o amava! Oh, meu Deus, espero que nenhum ser humano
venha a sentir a minha dor!
 O padre afastou os olhos daquele rosto subitamente devastado,
para lhe dar tempo de recuperar a calma, e para dar tempo a si mesmo
de enfrentar com compreenso o enigma que era Fee. E disse:
- Ningum poder sentir a sua dor.
 Um canto da boca ergueu-se-lhe num sorriso severo.
- De facto, isso  uma consolao, no ? Pode no ser nvejvel,
mas a minha dor  minha.
- Promete-me uma coisa, Fee?
- O que o senhor quiser.
- Olhe por Meggie, no a esquea. Faa-a ir aos bailes da vizi-
nhana, deixe-a conhecer alguns rapazes, anime-a a pensar em casamento
e num lar. Todos os rapazes olhavam h4je para ela. D-lhe a oportuni-
 dade de encontr-los de novo, porm em circunstncias mais felizes
 do que estas.
- Farei o que o senhor quiser, padre.
 Suspirando, ele deixou-a entregue  contemplao das mos alvas
 e finas.
 Meggie caminhou com ele at s cocheiras, onde o cavalo baio
 do cobrador se fartara de feno e de farelo, sentindo-se, durante dois dias,
 numa espci-e de paraso equino. Atirou a sela maltratada sobre ele
 e inclinou-se para apertar a sobrecilha, enquanto Meggie, encostada
 a um fardo de palha, o observava.
- Padre, veja o que achei - disse quando ele terminou e endi-
 reitou o corpo. Estendeu a mo, em que se via uma rosa plida, quase
 cinzenta. - L a nica. Encontrei-a numa touceira, debaixo das rvores
  beira do tanque, nas traseiras. Com certeza no recebeu o calor do
 incndio e ficou protegida da chuva. Por isso a colhi para si, para que
 se lembre de mim.

 251

PASSAftOS FERIDOS

 Com mo pouco firme, ele pegou na flor semidesabrochada que
a rapariga lhe estendia, e ficou a olhar para ela.
- Meggie, no preciso de nenhuma recordao tua, nem agora,
nem nunca. I,evo-te dentro de mim, e sabes disso. Eu no poderia,
mesmo que o quisesse, escond-lo de ti.
- Mas, s vezes, h realidade numa lembrana - insistiu a jovem-
Pode pegar-lhe, olhar para ela e recordar-se, ao v-la, de todas as coisas
que, de outro modo, esqueceria. Faa o favor de aceit-la, padre.
- O meu nome  Ralph - disse este.
 Abriu a caixinha dos sacramentos e tirou o seu grande missal
ricamente encadernado em madreprola, presente do seu falecido pai
no dia em que ele se ordenara, treze anos antes. As pginas abriram-se
num trecho marcado com uma grossa fita branea; virou vrias outras,
colocou a rosa entre elas e fechou o livro sobre a flor.
- Queres uma lembrana minha, Meggie, no  isso?

- .
- Pois no te darei nenhuma. Quero que me esqueas, quero que
procures no teu prprio mundo um homem correcto e bom, que cases
com ele e tenhas os filhos que tanto desejas. Nasceste para ser me.
No deves agarrar-te a mim, no est certo. Nunca poderei deixar
a Igreja, e serei agora completamente sincero contigo, para o teu pr-
prio bem. No quero deixar a Igreja, porque no te amo como um
marido te amar, entendes? Esquece-me, Meggie!
- No me d um beijo de despedida?
 Por nica resposta ele montou no baio do cobrador e f-lo andar
at  porta antes de enfiar na cabea o velho chapu de feltro do dono
do cavalo. Os seus olhos azuis cintilaram por um momento, depois
o animal saiu para a chuva e seguiu, relutante, pelo caminho que con-
duzia a'Gilly. Ela no tentou segui-lo, mas permaneceu na escurido
da cocheira hmida, aspirando os odores do esterco e do feno; aquilo
recordava-lhe o celeiro da Nova Zelndia e Frank.
 Trinta h ras depois o padre Ralph entrou na cmara do legado
papal, atravessou a sala para beijar o anel do seu superior e deixou-se
cair, exausto, numa cadeira. E s quando sentiu os belos olhos
omniscientes fitos nele compreendeu que devia ter um aspecto muito
estranho e por que razo tanta gente o fitara, espantada, desde que
descera do comboio na Central. Sem se lembrar da mala que dera ao
padre atty Thomas para guardar na casa paroquial, tomara, dois minu-
tos antes de partir, o comboio correio nocturno e viajara novecentos
e sessenta quilmetros num vago frio, vestindo apenas camisa, calas

252

 e botas, molhado como um pinto, sem sentir o frio. Por isso mesmo
 examinou-se com um sorriso pesaroso e depois olhou para o arcebispo.
- Peo-lhe que me desculpe, Excelncia. Aconteceu tanta coisa
 que nem pensei na figura que devia estar a fazer.
- No se desculpe, Ralph. - Ao contrrio do seu predecessor,
 ele prefera chamar o secretrio pelo primeiro nome. - Voc parece-me
 muito romntico e janota. Mas um pouco secular de mais, no concorda
 comigo?
- Positivamente secular, de qualquer maneira. Quanto ao romn-
 tico e janota,  que Vossa Excelncia no est acostumado a ver os trajes
 que se usam em Gillanbone.
- Meu caro Ralph, se cismasse um dia em vestir hbitos fnebres
 de penitncia, ainda assim pareceria romntico e janota! Mas, de qual-
 quer maneira, as roupas de montar ficam-lhe muito bem. Quase to
 bem como a sotana e, no desperdice energias rentando convencer-me
 de que no sabe que esta lhe assenta melhor que o fato preto dos padres.
 Voc tem um jeito peculiar e muito atraente de mover-se e, alm disso,
 conservou a linha; creio, alis, que sempre a conservar. Acho tambm
 que, quando for chamado de volta a Roma, lev-lo-ei comigo. Ser muito
 divertido para mim observar o seu efeito sobre os nossos prelados
 italianos, gordos e atarracados. O belo gato insinuante entre os pombos
 rolios e assustados.
 Roma! O padre Ralph endireitou-se na cadeira.
- Foi muito ruim, meu Raiph? - continuou o arcebispo,
 passando a mo leitosa e cheia de anis pelo dorso sedoso da sua
 ronronante gata abissnia.
- Terrvel, Excelncia.
- Voc tem uma grande ternura por essa gente.
-  verdade, Excelncia.
- E gosta igualmente de todos, ou mais de alguns do que doutros?
 O padre Ralph era, pelo menos, to sagaz como o seu superior
 e j o conhecia sufcientemente para saber como funcionava a sua mente.
 Por isso aparou a pergunta insinuante com ilusria franqueza, estra-
 tagema que, segundo descobrira, aquietava de pronto as suspeitas de
 Sua Excelncia. Jamais ocorrera quela mente subtil e tortuosa que uma
 demonstrao exterior de franqueza pudesse ser mais mentirosa do que
 qualquer evaso.
- Estimo todos, mas, como diz Vossa Excelncia, gosto mais de
. alguns do que doutros.  da jovem Meggie que mais gosto. Sempre

253

a considerei sob a minha especial responsabilidade, porque a famlia
est to obcecada pelos rapazes que se esquece de que ela existe.
- Que idade tem essa Meggie?
- No estou bem certo, mas calculo uns vinte anos, mais ou menos.
Entretanto, fiz a me prometer-me que erguer o rosto dos seus livros
de contabilidade e que a far ir a biles e conhecer rapazes. Ela acabar
por desperdiar toda a sua vida em Drogheda, e ser uma pena.
 Ele no dssera mais que a verdade; o nariz inefavelmente sensvel
do arcebispo farejou-o imediatamente. Se bem que fosse apenas trs
anos mais velho que o secretrio, a sua carreira dentro da Igreja no
sofrera os percalos que Ralph encontrara e ele sentia-se, de muitas
maneiras, incomensuravelmente mais velho do que Ralph jamais se
sentiria; o Vaticano extraa a essncia vital das pessoas expostas muito
cedo  sua influncia, e Ralph possua essa essncia vital em abundncia.
 Relaxando um pouco a vigilncia, continuou a observar o secre-
ttio e voltou ao seu jogo interessante de descobrir precsamente o que
fazia palpitar o padre Ralph de Bricassart. A princpio tivera a certeza
de que seria uma fraqueza da carne, se no numa direco, pelo menos
noutra. Aquela extraordinria beleza fsica devia ter feito dele o alvo
de muitos desejos, incompatveis com a preservao da inocncia ou
da cincia. E, com o p ssar do tempo, descobriu que acertara pela
metade; a cincia l estava, sem dvida, mas principou a convencer-se
de que l estava tambm uma autntica inocncia. Assim, fosse o que
fosse que fazia o padre Ralph arder, no era a carne. Ele atirara
o padre para o meio de habilidosssimos homossexuais, irresistveis
para outro homossexual, sem resultado. Observara-o com as mulheres
mais belas da cidade, sem resultado. Nem um bruxuleio de interesse
ou de desejo, nem mesmo quando no poderia saber que estava a ser
observado, j que o arcebispo no se encarregava sempre da prpria
vigilncia, e, quando empregava sabujos, no o fazia atravs de canais
 secretariais.
 Comeara a pensar que as fraquezas do padre Ralph eram o orgu-
 lho de ser padre e a ambio, facetas ambas que compreendia, pois
 tambm as possua. A Igreja tinha lugares para homens ambiciosos,
 como todas as grandes instituies capazes de se perpetuarem indefini-
 damente. Dizia-se  boca pequena que o padre Ralph lesara os Cleary,
 que ele dizia amar tanto, ficando com a hrana que por direito lhes
 cabia. Se isso fosse verdade, no se devia perd-lo de vista. E como
 haviam cintilado aqueles maravilhosos olhos azuis  simples meno
de Roma! Talvez j estivesse na hora de tentar outra jogada. Mov u

preguiosamente um peo no xadrez da conversa, mas os olhos debaixo
das plpebras descidas estavam muito alerta.
- Recebi notcias do Vaticano enquanto esteve fora, Ralph - disse,
mudando um pouco a posio da gata. - Minha Sbeba, s egosta;
adormeceste as minhas pernas.
- Oh? - O padre Ralph afundava-se cada vez mais na poltrona,
e os seus olhos encontravam uma dificuldade cada vez maior em se
manter abertos.
- Sim, poder ir para  cama, mas no sem primeiro ouvir as
minhas notcias. H pouco tempo enviei uma comunicao pessoal
e privada ao Santo Padre, e hoje chegou-me uma resposta do meu
amgo cardeal Monteverdi... s vezes fico a imaginar se no ser descen-
dente do msico da Renascena. Porque ser que nunca me lembro
de perguntat-lhe quando o vejo? Oh, Sbeba, precisas mesmo de enterrar
as tuas unhas em mim quando ests feliz?
- Estou a ouvir, Excelncia, ainda no adormeci - disse o padre
Ralph, sorrindo. - No admira que goste tanto de gatos. Vossa Exce-
lncia  tambm um gato, que brinca com a sua presa para divertir-
-se. - Estalou os dedos. - Anda c, Sbeba, vem para o meu eolo!
Ele  mau.
 A gata saltou de pronto do regao de prpura, cruzou o tapete
e pulou com delicadeza para os joelhos do padre, onde ficou a abanar
o rabo e a cheirar, extasiada, os estranhos odores de cavalo e barro.
Os olhos azuis do padre Ralph sorriram para os olhos castanhos do
 arcebispo, ambos semicerrados, ambos alertados.
- Como faz voc isso? - perguntou o arcebispo. - Um gato
 nunca vai com ningum, mas Sheba vai consigo como se lhe desse
 caviar. Animal ingrato.
- Estou  espera, Excelncia.
- E ainda me castiga, tirando-me a gata. Est bem, ganhou,
 concedo. Alis, ser que j perdeu alguma vez? Pergunta interessante.
 Preciso dar-lhe os parabns, meu querido Ralph. Daqui a pouco usar
 a mitra e a capa de asperges, e ser saudado como Sua Excelncia,
 o Bispo de Bricassart.
 Isso escancarou-lhe os olhos, notou o arcebispo com alegria. Por
 uma vez ao menos o padre Ralph no tentou dissimular nem esconder
 os seus vetdadeiros sentimentos. Pelo contrrio, at resplandeceu.

254 255

IV

1933-1938 - LUKE

10

 Era pasmosa a rapidez com que a terra recuperava; numa semana,
 pequenos rebentos verdes de capim j saam do charco viscoso e,
 dali a dois meses, as folhas comearam a despontar nas rvores
 torradas. Se as pessoas eram rijas e recobravam depressa a razo,
 ra porque a terra no Ihes dava ensejo de ser de outra maneira; os que
 tinham o corao frouxo ou careciam de resistncia fsica no ficavam
 por muito tempo no Grande Noroeste. No entanto, s dali a anos
 desapareceriam as cicatrizes. Muitas camadas de crtex teriam de crescer
 e cair como farrapos para que os troncos das rvores voltassem a ser
 brancos, vermelhos ou cinzentos outra vez, e certa percentagem deles
 nunca se regeneraria, continuaria morta e escura. E, durante anos,
 esqueletos em desintegrao juncariam as plancies, depositando-se na
 esteira do tempo, pouco a pouco cobertos pela poeira e pelos cascos
 em marcha. E atravessando Drogheda, rumo a oeste, permaneceram os
 sulcos ntidos e fundos traados na lama pelos cantos de um fretro
 provisrio, apontados pelos viajantes que conheciam a histria aos que
 no a conheciam, at que a narrativa se incorporou no folclore das
 plancies de solo preto.
 Drogheda perdeu talvez uma quinta parte da sua rea no incndio
 vinte e cinco mil carneiros, simples bagatela para uma fazenda em
 ue se haviam contado, nos ltimos anos bons, perto de cento e vinte
 cinco mil. No adiantava imputat  malevolncia do destino nem  clera
 de Deus, ou ao que quer que os interessados quisessem atribui-lo,
 _ um desastre natural. A nica coisa que se podia fazer era virar a pgina
 e comear de novo. Em caso algum fora aquela a primeira vez e em
 nenhum caso se presumia que seria a ltima.

259

 Mas custava ver os jardins de Drogheda nus e eseuros na Primavera.
Numa seca eles sobreviviam graas aos tanques de gua construdos
por Michael Carson, mas, depos de um incndio, nada sobrevivia.
Nem as glicnias floresceram; na altura do incndio estavam justamente
a formar-se os tenros cachos de botes, que mureharam. Eneresparam-se
as rosas, morreram os amores-perfeitos, os goivos transformaram-se em
palha de cor spia, os brincos-de-princesa mirraram de tal modo que j
no tinham possibilidade de recuperao, os jacintos morreram sufocados,
as latadas de ervilhas-de-cheiro secaram e perderam o perfume. Mas como
a gua tirada dos tanques durante a catstrofe fora substituda pelas
chuvas pesadas que se seguiram ao fogo, toda a gente em Drogheda
sacrificou os seus tempos livres para ajudar  velho Tom a fazer
ressuscitar os jardns.
 Bob decidiu continuar a poltica de Paddy de contratar gente nova
para trabalhar em Drogheda, e admitiu mais trs pastores; a poltica
de Mary Carson fora exeluir dos seus livros quem no pertencesse
 famlia Cleary, preferindo contratar Irabalhadores eventuais nas pocas
de reunio dos carneiros, pario e tosquia, mas Paddy achava que
os homens trabalhavam melhor quando sabiam que tinham emprego
permanente e, a longo prazo, a diferena no era muito grande.
De qualquer maneira, porm, a maioria dos pastores sofria cronicamente
de ccegas nos ps e nunca parava muito tempo no mesmo lugar.

 As novas casas, erguidas a maior distncia do crrego, eram
ocupadas por homens casados; o velho Tom obtivera um chalezinho
novo de trs divises e ria-se com jbilo de propriettio todas as vezes
yue i entrava. Meggie continuava a tomar conta de alguns pastos
 internos, e a sua me, dos livros.
 Fee assumra a tarefa de comunicar com o bispo Ralph e,
 assim sendo, ela no transmitia qualquer informao que no se referisse
 directamente  gerncia da fazenda. Meggie ansiava por arrebatar-lhe
 as cartas, l-las com avidez, mas Fee no lhe dava azo de fazer isso,
 fechando-as numa caixa de ao assim que Ihes digeria o contedo.
 Com a morte de Paddy e Stu, no se podia chegar a Fee. Quanto
 a Meggie, assim que o bispo Ralph se fora, a me esquecera-se total-
 mente da promessa que fizera a este. Meggie respondia aos convites
 para bailes e festas com polidas negativas e, embora se apercebesse dsso,
 Fee nunca a censurou nem a aconselhou a aceitar os convites.
 Liam O'Rourke aproveitava todas as oportunidades para passar por
 Drogheda; Enoch Davies telefonava constantemente, e o mesmo faziam
 Connor Carmichael e Alastair Mac Queen. Meggie, porm, era lacnica

PASSAROSFERIDOS

e distrada com todos eles, a ponto de chegarem  coneluso de que
no conseguiriam interess-la.
 O Vero foi muito hmido, mas as cheias dos rios no duravam
o tempo suficiente para provocar inundaes; s o solo se mantinha
perpetuamente barrento, e o Barwon-Darling percorria os seus mil
e seiscentos quilmetros fundo, largo e forte. Quando o Inverno chegou,
as chuvas espordicas continuaram; os lenis voadores eram feitos
agora de gua e no de poeira. Nessas circunstncias, a mareha dos que
no tinham abrigo ao longo do caminho, provocada pela Depresso,
foi diminuindo aos poucos, pois era difcil percort r as plancies de solo
negto em poca de chuva e, com o frio acrescentado  humidade,
as pneumonias grassaram furiosas entre os que no encontravam um
abrigo quente para dormir.
 Preocupado, Bob comeou a falar em podrido dos cascos dos
carneiros se aquilo continuasse; os merinos no aguentariam o excesso
de humidade do solo sem ficar com os cascos doentes. A tosquia fora
quase impossvel, pois os tosquiadores negavam-se a tocar em l
molhada, e, a no ser que a lama secasse antes da pario, muitos filhotes
morreriam na terra empapada e fria.
 O telefone tocou: dois toques longos e um curto. Era uma chamada
para Drogheda; Fee atendeu e voltou-se.
- Bob, telefone para ti.
- Al, Jimmy, aqui  Bob... Sim,  isso mesmo... Oh, muito bem!
As referncias esto todas em ordem?. . Certo, diga-lhe que venha
falat comigo... Se for to bom como afirma, pode dizer-lhe que,
provavelmente, conseguiu o emprego, mas ainda assim fao questo
de v-lo pessoalmente; no gosto de comprar nabos em sacos e no
me fio em referncias... Certo, obrigado.
 Bob sentou-se outra vez.
- Vem a um novo pastor, um bom sujeito, de acordo com Jimmy.
Trabalhou nas plancies de West Queensland, perto de Longreach,
e em CharIeville. Foi tambm vaqueiro. Boas referncias. Monta tudo
o que tem rabo e quatro patas e costumava amansar cavalos. Foi tosquia-
dor antes disso, e parece que de primeira, diz Jimmy, mais de duas
centenas por dia. Isso  que me deixa meio desconfiado. Por que
razo trabalharia um tosquiador assim to bom pelo ordenado de um
pastor? No  muito frequente trocarem a tesoura pela sela. Mas tambm
pode dar-nos uma boa ajuda nos pastos, no ?
 Com o passar dos anos, o falar de Bob tornava-se cada vez mais
arrastado e o seu sotaque cada aez mais australiano, enquanto as suas

260 261

frases se iam encurtando cada vez mais. Ele estava perto dos trinta e,
para decepo de Meggie, no dava snais de gostar de nenhuma das
moas casadouras que encontrava nas poucas festas a que a decncia
o obrigava a comparecer. Primeiro, era tmido ao extremo e, segundo,
parecia totalmente concentrado na terra, preferindo am-la com exclusi-
vidade. Jack e Hughie estavam a ficar cada vez mais parecidos com ele;
na verdade, poderiam passar por trigmeos quando se sentavam juntos
num dos bancos duros de mrmore, a maior concesso ao conforto
domstico que eram capazes de fazer a si mesmos. Realmente preferiam
acampar fora, nos pastos e, quando dormiam em casa, estendiam-se no
cho dos seus quartos, com medo de que as camas os amolecessem.
O sol, o vento e o ar seco haviam-lhes alterado a cor da pele clara
e sardenta, convertendo-a numa espcie de mogno sarapintado, em que
os olhos azuis brilhavam p dos e tranquilos, rodeados de rugas fundas,
que falavam de olhares dirigidos a grandes distncias e ao capim bege-
-prateado. Era quase impossvel adivinhar idades, ou descobrir quem
era o mais velho e o mais novo. Todos tinham o nariz tomano e o rosto
bondoso e feio de Paddy, embora os seus corpos fossem melhores que
o do pai, que acabara por ficar arqueado e com os braos mais compridos
depois dos muitos anos de tosqua. Em vez disso, possuam a beleza
sbria e fcil dos cavaleiros. Entretanto, no suspiravam por mulheres,
nem por conforto, nem por prazer.
- Esse empregado novo  casado? - perguntou Fee, traando
linhas ntidas com uma rgua e uma pena molhada em tinta vermelha.

- No sei, no perg> tei. Saberei ainanh quando ele chegar.

- E como vir at aqui?
- Jimmy vai traz-lo de carro; agora preciso de ir ver aqueles
velhos carneiros capados em Tankstand.
- Esperemos que fique algum tempo. Se no for casado, pr-se-
 a andar daqui dentro de algumas semanas. Gente miservel esses
 pastorzs - disse Fee.
 Jims e Patsy, internos em Riverview, juravam que no flcariam
 na escola nem um uto a mais depois de completar catorze anos
 de idade, altura em que poderiam deix-la legalmente. Suspiravam pelo
 dia em que estariam l fora, nos pastos, em companhia de Bob, Jack
 e Hughie, quando Drogheda fosse novamente administrada s pela
 f m,lia e os de fora pudessem chegar e partir quando quisessem,
 setn que sso tivesse a menor importncia. Se bem que partilhassem
 da paixo d familia pela leitura, isso no aumentava para eles os
 atractivos de Riverview; um livro poderia ser transportado num alforje

262

ou num bolso do colete e lido com muito mais prazer  sombra de
uma wilga, ao meio-dia, do que na sala de um colgio de jesutas.
O internato fora para eles uma dura transio. As salas de aulas com
os seus janeles, os vastos e verdes campos de desporto, a riqueza dos
jardins e instalaes nada significavam para eles, como nada significava
Sidnei, com os seus museus, as suas salas de concertos e as suas galerias
de arte. Eles a c a m a r a d a v a m com os filhos de outros fazendeiros
e passavam os momentos de cio suspirando pela hora de voltar ao lar
ou vangloriando-se do tamanho e do esplendor de Drogheda diante de
ouvidos assombrados mas crentes, pois toda a gente a oeste de Burren
Junction j ouvira falar na poderosa Drogheda.
 Vrias semanas se passaram antes que Meggie visse o novo pastor.
O nome dele fora devidamente registado nos livros, Luke O'Neill,
e j era muito mais falado na casa grande do que se discutiam de ordi-
nrio os nomes dos pastores. Primeiro, porque se recusara a dormir
na barraca dos novatos, aboletando-se na ltima casa vazia ao p do
crrego. Segundo, porque se apresentara  Sr Smith e conquistara
as suas boas graas, embora ela no costumasse interessar-se por pastores.
Assim, a curiosidade de Meggie despertou ainda muito antes de o conhe-
cer pessoalmente.
 Como ela costumava recolher a gua castanha e o cavalo preto
s cocheiras, em lugar de deix-las nos cercados, e quase sempre saa
para o trabalho mais tarde do que os homens, passava, s vezes,
longos perodos de tempo sem encontrar nenhum dos empregados.
Mas eonheeeu, afinal, Luke O Neill, num fim de tarde, quando o sol
de Vero rutilava acma das rvores e langas sombras se esgueiravam
na direco do manso olvido da noite. Ela regressava de Borehead
e rumava para o vau a fim de atravessar o crrego, e ele vinha do
sudeste e tambm se encaminhava para o vau.
 O sol batia nos olhos dele, de modo que ela viu-o primeiro.
Luke O'Neill montava um grande baio manhoso, de crina, cauda e extre-
midades pretas; ela conhecia o animal porque lhe competia organizar
a rotao dos cavalos de lida, e j perguntara a si mesma por que razo
o baio, ultimamente, no estava j na berlinda. Nenhum dos homens
gostava dele e s o montava se no pudesse evit-lo. Aparentemente,
o novo pastor no ligava a isso, sinal evidente de que sabia montar,
pais o baio, alm de tentar sempre sacudir o cavaleiro, tinha a mania
de mord-lo, depois de ele cair.

 Era difcil calcular a altura de um homem a cavalo, pois os
pastores australianos usavam pequenas selas inglesas sem a patilh e o

263

aro dianteiro da sela norte-americana, e cavalgavam com os joelhos
dobrados e o corpo erecto. O homem parecia alto, mas, s vezes,
a altura estava toda no tronco, sendo as pernas desproporcionadamente
curtas, de modo que Meggie adiou o julgamento definitivo. Entretanto,
ao contrrio da maioria dos pastores, ele preferia uma camisa branca
e calas brancas s roupas cinzentas de flanela ou de sarja; meio citadino,
decidiu ela, divertida. Muito bom para ele, se no se incomodava com
a trabalheira de lavar e passar roupa.

- Bom dia! - cortejou ele, quando ambos convergiam na mesma
direco, tirando o velho e castigado chapu de feltro cinzento e recolo-
cando-o com galhardia na cabea, inclinado para trs.

 Dois rIsonhos olhos azuis oIharam para Meggie com admirao
no disfarada quando el-a chegou perto.
- Como no  a patroa, isso eu sei, h-de ser a filha - disse.
-Eu sou Luke O'Neill.
 Meggie murmurou qualquer coisa, mas no quis olhar de novo
para ele, sentindo-se to confusa e irritada que no consegua pensar
num assunto apropriado de conversao. No era justo! Como se atrevia
outra pessoa qualquer a ter os olhos e o rosto do padre Ralph! No pelo
modo como a encarava: a alegria que brilhava no seu olhar era coisa
sua e nele no havia amor; e no entanto, desde o primeiro momento
em que vira o padre Ralph ajoelhado na poeira da estao de Gilly,
Meggie distinguira o amor nos olhos dele. Fitar Ralph e no o ver!
Era uma pilhria cruel, um castigo.
 Sem conhecer os pensamentos da companheira, Luke ONeill
manteve o baio manhoso ao lado da reeatada gua de Meggie ao passarem,
esparrinhando gua, pelo riacho que ainda conia cozn mpeto depois
de tanta chuva. Ela era linda, sem dvida alguma! E que cabelo.
Os simples cabelos ruivos dos Cleary do sexo masculino transformavam-
-se noutra coisa naquela rapariga. Se ela olhasse para eima e lhe desse
uma oportunidade melhor de Ihe ver o rosto! Nesse momento ela olhou,
mas com um expresso que o fez juntar as sobrancelhas, perplexo;
no exactamente como se o odiasse, mas como se estivesse a tentar ver
alguma coisa e no o conseguisse, ou como se visse algo que preferia
no ter visto. Fosse o que fosse, aquilo parecia perturb-la. Luke no
estava acostumado a ser pesado numa balana feminina e achado
insuficiente. Preso naturalmente numa deliciosa armadilha de cabelos
de ouro e olhos doces, o seu interesse s serviu para alimentar o des-
prazer e o desapontamento dela, que ainda assim continuava a observ-lo,
 a boca cor-de-rosa entreaberta, um sedoso aljfar de suor acima do lbio

264

PSSAR SFERIDOS

 ,uperior e na testa, por causa do calor, as sobrancelhas de ouro averme-
 ?hado arqueadas num ricto de admirao interrogativa.
 Ele sorriu para m ostrar os grandes dentes brancos do padre Ralph;
 entretanto, no era o sorriso do padre Ralph.
- Sabe que se pareee muito com um bebezinho, todo cheio de ohs
 e de ahs!?
 Ela desviou a vista.
- Desculpe. Eu no pretendia fix-lo. Acontece que me lembrou
 algum, mais nada.
- Pode olhar o tempo que quiser.  melhor do que eu ver apenas
 o seu cocuruto, por mais bonito que seja. Quem foi que lhe fiz lembrar?
- Ningum importante. Mas  esquisito ver algum familiar e,
 ao mesmo tempo, terrivelmente estranho.
- Como  o seu primeiro nome, Senhorita Cleary?

- Meggie.
- Meggie... No tem dignidade suficiente, no lhe assenta nada
 besn. O seu nome devia ser qualquer coisa como Belinda ou Madeline,
 mas se Meggie  o melhor que tem para oferecer, pacincia. E Meggie
 est no lugar de qu... de Margaret?
- No, de Meghann.
- Ah, est a melhorar! Chamar-lhe-ei Meghann.
- No, no chamar! - atalhou a rapariga. - Detesto esse nome.
 Mas ele apenas se riu.
- Est muito mal habituada a ter as coisas ao seu jeito, menina
 Me hann. Se eu quiser, posso at chamar-lhe Eustacia Sophronia
 Augusta, sabe?
 Entretanto tinham chegado aos cercados; Luke apeou-se do baio,
 desferindo um murro na cabea que tentava mord-lo e sujeitando-a,
 e ali fieou, obviamente  espera de que Meggie lhe oferecesse as mos
 para que ele a ajudasse a desmontar. Mas ela tocou na gua castanha
 com os calcanhares e guiou-a na direco das cocheiras.
- No vai pr a distinta senhora com os velhos cavalos vulga-
 res? - gritou ele ainda.
-  claro que no! - respondeu a jovem, sem se voltar.
 No, no era justo! At de p ele era parecido com o padre Ralph:
 a mesma altura, os mesmos ombros largos, as mesmas ancas estreitas
 e um pouco da mesma graa, embora utilizada de maneira diferente.
 O padre Ralph movia-se como um bailarino, Luke O'Neill como um
 atleta. O cabelo era igualmente preto, basto e crespo, os olhos igual-
 mente azuis, o nariz igualmente fino e recto, a boca igualmente bem

265

PASSAROS FERIDOS

talhada. E, no entanto, ele era to parecido com o padre Ralph
como... como um eucalipto branco, alto, plido e esplndido era
parecido com um eucalipto azul, alto, plido e esplndido.

 Depois do ocasional encontro, Meggie comeou a prestar ateno
ao que se dizia a respeito de Luke O'Neill. Bob e os rapazes estavam
satisfeitos com o seu trabalho e pareciam dar-se bem com ele aparente-
mente, o homem no tinha um nico osso preguioso em todo o corpo,
no dizer de Bob. A prpria Fee, uma noite, trouxe-lhe o nome  conver-
sao, obsetvando que era um belo tipo.
- Ele recorda-lhe algum? - perguntou Meggie com displicncia,
deitada de bruos no tapete, a ler um livro.
 Fee pensou na pergunta por um momento.

- Acho que  um pouco parecido com o padze de Bricassart.
A mesma constituio, o mesmo tom de pele. Mas no  uma seme-
lhana fora do comum; como homens, so muito diferentes.
 Logo, porm, mudou de assunto:

- Meggie, eu gostaria de gue te sentasses numa cadeira, como uma
 senhora, para ler! S )>orque ests de calas de montar no deves
 esquecer completamente o recato.
- Ora! - disse Meggie. - Como se algum reparasse!
 E assim continuaram as coisas. Havia uma semelhana, mas os
 homens, atrs dos rostos, eram to diferentes que s Meggie se atormen-
 tava com isso, pos estava apaixonada por um e doa-se de achar o outro
 atraente. Descobriu que ele, na cozinha, era o ai-jesus de todas, e tambm
 descobriu porque podia dar-se ao luxo de entrar nos pastos de camisa
 e calas brancas; a Sr  Smith lavava-as e passava-as a ferro, sucumbida
ao seu encanto.
- Que belo pedao de irlands! - suspirou Minnie, exttica.

- Ele  australiano - disse Meggie, para provoc-la.
- Nascido aqui, talvez, menina Meggie, mas com um nome como
 O'Neill  to irlands como os porcos de Paddy, sem querer faltar
 ao respeito ao seu santo pai, que Deus tenha em sua glria. Com aquele
 cabelo e aqueles olhos azuis, a menina ainda tem a coragem de dizer
 que o Senhor Luke no  irlands? Nos velhos tempos, os O'IV'eill
 eram os reis da Irlanda.
- Pensei que fossem os O'Connors - voltou Meggie, malciosa.
 Os olhinhos redondos de Minnie faiscaram.
- Que importa isso, menna Meggie? Era um pas muto grande!
- Pois sim! Garanto que no era maior do que Drogheda!
 E, seja como for, O'Neill  nome de orangista; voc no me cngana

266

- Eu sei que , mas  tambm um grande nome irlands, que
existia muito antes de algum pensar em orangistas. l um nome dos
?ados de Ulster, de modo que  lgico que houvesse orangistas entre eles
no  verdade? Mas existia tambm o O'Neill de Clandeboy e o O'Neill
Morback, menina Meggie.
 Meggie desistiu da batalha; havia muito tempo que Minnie perdera
as tendncias fenianas militantes que poderia ter possudo outrora,
e j era capaz de pronunciar a palavra <<Orange>> sem cair vtima
de um ataque.
 Cerca de uma semana depois, voltou a encontrar-se com Luke
O'l Teill,  beira do regato. Ela desconfiou de que ele estivera ali  sua
espera, mas no sabia o que fazer se isso fosse verdade.
- Boa tarde, Meghann.
- Boa tarde - respondeu a jovem, olhando com firmeza por entre
as orelhas da gua castanha.
- H baile no barraco de tosquia de Braich y Pwll, no sbado
que vem,  noite. Quer ir comigo?
- Muito obrigado pelo convite, mas eu no sei danar.
- Eu ensino-a enquanto o demnio esfrega um olho, de modo
que isso no  obstculo. E j que vou levar a irm do patro, acha que
Bob me empresta o velho Rolls, se no quiser emprestar-me o novo?
- Eu disse que no iria - repetiu Meggie, cerrando os dentes.
- Meghann afirmou que no sabia danar, e eu respondi que
 a ensinaria. No disse que no iria se soubesse danar, por sso presumi
 que era esse o obstculo, no eu. Vai desdizer-se?
 Exasperada, Meggie fitou em Luke dois olhos fuzilantes, mas ele
 limitou-se a rir.
-  uma garota muito mimada, menina Meghann; j est na
 altura de ser um pouco eontrariada.
- Eu no sou mimada!
- Pois sim! Conte-me outra, que essa no pega! nica filha,
 com tantos irmos para correr atrs de si, com todas estas terras, com
 tanto dinheiro, uma casa como esta, cheia de criadas Eu sei que  tudo
 da Igreja Catlica, mas acontece que os Cleary tambm no ficaram
 a ver navios.
 Aquela era a grande diferena entre eles !, pensou Megge, triun-
 fante; a soluo fugia-lhe desde que o conhecera. O padre Ralph nunca
 se teria deixado levar por ornamentos exteriores, mas Luke no tinha
 a mesma sensibilidade; no possua antenas embutidas que Ihe disses-

267

P SBAROS FERIDOS

sem o que havia debaixo da superficie. Passava pela vida sem uma
ideia na cabea acetca da sua complexidade ou da sua dor.
 Estupefacto, Bob estendeu-lhe as chaves do Rolls novo sem um
murmrio; ele cravara os olhos em Luke por um momento, sem falar,
e depots sotriu.
- Nunca pensei que Meggie fosse a um baile, mas leve-a, Luke,
e felicidades! Garanto que ela vai gostar, coit da. No sai muito de
casa. Deviamos pensar em lev-la de vez em quando, mas nunca
o fazemos.
- Potque  que voc, Jack e Hughie no vm tambm? - per-
guntou Luke, que no parecia avesso a companhias.
 Bob sacudiu a cabea, horrorizado.
- No obrigado. No gostamos muito de danas.
 Meggie envergou o vestido rosa-cinza, pois no tinha mais nada
para usar; no Ihe ocorrera a ideia de utilizar algumas das libras acumu-
ladas, que o padre Ralph punha no banco ezn seu nome, para mandar
fazer vestidos para festas e bailes. At ento conseguira recusar os con-
vites, pois homens como Enoch Davies e Alastair Mac Queen eram
fceis de desanimar com um no firme, no tinham o descaramento
de Luke O'Neill.
 Contudo, ao olhar para a sua imagem reflectida no espelho, achou
que setia melhor ir a Gilly na semana seguinte, quando a me fizesse
a habitual viagem, a fim de visitar a velha Gert e encomendar-lhe alguns
vestidos novos.
 Na realidade, detestava usar aquele; se tivesse outro, ainda que
vagamente apropriado, trocaria de fato num segundo. Outros tempos,
outro homem de cabelo preto; o vestido estava to impregnado de
amor e sonhos, de lgrimas e solido, que vesti-lo para algum como
Luke O'Neill parecia-lhe uma profanao. Acostumata-se a esconder
o que sentia, a parecer sempre calma e exteriormente feliz. O domnio
de si mesma aescia em torno dela mais grosso do que a casca numa
rvore e, s vezes, durante a noite, lembrando-se da me, estremecia.

 Acabaria ela tambm assim, isolada de todos os sentimentos? Fora
 dess modo que tudo comeara para Fee no tempo em que havia o pai
 de Frank? E que faria Fee, que diria se soubesse que Meggie se intei-
 rara da verdade a respeito de Frank? Oh, a cena na casa paroquial!
 Pareci que fora ontem, o pai e o irmo de p, um diante do outro,
 e Ralph a segur-la com tanta fora que at a magoara. Depois tudo
 se ajustara aos respectivos lugares. Meggie crescera o suficiente para
 compreender que, para fazer bebs, era precso mais do que a princpio

268

julgara: uma espce de contacto fsico terminantemente proibido entre
pessoas que no fossem casadas. Que vergonha e humilhao deveria
ter sentido a pobre Fee por causa de Frankl No admirava que ela
fosse como era. Se isso lhe acontecesse, Meggie preferiria morrer. Nos
livros, s as moas de baixa condio, mais ordinrias, tinham filhos
fora do casamento; no entanto, a sua me no era ordinria, nunca
o poderia ter sido. Meggie desejou de todo o corao que Fee lhe falasse
acerca disso, ou que ela mesma tivesse a coragem de tocar no assunto.
Talvez pudesse ajudar. No entanto, Fee era o tipo de pessoa de que
ningum podia aproximar-se, muito menos ela, sua filha. Meggie sus-
pirou para si mesma diante do espelho, e esperou que nada parecido
lhe acontecesse algum dia.
 E, contudo, em ocasies como aquela, assim vestida, desejava sen-
tir, desejava que a emoo soprasse sobre ela como um vento quente
e forte. No queria afadigar-se como um automatozinho durante o resto
da vida; pretendia mudana, vitalidade, amor. Amor, um marido e filhos.
Que Ihe adiantava correr esfaimada atrs de um homem que nunca seria
seu? Ele no a desejava, nunca a desejaria. Dizia que a amava, mas
no como um marido, porque estava casado com a Igreja. Todos os
homens faziam o mesmo, isto , amariam mais uma coisa inanimada
do que uma mulher? No, seguramente pem todos. Os difceis, talvez,
os complexados, com os seus mares de dvidas, objeces e racionali-
dades. Mas devia haver outros mais simples, capazes de amat uma
mulher acima de todas as coisas. Homens como Luke O'Neill, por
exemplo.
- Acho que  a rapariga mais bonita que j vi - disse Luke ao
arrancar com o Rolls.
 Meggie no estava habituada a cumprimentos; dirigiu-lhe um
espantado olhar de vis, mas no disse nada.
- No  formidvel? - continuou Luke, aparentemente, sem se
impressionar com a falta de entusiasmo dela. -  s rodar uma chave.
earregar num boto no painel e o carro comea a funcionar, Nada de
manivelas, nada de rezar para que o burro pegue antes que nos can-
semos. Isto  que  vida, Meghann, no h dvida alguma.
- No me deixe sozinha, sim? - pediu a jovem.
-  claro que no! Voc vai comigo, no vai? Isso quer dizer
que ser minha a noite inteira, e no pretendo dar uma oportunidade
a quem quer que seja.
 uantos anos tem, Luke
- Trinta. E voc?

269

- Quase vinte e trs.
- Tantos? Parece um bel> .
- No sou um beb.
- Oh! E por acaso j esteve apai onada?

- Uma vez.
- S? Com vinte e trs anos? Misericrdia! Na sua idade eu j
me havia apaixonado e desapaixonado uma dzia de vezes.
- E  possvel que isso tambm me pudesse ter acontecido, ma
conheo muito pouca gente em Drogheda pela qual possa apaixonar-me.
Que me lembre, voc  o primeiro pastor que me dirigiu algo mais que
um tmido cumprimento.
- Bem, se voc no quer ir a bailes porque no sabe danar,
 como se estivesse de fora a olhar para dentro, no ? No se incomode,
daremos um jeito nisso num instante. Quando acabar a noite, j saber
danar e, daqui a algumas semanas, ser uma verdadeira campe.

- Olhou rapidamente para ela. - Mas no me diga que os rapazes das
outras fazendas nunca tentaram lev-la a um baile. Os pastores eu com-
preendo, pois voc est um pouco acima das suas aspiraes noxmais.
mas alguns dos petulantes criadores de carneiros devem ter-lhe arras-
tado a asa.
- Se estou um pouco acima dos pastores, porque me convidou.

- acudiu a rapariga, fugindo  pergunta.
- Porque sou o tipo mais teimoso do mundo. - Luke sorriu.

-Mas no mude de assunto. Deve haver alguns rapazes, nas redon-
dezas de Gilly, que j a convidaram.

- Alguns - admitiu Meggie. - Na verdade, porm, nunca quis ir.
Foi voc quem me empurrou.
- Ento esses tipos so mais tontos que uma eobra de estima-
o - disse Luke. - Conheo o que  bom assim que o vejo.
 Ela no estava muito certa de apreciar o modo como Luke se
exprimia, mas a dificuldade  que era um homem difcil de pr de lado.

 Todos iam aos bailes que se realizavam nos barraces de tosquia.
desde os filhos e filhas dos fazendeiros at aos pastores e esposas,
 quando as tinham, as criadas, as governantas e os citadinos de todas
 as idades e de ambos os sexos. Era, por exemplo, nessas ocasies que
 as professoras tinham oportunidade de confraternizar com os auxilia-
 res de gerentes das fazendas, com os rapazes do banco e com os ver-
 dadeiros sertanejos.
 No se observavam os requintes reservados para as reunies mais
 formais. O velho Mickey O'Brien vinha de Gilly tocar rabeca, e havia

290

PSSAROS FEftIDOS

sempre algum  mo para encarregar-se do acordeo ou da sanfona,
revezando-se com os seus acompanhantes, ao passo que o velho rabe-
quista, sentado num barril ou num fardo de l, tocava horas a fio, sem
descansar, enquanto a baba lhe escorria pelo lbio inferior, porque ele
no tinha pacincia para engoli-la; isso interferia com o seu ritmo.
 Contudo, no era a espcie de danas que Meggie vira na festa
de aniversrio de Mary Carson, mas sim danas enrgicas de roda:
jigas, polcas, quadrilhas, escocesas, mazurcas, em que apenas se tocava
de passagem as mos do parceiro ou se rodopiava vertiginosamente
entre braos toscos. No havia qualquer sentido de intimidade, de
enlevo. Todos pareciam encarar o processo, de um modo geral, como
simples dissipao de frustrao; as intrigas romnticas urdiam-se
melhor l fora, longe do barulho e do alvoroo.
 Meggie logo descobriu que o seu par, alto e bonito, lhe acarretava
a inveja de muita gente. Ele era o alvo de quase tantos olhares sedu-
tores ou lnguidos como os que o padre Ralph costumava atrair, e de
modo ainda mais espalhafatoso. Costumava atrair: como era terrvel
tet de pensar nele no mais remoto de todos os pretritos.
 Fiel  sua promessa, Luke s a deixou soznha o tempo que levou
para ir ao reservado dos cavalheiros. Enoch Davies e Liam O'Rourke
estavam l, vidos por tomar-lhe o lugar, mas ele no Ihes deu a menor
oportunidade, e a prpria Meggie parecia to aturdida que no com-
preendia que lhe era perfeitamente lcito aceitar convites de outros
homens, alm do seu companheiro, para danar. Embora ela no ouvisse
os comentrios, Luke ouviu-os, e riu-se em segredo. Que descaramento
o daquele tipo, um simples pastor, roubando-a debaixo dos seus nari-
zes! A desaprovao nada significava para Luke. Eles haviam tido
as suas oportunidades e, se no tinham sabido aproveit-las, pior.
 A ltima dana era uma valsa. Luke pegou na mo de Meggie
e envolveu-lhe a cintura com o brao, puxando-a para si. Era um exce-
lente danarino e, com surpresa, ela descobriu que no tinha realmente
nada que fazer alm de segui-lo aonde quer que ele a conduzisse. Produ-
2ia-lhe uma sensao extraordinria estar assim em contacto com um
homem, sentir-lhe os msculos do peito e das coxas, absorver-lhe o calor
do corpo. Os seus breves contactos com o pdre Ralph haviam sido
to intensos que ela no tivera tempo para perceber certas coisas, e pen-
sara sinceramente que o que sentia nos braos dele nunca mais aconte-
ceria com ningum. Se bem que aquilo fosse muito diferente, era
 citante; os batimentas do seu pulso haviam-se acelerado, e ela reconhe-
ceu que ele o percebera pela maneira como a fazia girar lnais depressa,

291

apertando-a ainda mais de encontro a si, encostando o rosto ao
cabelo dela.
 Enquanto o Rolls ronronava de volta para casa, sem dar impor-
tncia ao caminho esburacado e, s vezes, aos trechos sem caminho,
no falaram muito. Braich y Pwll ficava a cento e doze quilmetros
de Drogheda, atravs de pastos em que no se via qualquer habitao,
lar, ou indcio de presena humana. A srie de morros que atravessava
Drogheda no se elevava a mais de trinta metros de altura, mas l, nas
plancies de solo preto, chegar  crista desses morros era o mesmo que,
para um suo, escalar uma das montanhas dos Alpes. Luke parou
o carro, desceu c deu a volta para abrir a porta do lado de Meggie.
Ela apeou-se e ficou ao seu lado, tremendo: iria ele estragar tudo ten-
tando beij-la?
 Havia uma cerca de madeira inclinada e em runas que se desviava
para um lado e, segurando-lhe levemente o cotovelo para que ela
no tropeasse com aqueles sapatos, Luke ajudou-a a andar pelo solo
acidentado, pelos buracos de coelhos. Segurando-se  cerca com fora
e olhando para as plancies, ela emudeceu; primeiro, de terror; depois,
 medida que o pnico morria, pois ele no fazia meno de tocar-lhe,
de assombro.
 Quase to claramente como o faria o Sol, a luz air2a plida da
Lua iluminava vastas e majestosas extenses, onde a relva tremeluzia
e se encrespava qual suspiro agitado, prateada, branca e cinzenta.
As folhas das rvores lampe)avam de repente como pontas de fogo
quando o vento lhes virava o lado lustroso para cima, e grandes abis-
mos hiantes de sombras espalhavam-se uebaixo dos grupos de rvores,
to misteriosos como bocas do mundo subterrneo. L vantando a cabea,
ela tentou em vo contar as estrelas; delicadas como gotas de orvalho
sobre a teia girante de uma aranha, as pontas de alfinetes luziam,
sumiam-se, luziam, sumiam-se, num ritmo to eterno como Deus. ir-
-se-ia que estavam suspensas sobre ela como uma rede, to belas, to
absolutamente silenciosas, to vigilantes e perscrutadoras da alma como
olhos de insectos iluminados por um holofote, cegos de expresso, mas
infinitos quanto  capacidade de ver. Os nicos sons eram o vento
quente no capim, as rvores que sibilavam, o rudo do motor do Rolls,
 que esfriava, e um pssaro sonolento e prximo reclamando porque Ihe
 haviam perturbado o repouso; o nico cheiro era o aroma fragrante
 e indefinvel do serto.
 Luke voltou as costas para a noite, tirou do bolso a bolsa de
 tabaco e o livro de mortalhas e principiou a enrolar um cigarro.

- Nasceu por aqui, Meghann? - perguntou, sfregando pachor-
 rentamente os pedaos de tabaco desfiado na palma da mo.
- No, nasci na Nova Zelndia. Viemos para Drogheda h
 treze anos.
 Ele deixou cair as pedaos de tabaco na folha de papel, enrolou-a
 com percia entre o polegar e o indicador, lambeu-lhe as bordas,
 fechou-a, riscou um fsforo e acendeu-o.
- Ento, voc hoje divertiu-se ou no?

- Oh, sim!
- Eu gostaria de lev-la a todos os bailes.
- Muito obrigada.
 Ele voltou a calar-se, fumando calmamente e olhando, atravs do
 Rolls, para o grupo de rvores onde o pssato, irado, ainda trinava,
 rabugento. Quando s um pequeno remanescente do cigarro lhe crepi-
 tava entre os dedos manchados, deixou-o cair no cho e esmagou-o
 rancorosamente com o salto da bota at se certifiear de que se apagara.
 Ningum apaga to bem uma ponta de cigarro como um sertanejo
 australiano.
 Suspirando, Meggie desviou os olhos do espectculo da Lua e Luke
 ajudou-a a subir para o automvel. Ele era sabido de mais para a beijar
 nessa altura, pois pretendia despos-la, se fosse possvel; ela que mos-
 trasse primeiro o desejo de ser beijada.
 Mas houve outros bailes,  medida que o Vero passava e se
 resolvia num esplendor sangrento e poeirento; a pouco e pouco, a gente
 da fazenda foi-se acostumando ao facto de que Meggie arranjara um
 namorado muito bonito. Os irmos abstinham-se de arreli-la, pos
 amavam-na e tambm gostavam dele. Luke O'Neill era um ptimo
 trabalhador e, para eles, no existia melhor recomendao do que essa.

 Mais prximos, no ntimo, da classe operria que dos fazendeiros,
 nunca lhes ocorreu a ideia de julg-lo pela sua falta de posses, e Fee,
 que poderia t-lo pesado numa balana mais selectiva, no se interessou
 suficientemente pelo caso. De qualquer maneira, a calma presuno
 de Luke tornava-o diferente dos pastores comuns e os Cleary tratavam-no
 assim como a um dos seus.
 Luke adquiriu o hbito de se apresentar na casa grande quando
 estava na sede,  noite, e no pernoitava nos pastos e, passado algum
 tempo, Bob declarou que era tolice sua comer sozinho quando hava
 tanta comida na mesa dos Cleary, pelo que o pastor passou a jantar
 com eles. Depois disso, parecia despropositado faz-lo caminhar mais

293
2'72

de um quilmetro quando ele tinha a gentileza de ficar a conversar com
Meggie at tarde, de modo que o convdaram a mudar-se para uma das
pequenas casas de hspedes que havia atrs da casa grande.
 Nessa altura, Meggie j pensava muito nele, e menos deprecia-
tivamente do que ao princpio, quando o compatava sempre ao padre
Ralph. A velha ferida estava a sarar. Volvido algum tempo, ela esque-
ceu-se de que o padre Ralph sorrira assim com a mesma boca, ao passo
que Luke sorria assado, que os brilhantes olhos azuis do padre Ralph
tinham tido uma distante imobilidade, enquanto os de Luke coruscavam
com agitada paixo. Ela era jovem e nunca chegara a saborear o amor,
ainda que por um ou dois momentos o tivesse provado. Queria enro-
l-lo na lngua, sentir-lhe o aroma nos pulmes, faz-lo girar eston-
teantemente no crebro. O padre Ralph era o bispo Ralph, nunca,
nunca voltatia para e1a. Vendera-a por treze milhes de moedas de
prata, e isso doa. Se ele no tivesse empregado essa frase naquela noite
ao p do poo, Meggie no pensaria assim, mas Ralph proferira-a
e no tinham eonta desde ento as noites em que se deixara ficar,
deitada, procurando descobrir o que ele poderia ter querido dizer.
 As mos tremiam-lhe quando sentia as costas de Luke, quando ele
a apertava contra si numa dana; ele, o contacto dele, a sua revigorante
vitalidade excitavam-na.  claro que nunca sentiu o escuro fogo lquido
 nos ossos, nunca pensou que, se no tornasse a v-lo, morreria, nunca
 se encolheu nem tremeu quando ele a fitava. Mas  medida que se
 amiudavam os bailes a que Luke a levava, viera a conhecer melhor
 homens como Enoch Davies, Liam O'Rourke, Alastair Mac Queen,
 e nenhum a emocionava como Luke. Se eram to altos que a obrigavam
 a olhar para cima, verificava que no tinham os olhos de Luke, ou,
 quando isso sucedia, que o cabelo era diferente. Faltava-lhes sempre
 alguma coisa que no faltava a Luke, conquanto ela mesma no sou-
 besse o que era, para alm do facto de ele lhe recordar o padre Ralph
 e Meggie se recusar ainda a admitir que a sua atraco no tivesse
 melhor fundamento que esse.
 Conversavam muito, mas sempre a respeito de generalidades: e tos-
quia, a terra, os carneiros, o que Luke queria da vida, os lugares que
j vira, ou algum acontecimento poltico. Ele lia um livro de vez em
quando, mas no era um leitor inveterado como Meggie, que, por mais
que o tentasse, no conseguia persuadi-lo a ler este ou aquele livro sim-
 plesmente porque ela o achara interessante. Luke nunca dirigia a con-
 versao pata temas intelectuais, e o mais interessante e irritante de
 tudo era que jamais revelava o menor interesse pela vida dela, nem

Ihe perguntava o que queria do mundo. s vezes, Meggie sentia neces-
sidade de conversar sobre assuntos mais interessantes do que carneiros
ou chuva, mas, quando dizia qualquer coisa nesse sentido, ele conduzia-a
com percia para assuntos menos pessoais.

 Luke O'Neill era esperto, presumido, muito trabalhador e muito
ambicioso. Nascera numa choa de paredes de taipa exactamente sobre
o trpico de Capricrnio, nos arredores da cidade de Longreach, em
Western Queensland. O seu pai era a ovelha ne ra de uma famlia
irlandesa prspera mas inaplacvel e a sua me filha do aougueiro
alemo de Winton; quando ela insistiu em casar com o pai de Luke,
tambm foi repudiada. Havia dez crianas naquela cabana, nenhuma
das quais possua um par de sapatos - se bem que os sapatos tivessem
pouca importncia na trrida Longreach. O velho Luke, que exercia
a sua profisso de tosquiador quando se sentia disposto (embora, na
maior parte das vezes, s se sentisse disposto a beber rum), morreu
num incndio no bar de Blackall quando o jovem Luke tinha doze anos.
Nessas condies, assim que lhe foi possvel, o rapaz ingressou no cir-
cuito da tosquia como ajudante, encarregado de passar pez derretido
nos golpes produzidos pelos tosquiadores nos carneiros, quando corta-
vam a carne junto com a l.
 De uma coisa Luke nunea teve medo: do trabalho pesado; gostava
dele como certos homens do seu oposto, ou porque o seu pai fora fre-
quentador assduo de bares e alvo das chacotas da cidade, ou porque
herdara da me o amor ao trabalho; mas ningum, at ento, se preo-
cupara em descobrir o motivo.
 A medida que foi ficando mais velho, deixou de ser o garoto
do pez, tornou-se o auxiliar do barraco, incumbido de correr de um lado
para outro a fim de apanhar s novelos grandes e pesados, quando
 estes, fugindo das tesouras numa nica pea, subiam feito papagaios,
 e lev-los para a mesa onde se alisava a l, para limp-los. A partir da
 ele aprendeu a limpar a l, arrancando as bordas dos velos incrustadas
 de porcaria e transferindo os para as caixas, onde passavam pelo exame
 do classificador, que era o aristocrata do barraco: o homem que,
  semelhana do provador de vinhos ou do avaliador de perfumes, s
 poder ser treinado se tiver instinto para o trabalho. E Luke no tinha
 instinto de classificador; quando queria ganhar mais dinheiro, o que
 certamente acontecia, preferia lidar com a prensa ou com a tosquia-
 deira. Tinha fora suficient para manejar a prensa, calcando os novelos
at os transformar em frdos macios, mas um tosquiador ganhava mais.

274 275

 Agora ele j era bem conhecido em Western Queensland como
bom trabalhador, de modo que no lhe foi difcil conseguir para si
um cercado de aprendiz. Com graa, coordenao, fora e resistncia,
todas necessrias e felizmente presentes em Luke, um homem poderia
tornar-se bom tosquiador. Dali a pouco ele tosquiava mais de duzentos
carneiros por dia, seis dias por semana, ganhando uma libra esterlina
por centena; e isso com uma tesoura estreita, que parecia um lagarto,
donde vinha o seu nome. As grandes tosquiadeiras da Nova Zelndia,
com os seus pentes e lminas enormes e grosseiros, no eram admitidas
na Austrlia, muito embora dobrassem a produo do tosquador.
 Era um trabalho extenuante: um homem da sua altura inclinado
sobre o carneiro preso entre os joelhos, dando tesouradas no sentido
do comprimento do corpo do animal para soltar a l numa s pea
e fazer o menor nmero possvel de talhos, cortando suficientemente
rente com a pele frouxa e retorcida para agradar ao dono do barraco,
que, num segundo, estava em cima do tosquiador que n se confor-
masse com os seus padres rigorosos. Ele no se incomodava com
o calor, nem com o suor, nem com a sede que o forava a beber mais
de doze litros de gua por dia, no se importava sequer com as hordas
torturantes de moscas, pois nascera numa terra de moscas. To-pouco
se incomodava com os carneiros, que eram o principal pesadelo de
um tosquiador; animais manhosos, molhados, superdesenvolvidos, com
 a l suja de excrementos, com a pele infestada de larvas de moscas,
 que apareciam em todas as variedades. Alm disso, eram todos merinos,
 o que queria dizer que tinham l do focinho aos cascos e uma pele
frgil, fugidia como papel muito liso.
 No, no era o trabalho em s que o incomodava, pois quanto
mais trabalhava, melhor se sentia; o que o aborrecia eta o barulho,
o estar fechado ali dentro, o cheiro. No havia lugar algum sobre a Terra
to parecido com o inferno como um barraco de tosquia. De maneira
que ele decidiu ser o patro arrogante, o homen, que andava de um
lado para outro, passando por entre os tosquiadores curvados, vendo
os novelos, que eram seus, despidos por aquele movimento suave e sem
falhas.
Na extremidade da eira, na sua cadeira de assento de rotirn
Est sentado o dono do barraco com os olbos em toda a parte

 Era isso o que dizia a velha cano dos tosquiadores, e era isso
que Luke O'Nell decidira ser. O patro arrogante, o dono do barraco,

276

o fazendeiro. No o seduziam a inclinao perptua e os braos com-
pridos dos que passam a vida a tosquiar; queria para si o prazer de
trabalhar ao ar livre, enquanto asslstia  entrada do dinheiro. S a pers-
pectiva de tornar-se um tosquiador especial - um desses raros punhados
de homens que conseguiam tosquiar mais de trezentos merinos por dia,
todos muto bem tosquiados, usando tesouras estreitas - o poderia
ter mantido no nteror de um barraco. E ainda faziam fortunas em
apostas. Infelizmente, porm, ele era um pouquinho alto de mais, e os
segundos adicionais que perdia curvando-se e levantando-se represen-
tavam a diferena entre o tosquiador comum e o tosquiador principal.
 Dentro das suas limitaes, voltou-se-lhe o esprito para outro
mtodo de adquirir o que tanto ambicionava; mais ou menos nessa fase
da sua vida descobriu que as mulheres o achavam atraente. Fizera a sua
primeira tentativa trabalhando como pastor em Gnarlunga, fazenda cujo
herdeiro era uma mulher, jovem e bonita. E s por absoluta falta de
sorte, no fim, ela preferira o imigrante ingls que trabalhava ali como
aprendiz e cujas galhardas proezas comeavam a transformar-se em lenda
do serto. De Gnarlunga fora para Bingelly, e ali conseguira um emprego
de domador de cavalos, com os olhos postos na fazenda, onde a herdeira,
j de meia idade e despida de atractvos, morava com o pai vivo.
PoUre Dot, por um triz ele no a conquistara; no fim, todavia, cedendo
aos desejos do pai, ela casara com o bem conservado sexagenrio dono
da propriedade vizinha.
 Essas duas tentativas custaram-lhe mais de trs anos de vida, e ele
 chegou  concluso de que perder vinte meses com cada hetdeira era
 demasiado longo e tedioso. Convir-lhe-ia mais, por ora, viajar para longe,
estar sempre em movimento, at encontrar, dentro desse campo muito
mais amplo, outra perspectiva provvel. Divertindo-se enormemente,
comeou a vaguear pelas estradas de estern Queensland, descendo
o Cooper, o Diamantina, o Barcoo e o Bulloo Overflow. Estava com
trinta anos e j era tempo de encontrar a galinha que pusesse pelo
menos parte do seu ovo de ouro.
 Toda a gente ouvira falar em Drogheda, mas Luke fcou de orelha
em riste quando descobriu que s havia uma filha. No se poderia espe-
rar que ela herdasse, mas talvez a dotassem com uma modesta ptoprie-
dade de cem mil acres perto de Kynuma ou de D inton. Embora fosse
boa, a terra em torno de Gilly era apertada e arborizada de mais para
o seu gosto. Luke ansiava pela enormidade de VDestern Qucensland,
onde a relva se estendia at o infnito e as rvores eram algo de que
 o homem se lembrava como misas que ficavam vagamente na diteco

277

PSSAftOS FERIDOS

do leste. S n capim, por quilmetros e quilmetros, sem princpio nem
fim, onde o homem tinha sorte quando apascentava um carneiro em
cada pedao de dez acres que possua. Porque s vezes no havia capim,
apenas um deserto liso de solo preto, rachado e palpitante. Capim, sol,
calor e moscas; para cada homem a sua espcie de cu, e esse era
o cu de Luke O'Neill.
 Ele arrancata o resto da histria de Drogheda de Jimmy Strong,
o gerente da fazenda AML&F, que o levou at l, e fora um duro golpe
para ele saber que era a Igreja Catlica a proprietria de Drogheda.
Descobrira, todavia, como eram poucas as herdeiras das propriedades
e quant andavam longe da sua herana; e quando Jimmy Strong lhe
contou que Meggie era dona de uma bonita quantia em dinheiro, s
sua, e tinha muitos irmos loucos por ela, decidiu levar adiante os seus
planos.
 Mas se bem que houvesse decidido que o objectivo da sua vida
eram cem mil acres nos arredores de Kynuna ou de Winton, e s traba-
lhasse para atingi-lo, a verdade era que, no ntimo, Luke amava muito
mais o dinheiro do que aquilo que este poderia dar-lhe; no a posse
da terra, nem o seu poder inerente, mas a perspectiva de amontoar
fileiras de algarismos bem arrumados na sua conta bancria, em seu
nome. No fora Gnarlunga nem Bingelly que desejara com tanto deses-
 pero, mas o valor delas em meda sonante. O homem que quisesse
 de facto ser o patro arrogante nunca optaria por uma Meggie Cleary
 sem propriedades, nem amaria o acto fsico de trabalhar com afinco,
 como Luke O'Nell.
 O baile no salo de Santa Cruz, em Gilly, foi o dcimo terceiro
a que Luke a levara em outras tantas semanas. A ingenuidade de
Meggie no lhe permitia adivinhar como descobria ele o local dos bailes
e como arranjava os convites, mas, todos os sbados, o rapaz pedia
a Bob as chaves do Rolls e levava-a a um lugar qualquer num crculo
de duzentos e quarenta quilmetros.
 Naquela noite fazia frio enquanto ela contemplava, ao lado de uma
cerca, a paisagem sem lua e, debaxo dos ps, sentia ranger a geada.
O Inverno estava a chegar. O brao de Luke envolveu-a e puxou-a
para junto de si.
- Voc est com frio - disse. - Acho melhor lev-la para casa.

- No, agora est tudo bem - repllcou Meggie, ofegante.
 Meggie sentiu uma mudana, uma mudana no brao que lhe
passeava, frouxo e impessoal, pelas costas. Mas era agradvel apoar-se

278

em Luke, sentir o calor que se irradiava dele, a construo diferentt
do seu corpo. Mesmo atravs do colete de malha de l, tinha conscinci:1
da mo dele, que se movia agora em pequenos crculos acariciantes,
numa espcie de massagem terna e indagadora. Se, nesse ponto,
ela anunciasse que estava com frio, Luke teria parado; se no dissesse
nada, ele interpretaria o silncio como tcita permisso para prosseguir.
Ela era jovem, anelava por saborear devidamente o amor. Alm de Ralph,
aquele era o nico homem que a interessava e, portanto, porque no
descobrir como eram os seus beijos? S queria que fossem diferentes,
que no fossem iguais aos beijos de Ralph!
 Tomando-lhe o silncio como aquiescncia, Luke ps a outra mo
no ombro dela, virou-a para que ela o encarasse, e inclinou a cabea.
Era esse, realmente, o gosto de utna boca, nada mais que uma espcie
de presso? Que era preciso fazer para indicar que estava a gostat?
Meggie moveu os lbios debaixo dos lbios dele e, logo em seguida,
arrependeu-se. A presso aumentou; ele abriu a boca, separou os la'bios
dela com os dentes e a lngua e, com esta, percorreu-lhe o interior
da boca. Repugnante. Porque parecera to diferente quando Ralph
a beijara? Ela, ento, no se dera conta de quanto tudo aquilo era
meio nauseante; nem parecera pensar, apenas se abrira para ele como
um escrnio se abre quando a mo familiar toca numa mola secreta.
 Mas, afinal, que estava ele a fazer? Por que razo o seu corpo se colava
 ao dele quando o seu esprito queria afastar-se?
 Luke encontrara-lhe o ponto sensvel, e ali mantinha os dedos,
 para faz-la contorcer-se. At ento Meggie no se mostrara particular-
 mente entusiasmada, at que, nterrompendo o beijo, ele comprimiu-lhe
 o pescoo com a boca. Ela pareceu gostar mais disso, as suas mos
 envolveram-no enquanto arquejava, mas, quando os lbios de Luke Ihe
 deslizaram pela garganta a baixo e ele tentou, com a mo, tirar-lhe
 o vestido do ombro, ela empurrou-o com fora e afastou-se, rpida.
- Chega, Luke!
 O episdio decepcionara-a e, de certo modo, repugnara-lhe. Luke
teve plen conscincia disso quando a ajudou a subit para o carro
e enrolou um cigarro, de que muito necessitava no momento. Supunha-se
um amante capaz, nenhuma das garotas ainda se queixara - mas acon-
 tece que elas no eram damas como Meggie. A prpria Dot Mac Pherson,
 a herdeira de Bingelly, muito mais rica do que Meggie, era casca grossa,
 no estivera em nenhum internato de Sidnei, nem nada disso. A despeito
 da sua aparncia pessoal, Luke estava mais ou menos em igualdade
 de condies com o trabalhador rural comum em matria de experincia

279

sexual; pouco entendia da mecnica alm do que Ihe dava prazer,
e desconhecia a teoria. As numerosas raparigas que namorara assegura
vam-lhe de bom grado que tinham gostado, mas isso significava que ele
era obrigado a confiar em certa quantidade de informaes pessoais,
nem sempre sinceras. A jovem que iniciava um namoro na esperana
de casar, quando o homem era atraente e trabalhador como Luke,
no tinh pejo de mentir descaradamente s para lhe agradar. E nada
lisonjeia mais um homem do que ouvir dizer que ele  o tal. Luke nunea
pensou na quantidade de homens, alm deIe, que so enganados com
essa mentira.
 Ainda pensando na velha Dot, que cedera e fizera a vontade do pai
depois de este a manter fechada na barraca de tosquia durante uma
semana em companhia de uma carcaa cheia de moscas e varejas,
Luke encolheu mentalmente os ombros. Meggie seria um osso duro
de roer, e ele no podia dar-se ao luxo de assust-la ou enoj-la.
O divertmento e as brincadeiras teriam de esperar. Ele request-la-ia
como ela queria ser requestada, com flores, atenes e sem muito
jogo bruto.
 Durante algum tempo reinou um silncio constrangido, depos
Meggie suspirou e afundou-se no assento do carro.
- Desculpe-me, Luke.
- Eu tambm lhe peo desculpa. No pretendia ofend-la.

- No, no me ofendeu, srio! O que acho  que no estou muito
acostumada a... a isto. Fiquei assustada, mas no ofendida.
- Oh, Meghann! - Luke tirou uma das mos do volante e colo-
cou-a sobre as mos dela. - No se preocupe.  ainda uma garota e eu
cteio que me precipite. Vamos esquecer tudo isto.
- Est bem, vamos - assentiu.
- Ele no a beijou? - perguntou Luke, curioso.

- Quem ?
 Haveria medo na voz dela? Mas porqu?
- A Meghann contou-me que esteve apaixonada uma vez, por isso
pensei que entendesse do assunto. Sinto muito. Eu devia ter compreen-
dido que, enfiada sempre aqui, no meio de uma famlia como a sua,
o que quis dizer foi que teve uma paixoneta aguda de menina de escola
por algum tipo que nem lhe ligou.
 Sim, sim, sim! Deix-lo pensar isso mesmo!
- Tem razo, Luke; o que tive foi mesmo uma paixoneta de
menina de escola.
 Fora de casa, ele tornou a pux-la para si e deu-lhe um beijo deli-

280

PSSAROS FEftIDOS

cado, demorado, mas sem boca aberta e sem lngua. Ela no respnndeu
exactamente, mas era evidente que gostara; e Luke foi para a sua casa
de hspedes mais tranquilo, com a certeza de no haver comprometido
as suas possibilidades.
 Meggie arrastou-se para a cama e parou a vista no suave halo
circular que a lmpada projectava no tecto. Uma coisa, ao menos,
ficara esclarecida: nada havia nos beijos de Luke que lhe lembrasse
os beijos de Ralph. E uma ou duas vezes, mais para o fim da noite,
ela sentiu um bruxuleio de medrosa excitao, ao recordar o momento
em que ele enfiara os dedos na sua ilharga e quando Ihe beijara
o pescoo. No adiantava comparar Luke com RaIph, e Meggie j no
tinha a certeza de querer fazer a comparao. Era melhor esquecer Ralph;
ele no poderia ser seu marido. Luke, sim.
 Da segunda vez que Luke a beijou, Meggie procedeu de maneira
muito diversa. Eles tinham ido a uma festa maravilhosa em Rudna
Hunish, no limite extremo da rea territorial que Bob demarcara para
os seus passeios, e a noite correra bem desde o comeo. Luke estivera
na sua melhor forxna, dizendo tantas piadas pelo caminho que quase
a matara de riso, e mostrando-se depois muito atencioso durante toda
a festa. E a Sr." Carmichael parecera to decidida a roubar-lho!
Metendo-se onde Alastair Mac Queen e Enoch Davies receavam chegar,
ela juntara-se a eles e provocara Luke clamorosamente, obrigando-o,
por educao, a convid-la para danar. Era uma festa formal, num salo
de baile, e a msica que Luke danara com a Sr`a Carmichael fora
uma valsa lenta. Contudo, ele voltara imediatamente para junto de
Meggie assim que a dana acabara e no dissera nada, mas o modo como
erguera os olhos para o tecto no lhe deixara dvida alguma de que
a Sr." Carmichael, na sua opinio, era uma estopada. E amara-o
por isso; desde o dia em que a dama se metera com ela na Exposio
de Gill , Meggie passara a v-la com maus olhos. Nunca se esquecera
do gesto do padre Ralph, que ignorara to presumida senhorita para
ajudar uma garotinha a transpor uma poa de gua; esta noite, Luke
fizera praticamente o mesmo. Bravo! Luke, s um homem a srio!
 O trajecto de volta era longo e fazia muito frio. Luke obtivera
do velho Angus Mac Queen um pacote de sanduches e uma garrafa
de champanhe e, depois de haverem percorrido um tero do percurso,
ele parou o automvel. Os carros com aquecimento eram rarssimos
na Austrlia, ento como agora, mas o Rolls possua um aquecedor,
que, naquela noite, foi muito bem-vindo, pois havia cinco centmetros
de geada no cho.

281

PSBAROSFERIDOS

- No  agradvel ficar sentada sem casaco numa noite como
esta? - Meggie sorriu, pegando no copo de carto, cheio de champanhe,
que Luke Ihe estendia e mordendo uma sanduche de presunto.
- , sm. Est muito bonita esta noite, Meghann.
 Que novidade havia na cor dos olhos dela? O cinzento no era,
normalmente, uma cor que o entusiasmasse, pois achava-a demasiado
anmica, mas, olhando agora para os olhos cinzentos de Meggie,
ele juraria que via neles todas as cores da extremidade azul do espectro,
o roxo, o anil e o azul do cu num belo dia claro, um verde musgoso
e profundo e um toque de amarelo-tostado. E brilhavam como jias
suaves, semiopacas, emolduradas pelos longos clios ondulados, que
faiscavam como se tivessem sido mergulhados em ouro. Ele estendeu
a mo e, delcadamente, passou o dedo pelos clios de um dos olhos;
a seguir, olhou, solene, para a ponta do dedo.
- Que foi, Luke?
- No pude resistir  tentao de verificar por mim mesmo se
no ten ' um pote de ouro em p no toucador. Sabe que  a primeira
raparlg que conheo com ouro de verdade nas pestanas?

- Oh! - Ela mesma tocou-os, olhou para o dedo, riu-se. - Tem
razo! O ouro no sai de maneira nenhuma.

 O champanhe fazia-lhe ccegas no nariz e efervescia-lhe no est
mago; ela sentia-se maravilhosamente bem.
- E sobrancelhas de ouro, em forma de tecto de igreja, e o mais
belo cabelo de ouro... Tenho sempre a impresso de que deve ser duro
como o metal e, no entanto,  fino e maco como o cabelo duma
criana... E no creio que voc no ponha p de ouro na pele, de tanto
que ela brilha... E a boca to bonita, feita especialmente para o beijo...

 Sentada, Meggie olhava-o com os lbios rseos e tenros ligeiramente
entreabertos, como tinham estado no dia em que se haviam conhecido;
ele estendeu a mo e trou-lhe a taa vazia.
- Voc precisa de um pouco mais de champanhe - declarou,
enchend a.
- Devo reeonhecer que  agradvel parar e descansar um pouco
dos solavancos do caminho. E muito obrigado por ter tido a ideia
de pedir ao Senhor Mac Queen as sanduches e o vinho.
 O grande motor do Rolls trabalhava suavemente no silncio,
enquanto o ar quente entrava quase sem fazer rudo pelos respiradouros;
duas espcies distintas de rudos acariciadores. Luke desfez o n da
gravata, tirou-a, desabotoou o colarinho. Os casacos de ambos estavam
no assento traseiro, pois a temperatura, no interior do carro, era elevada.

282

- Uf! - suspirou aliviado. - No sei quem inventou as gra-
vatas e depois insistiu em que o homem s estava decentemente vestido
quando trazia uma ao pescoo, mas se eu o encontrar algum dia hei-de
estrangul-lo com a sua prpria inveno.
 Luke virou-se de repente, baixou o rosto e pareceu colar a curva
arredondada dos lbios dela exactamente nos seus, como duas peas
de um puzzle; embora no a segurasse nem lhe tocasse, Meggie sentiu-se
aprisionada e deixou que a cabea lhe acompanhasse o movimento
quando ele se inclinou para trs, puxando-a sobre o seu peito. As mos
de Luke subiram para segurar-lhe a cabea, para melhor trabalhar
na boca entontecedora, surpreendentemente receptiva. Suspirando,
entregou-se todo quela sensao, sentindo-se  vontade afinal com
os lbios sedosos de criana, que finalmente se ajustavam aos seus.
O brao de Meggie procurou-lhe o pescoo, os seus dedos, que tremiam,
enfiaram-se-lhe no cabelo, a palma da sua outra mo descansou na pele
macia e morena do peito dele. Desta vez Luke no se apressou, embora
se tivesse levantado e enrijecido, s de contempl-la, antes de lhe dar
a seeunda taa de champanhe. Sem Ihe largar a cabea, beijou-lhe as faces,
os olhos cerrados, os ossos curvos das rbitas debaixo das sobrancelhas,
voltou s faces, porque eram acetinadas, voltou  boca, porque a sua
forma infantil o deixara louco desde o dia em que a vira pela primeira vez.
 E l estava o colo de Meggie, com a pequena concavidade na base,
a pele do ombro, to delicada, to fria, to seca... Incapaz de deter-se,
morrendo de medo ante a ideia de que Meggie o mandasse parar, tirou
uma das mos da cabea dela, libertou a longa fieira de botes nas costas
do vestido, que fez deslizar pelos braos obedientes, e puxou as alas
da fnl :,d3 combinao de cetim. Com o rosto enterrado entre o pescoo
e o umbru i: rapariga, passou as pontas dos dedos pelas costas nuas,
sentiu '?,e o :ii piozinhos assustados, os bicos dos seios subitamente
endurecidu 11, ou ainda mais a cabea, na busca tctil, cega, compul
siva, de uma,uperfcie fria e almofadada, os lbios apartados, pres-
sionando, at que se fecharam sobre a carne retesada. A lngua demorou-
-se ali durante um minuto aturdido, depois as mos apertaram as costas
de Meggie com um prazer agoniado, e Luke chupou, mordiscou, beijou,
chupou... O velho impulso eterno, a sua preferncia particular, que
nunca falhava. Era bom, bom, bom! No gritou, apenas estremeceu
vor um momento de espasmo e engoliu nas profundezas da sua garganta.
 Como uma criana de peito saciada, deixou que o bico do seio
:he saltasse da boca, deps um bejo de amor e gratido no lado do seio

283

e permaneceu inteiramente imvel, apenas se ouvia o arfar da sua
respirao. Sentia a boca dela no cabelo, a mo por dentro da camisa.
De repente, pareceu refazer-se, abtiu os olhos. Sentou-se depressa,
recolocou no lugar as alas da combinao, depois o vestido e abotoou
destramente todos os botes.
-  melhor casar comigo, Meghann - dsse, com olhos ternos
e risonhos. - Acho que os seus irmos no aprovariam o que acabamos
de fazer.
- , tambm acho melhor - conveio ela, com as plpebras desci-
das e um rubor delicado nas faces.
- Vamos contar-lhes amanh cedo.
- Porque no? Quanto mais cedo, melhor.
- No sbado que vem lev-la-ei a Gilly. Falamos com o padre
Thomas... Acredito que quer casar-se pla igreja... Trataremos dos
papis e compraremos um anel de noivado.
- Obrigada, Luke.
 Estava tudo resolvido. Ela comprometera-se, no poderia voltar
a trs. Em poucas semanas, ou assm que corressem os banhos, desposaria
Luke O'Neill. Seria... a Sr  Luke O'Neill! Que coisa estranha! Porque
dissera sm? <<Porque ele me disse que eu devia, porque ele me disse
que eu tinha de faz-lo. Mas porqu? Para afastar o perigo dele?
Para proteger-se ou para proteger-me? Ralph de Bricassart, s vezes
penso que te odeio... >>
 O incidente no carro fora alarmante e perturbador, nada parecido
com a primeira vez. Tantas sensaes belas, aterradoras! Oh, o toque
das mos dele! O puxar electrizante do seu seio, a emitir vastos anis
que se iam alargando pelo corpo dela! E precisamente no instante em
que a sua conscincia erguera a cabea, dissera  coisa irracional em que
ela parecia haver-se transformado que Luke estava a despi-la, que era
preciso gritar, esbofete-lo, fugir. Embalada e meio inconsciente por
causa do champanhe, do calor, da descoberta de que era delicioso ser
beijada quando o beijo era dado com acerto, o primeiro movimento
de Luke para pr a boca no seu seio, silenciara o resto de bom senso,
 a conscincia e toda e qualquer ideia de fuga. Os seus oml,ros ficaram
 acima do peito dele, as suas ancas pareciam abater-se sobre ele, as suas
 coxas e aquela regio sem nome situada acima delas, sob a presso
 das mos de Luke, comprimiam-se de encontro a uma aresta do corpo
 dele dura como pedra, e Meggic apenas desejara permanecer assim pelo
 resto dos seus dias, abalada at  alma e abrindo-se vazia, desejando...
 Desejando o qu? No sabia. No momento em que Luke a afastara,

ela no queria afastar-se, teria sido at capaz de atirar-se sobre ele
como uma selvagem. Mas aquilo acabara por selat de modo definitivo
a sua determinao, que se consolidava, de casar com Luke O'Neill.
Para alm de que estava convencida de que ele lhe fizera aquilo que
provoca o nascimento dos bebs.

 Ningum ficou muito surpreendido com a notcia, e ningum
sonhou em fazer objeces. S os surpreendeu a recusa terminante
de Meggie em eserever ao bispo Ralph para lhe dar a notcia e a sua
quase histrica rejeio da ideia aventada por Bob de convdar o bispo
Ralph a Drogheda e fazer um casamento pomposo em casa. <<No, no,
n!>>, gritara-lhes Meggie, que nunca levantara a voz. Estava zangada,
aparentemente, porque ele jamais voltara a visit-los. Sustentava que
o casamento s a ela interessava e que, se o bispo no tivera a preocupa-
o de vir a Drogheda sem um motivo especial, no iria agora dar-lhe
um a que ele no pudesse esquivar-se.
 Por isso Fee prometeu no lhe dizer uma palavra nas suas cartas;
aiis, tinha-se a impresso de que pouco se lhe dava de uma coisa ou
de outra, como da prpria escolha feita por Meggie. A eseriturao
dos livros de Drogheda tomava-lhe todo o tempo. Os registos de Fee
teriam proporcionado a um historiador a deserio perfeita da vida
de uma fazenda de criar carneiros, pois no se limitavam aos algarismos
e aos livros de contabilidade. Todos os movimentos de todos os rebanhos
eram rigidamente deseritos, as mudanas das estaes, o tempo que
fizera cada dia e at o que a Sr.a Smith servira ao jantar. O registo
no livro diro, por exemplo, referente ao domingo, 22 de Julho de 1934,
era deste teor:

 Czr claro, sem nuvens, temperatura de madrugada, um grau.
No se rezou missa hoje. Bob est na sede, Jack foi para Murrim-
bab com dois pastores, Hughie foi para West Dam com um
pastor, B eerbarrel est a levar os cai neiros castrados de trs anos
de Budgin para Winnemurra. Temperatura s trs horas da tarde,
vinte e nove graus e meio. Barmetro firme, trinta polegadas e meia.
Vento directo do oeste. Ementa do jantar: carne de vaca conser-
vada em snlmoura, batatas, cenouras e couve cozidas, depois pudim
de ameixas. Megbann Cleary desposar o Sr. Luke O'Neill, pastor,
no sbado, dia 25 de Agosto, na Igreja de Santa Cruz, em Gillan-
bone. Registo feito s nove horas da noite, temperatz;ra de sete
graz:s, ltimo quarto da Lua.

284 285

11

 ur comprou para Meggie um anel de noivado de brilhantes,
 modesto mas bonito, com duas pedtas de um quarto de quilate
 engastadas num par de coraes de platina. O casamento foi
 marcado para o meio-dia do sbado, 25 de Agosto, na Igreja
de Santa Cruz. A cerimnia seria seguida de um jantar de famlia no
Hotel Imperial, para o qual a Sr  Smith, Minnie e Cat foram natural-
mente convidados, se bem que Jims e Patsy tivessem ficado em Sidnei,
depois de Meggie haver dito com firmeza que nzo via motivo para
faz-los percorrer novecentos e sessenta quilmetros s para assistir
a utna cerimnia que eles nem compreendi m bem. Ela recebera cartas
de congratulaes de ambos; a de Jims, longa, infantil, a de Patsy com
trs palavras, Montes de felicidades". Eles conheciam Luke, pois
haviam cavalgado com ele pelos pastos de Drogheda durante as frias.

 A Sr  Smith doeu-se da insistncia de MegQie em ter uma festa
de casamento o mais simples possvel; ela esperava que a nica rapariga
de Drogheda se casasse por entre bandeiras desfraldadas e cmbalos
estrugindo. Meggie, no entanto, era to avessa ao espalhafato que at
se recusou a usar vestido de nova; fez questo de casar com um vestido
comum e um chapu comum, que seria, mais tarde, o seu trajo de viagem.

- Querida, j decidi aonde levar-te na nossa lua-de-mel - anunciou
Luke, deixando-se cair numa cadeira defronte dela, no domingo, depois
de feitos os planos de casamento.
- Aonde?
- A North Queensland. Enquanto estavas na costureira, entretive-
-me a conversar com alguns rapazes no bar do Imperial, e eles disseram-
 me que h muito dinheiro pata ganhar na terra da cana. Basta que
um homem seja forte e no tenha medo do trabalho pesado.

- Mas Luke, j tens um bom emprego aqui!
- Um homem no se sente bem a viver  custa dos cunhados
e sogros. Quero arranjar dinheiro para comprar umas terras em estern
Queensland, e tenho de consegui-lo antes de ficar velho de mais para
trabalhar. Para um homem sem estudos no  fcil encontrar um tra-
balho bem pago nesta Depresso, mas h falta de gente em North
Queensland, e o ordenado, pelo menos,  dez vezes o que ganh em
Drogheda.
- A fazer o qu?
- A cortar cana.
- A cortar cana? Mas isso  trabalho de eule!
- No , a  que te enganas. Os cules no so suficientemente
altos pata fazer to bem esse trabalho como os cortadores brancos e,
alm disso, sabes to bem como eu que as leis australianas pr'bcm
a importao de pnetos ou chineses para trabalharem como escravos
ou por salrios menores que os dos brancos, pois isso tira o po da
boca dos Australianos. H falta de cortadores e h dinheiro com fartura.
No so muitos os tipos to altos ou to fortes como eu para cortar cana.
E isso no dar cabo de mim!
- Quer dizer que pensas em estabelecer o nosso lar em North
Queensland, Luke?

- Sim.
 Meggie olhou por cima do ombro dele, atravs da grande srie
de janelas, para Dtogheda: os eucaliptos, o Home Paddock, a extenso
de rvores alm. No viver em Drogheda! Ir para um stio onde
o bispo Ralph nunca poderia encontr-la, viver sem jamais tornar a v-lo,
unir-se ao estranho sentado diante dela to irrevogavelmente que no
poderia voltar a trs... Os olhos cinzentos pousatam no rosto vivo
e impaciente de Luke e tornaram-se mais belos, mas, sem dvida,
mais tristes. Ele apenas suspeitou; Meggie no vertia lgrimas, as suas
plpebras no descaam, nem Ihe descaam os cantos da boca. Mas Luke
no se preocupava com as possveis tristezas de Meggie, nem tinha
a inteno de deixar que ela se tornasse to importante para ele que
pudesse lev-lo a preocupar-se. Ela era, sem dvida, como que um
prmio para quena tentara casar com Dot Mac Pherson, de Bingelly,
mas os seus atractivos fsicos e o seu jeito agradvel s aumentavam
a vigilncia de Luke sobre o prprio corao. Mulher alguma, nem que
fosse ainda mais meiga e mais bela que Meggie Cleary, teria poder
suficiente sobre ele para dizer-lhe o que devia ou no fazer.

286

 Por isso, continuando fiel a si mesmo, mergullzou directamente
no assunto que trazia no esprito. Havia ocasies em que a astcia
era necessria, mas, nessa questo, no lhe seria mais eficaz do que
a rudeza.
- Meghann, sou um homem antiquado - disse Luke.
 Ela encarou-o, inttigada.
- s mesmo? - perguntou, ao passo que o seu tom queria dizer:
e que importa isso?
- Sou - confrmou. - Acredito que quando um homem e uma
mulher se casam todos os bens dela devem p a s s a r para o homem.
Como aeontecia antigamente com o dote. Sei que tens algum dinheiro,
e digo-te agora que, quando nos casarmos, assinars um documento
transferindo-o para mim.  justo que saibas, enquanto ainda s solteira,
o que eu penso fazer, para poderes decidir se queres ou no casar.

 Nunca ocorrera a Meggie a ideia de ficar com o seu dinheiro;
presumira simplesmente que, ao casar, o dinheiro passaria a ser de Luke,
e no dela. Todas as mulheres australianas, exceptuando-se apenas as
mais cultas e sofisticadas, eram educadas para serem, mais ou menos,
bens mveis dos maridos, e isso era especialmente verdadeiro em relao
a Meggie. O pai sempre governara Fee e os filhos e, a partir da sua
morte, a me passara a sujeitar-se s decises de Bob, como sucessor dele.
O homem possua o dinheiro, a casa, a esposa e os filhos. Meggie nunca
pusera em dvida o direito de Luke nesse sentido.
- Eu no sabia que era preciso assinar alguma coisa, Luke - excla-
mou. - Pensei que o que  meu passasse automaticamente a ser teu
quando nos casssemos.
- Costumava ser assim, mas aqueles governantes estpidos de
Camberra acabaram com isso quando deram o direito de voto s mulheres.
Quero que tudo se passe correctamente entre ns, Meghann, de modo
que te estou a dizer agora como sero as coisas.
 Me gie riu-se.
- Est bem, Luke, eu no me importo.
 Ela encarava o caso como uma boa esposa de outros tempos.
Dot no teria cedido to prontamente.
- Quanto  que tens? - perguntou Luke.
- Neste momento, catorze mil libras, e todos os anos ganho mais
duas mil.
 Ele assobiou.
- Catorze mil libras! Safa! Isso  muito dinheiro, Meghann.
  melhor que eu tome conta dele. Poderemos procurar o gerente

288

PSSAftOS FERIDOS

do banco na semana que vem, e deixatemos tudo combinado para que
o dinheiro que entre no futuro seja tambm posto em meu nome.
No vou tocar numa nica libra, bem sabes.  para comprar, mais tarde,
a nossa fazenda. Nos prximos anos ns dois vamos trabalhar bastante
e poupar todo o dinheiro que ganharmos. Certo?
 Meggie assentiu com a cabea.
- Est bem, Luke.

 Uma simples nadvertncia da parte de Luke quase impediu que
se realizasse o easamento. Ele no era catlico. Quando o padre Watty
descobriu, ergueu as mos, horrorizado.
- Misericrdia, Luke, porque no me disse isso antes? Agora sero
necessrias todas as nossas energias para convert-lo e bap:iz-lo antes
do casamento!
 Luke olhou espantado para o padre Watty.
- Quem falou em converso, padre? Sint-me muito feliz sendo
o que sou, mas, se isso o aborrece, pode registar-me como crente ou
testemunha de Jeov, ou o que quiser. Mas como catlico, no.
 Debalde lhe suplicarari; Luke recusou-se terminantemente a pensar
em converso.
- No tenho nada contra o catolicismo nem contra a Irlanda,
e reconheo que os catlicos do Ulster so muito maltratados. Mas acon-
tece que sou orangista e no costumo virar casaca. Se fosse catlico
e quisessem converter-me ao metodismo, eureagiria da mesma maaeira.
No  ao facto de ser catlico que ponho objeces, mas no gosto
de ser vira-casacas. Desista de contar comigo no seu rebanho, padre.
- Ento no pode casar!
- E porque no, ora essa? Se o senhor no quiser casar-nos,
no vejo por que razo o reverendo l da Igreja Anglicana se recusaria
a faz-lo, ou mesmo Harry Gough, o juiz de paz.
 Fee sorriu com acrimnia, lembrando-se do seu contratempo com
Paddy e um padre; mas ela vencera aquele encontro.
- Eu preciso de casar na igreja, Luke! - protestou Meggie,
medrosa. - Se no, viverei em pecado.
- Pelo que me diz respeito, viver em pecado  muito melhor
do que ser vira-casacas - acudiu Luke, que era, s vezes, curiosamente
contraditrio; por mais que ambicionasse o dinheiro de Meggie, a sua
teimosia cega no o deixaria voltar a trs.
- Ora, parem com essa palermice! - interveio Fee, dirigindo-se,
,o a Luke, mas ao padre. - Faam o que Paddy e eu fizemos e acaben,

289

com a discusso! Se no quiser sujar a sua igreja, padre Thomas,
poder cas-los na casa paroquial!
 Todos arregalatam os olhos para ela, assombrados, mas a deia
deu certo; o padre cedeu e concordou em cas-los na casa paroquial,
se bem que se recusasse a abenoar o anel.
 A sano parcial da Igreja deixou Meggie com a impresso de estar
em pecado, mas no o bas ante para merecer o Inferno, e a velha Annie,
a governanta da casa paroguial, fez o possvel para dar ao escritrio
do padre atty o aspecto mais eclesistico possvel, enchendo-o de
grandes vasos de flores e muitos castiais de lato. Mas foi uma cerim
nia desagradvel, em que o sacerdote, contrariado, fazia toda a gente
sentir que s a realizava para evitar o constrangimento maior de um
casamento secular noutro stio. No houve missa nupcial, no houve
bnos.
 Entretanto, realizou-se. Megge era a Sr.a Luke O'Neill a caminho
de North Queensland  de nma lua-de-mel um tanto retardada pelo
tempo que levariam para chegar l. Lulce recusou-se a passar a noite
de sbado no Imperial, pois o comboio que servia o ramal de Goondi-
windi s partia uma vez por semana, sbado  noite, a fim de estabe-
lecer ligao com o comboio-correo que ia de Goondiwindi a Brisbane.
no domingo. Estariam em Bris na segunda-feira, a tempo de apanhar
o expresso de Cairns.
 O comboio de Goondiurind: ia apinhado. No puderam isolar sc
dos outros e passaram a noite sentados, porque no havia carruagem-
-cama. Hora aps hora rodaram em direco ao Nordeste, parando
interminavelmente todas as vezes que o maquinista sentia vontade de
preparar um bule de ch, ou para deixar um rebanho de carneiros
atravessar a linha.
- Eu gostaria de saber porque pronunciam Goondwindi como
se fosse Gundiwindi, se no querem escrever a palavra dessa maneira?
- perguntou Meggie por perguntar, enquanto esperavam no nico lugar
que estava aberto aos domingos em Goondiwindi, a horrvel sala de
espera, com o seu verde institucional e os seus bancos duros e pretos
 de madeira. A pobte Meggie parecia nexvosa e pouco  vontade.
- C Amo posso saber? - suspirou Luke, que no se sentia ncli-
 nado a falar e estava, ainda por cima, cheo de fome. Por ser domingo,
 no lhes foi possvel arranjar nem mesmo uma xcara de ch; s na
 segunda-feira de manh, no comboio-correio de Brisbane, tiveram a opor
tunidade de encher os estmagos vazios e matar a sede. Depois veio
Brisbahe, a estao de South Bris, a travessia da cidade at  outra

290

 estao donde partia o expresso de Cairns, em Roma Street, onde
 Meggie descobriu que Luke comprara dois lugares de segunda dasse, em
 que teriam de viajar sentados.
- Luke, ns no estamos sem dinheiro! - disse, cansada e exaspe-
 rada. - Se te esqueceste de ir ao banco, eu tenho cem libras, que Bob
 me deu, aqui na minha bolsa. Porque no compraste bi hetes para uma
 cabina de primeira classe com duas camas?
 r:le fitou-a, assombrado.
- Mas so apenas trs noites e trs dias at Dungloe! Porque
 gastar dinheiro se somos ambos jovens, sadios e fortes? Viajar sentada
 num comboio durante algum tzmpo no te matar, Meghann! J  altura
 de te compenetrares de que casaste com um simples operrio, e no
 com um maldito fazendeiro!
 Megige deixou-se cair no banco ao ado da janela, que Luke lhe
 arranjara, e descansou o queixo trmulo na mo a fim de olhar pata
 fora, sem que Luke lhe notasse as lgrimas. Falara-lhe como a uma
 criana irresponsvel, e ela comeou a imaginar que ele, de facto, va-a
 assim. A rebelio comeou a agitar-se dentro dela, mas era ainda inci-
 piente, e o orgulho selvagem vedava-lhe a indigndade de diseutir.
 Em lugar disso, disse para si mesma que estava casada com aquele
 homem ainda h muito pouco tempo e que, por isso, ele no se
 habituara  nova situao. Dessem-lhe um pouco de tempo. Viveriam
 juntos, ela cozinharia para ele, consertar-lhe-ia as roupas, cuidaria dele,
 teria filhos, seria uma boa esposa. Era s ver quanto o pai gostara
 da me, quanto a adorara. Luke precisava de tempo.
 Destinavam-se a uma cidade chamada Dungloe, que distava apenas
 oitenta quilmetros de Cairns, ponto final da linla que corria ao longo
 de toda a costa de Queensland na direco do norte. Mais de mil e seis-
 centos quilmetros de carris de bitola estreita, balanando para a frente
 e para trs, com todos os bancos da carruagem ocupados, sem possibili-
 dade de se deitarem ou de esticarem as pernas. Se bem que a regio
 fosse muito mais densamente povoada do que Gilly, e muito mais
 colorida, Meggie no conseguia interessar-se por ela.
 Doa-lhe a cabea, nenhum alimento lhe parava no estmago,
 e o calor era muito, bastante pior do que aqule que j sofrera em
 Gilly. O lindo vestido de casamento, de seda cor-de-rosa, sujara-se com
 a fuligem que entrava pelas jan las, sentia a pele pegajosa com um
 suor que no se evaporava e, o que eta piot do que qualquer descon-
= forto fsico, estava na iminncia de odiar Luke. Aparentemente sem
 o menor cansao ou a menor indisposio, sentado  vontade, ele falava

291

com dois homens que iam para Cardwell. Nas nicas vezes em que
olhava na sua direco, levantava-se, curvava-se sobre ela, com tanta
desateno que ela se encolhia, e pela janela, atirava um jornal enro-
lado a um grupo de homens maltrapilhos, famintos de notas, que
estavam junto  linha com malhos de ao nas mos e que gritavam:
- Jornal ! Jornal !
- So os homens que examinam os carris - explicou ao sentar-se
de novo, quando isso aconteceu pela primeira vez.
 Luke julgava-a to feliz e confortvel como ele, fascinada pela
plancie que voava a seu lado, mas, na realidade, Meggie contemplava-a
sem a ver, detestando-a antes mesmo de pr o p naquele cho.

 Em Cardwell os dois homens apearam-se, e Luke dirigiu-se a uma
loja que vendia petiscos, defronte da estao, do outro lado da estrada,
e de l voltou com qualquer coisa embrulhada num jornal.
- Dizem que o peixe de Cardwell tem de ser provado para se
acreditar, Meghann querida. O melhor peixe do mundo. Experimenta.
 o teu primeiro bocado de comida autntica de Bananalndia.  o que
te digo, no h lugar algum como Queensland.
 Meggie olhou para os pedaos gordurosos de peixe mergulhados
em calda, levou o leno  boca e eorreu para a casa de banho: Luke
esperava-a no corredor quando ela voltou algum tempo depois, branca
e trmula.
- Que aconteceu? Sentes-te mal?
- Sinto-me mal desde que samos de oondiwindi.
- Misericrdia! E porque no me disseste?
- Devias ter reparado.
- Parecias muito bem.
- Quanto tempo falta agora? - perguntou Meggie, desistindo.
- Cerca de seis horas, um pouco mais ou um pouco menos. Aqu i
no se obedece muito aos hortios. H bastante espao agora que
aqueles tipos desceram; deita-te e pe os ps no meu colo.
- Deixa de falar coznigo como se eu fosse uma criancinha!-
atalhou ela, cida. - Teria sido muito melhor se tivssemos descido
h dois dias, em Bundaberg!
- Ora, Meghann! Estamos quase a chegar. S faltam Tullv
e Innisfail, depois vem Dungloe.
 Entarderia quando desceram do comboio. Meggie agarrava-se.
desesperada, ao brao de Luke, orgulhosa de mais para admitr que
quase no podia camnhar. Ele pediu ao chefe da estao que lhe indi-

292

casse utn hotel de trabalhadores, agarrou nas malas e saiu para a rua,
seguido de Meggie, que cambaleava como se estivesse bbeda.
-  s at ao fim do quarteiro, do outro lado da rua - disse,
tranquilizador. - Aquela espelunca de dois andares.
 Embora o quarto deles fosse pequeno e atulhado de grandes peas
de moblia vitoriana, pareceu o cu para Meggie, que desabou sobre
a borda da cama dupla.
- Descansa um pouco at  hora do jantar, amor. Vou procurar
os meus pontos de referncia - anunciou Luke, saindo calmamente do
quarto com o aspecto vioso e descansado que ostentara na manh do
dia do seu casamento. Ora, isso fora no sbado e j estavam na quinta-
-feira seguinte,  noitinha, depois de cinco dias passados em comboios
abarrotados, sufocados pelo fumo e pela fuligem.
 A cama rodava monotonamente, ao ritmo das rodas de ao que
passavam estralejando sobre junes de carris, mas Meggie virou a cabea
no travesseiro com um sentimento de gratido, e dormiu, dormiu.
 Algum lhe tirara os sapatos e as meias e a cobrira com um lenol;
Meggie estremeceu, abriu os olhos e espraiou-os  sua volta. Luke estava
sentado no peitoril da janela com um joelho erguido, a fumar. O movi-
mento dela f-lo voltar, olh-la e sorrir.
- Que bela noiva me saste! Eu aqui  espera, ansioso pela minha
lua-de-mel e a minha esposa apaga-se durante quase dois dias! Fiquei
um pouco preocupado quando no consegui acordar-te, mas o hoteleiro
diz que isso acontece s mulheres, depois de uma viagem assim e por
causa da humidade. Ele aconselhou-me a deixar-te dormir. Como te
sentes agora?
 Me e sentou-se na cama, tesa, e bocejou.
- Muito melhor, obrigada. Oh, Luke! Sei que sou nova e forte,
mas tambm sou mulhet! No aguento este castigo fsico que tu
aguentas.
 Ele foi sentar-se  beira da cama e comeou a esfregar o brao dela,
num gesto encantador de contrio.
- Sinto muito, Meghann,  verdade. No pensei no facto de seres
mulher. No estou habituado a andar com uma esposa a titacolo,  isso.
Ests com fome, querida?
- Estou morta de fome. H quase uma semana ue no como.
- Ento porque no tomas um banho, pes um vestido limpo e sais
comigo para conhecer a cidade?
 Havia um caf chins ao lado do hotel, aonde Luke a levou para
que Meggie provasse, pela primeira vez na vida, a comida oriental.

283

PSSAROS FEftIDOS

A fome era tanta que ualquer coisa lhe tera sabido bem, mas aquilo
estava soberbo. Nem se preocupou em verificar se fora feito, de facto,
com caudas de ratos, barbatanas de tubares e tripas de aves, como
se dizia em Gillanbone, que s possua um caf dirigido por gregos,
onde se serviam apenas bifes e batatas fritas. Luke comprara duas gar-
rafas de eerveja no hotel e insistiu para que Meggie tomasse um copo,
apesar da averso dela por tal bebida.
- No bebas gua - recomendou. - Bebe antes cerveja, qne no
te far mal  batriga.
 Depois tomou-lhe o brao e passeou com ela por Dungloe or ulho-
samente, como se fosse o dono da cidade. Acontece que Luke nascera
em Queensland. Que lugar!, muito diferente das cidades ocidentais.
Em tamanho talvez fosse igual a Gilly, mas em vez de se prolongar
indefinidamente por uma nica rua principal, Dungloe fora construda
em quarteres quadrados e ordenados, com todas as lojas e casas pin-
tadas de branco, e no d castanho. As janelas eram bandeiras verticais
de madeira, provavelmente para melhor captar a brisa e, sempre que
possvel, no havia tectos, como acontecia no cinema, que possua uma
tela, paredes cheias de bandeiras e filas de cadeiras de lona, das que
se usam nas cobertas dos navios.
 Uma verdadeira floresta cercava a cidade. Plantas rastejantes e tre
padeiras espalhavam-se por toda a parte - subiam pelos postes e telha
dos, estendiam-se ao longo dos muros. tLrvores surgiam casualmente no
meio da rua, ou tinham casas construdas  sua volta, ou talvez tivessem
crescido dentro das casas. Era impossvel dizer quem chegara primeiro,
se as rvores se as habitaes, pois a impresso predominante era a de
um crescimento descontrolado, febtil, da vegetao. Coqueiros mais altos
z mais direitos do que os eucaliptos de Drogheda agitavam as copas,
que se destacavam do cu azul profundo; para onde quer que dirigisse
o olhar, Meggie encontrava um esplendor de cores. Aquela no era
uma terra castanha e cinzenta. Todas as espcies de rvores pareciam
florir - rubras, alaranjadas, escarlates, cor-de-rosa, azuis, brancas.
 Havia muitos chineses, que vestam calas pretas de seda, mins-
culos sapatos pretos e braneos com meias brancas e c misas com cola-
rinhos de mandarim, e usvam rabichos. Homens e mulheres to pare-
cidos uns com os outros que Megge sentiu dificuldade em diferen-los.
Quase todo o comrcio parecia estar nas mos de chineses; um gtande
armazm, muito mais opulento do que tudo o que havia em Gilly, tinha
um nome chins: AH WONG,S, diza a tabuleta.

Z94

 Todas as casas eram construdas sobre estacas muito altas, como
a velha residncia do chefe dos pastores em Drogheda. Esse tipo de
construo tinha por finalidade obter a mxima circulao do ar, expli-
cou Luke, e impedir gue as trmitas lhes provocassem a queda um ano
depois de terem sido feitas. No topo de cada estaca havia uma chapa
fina com as pontas viradas para baxo; no podendo dobrar o corpo
ao meo, as trmitas no conseguiam chegar, rastejando pelo parapeito
de lata,  mad ira da prpria casa. Era evidente que se regalavam com
 s estacas, mas, quando uma apodrecia, substituam-na por autra nova,
o que era muito mais fcil e barato do que construir uma nova casa.
A maioria dos jardins parecia um prolongamento da floresta, sobres-
saindo bambuais e coqueirais, como se os seus habitantes houvessem
desistido de impor ordem ao mundo vegetal.
 Os homens e as mulheres impressionaram-na. Para ir jantar e sair
com Luke, ela vestira-se como exigiam as regras, com sapatos de salto
alto, meias de seda, combinao de cetim e vestido leve de seda, com
cinto e mangas at aos cotovelos. Na cabea trazia um grande chapu
de palha, as mos calavam luvas. E o que mais a irritava era a sen-
sao desagradvel, ptovocada pela maneira como todos a miravam, de
ser ela a mal vestida!
 Os homens andavam descalos, pernas de fora e a maioria com
o peito nu, vestindo apenas shorts de tecido grosso; os poucos que
cobriam o peito faziam-no com camisetas de malha e no com camisas.
As mulheres eram piores. Algumas exibiam parcos vestidos de algodo,
manifestamente sem nada por baixo, sem meias, e calavam sandlias
sujas. A maioria, porm, usava shorts curtos, andava descala e escondia
os seios debaixo de indecentes camis tas sem mangas. Dungloe era uma
cidade civilizada, no era uma praia. Mas aqui estavam os seus habi-
tantes brancos passeando pelas ruas em trajes sumrios e desavergo-
nhados; os chineses vestiam-se melhor.
 Havia bicicletas por toda a parte, s centenas, e alguns carros,
mas nenhum cavalo. Sim, era muito diferente de Gilly. E quente, muito
cluente. Passaram por um termm tro que marcava, inerivelmente, ape-
nas trinta e dois graus; em Gilly, quando fazia quarenta e seis, dir-se-ia
que o ar parecia mais frio. Meggie tinha a impresso de mover-se atra-
vs de ar slido, que o seu corpo cortava como se fosse manteiga, como
se ela soprasse os pulmes cheios de gua.
- Luke, no aguento mais! Por favor, no podemos voltar?

- Se quiseres, voltamos. O que ests a sentir  a humidade. Ela
raramente desce a menos de noventa por cento, no Inverno ou no

295

PSSAROS FEftIDOS

Vero, e a temperatura poucas vezes baixa a menos de vinte e nove
e meio ou sobe a mais de trinta e cinco graus. No h muita variao
sazonal, mas, no Vero, com as mones, a humidade chegn % ccm
por c nto.
- Chove no Vero e no chove no Inverno?
- Chove o ano todo. As mones no falham e, quando no so
elas, sopram os alisios, vindo do sudeste. E trazem tambm muita
chuva. A mdia anual de precipitao atmosfrica em Dungloe vai de
dois metros e meio a sete metros e meio.
 Sete metros e meio de chuva por eno! A pobre Gilly ficava exttica
quando conseguia trezentos e oitenta milmetros, ao passo que aqui,
a cerca de quatro mil quilmetros de Gilly, caam mais de sete metros.
- E no esfria  noite? - perguntou Meggie quando chegaram
ao hotel; as noites quentes em Gilly eram suportv is comparadas com
aquele banho turco.
- No muito. Habituar-te-s. - Ele abriu a porta do quarto
e afastou-se para ela passar. - Vou at ao bar beber uma cerveja,
mas estarei de vo ta daqui a meia hora. Isso dar-te- tempo suficiente.
 Os olhos dela voaram para o rosto dele, sobressaltados.
- Sim, Luke.
 Dungloe ficava dezassete graus ao sul do equador, de modo que
a noite caa como um rao; dir-se-ia que o Sol comeava a pr-se num
minuto e, no minuto seguinte, caia sobre as pessoas e as coisas uma
escurido de breu, grossa e quente como melao. Quando Luke voltou,
Meggie apagata a luz e estava deitada na cama com o lenol puxado at
ao queiAo. Rindo-se, ele estendeu a mo, puxou-o e arou-o ao cho.
- J est muito quente, amor. No precisaremos do lenol.

 Meggie ouviu-o andar de um lado para outro e viu-lhe a sombra
vaga deixando cair as roupas.
- Coloquei os teus pijamas no toucador - murmutou.
- Pijamas? Com este calor? Sei que em Gilly teriam um ataque
 simples ide?a de um homem que no usasse pijamas, mas isto  Dun-
gloe! Ests de camisa?
- Estou.
- Ento, tira-a. De qualquer maneira, s poder atrapalhar-nos.
 Muito desajeit-ada, Meggie conseguiu libertar-se da camisa de cam-
braia que a Sr Smith bordara com tanto amor pata a su noite de
 npcias, congratulando-se pelo facto de estar to escuro que ele no
podia v-la. Mas Luke tnha razo; era muito mais fresco deitat-se
inteiramente nua e deixar que a brisa, que enttava pelas bandeiras escan-

296

PASSAftOS FERIDOS

caradas, a acariciasse debilmente. Mas a ideia de outro corpo quente
na cama, ao seu lado deprimia-a.
 As molas rangeram; Meggie sentiu uma pele hmida tocat-lhe
o brao e deu um pulo. Luke virou-se de lado, eninhou-a entre os raos
e beijou-a. A princpio, ela permaneceu passiva, tentando no pensar
na boca escancarada e na lngua exploradora e indecente, mas, depois,
comeou a lutar para libertar-se, no desejando ficar perto dele no
calor, no desejando ser beijada, no desejando Luke. No era-nada
parecido com a noite no Rolls, quando voltavam de Rudna Hunish.
Meggie tinha a impresso de que Luke nem pensava nela, enquanto uma
parte qualquer dele lhe empurrava com insistncia as coxas, e uma
das suas mos, de unhas afiadas, se mea entre as suas ndegas. O medo
dela transmudou-se em terror, senu-se esmagada, mais do que no sen-
tido fsico, pela fora e determinao dele, pela ausna, que revelava,
de percepo dela. De repente, largou-a, sentou-se e pareceu mexer con-
sigo mesmo, estalando e esticando qualquer coisa.
-  melhor ir pelo seguro - ofegou. - Deita-te de costas,
est na hora. No, no, assim no! Abre as pernas, pelo amor de Deus!
No sabes nada?
 rrNo, no, Luke, eu no sei!>>, teve ela vontade de gritar. KIsto
 horrvel, obsceno; seja o que for que ests a fazer comigo, no
 possvel que seja permitido pelas leis da Igreja ou dos homens!>>
Ele, na verdade, deitara-se em cima dela, erguera os quadris e tacteava-a
com uma das mos, enquanto a outra Ihe segurava com tanta firmeza
o cabelo que no se atrevia a mexer-se. Contorcendwse e pulando ao
sentir a coisa estranha entre as pernas, Meggie tentou fazer como Luke
queria, abrindo-as ainda mais, mas ele era muito mais largo do que
ela, e os msculos da sua virilha contraram-se, devido ao peso e  posi-
o forada. Mesmo atravs das nvoas do medo e do cansao, que se
adensavam, ela s-enu a concentrao de uma fora poderosa; e quando
ele a penetrou, os seus lbios soltaram um grito alto e longo.
- Cala a boca ! - gemeu Luke, tirando a mo do cabelo dela
e tapandwlhe rapidamente a boca. - Que  que pretendes? Fazer com
que toda a gente, nesta maldita espelunca, pense que te estou a assas-
 sinar? Est quieta, que isto no doer mais que o necessrio. Est quieta,
est quieta !
 Meggie lutou como uma possessa para se livrar da coisa medonha
e dolorosa, mas o peso dele no a deixava mexer-se, a mo abafava-lhe
os gritos, e a agonia mntinuou, continuou. Inteiramente seca porque
 ele no a excitara, a camisinha ainda mais seca raspava-lhe os tecidos,

297

 nquanto Luke entrava e saa, cada vez mais depressa, e a respirao
comeava a silvar-lhe entre os dentes; depois, uma mudana qualquer
aquietou-o, f-lo estremecer, engolir com fora. A dor entorpeceu-se,
transformou-se em irritao de carne viva e ele, misericordiosamente,
saiu de cima dela e, rolando, ficou de costas ao seu lado, arquejante.

- Ser melhor da prxima vez - conseguiu Luke dizer. - A pri-
meira di sempre.
 Ento porque no tiveste a decncia de prevenir-me antes?, quis
ela protestar, mas faltou-lhe energia para pronunciar as palavras, ocupada
como estava em querer morrer. I\lo s por causa da dor mas tambm
pela descoberta de que no possua identidade, fora um mero instru-
mento.
 A segunda vez doeu da mesma maneira, e a terceira tambm; exas
perado, esperando que o desconforto dela (pois era assim que definia
as coisas) desaparecesse magicamente depois da primeira vez e, portanto,
no compreendendo a razo por que ela continuava a lutar e a gritar,
Luke amuou, virou-lhe as costas e ferrou no sono. As lgrimas que
caam dos olhos de Meggie escorregavam-lhe at ao cabelo; ela estava
deitada de costas, desejando a morte ou, ento, suspirando pela antiga
existncia em Drogheda.
 Com que ento fora a isso que se referira o padre Ralph, anos
atrs, quando lhe falara numa passagem oculta relacionada com o ter
filhos? Bonito modo de descobrir o que ele queria dizer. No admira
que tivesse preferido no explicar pessoalmente. Apesar de tudo, Luke
apreciara tanto a actividade que a repetira duas vezes em rpida suces-
so. Era evidente que aquilo no o magoava. E ela surpreendeu-se
a odi-lo, a odi-lo.
 Exausta, to dorida que qualquer movimento a fazia sofrer, Meggie,
pouco a pouco, conseguiu virar-se de lado, com as costas voltadas para
Luke, e chorou no travesseiro. O sono fugiu-lhe, embora ele dormisse
to profundamente que os seus pequenos e tmidos movimentos no
chegaram sequer a modificar-lhe o ritmo da respirao. Luke dormia
econmica e tranquilamente, no ressonava nem se debatia, e, enquanto
esperava a madrugada, ela pensou que se os dois ficassem apenas de-
tados lado a lado, talvez at gostasse de dormir com ele. E a aurora
chegou to rpida e melanclica como descera a escurido; parecia-lhe
estranho no ouvir os galos cantar e os outros sons de Drogheda ao
despertar, com os seus carneiros, cavalos, porcos e ces.
 Luke acordou e rolou sobre si mesmo; Meggie sentiu-lhe o beijo no


298

ombro, mas estava to cansada e to saudosa de sa que se esqueceu
do recato e no se preocupou sequer em cobrir a prpria nudez.
- Vamos, Meghann, vamos l ver esse corpinho - ordenou,
com a mo no quadril dela. - Vire-se, como uma boa menina.
 Nada importava naquela manh; Meggie virou-se, estremecendo,
e ficou a olhar obtusamente para ele.
- No gosto de Meghann - disse, utilizando a nica forma de
protesto que conseguiu encontrar. - Gostaria mais que me chamasses
Meggie.
- Pois eu no gosto de Meggie. Mas se tens realmente tanta aver-
so a Meghann, posso chamar-te Meg. -O olhar dele passeou pelo
corpo dela com uma expresso sonhadora. - Tens um belo corpo!-
Tocou num seio, de bico murcho e desexcitado. - Espealmente os
seios.-Fazendo uma pilha com os travesseiros, recostou-se neles
e sorriu. - Vamos, Meg, beija-me. Agora  a tua vez de me namorares,
e isso talvez te agrade mais, hem?
 <<Nunca mas desejarei eij-lo enquanto viver>>, pensou ela,
olhando para o corpo longo e musculoso, a esteira de plos pretos do
peito que deseia para o ventre numa linha fina e depois se alargava
numa capoeira, da qual saa o rebento enganadoramente pequeno e ino-
cente, mas capaz de causar tanta dor. Como eram peludas as pernas
dele! Meggie crescera com homens que nunca tiravam uma pea de
roupa na presena das mulheres, mas as camisas abertas ao nvel do
pescoo mostravam peitos peludos no tempo do calor. Todos homens
claros, que no Ihe causavam repugnncia; aquele homem ttigueiro era
estranho, repulsivo. A cabea de Ralph tinha cabelos igualmente pretos,
mas ela lembrava-se muito bem do seu peito macio, glabro e moreno.
- Faz o que te mando, Meg! Beija-me.
 Inclinando-se, ela beijou-o; Luke segurou-lhe os seios com as mos
em concha e f-la contlnuar a beij-lo; depois, pegou-lhe numa das mos
e empurrou-a at  sua virilha. Assustada, Meggie afastou a boca relu-
tante dos lbios dele a fim de olhar para o que estava debaixo da sua
mo, levantando-se e crescendo.
- Oh, por favor, Luke, outra vez no! - chorou. - Por favor,
outra vez no! Por favor, por favot!
 Os olhos ezuis examinaram-na atenta e especulativamente.
- Di assim tanto? Muito bem, faremos uma coisa diferente. Vlas,
pelo amor de Deus, procura mostrar um pouco de entusiasmo!
 Colocando-a sobre ele, separou-lhe as pernas, erguu lhe os ombros
e aferrou-se aos seios dela, como o fizera no automvel na noite em

299

que ela se comprometera a despos-lo. Presente apenas fisicamente,
Meggie suportou-o; pelo menos, no se enfiava dentro dela, de modo
que no doa mais que o simples movimento. Estranhas criaturas os
homens, que se entregavam quilo como se fosse a coisa mais deleitosa
do mundo. Era repugnante, um arremedo de amor. No fora a sua espe-
rana de que tudo culzninasse num filho, e Meggie ter-se-ia recusado
terminantemente a repetir a dose.

- Arranjei um emprego para ti - disse Luke, depois do pequeno-
-almoo, na casa de jantar do hotel.
- O qu? Antes de eu ter tido oportunidade de arranjar o nosso
lar, Luke? Antes de termos um lar?
- No vejo a vantagem de alugarmos uma casa, Meggie. Eu vou
cortar cana; est tudo arranjado. Os melhores cortadores de Queensland
so uma equipa de suecos, polacos e irlandeses, chefiados por um sujeito
chamado Arne Swenson. Enquanto dormias, depois da viagem,
fui procur-lo. Ele est com falta de um homem e eoncordou em
experimentar-me. Isso quer dizer que vou viver em barracas. l;ortamos
seis dias por semana, desde que o Sol nasce at que se pe. Alm disso,
subiremos e desceremos a costa, onde quer que o servio nos leve.
O ordenado depender da cana que eu puder cortar, mas, se conseguir
acompanhar a turma de Arne, embolsarei mais de vinte libras por semana.
J pensaste? Vinte libras por semana!
- Queres dizer que no viveremos juntos, Luke?
- No podemos, Meg! Os homens no querem mulheres nas
barracas, e a troco de qu vais viver sozinha numa casa? Ser melhor
que trabalhes tambm;  tudo dinheiro para a nossa fazenda.

- Mas onde vou eu viver? Que espcie de trabalho posso fazer?
Aqui no h gado para tomar conta.
- No, mas no faz mal. Por isso arranjei-te um emprego onde
poders ficar, Meg. Ters cama e comida de graa, e no precisarei
de sustentar-te. lG uma despesa a menos. Trabalhars como ctiada em
Himmelhoch, em casa de Ludwig Mueller, o maior plantadot de cana
do distrito. A sua esposa  invlida e no pode tratar da casa sozinha.
Vou levar-te l amanh.
- E quando te verei, Luke?
- Aos domingos. Luddie sabe que s casada e no se incomodar
se sares nesses dias.
- Muito bem! Pelos vistos, atranjaste as coisas a teu gosto,
no  verdade?

300

- Acho que sim. Oh, Meg, ficaremos ricos! Trabalhatemos muito,
 economizaremos e depressa compraremos a melhor fazenda do Oeste
 de Qu ensland. H as catorze mil libras que tenho no banco de Gilly,
 as duas mil que viro todos os anos e as mil e trezentas, ou mais,
 que poderemos ganhar por ano com o nosso trabalho. Isto no demorar,
 amor, prometo. Sorri e aguenta tudo por mim, sim? Porque hs-de
 contentar-te com uma casa alugada se quanto mais ganhatmos agora mais
 depressa estars na tua prpria cozinha?
- Se  isso que queres... - Ela abaixou os olhos para a bolsa.-
 Luke, tiraste as minhas cem libras?
- Depositei-as no banco. No podes andar com dinheiro assim
 por a, Meg.
- Mas tiraste tudo! No tenho nem uma libra! E se eu precisar
 de gastar algum dnheiro?
- No necessitas, com certeza. Amanh de manh irs para
 Himmelhoch e l no ters onde gastar coisa alguma. Eu enearregar-me-ei
 da conta do hotel. J  tempo de compreenderes que casaste com um
 operrio, que no s a filha mimada do fazendeiro, com dinheiro para
 atirar pela janela. Mueller depositar os teus ordenados directamente
 na minha conta no banco, onde ficaro juntamente com os meus.
 Nenhum de ns tocar no dinheiro, porque  o nosso futuro, a nossa
 fazenda.
- Sim, compreendo. s muito sensato, Luke. Mas que acontecer
 se eu tiver um filho?
 Por um momento ele sentiu-se tentado a cantar-lhe a verdade,
 que no haveria filhos enquanto a fazenda no fosse uma realidade,
 mas alguma coisa no rosto dela f-lo arrepiar carreira.
- Atravessaremos essa ponte quando chegarmos l, sim? Eu pre-
 feria n ter filhos enquanto no possussemos a fazenda, por isso
 esperemos que no venham.
 Sem lar, sem dinheiro, sem flhos. E, a propsito, sem marido.
 Meggie comeou a rir. Luke acompanhou-a e ergueu a chvena de ch
 num brinde.
 As camisas-de-vnus - disse.
 De manh foram para Himmelhoch de autocarro, um velho Ford
 sem vidros nas janelas e com lugares para doze pessoas. Meggie sentia-se
 "' melhor, pois Luke deixara-a m paz quando ela Ihe oferecera um seio
 e parecia gostar tanto disso como daquela outra coisa horrvel.
 Por mais que ela quisesse filhos, faltara-lhe mragem. No primeiro
 domingo em que no estivesse to sensvel, tentaria outra vez.

301

Talvez j houvesse at um beb a caminho, e ela no precisaria de
preocupar-se mais com isso, a no ser que quisesse outros. Cam os olhos
mais brilhantes, olhou, interessada,  sua volta enquanto o autocarro
roncava pela estrada de terra vermelha.
 Uma rego emocionante, muito diferente de Gilly; cumpria-lhe
admitir que havia aqui uma grandeza e uma beleza que Gilly no possua.
Logo se via que a gua no devia escassear. O solo tinha a eor do
sangue recm-derramado, de um vermelho brilhante, e a cana nos campos
no alqueivados fazia um perfeito contraste com a terra: longas lminas
de um verde vivo a agitarem-se cinco a seis metros acima das hastes cor
de clarete, grossas como o brao de Luke. Em parte alguma do mundo,
dizia Luke com entusiasmo, a cana crescia to alta nem to rica em
acar; a sua produo era a mais elevada que se conhecia. Aquele solo
vermelho-vivo, com mais de trinta metros de profundidade, possua em
tamanha quantidade os elementos nutritivos indispensveis que a cana
no podia deixar de ser perfeita, mormente se se considerasse a chuva.
E em parte alguma do mundo era ela cortada com o ritmo impetuoso
e vido de dinheiro do homem branco.
- Farias boa figura num palanque de comcio, Luke - disse
Meggie, irnica.
 Ele dirigiu-lhe um olhar de vis, desconfiado, mas absteve-se de
fazer comentrios, porque o autocarro parara  beira da estrada para
desemharc-los.
 Himmelhoch era uma casa grande e branca no topo de uma colina,
cercada de coqueiros, bananeiras e belas palmeiras, cujas folhas se desdo-
bravam em grandes leques com caudas de paves. Um bambual de doze
metros de altura defendia a casa das mones de noroeste e, apesar da
altura da colina, ela erguia-se sobre estacas de cinco metros.
 Luke carregava-lhe a mala; Meggie afadigava-se subindo a estsada
vermelha ao lado dele, ofegante, ainda correctamente vestida e calada,
com sapatos e meias, e com o chapu a girar-lhe em torno do rosto.
O baro da cana no estava em casa, mas, enquanto os dois subiam
a escada, a esposa assomou  varanda, amparando-se a duas bengalas.
Sorriu, e, ao encontrar a seu rosto amvel e bondoso, Meggie sentiu-se
logo melhor.
- Entrem, entrem! - disse com um pesado sotaque australiano.
 Esperando uma voz alem, Meggie sentiu-se imensamente animada.
Luke colocou a mala no cho, apertou a mo da senhora quando esta
desenvencilhou a destra da respectiva bengala, e desceu a correr
a escada, na nsia de apanhar o autocarro na sua viagem de volta.

302

Arne Swenson combinara encontrar-se com ele  porta do bar, s dez
horas.
- Qual  o seu primeiro nome, Senhora O'Neill?

- Meggie.
- Oh, que bom! O meu  Anne, e prefiro que me chame assim,
tenho estado to sozinha desde que a sua antecessbra me deigou,
h um ms, e  to difcil conseguir algum para ajudar no servio
da casa! Somos s dois, Luddie e eu, e no temos filhos. Espero que
goste de viver connosco, Meggie.
- Estou certa de que gostarei, Senhora Mueller... Anne.
- Deixe-me mostrar-lhe o. seu quarto. Pode levar a mala? No sou
l muito boa para carregar com coisas.
 O quarto era austeramente mobiliado, como o resto da casa,
mas dava para o nico lado em que o olhar no esbarrava em quebra-
-ventos, e comunicava com a varanda, que pareceu a Meggie muito
despojada, com a sua moblia de vime e a sua falta de cortinas.
- Aqui  quente de mais para usarmos veludo ou chita - explicou
Anne. -Vivemos com vime, e vestims o que a decncia nos permite.
Terei de educ-la, ou morrer. Traz muita coisa intil sobre o corpo.
 Ela mesma trajava camiseta sem mangas, decotada, e shorts curtos,
donde Ihe saam, inertes, as pobres pernas tortas. Num abrir e fechar
de olhos, Meggie viu-se vestida da mesma maneira, com roupas de Anne,
que Ihas emprestaria at que Luke se decidisse a comprar-lhe roupas
novas. Era humilhante ter de explicar que no podia dispor de dinheiro,
mas, ao menos, isso servia para atenuar-lhe o constrangimento provo-
cado por vestir to pouca coisa.
- Os meus shorts ficar-lhe-o, com certeza, muito melhor do que
a mim - disse Anne, que continuou a falar animadamente. - Luddie
trar-lhe- a lenha; no precisar de rach-la nem de carreg-la escada
a cima. Eu gostava que tivssemos electricidade, como os lugares mais
prximos de Dunny, mas o Governo  mais vagaroso que uma semana
de chuva. Talvez a energia chegue a Himmelhoch para o ano que
vem, mas, por enquanto, somos obrigadas a usar aquele velho e horrfvel
fogo de lenha. Mas no se incomode, Meggie! Assim que haja energia,
.teremos um fogo elctrico, luz elctrica e um frigorfico.
- Estou habituada a passar sem eles.
- Sim, mas donde voc vem o calor  seco. Isto aqui  pior,
muito pior. Rereio que a sua sade venha a ressentr-se. o que
acontece a muitas mulheres que no nasceram nem foram criadas aqui;
qualquer coisa relacionada com o sangue. Estamos  mesma latitude,

303

no sul, que Bombaim e Rangum, no norte, o que quer dizer que isto
no  bom para quem no tenha nascido aqui. - Sorriu. - Oh, j sinto
como  bom t-la connosco! Vamos divertir-nos  grande as duas!
Gosta de ler? Luddie e eu temos a paixo da leitura.
 O rosto de Meggie iluminou-se.
- Oh, sim !
- Esplndido! Viver to contente que no sentir a falta do seu
simptico marido.
 Meggie no respondeu. Sentir a falta de Luke? Ele era simptico?
Se nunca mais tornasse a v-lo, seria completamente feliz. S que ele
era seu marido e, segundo a lei, ela teria de viver com ele. Fora para
o casamento com os olhos abertos, no podia culpar ningum excepto
a si mesma. Talvez, quando tivessem mais dinheiro e a fazenda em
Western Queensland fosse uma realidade, houvesse tempo para Luke
e ela viverem juntos, estabilizarem-se, conhecerem-se um ao outro,
darem-se bem.
 Ele no era mau, nem era um homem que no pudesse ser amado,
mas vivera sozinho tanto tempo que no sabia dar-se a Qu ra pessoa.
E era um homem simples, no atormentado, que perseguia, itnplacvel,
um nico propsito. Desejava uma coisa concreta, ainda que fosse
um sonho, uma recompensa positiva, que viria, decerto, como resultado
do trabalho sem descanso, do sacrifo triturante. Por isso metecia
respeito. Nem por um momento ela desconfiou de que o marido
empregasse o dinheiro em luxos para si; ele falara a srio: o dinheiro
ficaria no banco.
 O pior  que Luke no tinha tempo ou no era capaz de compreen-
der a mulher, no parecia saber que ela era diferente, que precisava
de coisas de que ele no precisava, e vice-versa. Contudo, podia ter
sido pior, podia t-la posto a trabalhar para uma pessoa muito mais
fria e menos atenciosa do que Anne Mueller. No alto daquele morro
no lhe aconteceria mal nenhum. Mas era to longe de Drogheda.
 O ltimo pensamento voltou-lhe depois de terminarem a visita
 casa, quando, juntas na varanda da sala de estar, estenderam a vista
alm de Himmelhoch. Os grandes canaviais, que, no entanto, se abarca-
vam com o olhar, balouavam, luxuriantes, ao vento, com o seu verde
buliosamente cintilante e lavado da chuva, descendo em longo declive
at s margens de um grande rio, muito mais largo que o Barwon.
Do outro lado, as terras de cana erguiam-se de novo, rectngulos de
verde venenoso interrompidos por sangrentos campos de pousio, at que
as plantaes terminavam no sop de vasta montanha, e a floresta

304

tomava conta da paisagem. Atrs do cone da elevao, mais alm,
outros picos erguia.m-se e morriam, purpurinos, na distncia. De um
azul mais rico e mais denso que o de Gilly, acolchoado de brancos
novelos de nuvens grossas, o cu e tudo o mais tinham um colorido
vivo e intenso.
- Aquele  o monte Bartle Frere - disse Anne, apontando para
o pico isolado. - Cento e oitenta metros que se erguem acima da
plancie, situada ao nvel do mar. Dizem que  todo formado de estanho,
mas no h esperana de explor-lo por causa da floresta.
 O vento pesado e ocioso trazia um cheiro forte e enjoativo,
que Meggie tentava afastar das narinas desde que descera do comboio.
Como a podrido, mas insuportavelmente doce, penetrante, presena
tangvel que nunca parecia diminuir, por mais forte que soprasse
o vento.
- Este cheiro  o melao - disse Anne ao notar as narinas dila-
tadas de Meggie; e acendeu um cigarro Ardath, comprado feito.
-  desagradvel.
- Eu sei.  por isso que fumo. Mas, at certo ponto, habituamo-
-nos a ele, embora, ao contrrio da maioria dos cheiros, nunca desaparea.
Comea o dia, ecaba o dia e o melao est sempre a.
- Que prdio  aquele, na margem do rio, com as chamins
pretas ?
-  a fbrica. Trabalha a cana at a transformar em acar bruto.
O que fica, isto , os resduos secos sem o contedo de acar, chama-se
bagao. Tanto o acar bruto como o bagao so remetidos para o Sul,
para Sidnei, e submedos a uma nova refinao. Do acar bruto
extrai-se o melao, o acar mascavado, o acar cristal, o acar refi-
nado e a glicose lquida. O bagao  transformado em tbuas fibrosas
para construo, como a masonite. Nada se desperdia, absolutamente
nada. Por isso  que, mesmo numa crise como esta, plantar cana continua
a ser um negcio muito rendoso.

 Arne Swenson media um metro e oitenta e sete centmetros
de altura, exactamente a altura de Luke, e era to bem parecido como ele.
O corpo nu tinha uma colorao cinza-dourada, mais escura pela perptua
exposio ao sol, e o cabelo, de um amarelo brilhante, encrespava-se
por toda a cabea; os belos traos suecos eram to parecidos com os
de Luke que se via facilmente quanto sangue nrdico devia ter passado
para as veias dos Escoceses e Irlandeses.

305

 Luke renunciara s calas e  camisa branca em favor dos shorts.
Subiu, em companhia de Arne, para uma velha e resfolegante camioneta
modelo T seguiram para o local onde o grupo cortava cana, ao p
do Goondi. A bicicleta em segunda mo que comprara ia atrs,
com a mala, e ele ansiava por comear o,trabalho.
 Os outros homens estavam a cortar desde o romper da manh e no
levantaram a cabea quando Arne pareceu vindo das barracas e tra-
zendo Luke a reboque. O uniforme dos cortadores consistia,m shorts,
botas com meias grossas de l e chapus de lona. Luke olhou para
os trabalhadores, que tinham um aspecto singul r. Uma espcie de p
preto como carvo cobria-os da cabea aos ps, e o suor desenhava-lhes
brilhantes riscas cor-de-rosa no peito, nos braos, nas costas.
- Fuligem e lama da cana - explicou Arne. - Precisamos de
queim-la para a poder cortar.
 Abaixou-se, pegou em dois instrumentos, deu um a Luke e ficou
com o outro.
- Isto  um faco de cana - disse, levantando o seu. - Com ele
cortas a cana.  muito fcil, se souberes manej-lo.
 Sorriu e passou  demonstrao, fazendo a coisa parecer mais fcil
do que provavelmente era.
 Luke olhou para o objecto mortal que o outro empunhava, nada
parecido com o machete usado nas fndias Ocidentais. Alargava-se para
formar um grande t3ingulo em vez de afilar-se at  ponta, e til ha
um gancho, como a espora de um galo, numa extremidade da lmina.
- O machete  pequeno de mais para a cana de North Queens-
land - disse Arne, concluda a demonstrao. - Vers que isto  um
verdadeiro brinquedo. Mantm-no afiado, e boa sorte.
 E l se foi para a sua seco, deixando Luke parado, indeciso
por um momento. Depois, encolhendo os ombros, este comeou a tra-
balhar. Dali a minutos compreendeu porQue destinavam aquele servio
a escravos e a raas ainda no civilizadas que ignoravam a existncia
de maneiras mais fceis de ganhar a vida; como a tosquia, pensou,
de mau humor. Inclinar-se, cortar, endireitar-se, segurar com firmeza
o feixe desajeitado, difcil de manejar, percorr-lo com as mos em
todo o comprimento, arrancar-lhe as folhas, deix-lo cair numa pilha
bem arrumada, dirigir-se ao feixe mais prximo, inclinar-se, cortar,
enditeitar-se, cortar, acrescent-lo  pilha...
 O canavial fervilhava de bicharia: ratos, baratas, sapos, aranhas,
cobras, vespas, moscas e abelhas. Tudo o que pudesse morder com
maldade ou picar de forma insuportvel estava ali bem representado.

308

Por essa razo, os cortadores queimavam a cana primeiro, preferindo
trabalhar com plantas chamuscadas. Mesmo assim eram ferroados, mor-
didos, cortados. No fossem as botas e os ps de Luke teriam ficado
em pior estado do que as mos, mas nenhum cortador usava luvas,
que atrasavam o trabalho. E o tempo, naquele trabalho, significava
dinheiro. De mais a mais, luvas eram coisas de maricas.
 Ao pr do Sol, Arne ordenou a paralisao do trabalho e foi ver
como se portara Luke.
- Ei, companheiro, nada mau! - gritou, batendo-lhe nas costas.
-Cinco toneladas; nada mau no primeiro dia!
 No era uma longa caminhada at s barracas, mas a noite tropical
caa to de repente que quando l chegaram j era escuro. Antes de
entrar, juntaram-se, nus, debaixo de um chuveiro comunitrio, e depois,
com toalhas enroladas na cintura, entraram nas barracas, onde o cortador
incumbido de cozinhar naquele dia j colocara sobre a mesa pratos
bem cheios da espcie de comida em que era especialista. Nesse dia
havia bfe com batatas, po sem fermento e geleia de frutas; os homens
caram sobre a comida e devoraram tudo, voracssimos, at  ltima
migalha.
 Duas fileiras de enxergas de ferro estendiam-se, uma diante da
outra, de cada lado de uma sala comprida; suspirando e maldizendo
a cana com urna originalidade que faria inveja a um boieiro, os homens
deixaram-se cair nus sobre os lenis enxovalhados, tiraram os mosqui-
teiros das argolas e dali a m o m e n t o s dormiam, formas imprecisas
debaixo de tendas de gaze.
 Atne deteve Luke.
- Deixa-me ver as tuas mos. - Inspeccionou os talhos que san-
gravam, as bolhas, as ferroadas. - Passa um desinfectante primeiro
e depois usa este unguento. E, se quiseres um conselho, esfrega-as todas
as noites com leo de coco. Tens mos grandes; portanto, se as costas
aguentarem, dars um bom cortador. Daqui a uma semana estars mais
rijo e isso doer menos.
 Cada msculo do esplndido corpo de Luke doa com uma dor
separada; ele no tinha conscincia de nada a no ser de uma algidez
imensa que o crucificava. Com as mos enroladas em panos e besun-
tadas de unguento, estendeu-se na cama que lhe fora destinada, desceu
o mosquiteiro e fechou os olhos sobre um mundo de pequenos buracos
sufocantes. Se tivesse imaginado o que estava  sua espera, no teria
desperdiado a sua vitalidade com Meggie; ela passara a ser uma ideia

307

PSSAftOS FERIDOS

murcha, no desejada e mal recebida no fundo da sua mente, e resolveu
que no teria mais nada com ela enquanto cortasse cana.
 Levou, de facto, uma semana para enrijar e atingir o mnimo de
oito toneladas dirias exigido por Arne dos membros da sua equipa.
Depois decidiu ser melhor que Arne, pois queria o maior quinho do
dinheiro, talvez uma sociedade. Mas pretendia principalmente ver con-
centrados sobre si os olhares que todos dirigiam a Arne, que era con-
siderado uma espcie de deus, por ser o melhor cortador de Queens-
land, o que significava, provavelmente, o ttulo de <<o melhor cortador
do mundo>>. Quando iam para uma cidade, no sa'bado  noite, os homens
do lugar no se cansavam de ofererer a Arne copos de rum e cer eja,
e as mulheres esvoaavam em torno dele como se fossem beija-flores.
Havia mutas semelhanas entre Arne e Luke. Vaidosos ambos, gosta-
vam de provocar intensa adznirao feminina, mas no passavam disso.
No tinham nada para dar s mulheres; davam tudo  cana.
 Para Luke o trabalho possua uma beleza e uma dor que se diria
que ele esperava toda a vida pata as sentir. Inclinar-se e endireitar-se
naquele ritmo ritual era patticipar de um mistrio que transcendia
a esfera dos homens comuns. Pois, como aprendera observando Arne,
ser capaz de efectuar cabalmente aquela tarefa era ser membro impor-
tante do grupo mais seleccionado de trabalhadores do mundo; ele pode-
ria caminhar orgulhoso, onde quer que estivesse, sabendo que quase
todos os homens que conhecia no durariam um dia sequer num cana-
vial. O rei de Inglaterra no era melhor do que ele, e o rei de Ingla-
terra admir-lo-ia se o conhecesse. Podia olhar com pie ade e desprezo
para mdicos, advogados, escrevinhadores, fazendeiros. Cortar cana
 maneira do homem branco, vido de dinheiro - esse, sim, era o feito
maior.
 Sentado na beira do catre, sentia inchar os msculos vigorosos
e encordoados do brao, contemplava as palmas calejadas e cheias de
cicatrizes das mos, a extenso curtida das pernas belamente estrutu-
radas, e sotria. Um tipo capaz de fazer aquilo e no s sobreviver mas
ainda gostar do que fazia, era um homem a srio. E perguntava a si
mesmo se o rei de Inglaterra poderia dizer o mesmo.

 Passatam-se quatro semanas sem que Meggie visse Luke. Todos
os domingos, ela empoava o nariz viscoso, punha um bonito vestido
de seda - embora desistisse do purgatrio das combinaes e das
meias - e ficava  espera do matido, que nunca aparecia. Anne e Luddie
Mueller no diziam nada, apenas observaaam a sua animao desapa-

308

iecer  medida que cada domingo escurecia dramaticamente, como
a cortina a cair sobre um palco vazio e bem iluminado. No que
u desejasse, mas acontece que Luke era dela, ou ela dele, no sabia
bem como expressar-se. Imaginar que o marido nem sequer se lem-
brava dela - que passava os dias ou as semanas  espera, pensando
nele-, era encher-se de raiva, frustrao, amargura, humilhao, tris-
teza. Por mais que tivesse abominado as duas noites no hotel de Dunny,
ao menos ento ocupara o prirmeiro lugar nos pensamentos dele; agora,
surpreendia-se a desejar realmente ter mordido a lngua em vez de
gritar de dor. Com certeza era isso. O seu sofrimento cansara-o, arrui-
nara-lhe o prazer. Da raiva que sentia por Luke, pela sua indiferena
ante o sofrimento dela, Meggie passou ao remorso e acabou por atribuir
a si prpria toda a culpa.
 No quarto domingo no se preocupou em vestir-se. Ficou na cozi-
nha, descala, de shorts e camiseta, a preparar um pequenwalmoo
quente pata Luddie e Anne, que apreciavam essa extravagncia uma vez
por semana. Ao ouvir o som de passos na escada do fundo, afastou
os olhos do toucinho que chiava na frigideira; durante um momento,
limitou-se a olhar para o homenzarro peludo que assomara  porta.
Luke? Aquele era Luke? Parecia feito de rocha, inumano. Mas a efgie
atravessou a cozinha, deu-lhe um beijo sonoro e sentou-se  mesa. Ela
quebrou ovos na frigideira e acrescentou-lhe um pouco mais de
toucinho.
 Anne Mueller entrou, sorriu cortesmente, mas, por dentro, sentiu
raiva. Que pretendia aquele tipo, ao abandonar a mulher assim por
tanto tempo?
- Alegro-me por ver que se lembrou de que tem uma esposa
- observou. - Venha para a varanda, venha sentar-se junto de Luddie,
e tomaremos juntos o pequeno-alxnoo. Luke, ajude Meggie a levar
o toucinho e os ovos. Eu levo a travessa com as torradas.
 Ludwig Mueller nascera na Austrlia, mas a ascendncia alem
manifestava-se nele claramente: a compleio carnuda e vermelha, que
no se dava bem com a combinao de cerveja e de sol, a cabea qua-
dtada e grisalha, de olhos blticos, de um ul-plido. O casal gostava
muito de Meggie e considerava-se afortunado por haver conseguido
os seus servios. Especialmente grato se mostrava Luddie, vendo Anne
muito mais feliz depois de aqueles cabelos loiros terem comeado a bri-
lhar pela casa.
- Como vai o corte de cana, Luke? - perguntou, enchendo
o prato de ovos e toucinho.

309

- Acreditaria em mim se lhe dissesse que gosto deste trabalho?
-riu-se Luke, enchendo tambm o seu.
 Os olhos astutos de Luddie pousaram no rosto do outro, e ele fez
um aceno afirmativo de cabea.
- Acredito. Voc tem o temperamento certo e o corpo certo
para isso. O trabalho f-lo sentir-se melhor do que os outros homens,
superior a eles.
 Amarrado  sua herana de canaviais, longe da vida acadmica
e sem possibilidades de trocar uma pela outra, Luddie era um estudioso
ardente da natureza humana; lia grandes tomos gordos, encadernados,
que ostentavam nas lombadas os nomes de Freud e Jung, Huxley
e Russel.
- Eu j comeava a pensar que voc nunca mais viria ver Meggie
-disse Anne, espalhando, com uma escova, manteiga de leite de
bfala na torrada; s assim podiam ter manteiga, mas era melhor do
que nada.
- Arne e eu resolvemos trabalhar tambm aos domingos, durante
algum tempo. Amanh partiremos para Ingham.
- O que quer dizer que a pobre Meggie no o ver com muta
frequncia.
- Ela compreende. No sero mais que dois anos, e ainda teremos
o perodo de inactividade do Vero. Arne diz que poder conseguir
trabalho para mim nas CSR de Sidnei e, nesse caso, levarei Meg comigo.
- Porque precisa de trabalhar tanto, Luke? - perguntou Anne.
- Quero juntar dinheiro para comprar a minha propriedade no
Oeste, nos arredores de Kynuna. Meg no lhe contou?
- Receio que a nossa Meggie no goste muito de falar sobre
assuntos pessoais. Conte-nos voc, Luke.
 Os trs sentados, observavam o jogo de expresses no rosto cur-
tido, forte, no brilho dos olhos muito azuis; desde que ele chegara,
antes do pequeno=almoo, Meggie no dssera uma palavra a ningum.
E Luke falou, sem se cansar, do maravilhoso pas que ficava atrs do
Alm; do capim, dos grandes grous cinzentos, chamados brolgas, que
andavam com passinhos midos, delicados, na poeira da nica estrada
de Kynuna, dos milhares e milhares de cangurus voadores, do sol
quente e seco.
- E qualquer dia destes, um naco de tudo isso ser meu. Meg
j juntou algum dinheiro e, ao ritmo a que estamos a trabalhar, no
 levar mais do que quatro ou cinco anos. Antes at, se eu me con-
 tentasse com um pedao mais pobre, mas, sabendo o que posso ganhar

a cortar cana, creio que cortarei um pouco mais e conseguirei um
pedao de terra realmente decente. - Inclinou-se para a frente, com
as grandes mos cicatrizadas em torno da chvena de ch. - Sabem
que, outro dia, quase ultrapassei o mximo de Arne? Cortei onze
toneladas!
 O assobio de Luddie era g e n u i n a m e n t e admirativo, e eles
empenharam-se numa discusso de mximos. Meggie sorveu o ch preto
e forte, sem leite. Oh, Luke! Primeiro eram dois anos, agora j so
quatro ou cinco, e quem sabe quantos sero na prxitna vez em que ele
mencionar um perodo de tempo! Luke gostava daquilo, no havia
dvida possvel. Teria ele coragem para abandonar tudo quando chegasse
a ocasio? E, a propsito, estaria ela disposta a esperar tanto tempo para
o saber? Os Mueller eram amabilssimos e o seu servio estava longe
de ser cansativo, mas, para viver sem marido, Drogheda era o melhor
lugar. Durante todo o primeiro ms da sua estada em Himmelhoch,
no se sentira realmente bem nem um dia sequer; no lhe apetecia comer,
tinha crises dolorosas de diarreia, pareca dominada por uma letargia
de que no conseguia lvrar-se. Como s estivesse habituada a sentir-se
bem disposta, aquele vago mal-estar amedrontava-a.
 Depois do pequeno-almoo, Luke ajudou-a a lavar os pratos, e, em
seguida, levou-a a passear ao canavial mais prximo, falando o tempo
todo no acar e no corte de cana, na bela vida que se levava ao ar
livre, no belo grupo de tipos que formavam a equipa de Arne, no
quanto aquilo era diferente da tosquia, e muito melhor.
 Deram meia volta e tornaram a subir a colina; Luke conduzia-a
 gruta deliciosamente fresca debaixo da casa, entre as estacas. Anne
transformara-a num viveiro de plantas, pusera de p pedaos de canos
de terracota de diferentes tamanhos e larguras, enchera-os de terra
e neles colocara plantas rastejantes e plantas pendentes: orqudeas de
 todas as espcies e cores, avencas, trepadeiras exticas e arbustos. O solo
 macio rescendia a cavacos de madeira; grandes cestos de arame pendiam
 das vigas, em cima, cheios de orqudeas, samambaias ou tuberosas; fetos
 em ninhos de crtice cresciam das estacas; magnficas begnias, de
cores brilhantes, floresciam em redor das bases dos canos. Aquele era
o retiro favorito de Meggie, a rca coisa de Himmelhoch que ela
preferia a tudo o que havia em Drogheda, pois l nunca se poderia
plantar tanta coisa num espao to pequeno; no havia no ar a quan-
tidade suficiente de humidade.
- No  lindo, Luke? Achas que daqui a uns dois anos estaremos

310 311

em condies de alugar uma casa em que eu possa viver? Morro de
vontade de fazer alguma coisa para mim.
- Porque diabo queres viver sozinha numa casa? Isto no  Gill ,
Meg;  o tipo de lugar onde uma mulher sozinha no est segura.
Ficars muito melhor aqui, acredita-me. No s feliz?
- To feliz quanto se pode s-lo na casa dos outros.
- Ouve, Meg, agora  preciso que te contentes com o que tens
at mudarmos para o Oeste. No podemos gastar dinheiro a alugar
casas. Aqui vives bem e ainda por cima economizas. Ests a ouvir?
- Estou, Luke.
 A sua perturbao era tanta que ele no fez o que pretendia
quando a levou para baixo da casa, isto , beij-la. Em vez disso, pes-
pegou-lhe uma palmada no traseiro, que doeu um pouco de mais para
ser casual, e desceu pela esttada at onde deixara a bicicleta encostada
numa rvore. Pedalara trinta e dois quilmetros para v-la sem gastar
dinheiro nos bilhetes de comboio e de autocarro, o que queria dizer
que teria de pedalar mais trinta e dois na viagem de volta.
- Pobrezinha! - disse Anne a Luddie. - Eu seria capaz de
mat-lo!

 Janeiro chegou e foi o ms mais fraco do ano para os cortadores
de cana. Mesmo assim, nem sinal de Luke. Ele falara em levar Meggie
a Sidnei, mas, ao invs disso, fora l com Arne e sem ela. Arne era
solteiro e tinha uma tia que morava em Rozelle, a uma distncia das
C;SR que se podia percorrer a p (nada de passagens de autocarro, era
preciso poupar ). No interior dos muros de concreto das refinarias, que
pareciam fortalezas sobre morros, um cortador com boas relaes pode-
ria conseguir ttabalho. Luke e Arne passaram o tempo a empilhar sacos
de acar e, nas horas de folga, nadavam ou faziam surf.
 Em Dungloe, mm os Mueller, Meggie passou, suando em bica,
os meses da chuva, como chamavam  estao das mones. A seca
durava de Maro a Setembro e, se bem que no fosse exactamente seca
nessa parte do continente, em confronto com a chuva era di ina. Durante
a chuva os cus abriam-se e vomitavam gua, no o dia todo, mas em
acessos e arrancadas; entre os dilvios, a terra fumegava e granden
nuvens de vapor branco subiam da cana, do solo, da floresta e das
montanhas.
 E,  medida que o tempo passava Meggie sentia cada vez mais
saudades de casa. Sabia agora que North Queensland nunca seria um
lar para ela. Em primeiro lugar, no se habituava ao clima, talvez pot

312

haver passado a maior parte da vida numa regio seca. Em segundo
lugar, odiava a solido, a desamizade, a imglacvel sensao de letargia.
Odiava ainda a vida prolfica dos insectos e rpteis que Ihe convertiam
todas as noites numa verdadeira provao, com sapos gigantes, tarn-
tulas, baratas, ratos; nada parecia mant-los afastados da casa, e eles
aterravam-na, to grandes, to agressivos, to esfomeados! Odiava sobre-
tudo o dunny, que era no s o termo de gria para indicar a casa
de banho mas tambm o diminutivo de Dangloe, para grande e perma-
nente gudio do povo local, que vivia a fazer ttocadilhos com a palavra.
Mas um dunny de Dunny deixava qualquer um de estmago virado,
pois, naquele clima em ebulo, os buracos na terra estavam tora
de causa, devido  febre tifide e a outras febres entrieas. Em lugar
de ser um buraco no cho, o dunny de Dunny era uma lata fedorenta
de estanho alcattoado e,  medida que se enchia, comeava a fervilhar
de larvas e vermes barulhentos. Uma vez por semana substitua-se a lata
cheia por outra vazia, mas no era o bastante.
 O esprito de Meggie rebelava-se contra a casual aceitao dessas
coisas como normais; mesmo que passasse uma vida inteira em North
Queensland no se reconciliaria com elas. Melancolicamente, no entanto,
reflectia que tinha todas as probabilidades de ali ficar uma existncia
inteira ou, pelo menos, at que Luke, envelhecendo, j no pudesse
cortar cana. Por mais que almejasse voltar a Drogheda e sonhasse com
o regresso, o orgulho no lhe permitiria confessar  famlia que o marido
pouco lhe ligava; preferiria, antes, cumprir a sentena de priso per-
ptua, dizia, feroz, de si para si.

 Passaram-se os meses, passou-se um ano e o tempo caminhava,
lerdo, para o fim do segundo ano. S a constante bondade dos Mueller
conservava Meggie em Himmelhoch, tentando resolver o seu dilema.
Se tivesse escrito a 8ob pedindo-lhe dinheiro para a passagem de volta,
ele t-lo-ia mandado no dia seguinte, por telegrama, mas Meggie no
sentia coragem de contar  famlia que Luke a mantinha sem uma libra
na bolsa. S diria isso no dia em que o deixasse para s mpre, e ainda
no se decidira a dar esse passo. Tudo na sua educao conspirava para
obstar a que ela o fizesse: a natureza sagrada dos votos matrimoniais,
a esperana de ter um filho, a posio de Luke como marido e dono
do seu destino. Alm disso, havia coisas que vinham da sua prpria
natureza: o otgulho teimoso, a escrupulosa convico de que ela era to
culpada como ele pela situao. Se no existisse nada errado nela, Luke
agiria de modo diferente.

313

 Vira-o seis vezes nos dezoito meses do seu exlio, e pensara com
frequncia, embora desconhecesse completamente a existncia da homos-
sexualidade, que Luke deveria ter casado com Arne, j que vivia com
ele e manifestava decidida preferncia pela sua companhia. Eles agora
eram scios e andavam de um lado para outro dos dois mil e seiscentos
quilmetros de costa, seguindo a colheita da cana e vivendo, ao que
tudo indicava, exelusivamente para o trabalho. Quando Luke ia visi-
t-la, no tentava nenhuma espcie de intimidade: conversava uma ou
duas horas com Luddie e Anne, levava-a a dar uma volta, dava-lhe um
beijo amistoso e partia de novo.
 Os trs, Luddie, Anne e Megge, passavam todo o tempo livre
a ler. Himmelhoch possua uma biblioteca bastante maior que as poucas
estantes de Drogheda, e muito mais erudita, e Meggie aprendeu muita
coisa enquanto lia.
 Num domingo de Junho de 1936, Luke e Arne apareceram juntos,
satisfeitssimos consigo mesmos. Tinham vindo, diziam, proporcionar
a Meggie um verdadeiro regalo, pois iam lev-la a um ceilid .
 Ao contrrio da tendncia geral dos grupos tnicos que habitavam
a Austrlia de se espalharem e australianizarem, as vrias nacionalidades
da pennsula de North Queensland - chineses, italianos, alemes,
escoceses e irlandeses, os cinco grupos que formavam o grosso da popu-
lao- tendiam a preservar com ferocidade as suas tradi s. E quando
se organizava um ceilidb, todos os escoceses, por mais longe que mo:a5-
sem, faziam questo de estar presentes.
 Para assombro de Meggie, Luke e Arne apareceram-lhe vestidos
com saiotes escoceses e estavam, pensou ela ao recobrar o uso da refle-
 o, positivamente magnficos. Nada  mais masculino num homem
masculino que um saiote, pois oscila, com passo largo e decidido, numa
agitao de pregas atrs e permanece perfeitamente mvel na frente,
enquanto a bolsa de pele protege as partes e, abaixo da bainha que
chega  metade do joelho, vem-se as pernas fortes e bonitas realadas
por meias axadrezadas e sapatos afivelados. Como estivesse muito
quente, no usavam o manto nem o jaleeo, contentando-se com uma
camisa branca aberta no peito, de mangas arregaadas acima dos
cotovelos.
- Mas que , afinal, um ceilidh? - perguntou Meggie quando
partiram.
- f um termo galico que significa reunio, baile.
- E porque carga de gua usam vocs esses saiotes?

314

- Porque no nos deixaro entrar sem eles, e somos bem conhe
cidos em todos os ceilidbs que se realizam entre Bris e Cairns.
- Ah, ? Imagino que devem mesmo ir a muitos, pois de outro
modo no consigo imaginar Luke a desembolsar dinheiro para comprar
um saiote. No  verdade, Arne?
- Um homem precisa de ter alguma distraco - disse Luke, na
defensiva.
 O ceilidb realizava-se num celeiro a cair aos pedaos, no meio das
bananeiras que apodreciam junto  embocadura do rio Dungloe. <<Livra,
ue regio aquela em matria de cheiros! >, pensou Meggie com deses-
pero, enquanto as suas narinas se contraam em contacto com outro
aroma indeseritivelmente nauseante. Melao, mofo, dunnies e, agora,
o cheiro das bananas podres. Todos os ftidos eflvios da beira-mar
reunidos num cheiro s.
 Todos os homens que chegavam  choa usavam saiote; quando
eles entraram e Meggie olhou  sua volta, compreendeu como a pavoa
deve sentir-se descolorida e deslumbrada pela grandiosidade do compa-
nhero. As mulheres tinham sido relegadas para uma quase inexistn-
cia, impresso que as fases ulteriores da noitada s conseguiriam
acentuar.
 Dois tocadores de gaita-de-foles, que ostentavam o xadrez escocs
eomplexo, de fundo azul-claro, do cl Anderson, em p num estrado
mal seguro na extremidade do recinto, tocavam uma alegre msica
escocesa em perfeita sineronia, o cabelo ruivo revolto, o suar a escorrer-
-lhes pelos rostos vermelhos.
 Alguns pares danavam, mas a maior parte da ruidosa actividade
parecia concentrar-se num grupo de homens que distribuam copos do
que s podia ser usque escocs. Meggie viu-se atirada para um canto
com outras mulheres, e contentou-se em ali ficar, fascinada. Nenhuma
delas usava o tecido axadrezado caracterstico de um cl, pois, de facto,
as escocesas no usam saiote, s o manto, mas estava quente de mais
para enrolar uma pea grande e pesada de tecido em torno dos ombros.
Por isso as mulheres vestiam os seus deselegantes vestidos de algodo
de North Queensland, tartamudos e silenciosos ao lado dos berrantes
saiotes dos homens. Havia o vermelho e o branco resplandecentes do
el Menzie, o preto e o amarelo alegres do cl Mac Leold de Lewis,
o azul translcido e os xadrezes vermelhos do cl Skene, a viva com-
plexidade do cl Ogilvy, o vermelho, o cinzento e o preto do cl Mac
Pherson. Luke estadeava as cores do cl Mac Neil, e Arne, o padro
distintivo dos jacobitas de Sassenach. Lindo!

315

 Luke e Arne eram obviamente conhecidos e queridos. Quantas
vezes teriam vindo sem ela? E que bicho lhes mordera para quererem
traz-la naquela noite? Suspirando, encostou-se  parede. As outras
mulheres espiavam-na, curiosas, mirando sobretudo a aliana nupcial do
seu dedo; Luke e Arne eram objecto de muita admirao feminina,
e ela, objecto de muita inveja feminina. Eu gostaria de saber o que elas
diriam se lhes contasse que o grandalho moreno, meu marido, me
viu exactamente duas vezes nos ltimos oito meses e nunca com a ideia
de ir para a cama? Olhem bem p a os dois presunosos a fingir que
so montanheses! Nenhum deles  realmente escocs, e esto apenas
a representar porque sabem que ficam bem de saiote e gostam de ser
o centro das atenes. Que magnfico par de embusteiros! To apaixo-
nados por si mesmos que no querem o amor de mais ningum e nem
precisam dele.>>
 A meia-noite, foram obrigadas a ficar em p  volta das paredes;
os tocadores de gaita-de-foles executaram s primeiros acordes de Caber
Feidh e a dana sria comeou. Durante o resto da sua vida, sempte
que ouvia o som de uma gaita-de-foles, Meggie revivia mentalmente
aquela choa. At o rodopio de um saiote escocs produzia esse efeito:
a fuso ideal do som e da imagem, da vida e da brilhante vitalidade,
que caracteriza as lembranas to penetrantes e fascinantes que nunca
se perdem.
 Colocaram-se no cho as espadas cruzadas; dois homens, com saiote
do cl Mac Donald de Sleat, ergueram os braos acima da cabea,
entortando as mos como danarinos de ballet e, muito gravemente,
como se as espadas tivessem por fora de mergulhar.nos seus peitos,
puseram-se a escolher o seu caminho entre as lminas.
 Ouviu-se um grito alto e estridente acima do gracioso tremular das
gaitas, a melodia passou a ser a de Todos os Escoceses alm da Fron-
teira, recolheram-se os sabres e todos os homens comearam a danar,
unindo e desunindo os braos, os saiotes a brilhar. Tocaram-se vrios
ritmos escoceses, mais ou menos impetuosos, e os homens no paravam.
O barulho dos ps que sapateavam nas tbuas do soalho ecoava entre
os caibros do telhado, as fivelas dos sapatos cintilavam e, cada vez
que o ritmo se alterava, algum atirava a cabea para trs e emitia um
grito estridente, ululante, dando incio a uma sucesso de gritos de
outras gargantas exuberantes. As mulheres, esqueridas, observavam.
 Eram quase quatro horas da manh quando o ceilidh terminou;
fora no havia o frescor adstringente de Blair Atholl nem de Skve, mas
o torpor de uma noite tropcal, a lua grande e pesada arrastava-se ao

316

longo das cintilantes extenses do firmamento, e pairava sobre a pai-
sagem o miasma ftido das bananeiras. Todavia, quando Arne os levava
no velho Ford resfolegante, a ltima coisa que Meggie ouviu foi
o lamento arrastado e cada vez mais distante de Flores da Floresta, des-
pedindo-se dos folies e mandando-os de volta para casa. Casa? Onde era
a sua casa?
- Ento, gostaste? - perguntou Luke.
- Teria gostado se tivesse danado mais - respondeu.
- Ora, essa!, num ceilidh? Deixa-te disso, Meg! S os homens
podem danar. Ns, alis, fomos at muito condescendentes com
as mulheres, deixando-as danar um bocadinho!
- O que me parece  que s os homens fazem muitas coisas, prin-
cipalmente quando so boas, agradveis.
- Ento, desculpa! - retorquiu Luke, formalizando-se. - Aqui
estava eu, a pensar que talvez gostasses de uma distraco e por isso
te trouxe. Afinal, eu no tinha obrigao de o fazer, e sabes muito bem
isso! Se no te mostrares agradecida, no te trarei e novo.
- Provavelmente, no tens inteno de faz-lo - respondeu
Meggie. - No te convm admitir-me na tua vida. Aprendi muita coisa
nestas ltimas horas, mas no creio que seja o que pretendias ensi-
nar-me.  cada vez mais difcil enganares-me, Luke. Na verdade, estou
farta de ti, farta da vida que levo, farta de tudo!
- Ssssh! - sibilou ele, escandalizado. - No estamos ss!
- Ento fiquemos ss ! - respondeu. - Quando terei a oportu-
nidade de ver-te a ss por mais do que alguns minutos?
 Arne parou no sop da colina de Himmelhoch, sorrindo compreen-
sivamente para Luke.
- Vai companheiro - disse. - Vai com ela at l acima; esperarei
aqui por ti. IV'o te apresses.
- Estou a falar srio, Luke ! - disse Meggie, assim que se viram
fora das vistas de Arne. - A pacincia est a acabar, entendeste? Sei
que prometi obedecer-te, mas tambm prometeste amar-me e tratar-me
com carinho, de modo que somos dois mentirosos! Quero voltar para
Drogheda!
 Ele pensou nas duas mil libras por ano que deixariam de ser depo
sitadas em seu nome.
- Oh, Meg! - disse, com expresso consternada. - Ouve, que-
rida, no ser para sempre, prometo! E neste Vero vou levar-te
a Sidnei, palavra de um O'Nell! Vai vagar um apartamento em casa
da tia de Arne, onde poderemos viver trs meses e passar uma tempo-

317

PSSAROS FEftIDOS

rada maravilhosa! Deixa-me cortar cana por mais um ano, ou misa que
o valha, que depois compraremos a nossa propriedade e instalar-nos-
-emos, est bem?
 A lua iluminou o rosto dele; Luke parecia sincero, perturbado,
ansioso, contricto. E assemelhava-se muito a Ralph de Bricassart.
 Meggie acalmou-se, pois alnda queria os filhos dele.

- Est bem - concordou. - Mais um ano. Mas tens de cumprir
a promessa de Sidnei, Luke, por isso, no te esqueas.

12

318

 :vra vez por ms Meggie escrevia uma carta respeitosa  me
 e aos irmos, cheia de descries de North Queensland, cuida-
 dosamente alegres, nunca aludindo a quaisquer divergncias
 entre ela e Luke. Sempre o velho orgulho. O que constava em
Drogheda, era que os Mueller eram amigos de Luke, em cuja casa ela
se hospedava porque Luke viajava muito. A sua genuna afeio pelo
casal transparecia em cada palavra que escrevia sobre os dois, de modo
que ningum em Drogheda ficou preocupado. S os entristecia o facto
de ela nunca os visitar. Mas como poderia ela contar-lhes tambm que
o seu casamento com Luke O'Neill assumira aspectos to lamentveis?
 De vez em quando, crava coragem e inseria uma pergunta casual
sobre o bispo Ralph e, com frequncia ainda menor, Bob lembrava-se
de transmitir o pouco que sabia, por intermdio de Fee, a respeito do
bispo. At que, um belo dia, recebeu uma carta cheia de notcias
acerca dele.
 <<O bispo chegou um dia inesperadamente, Meggie , dizia a carta
de Bob, uparecendo meio perturbado e abatido. Devo dizer que ficou
desconcertado quando no te encontrou. E ficou louco porque no lhe
havamos contado nada acerca de ti e de Luke, mas, quando a me
lhe disse que foras tu que tinhas querido assim, calou-se e no disse
mais nada. Creio que sentiu mais a falta de ti do que de qualquer um
de ns, e penso que isso  muito natural, porque passaste mais tempo
com Ralph do que todos ns, e acho que ele sempre pensou em ti como
numa irmzinha. Eleandava por a, coitado, como se no pudesse
acreditar que no aparecerias de um momento para outro. Tambm rlo
possuamcs um nico retrato teu para mostrar-lhe, e nunca pensei no
caso at que Ralph pediu para v-los, mas agora pattce-me engraado

319

que no tenhas tirado nenhum retrato do casamento. Ele perguntou se
j tens filhos e eu disse que me parecia que no. : verdade, no ,
Meggie? H quanto tempo ests casada? J vai para dois anos, no ?
Espero que arranjes filhos depressa, porque, na minha opinio, o bispo
gostar de saber isso. Ofereci-me para dar-lhe o teu endereo, mas ele
no quis. Disse-me que no adiantaria nada porque vai passar algum
tempo em Atenas, na Grcia, em companhia do arcebispo com quem
trabalha. Um nome italiano com quatro metros de comprimento, do qual
nunca consigo lembrar-me. Podes imaginar, Meggie, que eles esto,
nesta altura a voar? Pois  verdade! De qualquer manera, depois de
descobrir que no estavas em Drogheda para passear com ele, no ficou
muito tempo, andou apenas uma ou duas vezes a cavalo, rezou missa
para ns todos os dias e foi-se embora, seis dias depois de ter chegado. ,
 Meggie fechou a carta. Ele sabia! Afinal, ele sabia. Que pensara ele,
ter-se-ia afligido muito? E porque a impelira a fazer aquilo? No melho-
rara as coisas. Ela no amava Luke, nunca o amaria. Luke no passava
de um substituto, um homem que Ihe daria filhos semelhantes aos que
poderia ter tido de Ralph de Bricassart. Oh, Senhor, que confuso!

 O arcebispo di Contini-Verehese preferiu hospedar-se num hotel
secular a aceitar os aposentos que lhe tinham sido oferecidos num palcio
ortodoxo de Atenas. A sua misso era muito delicada e de alguma
importncia; havia j muito tempo que certos assuntos deviam ter sido
discutidos com os principais prelados da Igreja Ortodoxa grega,
pois o Vaticano nutria uma afeio pela ortodoxia grega e russa que
no poderia ter pelo protestantismo. Afinal de contas, as ortodoxias
eram cismas, no eram heresias, e os seus bispos, como os de Roma,
descendiam de So Pedro numa linha ininterrupta.
 O arcebispo sabia que a sua designao para essa tarefa era uma
prova diplomtica, um degrau que Ihe permitiria ascender a maiores
alturas em Roma. Mais uma vez lhe valera o talento para lnguas,
pois fora o seu grego fluente que fizera pender a balana a seu favor.
Eles tinham-no mandado vr da Austrlia de avio.
 E era inconcebvel que fosse sem o bispo de Bricassart, pois,
eom o passar dos anos, aprendera a contar cada vez mais com esse
homem assombroso. Um Mazarino, um verdadeiro Mazarino; Sua Exce-
lncia admirava muto mais o cardeal Mazarino do que o cardeal Riche-
lieu, de modo que a comparao representava um grande elogio.
Ralph tinha tudo o que a Igreja apreciava nos seus altos dignitrios.
A teologia e a tica conservadoras, o crebro rpido e subtil, o rosto

320

que no traa o que Ihe ia no ntimo e a notvel aptido para agradar
s pessoas que estavam com ele, quer as apreciasse ou as abominasse,
quer concordasse ou divergisse delas. E no era um sicofanta, era um
diplomata. Se se chamasse repetidamente para ele a ateno dos hierarcas
do Vaticano, a sua ascenso seria certa: E isso agradaria muito a Sua
Excelncia o Arcebispo di Contini-Verehese, que no queria perder
contacto com o bispo de Bricassart.
 Estava muito quente, mas o bispo Ralph no se incomodava com
o ar seco de Atenas depois de sofrer a humidade de Sidnei. Caminhando
depressa e envergando, como sempre, botas, calas e sotaina, subiu
a rampa rochosa que conduzia  Acrpole, transps o sombrio Propileu.
passou pelo Erecteion, continuou pelo declive, com zs suas toscas pedras
escorregadias, at ao Partnon, e dirigiu-se por fim para o muro, mais
alm e mais abaixo.
 Ali, com o vento a agitar-lhe o escuro cabelo encaracolado, que j
se agrisalhava ao nvel das tmporas, parou e olhou, por cima da cidade
branca, para as colnas distantes e para a clara e surpreendente gua
transparente do mar Egeu. Logo abaixo dele estava a Plaka, com os seus
cafs nos telhados das casas, as suas colnias de bomios e, mais para
o lado, um grande teatro envolvia a rocha. A distncia, lobrigou colunas
romanas, fortalezas do tempo das cruzadas e castelos venezianos,
mas nenhum sinal dos Turcos. Povo surpreendente, esses Gregos.
Odiavam tanto a raa que os governara durante setecentos anos que.
assim que se libertaram, no deixaram em p um minarete nem uma
mesquita. E to antigos, to cheios de riqussimas heranas. Os Nor-
mandos, de que provinha o bispo, eram brbaros cobertos de peles
quando Pricles revestiu de mrmore o topo da rocha, e Roma,
uma aldeia tosca.
 S agora, a dezoito mil quilmetros de distncia, se sentia capaz de
pensar em Meggie sem ter vontade de chorar. Mesmo assim, as colinas
distantes toldaram-se m o m e n t a n e a m e n t e antes que ele assumisse
o controle das emoes. Como poderia censur-la, se ele mesmo lhe
disseta que o fizesse? Compreendeu logo porque se negara Meggie
a contar-lhe: no queria que ele conhecesse o marido, nem que fizesse
parte da sua nova vida. Em tese, naturalmente, Ralph presumira que ela
traria o seu desposado a Gillanbone, se no  prpria Drogheda,
e continuaria a viver onde ele a sabia segura, livre de cuidados e perigos.
Mas logo que pensou nisso, percebeu ser essa a ltima coisa que ela
desejaria. No, Meggie teria de partir e, enquanto ela e esse Lulce O'Neil!
estivessem juntos. no voltaria. Bob dissera que eles estavam a economi

321

zar para adquirir uma propriedade em Western Queensland, e essa
notcia fora a derradeira p de cal. Meggie no tinha inteno de voltar.
No que lhe dizia respeito a ele, pretendia estar morta.
 <<Mas s feliz Meggie? Ele  bom para ti? Ama-lo? Amas esse
Luke O'Neill? Que espcie de homem , para que me deixasses por ele?
Que havia nele, um pastor comum, que te fez preferi-lo a Enoeh DavIes,
ou a Liam O'Rourke, ou a Alastair Mac Queen? Seria o facto de eu
no o conhecer, de eu no poder fazer comparaes? Fizeste isso para
torturar-me, Meggie, para te vingares d mim? Mas porque no h
filhos? Porque  que esse homem percorre a regio de norte a sul,
como um vagabundo, obrigando-te a morar com amigos? No admira
que no tenhas filhos; ele no fica contigo o tempo suficiente. Meggie,
porqu? Porque casaste com esse Luke O'Neill?>>
 Voltando, desceu da Acrpole e caminhou pelas ruas movimentadas
de Atenas. Demorou-se nos m rcados ao ar livre, em torno da Rua
Evripidou, fascinado pelas pessoas, pelas cestas imensas de camares
e de peixes que tresandavam ao sol, pelas verduras e chinelos de brocatel
pendurados lado a lado; as mulheres divertiam-se com os piropos que
lhe dirigiam, descarada e abertamente, legado de uma cultura muito
diversa do seu puritanismo. Se a atrevida admirao delas fosse lbrica
( ele no conseguia achar um termo melhor ), t-lo-ia enleado profunda-
mente, mas ele aceitava-a como o esprito com que ela se manifestava,
como um galardo outorgado  sua extraordinria beleza fsica.
 O hotel, muito luxuoso e caro, ficava na Praa Omonia. O arce-
bispo di Contini-Verchese sentara-se numa cadeira, ao p das janelas,
e reflectia tranquilamente; quando o bispo Ralph entrou, virou a cabea,
sorrindo.
- Chegou na altura exacta, Ralph. Eu queria rezar.
- Imaginei que tudo estivesse resolvido. Complicaes inesperadas,
Excelncia?
- No desse gnero. Recebi hoje uma carta do cardeal Monteverdi,
expressando os desejos do Santo Padre.
 O bispo Ralph sentiu os ombros apertados, um curioso formigueiro
da pele em torno das orelhas.
- Conte-me.
- Assim que as conferncias terminarem, e elas j terzninaram,
devo dirigir-me a Roma, onde serei abenoado com o barrete de cardeal
e onde continuarei o meu trabalho, sob a directa supervso de Sua
Santdade.
- E eu ?

322

- Ser nomeado arcebispo de Bricassart e voltar  Austrlia
para ocupar o meu lugar como legado papal.
 A pele que formigava em torno das orelhas purpurenu-se; a cabea
girou-lhe, rodopiando. Ele, um no italiano, agraciado com uma legao
papal! Nunca acontecera uma coisa dessas! No havia dvida, ele ainda
seria cardeal de Bricassart!
-  evidente que, primeiro, ter de ser treinado e instrud
em Roma. Isso levar, aproximadamente, uns seis mes-es, durante os
quais estarei ao seu lado para o apresentar aos meus amigos. Quero que
o conheam, porque tempo vir em que o mandarei chamar, Ralph,
para ajudar-me no meu trabalho no Vaticano.
- Nunca poderei agradecer-lhe, Excelncia! Devo-lhe esta grande
oportunidade.
- Deus permita que eu seja suficientemente inteligente para ver
quando um homem capaz deve sair da obscuridade, Ralph! Agora ajoelhe-
mos. Deus  muito bom.
 O seu rosrio e o seu missal estavam sobre uma mesa prxima;
com mo trmula, o bispo Ralph procurou alcanar o tosrio e derrubou
o missal. Quando este caiu no cho, abriu-se ao meio. O arcebispo,
mais perto dele, apanhou-o e olhou, curioso, para a forma escura,
fina como tecido, que fora uma rosa.
- Que coisa extraordinria! Porque guarda isso?  uma lembrana
da sua casa, da sua me, talvez?
 Os olhos que viam atravs da fraude e da dissimulao estavam
fitos nele, e no havia tempo para disfarar a emoo nem e apreenso.
- No - redarguiu o bispo Ralph fazendo uma careta. - No
quero lembranas da minha me.
- Mas isto deve significar muito para si, j que o guarda com
tanto amor entre as pginas do seu livro mais querido. De que fala ele?
- De um amor to puro como o que consagro a Deus, Vittorio.
Uma coisa que s honra o livro.
- Isso j eu havia deduzido, porque o conheo. Mas esse amor
no por, porventura, em risco o seu amor  Igreja?
- No. Pela Igreja renunciei a ela e pela Igreja sempre renunciarei
a ela. J fui to longe, que nunca mais poderei voltar.
- Agora, sim, entendo a tristeza! Querido Ralph, isso no  to
mau como pensa, no , no. Viver para fazer bem a muita gente,
e ser amado por muita gente. E a ela, que tem o amor contido numa
velha e flagrante lembrana como esta, nada lhe faltar, porque o Ralph
conservou o amor ao lado da rosa.

323

PSSAROS FEftIDOS

- No creio que ela compreenda nada disso.
- H-de compreender. Se no fosse uma mulher capaz de com-
preend-lo, no a teria amado dessa maneira. J teria esquecido e jogado
fora esta relquia h muito tempo.

- Tem havido momentos em que s as horas passadas de joelhos
me impediram de deixar o meu posto e correr para ela.
 O arcebispo levantou-se com ruidado da sua poltrona e foi ajoelhar-
-se ao lado do amigo, o belo homem que ele amava como amara poucas
coisas alm do seu Deus e da sua Igreja, para ele indivisveis.
- No deixar o seu posto, Ralph, sabe isso muito bem. Pertence
 Igreja, sempre pertenceu e sempre pertencer. A sua vocao  uma
vocao verdadeira. Rezemos agora, e eu acrescentarei a rosa s minhas
oraes para o resto da minha vida. Nosso Senhor envia-nos muitos
desgostos e muita dor na nossa caminhada para a vida eterna. Precisamos
de aprender a sofr-los, eu tanto como voc.

 No fim de Agosto, Meggie recebeu uma carta de Luke dizendo
que se achava no Hospital de Townseville com a molstia de D eil,
mas que no corria perigo de vida e depressa receberia alta.
 Por sso parece que no teremos de esperar at ao fim do ano
para gozar as nossas frias, Meg. S poderei voltar para a cana quando
estiver cem por cento fisicamente, e a melhor maneira de consegui-lo
 ter umas frias decentes. Portanto, irei buscar-te dentro de uma semana,
mais ou menos. Passaremos quinze dias no lago Eacham, no planalto
de Atherton, at eu ficar suficientemente bom para voltar ao trabalho.
 Meggie mal pde acreditar naquilo, e no sabia se queria ou no
estar com ele, agora que se Ihe oferecia a oportunidade. Se bem que
a dor do esprito tivesse levado muito mais tempo para passar do que
a dor do corpo, a lembrana do que fora para ela a lua-de-mel no hotel
de Dunny tnha sido expulsa do seu pensamento havia tanto tempn
que perdera o poder de aterroriz-la, e, graas s suas leituras,
eompreendia melhor agora que grande parte da provao se devera
 ignorncia, sua e de Luke. Oh, Senhor, tomara que essas frias
significassem um filho! Se ela tivesse um beb para amar tudo seria
muito mais fcil. Anne no se importaria de ter uma criancinha de colo
em casa, at gostaria disso, e Luddie tambm. Eles haviam-lhe dito isso
uma centena de vezes, esperando que, numa de suas visitas, Luke ficasse
o tempo sufiente para dar um pouco de cor  existncia triste e sem
amor da esposa.

324

 Quando ela Ihes contou o que dizia a carta, ficaram encantados,
mas, intimamente, cpticos.
-  to certo como dois e dois serem quatro: aquele desgraado
encontrar uma desculpa para partir sem ela - disse Anne a Luddie.
 Luke conseguira um automvel emprestado e foi buscar Meggie
de manh cedo. Estava magro, enrugado, amarelo, como se tivesse sido
conservado em salmoura. Impressionada, Meggie deu-lhe a mala e subiu

para o carro.
- Em que consiste a molstia de Weil, Luke? Disseste que no
corrias risco de vida, mas parece-me que estiveste realmente muito
doente.
-  uma espcie de ictericia, que a maioria dos cortadores apanha,
mais cedo ou mais tarde, transmitida pelos ratos da cana. Apanha-se
a doena atravs de um corte ou de uma ferida. Como eu sou forte,
no passei to mal como outros que tambm a apanharam. Os mdicos
disseram-me que estarei em perfeitas condies num abrir e fechar
de olhos.
 Subindo por uma grande garganta coberta de vegetao, a estrada
internava-se na montanha. Um rio rugia e corria com mpeto caudaloso,
e, de quando em quando, e s p I  n d i d a s cascatas caam com fragor,
indo juntar-se-lhe, ao lado da estrada. Passaram entre o rochedo e a
gua, que formava ali um ngulo, sob um arco molhado e flgido
de luzes e sombras fantsticas. E  medida que subiam, o ar refrescava
deliciosamente. Meggie esquecera-se da sensao maravilhosa que o ar
frio poderia proporcionar-lhe. A mata inclinava-se dos dois lados da
estrada, to fechada que ningum se atrevia a penetr-la. Disfarava-
-lhe a magnitude o peso de trepadeiras folhosas, que se estendiam da
copa de uma rvore  copa de outra, contnuas e interminveis, como um
vasto lenol de veludo verde atirado sobre a floresta. Pelas raras
aberturas da folhagem, Meggie entrevia flores e borboletas admirveis,
teias avantajadas como rodas de carroas, com grandes e elegantes
aranhas mosqueadas imveis no centro, fungos fantsticos saindo de
troncos musgosos, pssaros com longas e roagantes caudas vermelhas
ou fulvas.
 O lago Eacham fcava no topo do planalto, idlico no seu cenrio
intacto. Antes que a noite casse, eles foram para a varanda da penso
a fim de contetnplar a paisagem. Meggie desejava observar os enormes
morcegos frutvoros, chamados raposas voadoras, que se aproximavam
em crculos, como precursores do Juzo Final, aos milhares,  procura
de alimento. Apesar de monstruosos e repulsivos, eram singularmente

325

tmidos e no faziatn mal a ningum. V-los chegar num cu incandes-
cente, em lenis escuros, palpitantes, apavorava; Meggie nunca deixava
de ir v-los da varanda d-e Himmelhoch.
 E era divino deitar-se numa cama fofa e fria, sem ter de ficar
deitada, imvel, at que o lenol se eneharcasse de suor, e depois
mover-se com cuidado para um novo lugar, sabendo que o outro no
secar de maneira alguma. Luke foi buscar um pacote achatado e pardo
 mala, tirou dele um punhado de objectozinhos redondos e colocou-os
em fila sobre a mesa-de-cabeceira.
 Meggie estendeu a mo para pegar num deles, a fim de inspec
cion-lo.
- Que  isso? - perguntou, curiosa.
- Uma camisa-de-vnus. - Esquecera-se da deciso, tomada doi
anos antes, de no lhe dizer que praticava a preveno da gravidez.-
Coloco-a antes de entrar em ti. Se no fizer isso, poderei dar origem
a um beb, e no devemos ter filhos enquanto no comprarmos a nossa
fazenda. - Sentado como estava, nu, na beira da cama, notava-se-lhe
a magreza nas costelas salientes. Mas os seus olhos azuis brilhavam,
e ele estendeu a mo para apertar a dela, que segurava a camisa-de
-vnus. - Estamos quase, Meg, estamos quase. Calculo que com mais
cinco mil libras poderemos comptar a melhor propriedade que existe
a oeste de Chartets Towers.
- Ento j as temos - disse Meggie, eom -oz absolutamentc
calma. - Posso eserever ao bispo de Bricassatt e pedit-lhe o dinheiro
emprestado. Ele nem cobrar juros.
- No fars nada dsso! - retorquiu Luke, com brusquido.-
Que diabo, Meg, onde est o teu orgulho? Trabalharemos para conseguir
o que pretendemos, no pediremos nada emprestado! Nunca devi nad
a ningum em toda a minha vida e no  agora que vou comear a faz-lo.
 Meggie mal o ouvu, fitando nele o olhar feroz, atravs de uma
nvoa vermelha e brilhante. Nunca estivera to zangada na sua vida'
Impostor, mentiroso, egosta! Como se atrevia Luke a engan-la para
no lhe dar um beb, tentando faz-la acreditar que tinha a intenn
de tornar-se fazendeiro! Ele encontrara o seu ideal com Arne Swenson
e a cana-de-acar.
 Escondendo to bem a raiva que ela mesma se surpreendeu, voltou
a sua ateno para a rodelinha de borracha que tinha na mo.
- Fala-me a respeito destas camisas-de-vnus. Como  que elas
me impedem de ter um filho?

326

 Ele postou-se atrs dela, e o contacto dos seus corpos f-la estre-
mecer: de excitao, pensou ele; de nojo, percebeu ela.
- No sabes nada, Meg?
- No - mentiu esta, o que era exacto, alis, no tocante s
camisas-de-vnus; no se lembrava de ter lido qualquer referncia
a respeito delas.
 As mos de Luke brincavam som os seios dela, tocando-os de leve.
- Bem, quando acabo, sai esta... no sei... esta coisa branca,
e se eu estiver dentro de ti sem a camisa-de-vnus, ela fica l dentro.
E quando isso acontece e dura o tempo suficiente ou as vezes suficientes,
nasce um beb.
 Znto era isso! Ele usav a coisa, como a pele de uma salsicha!
Impostor !
 Apagando a luz, Luke puxou-a para a cama e, pouco depois, estava
tacteando  procura do seu dispositivo anticoncepcional; ela ouviu-o
fazendo os mesmos rudos que no quarto do hotel de Dunny; sabia agora
que ele estava a colocar a camisa-de-vnus. Impostor! Mas eomo
evit-lo?
 Tentando no deixar que ele percebesse que a estava a magoar,
ela suportou-o. Porque teria de doer assim, se era uma coisa natural?
- No adianta, no , Meg? - disse depois. - Deves ser muito
mida para que te continue a doer assim depois da primeira vez.
Bem, no tornarei a faz-lo. No te importas se eu fizer no seio?
- Que importncia tem isso? - perguntou em tom cansado.-
Desde que no me magoes, est bem!
- Poderias mostrar um pouco mais de entusiasmo, Meg!
- Pata qu?
 Mas ele comeava a levantar-se outra vez; havia dois anos que
no tinha tempo ou energia para isso. Sim, era bom estar com uma
mulher, excitante e proibido. No se sentia de modo algum casado
com Meg; era, alis, o mesmo que fazer amor com uma garota no
pasto atrs do bar de Kynuna, ou com a arrogante Sr Carmichael
encostados  parede do barraco de tosquia. Meggie tinha seios bonitos,
 firmes depois de tanto cavalgar, exactamente como ele os apreciava,
e preferia sinceramente conseguir o seu prazer no seio dela, pois gostava
 de sentir o pnis ensanduchado entre duas barrigas. As camisas-de-vnus
tiravam grande parte da sensibilidade do homem, mas deixar de p-las
quando ia enfiar=se nela era procurar sarilhos.
 Tacteando, puxou-lhe as ndegas, f-la deitar-se sobre ele, depois
agarrou um mamilo com os dentes, sentindo-lhe a ponta escondida

329

intumecer-se e endurecer sobre a sua lngua. Um grande dzsprezfl por
ele tomara conta de Meggie; que ridculas criaturas eram os homens,
gruz:iindo, chupando e esforando-se daquela maneira. Ele estava a ficar
mais etcitado, apertando-lhe as costas e as ndegas, arquejando como
um g. ho que, embora cresdo de mais, voltasse s escondidas para
a me. Os seus quadris principiaram a mover-se de forma rtmica,
espasmdica, e, deitada sobre ele desajeitadamente, porque detestava
ter de ajud-lo, sentiu entre as pernas a ponta do pnis desprotegido.
 Como no participasse do acto, ainda era dona dos seus pensa-
mentos. E foi ento que lhe surgiu a ideia. To lenta e discretamente
quanto pde, manobrou-o at dex-lo exactamente na sua parte mais
dolorida; depois, respirando fundo para no perder a coragem, e cerrando
os dentes, forou o pnis a entrar. Doeu, mas muito menos. Sem a bainha
de borracha, o membro, mais escorregadio, era mais fcil de introduzir
e de suportar.
 Luke abriu os olhos. Tentou afast-la de si, mas oh, Deus, era
inacreditvel o que sentia sem a camisa-de-vnus; nunca estivera dentro
de uma mulher sem o preservativo, nunca imaginara a diferena que
havia. Achava-se to prximo do orgasmo, to exctado, que, por mais
que tentasse, no conseguia empurr-la com fora suficiente e acabou
por enla-la com os braos, incapaz de prosseguir a sua actividade
no seio. Embora no fosse msculo gritar, no pde impedir-se de
o fazer. Depois, beijou-a suavemente.
- Luke?
- O que ?
- Porque no pode ser sempre assim? J no precisarias de pr
a camisa-de-vnus.
- No deveratnos ter feito sto, Meg. Eu estava bem dentro de ti
quando acabei.
 Ela inclinou-se sobr ele, acariciando-lhe o peito.
- Mas no vs? Eu estou sentada! A coisa no fica l dentro
est tudo a correr para fora outra vez! Oh, Luke, por favor! L muito
melhor e magoa muito menos. Tenho a certeza de que no faz mal,
porque sinto que est a correr. Por favor!
 Qual o ser humano capaz de resistir  repetio do prazer perfeito
oferecido de forma to plausvel? A semelhana de Ado, Luke consentiu,
pois, naquela altura, estava muito menos bem informado do que Meggi .
- Talvez seja verdade o que ests a dizer, e  muito melhor para
mim quando no lutas. Est bem, Meg, de agora em diante faremos
sempre assim.

328

PASSAROSFERIDOS

 No escuro, Meggie sorriu, contente, porque nem tudo escorrera
para fora. No momento em que o sentira afastar=se, ela retesara todos
os msculos internos, escorregara de cima dele at ficar deitada de costas,
erguera, casualmente, os joelhos cruzados e aferrara-se com toda a sua
determ nao ao que sobrara. <<Oh, meu belo cavalheiro, deixa estar
que darei um jeito nisto! No perdes por esperar, Luke O'Neill!
Terei o meu filho, nem que isso me mate!>>
 Longe do calor e da humidade do litoral, Luke restabeleceu-se
depressa. Comendo bem, comeou a recuperar os quilos que perdera,
e a sua pele mudou de cor, passando do marelo doentio para o moreno
de sempre. Com a tentao de uma Meggie desejosa e sensvel na cama,
no foi muito difcil persuadi-lo a prolongar para trs as duas semanas
originais, e depois para quatro. Mas, ao cabo de um ms, ele rebelou-se.
- J no h desculpas, Meg. Sinto-me melhor do que nunca.
Estamos aqui, sentados no topo do mundo, como um rei e uma rainha,
a gastar dinheiro. Arne precisa de mim.
- No queres pensar melhor, Luke? Se quiseres, comprarias j
a nossa fazenda.
- Vamos continuar mais algum tempo como estamos, Meg.
 Ele recusava-se a reconhec-lo, naturalmente, mas o fascnio do
acar estava nos seus ossos, a estranha atraco que alguns homens
sentem pelo trabalho total. E enquanto Ihe durasse a fora da juventude,
Luke permaneceria fiel ao acar. A nica coisa que Meggie poderia
fazer para obrig-lo a mudar de ideias era dar-lhe um filho, um herdeiro
para a propriedade nos arredores de Kynuna.

 Por isso ela voltou para Himmelhoch a fim de aguardar e esperar.
Por favor, por favor, que venha um beb! Um beb resolveria tudo!
E veio. Quando ela deu a nota a Anne e Luddie, eles exultaram.
Luddie sobretudo revelou-se um artista. Fazia lindos trabalhos de fran-
zidos e bordados, duas habilidades que Meggie nunca tivera tempo
de dominar. E enquanto ele, com es mos calosas e mgicas, empurrava
uma agulha minscula atravs do tecido delicado, Meggie ajudava Anne
a arrumar o quarto do beb.
 A nica dificuldade era que a criana no estava em boa posio
e Meggie no sabia ao que poderia atribu-lo, se ao calor se  sua
infelicidade. O enjoo matinal durava o dia inteiro e persistiu durante
muito tempo, apesar de a dever ter parado; a despeito do escasso
aumento de peso, ela principiou a sofrer muito em virtude do excesso
de fluido nos tecidos do corpo, e a sua presso sangunea subiu a ponto

329

de deixar o Dr. Smith apreensivo. A princpio, ele falou ein pr Meggie
num hospital de Cairns durante o resto da gravidez, mas, depois de
muito pensar na sua situao, sem marido e sem amigos, concluiu que
ficaria melhor em companhia de Luddie e Anne, que se interessavam
por ela. Nas trs ltimas semanas de gestao, teria, contudo, de ir para
Cairns.
- E procure fazer com que o marido venha v-la - rugiu, diri-
gindo-se a Luddie.
 Meggie escrevera logo a Luke a fim de lhe comunicar que estava
grvida, com a habitual convico feminina de que, uma vez que se
tratava de um facto consumado, Luke ficaria doido de alegria. A carta
que ele mandou em resposta acabou com as suas iluses. Estava furioso.
Para ele, tornar-se pai significava simplesmente ter duas bocas ociosas
para alimentar, em vez de uma. Foi uma plula bem amarga para Meggie
engolir, mas ela engoliu-a; no tinha escolha. A criana que se anunciava
ligava-a agora a Luke to estreitamente como o seu orgulho.
 Mas Meggie sentia-se mal, indefesa, totalmente abandonada, nem
o beb a amava, pois no queria ser concebido nem queria nascer.
Percebia nas entranhas os frgeis protestos da dbil e minseula criatura
contra a sua transformao num ser. Se ela fosse capaz de suportar
os trs mil e duzentos quilmetros que a separavam de casa, tetia
regressado a Drogheda, mas o Dr. Smith sacudiu a cabea com firmeza.
Viajar de comboio uma semana ou mais, ainda que a viagem se fizesse
por etapas, equivaleria a perder a criana. E, muito embora se sentisse
desapontada e inf~liz, Meggie no prejudicaria deliberadamente o beb
se bem que,  medida que o tempo se escoava, o seu entusiasmo e o
seu desejo ardente de ter algum para amar estiolassem a olhos vistos.
 O Dr. Smith sugeriu uma mudana antecipada para Cairns, pois no
tinha a certeza de que Meggie sobreviveria a um parto em Dungloe,
que s possua uma enfermaria em precrias condies. A sua presso
sangunea recalcitrava, o fluido continuava a aumentar, e ele falou em
toxemia, eclmpsia e noutros termos mdicos que assustaram Anne
e Luddie e os foraram a concordar, por mais que quisessem ver o beb
nascer em Himmelhoch.
 No fim de Maio s faltavam quatro semanas, quatro semanas para
que Meggie pudesse libertar-se do seu fardo intolervel, daquele filho
ingrato. Ela comeava a odiar o prprio set a quem tanto quisera,
antes de descobrir as dificuldades que ele lhe causaria. Porque julgara
que Luke esperaria ansioso a vinda da ctiana depois de a sua existncia

330

ser uma realidade? Nada na sua atitude nem na sua comduta depois
do casamento indicava que le agiria assim.
 J estava na altura de admitir que o casamento fora um desastre,
de renunciar ao seu orgulho tolo e de tentat salvar das runas o que
pudesse. Eles haviam-se unido por motivos errados: ele pelo dinheiro
dela; ela para fugir de Ralph de Bricassart, ao mesmo tempo que tentava
reter Ralph de Bricassart. Nunca houvera sequer uma simulao de amor,
e s o amor os teria ajudado, a ela e a Luke, a superar as enorm s
dificuldades criadas pelas suas metas e desejos divergentes.
 Por mais estranho que fosse, Meggie parecia incapaz de odiar Luke,
embora se surpreendesse a odiar Ralph de Bricassart com frequncia
cada vez maior. E, no entanto, no cmputo geral, Ralph tinha sido
muito mais bondoso e muito mais justo cotn ela do que Luke. Nem uma
vez a animara a sonhar com ele a no ser como padre e amigo, pois at
nas duas ocasies em que a beijara, a iniciativa partira dela.
 Porqu, ento, zangar-se com ele? Porqu odiar Ralph e no
odiar Luke? A culpa era dos seus prprios temores e deficincias,
do imenso e ultrajado ressentimento que lhe inspirara a sistemtica
rejeio dele, enquanto ela o amava e lhe queria tanto. E a culpa era
do impulso estpido que a levara a desposar Luke O'Neill. Uma traio
a si mesma e a Ralph. No importava que nunca tivesse podido casar
com ele, dormir com ele, ter um filho dele, no importava que ele
no Ihe quisesse. Acima de tudo, persistia a questo de que era de Ralph
que Meggie gostava e nunca deveria ter-se contentado com menos.
 Mas o facto de reconhecer os erros no alterava a situao,
Luke O'Neill continuava a ser o homem que ela desposara, e continuava
a ser de Luke O'Neill o filho que ela carregava. Como poderia esse
filho dar-lhe felicidade se nem o pai queria saber da criana? Depois
de nascer, pelo menos, seria o seu prprio pedao de humanidade,
e am-lo-ia como tal. S que... Quanto no daria ela pelo filho de Ralph
de Bricassart? O impossvel. Ralph servia uma instituio que insistia
em apoderar-se de tudo o que era dele, at a parte que para ela no
tinha o menor valor, a sua virilidade, que a Madre Igreja exigia como
um sacrif io ao seu poder institucional, e assim desperdiava-o, esma-
gava-lhe o ser, para que ele, quando parasse, parasse para sempre.
Mas um dia ela teria de pagar pela sua ganncia. Um dia j no haveria
Ralphs de Bricassart, porque todos teriam dado  sua virilidade valor
suficiente para perceber que o sacrifcio era intil, totalmente sem
sentido...

331

 De repente, Meggie levantou-se e drigiu-se  sala de estar, onde
Anne, sentada, lia um exemplar clandestino do romance interdito de
Norman Lindsay, Redheap, e obviamente se deliciava com cada palavra
proibida.
- Anne, creio que o seu desejo vai realizar-se.
 A outra ergueu os olhas com expresso ausente.
- Que foi, minha querida?
- Telefone para o Doutor Smith. Vou ter este pobre beb aqui
e agora.
- Oh, meu Deus! V para o quarto e deite-se... para o seu
quarto no, para o nosso!
 Maldizendo os caprichos do destino e a determinao dos bebs,
o Dr. Smith saiu disparado de Dungloe no seu calhambeque com
a parteira local no assento de trs e todo o equipamento que pde
catregar do seu hospitalzinho improvisado. No adiantava lev-la para l;
ele poderia fazer o mesmo por Meggie em Himmelhoch. Em Cairns
 que ela devia estar.
- Avisaram o marido? - perguntou enquanto suba com esforo
a escada da frente, seguido pela parteira.
- Mandei-lhe um telegrama. Ela est no meu quarto; achei que
l o senhor teria mais espao.
 Manquejando na esteira dos dois, Anne entrou no quartn. Deitada
na cama, de olhos arregalados, Meggie no mostrava sinais de dor a no
ser um espasmo ocasional das mos, uma t traco do corpo. Virou
 cabea a fim de sorrir para Anne, e esta percebeu que os olhos dela
pareciam amedrontados.
- Ainda bem que no fui para airns - disse Meggie. - Minha
me nunca precisou de hospital para ter filhos, e o pai contou certa
vez que ela passou muito mal com Hal. Mas sobreviveu, e eu tambm
sobreviverei. Ns, as mulheres da famlia Cleary, somos difceis de matar.
 Somente horas depois o mdico foi ter com Anne  varanda.
- Ser um trabalho demorado e duro para ela. Os primeiros
filhos raramente so fceis, mas este no est em boa posio e a
pobrezinha por mais que se esforce no consegue nada. Se estivesse
em Cairns poderamos fazer uma cesariana, mas isso aqui est fora
de causa. Ela ter de dar  luz pelos prprios meios.
- Est consciente?
- Est, sim. : v tlente, no grita nem se queixa. Na minha opinio,
so sempre as melhores que passam pior. No pra de perguntar-me

332

se Ralph j chegou, e sou obrigado a mentir-lhe, dizendo que o John-
stone transbordou. Pensei que o nome do marido fosse Luke.
- E .
- Hummm! Ento  por isso que ela est a chamar pelo tal
Ralph, seja ele quem for. Parece que Luke no  um grnde consolo.
- Luke  um cretino.
 Anne inclinou-se para a frente, com as mos na balaustrada da
varanda. Vindo da estrada de Dunny, um txi enveredara pelo caminho
que conduzia a Himmelhoch. A sua vista excelente acabara de distinguir
um homem de cabelo preto no assento traseiro, e ela soltou uma
egclamao de alvio e alegria.
- No acredito no que estou a ver, mas parece que Luke se
lembrou finalmente de que tem mulher!
- Ento  melhor que eu v ter com ela. Voc fica aqui para
entender-se com ele, Anne. No direi nada a Meggie, pois talvez no
seja ele. Se for, d-lhe uma xcara de ch e deixe o pior da histria
para contar depois.
 O txi parou e Anne viu o motorista apear-se, dirigir-se  porta
de trs e abri-la, o que a surpreendeu, pois Joe Castiglione, motorista
do nico carro de praa de Iunny, no era dado a cortesias.
- Himmelhoch, Excelncia - disse Joe, inclinando-se profunda-
mente.
 Um homem que envergava uma longa e bem talhada sotaina preta,
com um gor oro de prpura na cintura, desceu do carro. Quando ele
se voltou, Anne sups, por um momento, que fosse alguma brincadeira
de Luke O'Neill. Depois viu que o homem era muito diferente e tinha,
pelos menos, dez anos a mais do que ele. <<Meu Deus!m pensou, quando
a gatbosa figura subiu a escada a dois e dois, n o homem mais bonito
que j vi em toda a minha vida! E arebispo, ainda por cima! Que que-
rer um arcebispo catlico de um casal de velhos luteranos como Luddie
e eu? >>
- Senhora Mueller? - perguntou, sorrindo-lhe com os olhos azuis,
bondosos e distantes, como se j tivesse visto muita coisa que preferiria
no ver e conseguira deixar de sentir havia muito tempo.
- Sim, sou Anne Mueller.
- Sou o arcebispo Ralph de Bricassart, legado de Sua Santidade
na Austrlia. Segundo me consta, a senhora tem uma hspede chamada
Meggie O'Neill em sua casa?
- Tenho, sim, senhor.
 Ralph? Ralph? Seria esse Ralph?

333

- Sou um velho amigo dela. Posso v-la, por favor?
- Tenho a certeza de que, em circunstncias normais, ela fcaria
encantada, arcebispo - no, no estava certo, no se dizia uarcebispo>>,
dizia-se <<excelncia>>, como Joe Castiglione-, porm Meggie acaba
de entrar nas dores do parto, e est a passar mal.
 Anne viu, ento, que ele no conseguira, absolutamente, deixar de
sentir e apenas disciplinara os sentimentos, que se mantinham em canina
abjeco no fundo da sua mente. Os olhos do arcebispo eram to azuis
que ela pensou afogar-se neles, e o que via agora f-la perguntar a si
mesma o que era Meggie para ele e o que era ele para Meggie.
- Eu saba que alguma coisa estava errada! Tenho sentido que
alguma coisa est errada h muito tempo, mas, ultimamente, a minha
preocupao tornou-se obsessiva. Por favor, deixe-me v-la! Se a senhora
precisar de uma razo, sou padre.
 Anne jamais tencionara impedi-lo de v-la.
- Venha, Excelncia, por aqui, por favor.
 E enquanto ela se arrastava, devagar, entre as duas bengalas,
no cessava de pensar: uA casa est limpa e arrumada? J limpei
o p hoje? J atirmos fora aquele fedorento pernil de carneiro, ou ele
continua rescendendo pela casa toda? Que momento para um homem
importante como este nos fazer uma visita! Luddie, tiras ou no esse
traseiro gordo do tractor e entras? O rapaz j devia ter-te encontrado
h horas ! >>
 Ele passou pelo Dr. Smith e pela parteira como se no existissem
e foi cair de joelhos ao lado da cama, enquanto a sua mo se estendeu
para a dela.
- Meggie !
 Ela emergiu do sonho pavoroso em que se afundara e viu o rosto
amado perto do seu, o basto cabelo preto agora com duas asas brancas
no seu negrume, os belos traos aristocrticos um pouco mais acentuados,
mas pacientes se possvel, e os olhos azuis fitos nos dela com amor
e desejo. Como pudera confundir Luke com ele? No havia ningum
como ele. Luke era o lado escuro do espelho; Ralph era esplndido
como o sol, e igualmente remoto. Como era bom v-lo!
- Ralph, ajude-me - disse.
 Ele beijou-lhe a mo apaixonadamente, depois encostou-a ao seu
rosto.
- Sempre, minha Meggie, sabes bem isso.
- Reze por mim e pelo beb. Se algum pode salvar-nos.  voc.

334

Est muito mais perto de Deus do que ns. Ningun- nos quer, nunca
ningum nos quis, nem mesmo o Ralph.
- Onde est Luke?
- No s i e no quero saber.
 Meggie fechou os olhos e rolou a cabea no travesseiro, mas
os seus dedos, enclavinhados nos dele, no queriam deix-lo partir.
 Nesse momento, o Dr. Smith tocou-lhe no ombro.
- Excelncia, creio que deve sair agora.
- Se a vida dela correr perigo, o senhor chama-me?
- Imediatamente.
 Luddie chegara finalmente do canavial,  estava frentico porque
no conseguia ver ningum e no tinha coragem para entrar no quarto.
- Anne, ela est bem? - perguntou, no momento em que sua
esposa saiu em companhia do arcebispo.
- Por enquanto. O doutor no quer comprometer-se, mas creio
que tem esperanas. Luddie, temos visitas. Este  o arcebispo Ralph
de Bricassart, velho amigo de Meggie.
 Mais entendido do que a esposa, Luddie dobrou um joelho e bei-
jou o anel da mo que lhe estendiam.
- Sente-se, Excelncia, e eonverse com Anne. Vou ferver um pouco
de gua para fazer ch.
- Com que ento, o senhor  Ralph - disse Anne, encostando
as bengalas a uma mesa de bambu, enquanto o sacerdote se sentou
defronte dela, com as pregas da sotaina cadas  sua volta, e deixando
claramente visveis as botas pretas e lustrosas de montar,' pois cruzara
as pernas. Era um gesto efeminado para um homem, mas, ti atando-se
de um padre no tinha importncia; no entanto, com as pernas cruzadas
ou descruzadas, havia nele qualquer coisa intensamente masculina.
E no devia ser to velho como ela supusera a princpio; teria, quando
muito, uns quarenta e poucos anos. Que desperdcio!
- Sm, sou Ralph.
- Desde que principiaram as dores de parto, Meggie tem per-
guntado por algum chamado Ralph. Devo confessar que estou abis-
mada. No me lembro de t-la ouvido mencionar uma nica vez tal nome.
- Ela nunca seria capaz disso.
- Como  que Vossa Excelncia conhece Meggie? H quanto
tempo ?
 O padre sorriu obliquamente e juntou as mos, finas e belas, for-
mando com elas um tecto pontiagudo de igreja.

335

- Conheo Meggie desde os dez anos de idade, tinha ela desem-
barcado h alguns dias da Nova Zelndia. A senhora pode dizer, sem
mentir, que a conheo atravs das inundaes, dos incndios e da fome
emocional, atravs da morte e da vida. Atravs de tudo o que temos
de suportar. Meggie  o espelho em que sou forado a ver a minha
mortalidade.
- O senhor ama-a? - Havia surpresa no tom de Anne.
- Sempre a amei.
-  uma tragdia para os dois.
- Eu esperava que fosse apenas para mim. Fale-me a respeito
dela, conte-me o que lhe aconteceu depois de se casar. H muitos anos
que no a vejo, mas no me sinto feliz a respeito dela.
- Eu contar-lhe-ei, mas s depois de o senhor me falar de Meggie.
No me refiro a coisas pessoais, apenas  espcie de vida que ela levava
antes de vir para Dunny. No sabemos absolutamente nada sobre ela,
Luddie e eu, a no ser que vivia num stio perto de Gillanbone. Gos-
taramos de conhecer mais, porque Ihe somos muito afeioados. Mas ela
nunca se disps a contar-nos coisa alguma... por orgulho, creio eu.
 Luddie trouxe uma bandeja com ch e muita comida, e sentou-se
enquanto o padre Ihes fazia um esboo da vida de Meggie antes de
casar com Luke.
- Eu nunca seria capaz de adivinhar! Pensar que Lulse O'Neill
teve a temeridade de tir-la de tudo isso e faz-la trabalhar como empre-
gada domstica! E a desfaatez de estipular que os salrios dela fossem
depositados no banco, na conta dele! Sabe que a pobrezinha nunca
teve uma libra na bolsa para gastar desde que est aqui? Pedi a Luddie
que Ihe desse uma gratificao em dinheiro no ltimo Natal, mas, nessa
ocasio, ela j precisava de tanta coisa que gastou tudo num dia, e nunca
mais aceitou nada de ns.
- No tenham pena de Meggie - disse o arcebispo Ralph em tom
ligeiramente spero. - Creio que nem ela sente pena de si mesma,
e muito menos por no ter dinheiro. O dinheiro, afinal, no Ihe trouxe
muitas alegrias. Ela sabe onde encontr-lo se no puder passar sem ele.
Eu diria que a aparente indiferena de Luke a magoou muito mais que
a falta de dinheiro. Minha pobre Meggie!
 Anne e Luddie traaram juntos um esboo da vida de Meggie,
enquanto o arcebispo de Bricassart, sentado, com as mos unidas for-
mando um campanrio, tinha o olhar perdido no belo leque majestoso
de uma palmeira, l fora. Nenhum msculo do seu rosto se moveu,
mudana alguma se registou nos belos olhos, aparentemente distrados.

336

Ele aprendera muito desde que entrara para o servio de Vittorio Scar-
banza, cardeal di Contini-Verchese.

 Quando os dois concluram a narrativa, ele suspirou e transferiu
o olhar para os rostos ansiosos dos donos da casa.
- Bem, parece que temos de ajud-la, j que Luke se nega a faz-lo.
Se ele realmente no a quer, ela estar melhor em rogheda. Sei que
os senhores no querem perd-la, mas, por amor dela, procurem per-
suadi-la a voltar para casa. Eu mandar-lhes-ei um cheque de Sidnei para
ela, a fim de lhe poupar o constrangimento de pedir dinheiro ao irmo.
Depois, quando estiver em casa, dir  familia o que bem entender.

- Olhou para a porta do quarto e mexeu-se, desassossegado. - Meu
Deus, fazei com que a criana nasa!
 Mas a criana s nasceu dali a vinte e tantas horas, e Meggie quase
morreu de cansao e dor. O Dr. Smith dera-lhe copiosas doses de lu-
dano, que, na sua opinio antiquada, ainda era a melhor coisa; ela
parecia vogar  deriva, turbilhonando atravs de pesadelos espiralados,
em que coisas de fora e de dentro se rompiam e rasgavam, arranhavam
e cuspiam, uivavam, lamuriavam e rugiam. As vezes, o rosto de Ralph
entrava em foco por breve momento, mas logo se dissipava numa onda
de dor cada vez maior; a lembrana, no entanto, persistia e, enquanto
ele estvesse ali, a vigiar, Meggie sabia que nem ela nem o beb
morreriam.
 Deixando a parteira sozinha, a tomar conta da situao, o Dr. Smith
saiu do quarto, para poder comer alguma coisa, tomar um bom gole
de rum e verificar se nenhum dos seus outros pacientes tivera a descon-
siderao de pensar em morrer, ouvindo ento sobre a histria tudo
o que Anne e Luddie acharam conveniente contar-lhe.
- Tem razo, Anne - disse. - O facto de ter andado tanto
a cavalo  provavelmente um dos motivos das dificuldades de hoje.
O desaparecimento do silho foi um mal para as mulheres que pre-
cisam de cavalgar muito. Montar como os homens desenvolve os ms-
culos errados.
- Pois eu ouvi dizer que isso era superstio - acudiu o arce
bispo brandamente.
 O Dr. Smith olhou maliciosamente para Ralph. No gostava de
padtes catlicos e julgava-os uns tolos babosos.
- Pense o que quiser - disse. - Mas diga-me, Excelncia, se
se tratasse de escolher entre a vida de Meggie e a da criana, que acon-
selharia a sua conscincia?

337

- A Igreja  inflexvel nesse ponto, doutor. Nenhuma escolha
poder ser feita. Jamais. No se pode sacrificar a criana para salvar
a me, nem a me para salvar a criana. -Ele retribuiu o sorriso do
Dr. Smith com a mesma dose de malcia. - Mas, se chegssemos a esse
ponto, eu no hesitaria em dizer-lhe que salvasse Meggie, e a criana
que fosse para o diabo.
 O Dr. Smith arquejou, riu-se e deu-lhe uma palmada ns costas.
- Boa, Excelncia! No tenha medo que no espalharei o que
nos disse. Mas a criana est viva, por enquanto, e no vejo razo
para mat-la.
 Anne, contudo, estava a pensar: <<Eu gostaria de conhecer a res-
posta se a criana fosse sua, arcebispo.>>
 Umas trs horas depois, quando o Sol da tarde escorregava, tris-
tonho, pelo cu na direco do vulto enevoado do monte Bartle Frere,
o Dr. Smith saiu do quarto.
- Acabou-se - disse, com alguma satisfao. - Meggie tem uma
longa estrada  sua frente, mas ficar boa, se Deus quiser. E a criana
 uma menina magrinha, rezingona, com dois quilos e duzentos e sessenta
gramas, com uma cabea enorme e um gnio que condiz com o mais
abominvel cabelo vermelho que j vi num beb recm-nascido. No se
poderia matar aquele diabinho nem com um machado, e sei o que estou
a dizer, porqiie quase fui obrigado a faz-lo.
 Exultante, Luddie foi buscar a garrafa de champanhe que guardava
para a ocasio, e os cinco ergueram-se com os copos transbordantes;
o padre, o mdico, a parteira, o fazendeiro e a al;.ijada brindaram  sade
e ao bem-estar da me e do seu beb choro e excntrico. Era o dia
primeiro de Junho, o primeiro dia do Inverno australi no.
 Para substituir a parteira, chegara uma enfermeira, que ficaria at
que Meggie fosse declarada fora de perigo. O mdico e a parteira des-
pediram-se, e Anne, Luddie e o arcebispo foram ver Meggie.
 Ela parecia to pequenina e abatida na cama de casal que o arce-
bispo Ralph tev de guardar outra dor separada no fundo da sua mente,
para ser examinada e sofrida mais tarde. uMegge, minha lacerada e mal-
tratada Meggie... eu amar-te-ei sempre, mas no posso dar-te o que
Luke O'Neill te deu, por maior vontade que tivesse de faz-lo.>>
 O cinzento pedacinho de humanidade responsvel por tudo aquilo
estava deitado num bero de vime na parede oposta, muito pouco satis-
feito com a ateno que lhe dispensavam as pessoas reunidas  sua
volta, que no se cansavam de mir-lo. A recm-nascida berrou para
significar o seu ressentimento e assim continuou. Por fim, a enfermeira

338

levantou-a, com bero e tudo, e p-la no quarto que lhe estava des-
tinado.
- Podemos ter a certeza de que os seus pulmes esto em boas
condies.
 O areebispo Ralph sorriu, sentou-se na beira da cama e pegou na
m plida de Meggie.
- No creio que ela goste muito da vida - disse Meggie, respon-
dendo-lhe ao sorriso. Como ele parecia mais velho! Em boa forma
e gil como sempre, mas incomensuravelmente mais velho. Ela virou
a cabea para Anne e Luddie, e estendeu-lhes a outra mo. - Meus
queridos e bons amigos! Que teria feito sem vocs? J tivemos notcias
de Luke ?
- Recebi um telegrama dizendo que estava muito ocupado para
vir, mas desejando-lhe boa sorte.
- Muito gentil - disse Meggie.
 Anne inclinou-se depressa para beijar-lhe o rosto.
- Vamos deix-la agora a conversar com o arcebispo, minha que-
rida. Estou certa de que tm muita coisa para contar um ao outro.-
Inclinando-se por sobre Luddie, fez sinal com o dedo  enfermeira, que
olhava embasbacada para o padre, como se no pudesse acreditar nos
prprios olhos. - Vamos, Nettie, venha tomar uma xcara de ch.
Sua Excelncia cham-la-, se Meggie precisar de si.
- Que nome vais dar  barulhenta da tua filha? - perguntou
Ralph quando a porta se fechou e os dois ficaram ss.
- Justine.
-  muito bonito, mas porque o escolheste?
- Li-o num livro e gostei.
- No a amas, Meggie?
 O rosto dela, emagrecido, parecia feito apenas de olhos; olhos
 suaves, cheios de uma luz nebulosa, sem dio, mas tambm sem amor.
- Acho que a amo. Sim, amo-a. Fiz muitos planos para conse-
 gui-la, mas enquanto a gerava no pude sentir nada por ela, a no
 ser que ela no me queria. No creio que Justine algum dia venha a ser
 minha, nem de Luke, nem de ningum. Acho que sempre pertencer
 a si mesma.
- Preciso de ir, Meggie - disse Ralph meigamente.
 Os olhos dela ficaram mais duros, mais brilhantes: a boca retor-
 ceu-se, assumindo uma forma desagradvel.
- Eu esperava isso!  engraado como todos os homens desapa-
 recem da minha vida, no ?

339

 Ele estremeceu.
- No sejas cruel, Meggie. No suporto a ideia de partir com essa
imagem de ti. Apesar do que te aconteceu no passado, sempre conser-
vaste a tua doura e essa, para mim,  a tua qulidade mais cativante.
No te modifques, no te tornes dura por causa disso. Sei que deve ser
terrvel pensar que Luke no te teve amor bastante para vir, mas no
te modifiques. J no serias a minha Meggie.
 Mas ela continuava a encar-lo como se o odiasse.
- Ora, deixe-se disso, Ralph! Eu no sou a sua Meggie, e nunca
fui! Voc no me queria, mandou-me para ele, para Luke. Que acha
que sou, uma espcie de santa, uma freira? Pois no sou, no senhor!
Sou um ser humano comum, e estragou a minha vida! Durante tantos
anos eu amei-o, no quis ningum seno a si, esperei por si... Tentei
desesperadamente esquec-lo, mas acabei por casar com outro homem
porque se parecia um pouco consigo, e ele tambm no me quer, nem
precsa de mim. Ser pedir de mais a um homem que pr ise de ns
e que nos ame?
 Ela principiou a soluar, mas dominou-se; havia linhas finas de
sofrimento no seu rosto, e Ralph reconheceu que no pertenciam
 espcie que o repouso e a sade poderiam apagar um dia.
- Luke no  mau, nem  um homem que no se possa amar-
prosseguiu Meggie. - l apenas um homem. Vocs so todos iguais,
grandes mariposas peludas que se despedaam no encalo de uma
chama tola, atrs de um vidro to claro que os seus olhos no a vem.
E quando conseguem entrar, aos trancos e barrancos, no interior do
vidro para chegar  chama, caem ao cho queimados e mortos. Entre-
tanto, l fora, na noite fresca, h comida, amor e pequenas mariposas.
Mas vem eles essas coisas? Querem essas coisas? No! atrs da
chama que correm, at perder os sentidos e morrer queimados por ela!
 Ele no sabia o que dizer, pois no lhe conhecia aquela faceta.
Fora sempre sua, ou crescera provocada pelas terrveis dificuldades
e pelo abandono? Meggie, a dizer aquelas coisas? Ele mal as ouvia
e estava to transtornado que no compreendeu que tudo aquilo era
fruto da solido e da conscincia de eulpa de Meggie.
- Lembras-te da rosa que me deste na noite em que sa de Dro-
gheda? - perguntou, com ternura.
- Lembro-me, sim.
 A vida desaparecera da voz dela, e a luz dura dos seus olhos. Estes
fitavam-no agora como uma alma sem esperana, to destitudos de
expresso e to vtreos como os olhos da me.

340

- Ainda a conservo no meu livro de oraes. E todas as vezes
que vejo u m a r o s a d a qu e 1 a cor, penso em ti Meggie, eu amwte.
s a m nha rosa, a mais bela imagem humana e o mais belo pensamento
humano da minha vida.
 Os cantos da boca de Meggie voltaram a desoair, os seus olhos
voltaram a brilhar com o tenso e coruscante ardor que encerrava tam-
bm um travo de dio.
- Uma imagem, um pensamento! Uma imagem humana e um
pensamento humano! Sim, est certo, isso  tudo o que sou para si!
No passa de um tolo romntico e sonhador, Ralph de Bricassart! Sabe
tanto o que  a vida como a mariposa com que o comparei! No admira
que se fizesse padre! Voc no poderia viver com tudo o que a vida
tem de comum, se fosse um homem comum, tal como Luke, o homem
comum, tambm no pode! Diz que me ama, mas no tem a menor
ideia do que  o amor; est apenas a pronunar palavras que memo-
rizou porque acha bonito o som delas! O que me desconcerta  que
vocs, homens, ainda no nos dispensaram de todo, a ns, mulheres,
e  justamente o que gostariam de fazer, no ? Deviam artanjar ma-
neira de casar uns com os outros, pois assim seriam divinamente felizes!
- Meggie, no fales assim! Por favor, no fales assim!
- Ora, v-se embora! No quero olhar para si. E esqueceu-se de
uma coisa a respeito das suas preciosas rosas, Ralph... elas t m espi-
nhos, espinhos feios e recurvos!
 O arcebispo saiu do quarto sem olhar para trs.

 Luke no se deu ao trabalho de responder ao telegrama que o infor-
mava de que ele era o pai orgullzoso de uma menina de dois quilos
e duaentos e sessenta gramas, chamada Justine. Pouco a pouco Meggie
foi melhorando e a garotinha principiou a medrar. Se Meggie tivesse
poddo aliment-la, talvez conseguisse estabelecer melhores relaes com
a coisinha geniquenta e magricela, mas no tinha leite nos seios que Luke
tanto gostara de sugar. Eis a uma justia irnica, pensou. Ela mudava
as fraldas e dava bibero conscienciasamente ao pedacinho de gente
de cabea e cara vermelhas, exactamente como as regras Ihe ordcnavam
que fizesse, esperando pelo incio de alguma emoo maravilhosa, que
 is cresceria. Mas a emoo no sutgia; Meggie no sentia o desejo
de abafar com beijos o minsculo rostinho, nem de morder-lhe os dedi-
nhos, nem de fazer qualquer uma das mil coisas que as mes adoram
fazer aos filhos. A garota no parecia ser sua filha e no precisava dela
nem lhe queria, e com Meggie passava-se o mesmo.

341

 Luddie e Anne nunca imaginaram que Meggie no adorasse Jus-
tine, que no sentisse por ela o que sentira por qualquer um dos irmos
mais pequenos. Todas as vezes que Justine chorava, Meggie corria
a pegar-lhe, cantarolava para ela, embalava-a, e nunca houve beb mais
bem tratado. O estranho era que Justine no parecia querer colo nem
cantorias; ficava quieta muito mais depressa se a deixassem em paz.
  medda que o tempo foi passando, ela foi melhorando de aspecto.
A pele perdeu a vermelhido, adquiriu a transparncia riscada de veias
azuis que tantas vezes acompanha o cabelo vermelho, e os bracinhos
e perninhas foram-se enchendo, at atingir um agradvel aspecto rolio.
O cabelo principiou a encrespar-se, a adensar-se e a adquirir para sempre
o tom violento que Paddy, o av, possura. Todos estavam ansiosos
por ver a cor que assumiriam os olhos. Luddie apostou que seriam azuis
como os do pai, Anne, que seriam cinzentos como os da me, e Meggie
no quis opinar. Mas os olhos de Justine eram decididamente singulares
e desalentadores, para no dizer outra coisa. Quando a garotinha com-
pletou seis semanas de vida, eles comearam a mudar e, por volta da
nona semana, j tinham a cor e a forma finais. Em torno da orla externa
da ris havia um anel cinza muito escuro, mas a prpria ris era to
plida que no se poderia dizer que fosse azul nem cinzenta; a descrio
mais aproximada da cor seria, nesse caso, uma espcie de branco-escuro.
Olhos penetrantes, inquietantes, inumanos, que se diriam cegos, mas,
com o passar do tempo, tornou-se bvio que Justine via muitssimo bem
com eles.
 Embora no tivesse falasse nisso, o Dr. Smith ficara preocupado
com o tamanho da cabea dela ao nascer, e no deixou de observ-la
com ateno nos primeiros seis meses de vida; pusera-se a imaginar,
mormente depois de Ihe ver os olhos estranhos, se ela no teria o que
ele ainda designava por gua no crebro, embora os compndios j Ihe
chamassem hidrocefala. Ao que tudo indicva, no entanto, Justine no
sofria de qualquer espcie de disfuno ou conformao anmala do
crebro; s tinha uma cabea muito grande, mas,  medida que cresceu,
o resto harmonizou-se, mais ou menos.
 Luke continuou longe. Meggie escrevera-lhe vrias vezes, mas ele
no respondeu nem foi ver a filha. De certo modo, ela ficou contente;
no teria sabido o que lhe dizer, e no acreditava que ele viesse
a sentir-se extasiado diante da estranha criaturinha que era sua filha.
Se Justine fosse um rapago robusto,  possvel que o tivesse abrandado,
mas Meggie sentiu um feroz contentamento por ter tdo uma menina.

342

Justine constitua a prova viva de que o grande Luke O'Neill no
era perfeito, pois, se o fosse, s geraria filhos homens.
 A criana vingou melhor do que a me e recomps-se mais depressa
do parto. Quando completou quatro meses j no chorava tanto e j
se divertia, deitada no bercinho, a brincar com as fieiras de eontas
coloridas, colacadas ao alcance da sua mozinha. Mas nunca sorria para
ningum, nem mesmo sob o disfarce das dores provocadas pelas gases.
 A chuva veio cedo, em Outubro, e foi uma chuva muito ntensa.
A humidade subiu para cem p r cento e ali ficou; todos os dias,
durante horas a fio, a chuva rugia e fustigava Himmelhoch, derretendo
o solo vermelho, encharcando os canaviais, enchendo o amplo e pro-
fundo rio Dungloe, embora no o fizesse transbordar, pois o seu curso
era to pequeno que a gua ia logo para o mar. Enquanto Justine,
sentada no bero, contemplava o seu mundo atravs daqueles olhos
estranhos, Meggie, aptica, via Bartle Frere desaparecer atrs de um
muro de chuva densa, e depois reaparecer.
 O Sol surgiria, arrancando do solo vus retorcidos de fumo,
fazendo o canavial trzmular e lanar prismas de brilhantes e dando
ao rio o aspecto de uma grande cobra de ouro. Depois, esticando-se de
um lado ao outro da abbada celeste, um duplo arco-ris materializar-se-ia,
perfeito em toda a sua extenso, to rico no colorido sobre o fundo
azul escuro das nuvens que teria deixado plida e pe uena qualquer
outra coisa, menas uma paisagem de North Queensland. E, como se
tratava de North Queensland, o seu brilho etreo no desluzia o que
quer que fosse, e Meggie pensou que descobrira por que razo a paisagem
de Gillanbone era to parda e cinzenta: North Queensland tambm lhe
usurpara a sua parte na paleta do pintor universal.
 Um dia, no princpio de Dezembro, Anne foi para a varanda
e sentou-se ao lado de Meggie, observando-a. Ela estava to magrinha,
to sem vida! At o lindo cabelo de ouro parecia bao.
- Meggie, no sei se fiz uma coisa errada, mas o caso  que
a fiz e, seja como for, quero que me oua primeiro antes de dizer no.
 Meggie desviou os olhos do arco-ris e fitou-a sorrindo.
- Est a falar com um ar to solene, Anne! Que quer que eu oua?
- Luddie e eu estamos preocupados. Voc no recuperou bem
depois de Justine nascer e, agota que a chuva chegou, at pareee pior.
No come e est a emagrecer. Nunca acreditei que se desse bem com
o clima daqui, mas, enquanto nada aconteceu que a debilitasse, a Meggie
conseguiu enfrent-lo com maior ou menor galhardia. Agora, entretanto,
achamos que no est bem e, se no se fizer j alguma coisa, ficar doente

343

de verdade. - Interrompeu-se para respirar. - Por isso, h umas duas
semanas, escrevi a uma amiga que trabalha numa agncia de turismo
e marquei umas frias para si. No comece a protestar por causa das
despesas; elas no abalaro as finanas de Luke nem as nossas. O arce-
bispo mandou-nos um grande cheque e o seu irmo outro, como contri-
buio de todos em Drogheda, para si e para a criana... tenho a impres
so de que ele sugere que voc v passar uns tempos a casa... Mas depoi
de conversar sobre o assunto, chegmos  conduso de que o melhor
que poderamos fazer era gastar um pouco desse dinheiro numas frias
pata si, e no creio que uma estada em Drogheda seja o tipo certo
de frias. Luddie e eu achamos que precisa agora de tempo para pensar.
Sem Justine, sem ns, sem Luke, sem Drogheda. J ficou sozinha
alguma vez, Meggie? Pois est na altura de experimentar. Por isso
reservmos-lhe um bangal na ilha Matlock por dois meses, desde
o princpio de Janeiro at ao princpio de Maro. Luddie e eu cuidaremos
de Justine. Voc sabe que no lhe acontecer mal algum, mas,  menor
preocupao que ela nos der, tem a nossa palavra de que ser informada
imediatamente. A ilha tem telefone, de modo que estar aqui num abrir
e fechar de olhos.
 O arco-ris tinha-se ido embora, e o Sol tambm; a chuva preparava-
-se para cair outra vez.
- Anne, se no fosse voc e Luddie eu teria ficado louca nestes
ltimos trs anos. As vezes acordo de noite e comeo a perguntar a mm
mesma  que teria sido de mim se Luke me tivesse posto em casa
de pessoas menos bondosas. Vocs cuidaram muito melhor de mim
do que o prprio Luke.
- Isso  conversa! Se Luke a tivesse empregado em casa de uma
gente antiptica, a Meggie teria voltado para Drogheda e, quem sabe,
talvez vesse sido essa a melhor soluo.
- No, no foi agradvel o que se passou entre mim e Luke,
mas foi melhor para mim ficar aqui e resolver o assunto.
 A chuva comeara a avanar aos poucos pelo canavial, que se
toldava, obscurecendo tudo atrs de si, como um machado cinzento.
- Tem razo, eu no estou bem - concordou Meggie. - No
tenho passado bem desde que Justine foi concebida. Tentei reagir,
mas chega-se a um ponto em que j no se tem energias para faz-lo.
Oh, Anne, estou to cansada e desanimada! No sou sequer uma boa
me para Justine, e tinha obrigao de o ser, pois se ela existe a culpa
 minha; ela no pediu para nascer. Mas estou desanimada, principal-
mente porque Luke no quer dar-me a oportunidade de faz-lo feliz.

344

No quer viver comigo nem deixar-me arranjar um lar para ele;
no quer os nossos filhos. Eu no o amo... nunca o amei como utna
mulher deve amar o homem que desposa, e ele talvez o tenha percebido
desde o prinpio. Se eu o tivesse amado,  possvel que agisse de forma
diferente, de modo que no devo culp-lo. Creio que s posso culpar-me
a mim mesma.
-  o arcebispo quem voc ama, no ?
- Desde garota! Tratei-o com dureza quando ele esteve aqui.
Pobre Ralph! Eu no tinha o direito de dizer-lhe o que Ihe disse,
porque ele nunca me animou. Espero que tenha tido tempo para
compreender que eu estava a sofrer e me sentia esgotada e terrivelmente
infeliz. A nica coisa em que eu conseguia pensar era que a criana
devia era ser filha dele, mas nunca o seria, nunca o poderia ser.
No  justo! O clero protestante pode casar, por que razo o catlico
no pode? E no tente dizer-me que os ministros no cuidam dos seus
rebanhos como os padres, porque no acreditarei em si. J conheci
padres sem corao e ministros maravilhosos. Mas, por causa do celibato
dos padres, tive de afastar-me de Ralph, construir o meu lar e a minha
vida com outra pessoa, ter um fzlho de outra pessoa. E quer saber
uma coisa, Anne? Isso, para mim,  um pecado to revoltante como
Ralph infringir os seus votos, ou pior ainda. O que me deixa indignada
 saber que a Igreja considera pecaminoso o meu amor por Ralph
ou o seu amor por mim!
- Saia um pouco, Meggie. Descanse, coma, durma e pare de
afligir-se. Depois, quando voltar, talvez possa persuadir Luke, de um
modo ou de outro, a comprar a tal fazenda em vez de ficar s a falar
nela. Sei que no o ama, mas, se ele lhe der meia oportunidade,
creio que poder ser feliz com ele.
 Os olhos cinzentos eram da cor da chuva que caa, em lenis,
em toda a volta da casa; as suas vozes tinham-se elevado e agora eram
gritos para se poderem ouvir acima do incrvel estrpito que o aguaceiro
provocava ao cair sobre o telhado de ferro.
- Mas  precisamente isso, Anne! Quando Luke e eu fomos
para Atherton, compreendi finalmente que ele no deixar a cana
enquanto tiver foras para cort-la. Ele ama essa vida, ama-a deveras.
Gosta de estar ao lado de homens fortes e independentes como ele;
gosta de andarilhar de um lado para outro. Agora compreendo que
sempre foi um nmada. Quanto a precisar de mulher, nem que seja
apenas pelo prazer, a cana esgota-o de mais. E como posso explicar
uma coisa destas? Luke pertence  espcie de homens que realmente

345

PASSAROS FERIDOS

no se importam de comer numa lata e de dormir no cho. No perceb?
No se pode apelar para ele como para um homem que aprecia as
coisas boas, porque ele no lhes liga. As vezes, at acredito que ele
despreze as coisas boas, as coisas bonitas. So delicadas e podero
torn-lo delcado. Positivamente no tenho atractivos suficientes para
o afastar do seu tipo actual de vida.
 Meggie olhou com impacincia para o tecto da varanda, como se
estivesse cansada de gritar.
- No sei se terei fora suficiente para aceitar a solido de viver
sem lar nos prximos dez ou quinze anos, Anne, ou durante todo
o tempo que Luke levar para cansar-se, seja ele qual for.  adorvel
estar aqui com vocs, e no me julgue uma ingrata, mas eu quero um lar!
Quero que Justine tenha irmos e irms, quero tirar a poeira dos meus
mveis, fazer as cortinas para as minhas janelas, cozinhat no meu fogo
para o meu marido. Oh, Anne, sou exactamente esse tipo comum
de mulher; nem ambiciosa, nem inteligente, nem culta, e voc sabe disso.
S quero um marido, filhos, e o meu prprio lar. E um pouco de amor
de algum !
 Anne tirou o leno, enxugou os olhos e tentou rir.
- Que boa parelha de mulheres choramingas acabmos por sair!
Mas eu compreendo, Meggie, compreendo realmente. Estou casada
com Luddie h dez anos, os nicos realmente felizes da minha vida.
Tive paralisia infantil aos cinco, e a doena deixou-me assim. Estava
convencida de que ningum jamais olharia para mim e Deus sabe que
era a pura verdade. Quando conheci Luddie, eu tinha trinta anos,
e ganhava a vida leccionando. Ele era dez anos mais novo do que eu,
de modo que no pude lev-lo a srio quando me disse que me amava
e queria casar coznigo. Que coisa horrvel, Meggie, arruinar a vida de um
homem to novo! Durante cinco anos tratei-o com as piores demonstra-
es de maldade gratuita que possa imaginar, mas ele voltava sempre,
como se quisesse mais. Por isso casei com ele, e tenho sido feliz.
Luddie jura que tambm , mas no sei. Ele foi obrigado a desistir
de muita coisa, incluindo filhos, e hoje, coitado, at parece mais velho
do que eu.
-  a vida, Anne, o cl.ima.
 A chuva cessou to repentinamente como comeara; o Sol tornou
a brilhar, o arco-ris reapareceu em toda a sua glria no cu eheio
de vapor s. O monte Bartle Frere surgiu, lils, por entre as nuvens
que o vento impela.
 Meggie voltou a falar.

346

- Eu irei. Fico-lhes grata por pensarem nisso;  possvel que seja
exactamente aquilo de que estou a precisar. Mas tem a certeza de que
Justine no lhes dar muito trabalho?
-  claro que no! Luddie j planeou tudo. Arma Maria, que costu-
mava trabalhar para mim antes de voc vir, tem uma irm mais pequena,
tlnnunziata, que quer trabalhar como enfermeira em Townsville. Mas s
completar dezasseis anos em Maro, e termina a escola dentro de alguns
dias. Assim sendo, enquanto estiver fora, ela ficar aqui. Alm disso,
 tambm uma boa me de criao. Existem hordas de bebs no cl
Tesorero.
- Ilha latlock. Onde fica isso?
- Perto do estreito de Whitsunday, no recife da Grande Barreira.
F muito quieto e isolado e, se no me engano, um stio tradicional de
luas-de-mel. Sabe como ... bangals em vez do hotel central. No pre-
cisar de jantar num salo cheio de gente, nem de ser corts com um
ror de pessoas que prefere no conhecer. Nesta poca do ano, alis,
a ilha est quase deserta, por causa do perigo dos ciclones de Vero.
:1 cheia no  problema, mas parece que ningum se dispe a ir para
o rec:fe no Vero, provavelmente porque a maioria das pessoas que vai
para l  de Sidnei ou de Melburne, onde o Vero, agradvel, no obriga
ningum a viajar. Para Junho, Julho e Agosto, sim, os sulistas reservam
lugares com dois ou trs anos de antecedncia.

349

13

 o ltimo dia de 1937 Meggie embarcou no comboio para
 Townsville. Se bem que as suas frias mal tivessem comeado.
 j se sentia muito melhor, pois deixara para trs o mau cheiro
 do melao de Dunny. Sendo o maior aglomerado liumano
de North Queensland, Townsville era uma cidade prspera, com vrios
milhates de habitantes que viviam em casas brancas de madeira constru-
das sobre estacas. Uma rpida ligao entre o comboio e o barco no
lhe deu tempo para explorar a cidade, mas, de certo modo, Meggie no
se lastimou por ter de correr para o desembarcadouro sem haver tido
a oportunidade de pensar; depois da viagem medonha atravs do mar
da Tasmnia, dezasseis anos antes, ela no ag ardava com muito prazer
uma viagem de trinta e seis horas num barco muito mais pequeno do
yue o 1' ahine.
 No entanto, tudo foi ento muito diferente: um deslizar sussurrax;te
sobre guas cristalinas; alm disso, ela j fizera vinte e ses anos,
no tinha apenas dez. O ar era o do intervalo entre os ciclones, o mar
estava esgotado; embora fosse apenas meio-dia, Meggie deitou a cabea
no travesseiro  dormiu um sono sem sonhos at que o camaroteiro
a acordou, s seis horas da manh seguinte, com uma cara de ch
e um prato de biscoitos.
 Em cima, no convs, havia uma nova Austrlia, mais uma vez
diferente. Num cu alto e claro, delicadamente incolor, um brilho rseo
e nacarado fo-se difundindo aos poucos, vindo da orla oriental do oceano,
at que o Sol subiu acima do horizonte, a luz perdeu a sua vermelhido
e fez-se dia. O navio resvalava silencosamente por uma gua to transl-
cida que se podiam ver, vrias braas abaixo, grutas de prpura e peixes
que passavam como telmpagos ao lado do navio. Visto  distncia,

348

o mar era uma gua-marinha de matizes esverdeados, salpicada de man-
chas escuras, cor de vinho, onde ervas daninhas ou corais cobriam
o cho, e de todos os lados se tinha a impresso de que ilhas com
praias de area branca e brilhante, cheias de palmeiras, surgiam espon-
taneamente como cristais na slica - ilhas montanhosas e cobertas
de matas, ou ilhas rasas, de vegetao rasteira, quase ao rs da gua.
- As ilhas rasas so as verdadeiras ilhas de coral - explicou um
tripulante. - Quando tm o formato de um anel e encerram uma lagoa,
chamam-se atis, mas quando so um simples fragmento de recife que
se ergue acima do nvel do mar, designam-se por bancos de coral.
As ilhas montanhosas so cumes de montanhas, mas tambm tm o seu
anel de recifes e as suas lagoas.
- Onde fica a ilha Matlock?
 Ele encarou-a curiosamente; uma mulher que ia passar frias
sozinha numa ilha como Matlock era uma contradio.
- Estamos a passar agora por hitsunday Passage, depois ruma-
remos para a orla protegida do recife. O lado de Matlock que d para
o oceano  martelado pelas ondas de rebentao, que percorrem quase
duzentos quilmetros do Pacfico profundo como comboios expressos,
fazendo tamanho estardalhao que no podemos sequer ouvir os nossos
pensamentos. - Ele suspirou, pensativo. - Estaremos em Matlock antes
do pr do Sol, minha senhora.
 E uma hora antes do ocaso o pequeno navio abriu caminho por
entre a rebentao, cuja espuma se erguia como um alto muro enevoado
no cu oriental. O quebra-mar, construdo sobre estacas compridas
e finas, cambaleava literalmente numa extenso de oitocentos metros
de um lado ao outro de um recife descoberto pela mar vazante;
atrs dele, estendia-se um alto e fragoso contorno litoral, que no se
ajustava s expectativas de esplendor tropical de Meggie. Um homem
idoso, que estava  sua espeza, ajudou-a a saltar do navio para o molhe
e tirou as malas das mos de um tripulante.
- Como vai, Senhora O'Neill - disse. - Sou Rob Walter.
Espeto que o seu marido tambm possa vir, mais tarde. No h muita
gente em Matlock nesta poca do ano, pois a ilha, na realidade,  um
balnetio de Inverno.
 Caminharam juntos pelos pranches incmodos. O coral exposto
derretia-se ao sol-poente e o mar espumoso era uma glria reflectida
e tumultuosa de espuma carmesim.
- Ainda bem que a mar est baixa, pois, de contrrio, teriam tido
uma viagem menos calma. Est a ver a nvoa no nascente?  a orla

349

PSSAftOS FERIDOS

do prprio recife da Grande Barreira. Aqui em Matlock tudo depende
dele; sente-se a ilha tremer constantemente por causa do martelar
de l. - E continuou, depois de a ajudar a subir para o carro. - Este
 o lado de Matlock que est a barlavento... de aspecto meio selvagem
e rebarbativo, no Ihe parece? Mas espere para ver o outro, que fica
a sotavento. Ali, sim, a coisa muda de figura.
 Partiram a velocidade reduzida no nico carro de Matlock,
descendo uma estrada estreita que serpenteava por entre renques de
palmeiras e densa vegetao rasteira, enquanto um morro alto se erguia
de um lado, uns seis quilmetros e meio alm da lomba da ilha.
- Que beleza! - disse Meggie.
 Seguiam agora por outra estrada, que acompanhava as praias
arenosas do lado da lagoa, em forma de crescente. Ao longe havia mais
borrifos brancos, onde o oceano s quebrava em rendas deslumbrantes
sobre as bordas do recife da lagoa, mas dentro do abrao de coral a gua
era imvel e calma, um espelho de prata polido tingido de bronze.
- A ilha tem seis quilmetros e meio de largura e quase treze
de comprimento - explicou o guia.
 Passaram por um solitrio edifcio branco com uma varanda larga
e janelas que pareciam lojas.
- O armazm - disse o guia com um floreio de proprietrio.-
 aqui que eu vivo com a minha mulher, e asseguro-lhe que ela no se
sente muito feliz com a chegada de uma mulher desacompanhada.
Acha que serei seduzido. Pelo menos foi o que ela disse. Ainda bem
que a agncia recomendou que lhe dssemos paz e tranquilidade,
porque ela ficou um pouco mais satisfeita quando a coloquei a si no
bangal mais afastado que temos. No h ningum naquelas bandas ;
o nico casal que est aqui ficou do outro lado. A senhora pode andar
por a sem nada no corpo... que ningum a ver. A minha mulher no
me deixar sair da vista dela enquanto a senhora estiver aqui, mas
quando precisar de alguma coisa, telefone que eu lha levarei. No h
necessidade de fazer toda a caminhada at aqui. E passarei pelo seu
bangal uma vez por dia,  hora do poente, para certifcar-me de que
a senhora est bem.  melhor que fique em casa a essa hora... e use
um vestido decente, pois a minha mulher  capaz de querer acompanhar-
-me no passeio.
 nstruo trrea, com trs divises, o bangal tinha a sua prpria
praia particular, entre duas pontas de morro que mergulhavam no mar,
e a estrada terminava ali. Dentro de casa era tudo muito simples,
mas confortvel. A ilha gerava a prpria energa, de modo que havia

350

utn pequeno frigorfico, luz elctrica, o prometido telefone e at um
aparelho de rdio. A casa de banho tinha sanitrios e banheira, e existia
gua corrente. Mais comodidades modernas do que em Drogheda ou
Himmelhoch, pensou Meggie, divertida. Era fcil ver que quase todos
os hspedes vinham de Sidnei ou Melburne, e estavam to habituados
 civilizao que no podiam passar sem ela.
 Ficando sozinha enquanto Rob corria para junto da desconfiada
esposa, Meggie desfez a mala e inspeccionou os seus domnios. A grande
cama de easal era muito mais confortvel do que fora o seu prprio
leito nupeial, pois sendo a ilha um autntico paraso de lua-de-mel,
uma das coisas que os clientes exigiriam seria, por certo, uma cama
decente; e os hspedes do hotelzinho de Dunny andavam geralmente
to bbados que nfl faziam objeces a molas causadoras de hrnias.
Tanto o frigorfico como os armrias estavam a abarrotar de alimentos e,
sobre a mesa, via-se uma grande cesta com bananas, maracujs, abacaxis
e man as. No havia motivo para que ela no dormisse e comesse bem.

 Durante a primeira semana, Meggie no fez outra coisa seno
comet e dormir; no percebera quanto estava cansada, nem quanto
o clima de Dungloe fora a verdadeira causa da sua falta de apetite.
Dormia, assim que se deitava na bonita cama, dez a doze horas seguidas,
e a comida tinha para ela um atractivo que no sentia desde Drogheda.
Ela parecia comer durante todo o tempo em que estava acordada,
chegando a levar mangas para a gua. Na verdade, tirando a banheira,
este era, alis, o lugar mais lgico para comer mangas, pois o suco
escorria por todos os lados. Como a sua minscula praia ficasse dentro
da lagoa, o mar tinha ali a calma de um espelho, era pouco profundo
e estava totalmente livre de correntes. Meggie adorou tudo isso porque
no sabia nadar. Contudo, na gua to salgada que parecia sustent-la,
comeou a fazer experincias e, quando conseguia boiar dez segundos,
ficava encantada. A sensao de estar livre da atracn da Terra fazia-a
desejar poder mover-se mm a facilidade de um peixe.
 Por isso, s sentiu falta de companhia porque gostaria de ter
algum que a ensinasse a nadar. Tirando isso, que maravilha ficar
sozinha! Como Anne acertara! Durante toda a sua vida vivera cercada
de gente. No ter ningum ao p de si era um alvio to grande,
to surpreendente! No se sentia solitria; no sentia falta de Anne,
nem de Luddie, nem de Justine, nem de Luke e, pela primeira vez
em trs anos, no teve saudades de Drogheda. O velho Rob nunca lhe
perturbava a solido. Todas as tardes, ao pr do Sol, chegava de auto-

351

mvel a um ponto da estrada donde podia certificar-se de que o amistosu
aceno que ela Ihe fazia da varanda no era um sinal de que estava em
apuros. Em seguida, virava o automvel e voltava devagar, acompanhado
pela severa, mas surpreendentemente bonita, esposa. De uma vez,
ele telefonou-lhe para dizer que ia levar o outro casal residente na ilha
a passear no seu barco de fundo de vidro e perguntou-lhe se no gostaria
de ir tambm.
 Meggie teve a impresso de que estava num planeta completa-
mente diferente, quando olhou, atravs do vidro, para aquele mundo
fervilhante, encantadoramente frgil, cujas formas delicadas eram
sustentadas e amparadas pela amorosa intimidade da gua. Descobriu
que o coral vivo no tinha o espalhafatoso colorido, com certeza arti-
ficiaI, dos espcimes expostos no balco de souvenirs das lojas. De um
rseo suave, ou bege, ou azul-cinza, despedia, em torno de cada
exerescncia e de cada ramo, um maravilhoso arco-ris, como aura visvel.
Grandes anmonas, com trinta centmetros de largura, agitavam franjas
de tentculos azuis, vermelhos, alaranjados ou purpurinos; mariscas
brancos estriados, do tmanho de rochas, convidavam os exploradores
incautos a olh-los, parecendo grandes manehas coloridas e irrequietas,
vistas atravs de lentes de aumentar; leques de renda vexmelha oscilavan,
aos ventos da gua; fitas de ervas de um verde brilhante danavam
frouxas e  deriva. Nenhum das quatro trpulantes do barco ficaria
surpreendido se visse uma sereia; uns seios generosos, uma cintilao
torcida de cauda, nuvens de cabelo a girar, preguiosas, um sorriso
feiticeiro experimentando o fascnio que a sereia exercia sobre os mari
nheiros. Mas os peixes! Jias vivas, disparavam aos mihares, redondos
como lanternas chinesas, esguios como balas, vestidos de cores que
rutilavam com vida e com a decomposio da luz provocada pela gua,
alguns em chamas, com as escamas de ouro e escarlate, outros frios,
de um azul-prateado, outros ainda semelhando sacos de trapos a nadar,
mais vistosos que papagaios. Havia peixes-agulhas de focinho aculeada.
peixes-sapos de focinho amassado, barracudas com grandes dentes.
uma garopa de papo cavernoso meio emboscada numa gruta e, de um
feita, um grande cao-lixa cnzento e luzidio, que pareceu levar um z
eternidade para passar debaixo deles.
- No se preocupem - disse Rob. - Estamos muito ao sul para
que apaream medusas, de modo que, se alguma coisa tiver de mat-lo
no recife, o mais provvel  que seja um peixe-aranha. Nunca andem
pelos corais sem sapatos.

352

PSSA] ,OSFERIDOS

 Meggie gostou do passeio, mas no sentia vontade de repeti-lo,
nena de feer amizade com o casal que Rob trouxera. Mergulhava no
m , caminhava e deitava-se ao sol. Por curioso que parea, nem sequer
 mentou a falta de livros para ler, pois parecia-lhe que havia sempre
alguma coisa interessante para observar.
 Aceitara o conselho de Rob e deixara de usar roupas. A princpio,
portara-se como um coelho, que sente o cheiro do perdigueiro trazido
pela brisa e foge para esconder-se, quando um galhinho estalava ou um
coco caa de um coqueiro como bala de canho. Mas, depois de vrios
dias de manifesta solido, comeou realmente a sentir que ningum
se aproximaria, que aquele era, como dissera Rob, um domnio inteira-
mente particular. A timidez no tinha razo de ser. E, caminhando
pelos atalhos, deitada na areia, brineando na gua quente e salgada,
principiou a sentir-se como um animal nascido e criado numa jaula
e solto, de repente, num mundo ameno, soalheiro, espaoso e hospi-
taleiro.
 Longe de Fee, dos rmos, de Luke, da inexorvel e irracional
dominao de toda a sua vida, Meggie descobriu o lazer puro; todo um
caleidoscpio de modelos de pensamento se teciam e desteciam, formando
novos desenhos na sua mente. Pela primeira vz na vida, no mantinha
o seu eu consciente absorto em pensamentos de qualquer espcie.
Com surpresa, compreendeu que a actividade fsica  o bloqueio mais
eficaz que os seres humanos podem erguer contra a actividade total-
mente mental.
 Anos antes, o padre Ralph perguntara-lhe em que  que ela pensava,
e Meggie respondera: aNo pai, na me, em Bob, Jack, Hughie, Stu,
os gmeos, Frank, Drogheda, a casa, o trabalho e a chuva. Ela no
o citara, mas ele encabeava a lista, como sempre. Agora cumpria
acrescentar-lhes Justine, Luke, Luddie, Anne, a cana, as saudades
da casa e a chuva. E sempre, naturalmente, a salvadora libertao que
encontrava nos livros. Mas tudo viera e se fora em massas e cadeias
emaranhadas e desconexas; nenhuma oportunidade, nenhum treino que
lhe permitisse sentar-se e pensar com calma quem era exactamente
Meggie Cleary e Meggie O'Neill! Que queria ela? Porque supunha que
fora posta na Terra? Lamentou a falta de treino, pois, gastasse o tempo
que gastasse, jamais remediatia essa omisso. Entretanto, aqui estavam
o tempo, a paz, a indolncia do bem star fisico ocioso; ela poderia
 deitar-se na areia e tentar.
 Bem, havia Ralph. Uma risada seca, sem esperanas. No seria
 um bom lugar para comear, mas, em certo sentido, Ralph era como

353

Deus; tudo comeava e terminava nele. Desde o dia em que se
ajoelhara no ptio empoeirado da estao de Gilly, num entardecer
 ara tom-la entre as mos, houvera Ralph, e ainda que ela nunca mais
tornasse a v-lo enquanto vivesse, tudo levava a crer que o seu ltimo
pensamento do lado de c do tmulo seria para ele. Como era assustador
que uma pessoa pudesse significar tanto, tantas coisas!
 Que havia dito a Anne? Que os seus desejos e necessidades eram
absolutamente comuns - um marido, filhos, um lar, algum para amar.
Seria, acaso, pedir muito? Afinal, a maioria das mulheres conseguia-o.
 Vlas quantas mulheres nessas condies se sentiam realmente satisfeitas?
Meggie supunha que se sentiria, j que para ela as coisas eram muito
difceis de obter.
 <<Aceita os factos, Meggie Cleary ou Meggie O'Neill. O algum
que queres  Ralph de Bricassart, mas no o podes ter. Como homem
porm, parece que ele te inutilizou para qualquer outro. Est bem
ento. Supe que o homem e o algum para amar sejam impossveis.
Ters, nesse caso, de amar os teus filhos, e o amor que receberes vir
deles. O que, por seu turno, significa Luke e os filhos de Luke.
 <<Oh, meu Deus, meu Deus! No! Que fez Deus por mim seno
privar-me de Ralph? Deus e eu no gostamos muito um do outro.
E sabes uma coisa, Deus ? J no me a s su s t a s como costumavas
assustar-me. Como eu tinha medo de Ti, do Teu castigo! Durante toda
a minha vida portei-me bem com medo de Ti. E que me valeu isso?
Absolutamente nada mais do que se eu tivesse infringido todas as regras
que constam do Teu livro. :s um embusteiro, um demnio do medo.
Tratas-nos como crianas, acenando com o castigo, mas j no me
assustas. Porque no  Ralph que eu devia odiar, s Tu. A culpa
 toda Tua, e no do pobre Ralph. Ele apenas vive com medo de Ti.
como eu sempre vivi. Que ele possa amar-te  coisa que no consigo
entender. No vejo em Ti o que quer que seja digno de amor.
 <<Entretanto, como posso deixar de amar um homem que ama
a Deus? Por nais que tente, no consigo faz-lo. Ele  a Lua e eu
choro por ela. Pois bem, a nica coisa que podes fazer  parar de chorar
por ela, Meggie O'Neill. Contenta-t com Luke e com os filhos de Luke.
A bem ou a mal, tir-lo-s da maldita cana e vivers com ele l onde
no existem rvores. Dirs ao gerente do banco de Gilly que a tua
renda futura ficar em teu nome, e us-Ia-s para teres no teu lar sem
rvores os confortos e comodidades que Luke no pensar em pro-
porcionar-te. Us-la-s para educar convenientemente os filhos de Luke
e para teres a eerteza de que nunca lhes faltar coisa alguma.

354

PASSAROS FERIDOS

 eE isto  tudo o que se pode dizer sobre o assunto, Meggie O'Neill.
Eu sou Meggie O'Neill, no sou Meggie de Bricassart. At soa ridculo,
Meggie de Bricassart Teria de ser Meghann de Bricassart, e sempre
detestei Meghann. Oh, quando deixarei de lamentar que eles no sejam
filhos de Ralph? A  que bate o ponto, no ? Diz a ti mesma,
uma e muitas vezes: "A tua vida  tua, Meggie O'Neill, e no a desper-
diars sonhando com um homem e com filhos que nunca poders ter."
 aPronto! Isto  que  falar! No adianta pensar no que passou,
no que precisa de ser enterrado. O importante  o futuro, e o futuro
pertence a Luke, aos filhos de Luke. No pertence a Ralph de Bricassart.
Ralph  o passado.>>
 Meggie rolou snbre a areia e chorou como no chorara desde os
trs anos de idade: lamentos ruidosos, e s os caranguejos e os pssaros
lhe ouviram o desconsolo.
 Anne Mueller escolhera a ilha de Matlock deliberadamente,
planeando mandar Luke para l assim Que pudesse. No momento em
que Meggie embarcou, telegrafou a Luke dizendo que ela precisava
desesperadamente dele, e rogando-lhe que viesse. Anne no eta,
por natureza, dada a interferir na vida dos outros, mas amava Meggie,
tinha pena dela, e adorava a coisinha difcil e caprichosa que a rapariga
dera  luz e Luke gerara. Justine precisava de um lar e dos pais.
Mago-la-ia v-la partir, mas antes isso do que a actual situao.
 Lke chegou dois dias depois. Estava a caminho das CSR em
Sidnei, de modo que no levou muito tempo a desviar-se do seu caminho.
J era tempo de ver o beb; se fosse um rapaz, teria vindo quando
ele nasceu, mas a notcia de uma rapariga desapontara-o anaargamente.
Se Meggie insistia em ter filhos, que estes fossem pelo menos capazes
de gerir, um dia, a fazenda de Kynuna. Raparigas no tinham utilidade
alguma; comiam como um homem e, depois de crescidas, iam trabalhar
pata outra pessoa em vez de ficar em casa como os rapazes a ajudar
o velho pai nos seus ltimos anos de vida.
 d d
- Como vai Meg? - perguntou, ao subir pela varan a a
frente. - Espero que no esteja doente.
- No, no est doente, embora a voc pouco Ihe importe.
Mas venha ver primeiro a sua bela filha.
 Luke olhou o beb, divertido e interessado, mas sem qualquer
reaco emoonal, pensou Anne.
- Ela tem os olhos mais esquisitos que j vi - disse. - De quem
os ter herdado?

355

- Segundo Meggie, ao que ela sabe, de ningum da famlia dela.
- Nem da minha. Este pedacinho de gente  uma reverso a um
tipo passado. E no arece muito feliz da vida, no ?
- E como poderia parecer feliz? - atalhou Anne, conservando
o mau humor. - Nunca viu o pai, no possui um lar de verdade e no
tem muitas probabilidades de vir a ter algum antes de crescer, se o Luke
continuar a viver como vive!
- Estou a poupar, Anne! - protestou este.
- Parvoce! Eu sei o dinheiro que tem. Amigos meus de Charters
Towers mandam-me de vez em quando o jornal local, de modo que
tenho visto anncios de propriedades muito mais prximas do que
Kynuna, e muito mais frteis. Estamos numa crise, Luke! Conseguiria
uma bela propriedade por muitssimo menos do que aquilo que tem
no banco, e sabe isso.
- Pois  por isso mesmo! Estamos numa crise e, a oeste das
montanhas, h uma seca terrvel entre Junee e o Isa. J va para
o segundo ano que no chove, no cai nem ma gota. Agora mesmo
aposto que Drogheda est a passar um mau bocado. Nessas condies,
como supe que estejam as coisas perto de Winton e Blackall? No
acho que devo esperar.
- Esperar que o preo da terra volte a subir numa boa tempo-
rada de chuvas? Deixe-se disso, Luke! Agora  que  a altura de com-
prar! Com as duas mil libras por ano de Meggie garantidas, poder
aguentar, sossegado, at dez anos de seca! Basta que no abastea a pro-
priedade. Viva com as duas mil libras at chegarem as chuvas e depois,
sim, compre o gado que quiser.
- Ainda no estou preparado para deixar a cana - voltou
teimoso, enquanto continuava a olhar para os estranhos olhos claros
da filha.
- Essa afinal,  a verdade, no ? Porque no a admite, Luke?
Voc no quer ser casado, prefere viver como at agora, no meio dos
homens, trabalhando como um condenado, exactamente como metade
dos australianos que conheo. Que haver neste bendto pas para que
os homens prefiram a companhia de outros homens  vida do lar com
a esposa e os filhos? Se a vida de solteiro  o que realmente desejam,
porque carga de gua experimentam o casamento? Sabe quantas esposas
abandonadas existem s em Dunny, trabalhando arduamente para sobre-
viver e tentando educar os filhos? Oh, ele est nos eanaviais, mas
voltar, naturalmente,  s durante algum tempo. , E nos dias de
correio l esto elas no porto, aguardando o carteiro, na esperana

356

PSSAftOS F ftIDOS

de ue o
manda. .
 Ela

 cretino lhes tenha mandado algum dnheiro. E s ezes l
. no o suficiente, mas alguma coisa que d para ir tenteando!
fremia de raiva, enquanto os seus meigos olhos castanhos

coruscavam.
- Sabe que li no Brisbane Mail que a Austrlia tem a maior per-
entagem de esposas abandonadas em todo o mundo civilizado?
 a nica coisa em que conseguimos superar t os os outros paises...
e no  uma superioridade de que possamos orgulhar-nos!
- Devagar, Anne! Eu no abandonei Meg; ela est bem e no
lhe falta nada. Que se passa consigo?
- Estou cansada de v-lo tratar a sua mulher dessa maneira,  isso
que se passa! Pelo amor de Deus, Luke, cresa, assuma as suas respon-
sabilidades! Voc tem uma esposa e filha! Devia estar a construir um
lar para elas... seja marido e pai e no um maldito estranho!
- Eu s-lo-ei, eu s-lo-ei! Mas ainda no posso; tenho de conti-
nuar o trabalho do acar, por mais uns dois anos, par uma questo
de segurana. No quero que digam que estou a viver  custa de Meg,
que  exactamente o que eu faria enquanto as coisas no melho-
rassem.
 Anne ergueu o lbio num trejeito desdenhoso.
- Ora, bolas! Casou com ela por dinheiro, no casou?
 Um rubor escuro tingiu o semblante trigueiro de Luke, que no
quis encar-la.
- Reconheo que o dinheiro ajudou, mas casei porque ostava
mais dela do que de qualquer outra pessoa.
- Gostava dela! E quanto a am-la?
- Amor! Que  o amor? Nada mais que uma inveno da cabea
das mulheres, s isso.-Ele desviou os olhos do bercinho de vime
e dos olhos perturbadores, sem estar muito certo de que a dona de uI,s
olhos assim no pudesse compreender o que se dizia. - E se j termi
nou o sermo, diga-me: onde se encontra Meg?

- Ela no estava a sentir-se bem. Mandei-a embora por algum
tempo. No, no se assuste! No foi com o seu dinheiro. Eu esperava
poder persuadi-lo a ir ter com ela, mas vejo que  impossvel.
- Est fora de causa, Arne e eu partiremos para Sidnei esta noite.
- Que devo dizer a Meggie quando ela voltar?
 Ele encolheu os ombros, louco por sair dali.
- Pouco me importa. Diga-lhe que se aguente ainda por mais
 algum tempo. Agora que ela j comeou com esse negcio de constituir
 famflia, eu no me incomodaria de ter um rapaz.

357

PASSAROSFERIDOS

 Apoiando-se na parede para no cair, Anne inclinou-se sobre o cesto
 de vime e ergueu a criancinha nos braos. Em seguida, arrastou os ps
 at  cama e sentou-se. Luke no fez movimento algum para ajud-la
 nem para pegat na criana; parecia ter medo da filha.
- V-se embora, Luke! No merece o que tem. No aguento mais
 olhar para a sua cara. Volte para o maldita Arne e para a maldita cana.
 A porta, ele estacou.
- Que nome deu ela  filha? At j me esqueci.
- Justine, Justine, Justine!
- Que nome estpido - disse. E saiu.
 Anne colocou Justine na cama e comeou a chorar. Todos os ho-
mens podiam ir para o inferno, todos, menos Luddie! Seria, acaso
o trao meigo, sentimental, quase feminino, da personalidade de Luddie
que o fazia capaz de amar? Luke teria razo? Seria o amor uma simples
inveno da cabea das mulheres, ou alguma coisa que s elas eram
capazes de sentir? Mulher alguma canseguiria jamais segurar Luke,
nenhuma o conseguira. No havia mulher que lhe pudesse dar o que
ele queria.
 No dia seguinte, mais calma, j no achava que a sua tentativa
fora intil. Naquela manh chegara um bilhete-postal de Meggie, em
que ela se referia com entusiasmo  ilha de Matlock e dizia estar
a passar muito bem. Afinal, tudo aquilo redundara em algo de bom:
Meggie melhorara. Voltaria quando as mones diminussem e ela se
sentisse capaz de enfrentar a sua vida. Anne resolveu no lhe falat
de Luke.
 Por isso Nancy, abreviatura de Annunziata, levou Justine para
a varanda da frente, enquanto Anne se arrastava com dificuldade
levando presa entre os dentes uma cestinha com as coisas necessrias
ao beb: fralda limpa, lata de p e brinquedos. Instalou-se numa cadeira
de vime, tirou a criancinha do colo de Nancy e prinpiou a dar-lhe
o bibero que  rapariga aquecera. A vida, afinal, era muito agradvel;
ela fizera o possvel para chamar Luke  razo e, se falhara, isso pelo
menos significava que Meggie e Justine perxnanecetiam em Himme-
lhoch durante mais algum tempo. Sabia que, no fim, campt,eendendo
que j no havia esperana de salvar o seu casamento com Luke, Me ie
voltaria para Drogheda, mas Anne nem queria pensar nesse dia. gg
 Um carro de desporto ingls rugiu pela estrada de Dunny e subiu
o longe declive ngreme; novo e earo, tinha o capot prcsa em baixo
por uma tira de couro, tubos de escape niquelados e pintura reluzente.
A princpio, no reconheceu o homem que saltou sobre a porta baixa,

358

PSSAROS FEftIDOS

envergando o traje oficial de Queensland: apenas calnes. <<Que bonito
sujeito, francamente!>>, pensou, observando-o apreciativamente e perce-
bendo nele algo familiat quando ele comeou a subir a escada a dois
e dois. <<Gostaria que Luddie no comesse tanto; no lhe faria mal
nenhum que o seu fsico se parecesse um pouco com o desse camarada.
No, j no  nenhum franganote - vejam s as maravilhosas tmpo-
ras grisalhas -, mas nunca vi um cortador de cana em melhor forma. >

 Quando os olhos calmos, alheados, se fitaram nos dela, Anne
reconheeeu-o.
- Meu Deus! - exclamou, e deixou cair o biberu da criancinha.
 Ele apanhou-o, entregou-lho e encostou-se  balaustrada da va-
randa, diante dela.
- Est tudo hem. O bico no bateu no cho; pode d-la ao beb
assim mesmo.
 Justine comeava justamente a fazer beicinho. Anne enfiou-lhe
a tetina na boca e conseguiu recobrar o flego e falar.

- Francamente, Excelncia, que surpresa! - Os olhos dela exa
minaram-no, divertidos. - Confesso que o senhor parece tudo menos
um areebispo, embora tambm no se parea com eles mesmo com
os trajes apropriados. Sempre imaginei os arcebispas de qualquer reli-
 io uns homens gordos e satisfeitos consigo mesmos.
- Neste momento no sou um arcebispo, mas apenas um padre
 m gozo de merecidas frias, por isso pode chamar-me Ralph. Foi esta
coisinha que deu tanto trabalho a Megge, quando aqui estive pela
ltima vez? Posso pegar-lhe? Creo que conseguirei segurar o bibero
 no ngulo certo.
 Sentou-se numa cadeira ao lado de Anne, pegou na criana e con-
 tinuou a aliment-la, com as pernas cruzadas de modo casual.
- Meggie deu-lhe o nome de Justine?

- Deu. ,
- Pois gosto dele. Santo Deus, olhem para a cor do cabelo dela.
  tal e qual o av.
-  o que Meggie diz. Espero que esta pobrezinha no venha
 a ter um milho de sardas mais tarde, mas creio que as ter.

- Bem, Meggie tambm  meio ruiva e no tem sardas.
 No entanto, a pele de Justine tem uma contextura diferente e uma cor
 mais opaca. -Deps o bibero, fez a criancinha sentar-se erecta sobre
 o seu joelho, inclinou-a para a frente num salamaleque e ps-se a esfre-
 gar-lhe as costas ritmicamente, com fora. -Entre as minhas obriga-
 es consta a de visitar orfanatos catlicos, de modo que sei lidat eom

359

bebs. Madre Gonzaga, do meu orfanato favorito, diz sempre que esta
 a nica maneira de fazer uma criana -arrotar. Quando a seguramos
em posio vertieal, no deixamos que o corpo se ineline bem para
a frente, o arroto no escapa com tanta facilidade e, quando chega
l em cima, costumam chegar tambm com ele, grandes quantidades
de leite. Como estou a fazer agora, o beb dobra-se ao meio, retendo
o leite no estmago e deixando escapar o gs.
 Cnmo se quisesse provar tal afirmao, Justine arrotou sonora-
mente vrias vezes, mas reteve o que tinha no estmago. Ele riu-se,
tornou a esfreg-la e depois, quando nada mais aconteceu, instalou-a
confortavelmente na curva do seu brao.
- Que olhos fabulosamente exticos! Magnficos, no? Sou de
opnio de que Meggie teve um beb singular.
- No mudando de assunto, que bom pai o senhor teria dado,
Excelncia !
- Gosto de bebs e de crianas. Sempre gostei.  muto mais
fcil para mim apreci-las, visto que no tenho nenhuma das obrigaes
desagradveis que os pais tm.
- No, no  isso, o senhor  como Luddie. Tem um pouco de
mulhet no seu ntimo.
 Justine, que se mostrac,a sempre to isolacionista, rettibuiu-lhe
aparentemente a simpatia: adormeceu. Ralph instalou-a mais conforta-
velmente e tirou um mao de Capstans do bolso dos cales.
- Dr-me os cigarros. Eu acendo-lhe um.
- Onde est Meggie? - perguntou Ralph, tirando o cgarro aceso
das mos dela. -- Obrigado. E desculpe-me, faa o favor de tirar um
tambm.
- No est aqui. Ela no conseguia refazer-se dos maus bocados
por que passou quando Justine nasceu, e a chu_ va parece ter sido a ltima
gota. Por isso Luddie e eu mandmo-la embora por dois meses. Estar
de volta no princpio de Maro; daqui a sete semanas.
 No momento em que falou, Anne deu-se conta da mudana ope-
rada nele, como se todo o seu propsito e a promessa de algum prazer
muito especial se houvessem desvanecido de repente. Ralph respirou
fundo.
- Esta  a segunda vez que venho para despedir-me e no a encon-
tro... Atenas, e agora. Naquela ocasio estive um ano fora e poderia
ter ficado muito mais, mas no o sabia. Nunca mais pus os ps em
Drogheda depois da morte de Paddy e Stu e, no entanto, quando chegou
a hora, descobri que no podia deixar a Austrlia sem ver Meggie.

360

PSSAROSrERIDOS

Contudo, ela casara e partira. Eu quis segui-la, mas compreendi que
isso no teria sido justo pata ela nem para Luke. Desta vez vim porque
sabia que no poderia prejudicat o que no existe.
- Para onde vai?
- Para Roma, para o Vaticano. O cardeal di Contini-Verehese
assumiu o cargo do cardeal Monteverdi, que morreu h pouco tempo,
e chamou-me, como eu sabia que o faria.  uma grande honra, mas
 tambm mais do que isso. No posso recusar-me a ir.
- Quanto tempo ficar l?
- Bastante tempo, creio eu. H rumores de guerra na Europa,
embora isso parea muito longe visto daqui. A Igreja, em Roma, neces-
sita de todos os diplomatas que possui e, graas ao cardeal di Contini-
-Verehese, fui classificadn como tal. Mussolini aliou-se intimamente
a Hitler, so ambos farinha do mesmo saco, e o caso  que o Vaticano
precisa de coneiliar duas ideologias que se opem, o catolicismo e o
fascismo. No ser fcil. Falo alemo muito bem, aprendi grego quando
estive em Atenas e italiano quando permaneci em Roma. Tambm falo
francs e espanhol fluentemente. - Suspirou. - Sempre tive queda
para lnguas, e cultivei-a. Era inevitvel que fosse transferido.
- Bem, Excelncia, a menos que se v embora amanh, ainda
poder ver Meggie.
 As palavras saram-lhe da boca antes que a prpria Anne tivesse
podido pensar; porque no haveria Meggie de v-lo uma vez ainda, antes
que ele se fosse, mormente se, como pensava, ia ausentar-se por tanto
tempo?
 A cabea de Ralph voltou-se para ela. Belos e distantes, os olhos
azuis eram muito inteligentes e muito difceis de enganar. Oh, sim,
ele nascera diplomata! Sabia com exactido o que ela estava a dizer,
e cada uma das razes escondidas no fundo da sua mente. Anne sur-
preendeu-se por esperar, ansiosa, a sua resposta, mas, durante muito
tempo, o padre no disse nada, quedando-se a olhar, por cima do cana
vial esmeraldino, para o rio cheio at s bordas, com o beb esquecdo
na curva do brao. Fascinada, Anne contemplou-lhe o perfil - a curva
das plpebras, o nariz recto, a boca reservada, o queixo resoluto. Que
foras estaria a mobilizar enquanto contemplava a paisagem? Que com-
plicados contrapesos de amor, desejo, dever, convenincia, poder da
 vontade, desejo veemente, pesavam no seu esprito, e quais contra quais?
 A mo ergueu o cigarto at aos lbios; Anne reparou-lhe nos dedos,
 que tremiam, e respirou sem fazer o menor tudo. Ali estava uma prova
 de que ele no era indiferente a Meggie.

361

 Durante uns dez minutos, talvez, Ralph nada disse; Anne acen-
deu-lhe outro Capstan e estendeu-lho. Ele tambm o fumou calmamente,
sem levantar a vista uma vez sequer das montanhas distantes e das
nuvens que diminuam o cu.
- Onde est Meggie? - perguntou num tom de voz perfeitamente
normal, atirando a segunda beata por cima da balaustrada da varanda
atrs da primeira.
 E do que ela respondesse dep deria a sua deciso; era a vez
de Anne pensar. Justificava-se que algum empurrasse outros seres
humanos para um rumo que ningum sabia aonde levava? No entanto
ela apenas se preocupava com Meggie, pouco Ihe importando, sincera-
mente, o que acontecesse quele homem. A sea modo, ele no era melhor
do que Luke. Sem ter tempo nem inclinao para colocar uma mulher
acima dela, corria no encalo de alguma coisa masculina, de um sonho
que provavelmente s existia na sua cabea confusa, sem mais subs-
tncia que o fumo da fbrica que se dissipava no at pesado, carregado
de melao. Mas era o que ele queria, e gastaria a vida a correr
atrs dela.
 Ralph no perderia o tino, por mais mportante que Meggie fosse.
Nem mesmo por ela - e Anne comeava a acreditar que ele a amava
mais do que a qualquer outra coisa, excepto o seu estranho ideal - com-
prometeria a oportunidade de agarrar, um dia, o que tanto almejava.
Por isso, se tespondesse que Meggie estava num hotel concorrido, onde
poderia ser reconhecido, no iria. Ningum sabia melhor do que ele
que no pertenca  espcie capaz de continuar annimo no meio da
multido. Anne molhou os lbios com a lngua, recuperou a voz.
- Meggie est num bangal na ilha de Matlock.
- Onde?
- Na ilha de Matlock. Uma estncia de veraneio que fica defronte
de Whitsunday Passage, especialmente destinada aos que se querem
isolar. De mais a mais, numa poca como esta, ser difcil encontrar
algum por ali. - No resistiu  tentao de acrescentar: - No se
preocupe, ningum o ver!
- Muito tranquilizador. - Com extrema delicadeza, ele tirou do
brao o beb adormecido e entregou-o a Anne. - Obrigado - disse,
encaminhando-se para a escada. Depois voltou-se, e nos seus olhos Iia-se
um apelo pattico. - Est muito enganada. S quero v-la, nada mais.
Nunca envolverei Meggie em coisa alguma que possa pr em perigo
a sua alma imortal.

362

- Nem a sua, no ? Nesse caso,  melhor ir-se embora como
Luke O'Neill. Dessa maneira, ter a certeza de no criar problemas
nem para Meggie, nem para si.
- E se Luke aparecer?
- No h a menor probabilidade. Foi para Sidnei e s voltar
em Maro. S poderia ter sabido que Meggie est em Matlock por meu
intermdo, e eu no Ihe disse nada, Excelnria.
- Meggie est  espera de Luke?
 Anne sorriu obliquamente.
- De maneira nenhuma - respondeu.
- No lhe farei mal - sistiu Ralph. - S quezo v-la, mais
nada.
- Estou perfeitamente ciente disso. Mas tambm no deixa de ser
verdade que Vossa Excelna lhe faria muito menos mal se lhe qui-
sesse mais - disse Anne.

 Quando o automvel do velho Rob apareceu roncando na estrada
Meggie, na varanda do bangal com a mo levantada, fez sinal de que
tudo estava bem e de que no precisava de coisa alguma. Ele parou
no lugar do costume para virar o crto, mas, antes disso, una homem
de cales, camisa e sandlias saltou do carro, com a mala na mo.
- Adeus, Senhor O'Neill! - gritou Rob ao partir.
 Meggie nunca mais confundiria Luke O'Neill com Ralph de Bri-
cassart. Aquele no era Luke; nem mesmo  distncia e  luz que se
dissipava rapidamente ela se deixou iludir. Permaneceu em silncio onde
estava e esperou que ele percorresse a estrada na sua direco. Ralph
de Bricassart, conclura, afinal, que Ihe queria. No poderia haver outra
razo para que viesse procur-la ali, fazendo-se passar por Luke O'Neill.
 Nada nela parecia estar a trabalhar, nem as pernas, nem a mente,
nem o corao. Aquele era Ralph, que viera reivindic-la; porque no
conseguira sentir o que quer que fosse? Porque no corria pela estrada
ao seu encontro, para cair nos seus braos, to feliz por v-lo que nada
mais importava? Aquele era Ralph, e ele era tudo o que Meggie queria
da vida; no passara mais de uma semana tentando arrancar essa ver-
dade do seu esprito? Maldito fosse, maldito fosse! Porque diabo teria
vindo quando ela mmeava a exclu-lo dos seus pensamentos, se no do
seu corao? Oh, tudo ia recomear! Aturdida, suando, colrica, ficou
 espera estupidamente, observando a forma graciosa aumentar de tama-
nho  medida que se aproximava.

363

- Ol, Ralph - dsse entre os dentes apertados, sem olhar
para ele.
- Ol, Meggie.
- Traga a mala c para dentro. Quer tomat uma chvena de ch?
 Enqanto falava, ela entrou  frente dele na sala de estar, mas
ainda sem coragem para encar-lo.
- Seria ptimo - respondeu Ralph, num tom to artificial como
o dela.
 Seguiu-a at  coziziha. Meggie eneheu de gua e ligou  corrente
uma cafeteira elctrica e depois foi ao guarda-loia buscar chvenas,
pires e um bule. A seguir, pegou numa grande lata de biscoitos Arnotts
e estende -lha, e Ralph tirou dois punhados, colocando-os num rato.
A gua ferveu, Meggie deitou-a no bule, despejou uma colher de ch
l dentro e aguardou um pouco. Logo que o ch fieou pronto voltaram
 sala de ,estar.
 As trs divises do bangal estavam no enfiamento umas das outras,
de modo que o quarto de cama comunicava com a sala de estar e a
cozinha. Isso queria,dizer que a casa tinha duas varandas, uma que
dava para a estrada, outra para a praia, o que, por seu turno, significava
que cada um deles tinha um stio para onde olhar, sem ser preciso
encarrem-se um ao outro. A noite cara com a rapidez habitual, mas
o ar que passava atravs das portas de correr escancaradas vinha cheio
do barulho das guas, da rebentao distante no recife, era uma brisa
quente e suave.
 Beberam o ch em silncio, embora nenhum deles conseguisse
comer um biscoito, e o silncio prolongou-se depoi de o ch acabar.
ele desviando o olhar para ela, ela mantendo o seu fixado na buliosa
extravagncia de uma palmeira-an, do outro lado da varanda que dava
para a estrada.
- Que aconteceu, Meggie? - perguntou Ralph com tanta suavi-
dade e ternura que o corao dela ps-se a bater frentico, e pareci,
morrer de tanta dor. Era a velha pergunta do homem  garotinha.
Ele no viera a Matlock ver a mulher. Viera ver a criana. mava
a criana, no a mulher. Odiara-a desde que principiara a existir.
 Os olhos dela, atnitos, ultrajados, furiosos, buscaram os dele.
Parada no tempo, olhou-o de tal modo que Ralph foi obrigado a rer,
com a respirao presa, assombrado, a mulher adulta nos olhos de
vidto. Os olhos de Meggie. Meu Deus, os olhos de Meggie!
 Ralph fora sinerro no que dissera a Anne Mueller; s queria v-la,
nada mais. Conquanto a amasse, no pretendia ser seu amante. S viera

364

v-la, conversar com ela, ser seu amigo, dormir no sof da sala de estar,
enquanto tentava, mais uma vez, desenterrar a raiz principal do eterno
fasnio que ela exercia sobre ele, pensando que, se pudesse v-lo total-
mente exposto, lograria os meios espirituais para erradic-lo.
 Fora-lhe difcil ajustar-se a uma Meggie com seios, cintura, ancas,
mas fizera-o porque, ao olhar para os olhos dela, via luzir neles, como
na chama da lamparina de um santurio, a sua Meggie. Uma mente
e um esprito de cuja atraco nunca mais se libertara desde que a vira
pela primeira vez, ainda no mudada no interior daquele corpo triste-
mente transformado; mas enquanto Ihe visse no olhar a prova da sua
continuada existncia, aceitaria o corpo alterado, disciplinaria a sua
atraeo por ele.
 E, examinando os seus prprios desejos e sonhos em relao
a Meggie, Ralph nunca duvidara de que ela quisesse fazer o mesmo, at
ao dia em que se voltara contra ele, como uma gata ferida, por ocasio
do nascimento de Justine. Mesmo ento, depois de a clera e a mgoa
terem morrido nele, atribura a exploso ao sofrimento, mais espiritual
do que fsico. Mas agora, vendo-a por fim como ela era, foi-lhe possvel
localizar no tempo e no espao o momento em que Meggie se desfizera
das lentes da infncia e colocara as de mulher: o intervalo no cemtrio
de Drogheda, depois da festa de aniversrio de Maty Carson, quando
ele lhe explicara a razo por que no podia prestar-lhe qualquer ateno
especial, pois as pessoas poderiam consider-lo interessado nela como
homem. Ela fitara-o com uma expresso que ele no eompreendera,
depois desviara o olhar e, quando se voltara, a expresso desaparecera.
E Ralph via agora que, a partir daquele momento, Meggie pensara nele
de modo diferente; ao heij-lo, no o fizera movida por uma fraqueza
passageira, para depois voltar a pensar nele como sempre, como ele
pensava nela. Ralph perpetuara as prprias iluses, alimentara-as, guar-
dara-as no seu inalterado estilo de vida da melhor maneira possvel,
usara-as como um cilcio, ao passo que, durante todo esse tempo, Meggie
desenvolvera o amor que lhe votava, mas como mulher.
 Sim, ele reconhecia-o, desejara-a fisicamente desde o primeiro beijo,
mas o desejo nunca o atormentara tanto como o amor; via-os separados
e distintos, no como facetas da mesma coisa. E ela, pobre criatura
incompreendida, nunca sucumbira a esse tipo de loucura.
 Naquele momento, se houvesse algum modo de sair da ilha de
Matlock, Ralph tetia fugido de Meggie como Orestes das Eumnides.
Mas no era possvel e ele teve a coragem de permanecer diante dela
em vez de se pr a andar sem destino pela noite fora: <<Que posso

365

fazer? Como repatar o que fiz? Eu amo-a! E, se a amo, amo-a tal como
 agora e no como foi noutra fase da sua vida. So as coisas de mulher
que sempre amei nela: o seu modo de encarar a vida. Portanto, Ralph
de Bricassart, tira os teus antolhos, v-a como ela realmente  e no
como era h muito tempo. H dezasseis anos, h dezasseis longos anos...
Tenho quarenta e quatro e ela vinte e seis; nenhum dos dois  criana,
mas sou muito mais imaturo do que ela.
 <<Julgaste que estava tudo resolvido no momento em que me apeei
do carro de Rob, no  verdade, Meggie? Supuseste que eu acabara por
ceder. E a primera coisa que fiz, antes que tivesses tempo de tomar
flego, foi mostrar-te que estavas completatnente enganada. Rasguei
o tecido da tua iluso como se rasga um trapo velho e sujo. Oh, Meggie!
Que te fiz eu? Cflmo pude ser to cego, to egocntrico? S consegui,
vindo ver-te, magoar-te ainda mais. Todos estes anos temo-nos amado
sem nos entendermos.>>
 Meggie continuava a olhar para os olhos dele com os seus cheios
de vergonha, mas,  medida que as expresses se sucediam no rosto de
Ralph, at  ltima, de piedade sem esperanas, ela pareceu compreen-
der a magnitude do seu erro, o horror do seu engano. E mais do que
isso: compxeendeu que ele estava a par de tudo.
 V, corre! Corre, Meggie, sai daqui com o resto de orgulho que
ele te deixou! Pensar foi o mesmo que agir: Meggie levantou-se da
cadeira e correu para a varanda.
 Mas antes que l chegasse, Ralph segurou-a, de modo que o mpeto
da corrida f-la girar sobre si mesma e ela acabou por chocar com ele
com tanta fora que o fez cambalear. Nesse momento, a luta estafante
para conservar a integridade da sua alma e a longa presso feita pela
vontade para sufocar o desejo perderam toda a importncia; em alguns
instantes ele vivera existncias. Toda essa fora jazia latente, adorme-
cida, e necessitava apenas de um detonador para provocar um caos em
que a mente se submetia  paixo e a vontade da mente se extinguia
diante da vontade do corpo.
 Os braos de Meggie subiram para cingir-lhe o pescoo, os braos
de Ralph envolveram-lhe as costas, em espasmos; ele inclinou a cabea,
tacteou com a boca  procura dos lbios dela, encontrou-os. Lbios que
j no eram uma lembrana malquerida, desagradvel, mas algo real;
braos que o enlaavam, como se ela no pudesse suportar a ideia de
deix-lo partir, como se perdesse at a sensao dos prprios ossos;
e ela, escura como a noite, lembrana e desejo entrelaados, lembrana
agora querida e desejo,incontrolvel. Os anos que ele devia ter ansiado

366

por aquilo, ansiado por ela e negando-lhe o poder, guardando-se at ela
ser mulher!
 Levou-a para a cama, ou ambos caminharam at l? Ralph supunha
que devia t-la levado, mas no podia ter a certeza; s sabia que ela
estava l, em cima da cama, e que ele estava l, em cima da cama,
 pele dela sob as mos dele, a pele dele sob as mos dela. Oh, Deus!
Minha Meggie, minha Meggie! Como foi possvel que me criassem desde
pequeno com a ideia de que eras uma profanao?
 O tempo parou de bater e ps-se a fluir, arremessou-se a ele at
perder o significado, transmudado na profundidade de uma dimenso
mais real do que o tempo real. Ele sentia-a e, no entanto, no a sentia,
pelo menos no a sentia como entidade separada; desejando fazer dela
finalmente e para sempre uma simbiose em que ela figurasse como
elemento distinto. Nunca mais ignoraria o arfar dos seios, da barriga
e das ndegas, nem as dobras e as fendas existentes entre eles. Meggie
fora feita para Ralph, pois ele fizera-a; durante dezasseis anos afeioara-a
e modelara-a, sem saber que o fazia e, muito menos, porqu. E esque-
ceu-se de que um dia se desfizera dela, que outro homem lhe mostrara
o fim do que ele comeara, do que sempre pretendera para si, pois ela
era a sua rosa, a sua criao. Um sonho de que jamais despertaria,
enquanto fosse homem e tivesse um corpo de homem. <<Oh, meu Deus!
Eu sei, eu sei! Eu sei porque a guardei como ideia e como criana
dentro de mim, depois de tanto tempo em que ela, crescendo, deixara
de ser ideia e criana. Mas porque tm essas coisas de ser aprendidas
deste modo? >>
 Porque ele compreendia finalmente que o que ambicionara ser no
era um homem. No era um homem, mas algo muito maior, que trans-
cendia o destino do homem. Apesar disso, o seu destino estava aqui,
debaixo das suas mos, palpitante e vivo. <<Um homem, um homem
para sempre, Senhor, no poderias ter-me evitado isto? Sou um homem,
nunca serei Deus; foi uma iluso a vida em busca da divindade. Sero
os padres todos iguais, ansiando por ser Deus, abjutando o nico acto
que prova 2rrefutavelmente que so homens?>>
 Envolveu-a com os braos e contemplou com os olhos marejados
de lgrimas o rosto imvel, fracamente iluminado, viu abrir-se-lhe a boca
como um boto de rosa, arfar. Os brans e as pernas dela envolviam-no,
cordas vivas que o ligavam a ela, e que o atormentavam, sedosos e insi-
nuantes; Ralph colocou o queixo no ombro de Meggie e encostou a cara
  suavidade do seu rosto, entregou-se ao impulso alucinante, exaspe-
 rante, do homem engalfinhado com o destino. A sua mente girou,

3g?

escorregou, tornou-se inteiramente escura e ofuscantemente luminosa
 or um momento sentiu-se dentro do sol, depois o brilho foi dimi-
nuindo, acinzentou-se e desvaneceu-se. Isso era ser homem e no poderia
s-lo mais. No era essa, porm, a origem da dor. A dor estava no
momento final, no momento finito, na percepo vazia e desolada:
o xtase  fugaz. Ele no poderia deix-la r, agora que a tinha; fizera-a,
para si. Por isso agarrou-se a ela como o nufrago se aferra a um pedao
de madeira no mar solitrio e, logo, animado, subindo de novo com
a mar que se lhe tornara rapidamente familiar, sucumbiu ao destino
inescrutvel que  o do homem.

 Que ra o sonc? Meggie reflectia. Uma bno, uma trgua da
vida, um eco da morte? Fosse o que fosse, Ralph entregara-se ao sono
e jazia com o brao sobre ela e a cabea ao lado do ombro dea, pos-
sessivo. M ggie tambm estava cansada, mas recusava-se a dormir.
De certo iodo, temia que, se afrouxasse o domnio sobre a prpria
conscinci , ele j no estivesse l quando la tornasse a activ-la.
Dormiria '' mais tarde, depois de Ralph despertar e de a bela boca
reservada pronunciar as primeiras palavras. Que lhe diria? Lamentaria
o que acontecera? O prazer que lhe dera fora digno do que ele aban-
donara? Ralph lutara com ela durante tantos anos, que mal poc a
acreditar que tivesse afinal deposto as armas. Mas ouvira coisas no meio
da noite e no meio da dor que lhe apagavam a longa frustrao.
 Meggie sentia-se imensamente feliz, mais feliz do que se lembrava
de j ter sido alguma vez. Desde o momento em q,ze ele a puxara da
porta fora tudo um poema corporal, uma coisa de braos, de mos, de
pele e de prazer total. <<Fui feita para ele, e s para ele... >> Por isso
sentia to pouco com Luke! Sustentada, alm dos limites de resistncia
 ela mar do seu corpo, s podia pensar que dar tudo o que pudesse
a Ralph era-lhe mais necessrio a ela do que a prpria vida. Cumpria
que ele nunca o lamentasse, apesar do seu sofrimento! Momentos hou-
vera em que cuidara senti-lo, como se o sofrimento fosse seu, o que s
contribua para a sua felicidade, pois hvia alguma justia no sofri-
mento dele.
 Ralph estava acordado. Ela olhou-o nos olhos e, no azul desses
olhos, viu o mesmo amor que a aquecera, que lhe dera um propsito
desde a infncia; e, como ele, um grande, um nublado cansao. No do
corpo, mas da alma.
 Ele estava a pensar que, durante toda a sua vida, nunca despertara
na mesma cama ao lado de outra pessoa; aquilo, de certo modo,

368

PSSAROS FEftiDOS

era mais ntimo que o acto sexual que o preeedera, uma indicao
deliberada de vnculos emocionais, um aderir a ela. Leve e vazio como
o ar to capitosaznente cheio de maresia e de vegetao encharcada
de sol, Ralph deixou-se levar por algum tempo nas asas de uma espcie
diferente de liberdade: o alvio de renunciar  misso de combat-la,
a paz de er perdido uma guerra longa e inerivelmente sangrenta,
achando a re` dio muito mais doce do que as batalhas. <<Travei contigo
uma tremenda luta, minha Meggie! No fim, todavia, no so os teus
fragmentos que tenho de colar uns aos outros, mas os pedaos desccn-
juntados de mim mesmo. Foste colocada na minha vida para mostrar-me
quanto  falso e presunoso o orgulho de um padre da minha esncie;
como Lcifer, aspirei ao que pertence somente a Deus e, como Lcifer,
ca. Eu tinha a castidade, a obedincia e at a pobreza antes de conhecer
Mary Carson, mas, at hoje, jamas soubera o que  a humildade. Senhor,
se ela no significasse nada para mim, isso seria mais fcil de suportar,
mas, s vezes, acho que a amo muito mais do que a Ti, e isso tambm
faz parte da Tua punio. No duvido dela; mas de Ti? Um truque,
um fantasma. Como posso amar um fantasma? E, contudo, amo.>

- Se eu pudesse reunir as minhas energias, iria nadar um pouco
e depois prepararia o pequeno-almoo - disse, louco por dizer alguma
coisa e sentindo o sorriso dela de encontro ao peito.
- Encarrega-te da natao que eu trato do pequeno-almoo.
E olha que aqui no h necessidade de roupa. No aparece ningum.
- , de facto, o paraso! - Ralph ps os ps fora da cama, sentou-
-se e espreguiou-se. - Uma linda manh. Eu gostaria de saber se isso
no ser um pressgio.
 J a dor da separao, s porque ele saltara da cama; Meggie per-
maneceu deitada, a observ-lo, enquanto ele se dirigia s portas de correr
que abriam para a praia, transpunha a soleira e se detinha. A seguir,
voltou-se e estendeu a mo.
- No vens comigo? Podemos prepatar juntos o pequeno-almoo.
 A mat estava alta, o recife coberto, o sol matutino aquea,
mas o vento irrequieto do Vero era frio; a relva grosseira emitia tent-
culos pelo meio da areia que se desfazia, donde caranguejos e insectos
fugiam para todos os lados.
- Sinto-me como se nunca tivesse visto o mundo antes - disse
 Ralph, arregalando os olhos.

 Meggie agarrou-se  sua mo; confortada, achava este dia soalheiro
 mais ncompreensvel que a realidade cheia de sonhos da noite. Os seus

369

olhos demoraram-se nele, doendo. Um tempo imemoral, um mundo
diferente.
 Por isso disse:
- Este mundo, no. Como poderias t-lo visto? Este  o nosso
mundo, e s-lo- enquanto durar.
- E Luke, como ? - perguntou Ralph, j sentado  mesa.
 Ela inclinou a cabea para um lado, reflectindo.
- Menos parecido contigo do que eu costumava achar porque,
naqueles dias, eu sentia muito a tua falta, no me acostumara a viver
sem ti. Creio que o desposei por causa da semelhana. De qualquer
maneira, eu decid3ra casar com algum, e ele estava bem acima do resto.
No me refiro ao valor, nem  gentileza, nem a nenhuma dessas coisas
que se supe que as mulheres gostam de encontrar no marido, mas num
sentido que no consigo definir bem. A no ser, talvez, que ele
 como tu. Tambm no precisa de mulheres.
 O resto dele contraiu-se.
-  assim que me vs, Meggie?
- Queres que eu seja franca? Creio que sim. Nunca compreenderei
porqu, mas creio que sim. Qualquer coisa em Luke e em t f-los
acreditar que precisar de uma mulher  uma fraqueza. No falo em
dormir com ela; falo em precisar, em precisar de verdade.
- E, compreendendo isso, ainda assim amas-me?
 Ela encolheu os ombros e sorriu com laivos de piedade.
- Ora, Ralph! No digo que no  importante, e isso decerto
causou-me muita infelicidade, mas as coisas so assim. Eu seria uma
parva se me consumisse tentando expulsar o que no pode ser expulso.
O melhor que posso fazer  explorar a fraqueza, e no ignorar-lhe
a existncia, porque eu gosto e preciso tambm. E, aparentemente,
gosto e preciso de gente como tu e Luke, pois, de contrrio, no me
teria preocupado com vocs como me preocupei. Teria casado com um
homem bom, simples como meu pai, algum que gostasse e necessitasse
de mim. Mas creio que h um qu de Sanso em todos os homens.
E em homens como tu e Luke esse qu  mais pronunciado.
 Ele no parecia nada zangado; pelo contrrio, sorria.
- Minha sbia Meggie!
- Isso no  sabedoria, Ralph.  apenas bom senso. No sou
muito sbia, e sabes isso. Mas v os meus irmos. Duvido de que os
mais velhos casem algum da, ou mesmo que arranjem namoradas.
So terrivelmente tmidos, tm pavor do poder que uma mulher possa
exercer sobre eles, e esto totalmente concentrados na me.

370

 Os dias seguiram-se aos dias, as noites seguiram-se s noites.
At as pesadas chuvas de Vero erazn belas quando eles as arrostavam
nus, a passear, ou ficavam a ouvi-las batendo no telhado de ferro,
to quentes e cheias de carcias como o Sol. E quando o Sol surgia,
passeavam tambm, ou deitavam-se na praia, ou nadavam, pois ele
estava a ensin-la a nadar.
 s vezes, quando Ralph no se julgava observado, Meggie espiava-o
e tentava desesperadamente imprimir o rosto dele no seu crebro
(lembrava-se de que, apesar do amor que dedicara a Frank, a sua imagem,
o seu jeito, toldara-se com o passar dos anos). Havia os olhos, o nariz,
a boca, as assombrosas asas brancas no cabelo preto, o corpo longo
e rijo que conservara a esbeltez e a tenso da mocidade, embora estivesse
um pouco mais duro, menos elstico. E de sbito ele voltava-se
e surpreendia-a a observ-lo, com uma expresso de pesar acossado,
um olhar condenado. Meggie compreendeu a implcita mensagem,
ou sups hav-la compreendido; ele precisa de ir, de voltar  Igreja
e s suas obrigaes. Nunca mais com o mesmo esprito, talvez, porm
mais capaz de servir, pois s os que tropeam e caem conhecexn as
vicissitudes do caminho.
 Um dia, quando o Sol descera o suficiente para ensanguentar o mar
e manchar a areia de coral de um amarelo enevoado, e ambos conti-
nuavam deitados na praia, ele voltou-se para ela.
- Meggie, nunca fui to feliz, ou to infeliz.
- Eu sei, Ralph.
- Acredito que saibas. Ser porque te amo? No s muito fora
do comum, Meggie, e, todavia, no s nada de comum. Terei percebido
isso, durante todos estes anos? Creio que sim. A minha paixo pelo
cabelo ticianesco! Mal sabia eu aonde me levaria. Eu amo-te, Meggie.
- Vais partir?
- Amanh. preciso. O meu navio larga para Gnova daqui
a menos de uma semana.
- Gnova?
- Roma, para ser mais exacto. Por muito tempo, talvez para
o resto da vida. No sei.
- No te preocupes, Ralph. Eu deixar-te i partir sem estardalhao.
O meu prazo tambm se est a esgotar. Vou deixar Luke e voltar para
Drogheda.
- Oh, meu Deus! Mas no  por causa disto, por minha causa?
- No,  claro que no - mentiu. - Eu j tomara essa deciso
antes de chegares. Luke no me quer nem precisa de mim, no sentit

371

a minha falta, mas eu preciso de um lar, de algo meu, e creio que
Drogheda ser sempre esse lugar. No  justo que a pobre Justine
cresa numa casa em que sou a criada, embora eu saiba que Anne
e Luddie no me consideram como tal. Contudo,  assim que me consi-
dero e  assim que Justine me considerar quando tiver idade suficiente
para compreender que no tem um lar normal. De certo modo, nunca
o ter, mas pre iso de fazer por ela tudo o que me for possvel. Por isso,
voltarei para Drogheda.
- Eu escreverei, Meggie.
- No, no escrevas. Achas que preciso de cartas depois disto?
No qu ro que haja entre ns nada que possa pr-te em perigo, se cair
nas mos de pessoas sem escrpulos. Por isso, nada de cartas. Se um
dia vieres  Austrlia, ser natural e normal que visites Drogheda,
embora eu j te avise, Ralph: pensa muito antes de faz-lo, pois s
h dois stios no mundo onde me pertences antes de pertenceres a Deus:
aqui, em Matlock, e em Drogheda.
 Ele puxou-a para junto de si e aninhou-a entre os braos, acariciando-
-lhe o cabelo cintilante.
- Meggie, eu queria de todo o corao poder casar contigo e nunca
mais me s parar de ti. No quero deixar-te... e, de certo modo, nunca
voltarei a libertar-me de ti. Preferia no ter vindo a Matlock, mas no
podemos mudar o que somos, e talvez seja melhor assim. Conheo agora
coisas a meu respeito que jamais conheceria nem enfrentaria se no
tivesse vindo.  melhor lutar com o conhecido do que com o desconhe-
cido. Amo-te, szmpre te amei e sempre te amarei. Nunca te esqueas
disso.
 No dia seguinte, Rob apareceu pela primeira vez desde que ali
deixara Ralph, e esperou, paciente, que eles se despedissem. No eram,
obviamente, recm-casados, visto que ele chegara depois dela e partia
antes; mas no deviam ser amantes; eram casados, e isso via-se clara-
mente neles. Contudo, queriam-se muito um ao outro, muito mesmo.
Como ele e a suz mulher; uma rande diferena de idade, que contribua,
alis, para reforar o casamento.
- Adeus, Meggie.
- Adeus, Ralph. Tem cuidado.
- Fica descansada. Tem cuidado tambm.
 Ralph inclinou-se para beij-la; apesar da sua resoluo, Meggie
agarrou-se-lhe ao pescoo, mas, quando ele Ihe puxou as mos, ela
colocou-as rigidamente nas costas e ali as consetvou.

372

 Ralph entrou no automvel e sentou-se, enquanto Rob fazia marcha
a tts. Em seguida, ficou a olhar para a frente pelo pra-brisas, sem se
virar uma nica vez. Poucos homens poderiam fazer isso, reflectiu Rob,
que nunca ouvira falar em Orfeu. Seguiram em silncio pela floresta
tropical e chegaram, por fim, ao lado de Matlock fronteiro ao mar e ao
comprido desembarcadouro. Quando apertaram as mos um do outro,
Rob olhou para o rosto dele, espantado. Nunca vira olhos to humanos,
nem to tristes. O alheamento desaparecera para sempre do olhar do
arcebispo Ralph.

 Quando Meggie voltou a Himmelhoch, Anne adivinhou logo que
a perderia. Sim, era a mesma Meggie - mas, de certo modo, muito
mais ela. FossP o que fosse que o arcebispo Ralph houvesse dito a si
mesmo antes de ir para Matlock, as coisas afinal deviam ter-se passado
como Meggie queria. Antes tarde do que nunca.
 Ela tomou a filha nos braos como se s ento compreendesse
o que significava ter Justine, e ps-se a embal-la enquanto corria a vista
pela sala, sorrindo. Os seus olhos, to vivos, to brilhantes de emoo,
encontraram os de Anne, que sentiu os seus cheios de lgrimas rec-
procas da mesma alegria.
- Nunca lhe agradecerei o suficiente, Anne.
- Hom'essa : Porqu?
- Por ter mandado Ralph. Voc devia saber que, degois disso,
eu deixaria Luke e, portanto, agradeo-lhe mais ainda, querida. No faz
ideia do que esses dias representaram para mim! Eu j decidira ficar
com Luke, mas a ora ou voltar para Drogheda e nunca mais saisei
de l.
- Custa-me v-la partir, Meggie, sobretudo por causa de.Tustine,
 zas alegro-me pelas duas. Luke s Ihes dar infelicidade.
- Sabe onde ele est?
- J voltou das CSR. Est a cottar cana perto de Ingham.
- Terei de ir v-lo, diga-lhe isso. E, por mais que abomin a ideia,
terei de dormir com ele.,
- O qu?
 Os olhos brilharam.
- Estou duas semanas atrasada, e nunca me atrasei um dia sequer.
A nica outra vez que isso aconteceu, foi com Justine. Estou grvi a,
Anne, sei que estou.
- Misericrdia! - Anne olhou boquiabetta para Meggie como se

373

nunca a tivesse visto antes, o que talvez fosse verdade. Molhou os lbios
e gaguejou: -Mas pode ser um alarme falso,
 Meggie abanou decididamente a cabea.
- No , no. Estou grvida. H coisas que a gente sabe.
- Nesse caso arranjou um bom sarilho - murmurou a outra.
- No seja cega, Anne! No v o que isto signifca? Nunca poderei
ter Ralph, e sempre o soube. Mas tenho-o, tenho-o! - Riu-se, apertando
Justine com tanta fora que Anne ficou com medo de que a criana
chorasse. Estranhamente, porm, ela continuou calada. - Tenho a parte
de Ralph que a Igreja nunca poder ter, a parte dele que subsistir,
gerao aps gerao. Atravs de mim ele ser imortal, porque sei que
ser um filho! E esse filho ter filhos, que tambm tero filhos...
ainda acabarei por vencer Deus. Amo Ralph desde os dez anos de idade,
e creio ue continuarei a am-lo se viver cem anos. Mas ele no  meu,
ao passo que o filho dele o ser. Meu, Anne, meu!
- Oh, Meggie! - disse Anne, atarantada.
 A paixo morreu, morreu a animao; ela voltou a ser a Meggie
de sempre, calma e suave, mas com o tnue veio de ferro, a capadade
de suportar muito. S que Anne agora hesitava, perguntando a si mesma
se fizera bem em mandar Ralph de Bricassart  ilha de Matlock.
Seria possvel que algum mudasse tanto? Achava que no. Aquilo,
com cetteza, estivera sempre com Meggie, to bem escondido que raro
ihe suspeitavam da presena. Havia muito mais na jovem do que um
tnue veio de ferro; ela era feita de ao slido.
- Meggie, se gosta de mim, faa-me o favor de lembrar-se de
uma coisa. Por mim.
 Os olhos cinzentos enrugaram-se nos cantos.
- Tentarei !
- Com o passar dos anos, acabei por ler quase tados os livros
de Luddie, depois de haver concludo a leitura dos meus. Principalmente
os que contam as antigas histrias gregas, que me fascinam. Dizem que
os Gregos tm uma palavra para tudo, e que no existe nenhuma situa-
o humana que eles no tenham descrito.
- Eu sei. Tambm li alguns livros de Luddie.
- Ento deve lembrar-se. Dizem os Gregos que  pecar contra
os deuses amar alguma coisa mais do que manda a razo. E lembra-se
do que eles contam quando algum  amado assim? Que os deuses,
invejosos, abatem o objecto desse amor na plenitude da sua fora?
H uma lio nisso, Meggie. l profano amar de mais.

374

- Profano, Anne,  a palavra-chave! No amarei o filho de Ralph
profanamente, mas com a pureza da prpria Me Santssima.
 Os olhos cinzentos de Anne estavam muito tristes.
- E teria ela amado puramente? O objecto do seu amor foi abatido
na plenitude da Sua fora, no foi?
 Meggie colocou Justine no bercinho.
- O inevitvel tem muita fora. No posso possuir Ralph, mas
posso ter o filho dele. Sinto... como se houvesse, afinal, um pro-
psito na minha vida! Essa tem sido a pior coisa nos ltimos trs anos
e meio, Anne. Eu j comeava a pensar que a minha vida no tinha
finalidade. - Sorriu com vivacidade e deciso. - Protegerei esta criana
d todas as maneiras que puder, por mais que isso me custe. E a pri-
meira coisa  que ningum, incluindo Luke, insinuar que ela no faz
jus ao nico nome que tenho liberdade para lhe dar. A simples ideia
de dormir com Luke deixa-me nauseada, mas eu f-lo-ei. Dormiria com
o Diabo se isso favorecesse o futuro desta criana. Depois irei para
Drogheda e espero nunca mais tornar a ver Luke. - Afastou-se do
bero. - A Anne e Luddie iro ver-nos? Drogheda tem sempre um
quarto para os amigos.
- Uma vez por ano, por quantos anos nos quiset. Luddie e eu
desejamos ver Justine crescer.

 S a ideia do filho de Ralph sustentou a coragem vacilante de
Meggie enquanto o pequeno comboio balanava e sacolejava durante
os longos quilmetros que a separavam de Ingham. Se no fosse a nova
vida que, tinha a certeza, crescia dentro dela, ir de novo para a cama
com Luke teria sido o maior dos pecados contra si mesma; mas pelo
filho de Ralph ela seria capaz de se entender, de facto, com o prprio
Demnio.
 Sabia, alis, que at do ponto de vista prtico a coisa no seria
fcil. Mas ttaara os seus planos com a maior dose possvel de previ-
so e, por estranho que parea, ajudada por Luddie. No pudera escon-
der muita coisa dele, que, alm de ser demasiado astuto, era o confi-
dente habitual de Anne. Ele olhara com tristeza para Meggie, sacudira
a cabea e dera-lhe alguns conselhos excelentes. Claro est que a verda-
deira finalidade da sua misso no fora mencionada, mas Luddie estava
to acostumado a somar dois mais dois como a maioria das pessoas
que tinham o hbito de ler livros macios.
- No deve dizer a Luke que vai deix-lo quando ele estiver
a cair de cansao, depois do corte da cana - principiou Luddie delica-

375

damente. - r muito melhor apanh-lo de bom humor, no Ihe
parece? Pois, ento, veja-o no sbado  noite ou no domingo da semana
em que ele tiver sdo escalado para cozinhar. Segundo se diz por a,
Luke  o melhor cozinheiro do circuito dos cortadores... Aprendeu
a cozinhar quando era aprendiz de tosquiador, e os tosquiadores so
mais exigentes que os cortadores. Isso quer dizer que a cozinha no
o cansa, entende? Provavelmente acha o trabalho do fogo to fcil
como desviar-se de um tronco de rvore que vai cair. Esse, portanto,
 o proeesso, Meggie. D-lhe a notcia quando ele estiver realmente bem,
depois de uma semana a cozinhar.
 Meggie tinha a impresso, ultimamente, de que andavam bem
longe os dias em que costumava corar; sustentou com firmeza o olhar
de Luddie, sem que o seu rosto se zuborizasse.
- Ser capaz de descobrir a semana em que Luke est de servico
 cozinha, Luddie? Ou haver outra maneira de eu saber?
- Isso  fcil - disse este, jovialmente. - Tenho o meu sistema
particular de nformaes. Deixe isso eomigo.
 J ia em meio a tarde de sbado quando Meggie entrou na melhor
hospedaria de Ingham. Todas as cidades de North Queensland eram
famosas por uma coisa: tinham hospedarias nos quatro cantos de cada
quarteiro. Deixou a maleta no quarto e depois voltou ao pouco atraente
saguo  procura de um telefone. Estava na cidade uma equipa da Liga
de Rguebi, que se preparava para um jogo-treino antes da temporada,
e os corredores encontravam-se cheios de jogadores seminus, completa-
mente bbedos, que saudaram o seu aparecimento com gritos e palma-
dinhas afectuosas nas costas e mais abaixo. Quando ps a mo no tele-
fone, ela tremia de medo; tudo naquela aventura lhe parecia um suplcio.
Contudo, apesar da algazarra e dos rostos bbedos que avultavam  sua
volta, obteve uma ligao para Braun's, isto , a fazenda onde o grupo
de Luke cortava a cana, e pediu que Ihe dessem um recado: a mulher
estava em Ingham e desejava v-lo. Notando-lhe o medo, o hospedeiro
escoltou-a de volta ao quarto e ficou  espera at ela dar a volta  chave.
 Meggie encostou-se  porta, sentindo-se aliviada, ainda que isso
significasse que s tornaria a comer outra vez quando regressasse
a Dunny, pois no se aventuraria a ir  sala de jantar. Felizmente
o dono da hospedaria colocara-a ao lado da casa de banho das senhoras,
de modo que no era preciso andar muito para chegar l. No momento
em que sups que as pernas a sustentaram, aproximou-se, cambaleante,
da cama e sentou-se nela, eom a cabea baixa, olhando para as mos,
que trem i m.

376

PSSAROSFER DOS

 Durante toda a viagem pensara na melhor maneira de fazer o que
tinha na mente, e tudo nela gritava: depressa, depressa! At ir viver
para Himmelhoch, nunca lera a deserio de uma cena de seduo,
e mesmo agora, armada de vrias histras dessa natureza, no estava
certa da sua capacidade para levar a cabo a tarefa que se impusera.
Mas era isso o que viera fazer, pois sabia que, logo que comeasse
a falar com Luke, estaria tudo acabado. Sentia ccegas na lngua para
dizer-lhe o quz pensava dele. Porm, mais forte do que isso, consumia-a
o desejo de voltar a Drogheda com o filho de Ralph em perfeita
segurana.
 Tremendo no ar pesado e hmido, tirou a roupa e deitou-se
na cama, de olhos fechados, tentando no pensar em nada seno na
convenincia de prover  segurana do filho de Ralph.
 Os jogadores de rguebi no causaram preocupao a Luke quando
este entrou na hospedaria, sozinho, s nove horas; nessa altura, a maioria
estava insensvel e os que ainda conseguiam manter-se de p pareciam
incapazes de ver alguma coisa alm dos copos de cerveja.
 Luddie acertara em cheio; no fim da semana em que fizera as
vezes de cozinheiro, Luke, folgado, ansiava por uma mudana e ressumava
boa vontade. Quando o filho mais moo de Braun's levou o recado
de Meggie s barracas, ele acabava de lavar os ltimos pratos do jantar
e planeava ir de bicicleta a Ingham juntar-se a Arne e aos companheiros
para a habitual patuscada dos sbados  noite. A perspectiva de Meggie
era uma alternativa muito agradvel, j que, depois das frias no
Atherton, surpreendera-se a desej-la de vez em quando, a despeito
da sua exausto fsica. S o horror  lengalenga dela tentando persuadi-lo
a comear a vida como chefe de famlia o afastara de Himmelhoch
todas as vezes que chegava mais perto de Dunny. Agora, porm,
ela viera procur-lo e ele no era, de modo algum, avesso a uma noite
na cama. Acabou de lavar os pratos depressa, e teve a sorte de arranjar
boleia nutn camio depois de haver pedalado, quando muito, uns oito-
centos metros. Mas enquanto percorria os trs quarteires que mediavam
entre o lugar onde o camio o dexara e a hospedaria de Meggie,
parte da sua boa disposio desapareceu. Todas as farmcias estavam
fechadas, e ele no tinha camisas-de-vnus. Parou, olhou para uma
vitrina cheia de chocolates rodos e manehados de sol e varejeiras mortas,
e encolheu os ombros. Teria de arriscar-se. Seria apenas uma noite
e desta vez, se viesse um filho, com um pouco de sorte seria um rapaz.
 Meggie saltou nervosamente da cama quando ouviu bater, e acercou-
-se da porta.

377

PSSAROS FEftIDOS

- Quem ? - perguntou.

- Luke.
 Rodou a chave, entreabriu a porta e foi postar-se atrs dela quando
Luke a abriu mais. Assim que ele entrou, Meggie fechou a porta com
fora e ficou a olhar para ele. Luke encarou-a, tambm, fixando os olhos
nos seios maiores, mais redondos, mais sedutores do que nunca, cujos
mamilos haviam perdido o tom rosa-plido e assumido uma cor vermelha-
-escura, por causa do beb. Se Luke precisasse de estmulos, aquilo seria
mais do que suficiente; estendeu os braos, pegou-lhe e levou-a para
a cama.
 Ao romper do dia ela ainda no pronunciara uma palavra, embora
o houvesse acolhido de um modo que despertara nele um desejo febril
que nunca experimentara antes. Agora estavam longe e curiosamente
divorciados um do outro.
- Que te trouxe a Ingham, Meg? - perguntou.
 Meggie voltou a cabea, fitando nele dois olhos grandes e desde-
nhosos.
- Ento, que  que te trouxe aqui? - repetiu, mortificado.
 Nenhuma resposta. Apenas o mesmo olhar fixo, pungente, como se
ela no quisesse dar-se ao trabalho de responder, o que era ridculo
depois daquela noite.
 Os lbios dela abriram-se; Megge sorriu.
- Vim dizer-te que vou voltar para minha casa, para Drogheda,

- disse.
 Por um momento Luke no acreditou no que ouvira depois olhou
com mais ateno para o rosto dela e percebeu ue Meggie estava
a falar a srio.
- Porqu? - perguntou.
- Eu disse-te o que aconteceria se no me levasses a Sidnei.
 O assombro dele era absolutamente genuno.
- Mas, Meg! Isso j foi h dezoito meses! E eu dei-te umas frias!
Passmos quatro malclitas semanas carssimas no Atherton! Eu no
estava em condies de levar-te a Sidnei depois disso!
- Estiveste em Sidnei duas vezes depois disso, e as duas sem
mim - insistiu, teimosa. - A primeira v l, eu j estava  espera
de Justine, mas Deus  testemunha de que andei bem precisada de umas
frias longe da chuva em Janeiro ltimo.
- Oh, meu Deus!
- ls um grandessssimo avarento, Luke - continuou suave-
mente. - Recebeste de mim vinte mil libras, dinheiro meu, muito meu,

3?8

PASSAROS FEftIDOS

e, no entanto, choras as poucas e miserveis libras que te teria custado
levar-me a Sidnei. Tu e o teu dinheiro! Enojas-me.
- No lhe toquei - acudiu Luke, debilmente. - Ele est l,
intacto, e mais ainda.
- Sim, eu sei. Guardado no banco, onde sempre estar. No tens
a menor inteno de gast-lo, no  verdade? Queres ador-lo,
como a um bezerro de ouro. Luke, s um unhas-de-fome, e, alm disso,
um idiota imperdovel! Tratas a tua mulher e a tua filha como nunca
sonharias tratar dois cachorros, ignoras-lhes a existncia, quanto mais
as necessidades! s um presunoso e egocntrico bastardo!
 Lvido, trmulo, Luke quis falar; ver Meg voltar-se contra ele,
sobretudo depos daquela noite, era como ser mortalmente mordido
por uma borboleta. A injustia das acusaes estarrecia-o, mas, pelos
vistos, no havia forma de faz-la compreender a pureza das suas
intenes. C:omo todas as mulheres, ela s via o presente, era incapaz
de apreciar o grandioso projecto que havia por detrs de tudo aquilo.
 Por isso disse:
- Oh, Meg! - O tom era de assombro, desespero e resignao.
- Nunca te maltratei - acrescentou. - No, positivamente no te
maltratei! Ningum poder dizer que fui cruel uma vez que fosse contigo.
Ningum! Sempre tiveste o suficiente para comer, um tecto sobre
a cabea, calor...
- Oh, sim - atalhou Meggie. - Eis a uma coisa em que tens
razo. Nunca senti tanto calor na minha vida. - Sacudiu a cabea,
riu-se. - Qual! No adianta!  como falar com uma parede de tijolos.
- Eu poderia dizer o mesmo!
- E porque no dizes? - tornou Meggie, em tom glido, pulando
da cama e comeando a vestir-se. - No vou divorciar-me de ti - con-
tinuou. -No quero casar outra vez. Se desejares o divrcio, sabes
onde encontrar-me. Juridicamente falando, quem errou fui eu, no fui?
Podes acusar-me de abandono do lar... ou, pelo menos,  assim que
os tribunais deste pas vero o caso. Tu e o juiz podeto chorar no
ombro um do outro as perfdias e a ingratido das mulheres.
- Nunca te abandonei - sustentou.
- Podes ficar com as minhas vinte mil libras, Luke, mas no
recebers de mim nem mais uma. De futuro, utilizarei a minha renda
para sustentar Justine, e talvez outro filho, se tiver sorte.
- Ah! Ento  isso! - disse. - A nica coisa que querias
era outro maldito beb, no era? Foi para isso que vieste aqui...
um canto do cisne, um presente meu para levares de volta a Drogheda!

3'79

PASSAROS FEftIDOS

Outro maldito beb, eu no! Nunca fui eu, no  assim ? Para ti no
passo de um garanho! Meu Deus, que grande vigarice!
- A maioria dos homens no passa disso para a maioria das mulhe-
res - disse, maldosa. - Tens o condo de despertar o que h de
pior em mim, Luke, de um modo que jamais compreenders. Mas cora-
gem! Nestes ltimos trs anos e meio ganhei mais dinheiro para ti
do que a cana-de-acar. Se vier outro filho, no ters nada com isso.
A partir deste minuto, no quero ver-te nunca mais.
 Ela j estava vestida. Depois de pegar na maleta, ao p da porta,
voltou-se, com a mo no trinco.
- Deixa-me dar-te um conselho, Luke, para o caso de algum dia
arranjares outra mulher, quando j estiveres velho e cansado de mais
para continuar a cortar cana. Tu no sabes nem beijar. Abres demasiado
a boca, engoles a mulher inteira como se fosses uma jiba. Saliva  bom,
mas no um dilvio dela. - Passou rancorosamente o dorso da mo
pela boca. - Ds-me vontade de vomitar! Luke O'Neill, o grande,
o tal! No vales nada!
 Depois de Meggie sair, Luke sentou-se na beira da cama com
os olhos postos por muito tempo na porta fechada. A seguir, encolheu
os ombros e comeou a vestir-se. Processo no muito demorado em
North Queensland, apenas uns cales. Se se apressasse, ainda voltaria
de camio para as barracas com Arne e os rapazes. Bom e velho Arne,
querido e velho companheiro. Quanta tolice havia num homem! O sexo
era muito bom, mas os companheitos eram outra coisa.

380

1938-1953 - FEE

14

 o querendo que ningum soubesse do seu regresso, Meggie foi
 para Drogheda no camio da correspondncia, com o velho
 Bluey Williams. Justine viajava numa cesta sobre o banco,
 ao seu lado. Bluey jubilara ao v-la e ardia de curiosidade por
saber o que ela fizera nos ltimos quatro anos, mas, quando se aproxi-
maram de casa, calou-se, adivinhando-lhe o desejo de regressar em paz.
 Estava de volta ao castanho e  prata,  poeira,  pureza e  fruga-
lidade maravilhosas que tanta falta faziam a North ueensland. Ali no
havia creseimentos desregrados, nem mortes apressadas para dar lugar
a outras vidas; apenas uma lenta e rotativa inevitabilidade, como as
constelaes. Cangurus, mais numerosos do que nunca; lindas e peque-
nas wilgas simtricas, redondas e matronais, quase recatadas; cacatuas
que se erguiam em ondas cor-de-rosa acima do camio; emas em plena
corrida; coelhos que saltavam para fora da estrada, levantando nuvens
de p branco; esqueletos ressequidos de rvores mortas na relva;
miragens de rvores no distante horizonte curvo, ao atravessarem a pla-
nura de Dibban-Dibban, quando apenas as linhas azuis instveis que
as cortavam por baixo indicavam que as rvores no eram reais; o som
de que sentira tanta falta, embora nunca imaginasse poder senti-la,
o grasnar desolado dos corvos; baos vus castanhos de poeira aoitados
pelo vento seco do Outono, como chuva suja; e o capim, o capim
bege-prateado do Grande Noroeste, que se estendia at ao cu, como uma
bno.
 Drogheda, Ihogheda! Eucaliptos e sonolentas e gigantescas aroeiras-
-moles a fervilhar de abelhas. Cavalarias, currais e edifcios amanteigados
de arenito amarelo, estranhos relvados verdes em torno da casa grande,
flores outonais no jardim, goivos e znias, marianas e dlias, cravos-

383

-de-defunto e malmequeres, crisntemos e rosas. O saibro do ptio
dos fundos, a Sr e Smith em p, de boca aberta, depois a rir, a chorar,
Minnie e Cat correndo, velhos braos fibrosos como cadeias em torno
de seu corao. Pois Drogheda era o lar, e ali estava o seu corao,
pata sempre.
 Fee saiu para ver a causa de tanto rebulio.
- Ol, me. Voltei para casa.
 Os olhos cinzentos no se lteraram, mas com a sua alma nova
e adulta Meggie compreendeu. A me estava contente; s no sabia
demonstrar esse contentamento.
- Deixaste Luke? - perguntou Fee, entendendo que a Sr  Smith
e as criadas tinham tanto direito como ela de saber o que acontecera.
- Deixei. Nunca mais voltarei para ele. Ele no queria um lar,
no queria os filhos, no me queria.
- Filhos?
- Sim. Vou ter outro beb.
 Gritos de jbilo das criadas, e Fee a expressar o seu julgamento
com a voz medida, disfarando a alegria:
- Se ele no te quer, fizeste muito bem em voltar para casa.
Trataremos de ti.
 O seu velho quarto, que dava para o Home Paddock e para os
jardins. E um quarto pegado para Justine e- o novo beb, quando
chegasse. Era to bom estar em casa!
 Bob tambm se alegrou ao v-la. Cada vez mais parecido com
Paddy, estava a ficar um pouco curvado  medida que o Sol lhe cozi-
nhava a pele e os ossos at sec-los. Possua a mesma fora generosa
de carcter, mas, talvez porque nunca tivesse sido progenitor de uma
famlia numerosa, faltava-lhe o semblante paternal de Paddy. E era
tambm como Fee: calmo, reservado, pouco dado a expressar senti-
mentos e opinies. Devia ter mais de trinta anos, pensou Meggie com
sbita surpresa, e ainda assim no casara. Depois entraram Jack
e Hughie, duplicados de Bob mas sem a sua autoridade, com os seus
sorrisos tmidos a dar-lhe as boas-vindas. Deve ser isso, reflectiu;
eles so to acanhados pot causa da terra, que no precisa de quem
saiba expressar-se nem de galas sociais. Precisa apenas do que eles
lhe do, o amor silencioso e a fervorosa fidelidade. .
 Os Cleary estavam todos em casa naquela noite, para descarregar
um camio de milho que Jims e Patsy haviam comprado na AML & F,
em Gilly.

384

- Nunca vi uma seca como esta, Meggie - disse Bob. - No
cho e h dois anos, nem uma gota. E os coelhos so uma praga pior
do que os cangurus; comem mais capim do que carneiros e cangurus
juntos. Vamos tentar aliment-los  mo, mas sabes como so as
carneiros.
 leggie sabia at bem de mais como eles eram. Idiotas, incapazes
at de compreender os rudimentos da sobrevivncia. O pequenino
crebro, que o animal original devia ter possudo algum dia, fora inteira-
mente eliminado  medida que se desenvolveu a raa desses aristocratas
lanzudos. Os carneiros no comiam outra coisa seno capim, ou o mato
cortado do seu ambiente natural, mas acontece que no havia mos
suficientes para cortar mato em quantidade capaz de satisfazer mais
de cem mil carneiros.
- No tens trabalho para mim? - perguntou Meggie.
-  claro que tenho! Assim haver mais um homem para cortar
a comida dos carneiros. Basta que te encarregues dos pastos internos,
como costumavas fazer.
 Fiis  sua palavra, os gmeos tinham voltado de vez para casa.
Aos catorze anos, deixaram Riverview para sempre, ansiosos por
regressar o mais depressa possvel s plancies de solo negro. Os dois
j pareciam Bobs, Jacks e Hughies juvenis, e substituam, aos poucos,
a sarja e a flanela antiquadas e cinzentas do traje do fazendeiro do
Grande Noroeste por calas de algodo branco, camisa branca, chapu
de feltro cinzento de copa chata e aba larga, e botas rasas de montar,
que chegavam at ao tornozelo, com elstico dos lados. S o punhado
de mestios que vivia nas favelas de Gilly imitavam os vaqueiros do
Oesce norte-americano, com botas extravagantes de salto alto e chapus
Stetsoe. Para o homem da plancie de solo negro tais acessrios eram
uma afectao intil, faziam parte de uxna cultura diferente. Ningum
poderia andar pelo cerrado com botas de salto alto, e os homens,
muitas vezes, tinham de andar por l. E uIn Stetson de cow-boy era
muito quente e muito pesado.
 A gua castanha e o cavalo preto haviam morrido, as cocheiras
estavam vazias. Meggie insistiu em montar um cavalo de lida, mas Bob
foi at  fazenda de Martin King para comprar dois animais de um
quarto de sangue - uma gua creme, de crina e cauda pretas, e um
cavalo castanho. Por uma razo qualquer, a perda da velha gua casta-
nha calou mais fundo em Meggie do que a parti a de Ralph, numa
espcie de reaco retardada, como se ela acentuasse mais daramente
a separao dos dois. Mas era to bom estar de novo nos pastos,

385

PSSAftOS FERIDOS

cavalgar com os ces, comer a poeira de um rebanho de carneiros,
contemplar os pssaros, o cu, a terra!
 Tudo se achava terrivelmente seco. O capim de Drogheda conse
"uira sempre sobreviver s secas de que Meggie se lembrava, mas isto
era diferente. O pasto agora estava cheio de falhas; entre os tufos de
capim via-se a terra escura, rachada numa fina rede de gretas aberta
como bocas ressequidas, o que se devia agradecer principalmente aos
coelhos. Durante os seus quatro anos de ausncia, eles haviam-se mult:
plicado repentina e desordenadamente, se bem que ela supusesse que j
fossem uma praga muitos anos antes disso. Contudo, quase da noite
para o dia o nmero deles atingira cifras muito superiores ao ponto
de saturao. Estavam em toda a parte e tambm comiam n preciosn
capim.
 Ela aprendeu a armar ratoeiras para os coelhos, detestandu.
por um lado, ver os pequenos animais estraalhados por dentes de ao,
mas no podendo, por outro, como pessoa da terra, deixar de fazer
c que tinha de ser feito. Matar em nome da sobrevivncia no era
crueldade.
- Maldito seja o imi rante ingls saudoso da sua terra que mandou
vir da Inglaterra os primeiros coelhos - disse Bob, amargamente.
 Eles no eram originrios da Austrlia e a sua importao senti-
mental revolucionara o equilbrio ecol ico do continente, equilbrin
esse no perturbado pelos carneiros e pelo gado vacum, cientificamente
3pascentados desde o momento da sua introduo. No havia um pI-e
dador australiano natural para controlar o nmero de coelhos, e as
raposas importadas no vngatam. O homem teria de ser o predador
forado, mas os homens eram poucos e ns coelhos muitos.

 Depois de ter ficado muto cheia para cavalgar, Meggie n:1";: -a
os dias na sede, em companhia da Sr. Smith, de Minnie e de Car.
costurando ou tricotando para o pequeno ser que se contorcia dentru
dela. Ele (pensava sempre num rapaz) fazia parte dela como Tustine
nunca fizera; Meggie no enjoou, no se sentiu deprimida e aguarda -a
com ansiedade o dia do parto. Talvez Justine fosse, em parte, inad erti
damente responsvel por isso; agora que o beb indiferente, de olho
plidos, se estava a transformar numa menina inteligentssima, Meggie
sentu-se fascinada pelo processo e pela criana. Havia muito tempn
que se sentira indiferente  flha, e anelava por prodigalizar-lhe amoI-.
apert-la entre os braos, beij-la, rir-se com ela. Ao ver-se polidamente

386

PASSAROS FERIDOS

repelida, sentiu um choque, mas era assim que Justine reagia a cada
uma das suas manifestaes de amizade.
 Quando Jims e Patsy deixaram Riverview, a St Smith julgara
que os teria de novo debaixo das suas asas, mas ficou desapontada
ao descobrir que eles viviam nos pastos a maior parte do tempo.
Por isso voltou-se para Justine, viu=se to firznemente repelida como
a prpria Meggie. Dir=se-ia que Justine no desejava que a abraassem,
nem que a beijassem, nem que a fizessem -rir.
 Comeou a andar e a falar depressa, aos nove meses. Sabendo
utilizar os ps e comandando uma lngua capaz de expressar-se com
muita clareza, passou a ir annde queria e a fazer o que desejava.
No que fosse barulhenta ou provocante, acontecia apenas que era feita
de um metal realmente muito duro. Meggie nada sabia acerca de genes,
mas, se soubesse, teria pensado melhor nas consequncis de uma
mistura de Cleary, Armstrong e O'Neill. Aquilo no poderia dar outra
coisa seno ma sopa humana muito forte.
 Mas o que mais consternava os outros era a obstinada recusa
de Justine de sorrir ou de rir. Toda a gente em Drogheda fazia palha-
adas incrveis na tentativa de arrancar dela o indcio de um sorriso,
mas debalde. No tocante  solenidade inata ela superava a prpria av.
 No dia primeiro de Outubro, quando Justine completava precisa-
mente dezasseis meses de vida, nasceu em Drogheda o filho de Meggie.
Ele adiantara-se quase quatro semanas e ainda no era esperado;
houve duas ou trs contraces violentas, rebentaram-se as guas e o
garoto nasceu nas mos da Sr Smith e de Fee poucos minutos depois
de elas terem telefonado a chamar o mdico. Meggie mal tivera tempo
para a dilatao. A dor foi mnima, o parto consumou-se to depressa
que quase no existiu; apesar dos pontos que precisou levar por haver
sido to precipitada a entrada do filho no mundo, Meggie sentia-se
maravilhosamente. Secos para Justine, os seus seios agora transbordavam.
Desta vez no havia necessidade de biberes nem de latas de leite.
 E era to bonito! Longo e esguio, cam um tufo de cabelo cor
de linho em cima do craniozinho perfeito, e vivos olhos azuis que no
revelavam qualquer indcio de que mudariam, mais tarde, de cor.
Como haveriam de mudar? Eram os olhos de Ralph, assim como eram
as mos de Ralph, o nariz e a boca de Ralph e at os ps de Ralph.
Meggie carecia suficientemente de escrpulos para sentir-se muito grata
pelo facto de Luke possuit quase a mesma constituio e a mesma
cor de pele de Ralph, e de serem os seus traos muito parecidos com
os dele. Mas as mos, o modo como cresciam as sobrancelhas, o bico

387

de viva penugento, a forma dos dedos das mos e dos ps, eram
muito mais de Ralph que de Luke! Bom seria que ningum se lem-
brasse de qual dos dois possua tudo isso.
- J decidiste a respeito do nome? - pergunzou Fee, que parecia
fascinada pelo beb.
 Meggie observou-a enquanto ela, em p, segurava o neto e sentiu-se
agradecida. A me amaria outra vez; talvez no como amara Frank,
mas, pelo menos, sentiria alguma coisa.
- Vou chamar-lhe Dane.
- Que nome esquisito! Porqu? Ser, porventura, um nome da
famlia O'Neill? Pensei que no quisesses ter mais nada com os O'Neill.
- Isso no tem nada que ver com Luke.  o nome dele e de mais
ningum. Odeio nomes de famlia;  como desejar enxertar um pedao
de algum numa nova pessoa. Chamei Justine  minha filha simples-
mente porque gostei do nome, e chamarei Dane ao meu filho pela
mesmssima razo.
- O nome soa bem - admitiu Fee.
 Meggie estremeceu; os seus seios estavam cheios de mais.
-  melhot dar-me o beb, me. Espero que ele esteja com fome!
E espero tambm que o velho Blue se lembre de trazer a bomba para
extrair o leite dos seios. Se no se lembrar, a me ter de fazer o favor
de ir busc-la a Gilly de automvel.
 O beb estava com fome, e puxava o bico dc seio com tanta fora
que a boquinha viscosa magoava. Contemplando-lhe os olhos fechados,
os clios escuros de pontas de ouro, as sobrancelhas espessas, as mins-
culas faces que no paravam de trabalhar, Meggie amava-o tanto que
o amor magoava-a mais que a prpria suco.
 aEle  suficiente; tem de ser, pois no terei outro. Mas por Deus,
Ralph de Bricassart, pelo Deus que amas mais do que a mim, nunca
sabers o que te roubei... Nunca direi nada a respeito de Dane. O meu
beb!" Mexeu nos travesseiros a fim de coloc-lo mais confortavelmente
no ngulo do seu brao, para ver melhor o rostinho perfeito. s meu,
e nunca te darei a quem quer que seja. Muito menos ao teu pai, que
 um padre e no pode reconhecer-te. Isto no  maravilhoso?

 O navio entrou no porto de Gnova no princpio de Abril. O arce-
bispo desembatcou numa Itlia que explodia em plena Primavera medi-
terrnea, e tomou um comboio para Roma. Se o tivesse solicitado,
teriam vindo receb-lo para o conduzir a Roma num carro do Vaticano,
mas ele receava sentir a Igreja de novo muito prxima; queria adiar

388

esse momento quanto pudesse. A Cidade Eterna. Era realmente isso,
pensou, olhando, pelas janelas do automvel, para os campanrios,
as praas repletas de pombos, os chafarizes ambiciosos, as colunas roma-
nas com as suas bases profundamente enterradas nos sculos. Para ele
tudo isso era suprfluo. O importante era a parte de Roma chamada
Vaticano, as suas sumptuosas salas pblicas, e as suas salas particulares,
que seriam tudo, menos sumptuosas.
 Um monge dominicano, envergando uma batina preta e creme,
conduziu-o atravs de corredores de mrmore, entre figuras de bronze
e de pedra dignas de um museu, no meio de grandes quadros de Giotto
Rafael, Botticelli, Fra Angelico. Eram as salas pblicas de um cardeal
e, sem dvida, a rica famlia Contini-Verchese eontribura com muita
coisa para realar o ambiente em que vivia o seu augusto descendente.
 Numa sala de marfim e ouro, rica de colorido graas s tapea-
rias e aos quadros, com tapetes e mveis franceses, toques de carmesim
em toda a parte, estava sentado Vittorio Scarbanza, cardeal di Contini-
-Verchese. A mo pequena e lisa, onde cintilava o anel de rubi, foi
estendida em sinal de boas vindas; contente por poder abaixar os olhas,
o arcebispo Ralph cruzou o aposento, ajoelhando-se e tomando a mo
para beijar o anel. E encostou o rosto  mo, sabendo que no podia
faz-lo, embora at ao momento em que os seus lbios tocaram aquele
smbolo de poder espiritual, de autoridade temporal, tencionasse
reerguer-se.
 O cardeal Vittorio ps a outra mo sobre o ombro inclinado, dis-
pensando o monge com um aceno de cabea; depois, quando a porta
se fechou mansamente, a sua mo subiu do ombro ao cabelo, descan-
sou-lhe na escura espessura, alisou-o ternamente para trs, a partir da
testa semidesviada. O cabelo mudara; j no era preto, nias cor de
ferro. A espinha curvada endireitou-se, os ombros recuaram, e o arce-
bispo Ralph encarou directamente o seu chefe.
 Houvera uma mudana! A boca apertara-se, conhecera a dor e ficara
mais vulnervel; os olhos, to belos na cor, na forma e no engaste, eram
muito dtferentes dos que ele ainda se lembrava, como se nunca o tivesse
deixado fisieamente. O cardeal Vittorio sempre imaginara que os olhos
de Jesus tivessem sido azuis e parecidos com os de Ralph: calmos, dis-
tantes do que Ele via e, portanto, capazes de abranger tudo, compreender
tudo. Mas a sua imaginao talvez o houvesse enganado. Como pode
algum sentir e sofrer sem que isso Ihe transparea nos olhos?
- Venha, Ralph, sente-se.
- Eminncia, preciso confessar-me.

389

- Mais tarde, mais tarde! Primeiro falaremos, e em ingls.
H ouvidos em toda a parte nos dias que correm, mas, graas ao nosso
querido Jesus, so ouvidos que no falam ingls. Sente-se, Ralph, por
favor.  to bom v-lo! Tenho sentido falta dos seus pareceres crite-
riosos, da sua racionalidade, do seu perfeito campanheirismo. No me
deram ningum de quem eu goste metade sequer do que gosto de si.
 Ele sentia o crebro ajustar-se  formalidade, sentia que os pr-
prios pensamentos assumiam na sua mente um aspecto mais elevado;
mais que a maiora das pessoas, Ralph de Bricassart sabia tudo a res-
peito da mudana que se opera em algum de acordo com a sua compa-
nhia, de acordo at com a sua fala. No era para aqueles ouvidos
a fluncia fcil do ingls coloqual. Por isso sentou-se no muito longc.
defronte da figura delgada, no seu moir escarlate, cuja cor mudava
e tinha uma qualidade que permitia s orlas fundirem-se com o ambiente
em lugar de se destacarem dele.
 O cansao desesperado que conhecera durante semanas parecia estar
a desaparecer a pouco e pouco dos seus ombros; admirou-se de que
houvesse temido tanto aquele encontro, quarido sabia no seu ntimo que
seria compreendido e perdoado. Mas no era isso, no era nada disso.
Era a sua prpria culpa por haver falhado, por ser menos do que
aspirava a ser, por despontar um homem que se interessara por ele,
que fora imensamente bondoso, um verdadeiro amigo. A sua culpa pcr
estar dante dessa presena pura quando ele mesmo j no era puro.
- Ralph, somos padres, mas somos algo diferente antes disso;
algo que ramos antes de ser padres, e do q al no podemos escapar,
a despeito do nosso carcter exclusivo. Somos homens, ccm as fraquezas
e defeitos dos homens. No h nada que possa contar-me capaz de alte-
rar as impresses que formei a seu respeito durante os anos que pas-
smos juntos, no h nada que possa contar-me que me faa t-lo em
menor conta, nem gostar menos de si. Durante muitos anos eu soube
que o Ralph escapara  percepo da nossa fraqueza intrnseca, da nossa
humanidade, mas tambm sabia que chegaria a t-la, pois todos a temos.
At o Santo Padre, o mais humilde e humano de todos ns.
- Quebrei os meus votos, Eminncia. Isso no se perdoa com
facilidade.  um sacrilgio.
- O voto de pobreza j o violou h alguns anos, quando aceitou
a herana da Senhora Mary Carson. Restam, portanto, o da castidade
e o da obedincia, no  assim?
- Neste caso, os trs foram violados, Eminna.

390

- Eu gostaria que me chamasse Vittorio, como atttigamente! No
estou chocado, Ralph, nem desapontado.  como Nosso Senhor Jesus
Cristo quer, e creio que talvez recebesse uma grande lio que no pode
ser aprendida de outro modo menos destrutivo. Deus  misterioso,
os Seus motivos transcendem a nossa pobre campreenso. Mas creio
que, fosse o que fosse que tivesse feito, no o fez levianamente, nem
se desfez dos seus votos como de uma coisa sem valor. Conheo-o muito
bem. Sei que  orgulhoso, est muto apaixonado pela ideia de ser
padre, muito cnscio do seu carcter exclusivo.  possvel que precisasse
dessa lio para abater o seu orgulho, faz-lo compreender que  pri-
mero que tudo um homem e, portanto, menos exclusivo do que supe.
No  assim?
- De facto. Eu carecia de humildade e acredito que, de certo
modo, aspirava a ser o prprio Deus. Pequei muito grave e indesculpa-
velmente. No posso perdoar-me e, nessas circunstncias, como esperar
o perdo divino?
- O orgulho, Ralph, o orgulho! Ainda no entendeu que no 
a si que cabe perdoar? S Deus pode faz-lo. S Deus! E Ele perdoar
se o arrependimento for sincero. Ele j perdoou pecados maiores de
santos muito maiores, como sabe, bem como de celerados. Acredita
que o Prncipe Lcifer no foi perdoado? Foi no mesmo instante em
que se rebelou. O seu destino como governador do Inferno  seu, no 
obra de Deus. No foi ele quem disse: << melhor governar o Inferno
do que servir no Cu?>> Lcifer no conseguia superar o seu orgulho,
no suportava a deia de sujeitar a sua vontade  de outrem, mesmo que
esse outrem fosse o prprio Deus. No quero v-lo reincidir no mesmo
erro, carssimo a ig. A humildade era a nica qualidade que lhe fa1-
tava, e  exactamente a gualidade que faz o grande santo... ou o grande
homem. Enquanto no puder deixar o assunto do perdo com Deus,
no ter adquirido a verdadeira humildde.
 O rosto forte contraiu-se.
- Sim, sei que o Vittorio est certo. Preciso de aceitar o que sou
sem discusso e apenas lutar por progredir sem me orgulhar do que
sou. Arrependo-me e, portanto, confessarei e esperarei o perdo. Arre-
pendo-me, sim, amargamente.
 Ele suspirou; os seus olhos traram o conflito que as suas palavras
medidas no trairiam, pelo menos naquela sala.
- E, no entanto, Vittorio, de certo modo eu no podia fazer outra
 coisa. Ou eu a ar.ruinava ou a ruina cairia sobre mim. Na ocasio no
precia haver escolha possivel, porque a amo. No foi por culpa dela

391

que eu no quis que o amor se estendesse a um plano fsico. O seu
destino tornou-se mais importante do que o meu, entende? At aquele
momento eu sempre pensara primeiro em mim, como mais importante,
porque sou um padre e ela, um ser inferior. Mas petcebi que eu era
responsvel pelo que ela ... Eu devia t-la deixado afastar-se quando
ainda criana, mas no deixei. Conservei-a no meu corao e ela sabia-o.
Se eu a tivesse relmente arrancado de mim, ela sab-lo-ia tambm,
e transformar-se-ia em algum capaz de fugir  mnha influnca.-
Ralph sorriu. - Como v, tenho muito de que me arrepender. Fz uma
tentativa no terreno da ctiao.
- Foi a Rosa?
 O arcebispo Ralph atirou a cabea para trs e olhou para o tecto
com os seus lavores prmorosos e para o candelabro barroco de Murano.
- Poderia ter sido outra pessoa? Ela  a minha nica tentatva
de criao.
- E a Rosa ficar bem? No lhe ter causado maior dano com
isto do que ao repud-la?
- No se, Vittorio. Oxal o tenha feito! Na ocaso parecia-me
que no podia fazer outra coisa. No possuo o dom da anteviso pro-
meteica, e o envolvimento emocional faz de ns maus juzes. De mas
a mas, isso apenas... aconteceu ! Mas creio que ela talvez precisasse
muitssmo do que Ihe dei, o reconhecimento da sua identidade como
mulher. No digo que ela no soubesse que era mulher, dgo que eu
no saba. Se a tivesse conhecido assim,  possvel que as cosas fossem
diferentes, mas conhec-a crana durante muitos anos.
- Parece-me presumido, Ralph, e ainda mal prepatado para o per-
do. Isso di, no di? Ter sido to humano que cedeu a uma fraqueza
hmana ou t-lo- realmente feto com esse esprito de nobre auto-
-sacrifco?
 Espantado, ele fitou os lquidos olhos escuros, viu-se reflectido
neles como dos mnsculos manequns de insignificantes propores.
- No - dsse. - Sou um homem e, como tal, encontre nela
um prazer com cuja exstncia nem sonhara. Eu no sabia que o sabor
de uma mulher fosse assm, nem que ela pudesse ser a causa de uma
alegria to profunda. Desejei nunca mais a deixar, no s por causa do
seu corpo mas tambm porque me agradava estar com ela... falar com
ela, comer o que ela cozinhava, sorrr-lhe, participar dos seus pensa-
mentos. Sentire falta dela enquanto viver.
 Havia qualquer cosa no plido rosto asctico que o fazia inex-
plicavelmente lembrar-se da cara de Meggie no momento de partir;

392

PASSAROSFERIDOS

a vista de um fardo espiritual a ser levantado, a intrepidez de um
carcter capaz de prosseguir na sua mareha apesar das cargas, dos pesa-
res, da dor. Que conhecera ele, o cardeal de seda vermelha cuja nica
nelinao humana parecia ser a sua lnguida gata abissnia?
- No posso arrepender-me do que tive com ela - continuou
Ralph, vendo que Sua Eminncia permanecia em silncio. - No entanto,
 rrependo-me de ter transgredido votos to solenes e coactivos. Nunca
mais poderei encarar os meus deveres sacerdotais  mesma luz, com
u mesmo zelo. Atrependo-me disso amargamente. Mas Megbie?
 A e p:esso do rosto dele ao pronunciar tal nome fez o cardeal Vit-
torio desviar o seu para enfrentar os prprios pensamentos.
- Arrepender-me de Nleggie seria assassin-la. - Passou a mo,
com um gesto cansado, pelos olhos. - No sei se isto est muito claro
ou se se aproxima sequer do que quero dizer. Parece que, por mais que
eu me esforce, no consigo expressar adequadamente o que sinto por
Meggie. - Inelinou-se para a frente na cadeira quando o cardeal tornou
a voltar-se, e viu as duas imagens gmeas aumentar um pouco. Os olhos
de Vittorio eram como espelhos; devolviam o que viam e a ningum
permitiam um vislumbre do que ia por detrs deles. Os de Meggie
eram exactamente o oposto; desciam, desciam, desciam, at lhe chega-
rem  alma. - Meggie  uma bno - disse. -  uma coisa sagrada
para mim, uma espcie diferente de sacramento.
- Comprerndo - suspirou o cardeal. - Ainda bem que sente
isso. Aos olhos de Nosso Senhor creio que o sentimento atenuar
o grande pecado. No seu prprio benefcio, acho melhor confessar-se
ao padre Giorgio e no ao padre Guillermo. O padre Giorgio no inter-
pretar erroneamente os seus sentimentos e o seu raciocnio. Ver
a verdade. O padre Guillermo, menos perceptivo, pode julgar discutvel
o seu arrependimento, que sei verdadeiro.-Um tnue sorriso cruzou-
-lhe a boca fina como uma sombra mais fina ainda. - Tambm so
homens, Ralph, os que ouvem as confisses dos grandes. Nunca se
esquea disso enquanto viver. S no exerccio do seu sacerdcio so
vasos que contm Deus, em tudo o mais so homens. E o perdo que
conferem vem de Deus, mas os ouvidos que ouvem e julgam pertencem
a homens.
 Ouviu-se bater diseretamente  porta; o cardeal Vittorio calou-se
e observou a bandeja de ch ser trazida para uma mesa com embutidos
de metal.

393

- Est a ver, Ralph? Desde os dias que passei na Austrlia afiz-me
ao hbito do ch da tarde. Fazem-no muito bem na minha cozinha,
embora nem sempre fosse assim. - Estendeu a mo quando o arce-
bispo Ralph fez meno de mover-se na direco do bule. - Ah, no!
Eu mesmo o servirei. Agrada-me fazer o papel de <<me>>.
- Vi grande quantidade de camisas pretas nas ruas de Gnova
e de Roma - disse R lph enquanto o cardeal Vittorio servia o ch.
- So as coortes especiais do Duce. Teremos dias muito difceis
pela frente, Ralph. O Santo Padre  inflexvel na determinao de evitar
o rompimento entre a Igreja e o G verno secular da Itlia, e tem razo,
como sempre. Acontea o que acontecer, precisamos de continuar livres
para prestar servios a todos os nossos filhos, ainda que uma guerra
signifique a diviso deles, de modo que uns combatero os outros en,
nome de um Deus catlico. Onde quer que estejam os nossos coraes
e as nossas emoes, precisamos de tentar sempre conservar a Igreja
afastada de ideologas polticas z rixas internacionais. Eu quis traz-lo
para c porque posso fiar-me em que o seu rosto no revelar o que
o seu crebro estiver a pensar, seja o que for que os seus olhos virem,
e porque possui o esprito mais diplomtico que j encantrei num
sacerdote.
 O arcebispo Ralph sorriu com tristeza.
- O Vittorio favorece a minha carreira apesar de tudo isto, no
 verdade? Eu gostaria de saber o que me aconteceria se no o tivesse
conhecido.
- Ter-se-ia tornado arcebispo de Sidnei, um belo posto e muito
importante - retorquiu Sua Eminncia com um sorriso de ouro. - Mas
os caminhos das nossas vidas no esto nas nossas mos. Ns conhece-
mo-nos porque isso estava escrito, tal como o facto de estarmos agor
a trabalhar juntos para o Santo Padre.
- Mas no vejo o xito no fim da estrada - disse o arcebispo
Ralph. - Creio que o resultado ser o eterno resultado da imparciali-
dade. Ningum gostar de ns e todos nos condenaro.
- Sei disso, e Sua Santidade tambm, mas no podemos fazer
outra coisa. E nada nos impede de rezar em segredo pela rpida queda
do Duce e do Fhrer, no  assim?
- Acredita realmente que haver guzrra?
- No vejo possibilidade alguma de evit-la.
 A gata de Sua Eminncia saiu altivamente do canto soalheiro onde

394

estivera a dormitar e saltou, um tanto canhestramente, pois estava velha,
para o colo escarlate e cintilante.
- Ah, Sheba! Diz adeus ao teu velho amigo Ralph, que costu-
mavas preferir a mim.
 Os satnicos olhos amarelos olharam com altivez para Ralph e fecha-
ram-se. Os dois homens comearam a rir.

395

15

 DROGHEDA possua um aparelho de rdio. O progresso chegara
 finalmente a Gillanbone sob a forma de uma estao emiss ra
 da Australian Broadcasting Commission, e assim passou a haver
 qualquer coisa para rivalizar com a linha t lefnica como entre-
tenimento de massas. O aparelho propriam nte dito era um objecto feio,
metido numa caixa de nogueira e colocado sobre um armariozinho
encantador, na sala de estar, ficando as baterias de automvel, que eram
a sua fonte de energa, scondidas dentro do armrio.
 Todas as manhs, a Sr.a Smith, Fee e Meggie ligavam-no para ouvir
as notcias do distrito de Gillanbone e a previso do tempo, e todas
as noites as duas ltimas tornavam a ligz-lo para escutar o noticirio
nacional da ABC. Como era estranho entrar instantaneamente em con-
tacto com o que se passava no mundo; ouvir falar em inundaes, incn-
dios, chuvas em toda a parte, numa Europa intranquila, na poltica
australiana, sem a ajuda de Bluey illiams e dos seus jornais velhos.
 Quando o noticirio de sexta-feira, primeiro dia de Setembro, anun-
ciou que Htler invadita a Polnia, somente Fee e Meggie estavam em
casa para ouvi=lo, e nenhuma Ihe prestou ateno. Durante meses houvera
especulaes nesse sentido e, alm disso, a Europa ficava a meio mundo
de distncia, no tinha qualquer relao com Drogheda, que era, para
elas, o centro do universo. Mas no domingo, 3 de Setembro, todos
os homens tinham vindo dos pastos para ouvir o padre Watthy 1'homas
dizer missa, e pareciaxn interessados com o que se passava na Europa.
Contudo, nem Fee nem Meggie pensaram em contar-lhes s notcias de
sexta-feira, e o padre Watty, que o poderia ter feito, saiu apressado para
Nrrengang.

396

 Como sempre, o aparelho estava sintonizado, naquela noite, no
noticirio nacional. Mas em lugar dos tons decididos e oxfordianos do
locutor, ouviu-se a voz polida e indisfaravelmente australiana do pri-
meiro-ministro Robert Gordon Menzies.
 uConcidados australianos. Tenho o triste dever de inform-los
ofcialmente de que, em consequncia da invaso da Polnia pela Ale-
manha, a Gr-Bretanha declarou guetra a esse pas e, em resultado disso,
a Austrlia tambm est em guerra...
 Pode presumir-se que a ambio de Hitler no  unir todo o povo
alemo sob um Governo s, mas colocar sob esse Governo tantos pases
- quantos puder sujeitar pela fora. A continuat esse estado de coisas,
no poder haver segurana para a Eutopa nem paz para o mundo...
No sofre dvda de que, nde estiver a Gr-Bretanha, l estaro os
povos de todo o mundo britnico...
 A nossa capacidade de resistir, bem como a da me-ptria, ser
fottalecida se conservarmos a nossa produo, se continuarmos com
os nossos negcios, se mantivermos os actuais nveis de emprego e,
com tudo sso, a nossa fora. Sei que, apesar das emoes que nos
invadem, a Austrlia est pronta para ir at ao fim.
 Conceda Deus, na Sua misericrdia e compaixo, que o mundo se
liberte depressa desta provao.>>
 Houve um longo silncio na sala de estar, interrompido pelos tons
megafnicos de um discurso em ondas curtas de Neville Chamberlain
dirigido ao povo britnico; Fee e Meggie olharam para os homens.
- Se contarmos com Frank, somos seis - disse Bob no meio do
 silncio. - Todos ns, excepto Frank, trabalhamos na terra, o que quer
dizer que no nos deixaro alistar. Dos nossos pastores actuais, calculo
 que s is queiram ir e dois queiram ficar.
- Eu quero ir - disse Jack com os olhos brilhantes.
- Eu tambm - acrescentou Hughie, sfrego.
- E ns tambm - declarou Jims, em seu nome e no do silen-
cioso Patsy.
 Mas todos olharam para Bob, que era o patro.
- Temos de ser sensatos - tornou este. - A l  um artigo de
primeira necessidade numa guetra, e no serve apenas para roupa. Usa-se
tambm no acondicionamento de munies e de explosivos e para uma
poro de coisas que nem imaginamos. Alm disso, temos gado de
abate, que fornece carne, e as ovelhas e carneiros velhos, que do
peles, cola, sebo, lanolina... todos artigos de primeira necessidade em
tempo de guerra.

399

 <<Por isso no nos podemos ir embora e abandonat Drogheda  sua
prpria sorte, seja o que for que desejemos fazer. Com uma guerra em
andamento j ser dificlimo substituir os pastores que perdermos.
A seca chegou ao terceiro ano, j comemos a cortar o mato, e os coe-
lhos esto a pr-nos loucos. Por enquanto, o nosso lugr  aqui em
Drogheda; menos emocionante, talvez, do que entrar em aco, mas
igualmente necessrio.
 Os rostos masculinos esmoreceram, os femininos iluminaram-se.
- E se isso durar mais do que o velho Bob Ferro-Velho julga?
- perguntou Hughie, dando ao primeiro-ministro o seu apelido nacional.
 Bob concentrou=se e o rosto znarcado pelas intempries encheu-se-
-lhe de rugas.
- Se as coisas piorarem e continuarem por muito tempo, calculo
que, enquanto tivermos dois pastores, poderemos poupar dois Clean,,
mas s se Meggie estiver disposta a voltar ao trabalho e incumbir-se
dos pastos internos. Ser terrivelmente difcil e, numa poca boa, tor-
nava=se totalmente impossvel, mas, com sta seca, acredito que cinco
homens e Meggie, trabalhando sete dias por semana, daro conta de
Drogheda. Entretanto, sso  pedir muito  nossa irm, que j tem dois
filhos pequenos.
- Se for preciso, Bob, f-lo-:ei - acudiu Meggie. - A Senhora
Smith no se importar de tornar conta de Justine e Dane. Quando dis-
seres que sou necessria para manter Drogheda em plena produo, pas-
sarei a encarregar-me dos pastos internos.
- Ento somos ns dois os que podem s:r poupados - disse
Jims, sorrindo.
- No, somos Hughie e eu - atalhou Jack, depressa.
- Pensando bem, devem ser Jims e Patsy - concluiu Bob lenta-
mente. -So os mais moos e menos experientes cozno pastores, ao
passo que, como soldados, seremos todos igualmente inexperientes. Mas
vocs ainda s tm dezasseis anos, rapazes.
- Quando as coisas piorarem teremos dezassete - sobreveio
Jims. - Parecemos mais velhos do que somos, de modo que no ser
difcil aceitarem-nos, se levarmos uma carta tua com o aval de Harry
Gough.
- Bem, por enquanto ningum sai daqui. Vamos ver se conse-
guimos aumentar a produo de Drogheda, apesar da seca e dos coelhos.
 Saindo da sala em silncio, Meggie subiu ao quarto das crianas.
Dane e Justine estavam a dormir, cada qual num bero pintado de

398

branco. Ela passou pela filha e parou ao lado do filho, contemplando-o
por um longo momento.
- Graas a Deus s apenas um beb - disse.

 Passou-se ainda quase um ano antes que a guerra invadisse o pe-
clueno universo de Drogheda, um ano durante o qual os pastores, um
por um, deixaram a fazenda, os coelhos continuaram a multiplicar-se
e Bob lutou com denodo para que os livros mostrassem resultados
dignos de um esforo de guerra. Mas, no princpio de Junho de 1940,
chegaram notcias de que a Fora Expedicionria Britnica evacuara
o continente europeu, em Dunquerque; logo a seguir, voluntrios para
a Segunda Fora Imperial Australiana apareceram aos montes nos cen
tros de recrutamento e, entre eles, Jims e Patsy.
 Quatro anos a percorrer os pastos de baixo para cima e de cima
para baixo, com chuva e com sol, haviam tirado o aspecto juvenil dos
rostos e dos corpos dos gmeos, substituindo-o pela calma sem idade
das rugas nos cantos externos dos olhos e das linhas que desciam do
nariz  boca. Eles apresentaram as suas credenciais e foram aceites sem
comentrios. Os sertanejos eram populares, pois costumavam atirar bem,
conheciam o valor da obedincia e eram rijos.
 Jims e Patsy tinham-se alistado em Dubbo, mas o seu quartel
seria em Ingleburn, nos arredores de Sidnei, de modo que todos foram
v-los partir no comboio-correio da noite. Cormac Carmichael, o filho
mais moo de Eden, seguia no mesmo comboio por idntica razo, e des
tinava-se ao mesmo quartel. As duas famlias acondicionaram os rapazes
num compartimento de primeira classe e ficaram por ali, com vontade
de chorar, de beijar e de ter algo de que se pudessem recordar. mas
contidos pela peculiar averso britnica  expansividade. A grande
locomotiva a vapor mugiu tristemente e o chefe da estao deu o sinal
de partida.
 Meggie, contrafeita, inclinou-se para beijar os irmos no rosto,
e depois fez o mesfno com Cormac, parecidssimo com o irmo mais
velho, Connor; Bob; Jack e Hughie apertaram as mos aos trs jovens;
chorando, a Sr.a Smith foi a nica que distribuiu os beijos e abraos
que todos estavam loucos por dar. Eden Carmichael, a esposa e a filha,
ainda bonitona, se bem que j comeasse a envelhecer, passaram pelas
mesmas formalidades. Depois todos vieram embora da gare de Gilly,
quando o comboio deu os primeiros arrancos, os pra-choques das car-
ruagens bateram uns nos outros e a composio niciou a sua marcha.

399

- At breve, at breve! - diziam todos, agitando grandes lenos
 brancos, at que o comboio se converteu num trao de fumo na distncia
bruxuleante do poente.
 Juntos, como haviam solicitado, Jims e Patsy foram includos na
crua e semitreinada Nona Diviso Australiana e embarcados para
o Egipto no princpio de 1941, a tempo de participatem na debandada
desordenada de Bengazi. O rec2n-chegado general Erwin Rommel jun-
tara o seu peso formidvel  ponta de lana das foras do Eixo e encetara
a primeira das grandes e cclicas investidas para um lado e para outro
da frica do Norte. E, ao passo que o resto das tropas britnicas fugia
ignominiosamente  frente do novo Afrika Korps, de volta ao Egipto,
a Nona Diviso Australiana foi incumbida de ocupar e defender Tobru-
que, posto avanado no territrio ocupado pelo Eixo. A nica coisa que
tornava vivel o plano era o facto de a cidade ser ainda acessvel por
mar e poder receber suprimentos enquanto as navios britnicos conse-
guissem mover-se no Mediterrneo. Os < ratos>, de Tobruque ali ficaram
escondidos nas suas tocas durante oito meses, enquanto Rommel atirava
periodicamente sobre eles tudo o que tinha ao seu alcance, sem conse-
guir desaloj-los.
- Vocs sabem porque esto aqui? - perguntou o soldado Col
Stuart, lambendo a mortalha do cigarro e enrolando-a com displicncia.
 O sargento Bob Malloy empurrou para cma o seu chapu Digg r
a fim de poder ver quem formulara a pergunta.
- No, no sei - disse, sorrindo; era uma pergunta que se fazia
amide.
- Bem,  n eLhor do que limpar latrinas na maldita caserna-
disse o soldado Jims Cleary, puxando um pouco para baxo os shorts
do irmo gmeo, de modo que pudesse descansar a cabea confortavel-
mente na barriga macia e quente.
- , mas na caserna no apanhvamos tiros - objectou Col, ati-
rando o pau apagado do fsforo para cima de um lagarto que estava
a tomar banhos de sol.
- De uma coisa estou certo - disse Bob, recolocando o chapu
na posio anteror, para proteger os olhos do sol. - Prefiro levar um
tiro a morrer de tdio.
 Estavam confortavelmente instalados ao abrigo de uma trincheira,
seca e forrada de cascalho, defronte do campo minado e das cercas de
arame farpado que cortavam o canto sudoeste do permetro; do outro
lado, Rommel agarrava-se, obstinado, ao seu nico pedao do territrio
de Tobruque. Uma grande metralhadora Browning, partilhava do abrigo

400

PASSAROS FEftIDOS

com eles, com as suas caixas de munio arrumadas ao lado, mas nin-
gu n parecia preocupado nem muito interessado num possvel ataque.
As espingardas estavam encastadas  parede e as baionetas cintilavam
ao sol brilhante de Tobruque. Moscas zumbiam em toda a parte, mas
para os quatro, sertanejos australianos, Tobruque e o Norte da frica
no reservavam surpresas em matria de calor, poeira ou moscas.

- Ainda bem que vocs so gmeos, Jims - disse Col, atirando
pedras ao lagarto, que no parecia disposto a arredar p. - At pare-
cem dois sapos amarrados m no outro.
- Ests  com inveja - sorriu Jims, batendo na barriga do
irmo. - Pats  o melhor travesseiro de Tobruque.

- Sim, est muito bem para ti, mas o que pensar o pobre Pats
Vamos, Harpo, cliz qualquer coisa - provocou Bob.

 Os dentes brancos de Patsy apareceram num sorriso, mas, como
 sempre, ele permaneceu em silncio. Todos haviam tentado faz-lo falar,
 mas ningum conseguira arrancar-lhe mais do que um <<sim>> ou nm
 < no>, essenciais; em consequncia disso, quase todos lhe chamavam
 Harpo, por causa do irmo Marx que tambm no falava.

- Vocs souberatn da novidade? - perguntou Col de repente.

- Qual?
- O pessoal da Stima foi liquidado pelos oitenta e oito em Hal-
f a.  o nico canho suficientemente grande para acabar com um
australiano. Fura aqueles tanques enormes como se fosse uma dose
de sais.
- Essa, no! Conta outra! - acudiu Bob, cptico. - Sou sargento
 e no soube de nada e tu, simples soldado, sabes de tudo? Pois ouve,
 camarada, os alemes ainda no tm fora suficiente para liquidar uma
 brigada australiana.
- Eu estava na tenda de Morshead, aonde fui levar uma mensa-
 em do comandante, quando ouvi a notcia pelo rdio.  verdade - sus-
 tentou Col.
 Durante algum tempo ningum falou; cada defensor de um pasto
 avanado sitiado como Tobruque precisava de acreditar implicitamente
 que o seu exrcito tinha fora militar bastante para tir-lo dali. A noticia
 de Col no foi muito bem recebida, sobretudo porque nenhum soldado
 em Tobruque fazia pouco de Rommel. Eles haviam resistido aos seus
 esforos para expuls-los por acreditarem sinceramente que o nico com-
 batent capaz de ombrear com o australiano era um gurca e, se a f so
 nove dcimos da fora, eles haviam-se, sem dvida, revelado formi-
 d ,eis.

401

- Malditos ngleses - disse Jims. - O que precisamos na frica
do Norte  de mais australianos.
 O coro de assentimentos foi interrompido por uma exploso na
orla do abrigo, que converteu o lagarto em p e fez os quatro soldados
mergulhar  procura da metralhadora e das espingardas.
- Granada italiana vagabunda,  s barulho - disse Bob com
um suspiro de alvio. - Se fosse uma especial de Hitler, e esta hora
estaramos a tocar harpa, para alegria de Patsy, no  verdade, Harpo?
 No incio da Operao Cruzada, a Nona Diviso Australiana foi
evacuada e levada por mar at ao Cairo, depois de um assdio cansativo
e sangrento que parecia no ter obtido qualquer resultado. Entretanto.
enquanto a Nona estivera enfiada nos buracos de Tobruque, as fileiras
das tropas britnicas no Norte da frica, que no paravam de engrossar,
haviam-se transformado no Oitavo Exrcito Britnico e o seu novo
comandante era o general Bernard Lau= Montgomerv.

 Fee usava um pequeno broche de prata com o emblema do sol
nascente da AIF gravado, e mais abaito presa por duas correntes,
balanava uma barra de prata, sobre a qual luziam duas estr las de ouro,
uma para cada filho combatente. O broche dizia a todas as pessoas
com as quas Fee se encontrava que ela tambm contribua para o esforo
de guerra do pas. Como nem o marido nem o filho eram soldados,
Meggie no tinha o direito de usar um broche igual. Chegara-lhe uma
carta de Luke informando-a de que continuaria a cortar cana; ele achava
que Meggie gostaria de sab-lo, para o caso de vir a preocupar-se com
a hiptese do seu alistamento. No havia a menor indicao de que
ele se lembrasse de uma nica palavra do que ela lhe dissera, naquel
manh, na hospedaria de Ingham. Rindo-se com uma expresso dr
cansao e sacudindo a cabea, Meggie deixou cair a carta no cesto de
papis de Fee, perguntando a si mesma ao faz-lo, se a me se preo-
cupava com os filhos que tinham pegado em armas. Que pensava ela
realmente sobte a guerra? Mas Fee nunca dizia uma palavra, embora
usasse permanentemente o broche.
 As vezes chegava uma carta do Egipto, que se esfrangalhava quando
era aberta sobre a mesa, porque as tesouras do censor a haviam enchido
de buraquinhos rectangulares, bem feitinhos, onde antes figuravam os
nomes de terras ou de regimentos. A leitura das cartas consistia, em
grande parte, em juntar pedacinhos tirados virtualmente do nada,
mas servia a um propsito que eclipsava todos os outros: enquanto
chegassem as cartas, os rapazes estavam vivos.

402

 No choveu. Dir-se-ia que os elementos divinos conspiravam para
frustrar a esperana, pois 1941 foi o quinto ano de uma seca desastrosa.
Megge, Bob, Jack, Hughie e Fee estavam desespetados. A conta de
Drogheda no banco era grande e chegava bem para camprar toda
a forragem necessria  sobrevivncia dos carneiros, mas estes, na sua
maioria no queriam comer. Cada rebanho tinha um chefe natural,
o Judas, e s quando se canseguia persuadi-lo a camer  que se podia
ter alguma sperana de que os outros o imitassem. Contudo, s vezes,
nem mesmo a vista de um Judas a mastigar bastava para incutir no
resto do rebanho o desejo de emul-lo.
 De mado que Drogheda, mau grado seu, estava tambm a ter
a sua quota de sangria. O capim desaparecera totalmente, o solo era
agora uma terra nculta, escura e rachada, aliviada apenas por grupos
cinzentos e castanhos de rvores. Alm das espingardas, eles levavam
agora facas para os pastos, e, quando viam um animal cado, algum Ihe
corta a o pescoo a fim de lhe poupar uma agonia prolongada, depais
de os corvos lhe arrancarem as olhos. Bob trouxe mais gado para
a fazenda e estabulou-o, para manter o esforo de guerra de Drogheda.
No se poderia nem pensar em lucro com o preo da forragezn, pois as
regies agtrias mais prximas estavam a sofrer tanto com a falta de
chuvas como as regies pastoris mais distantes, e o rendimento das
colheitas era baixssimo. Contudo, chegara ordem de Roma para que
eles fizessem todo o possvel para manter os nveis de produo, sem
ligar ao custo.
 O que Meggie mais lamentava era o tempo que petdia a trabalhar
nos pastos. Drogheda conseguira apenas ficar com um dos seus pastores e,
por ora, no se tinham feito substituies; o grande prablema da Austr-
lia sempre fora a escassez de mo-de-obra. Por sso, a menos que Bob
lhe notasse a irritabilidade e a fadiga e llze desse um domingo de folga,
Meggie mourejava nos pstos sete dias por semana. Entretanto, para
poder dar-lhe uma folga, ele seria obrigado a trabalhar o dobro, de modo
que ela procurava no demonstrar a sua exausto. Nunca lhe ocorreu
que poderia simplesmente escusar-se, aptesentando os filhos como
desculpa, mas, na realidade, eram muito bem tratados e Bob precisava
mais dela do que eles. Faltava-lhe intuio para compteender que as
crianas tambm tinham necessidade da me, e supunha que o desejo
delas era puro egoismo, visto que eram acarinhadas por mzos amorosas
e familiares. O desejo deles era egosta, dizia para si mesma; por isso
 se esfalfava nos pastos e, durante semanas a fio, s via os filhos quando,
 j deitados, se preparavam para dormir.

403

PASSAROS FEftIDOS

 Todas as vezes que M g ie olhava para Dane, o corao pulsava-lhe
<om mais fora. Era uma linda criana e at os estranhos, nas ruas
de Gilly, reparavam nele quando Fee o levava  dade. Com uma
expresso se mpre risonha, possua uma natureza curiosa, misto de tran-
quilidade e felicidade profunda e segvra; parea ter crescido, assumido
a sua identidade e adquirido um raro conhecimento de si mesmo,
pois nunca se enganava em relao s pessoas ou s coisas, e nada
o egasperava nem assombrava. Para a me, a sua semelhana com Ralph
 era, s vezes, assustadora, mas, aparentemente, ningum mais o notara.
 Havia muito tempo que Ralph sara de Gilly e, embora Dane possusse
 os seus traos e a sua constituio, uma grande diferena tendia a con-
 fundir a parecena. O seu cabelo no era preto como o de Ralph,
 mas de um our plido, no da cor do trigo nem do poente, mas da cor
 do capim de Drogheda, isto , ouro com tons prateados.
 Desde o momento em que ps os olhos no irmo, Justine passou
 a ador-lo. Nada era bom de mais para Dane, nada era muito difcil
de ir buscar ou de trazer para ele. Depois de o garoto comear a andar,
ela nunca mais saiu do seu lado, o que deixou Meggie muito aliviada,
pois j a preocupava a idade da Sr.a Smith e das criadas, que estavam
a ficar velhas e no podiam exercer estreita vigilncia sobre o garotinho.
Nm dos seus raros domingos de folga, Meggie ps a filha no colo
e falou-lhe seriamente sobre a tarefa de cuidar de Dane.
- No posso ficar aqui em casa a vigi-lo - disse -, de modo
qu tudo depende de ti, Justine. Ele  teu irmo e  preciso que estejas
sempre atenta, zelando porque ele no corra perigo e no se meta
em sari lhos.
 Os olhos claros, muito inteligentes, nada tinham da ateno erradia
tpica das crianas de quatro anos. Justne fez um aceno afirmativo
com a cabea.
- No se preocupe, me - disse, enrgica -, tomarei conta dele.
- Gostaria muito de poder faz-lo eu mesma - suspirou Meggie.
- Ainda bem que no pode - acudiu a filha, presunosa -, pre-
fro ter Dane s para mim. Por isso no se preocupe. No dexarei que
Ihe acontea nada.
 Meggie no se sentiu confortada com a afirmao, por mais tran-
quilizante que fosse. Aquela rapariguinha precoce ia roubar-lhe o filho
e no havia meio de evit-lo. Ela voltaria aos pastos enquanto Justine
protegeria Dane. Despojada pela prpria filha, que era um monstro.
A quem havia ela sado afinal? No fora a Luke, no fora a Meggie,
no fora a Fee.

404

 Pelo menos nesse tempo ela j sotria e j ria. S depois dos quatro
nos comeou a achar graa a algumas coisas, o que se deveu provavel-
mente a Dane, que ria muito desde criancinha. Vendo-o rit, ela tambm
se punha a rir. Os filhos de Meggie aprenderam um com o outro,
mas era mortificante saber que podetiam passar perfeitamente sem a me.
Quando este maldito conflito terminar, pensou Meggie, Dane estar
crescido de mais para sentir o que deveria sentir por mim. Entender-se-
sempre melhor com Justine. Porque ser que todas as vezes em que
penso ter conseguido o controle da minha vida, acontece alguma coisa?
Eu no pedi esta guerra nem esta seca, mas as duas acabaram pot dar
cabo de mim.
 Talvez fosse uma boa coisa o perodo difcil por que Drogheda
estava a passar. Se tudo houv sse sido mais fcil, Jack e Hughie j se
teriam alistado h muito tempo, mas, dado o modo como corriam
as coisas, no lhes restava outra alternativa seno lutar e salvat o que
pudessem da seca, que viria a chamar-se a Grande Seca. Mais de dois
milhes e meio d quilmetros quadrados de terra de cultura e de
pastagens trnham sido afectados, desde Vitria, no Sul, at Mitchell,
onde o capim atingia a cintura de um homem, no Territrio do Notte.
 Mas a guerra rivalizava com a seca no despertar das atenes gerais.
Com os gmeos na frica do Nort , o pessoal da fazenda seguia,
com dolorosa ansiedade, a luta, que ora avanava, ora recuava, na Lbia.
Descendentes de operrios, ardentes de fensores do trabalhismo, todos
detestavam o Governo actual, liberal de nome, mas conservador por
natureza. Quando, em Agosto de 1941, Robert Gordon Menzies renun-
 ciou ao cargo, reconhecendo que no poderia governar, eles exultaram,
 e quando, no dia 3 de Outubro, o chefe trabalhista John Curtin recebeu
 convite para formar governo, essa notcia foi a melhor que Drogheda
 ouviu em muitos anos.
 Durante os anos de 1940 a 1941 crescera a intranquilidade a res-
peito do Japo, mormente depois que Roosevelt e Churchill Ihe cortaram
os fornecimentos de pettleo. A Europa ficava muito longe, e Hitler
teria de fazer os seus exrcitos marchar dezanove mil e tantos quil-
metros para invadir a Austrlia, nas o Japo era a Asia, parte do perigo
amarelo colocado como um pndulo sobre o poo rico, vazio e sub-
povoado da Austrlia. Por isso mesmo os Australianos no se surpreen-
deram quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, pois j estavam
 espeta de que isso acontecesse. De repente, a gu Prra surgia muito
 prxima e poderia at estender-se ao quintal deles. No havia grandes

405

oceanos entre a Austrlia e o Japo, somente grandes ilhas e pequenos
mares.
 No Dia de Natal de 1941, Hong-Kong caiu; c.ontudo, os Japoneses
jamais conseguiriam tomar Singapura, diziam todos, aliviados. Depois
chegaram as notcias dos deseznbarques nipnicos na Malsia e nas Fili-
pinas; a grande base naval no extremo da pennsula malaia mantinha
os seus imensos canhes apontados para o mar e a sua frota de pre-
veno, mas no clia 8 de Fevereiro de 1942 as foras japonesas cruza-
ram o estreito de Johore, desembarcaram no lado setentrional da ilha
de Singapura e atingiram a cidade por trs dos canhes impotentes.
Singapura caiu sem lutar.
 E depois a grande notcia! Todas as tropas australianas que se
achavam na frica do Norte voltariam para casa. O primeiro-ministro
Curtin enfrentou, impvido, as ondas de clera churchilliana, insistindo
na primazia dos direitos da Gr-Bretanha sobre os soldados australianos.
A Sexta e a Stima Divises embarcaram logo a seguir em Alexandria;
a Nona, que ainda recuperava no Cairo do assdio de Tobruque,
embarcaria assim que fosse possvel arranjar mais navios. Fee sorriu,
Meggie delirou de alegria. Jims e Patsy voltariam para casa.
 Mas no voltaram. Enquanto a Nona esperava os seus navios-
-transportes, a sorte da guerra tornou a virar: o Oitavo Exrcito voltou
a bater em retirada desde Bengazi. O prim-eiro-ministro Churchill fez
ento um acordo com o primeiro-ministro Curtin: a Nona Diviso
Australiana permaneceria no Norte de frica e uma diviso norte-
-americana embarcaria para defender a Austrlia. Pobres soldados,
atirados de um lado para outro devido a decises tomadas em gabinetes
e condenados, talvez, a morrer longe da terra natal. Cede um pouco aqui,
recebe um pouco a, era o jogo dos polticos.
 Mas foi um choque duro para a Austrlia descobrir que a me-
-ptria estava a expulsar do ninho todos as seus pintainhos do Extremo
Oriente, e at um peruzinho gordo e promissor como a Austrlia.

 Na noite de 23 de Outubro de 1942, o deserto estava muito
sossegado. Patsy mexeu-se de leve, encontrou o irmo no escuro
e encostou-se, como uma criancinha, bem na curva do seu ombro.
O brao de Jims enlaou-o e eles ficaram sentados, juntos, num silncio
agradvel. O sargento Bob Malloy chamou a ateno do soldado Col
Stuart e sorriu.
- Dois bebs - disse.
- V para o inferno, voc tambm - respondeu Jims.

406

- Vamos, Harpo, diz alguma coisa - murmurou Col.
 Patsy dirigiu-lhe um sorriso anglico, que mal se percebeu no escuro,
abriu a boca e produziu uma excelente imitao da trompa de Harpo
Marx. Toda a gente numa distncia de vrias jardas assobiou, intimando-o
a calar-se; estava em vigor uma ordem de silncio absoluto.
- Esta espera d cabo de mim - suspirou Bob.
 Patsy deu um berro:
- O silncio  que me mata!

- Palhao de uma figa, quem vai matar-te sou eu! - rosnou Col,
rouco, estendendo a mo para pegar na baioneta.

- Por amor de Deus, estejam quietos! - chegou o murmrio do
capito. - Quem  o idiota que est a berrar?
- Patsy - disse, em coro, meia dzia de vozes.

 O fragor das gargalhadas pairou, tranquilizante, sobre os campos
de minas e morreu numa torrente de palavres pronunciadas em voz
baixa pelo capito. O sargento Malloy olhou para o relgio; o ponteiro
dos segundos chegava rapidamente s nove e quarenta da noite.
 Canhes e obuses britnicos de oitocentos e oitenta e dois falaram
juntos. O cu vacilou, o solo levantou-se, expandiu-se, no pde assentar,
pos a barragem continuava sem dminuir um segundo o volume do
rudo enlouquecedor. No adiantava enfiar o dedo no ouvido; o estrondo
gargantuesco subia pela terra e chegava ao crebzn atravs dos ossos.
Nas suas trincheiras, os soldados da Nona s puderam imaginar o efeito
produzido nas linhas de frente de Rommel. Geralmente era possvel
distinguir os tipos e os tamanhos das peas de artilharia que estavam
a disparar, mas, naquela noite, as suas gargantas de ferro faziam um
coro unssono e retumbavam  medida que os minutos passavam.
 No se iluminou o deserto com a luz do dia, mas com o fogo
do prprio Sol; uma vasta nuvem de p encapelada ergueu-se, camo
espiral de fumo, at centenas de metros, luzindo com os clares das
bombas e minas que explodiam, dos caixotes de munies que detonavam
lanando chamas danarinas, das cargas que se incendiavam. Tudo
o que Montgomery possua estava apontado para os campos de minas

- canhes, obuses, morteiros - e tudo o que Montgomery possua
era arremessado to depressa quanto as equipas de artilheiros, enchar-
cadas de suor, conseguiam atirar, escravos a encher o bucho das suas
armas, como pequenos pssaros frentcos que alimentassem um cuco
enorme; o revestimento externo dos canhes aquecia, o tempo que
m diava entre o coice e o reabastecimento era cada vez menor,  medida
 que os artilheiros se empolgavam com o prprio mpeto. Loucos,

407

enlouquecidos, danavam uma dana e tereotipada, manejando o; seus
canhes de campanha.
 Era belo, maravilhoso - o ponto alto da vida de um artilhero,
que ele recordaria em sonhos, acordado ou dormindo, pelo resto dos seus
dias, ansiando por reviver aqueles quinze minutos com os canhes
de Montgomery.
 Silncio. Silncio que cala, absoluto, a quebrar-se em ondas de
eneontro s membranas distendidas do tmpano; silncio nsupottvel.
Cinco minutos para as dez, exactamente. A Nona levantou-se e saiu
das ttineheiras, na terra de ninum, fixando baionetas, tacteando
 procura de pentes de balas, soltando patilhas de segurana, inspeccio-
nando cantis, raes de reserva, relgios, capacetes de ao, Verifcando
se os cordes das botas estavam em amarrados, procurando localizar
os portadores das metralhadoras. Era fcil ver - ao claro medonhn
das rajadas e da areia aquecida ao rubto e desfeita en, VldtO -, e 1
mortalha de poeira, que se erguia entre o inimigo e eles, dava-lhes segu
rana. Por enquanto. A beira do campo de minas estacaram,  espera
 Dez horas da noite, em ponto. O sargento Mallov ps u apitn
na boca, expediu um silvo estrdulo, que percorreu as fileiras da compa
nhia, e o capito gritou a ordem de avanar. Numa frer,te de mais
de trs quilmetros a Nona penetrou nos campos de minas e os canhes
recomearam a troar atrs dela. Os soldados viam onde iam como se
fosse dia claro, pois os obuses, percorrendo uma trajectria menor,
estouravam poucos metros adiante dele . De trs em trs mnutos
a artilharia acrescentava cem metros  sua mira, e os soldados transpu-
nham aqueles cem metros rezando pata encontrat apenas minas anti-
tanques, ou para que as minas antpessoais j tivessem explodido graas
aos canhes de Montgomery. Ainda havia alemes e italianos no campo,
postos avanados de metralhadoras, de artilharia de cinquenta milme-
tros, de morteiros. As vezes, um homem pisava uma mina que ainda
no explodira e va-a saltar da areia antes de ser cortado an meio por ela.
 I To havia tempo para pensar, no havia tempo para fazer outra
coisa seno correr em sntonia com os canhes, cem metros de trs
em trs mnutos, rezando. Barulho, luz, poeira, fumo, terror que dilua
as tripas. Campos de minas sem fim, quatro, cinco quilmetros minados
at ao outro lado, sem poder voltar. As vezes, numa pausa rapidssima
entre as barragens, chegava pelo ar escaldante e cheio de areia o guineho
agudo, distante e fantstico de uma aita-de-foles;  esquerda da Nona
Diviso Australiana, os escoceses da Cinquenta e Cinco avanavam pelos
campos de minas com um tocador de gaita a guiar cada camandante

408

de companhia. Para o Escocs, o gemido da gaita-de-foles conduzindo-o
 batalha era o mais doce atractivo do mundo e, para o Australiano,
um som amistoso e confortante. Mas, em compensao, deixava de
cabelos em p alemes e italianos.
 A batalha continuou por doze dias, e doze dias  uma batalha
muto longa. A princpio, a Nona teve sorte; as suas baixas foram rela-
tvamente pequenas durante a travessia dos campos de minas e nos
primeiros dias de avano pelo territrio de Rommel.
- Sabm que prefiro levar um tiro do que brincar aos sapado-
res? -disse Col Stuart inelinado sobre a p.
- No sei ; acho que eles fcam com a melhor parte - resmungou
o sargento. - Esperam atrs das linhas que tenhamos feito todo o s r-
vo, e s ento saem de gatas, com os seus removedores de minas,
a fim de abrir caminho para os malditos tanques.
- A culpa no  dos tanques, Bob;  do tipo que os distribui-
disse Jims, batendo de leve com o dorso da p na terra da parte superiot
da nova trineheira. - Como eu gostaria que eles decidissem deixar-nos
no mesmo stio durante algum tempo! J cavei mais nos ltimos cinco
dias do que um urso-formigueiro.
- Contnue a eavar, camarada - disse Bob, indiferente.
- Olhem! - gritou Col, apontando para o cu.
 Dezoito caas-bombardeiros da RAF desciam em perfeita forma-
o de voo, deixando cair as suas bombas, com preso mortal, entre
alemes e tal.ianos.
- Que beleza! - exelamou o sargento Bob Malloy, cujo pescoo
comprido lhe enristava a cabea na direco do eu.
 Trs dias depois estava znorto; um enorme pedao de shrapnel
arrancou-lhe o brao e metade do corpo, mas ningum teve tempo
de parar a no ser para arrancar o apito do que lhe sobrara da boca.
Os homens agora caam como moscas, cansados de mais para manter
o nvel inicial de vigilncia e presteza, mas.aferravam-se ao miservel
solo nu que conquistavam, a despeito da arrada defesa dos restos
de um magnfico exrcito. Aquilo transformara-se, para eles, apenas
numa recusa taciturna e obstinada de serem derrotados.
 A Nona deteve a Graf von Sponeck e a Lungerhausen, ao mesmo
tempo que os tanques irrompiam ao sul. Fnalmente, Rommel foi
derrotado. No dia 8 de Novembro ele tentava reorganizar-se alm
da fronteira egpcia, e Montgomery ficou senhor de todo o campo.
A Segunda Alamein repres ntou uma vitria tctica importantssima;
Rommel fora obrigado a deixar para trs um sem-nmero de tanques,

409

PSSAROSFERIDOS

canhes e equipamento. A Operao Tocha podia encetar com maior
segurana a sua investida para este a partir de Marrocos e da Arglia.
Ainda havia muito esprito de luta na Raposa do Deserto, mas boa
parte da sua cauda ficara no solo de El Alamein. Travara-se a maior
e mais decisiva batalha do teatro de operaes da frica do Norte,
e seu v ncedor era o marechal de campo viscande Montgomery.
 A Segunda Alamein foi o canto do cisne da Nona Diviso Austra-
liana no Norte de frica, e os seus soldados voltariam finalmente para
casa a fim de lutar com os japoneses na Nova Guin. Desde Maro
de 1941 que eles praticamente no se haviam afastado da linha da
frente e, tendo cliegado mal treinados e mal equipados, voltavam agora
para casa com uma reputao s excedida pela da Quarta iviso
Indiana. E, com a Nona, regressaram Jims e Patsy, sos e salvos.

  claro que obtiveram licena para ir a Drogheda. Bob foi de auto-
mvel a Gilly, aonde eles chegariam vindos no comboio de Goondi-
windi, pois a Nona tinha a sua base em Brisbane e partiria para a Nova
Guin depois do treino especial de selva. Quando o Rolls surgiu na
estrada que levava  casa grande, todas as mulheres estavam em p
no relvado,  espera, com Jack e Hughie um pouco mais atrs, mas igual-
mente ansiosos por verem os irmos mais novos. Todos os carneiros que
ainda estivessem vivos em Drogheda poderiam cair mortos, se fosse
o caso, mas naquele dia era feriado.
 Mesmo depois de o carro parar e de eles se apearem, ningum se
moveu. Os rapazes estava m to diferentes! Dois anos passados no
deserto haviam-lhes estragado os uniformes originais; vestiam agora
uma farda verde-escura e pareciam dois estranhos. Em primeiro lugar,
dir se-ia que tinham crescido muito, o que no deixava de ser verdade;
os tltimos dois anos do seu desenvolvimento ocorreram long de Dro-
gheda, e estavam mais altos que os irmos mais velhos. J no eram
rapazes, eratn homens, embora no fossem do tipo de Bob, Jack
e Hughie; as provaes, a euforia das atalhas e a morte violenta
tir1,sm Geitn del,es algo que Ihoghede jamais poderia fazer. O sol norte-
 ara-os e queimara-os, deixando-lhes a pele da cor de um
mogno rseo, e arrancara-lhes, um a um, todos os sinais da infna.
Sim, era possvel acreditar que aqueles dois hamens, d uniformes
simples, chapus desabados que ostentavam, acima da orelha esquerda,
a insgnia da AIF, haviam morto seme ntes s us. Lia-se isso nos
olhos deles, azuis cozno os de Paddy, mas sem a sua brandura.

410

- Meus meninos, meus meninos! - gritou a Sr  Smith, atirando-
-e a eles, enquanto as lgrimas lhe corrim pelo rosto. No, no impor-
tava o que tinham feto, quanto haviatn mudado; ainda eram os seus
meninos, que ela lavara, alimentara, cujas lgrimas secara, cujas feridas
beijara. S que as feridas que traziam agora desafiavam a sua capaci-
dade de cutar.
 Depois todos os cercaram, pondo de lado a reserva britnica,
rindo, chorando, e at a pobre Fee lhes batia nas costas, tentando sorrir.
Depois da Sr Smith havia Meggie, Minnie e Cat para beijar, a me
para abtaar, muito sem jeito, Jack e Hughie para apertar a mo,
com a voz entalada na garganta. A gente de Drogheda nunca saberia
o que era voltar para casa, nunca saberia quanto esse momento fora
desejado, quanto fora temido.
 E como comiam os gmeos! A rao do exrcito no era assim,
dizam, a rir. Lindos bolos rseos e brancos, lamingtons mergulhados
em chocolate e enrolados em coco ralado, pudins fumegantes, refrescos
gelados de maracuj e creme feito com o leite das vacas de Drogheda.
Lembrando-se dos seus estmagos, que, antes, eram delicados,
a Sr.a Smith persuadiu-se de que eles passariam mal durante uma semana,
mas desde que bebessem ch em quantidade suficiente pareciam no ter
dificuldade alguma com as digestes.
- : bem diferent do po wog, no , Patsy?

- Que quer dizer wog? - perguntou a Sr " Smith.
- IK og  rabe, assim camo wop  italiano. Certo, Patsy?
 Esquisito. Eles falavam ou, pelo menos, Jims falava, horas a fio,
sobre a frica do Norte: as cidades, o povo, a comida, o Jnuseu do Cairo,
a vida a bordo de um transporte de tropas, o acampamento de repouso.
Mas por mais perguntas que lhes fizessem, ningum conseguia tirat
deles mais do que respostas vagas acerca de como havia sido a luta
de verdade, como haviam sido Gazala, Bengazi, Tobruqu , El Alamein.
Mais tarde, quando a guerra acabou, as mulheres verificavam amide
;zma coisa: os homens que timham estado no mais aceso das batalhas
nunca abriam a boca para falar delas, r cusavam-se a participar em
clubes e ligas de ex-combatentes, no queriam saber de instituies que
perpetuassem a lembtana da guerra.
 Drogheda deu uma festa em sua honra, e o mesmo fez Rudna
Hunish relativamente a Alastair Mac Queen, que tambm pertencia
 Nona e igualmente se achava em casa. Os dois filhos mais moos de

411

Dominic O Rourke serviam na Sexta, na Nova Guin, e, mesmo assim,
embora no pudessem estar presentes, Dibban-Dibban tambm deu uma
festa. Por fim, todas as propriedades do distrito que tinham um filho no
exrcito fizeram questo de comemorar o regresso dos trs rapazes
da Nona. As mulheres e as moas no lhes davam trguas, mas os Cleary,
que tinham voltado heris, fugiam-lhes sempre que podiam, mais
amedrontados do qve nos campos de batalha.
 Com efeito, Jims e Patsy no pareciam querer saber de mulheres,
era a Bob, Jack e Hughie que sz agarravam. De noite, depois de as
mulheres se tecolherem, ficavam a conversar com os irmos, abrindo-lhes
os seus coraes doloridos e cheios de cicatrizes. E percorriam a cavalo
os pastos ressequidos de Drogheda, que j ia no stimo ano de seca,
contentes por estar  paisana.
 Mesmo assim esfolada e torturada, a terra, para eles, era inefavel-
mente bela, os carneiros, confortadores, as ltimas rosas do jardim,
um perfume vindo do cu. E, de certo modo, sentiam a necessidade
de beber de tudo aquilo em haustos to profundos que nunca mais
o esquecessem, pois a primeira partida fora demasiado sbita, e no
tinham, na altura, a menor ideia do que encontrarlam pela frente.
Mas dessa vez, quando se fossem de novo embora, levariam cada
momento entesourado para o poder recordar, com as rosas de Drogheda
apertadas nas mochilas juntamente com algumas hastes do escasso capim
da fazenda. Tratavam Fee com bondade e compaixo, mas Meggie,
a Sr Smith, Minnie e Cat com amor e muita ternura. Elas tinham
sido as suas verdadeiras znes.
 O que mais deliciava Meggie era a maneira como tratavam Dane,
brincando com ele durante horas e horas, levando-o a passear a cavalo,
fazendo-o rolar e rolando com ele no relvado. Justine parecia assust-los,
mas tambm era verdade que eles encabulavam diante de qualquer
criatura do sexo oposto que no conhecessem to bem como as mulheres
mais velhas de Drogheda. Alm disso, a pobre Justine sentia-se furiosa-
mente umenta com o modo como eles monopolizavam Dane, dei-
xando-a sem o companheiro de folguedos.
- um lindo beb, Meggie - disse Jims  irm quando csta
apareceu, uzn dia, na varanda; sentado numa eadeira de bambu,
ele divertia-se vendo Patsy e Dane brincarem na relva.
- l u m amor, no achas? - Meggie sorriu e foi sentar-se onde
pudesse ver o irmo mais novo. A piedade humedecia-lhe os olhos;
eles tambm tinh m sido os seus bebs. - Que aconteceu, Jims?
No podes contar-me?

412

 Ele fitou-a com olhos tristes que no logravam esconder um pesar
profundo, mas sacudiu a cabea, como se no se sentisse sequer tentado
a falar.
- No, Meggie. No  nada que eu possa contar a uma mulher.
- E depois, quando a guerra acabar e te casares? No contars
 tua mulher?
- Ns, casarmos? No acredito. A guerra tira essas ideias da
cabea de um homem. Estvamos loucos por ir, mas agora no pensamos
assim. Se casarmos, teremos filhos, e para qu? Para v-los crescer,
para v-los fazer o que fizemos e ver o que vimos?
- No, Jims, no!
 O olhar dele seguiu o dela, na direco de Dane, exultante porque
Patsy o segurava de cabea para baixo.
- No o deixes sair de Drogheda, Meggie. Nunca. Em Drogheda
nada de mal poder acontecer-lhe - disse Jims.

 O arcebispo de Bricassart atravessou a correr o belo corredor,
sem se preocupar com os rostos espantados que se voltavam para v-lo;
irrampeu na sala do cardeal e deteve-se, pois Sua Eminncia eonversava
com Monsieur Pape, embaixador do Governo Polaco no e lio junto
da Santa S.
- Homessa, Ralph! Que aconteceu?
- Vittorio, Mussolini foi deposto.
- Jesus! O Santo Padre j sabe?
- Eu mesmo telefonei para Castelgandolfo, embora a rdio trans-
mita a notcia dentro de minutos. Um amigo no quartel-general alemo
avisou=me.
- Espero que o Santo Padre tenha as malas prontas - disse
Monsieur Pape com um leve, um levssimo prazer.
- Se o disfararmos de franciscano mendicante, talvez ele consiga
sair, mas de outro modo no - acudiu o arcebispo Ralph. - Kessehing
tem a cidade inteiramente nas mos.
- Mas ele no iria de qualquer maneira - interveio o cardeal
Vittorio.
 Monsieur Pape levantou-se.
- Preciso de retirar-me, Eminncia. Represento um Governo
inimigo da Alemanha. Se Sua Santidacle no est a salvo, eu estou-
menos ainda. H papis e documentos no meu gabinete que preciso
de examinar.

413

 Cerimonioso e disereto, dplomata at  ponta dos dedos, Monsieur
Pape deixou os dois sacerdotes.
- Ele estava aqui a interceder pelo seu povo perseguido?
- Estava. Pobre homem, preocupa-se tanto com o seu povo!
- E ns no nos preocupamos?
-  claro que sim, Ralph! Mas a situao  mais difcil do que
ele supe.
- A verdade  que no acreditam nele.
- Ralph!
- E no  assim mesmo? O Santo Padre passou os seus primeiros
anos em Munique, apaixonou-se pelos Alemes e ainda os ama, apesar
de tudo. Se colocassem diante dos seus olhos, como prova, esses pobres
corpos.mirrados, ele diria que havia sido obra dos Russos, e nunca
dos seus carssmos Alemes, povo to culto e to civilizado!
- O Ralph no  membro da Sociedade de Jesus, e s est aqui
porque prestou um juramento pessoal de fidelidade ao Santo Padre.
Tem o sangue quente dos seus antepassados irlandeses e normandos,
mas eu suplico-lhe, seja sensato! Desde Setembro passado que esperamos
pela queda do Eixo, rezando para que o Duce ficasse e nos defendesse
de uma represla germnica. Adolf Hitler tem um curioso trao de
contradio na sua personalidade, pois existem duas coisas que ele
sabe serem suas inimigas, mas que deseja, sendo possvel, preservar:
o Imprio Britnico e a Santa Igreja Catlica Romana. Mas quando
se viu obrigado, fez o possvel e o mpossvel para esmagar o Imprio
Britnico. Acha que ele no nos esmagar tambm se o forarmos a isso?
Uma palavra nossa de denna sobre o que est a acontecer na Polnia
e ele destruir-nos-. E que benefcio acredita que nos traria denunci-lo,
meu amigo? No temos exrtos, no temos soldados. As represlias
seriam imediatas, e o Santo Padre seria mandado para Berlim, que  o
que ele teme. No se lembra dos tteres que foram papas em Avinho
h tantos sculos? Quer que o nosso papa seja um ttere em Berlim?
- Sinto muito, Vittorio, mas no vejo as coisas dessa maneira.
Digo que precisamos de denunciar Hitler, proclamar do alto de todos
os telhados, a sua barbrie. Se ele nos matar, morreremos mrtires,
o que seria mais eficaz ainda.
- No costuma ser obtuso, Ralph! Ele no nos mandaria matar.
Compreende o i2npacte do martrio to bem como ns. O Santo Padre
setia mandado para Berlim e ns para a Polnia, Ralph, para a Polnia!
 Quer motter l, de mos mais amarradas do que agora?

414

PSSAROSFERIDOS

 O arcebispo RaIph sentou-se cruzou as mos entre os joelhos,
olh u com expresso de rebeldia para as pombas que voavam, douradas,
ao sol-poente, na direco do pombal. Aos quarenta e nove anos,
um pouco mais magro, envelhecia esplendidamente, como fazia quase
tudo.
- Ralph, ns somos o que somos. Homens, sim, mas apenas em
plano secundrio. Primeiro que tudo somos padres.
- No foi assim que enumerou as nossas prioridades quando
, oltei da Austrlia, Vittorio.
- Eu estava a falar noutra coisa naquela ocasio, sabe muito
bem isso. No queria fazer-se difcil. Digo que no podemos agora
nensar como homens, temos de pensar como padres, por ser esse
;i aspecto mais importante das nossas vidas. Pese embora tudo o que
possamos pensar ou querer fazer como homens, devemos fidelldade
i Igreja, e a nenhum poder temporal! A nossa lealdade pertence apenas
ao Santo Padre! Fez voto de obedincia, Ralph. Deseja transgredi-lo
 te novo? O Santo Padre  infalvel em todos os assuntos que dizem
respeito ao bem-estar da Igreja de Deus.
- Mas ele est errado, o seu julgamento  parcial. Todas as suas
c nergias se concentram no combate ao comunismo. V a Alemanh i
:nmo o maior inimigo do comunismo, o nico factor real que impede
:i sua disseminao no Ocidente. Quer que Hitler permanea firme
; a ;ela alem, e est satisfeito com o Governo de Mussolini na Itlia.

- Acredite-me, Ralph, h coisas que no sabe. Ele  o papa,
clc  infalvel! Se negar essa verdade, estar a negar a su a prpria f.
 A porta abriu se, disereta mas rapidamente.
- Eminncia, Herr General Kesserlin .
 Os dois prelados levantaram-se, sorridentes, sem nenhum vestgio
;l is ltimas divergncias.
- Que grande prazer, Excelncia! No quer sentar-se? Aceita uma
 hvena de eh?
 A conversao fazia-se em alemo, idioma falado por inmeros
 nrelados mais velhos do Vaticano. O Santo Padre gostava muito de falar
 ouvir falar alemo.
- Obrigado, Eminncia, aceito. No h outro lugar em Roma
 un e se possa beber um ch to soberbamente ingls.
 O cardeal Vittorio sorriu com a maior inocncia.
- l um hbito que adquiri quando era legado papal na Austrlia e,
.2 despeito de todo o meu italianismo, ainda no logrei desfazer-me dele.
- E Vossa EYcelncia Reverendssima?

415

P SSAftOS FERIDOS

- Sou irlands, Herr General. F os Irlandeses tambm crescem
a beber ch.
 O general Albert Kesserling respondia sempre ao arcebispo de
Bricassart como um homem a outro; depois dos prelados italianos super-
ficiais e untuosos, achava-o sumamente revigorante, um homem sem
subtileza e sem astcia, um homem franco.
- E como sempre, Excelncia, assombra-me a pureza com que
fala o alemo - cumprimentou.
- Tenho queda para lnguas, Herr General, o que quer dizer
que isso, como todos os talentos, no merece elogios.
- Que  que podemos fazer por Vossa Excelncia? - perguntou
o cardeal suavemente.
- Presumo que Vossa Eminncia j saiba do destino do Duce.
- Sim, Excelncia, j soubemos.
- Ento calcular, em parte, porque estou aqui, Para lhe assegurar
que tudo corre bem e rogar-lhe a fineza de transmit:r esse recado aos
veraneantes de Castelgandolfo. Estou to ocupado neste momento que
me  impossvel l ir pessoalmente.
- O recado ser ttansmitido. Mas Vossa Excelnca est muito
ocupado?
- Naturalmente. Vossa Eminncia h-de compreender que este ,
agota, um pas inimigo para ns, alemes.
- Camo, Herr General? Isto no  solo italiano e nenhum homem
aqui  inimigo, excepto os maus.
- Peo-lhe que me perdoe, Eminncia. Eu referia-me, natural-
mente,  Itlia e no ao Vaticano. Mas no que respeita  Itlia, tenho
de acatar as ordens do meu Fhrer. Ela ser ocupada, e as minhas tropas,
que at aqui estiveram presentes como aliadas, doravante sero polcias.
 Sentado canfortavelmente e dando a impresso de que jamais pre-
senciara uma luta ideolgica na sua vida, o arcebispo Ralph observava,
atento, visitante. Saberia ele o qu o seu Fhrer estava a fazer na
Polnia. E como poderia no saber.
 O cardeal Vittorio imprimiu ao rosto uma expresso de ansiedade.
- Meu caro general, no se refere a Roma, com certeza? Ah, no!
Roma, com a sua hstria, as suas obras de arte inestimveis? Se trouxer
soldados para dentro das sete colinas, haver luta, destruio. Suplico-lhe
que no faa iss!
 O general Kesserling parecia contrafeito.
- Espero que as coisas no cheguem a esse ponto, Eminncia.

416

PASSAROSFERIDOS

Mas tambm prestei um juramento, tambm obedeo a ordens. Terei
de agir de acordo com a vontade do meu Fhrer.
- Mas Vassa Excelncia interceder por ns, no  verdade,
Hetr General? Por favor,  preciso! Estive em Atenas h alguns
anos - acudiu rapidamente o arcebispo Ralph, inclinando-se para
a frente, com os olhos encantadoramente arregalados, um anel de cabelo
cado sobre as sobrancelhas; dando-se conta do efeito que produzia
no general, usou-o sem escrpulo. - Vossa Excelncia j esteve em
Atenas?
- J, j estive - disse o general em tom seco.
- Ento estou certo de que conhece a Histria, sabe como homens
de tempos relativamente modernos destruram edifcios no topo da Acr-
pole. Herr General, Roma est como sempre foi,  um monumento
com dois mil anos de cuidados, ateno e amor. Por favor, suplico-lhe.
No ponha Roma em perigo.
 O general olhou para ele com surpresa e admirao; o uniforme
assentava-lhe muito bem, mas no melhor do que a sotaina, com o seu
toque de prpura imperial, assentava ao arcebispo Ralph. Ele tambm
tinha ar de soldado, o corpo magro e belo do soldado, e um rosto
de anjo. O arcanjo Miguel devia ter sido assim: no um suave mancebo
da Renascena, mas um homem perfeito que principiava a envelhecer,
que amara Lcifer, combatera-o, banira Ado e Eva, matara a serpente
e ficava  mo direita de Deus. Saberia ele qual era o seu aspecto?
Eis um homem que precisava de ser lembrado.
- Farei tudo o que puder, Excelncia, prometo-lhe. Reconheo
que, at certo ponto, a deciso  minha. Sou como deve saber,
um homem civilizado, mas Vossa Excelncia Reverendssima est
a pedir-me muito. Se eu declarar Roma cidade aberta, no poderei
mandar pelos ares as suas pontes nem converter os seus edifcios em
fortalezas, e isso talvez redunde em detrimento da Alemanha. Que garan-
tias terei de que Roma no pagar com perfdias a bondade que eu usar
para com ela?
 O cardeal Vttorio mordeu os lbias e chamou a sua gata, que era
agora uma elegante siamesa; sorriu gentilmente e olhou para o arcebispo.
- Roma nunca pagaria a bondade com perfdas, Herr General.
Estou certo de que, quando tiver tempo de visitar os veraneantes de
Castelgandolfo, Vossa Excelncia receber as mesmas garantias. Aqui,
Kheng-See, minha namorada!
 E as suas mos apertaram-na no regao escarlate, acariciando-a.
- Um animal fora do vulgar, Eminncia.

419

- Uma aristocrata, Herr General. Tanto o arcebispo como eu
temos nomes antigos e venerveis, mas, ao lado da linhagem dela,
as nossas no so nada. Agrada-lhe o nome? Quer dizer flor de seda
em chins. Adequado, no  verdade?
 O ch chegara, estava a ser servido; permaneceram todas em
silncio at a irm leiga sair da sala.
- Vossa Excelncia no lamentar a deciso de declarar Roma
cidade aberta - disse o arcebispo Ralph, com um sorriso melfluo,
ao novo senhor da Itlia. Em seguida, voltando-se para o cardeal,
deixou cair por terra todo o seu cbarme, como um manto que tivesse
despido, por desnecessrio no trato com aquele homem to esti-
mado. - Vossa Eminncia pretende ser ume>>, ou fao eu as honras?
- <<Me>>? - perguntou o general Kesserling, atnito.
 O cardeal di Contini-Verchese riu-se.
- l uma piada de celibatrios. Chamamos < me>> quele yue
serve o ch. Um modo de dizer ingls, Herr GeIieral.
 Nessa noite o arcebispo Ralph sentiu-se cansado, inquieto, nervoso.
Parecia-lhe que no estava a fazer nada para ajudar a acabat com
aquela guerra, regateava apenas a preservao de antiguidades, e acabara
por abominar a inrcia vaticana. Embora fosse canservador por natu-
reza, s vezes a cautela excessiva dos ocupantes das mais altas posies
da Igreja desagradava-lhe sobremodo. Tirando as freiras e padres humil-
des, que faziam as vezes de criados, havia semanas que ele no
falava com uma pessoa carnum, algum que no tivesse um interesse
poltico, espiritual ou militar pessoal. A prpria orao parecia chegar-
-lhe menos facilmente nesses dias, e Deus dir-se-ia a muitos anos-luz
de distncia, como se se houvesse retirado a fim de dar s Suas criaturas
humanas plena liberdade para destruir o mundo que fzera para elas.
Do que precisava, pensou, era de uma boa dose de Meggie e Fee,
de uma boa dose de algum que no estivesse interessado no destino
do Vaticano nem de Roma.
 Sua Excelncia Reverendssima desceu a escada particular para
a grande Bas ica de So Pedro, aonde os seus passeios sem destino
o tinham levado. As portas da igreja fechavam=se nesses dias assim
que anoitecia, snal da paz cheia de apreenses que pairava sobre Roma,
mais eloquente que as companhias de alemes de uniforme cinzento
que marchavam pelas ruas da Cidade Eterna. Um brilho tnue, fantas-
magrico, iluminava a abside hiante e vazia; os seus passos ecoaram
surdamente no cho de pedra enquanto ele andava, parava e se fundia
com o silncio ao ajoelhar-se diante do altar-mor, para depois recomear.

418

A certa altura, entre o rudo do i napacte de um p e o seguinte,
ouviu um respirar conwlsivo. A lanterna, na sua mo, umlnou-se;
dirigiu o feixe de luz em direco ao som, mais curio_so que assustado.
Aquele era o seu mundo, que o defenderia de todos os perigos.
 O raio luminoso deteve-se no que se tornara, aos seus olhos,
a mais bela pea de escultura de toda a criao: a Piet de Miguel
ngelo. Abaixo das figuras inanimadas, postas sobre o soclo, outro rosto,
feito nu de mrmore mas de carne, surgiu-lhe, sombrio e cadavrico.
- Ciao - disse Sua Excelncia Reverendssima, sorrindo.
 No houve resposta, mas ele notou que se tratava de um soldado
alemo de infantaria; enfim, o seu homem comum, o facto de ser alemo
pouco 1he imp rtava.
- Z ie geht's? - perguntnu, sorrindo ainda.
 Um movimento fez o suor rebrilhar de repente, apesar da sombra,
numa testa ampla de intelectual.
- Du bist krank? - perguntou ele ento, imaginando que o rapa-
zinho, pois no era mais que um rapazinho, talvez estivesse doente.
 A voz do outro chegou-lhe, afinal:

- Nein.
 O arcebispo Ralph colocou a lanterna no cho, adiantou-se, ps
a mo debaixo do queixo do soldado e ergueu-o a fim de olhar para
os olhos escuros, mais escuros na escurido.
- Que aconteceu? - perguntou, em alemo, e riu-se. - Pron-
to! - continuou, ainda em alemo. - Tu no sabes, mas essa tem sido
minha principal funo na vida... perguntar s pessoas o que aconteceu.
E, deixa-me dzer-te,  uma pergunta que me valeu muitns sarilhos.

- Vim rezar - disse o rapazinho com uma voz demasiado pro-
funda para a idade e um pronunciado sotaque bvaro.
- E ficaste preso aqui dentro?
- Fiquei, mas no  disso que se trata.
 Sua Excelncia Reverendssima pegou na lanterna.
- Bem, no podes passar a noite aqui, e no tenho a chave
das portas. Vem comigo. - Recomeou a andar na direco da escada
particular que conduzia ao palcio papal, falando cozn voz lenta
e suve. - Na verdade, tambm vim rezar. Graas ao teu Alto Comando,
 tive um mau dia. Isto , at agora... Esperemos que os guardas do Santo
Padre no suponham que fui preso, mas vejam que sou eu quem te
 escolta, e no o contrrio.
 Depois caminharam por mais dez minutos em silncio, percorrendo
corredores, atravessando ptios e jardins, cruzando vestbulos, subindo

419

escadas; o jovem alemo no parecia ansioso por deixar o seu protector,
pois andava colado a ele. Por fim, Sua Excelncia abriu uma porta
e introduziu o garoto extraviado numa saleta de estar parca e modesta-
mente mobilada; acendeu uma lmpada e fechou a porta.
 Os dois ficaram a olhar um para o outro. O soldadinho alemo
viu m homem muito alto com um belo rosto e olhos azuis e discer-
nentes; o arcebispo Ralph viu uma criana que envergava a farda que
tnda a Europa achava terrvel e aterradora. Uma criana; no teria
mais que dezasseis anos, com cetteza. De altura mdia e magro, possua
mma canstituio que prometia um corpo grande e forte, e braos muito
compridos. O feitio do rosto, italianizado, trigueiro e patro, era
muito atraente; olhos grandes, castanhos-escuros, longos clios negros,
cabea magnfica aureolada de cabelos pretos e ondeados. Afinal de
contas, no havia nele nada de usual nem de comum, ainda que o seu
papel fosse um papel vulgar; e, posto que ansiasse por convetsar com
um homem mdio comum, Sua Excelncia Reverendssima sentiu-se
interessado.
- Senta-te - disse ao rapaz, enquanto se dirigia a uma arca
e tirava dela uma garrafa de vinho Marsala. Despejou um pouco do
vinho em dois copos, deu um deles ao rapazinho e levou o outro at
uma poltrona donde poderia observar  vontade o rosto fascinante.
- J esto a recrutar crianas para lutar por eles? - perguntou, cru-
zando as pernas.
- No sei - disse o rapaz. - Eu estava num orfanato, de modo
que seria recrutado, de qualquer maneira.
- Como te chamas?
- Rainer Meerling Hartheim - respondeu o garoto, pranun-
ciando o nome com grande orgulho.
- Magnfico nome - disse o padre, gravemente.
- L, no ? Fui eu mesmo que o escolhi. No orfanato chama-
vam=me Rainer Schmidt, mas, quando fui para o exrcito, troquei-o
pelo nome que sempre desejei.
- s rfo?
- As irms chamavam-me o filho do amor.
 O arcebispo Ralph procurou no sorrir; agora que perdera o medo,
o rapaz revelava muita dignidade e domnio de si mesmo. Mas o que
era que o havia assustado? Sentira, por acaso, medo ao ver-se fechado
na baslica?
- Porque estavas to amedrontado, Rainer?

420

 O rapaz beberricou o vinho com extremo cuidado e ergueu a vista
com uma expresso de prazer.
-  bom,  doce. - Instalou-se mais confortavelmente na pol-
trona.-Eu queria ver a baslica porque as irms costumavam falar
nela e mostrar-nos fotografias. Por isso, quando nos mandaram para
Roma, fiquei contente. Chegmos esta semana. Assim que pude, vim
c. - Franziu o cenho. - Mas no foi como eu esperava. Julguei que
me sentiria mais perto de Nosso Senhor, por estar na Sua igreja. Em vez
disso, s vi uma coisa enorme e fria. No O senti.
 O arcebispo Ralph sorriu.
- Eu sei o que queres dizer, mas acontece que a Baslica de
So Pero no  realmente uma igreja. Pelo menos no sentido em que
o  a maioria as igrejas. Ela  a Igreja. Lembro-me de que levei muito
tempo para habituar-me a isso.
- Eu queria rezar por duas coisas - continuou o rapaz, acenando
com a cabea para indicar que ouvira, mas que no era aquilo que
desejava ouvir.
- Pelas coisas que te amedrontam, Rainer?
- Sim. Pensei que o facto de estar em So Pedro poderia ajudar.
- Que  que te amedronta, Rainer?
- Que decdam que sou judeu, e que o meu regimento seja man-
dado para e Rssia.
- Entendo. No admira que estejas amedrontado. Existe real-
mente a possibilidade de que decidam que s judeu?
- Olhe para mim! - disse o rapaz simplesmente. - Quando
estavam a tomar nota das informaes a meu respeito, disseram que
teriam de averiguar. No sei se podem ou no, mas acredito que
as irms saibam mais a meu respeito do que aquilo que me contaram.
- Se souberem, no o divulgaro - afirmou Sua Excelncia
Reverendssima confortadoramente. - Elas compreendero por que
motivo esto a ser interrogadas.
- Pensa realmente isso? Oxal que assim seja!
- A ideia de teres sangue judeu nas veias perturba-te?
- O meu sangue no tem a mnima importncia - respondeu
 Rainer. -Nasci alemo, e essa  a nica coisa que me importa.
- S que eles no vem o caso dessa maneira, no  assim?
- Pois .
- E a Rssia? Agora no h necessidade de preocupares-te com
 a Rssia. Afinal de contas, ests em Roma, na direco oposta.

421

PSSAftOS FERIDOS

- Hoje de manh ouvi o nosso comandante dizer que poderamos
acabar por ser mandados para a Rssa. Parece que as coisas por l no
vo bem.
- l s uma criana - disse o arcebispo Ralph de repente. - Devias
estat na escola.
- De qualquer maneira no estatia l - Rainer sorriu. - J fz
dezasseis anos, de modo que estaria a trabalhar. - Suspirou. - Mas
gostaria de continuar a frequentar a escola. Aprender  importante.
 O arcebispo Ralph riu-se, depois levantou-se e tornou a encher
os copos.
- No faas caso, Rainer. No estou a ser muito sensato. So s
pensamentos, um depois do outro. Esta  a hora que reservo para eles,
os pensamentos. No sou grande coisa como anfitrio, no  verdade?
- O senhor  bom tipo - concedeu o rapaz.
- Muito bem - disse Sua Excelncia Reverendssima. - Defi-
ne-te, Rainer Moerling Hartheim.
 Um orgulho curioso estampou-se no rosto jovem.
- Sou alemo e catlico. Quero fazer da Alemanha um lugar onde
raa e religio no signifiquem perseguio, e pretendo cansagrar
a minha vida a essa finalidade, se viver.
- Rezarei por ti... para que vivas e sejas bem sucedido.
- Deveras? - perguntou o rapaz, ecanhado. - Rezaria mesmo
por mim, pessoalxnente, dizendo o meu nome?
-  claro. Na verdade, ensinaste-me alguma coisa: que no meu
ofcio s existe uma arma  minha disposio... a orao. Nem tenho
outra funo.
- Quem  o senhor? - perguntou, sonolento, Rainer, a quem
o vinho principiava a fazer pestanejar.
- Sou o arcebispo Ralph d Bricassart.
- Oh! Pensei que fosse um vulgar padre.
- Sou um vulgar padre. Nada mais.
- Pois vou propor-lhe um pacto - acudiu o rapaz com os olhos
faiscantes. - Reze por mim, padte, que eu, se viver o tempo suficente
para conseguir o que desejo, voltarei a Roma a fim de mostrar-lhe
o que as suas oraes conseguiram.
 Os olhos azuis sorriram com ternura.
- Combinado. E quando vieres, dir-te-ei o que acho que aconteceu
s minhas oraes. - Levantou-se. - Fica a mesmo, meu poltico de
trazer por casa, vou ver se arranjo alguma coisa para comeres.

422

 Os dois conversaram at que a aurora refulgiu em torno dos cam-
panrios e as asas dos pombos ruflaram do lado de fora da janela.
Depois o arcebispo conduziu o hspede pelas salas pblicas do palacio,
observando com deleite o seu terror respeitoso, e f-lo sair para o ar
fresco e frio da man z. Embora no o soubesse, o rapaz de nome
sonante iria, cam efeito, para a Rssia carregando consigo uma lem-
brana estranhamente suave e tranquilizadora: a de que, em Roma, na
prpria Igreja de Nosso Senhor, um homem rezava por ele todos
os dias.

 Na altura em que a Nona Diviso se aprontava para embarcar
com destino  Nova Guin, j estava tudo acabado, menos a operao
de limpeza da rea. Desapontada, a diviso mais seleccionada da histria
militar australiana s noutro stio poderia esperar que houvesse ainda
alguma glria a conqulstar, caando os japoneses e obrigando-os a bater
em retirada atravs da Indonsia. Guadalcattal desfizera todas as espe-
ranas japonesas concentradas no avano sobre a Austrlia. E, todavia,
como os alemes, eles cediam terreno palmo a palmo. Conquanto os seus
recursos estivessem lastimosamente no fim e os seus exrcitos fracassas-
sem por falta de abastecimentos e reforos, eles obrigavam os americanos
e australianos a pagar caro cada centmetro de solo reconquistado.
Na sua retirada, os japoneses abandonaram Buna, Gona e Salamaua,
subindo pela costa setentrional at chegar a Lae e a Finschafen.
_ No dia 5 de Setembro de 1943, a Nona Diviso desembarcou
a leste de Lae. Fazia calor, a humidade atingira cem por cento e chovia
todas as tardes, se bem que as grandes chuvas s fossem esperadas dali
a dois meses. A ameaa de malria significava que toda a gente tomava
Atabrine, e as pastilhazinhas amarelas produziam um terrvel mal-estar,
como se a pessoa j tivesse contrado a molstia. A humidade constante
traduzia-se por botas e meias permanentemente hmidas; os ps torna-
vam,se esponjosos, a carne entre os dedos, cheia de feridas, sangrava.
As picadas de mosquitos e outros insectos inchavam e ulceravatn-se.
 Em Port Moresby tinham visto o estado lastimvel dos nativos
da Nova Guin, e se eles no podiam suportar o clima sem contrair
o beribri, a malria, a pneumonia, as molstias crnica da pele, e sem
ficarem com o fgado e o bao dlatados, eram bem menores as espe-
ranas em relao ao homem branco. Havia tambm sobreviventes de
Kokoda em Port Moresby, vtimas no tanto dos japoneses como da
prpria Nova Guin, descarnados, ulcerados, delirantes de febre.
Um nmero dez vezes maior de combatentes morrera de pneumonia

423

PSSAROS FEftIDOS

a dois mil e setecentos metros de altitude, num frio enregelante, ves-
tndo leves fardas tropicais que se diriam herdadas dos japoneses. Lama
hmida e gordurosa, florestas sobrenaturais que brilhavam com uma
luz fria, plida e espectral depois do escurecer, devido aos fungos fosfo-
rescentes, ngremes subidas sobre um entrelaamento nodoso de razes
expostas, o que significava que bastava a um homem distrair-se por
um segundo para se transformar no alvo fcil de um atirador de tocaia.
Tudo to diferente da frica do Norte! A Nona no se sentia abor-
recido por haver participado nas duas batalhas de El Alamein, mas
detestava lutar nos trilhos de Kokoda.
 Lae era uma cidade costeira, no meio de prados densamente
semeados de matas, longe dos trs mil e trezentos metros de altitude
do interior do pas, e muito mas salubre, como campo de batalha, do
que Kokoda. Algumas casas europeias, uma bomba de gasolina e muitas
choas de nativos. Os japoneses, intrpidos como sempre, mas reduzidos
em nmero e empobrecidos, estavam to alquebrados pela Nova Guin
como os australianos que os combatiam, e eram igualmente atotmen-
tados pelas doenas. Depois do material blico macio e da extrema
mecanizao da frica do Norte, os soldados da Nona estranhavam
a total ausncia de morteiros e canhes de campanha; apenas metralha-
doras Owerr e espingardas, sempre de baionetas caladas. Jims e Patsy
gostavam da luta corpo a corpo, gostavam de entrar juntos na refrega,
defendend se um ao outro, embora fosse, sem dvida, uma humilhao
terrvel depois do Afrika Korps. Homenzinhos amarelos, de culos
e dentes salientes ou, pelo menos, assim pareciam. No tinham, de
forma alguma, o garbo maral dos outros soldados.
 Duas semanas depois de a Nona desembarcar em Lae, j no havia
japoneses. Para a Primavera da Nova Guin o dia era muito bonito.
A humidade diminura, o Sol brilhava num cu repentinamente azul,
em lugar do eterno branco enevoado, e a linha divisria de guas
erguia-se verde, purpurina e lils, alm da cidade. Relaxara-se a disci-
plina, todos aproveitavam o dia de folga para jogar criquete, passear,
provocar os nativos no intuito de faz-los rir e mostrar as gengivas ver-
melhas e desdentadas, resultado do hbito de mascar noz de areca.
Jim e Patsy foram passear, fora da cidade, pelo apim alto que lhes
recordava Drogheda, devdo  mesma cor esbranquiada e acastanhada
e ao mesmo comprimento de pois de uma poca de chuvas pesadas.
- Agora no falta muito para voltarmos, Patsy - disse Jims.
-Pusemos os atnarelos a andar e os boches tambm. Regressaremos
a casa, Patsy, a Drogheda! Mal posso acretiitar.

424

-  - concordou Patsy.
 Caminhavam ombro com ombro, muito mais prximos um do outro
do que o normal entre homens comuns; tocavam-se, s vezes, um ao
outro, no conscientemente, mas como um homem toca o prprio corpo,
a fim de avaliar uma comicho ligeira ou assegurar-se, num movimento
impensado, de que ela ainda est l. Como era agradvel sentir no rosto
o sol autntico em lugar de uma bola derretida num banho turco!
De quando em quando, levantavam os rostos para o cu, abriam as
narinas para aspirar o cheiro da luz quente no capim, to parecido com
o de Drogheda, e sonhar que estavam de volta  fazenda, caminhando
na direco de uma wilga no aturdimento do meio-dia, deitando-se ali
e ali ficando durante os piores momentos do calor, lendo um livro,
modorrando; rolando no cho, sentindo a terra amiga e bela atravs
da pele, percebendo um vasto corao a bater algures, como bate o cora-
o materno para o beb sonolento.
- Jims! Olha! Um periquito de Drogheda! - exclamou Patsy,
to impressionado que se esqueceu de que no costumava falar.
  possvel que os periquitos tambm fossem nativos da rego de
Lae, mas a atmosfera lmpida e a lembrana inesperada do lar desenca-
dearam subitamente uma selvagem exultao em Patsy. Rindo, sentindo
as ccegas que o capim lhe fazia nas pernas nuas, saltou atrs do peri-
quito, arrancando o chapu desabado da cabea e agitando-o como se
realmente acreditasse poder eapturar o pssaro que fugia. Sorrindo, Jims
quedou-se a contempl-lo.
 Patsy estaria talvez a uns vinte metros de distncia quando a me-
tralhadora cortou o capim, retalhou-o e espalhou-o  sua volta; Jims
viu o irmo erguer os braos e rodopiar, de maneira que eles pare-
ciam estendidos numa splica. Da cintura aos joelhos era s sangue,
sangue brilhante, sangue de vida.
- Patsy, Patsy! - berrou Jims, que parecia tambm sentir as balas
em todas as clulas do prprio corpo.
 As suas pernas abriram-se num passo enorme, ele ganhou impulso
para correr, mas o treino militar levou a melhor e f-lo mergulhar de
cabea no capim, no momento em que a metralhadora voltava a crepitar.
- Patsy, Patsy, ests bem? - gritou estupidamente, depois de
 er visto todo aquele sangue.
 No entanto, incrivelmente, ouviu uma resposta fraca:
- Estou.
 Centmetro a centmetro, Jims arrastou-se para a frente, atravs

425

da relva fragrante, prestando ateno ao vento, ao farfalhar do prprio
avano.
 Quando alcanou o irmo, encostou a cabea ao seu ombro nu
e desatou a chorar.
- Deixa-te de parvoces - disse Patsy. - Ainda no morri.
- Como est isso? - perguntou Jims, tremendo, enquanto puxava
o shorts para ver a carne empapada de sangue.
- Seja camo for, no me sinto como se fosse morrer.
 Homens foram surgindo em torno deles; os jogadores de crquete
ainda usavam as defesas das pernas e as luvas; alguns foram buscar
uma padiola e os outros ocuparam-se em silenciar a metralhadora, no
extremo oposto da clareira, com uma ctueldade um pouco superior
 normal, pois todos gostavam muito de Harpo. Se alguma coisa lhe
acontecesse, Jims nunca mais seria o mesmo.
 Um belo dia; havia muito tempo que o periquito se fora, mas
outros pssaros gorjeavam e pipilavam sem medo, silenciados apenas
pela batalha real.
- Patsy teve muita sorte - disse o mdico a Jims, algutn tempo
depois. -Deve ter pelo menos uma dzia de balas dentro dele, mas
a maioria atingiu apenas as coxas. As duas ou trs que acertaram mais
alto parecem ter-se encastoado no osso plvico ou no msculo. Pelo que
pude ver, os intestinos esto intactos e a bexiga tambm. A nica
coisa  que...
- 7 o gu? - interrompeu-o Jims com impacincia; ainda tremia
e tinha a boca orlada de azul.
-  muito difcil dizer qualquer coisa com absoluta certeza nesta
altura, pois no sou um cirurgio de gnio, como alguns que h em
Moresby. Eles, sim, podero dizer-lhe muito mais do que eu. Mas a ure-
tra foi atingida, assim como muitos nervos do perneo. Estou convencido
de que ser possvel deix-lo como novo, com excepo talvez dos
nervos. Infelizmente,  muito difcil salvar os nervos. -O mdico lim-
pou a garganta. - O que estou a tentar dizer  que ele talvez nunca
mais tenha muita sensibilidade na regio genital.
 Jims deixou pender a cabea e olhou para o cho atravs de uma
parede cristalina de lgrimas.
- Mas, pelo menos, est vivo - disse, por fim.
 Concederam-lhe licena para voar at Port Moresby com Patsy,
e ficar ao seu lado at que fosse declarado fora de perigo. Os feri-
mentos haviam sido quase milagrosos. As balas tinham-se espalhado
por toda a parte inferior do abdmen, mas sem atingir rgos vitais.

426
PSSAROS FERIDOS

Entretanto, o mdico da Nona Diviso tvera razo; a sensibilidade
5lvica inferior estava muito comprometida e ningum se achava em
 ondies de dizer at que ponto seria possvel Patsy recuper-la
mais tarde.
- Isso no tem muita importncia - disse Patsy j na maca em
que faria o voo para Sidne. - Nunca tive muita vontade de casar.
Agora, o que quero  que tenhas cuidado, Jims, ests a ouvir? Detesto
cer de separar-me de ti.
- Podes ficar descansado, Patsy - sorriu Jims, segurando com
fora a mo do irmo. -V l tu que azar! Passar o resto da guerra
sem o meu melhor companheiro. Escreverei para dizer-te como vai isto
aqu. Abraa a Sr  Smith, Meggie, a me e os nossos irmos por mim,
sim? Podes voltar para Drogheda.
 Fee e a Sr g Smith tomaram o avio para Sidnei a fm de estarem
l quando chegasse o aparelho norte-americano que trazia Patsy de
Townsville; Fee demorou-se poucos dias, mas a Sr  Smith hospedou-se
no Hotel Randwick, prximo do Hospital Militar Prncipe de Gales,
onde Patsy ficou internado durante trs meses. A parte que lhe cabia
desempenhar na guerra estava terminada. A Sr  Smith derramara mui-
tas lgrimas, mas havia tambm muita coisa que era preciso agradecer.
De certa maneira, ele nunca poderia viver totalmente, mas, em compen-
sao, estava apto a fazer quase tudo: andar a cavalo, caminhar, correr.
Como quer que fosse, dir-se-ia que as unies matrimoniais no consti-
tuam a especialidade da famlia Cleary. Quando Patsy recebeu alta do
hospital, Meggie transportou-o de Gilly no Rolls, e as duas mulheres
instalaram-no muito bem, entre cobertores e revstas, no assento de trs,
rezando ambas para que acontecesse mais um milagre: que Jims voltasse
tatnbm para casa.

427

16

  depois de o delegado do imperador Hirohito assinar a rendio
 oficial do Japo, Gillanbone acreditou que a guerra finalmente
 acabara. A notcia chegou no domingo, dia 2 de Setembro de
 1945, exactamente seis anos depois de a guerra ter comeado.
Seis anos torturantes. Tantos lugares vazios, que nunca mais seriam
preenchidos: Rory, filho de Dominic O'Rourke, John, filho de Horry
Hopeton, Cormac, filho de Eden Carmichael. O filho mais moo de
Ross Mac Queen, Angus, nunca mais andaria, David, filho de Anthony
King, poderia andar mas nunca mais vera aonde ia, e Patsy, filho de
Paddy Cleary, nunca teria filhos. E havia aqueles cujos ferimentos no
se viam, mas cujas ricatrizes eram igualmente ptofundas; que tinham
partido alegres, sfregos, risonhos, e voltado calados, falando pouco
e rindo menos ainda. Quem teria imaginado, quando a guerra comeou,
que duraria tanto tempo ou exigiria um tributo to pesado
 Gillanbone no era uma comunidade particularmente supersticiosa,
mas at o mais incrdulo dos seus habitantes estremeceu naquele
domingo, 2 de Setembro, pois no dia em que a guerra acabou terminou
tambm a mais longa seca da histria da Austrlia. Durante quase dez
anos no cara sequer uma chuvada que se aproveitasse, mas, naquele
dia, nuvens de centenas de metros de espessura encheram tetricamente
o cu, racharam, abriram-se e verteram trezentos milmetros de chuva
sobre a terra sedenta. Vinte e cinco milmetros de chuva talvez no
signifiquem a interrupo de uma seca, talvez no sejam seguidos de
mais nada, mas trezentos milmetros de chuva significam eapim.
 Meggie, Fee, Bob, Jack, Hughie e Patsy, de p na varanda, con-
templavam-na atravs da escurido, aspirando o perfume insuportavel-
mente doce da chuva sobre o cho crestado, que alua. Cavalos, carneiros,

428
vacas e porcos esparramavam as pernas no solo que se derretia debaixo
deles e deixavam que a gua lhes casse sobre os corpos contrados;
a maioria nascera depois de a ltima chuvada igual quela desabar
sobre o seu mundo. No cemitrio, a gua lavou a poeira, branqueou
tudo, limpou o p acumulado sobre as asas estendidas do delicado anjo
de Botticelli. O arroio transbordou, e a sua torrente, que estrugia, mis-
turou-se ao barulho da btega. Chuva! Chuva! Como uma bno que
alguma vasta mo inescrutvel negara por muito tempo, mas, final-
mente, concedera. A abenoada, a maravilhosa chuva, porque chuva era
capim, e capim era vida.
 Surgiu um coto verde-plido, que empurrou as suas laminazinhas
na dreco do cu, ramificou-se, lanou rebentos, assumiu um tom
verde mais escuro  medida que se estendia e depois desbotou, cresceu,
convertendo-se no capim bege=prateado, que chegava at  altura do
joelho, de Drogheda. O Home Paddock parecia um campo de trigo,
ondulando a cada lufada de vento, e os jardins explodiram numa orgia
de cores, grandes botes desabrochando, os eucaliptos de repente brancos
e verdes outra vez, depois de nove anos de seca. Pois, se bem que
os tanques de gua construdos por Michael Carson ainda contivessem
o suficiente para manter vivos os jardins, a poeira instalara-se havia
muito em cada folha e em cada ptala, tuxvada e acastanhada. E veri-
ficara-se que a velha lenda era um facto comprovado: Drogheda tinha,
com efeito, gua suficiente para sobreviver a dez anos de seca, mas s
na casa grande.
 Bob, Jack, Hughie e Patsy voltaram aos pastos e comearam a estu-
dar a melhor maneira de repovoar a fazenda; Fee abriu um frasco novo
de tinta preta e, com um gesto brusco tapou para sempre o frasco
de tinta vermelha; Meggie viu chegada ao fim a sua vida de amazona,
pois Jims no tardaria a voltar para casa e, depois, logo surgiriam
homens  procura de trabalho.
 Aps nove anos de seca restavam pouqussimos carneiros e bois,
alm dos reprodutores escolhidos, que vviam estabulados. Bob viajou
para leste, para o topo das vertentes ocidentais, a fim de comprar
ovelhas de boa raa em propriedades menos atormentadas pela seca.
Por fim, Jims voltou para casa, acrescentaram-se oito pastores  folha
de pagamentos de Drogheda e Meggie pendurou a sela.
 Pouco tempo depois, Meggie recebeu uma carta de Luke, a segunda
desde que ela o deixara.
 <<Calculo que agora no demorar muito>>, dizia. <<Mais alguns
anos na cana, e pronto. J sinto as costas um pouco dotidas, mas ainda

429

posso cortar, como os melhores, oito ou nove toneladas por dia. Arne
e eu temos doze grupos a cortar para ns, todos bons tipos.  fcil
ganhar dinheiro, pois a Europa quer todo o acar que possamos pro-
duzir e o mais depressa possvel. Estou a fazer mais de cinco mil libras
por ano e economizo quase tudo. Agora, Meg, depressa estarei instalado
perto de Kynuna. Quando assim for, talvez queiras voltar para mim.
Conseguiste o garoto que querias?  engraado como as mulheres ligam
importncia a essa questo dos filhos. Imagino que foi isso que nos
separou, no foi? Manda-me dizer como passas e como Drogheda aguen-
tou a seca. Do teu, Luke.>>
 Fee apareceu na varanda e viu Meggie, que segurava a carta na
mo, o olhar ausente perdido no verde brilhante dos pastos.
- Como vai Luke?
- Como sempre, me. No lnudou nada. Continua com a mania
de ficar mais algum tempo na maldita cana e fala na fazenda que com-
prar, um dia, perto de Kynuna.
- Achas que ele acabar mesmo por compr-la?
- Acho que sim. Um dia.
- E voltars para ele, Meggie?
- Nem daqui a um milho de anos.
 Fee sentou-se numa cadeira de bambu ao lado da filha, colo-
cando-a at ficar onde pudesse v-la bem. No muito longe, homens
gritavam, martelos malhavam; finalmente as varandas e o andar de
cima estavam a ser fechados com uma rede fina de arame a fim de
impedir a entrada das moscas. Durante anos Fee resistira, teimosa. Por
maior que fosse a quantidade, recusava-se a estragar a beleza arquitec-
tnica da casa com aquelas inestticas redes. Mas quanto mais se pr
longava a seca, mais moscas havia, at que, duas semanas antes das
chuvas, Fee resolvera ceder e contratara um empreiteiro para cercar de
rede todos os edifcios da fazenda, isto , a casa grande, as casas do
pessoal e os barraces.
 Contudo, no quis saber da electricidade, embora desde 1915 um
pequeno gerador, um <<burrinho>>, omo os tosquiadores Ihe chamavam,
fornecesse energia ao barraco de tosquia. Drogheda sem a suave luz
dos lampies? Nem pensar numa coisa dessas. Entretanto, havia l um
dos novos foges que queimavam gs vendido em botijas e uma
dzia dos novos frigorficos a petrleo; a indstria australiana ainda
no recuperara o ritmo de produo dos tempos de paz, mas os novos
aparelhos acabariam por chegar.

430

- Meggie, porque no te divorcias de Luke e casas outra vez?
 pergun ou Fee, de repente. - Enoch Davies desposar-te-ia num abrir
e fechar de olhos; ele nunca olhou para mais ningum.
 Os lindos olhas de Meggie examinaram, pasmados, o rosto materno.
- Misericrdia, me ! At parece que est a falar comigo de mulher
para mulher.
 Fee no sorriu; era raro ela sorrir.
- Bem, se ainda no s uma mulher, nunca mais o sers. E eu
diria que no te faltam os atributos necessrios. Devo estar a ficar
velha; sinto-me tagarela.
 Meggie riu-se, encantada mm a iniciativa materna e ansiosa por
no estragar a nova atmosfera.
-  a chuva, me. Tem de ser. Oh, no  maravilhoso ver o capim
de novo em Drogheda, e pastos verdes em toda a volta da casa?
-  claro que sim. Mas ests a fugir  pergunta. Porque no
te divorcias de Luke e casas outra vez?
- Porque isso  contra as leis da Igreja.
- Palermice! - exclamou Fee, mas em tom sereno. - Tu s to
catlica como eu. No me venhas com essa, Meggie. Se realmente qui-
sesses casar, j te terias divorciado de Luke.
- Acho que sim. Mas acontece que no quero casar outra vez.
Sinto-me muito feliz com os meus filhos e com Drogheda.
 Um riso reprimido, muito parecido com o seu, fez-se ouvir no
interior da moita de cavalinhas que havia ali perto, mas a pessoa que
rira cantinuava escondida pela basta folhagem da planta.
- Oua! L est Dane! Sabe que, to pequeno, ele j monta
a cavalo to bem como eu? - Meggie inclinou-se para a frente. - Dane!
Que ests a fazer? Sai da imediatamente!
 Ele saiu, a rastejar, debaixo da cavalinha mais prxima, com as
mos cheias de terra preta e manchas pretas suspeitas em torno
da boca.
- Me! A terra sabe bem. Tem mesmo bom gosto!
 Dane aproximou-se e foi postar-se diante dela; aos sete anos, alto,
 esguio, graciosamente forte, possua um rosto de delicada beleza de
 porcelana.
 Justine apareceu e colocou-se ao lado dele. Tambm era alta, mas
 mas magra do que esguia e muito sardenta. Dificilmente se lhe distin-
guia o desenho dos traos debaixo das pintas castanhas, mas os olhos
impressionantes cntinuavam to plidos como na infncia, e as sobran-
celhas e os clios, demasiado ruivos, no se destacavam das sardas.

431

PASSAftOS FERIDOS

As madeixas furiosamente vermelhas de Paddy amotinavam-se numa
massa de cachos em torno da face que mais se diria um rosto de
duende. Ningum poderia chamar-lhe uma criana bonita, mas ningum
a esquecia, no s por causa dos olhos mas tambm pela sua notvel
fora de carcter. Inflexvel, decidida e obstinadamente inteligente, Jus-
tine pouco se importava com o que os outros pensavam dela. S uma
pessoa lhe era muito querida: Dane. Ainda o adorava e ainda o consi-
derava propriedade sua.
 Esta sua atitude causara muitos conflitos de vantades entre ela
e Meggie. Justine sofrera um grande choque quando a me pendurara
a sela e voltara a dedicar-se aos trabalhos domsticos. Em primeiro lugar,
Justine no parecia precisar dela, pois estava convencida de que tinha
razo em tudo e tambm no pertencia quela espcie de raparigas que
necessitam de uma confidente. No que lhe dizia respeito, a me, na
maioria das vezes, era apenas algum que interferiria no prazer que
Dane lhe proporcionava. Dava-se muito melhor com a av, exacta-
mente o tipo de pessoa que merecia a sua entusisica aprovao: man-
tinha-se  distncia e partia do pressuposto de que todos possuam um
pouco de bom senso.
- Eu disse-lhe que no comesse terra - declarou Justine.
- Bem, isso no o matar, Justine, mas tambm no lhe far bem.
- Meggie voltou-se para o filho. - Porque fizeste isso, Dane?
 Ele considerou gravemente a pergunta.
- A terra estava l, por isso comi-a. Se me fizesse mal, teria mau
gosto, no teria? E o gosto  bom.
- No  bem assim -- interrompeu Justine, sobranceira. - Eu
desisto de tomar canta de ti, Dane. Algumas das coisas que sabem
melhor so tambm as mais venenosas.
- Por exemplo? - desafiou Dane.
- Melao! - disse a garota, triunfante.
 Dane ficara muit indisposto depois de haver encontrado uma
lata de melao na despensa da Sr.a Smith e de a ter comido toda. Ele
admitiu a estocada, mas contra-atacou.
- Mas ainda estou aqui, ppr isso no pode ser assim to
venenoso!
- Porque omitaste. Se no tivesses vomitado, morrerias.
 Isso era incontestvel. Dane e Justine tinham a mesma altura; ele
enfiou o brao no dela, e os dois atravessaram calmamente o relvado
em direco ao casinhoto que os tios haviam construdo para eles,
seguindo-lhe as insttues, entre os galhos pendentes de uma atoeira-

432

-mole. O perigo das abelhas provocara muita oposio  escolha do
local, mas, no fim, verificou-se que as crianas tinham razo. As abe-
lhas conviviam com elas pacificamente e Dane e Justine diziam que
as aroeiras-moles eram as melhores de todas as rvores, que proporcio-
navam muita intimidade. Exalavam um cheiro seco e fragrante e os seus
cachos de minsculos glbulos cor-de-rosa, convertiam-se em flocos vivos,
acres e rseos quando espremidos na mo.
- Dane e Justine so muito diferentes um do outro e, no entanto,
do-se to bem - disse Meggie. - Isso nunca deixa de espantat-me.
Creio que nunca os vi brigar, embora no compreenda como Dane
consegue viver em paz com uma rapariga to decidida e teimosa como
Justine.
 Mas Fee tinha outra coisa na cabea.
- Ele  a imagem viva do pai - comentou, vendo o neto enfiar-se
debaixo dos ramos mais baixos da aroeira-mole e desaparecer.
 Meggie sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, resposta reflexa
que nem todos os anos em que ouvira tantas vezes repetir a mesmn
frase tinham conseguido eliminar. Era apenas a sua conscincia de culpa,
naturalmente. As pessoas referiam-se sempre a Luke. Porque no?
Havia semelhanas bsicas entre Luke O'Neill e Ralph de Bricassart
mas, por mais que ela tentasse, nunca lograva sentir-se  vontade
quando se comentava a semelhana de Dane com o pai.
 Tomou flego, procurando parecer casual.
- Acha, me? - perguntou, balanando o p com displicncia.
-Eu no penso assim. Dane no se parece nada com Luke, nem no
temperamento, nem na atitude para cam a vida.
 Fee riu-se com prazer, soltou uma autntica gargalhada. Os seus
olhos, que tinham empalidecido com a idade e com as cataratas que
principiavam a invadi-los, pousaram, implacveis e irnicos, no rosto
assustado de Meggie.
- Julgas que eu sou parva, Meggie? No me refiro a Luke
O'Neill. O que quero dizer  que Dane c a imagem viva de Ralph
de Bricassart.
 Chumbo, o p de Meggie parecia feito de chumbo. Caiu sobre os
ladrilhos espanhis, o corpo de chumbo oscilou, o corao de chumbo
dentro do peito lutou contra o seu peso enorme, to grande que quase
o impedia de bater. Bate, maldito, bate! l preciso que continues a bater
pelo meu filho!
- Ora essa, me - a voz tambm era plmbea. - Ora essa,
me, como pode dizer uma coisa dessas? Padre Ralph de Bricassart?

433

- Quantas pessoas conheces com esse nome? Luke O'Neill nunca
gerou esse rapaz; ele  filho de Ralph de Bricassart. Eu descobri isso
no momento em que o tirei de ti quando ele nasceu.
- Ento... porque no disse qualquer cosa? Porque esperou que
ele completasse sete anos para fazer uma acusao to louca e to sem
fundamento?
 Fee estendeu as pernas para a frente e cruzou graciosamente os
tornozelos.
- Estou a envelhecer, Meggie, e as coisas j no me magoam
tanto. No sabes a bno que pode ser a velhice!  to bom ver
Drogheda renascer. Sinto-me melhor por causa disso. Pela primeira vez
em muitos anos tenho vontade de falar.
- E devo dizer que, quando decide falar, sabe escolher o assunto!
A me no tem o direito de afirmar uma coisa dessas. No  ver-
dade! -bradou Megge, desesperada, sem saber ao cetto se a me
se sentia propensa  tortura ou  comiserao.
 De repente, Fee estendeu a mo, que foi pousar no joelho de
Meggie, e a filha viu-a sorrir - no amarga nem desdenhosamente,
mas com curiosa simpatia.
- No me mintas, Meggie. Mente a quem quiseres, mas no me
mintas a mim. Ningum jamais me convencer de que Luke O'Neill
gerou este rapaz. No sou par a, tenho olhos. No h nada de Luke
nele e nunca houve, porque no poderia haver. Ele  a imagem do padre.
Olha para as mos, para a maneita como cresce o cabelo, formando um
bico de vivo, v a forma do rosto, a; sobrancelhas, a boca. At
a maneira de andar.  como Ralph de Bricassart, Meggie.
 Meggie cedeu, e a enormidade do seu alvio evidenciou-se no modo
como se sentou, agora frouxamente, relaxada.
- A distncia entre os olhos. : o que eu mesma noto acima
de tudo. Mas ser assim to evidente. A me acha que toda a gente
sabe?
-  claro que no - retorquiu Fee em tom positivo. - As pessoas
contentam-se em ver a cor das olhos, a forma do nariz, a constituio
geral, znuito parecidas cam a cor dos olhos, a forma do nariz e a consti-
tuio de Luke. Mas eu sabia porque observei o que se passou entre ti
e Ralph de Bricassart durante anos. Bastaria que ele te tivesse feito
um aceno com o dedo para que fosses, a correr, para os seus braos.
Por isso, no me convenceu a tua frase u contra as leis da Igreja>>,
quando falei em divrcio. Estavas louca por violar uma lei da Igreja
muito mais sria do que a que probe o divrcio. Desavergonhada,

434

PASSAROS FERIDOS

Meggie,  o que mereces que te ehamem. Desavergonhada! -Uma
sugesto de dureza envolveu-lhe a voz. - Mas ele era um homem
teimoso. Estava decidido a ser um padre perfeito e tu ocupavas um
reles segundo lugar nos seus pensamentos. Tanta idiotice! De que lhe
valeu tudo isso? Foi apenas uma questo de tempo para que alguma
coisa acontecesse.
 No outro canto da varanda algum deixou cair um martelo e soltou
uma srie de i.mprecaes; Fee encolheu-se e estremeceu.
- Juro que ficarei muito cantente quando terminar esse negcio
da colocao das redes! - Mas voltou ao assunto. - Acreditas que me
enganaste quando no quiseste que Ralph de Bricassart te casasse com
Luke? Eu sabia. Queria-lo como noivo, no como sacerdote. Depois,
quando ele veio a Drogheda antes de partir para Atenas e no te
encontrou, adivinhei que, mais cedo ou mais tarde, iria  tua procura.
Ele andava por a to perdido como um rapazinho na Real Exposio
da Pscoa de Sidnei. Casar com Luke foi o passo mais inteligente que
tu deste, Meggie. Enquanto soube que suspiravas por ele, Ralph no
te quis, mas assim que passaste a pertencer a outro homem, ele comeou
a mostrat todos os sinais clssicos do ciumento, embora estivesse
persuadido, naturalmente, de que o seu afecto por ti era to puro
como a neve. Subsistia, porm, o facto de que precisava de ti, eras-lhe
necessria como nenhuma otra mulher j o fora ou, desconfio eu,
vir a ser.  estranho - disse Fee com sincera perplexidade na
voz. - Nunca atinei com o que ele viu em ti, mas suponho que as
mes so sempre um pouco cegas em relao s filhas at ficarem velhas
de mais para ter cimes da mocidade. Ests para Justine como eu estive
para ti.
 Fee inclinou-se para trs, balanando ligeiramente a cadeira, com os
olhos semicerrados, mas observando Meggie como um cientista obser-
varia a sua cobaia.
- Seja o que for que ele viu em ti - prosseguiu Fee - viu-o no
primeiro dia em que te canheceu, e nunca mais deixou de encantar-se
com isso. Para ele, o problema mais difcil de enfrentar foi o facto
de teres crescido, mas resolveu-o quando esteve aqui e soube que partiras,
casada. Pobre Ralph! No lhe restava outra alternativa seno ir  tua
procura. E encontrou-te, no encontrou? Percebi que sim quando
voltaste para c antes de Dane nascer. Depois de teres estado com Ralph
de Bricassart, j no precisavas de Luke.
- Sim - disse Meggie, suspirando -, Ralph encontrou-me. Mas
isso no resolveu nada para ns, porque eu sabia que ele nunca renun-

435

ciaria ao seu Deus. Por isso decidi ter a nica parte dele que me seria
possvel conseguir, um filho. Dane.
- Isso  como ouvir um eco - disse Fee, saltando uma risada
gutural. - Quando dizes isso, tenho a impresso de que sou eu que
estou a falat.
- Frank?
 A cadeira rangeu; Fee levantou-se, deu alguns passos, voltou
e olhou com frmeza para a filha.
- Ento  assim? Olho por olho, dente por dente, Meggie?
H quanto tempo sabias?
- Desde pequena. Desde que Frank fugiu.
- O pai dele, j casado, era mais velho do que eu, um poltico
importante. Se eu te dissesse o nome, reconhec-lo-ias. H ruas com
o nome dele em toda a Nova Zelndia, e uma ou duas cidades, prova-
velmente. Para todos os efeitos vou chamar-lhe Pakeha.  uma palavra
maori que significa nhomem branco>>, mas servir ao nosso propsito.
Ele j morreu, naturalmente. Possuo sangue maori e metade do sangue
do pai de Frank era tambm maori. Isso ttansparccia em Frank,
que o herdou de ns. Oh, como amei aquele hoinem! Talvez fosse
a voz do nosso sangue, no sei. Ele era bonito. Um homenzarto com
uma cabeleira preta e os olhos negros mais brilhantes e mais risonhos
que j vi. Era tudo o que Paddy no era... culto, sofistieado, encantador.
Amei-o at  loucura, e julguei que nunca mais amaria ningum;
chafurdei nessa iluso durante tanto tempo que, quando me desfiz dela,
j era tarde de mais, tarde de mais! - Q ebrou-se-lhe a voz e voltou-se
para contemplar o jardim. - Tenho contas a prestar de muita cosa,
Meggie, acredita em mim.
- Era por isso, ento, que a me gostava mais de Frank do que
todos ns - disse Meggie.
- Pensei que gostasse, por ele ser filho de Pakeha e os outros
pertencetem a Paddy. - Ela sentou-se e emitiu um rudo estranho,
lamentoso. - Quer dizer que a hstra se repete. Garanto-te que me ri
por dentro quando pus os olhos em Dane.
- A me  uma mulher extraordinria!
- Achas? - A cadeira rangeu; ela inclinou-se para a frente.-
Deixa-me sussurrar-te um segredo, Meggie. Extraordinria ou apenas
vulgar, o certo  que sou uma mulher muito infeliz. Por uma ou por
outra razo fui infeliz desde o dia em que conheci Pakeha, principal-
mente por minha culpa. Eu amava-o, mas o que ele me fez no deveria
acontecer a mulher alguma. E havia Frank... Continuei a agarrr-me

436

a Frank e a ignorar vocs, ignorando tambm Paddy, que foi a melhor
coisa que me aconteceu na vida. Sucede apenas que no o compreendi.
Eu estava muito ocupada comparando-o com Pakeha. Senta-me grata,
 claro, e no podia deixar de apreciar o homem excelente que era...
- Fee encolheu os ombros. - Bem, mas isso pertence ao passado.
Eu s queria dizer que ests errada, Meggie. Sabes que ests, no sabes?
- No, no sei. Na minha maneira de ver as cosas, quem est
errada  a Igreja, esperando tirar isso tambm dos seus padres.
-  engraado, supomos sempre que a Igreja  feminina. Tu
roubaste um homem a uma mulher, Meggie, exactamente como eu.
- Ralph no deve lealdade a mulher alguma, me, a no ser
a mim. A Igreja no  uma mulher,  uma coisa, uma instituio.
- No percas tempo a justificar-te diante de mim. Conheo todas
as respostas. Naquele tempo, eu tambm pensava como tu. O divrcio,
para ele, estava fora de hiptese. Foi uma das primeiras pessoas da sua
raa que alcanou renome poltico e teve de escolher entre mim e o
seu povo. Que homem resistiria a uma oportunidade de ser clebre?
O mesmo sucedeu com o teu Ralph, que optou pela Igreja. Por isso
pensei: que me importa? Apanhar-lhe-ei o que puder, terei, pelo menos,
o filho dele para amar.
- S que eu lhe ganhei de longe em subtileza, me. O meu filho
tem um nome que ningum lhe poder tirar, nem mesmo Luke.
 A respirao de Fee silvou-lhe entre os dentes.
- Insolente! Como s fingida, Meggie! A manteiga no se der-
reteria na tua boca, no  verdade? Pois bem, o meu pai comprou
o meu marido para dar um nome a Frank e livrar-se de mim: aposto
que no sabias disso! Como soubeste do resto?
- Isso  assunto meu.
- Vais pagar tudo, Meggie. Acredita no que te estou a dizer.
No te sairs bem, como eu no me sa. Perdi Frank da pior maneira
que uma me pode separar-se de um filho; no posso sequer v-lo,
embora o deseje tanto... Mas no perdes pela demora! Tambm ficars
sem Dane.
- No, se eu puder evit-lo. A me perdeu Frank porque ele
no se deixou atrelar pelo pai, mas eu consegui fazer com que Dane
no tivesse um pai que pudesse atrel-lo. Eu, sim, atrel-lo-ei,
mas a Drogheda. Porque julga que estou j a tentar convert-lo num
pastor? Ficar seguro em Drogheda.
- E o pai? E Stuart? No te lembras do que Ihes aconteceu?
No existe lugar algum seguro. E no poders segurar Dane aqui se

437

ele quiser partir. O pai no quis atrelar Frank. A  quc est. Frank no
poderia ser atrelado por ningum. E se tu, uma mulher, te julgas capaz
de atrelar o filho de Ralph de Bricassart, ests muitssimo enganada.
 lgico, na ? Se nenhuma de ns conseguiu segurar o pai, como h-de
tentar faz-lo com o filho?
- S perderei Dane se a me abrir a boca. E olhe que a estou
a avisar: juro que a matatei primeiro.
- No te preocupes, no vale a pena preocupares-te com isso.
O teu segredo estar seguro comigo; no passo de uma espectadora
interessada. Com efeito,  isso mesmo que sou. Uma espectadora.
- Oh, me! Como pode ser assim? Porque  to relutante
em dar?
 Fee suspirou.
- Coisas que aconteceram anos antes de tu nasceres - disse, em
tom pattico.
 Meggie, porm, sacudiu o punho com veemncia.
- Oh, no, isso  que no! Depois do que acaba de contar-me?
No vai esquivar-se tentando simplesmente renovar o meu interesse
por um assunto j esquecido! Porcaria, porcaria, porcaria! Est a ouvir,
me? Chafurdou nela durante a maior parte da sua vida, eomo uma
mosca perdida no melao!
 Os lbios de Fee abriram-se num sorriso largo, de autntico prazer.
- Eu costumava pensar que ter uma filha no era to importante
como ter filhos, mas estava enganada. Eu aprecio-te, Meggie, como nunca
poderia apreciar os teus irmos. Uma filha  uma igual, os filhos no,
e tu sabes isso. No passam de bonecos sem defesa que ns erguemos
para derrubar a nosso bel-prazer.
- A me  implacvel. Diga-me, ento, onde foi que errmos?
- Ao nascer - disse Fee.

 Os homens voltavam para casa aos milhares, desfazendo-se dos
uniformes caqui e dos chapus desabados e trocando-os por trajes civis.
E o Governo trabalhista, que ainda estava no Poder, olhou longamente
para as grandes propriedades das plancies ocidentais e para algumas
das maiores fazendas mais prximas. No era justo que uma quantidade
to grande de terra pertencesse a uma famlia s, quando homens que
se tinham sacrificado pela Austrlia precisavam de trabalhar, e o pas
necessitava de uma explorao mais intensiva da terra. Seis milhes
de pessoas para encher uma rea to grande como a dos Estados Unidos
da Amrica, mas apenas um simples punhado desses seis milhes

438

usufruia de vastas reas. As maiores propriedades teriam de ser
subdivididas, e parte seria cedida aos veteranos de guerra.
 Bugela passou de cento e cinquenta mil acres pata setenta mil;
dois soldados que voltaram da frente de combate ganhatana quatenta
mil cres cada um das terras de Martin King. Rudna Hunish tinha
cento e vinte mil acres e, portanto, Ross Mac Queen perdeu sessenta mil,
e outros dois soldados que voltaram da frente foram contemplados
com eles. E assim por diante. Claro est que o Governo eompensou
os propriettios, embora lhes pagasse menos do que o preo que teriam
obtido no mercado aberto. Aquilo, na verdade, custava, e de nada
serviram as reclamaes feitas a Camberra; propriedades do tamanho
de Bugela e Rudna Hunish seriam divididas. Era manifesto que homem
algum precisa de tanta terra, visto que o distrito de Gilly possua
inmeras fazendas prsperas com menos de cinquenta mil acres.
 O que mais custava era saber que, desta feita, ao que.tudo indicava
os veteranos no desistiriam. Depois da Primeira Guerra Mundial
a maioria das grandes fazendas sofrera a mesma amputao parcial,
mas tudo fora mal planeado e os criadores incpientes no tinham
treino nem experincia; a pouco e pouco, os fazendeiros readquiritam,
a preos mnimos, os seus acres aos veteranos desalentados. Desta vez,
porm, o Governo estava preparado para treinar e ensinar  sua prpria
custa os novos colonos.
 Quase todos os proprietrios eram membros do Partido Agrrio e,
por princpio, sentiam averso pelo Governo trabalhista, identificando-o
com os operrios das cidades industriais, os sindicatos e os intelectuais
marxstas incapazes. O pior de tudo foi quando descobriram que os
Cleary, reconhecidamente trabalhistas, no perderiam um nico acre
da formidvel extenso de Drogheda, que, sendo propriedade da Igreja
Catlica, estava naturalmente isenta de qualquer subdiviso. Contudo,
os gritos de raiva ouvidos em Camberra continuaram a ser ignorados.
Foi muito duro para os fazendeiros, que se tinhatn na conta do lobby
mais poderoso da nao, descobtirem que o homem que brandia
o chicote em Camberra fazia o que lhe dava na sua real gana.
O verdadeiro Governo da Austrlia era o federal e os governos estaduais,
virtualmente, no tinham poder algum.
 Deste modo, como um gigante num mundo liliputiano, Dtogheda
continuou intacta, com o seu quarto de milho de acres.

 A chuva ia e vinha, s vezes em quantidades adequadas, s vezes
excessiva, s vezes escassa, mas, graas a Deus, nunca se repetiu

439

a grande seca. Gradualmente, o nmero de carneiros foi crescendo e a
qualidade d l melhorou, tornando-se superior  das pocas anteriores
 seca, o que no deixava de ser um feito notvel. A criao era o mais
importante. Toda a gente falava em Haddon Rig, perto de arren,
que comeara a competir activamente, sob a direco do proprietrio,
Max Falkiner, pelos primeiros prmios da Exposio Real da Pscoa
de Sidnei. E o preo da l principiou a aumentar, depois subiu vertigi-
nosamente. A Europa, os Estados Unidos e o Japo tinham fome de
cada pedao de boa l que a Austrlia fosse capaz de produzir.
Outros pases forneciam ls mais grosseiras para tecidos pesados,
tapetes, feltros, mas s as longas fibras sedosas dos merinos australianos
podiam produzir um tecido de l to fino que escapava por entre
os dedos, como a mais delicada cambraia. E esse tipo de l atingia
a sua qualidade mais alta nas plancies de solo negro no Noroeste
da Nova Gales do Sul e no Sudoeste de Queensland.
 Dir-se-ia que, depois de todos aqueles anos atribulados, havia
chegado uma justa recompensa. Os lucros de Drogheda elevaram-se
alm de tudo o que se podia imaginar, atingiam milhes de Iibras
por ano. Sentada  sua escrivaninha Fee irradiava contentamento e Bob
acrescentou mais dois pastores aos empregados j registados nos livros.
No fossem os coelhos, e as condies pastoris teriam sido as melhores,
mas aqueles animais continuavam a ser a praga de sempre.
 Na casa grande a vida tornou-se, de sbito, muito agradvel.
As redes de arame tinham expulsado as moscas de todos os interiores
de Drogheda. Agora que estavam colocadas e toda a gente se acostumara
com a sua aparncia, havia quem se admirasse de como tinham conse-
guido sobreviver sem elas. Na realidade, existiam muitas compensaes
para o desfeamento causado pelas redes, como, por exemplo, poder comer
ao ar livre, na varanda, quando fazia muito calor, debaixo da latada
de glinias.
 Os 5apos tambm gostavam das redes. Eram uns bichos verdes,
com um delicado revestimento de ouro lustroso. C:om patas que
pareciam ventosas, subiam pelo lado de fora das redes e ficavam a olhar,
imbveis, para os que jantavam, muito solenes e dignos. De repente,
um deles dava um salto, apanhava uma mariposa quase maior do que ele,
e voltava  inrcia anterior com dois teros da mariposa a agitarem-se,
desesperadamente, fora da sua boca demasiado cheia. Dane e Justine
divertiam-se cronometrando o tempo que um sapo levava a engolir
completamente uma mariposa grande, enquanto olhava gravemente
atravs da rede. A tarefa demorava um tempo enorme, e o insecto,

440

muitas vezes, ainda esperneava quando era tragado o derradeiro pedao
da ponta da asa.
- Safa! Que destino! - comentava Dane com um risinho diver-
tido. --- Imagina, ns sentirmos que metade do nosso corpo est viva
enquanto a outra metade est a ser digerida.
 A avidez pela leitura - a paixo de Drogheda - deta aos dois
pequenos O'Neill um excelente vocabulrio numa idade precoce. Inteli-
gentes, sempre atentos, manifestavam interesse por tudo. A vida era-lhes
particularmente agradvel. Tinham os seus pneis puro-sangue, cujo
tamanho aumentava  medida que eles eresciam; estudavam as suas
lies por correspondncia na mesa verde da cozinha da Sr Smith
brincavam no casinhoto construdo na aroeira-mole; tinham gatos,
cachorros e at um lagarto de estimao, que caminhava puxado por
uma trela e atendia quando o chamavam pelo nome. Mas o seu ichinho
predilecto era um porquinho cor-de-rosa, to inteligente como qualquer
cachorro, chamado Iggle-Piggle.
 Vivendo, como viviam, afastados da poluio urbana, conttaram
poucas molstias e nunca apanhavam constipaes nem gripe. Ater-
rorizada pelo fantasma da paralisia infantil, da difteria, de qualquer
coisa que pudesse aparecer de repente, vinda no se sabe donde para
lev-los, Meggie aplicava aos filhos todas as vacinas que aparecessem.
Era ma existncia ideal, cheia de actividade fsica e estmulo mental.
 Quando Dane completou dez anos e Justine onze, foram os dois
para um internato em Sidnei: Dane para Riverview, como o exigia
a ttadio, e Justine para Kincoppal. Ao embarc-los no avio pela
primeira vez, Meggie observou-lhes os rostinhos brancos, valentes
e compostos, a olhar pela janela, enquanto as mos agitavam lenos;
nunca tinham sado de casa. Ela gostaria de acompanh-los, v-los insta-
lados, mas todos se mostraram to contrrios  sua ida que acabou
por ceder. Desde Fee at Jms e Patsy, todos achavam que seria muito
melhor se as crianas se desembaraassem sozinhas.
- No os amimes - disse Fee, severa.
 Mas ela, na verdade, sentia-se presa de dois sentimentos contra-
ditrios quando o DC-3 descolou numa nuvem de poeira e vibrou no ar
tremeluzente. A ideia de perder Dane apertava-lhe o corao, ao passo
que a de perder Justine desafogava-o. No havia ambvalncia nos seus
sentimentos para com Dane, que, alegre e bem-humorado, dava e aceitava
amor to naturalmente como respirava. Mas Justine era um amvel
e horrvel monstrozinho que era preciso amar, porque havia nela
muita coisa digna de amor: a sua fora, a sua integritiade, a sua confiana

441

em si prpria. Mas o pior  que ela no aceitava o amor como Dane,
nem dera jamais a Meggie a maravilhosa sensao de ser necessria.
No era afvel nem travessa e tinha o hbito desastroso de repelir
as pessoas, sobretudo a me. Meggie encontrou nela muita coisa que
a exasperara em Luke, mas, pelo menos, reconhecia que Justine no
era tacanha, e sentia-se grata por isso.
 A existncia de boas ligaes areas significava que as ctianas
poderiam passar em Drogheda todas as frias, at as mais curtas.
Entretanto, aps um perodo inicial de adaptao, os dois comearam
a apreciar a experincia escolar. Dane sentia sempre saudades de casa
depois de uma visita a Drogheda, mas Justine afeioou-se a Sidnei
como se nunca tivesse sado de l, e passava as frias em Drogheda
ansiando pot voltar  cidade. Os jesutas de River iew ficaram encan-
tados, pois Dane era um aluno maravilhoso, tanto na sala de aulas
com no recreio, mas as freiras de Kincoppal, por outro lado, no diziam
o mesmo. Pessoa alguma que tivesse os olhos de Justine e a sua lngua
ferina poderia esperar ser popular. Um ano mais adiantada do que Dane,
ela talvez fosse melhor aluna do que ele, mas s na sala de aulas.

 O nmero de 4 de Agosto do Sydney Morning Herald era muito
interessante. O jornal raro inclua na primeira pgina mais de uma
fatografia, geralmente de meio corpo, relativa ao acontecimento mais
importante. E, naquele dia, a fotografia era um belo tetrato de Ralph
de Bricassart.

 Sua Excelncia Reverendissima o Arcebispo Ralph de Bri-
cassart, actualmente auxiliar do secretrio de Estado da Santa S
em Roma, foi hoje elevado  dignidade cardinalicia por Sua Santi-
dade o Papa Pio XII.
 Ralph Raoul, cardeal de Bricassart, tem uma longa e ilustre
ligao com a Igre a Catlica Romana na Austrlia, desde a sua
chegada como padre recm-ordenado, em Julho de 19 I 9, at  sua
partida para o Vaticano, em Maro de 1938.
 Nascido a 23 de Setembro de 1893 na Repblica da Irlanda,
o cardeal de Bricassart  o filho segundo de uma familia cuja ascen-
dncia remonta ao baro Ranulfo de Bricassart, que aportou  Ingla-
terra no sguito de Guilherme, o Conquistador. Por tradio,
o cardeal de Bricassart desposou a Igre a. Entrou,para o seminrio
aos dezassete anos, e, assim que recebeu as ordens sacras, foi man-

442

PSSAROS FEftIDOS

dado para a Austrlia. Os seus primeiros meses passou-os ao servio
do finado bispo Michael Clabby, da diocese de innemurra.
 Em Junho de 1920 foi transferido para a parquiu de Gillan-
bone, no Noroeste da Nova Gales do Sul, como seu titular.
Nomeado monsenhor, continuou em Gillanbone at Dezembro de
1928. A partir de ento, foi secretrio particular de Sua Excelncia
Reverendissima o Arcebispo Cluny Dark e secretrio particular do
arcebispo e legado papal, Sua Eminncia o Cardeal di Contini-Ver-
chese. Durante esse tempo foi elevado a bispo. Na ocasio em que
o cardeal di Contini-Verchese, transferido para Roma, encetou a sua
notvel carreira no Vaticano, o bispo de Bricassart, nomeado arce-
bispo, voltou  Austrlia como legado papal, cargo gue exerceu at
ser chamado a Roma, em 1938; a partir desse momento, a sua
ascenso dentro da hierarquia centrl da Igreja Catlica Romana
tem sido espectacular. Agora, aos cinquenta e oito anos de idade,
consta gue ele  um dos poucos homens activamente envolvidos
na orientao da politica papal.
 Um representante do Sydney Morning Herald entrevistou
ontem alguns ex-paroquianos do cardeal de Bricassart na rea de
Gillanbone. Todos se Iembram dele com muita afeio. No rico
distrito Ianigwo predomina a populao catlica.
 <<O padre de Bricassart fundou a Sociedade Biblifila Santa
Cruz do Serto>>, disse o Sr. Harry Gough, prefeito de Gillanbone.
<<Foi, sobretudo para a poca, um servio notvel, muito bem
amparado financeiramente, principio pela finada Sr.a Mary Carson
e, ap6s a sua morte, pelo prprio car leal, que nunca nos esgueceu
nem esgueceu as nossas necessidades.>>
 <<O padre de Bricassart foi o homem mais bem-parecido gue
j vi na minha vida>>, disse a Sr.a Fiona Cleary, actual decana de
Drogheda, uma das maiores e mais prsperas fazendas da Nova
Gales do Sul. <<Durante o tempo em que esteve em Gilly, repre-
sentou um grande apoio espiritual para os seus paroquianos e,
particularmente, para ns, em Drogheda, gue, como se sabe, per-
tence ho e  Igreja Catlica. Durante as zundaes, ajudo -nos
a remover os nossos rebanhos, durante os incndios acudiu em
nosso auxilio, nem que fosse para sepultar os mortos. Foi, com
efeito, um homem extraordinrio em todos os sentidos, e dono de
um charme gue no encontrei em nenhum outro. Via-se que estava
destinado a grandes coisas. Lembramo-nos dele com afecto, embora
se tenham passado mais de vinte anos depois de nos ter deixado.

443

PSSAftOS FERIDOS

Sim, creio gue se pode dizer, sem faltar  verdade, que h pes-
soas no distrito de Gilly que ainda sentem muito a sua falta."
 Durante a guerra, o ento arcebispo de Bricassart serviu
Sua Santidade leal e inabalavelmente e atribui-se-lhe o mrito de
haver influido na deciso do marechal de campo Albert Kesserling
de manter Roma como cidade aberta, depois de a Itlia passar
a ser inimiga da Alemanha. Florena, que pleiteara em vo idntico
privilgio, perdeu muitos dos seus tesouros, s restaurados mais
tarde porgue a Alemanha perdeu a guerra. No periodo gue se seguiu
imediatamente ao conflito, o cardeal de Bricassart a udou milhares
de pessoas deslocadas a encontrar asilo em novos paises, e empe-
nhou-se vigorosamente em fomentar o programa australiano de
imigrao.
 Conguanto irlands de nascimento e embora parea que no
exerce a sua influncia na Austrlia como cardeal de Brieassart,
parece-nos, mesmo assim, que poderemos com muita justia reivin-
dicar como nosso esse homem notvel.

 Meggie devolveu o jornal a Fee e sorriu com expresso pesarosa.
- Temos de dar-lhe os parabns, como eu disse ao reprter do
Herald. EIes no imprimiram isso, pois no, embora tivessem transcrito
o seu elogio quase na ntegra. Safa! Que lngua a sua, me! Pelo menos
j sei de quem Justine herdou a dela. E fico a perguntar-me quantas
pessoas sabero ler nas entrelinhas o que disse !. .
- Ele saber, se chegar a ler a reportagem.
- Lembrar-se- de ns? - perguntou Meggie, suspirando.
-  claro que sim. Afinal de contas, ele ainda arranja tempo
para administrar Drogheda. l evidente que se lembra de ns, Meggie.
Como poderia esquecer-nos?
-  verdade, eu tinha-me esquecido de Drogheda. Estamos no
mximo em matria de lucros, no  assim? Ele deve andar muito satis-
feito. Com a l ao preo que est no mercado, a receita de Drogheda,
este ano, deve ter deixado as minas de ouro com dor de cotovelo.
Mais de quatro milhes de libras, s com o plo dos nossos carneiros!
- No sejas cnica, Meggie, isso no te fica bem - disse Fee;
a sua maneira de tratar a filha nesses dias, posto que um tanto spera,
era temperada de respeito e afecto. - Ns samo-nos muito bem, no
foi? No te esqueas de que temos recebido o nosso dinheiro todos
os anos, bons ou maus. Alm disso, ele deu a Bob cem mil libras de
gratificao e a cada um de ns cinquenta mil. Se nos pusesse amanh

444
PSSAROSFERIDOS

fora de Drogheda, estaramos em condies de comprar Bugela, apesar
da inflao do preo das terras. E quanto deu ele aos teus filhos? Milha-
res e milhares de libras. Deves ser justa com ele.
- Mas os meus filhos no sabem disso, nem o sabero. Dane
e Justine crescero pensando que precisam de abrir  seu prprio cami-
nho no mundo, sem os favores do querido Ralph Raoul, cardeal de
Bricassart. Divertido, o segundo nome dele! Bem normando, no ?
 Fee levantou-se, dirigiu-se para a lareira e atirou a primera pgina
do Herald para as chamas. Ralph Raoul, cardeal de Bricassart, estre-
meceu, pareceu piscar os olhos para ela e, logo depois, encarqui-
lhou-se todo.
- Que fars se ele voltar, Meggie?
 Meggie hesitou.
-  pouco provvel que volte.
- Mas  possvel - teimou Fee, enigmtica.
 E ele voltou, em Dezembro. Discretamente, sem que ningum sou-
besse, dirigindo um Aston Martin desportivo desde Sidnei. Nem uma
palavra acerca da sua presena na Austrlia chegara  imprensa, de modo
que ningum em Drogheda tinha a mais remota suspeita da sua vinda.
Quando o automvel parou na rea coberta de cascalho num dos lados
da casa, no havia ningum perto e, aparentemente, no o ouviram
chegar, pois pessoa alguma assomou  varanda.
 Ele sentia os quilmetros percorridos desde Gilly em cada clula
do seu corpo, aspirara os cheiros do serto, dos carneiros, do eapim
seco que refulgia, bulioso, ao sol. Cangurus e emas, cacatuas e lagartos,
milhes de insectos que zumbiam e se moviam aos pulos, formigas que
cruzavam a estrada marchando em fila indiana, carneiros gordos e acha-
parrados em toda a parte. Era assim que ele gostava da paisagem, que
se conformava, num aspecto curioso, cam o que ele amava em todas
as coisas; s anos que passavam mal pareciam toc-la.
 A nica diferena era a rede contra as moseas, mas ele reparou,
divertido, que Fee no permitira que a varanda da casa grande, fron-
teira  estrada de Gilly, fosse fechada com rede, como o resto; s se
viam proteces nas janelas. Ela tinha razo, naturalmente; uma grande
extenso de rede estragaria as linhas da linda fachada georgiana. Quanto
tempo duravam os eucaliptos? Aqueles deviam ter sido transplantados
do interior de Dead Heart oitenta anos atrs. As buganvlias, nos galhos
mais altos, eram uma massa deslizante de cobre e prpura.
 J chegara o Vero, s faltavam duas semanas para o Natal, e as
rosas de Drogheda estavam no auge. Havia rosas em toda a parte,

445

brancas e amarelas; carmeslns como o sangue do corao, escarlates
como a sotaina de um cardeal. No meio das glicnias, agora verdes, rosas
trepadeiras dormitavam, caam do telhado da varanda at  rede de
arame, agarravam-se, amorosas, s venezianas pretas do segundo andat,
estendiam gavinhas na direco do cu. A vegetao cobria os tanques,
de modo que os prprios tanques no se podiam ver. E por toda a parte
havia uma cor entre as rosas, um rseo-acinzentado-plido. Rosa-cinza?
Sim, era esse o nome da cor. Meggie devia t-las plantado, tinha de
ser Meggie.
 Ralph ouviu a gargalhada e permaneceu imvel, aterrado. Em
seguida, obrigou os ps a andarem na direco do som, que se con-
vertera agora em deliciosos trilos casquinantes. Exactamente como ela
eostumava rir quando garotnha. Era mais adiante, atrs de uma grande
massa de rosas de um rseo-acinzentado, perto de uma aroeira-mole.
Empurrou com a mo, para o lado, os cachos de flores, enquanto
a cabea lhe andava  roda devido ao perfume das flores e ao riso.
 Meggie, todavia, no estava l. S viu um rapaz acocorado na relva
viosa, arrelia do um porquinho cor-de-rosa, que dava umas corridas
idiotas na sua direco, afastava-se a galope e voltava. Sem ter cons-
cincia de que era observado, o rapaz atirou a cabea ruiva para trs
e riu-se. O riso de Meggie, saindo de uma garganta que no lhe era
familiar. Sem querer, o cardeal Ralph soltou as rosas, dexando-as voltar
aos seus lugares, e passou pelo meio delas, sem reparar nos espinhos.
O rapaz, que teria uns treze ou catorze anos,  beira da puberdade,
ergueu os olhos, surpreso; o porquinho guinchou, enrolou com firmeza
a pequena cauda e saiu a correr.
 Descalo, o rapaz vestia uns shorts velhos, de caqui e nada mais;
com a pele sedosa, de um castanho-dourado, o corpo esguio j sugera
a fora que teria mais tarde na amplitude dos jovens ombros quadrados,
nos msculos bem desenvolvidos das bamgas das pernas e das coxas,
na barriga achatada, nas ancas estreitas. O cabelo, um pouco longo
e frouxamente anelado, tinha exactamente a cor esbranquiada do capim
de Drogheda, e os olhos, atravs dos clios absurdamente grossos
e negros, eram de um azul intenso. Dir-se-ia um anjo muito jovem que
tivesse fugido.
- Ol - disse o rapaz, sorrindo.
- Ol - retorquiu o cardeal Ralph, achando impossvel resistir ao
 encanto daquele sorriso. - Quem s tu?
- Sou Dane O'Neil - respondeu o rapaz. - Quem  o senhor?
- Eu chamo-me Ralph de Bricassart.

446

 Dane O'Neil. Filho de Meggie, portanto. O que queria dizer que
ela no deixara Luke O'Neil, voltara para ele, dera  luz aquele for-
moso rapaz que poderia ter sido seu, se no tivesse desposado a Igre a
primeiro. Que idade teria guando desposara a Igreja? No seria muito
mais velho do que o garoto, nem muito mais amadurecido. Se tivesse
esperado, o rapaz talvez fosse seu. Que disparate, cardeal de Bricassart!
Se no tivesse casado com a Igreja, teria permanecido na Irlanda a criar
cavalos, e jamais conheceria o seu destino, jamais conheceria Drogheda
nem Meggie Cleary.
- Posso ajud-lo nalguma coisa? - perguntou o rapaz, amvel,
pondo-se de p com uma graa flexvel que o cardeal Ralph reconheceu
como sendo de Meggie.
- O teu pai est aqui, Dane?
- O meu pai? - As sobrancelhas escuras, finamente desenhadas,
juntaram-se. -No, no est. Ele nunca esteve aqui.
- Entendo. E a tua me?
- Est em Gilly, mas volta depressa. Quem est em casa  a ninha
Nanna. Gostara de v-la? Posso lev-lo at l. - Os olhos azuis como
centureas azuis fitaram-se nele, alargaram-se, estreitaram-se. - Ralph
de Bricassart. J ouvi falar no senhor.  isso mesmo! O cardeal de Bri-
cassart! Desculpe-me, Eminncia! Eu no queria ser grosseiro.
 Embora tivesse trocado as suas insgnias eclesisticas por botas,
calas de montar e uma camisa brnca, o anel de rubi ainda lhe ful-
gurava no dedo, donde no poderia ser retirado enquanto vivesse. Dane
O'Neil ajoelhou-se, tomou a mo fina do cardeal Ralph nas suas mos
finas, e beijou o anel, reverente.
- No te preocupes, Dane. No estou aqui como cardeal de Bri-
cassart, naas como amigo da tua me e da tua av.
- Desculpe-me, Eminncia, eu deveria ter reconhecido o seu nome
assim que o ouvi, pois  pronunciado com muita frequncia por aqui.
S que o senhor o diz de modo um pouco diferente, e o seu primeiro
nome deixou-me atrapalhado. Sei que a minha me ter muito prazer
em v-lo.
- Dane, Dane, onde  que ests? - chamou uma voz impaciente,
profunda e fascinantemente rouca.
 A ramagem pendente da aroeira separou-se e uma rapariga dos
seus quinze anos apareceu, endireitando o corpo. Ele reconheceu-a ime-
diatamente por causa dos olhos assombrosos. A filha de Meggie. C Aberta
de sardas, rosto estreito, traos midos, desapontadoramente diferente
da me.

449

- Oh, ol. Desc_ulpe-me, eu no sabia que tnhamos visitas. Sou
Justine O'Neill.
- Jussy,  o cardeal de Bricassart ! - disse Dane num sussurro
alto. -Beija-lhe o anel, depressa!
 Os olhos que pareciam cegos brilharam de desdm.
- s mesmo um pateta em matria de religio, Dane - disse
sem se preocupar em baixar a voz. - Beijar anis  anti-higinico; no
o beijarei. De mais a mais, como saberemos que  o cardeal de Bricas-
sart? A mim parece-me um daqueles velhos fazendeiros antiquados.
Tu sabes, como o Senhor G rdon.
-  ele,  ele - insistiu Dane. - Por favor, Jussy, s boazinha!
S boazinha por mim!
- Est bem, serei boazinha, mas no beijarei o anel, nem por ti.
 nojento. Como hei-de saber quem o beijou antes? A pessoa podia
estar constipada.
- No precisas beijar o meu anel, Justine. Estou aqui de frias;
neste momento no sou um cardeal.
- Isso  bom, porque, vou dizer-lhe francamente, sou ateia-
declarou, muito calma, a filha de Nleggie Cleary. -Depois de passar
quatro anos em Kincoppal, cheguei  concluso de que tudo isso no
passa de uma grande trapalhada.
- O problema  teu - disse o cardeal Ralph, tentando desespe-
radamente parecer to srio e digno como ela. - Posso falar com
a tua av?
- Naturalmente. Precisa de ns? - perguntou Justine.
- No, obrigado. Conheo o caminho.

- bptimo. - Ela voltou-se para o irmo, que continuava boquia-
berto diante do visitante. - Anda, Dane, vem ajudar-me. Vem!
 Mas embora Justine Ihe puxasse o brao com fora, Dane no
se mexeu, observando o vulto alto e erecto do cardeal Ralph desapa-
recer atrs das rosas.
- s mesmo um pateta, Dane. Que tem ele de to especial?
-  um cardeal! - disse Dane. - Imagina! IIm cardeal vivo, de
verdade, em Drogheda!
- Os cardeais - disse Justine - so prncipes da Igreja. Acho
que tens razo, isso  extraordinrio, mas eu no gosto dele.
 Onde mais poderia estar Fee, se no  sua escrivaninha? Ralph
entrou na sala pelos janeles, operao, que, agora, exigia a abertura
de uma rede. Embora devesse t-lo ouvido, ela continuou a trabalhar,

448

PSSAftOS FEftIDOS

as costas curvadas, o lindo cabelo de ouro j todo prateado. Com certa
dificuldade, Ralph calculou que ela devia orar pelos setenta anos.
- Ol, Fee - disse o cardeal.
 Quando ela ergueu a cabea, ele percebeu uma mudana, conquanto
no pudesse precisar-lhe a natureza; a indiferena l estava, mas estavam
tambm l vrias outras coisas. Como se Fee se tivesse suavizado
e endurecido ao mesmo tempo, tornando-se mais humana, mas humana
de um modo parecido com o de Mary Carson. Meu Deus, as matriarcas
de Drogheda! Isso aconteceria a Meggie tambm, quando chegasse
a sua vez?
- Ol, Ralph - disse ela, como se o cardeal entrasse por aquelas
janelas todos os dias. - Que prazer em v-lo!
- O prazer  meu, Fee.
- Eu no o sabia na Austrlia.
- Ningum o sabe. Tenho algumas semanas de frias.
- Espero que fique connosco.
- E onde mais ficaria? - Os seus olhos passearam pelas magn-
ficas paredes, pousaram no retrato de Mary Carson. - Tem um bom
gosto impecvel, Fee, infalvel. Esta sala no fica nada a dever s do
Vaticano. Essas formas ovais pretas com as rosas so um rasgo de gnio.
- Oh, muito obrgada! Fazemos humildemente o que podemos.
Pessoalmente, prefiro a sala de jantar. Tornei a decor-la depois da sua
ltima visita. Cor-de-rosa, branca e verde. Falando assim, parece hor-
rvel, mas espere at v-la. Embora eu mesma no saiba porque fao
isso. A casa  sua, no ?
- No, enquanto houver um Cleary vivo, Fee - disse cal-
mamente.
- O que no deixa de ser confortador. Muito bem, progrediu
bastante desde o tempo em que esteve em Gilly, no  verdade? Viu
o artigo do Herald sobre a sua promoo?
- Vi. A sua lngua afiou-se, Fee.
- Sim, e ainda para mais, estou a gostar disso. Durante todos
estes anos fiquei ca?ada e no disse uma palavra! Eu no sabia o que
estava a perder. - Fee sorriu. - Meggie est em Gilly, mas no se
demora.
 Dane e Justine irromperam atravs das janelas.
- Nanna, podemos ir a cavalo at ao poo?
- Vocs conhecem as normas. Nada de andar a cavalo sem a per-
misso pessoal da vossa me. Sinto muito, mas estas so as ordens
dela. Venham c. Quero apresent-los ao nosso visitante.

449

PSSAftOS FERIDOS

- Eu j falei com eles.
- Oh.
- Pensei que estivesses no colgio, neste momento - disse Ralph
a Dane, sorrindo.
- Em Dezembro no, Eminncia. Temos agora dois meses de
frias... as frias de Vero.
 Haviam passado tantos anos! Ele esquecera-se de que, no hemis-
frio sul, as frias grandes escolares coincidiam com os meses de Dezem-
bro e Janeiro.
- Vai demorar-se aqui muito tempo, Eminncia? - perguntou
Dane, ainda fascinado.
- Sua Eminncia ficar connosco o tempo que puder, Dane-
interveio a av -, mas creio que ele achar muito cansativo chamarem-
-lhe Eminncia a toda a hora. Vamos a ver, que nome Ihe daremos?
Tio Ralph?
- Tio! - exclamou Justine. - A Nanna bem sabe que utio ,
 contra as regras da famlia. Os nossos tios so apenas Bob, Jack,
Hughie, Jims e Patsy, o que quer dizer que ele ser apenas Ralph.
- No sejas malcriada, Justine! Afinal, que fizeste das tuas boas
maneiras ? - perguntou Fee.
- No, Fee, est bem. Prefiro que todos me chamem simplesmente
Ralph - apressou-se a dizer o cardeal. Porque havia de antipatizar tanto
com ele a estranha criaturinha!
- Eu no sou capaz ! - disse Dane com voz entrecortada. - Eu
no posso chamar-lhe apenas Ralph!
 O cardeal Ralph atravessou a sala, segurou com as mos os ombros
nus, enquanto os seus olhos azuis cintilavam, bondosos e vvidos, entre
as sombras da sala.
- claro que podes, Dane. No  pecado.
- Vamos, Dane, vamos voltar para a casinha - ordenou Justine.
 O cardeal Ralph e o filho viraram-se na direco de Fee e olha-
ram ao mesmo tempo para ela.
- Dcus nos acuda! - exclamou Fee. - Vai, Dane, vai brincar
l para fora. - Bateu as palmas. - Depressa!
 O rapaz saiu disparado da sala e Fee encaminhou-se lentamente
para os seus livros. O cardeal Ralph teve pena dela e anunciou que iria
at  cozinha: como mudara to pouco! Ainda alumiada por lampies,
 claro! Ainda a cheirar a cera de abelhas e a grandes vasos de rosas.

 Ficou a conversar longamente com a Sr  Smith e as criadas, que
haviam envelhecido muito desde a sua ltima visita. De certo modo,

450

porm, a
o que er
no era
era feliz.

velhice condizia mais com elas do que com Fee. Felizes, eis
m. Autntica e quase perfeitamente felizes. Pobre Fee, que
eliz. Isso f-lo desejar ainda mais ver Meggie, descobrir se

Mas quando saiu da cozinha, Meggie ainda no voltata, de modo
que, para passar o tempo, ps-se a caminhar em direco ao crrego.
Como estava pacfico o cemitrio! Havia seis placas de bronze na parede
do mausolu, exactamente como ele a deixara. Precisava de recomendar
que o enterrassem l tambm; no podia esquecer-se de dar as instru-
es necessrias quando voltasse a Roma. Perto do mausolu notou
duas novas sepulturas, a do velho Tom, o jardineiro, e a da esposa
de m dos pastores, cujo nome constara da folha de pagamentos desde
1946. Devia haver uma espcie de registo. A Sr.a mith achava que
ele ainda estava na fazenda porque a esposa jazia ali. O guarda-chuva
ancestral do cozinheiro chins desbotara quase totalmente depois de
tantos anos de sol escaldante, e do vermelho imperial original, passando
pelos vrios matizes de que ele se lembrava, chegara ao actual rseo
esbranquiado, quase rosa-cinza. Nleggie, Meggie. Voltaste pata ele
depois de mim, deste-lhe um filho.
 Fazia muito calor, uma leve brisa agitava os chores ao longo
do crrego e arrancava dos sinos, sobre o guarda-chuva do cozinheiro
chins, a sua melanclica e metlica melodia: Hee Sing, Hee Sing, Hee
Sltlg. CHARLIE ERA UM BOM SUJEITO. IssO tambm se desvanecera,
ficara praticamente indecifrvel. E assim devia ser. Os cemitrios deviam
voltar s entranhas da me-terra, perder a sua carga humana debaixo
da lavagem do tempo, at que tudo se fosse e s o at se lembrasse,
suspiroso. Repugnava-lhe a ideia de ser sepultado numa cripta do Vati-
cano, entre homens iguais a ele. Queria ficar aqui, entre pessoas que
tinham vivido deveras.
 Quando se voltou, os seus olhos surpreenderam o olhar glauco do
anjo de mrmore. Ergueu a mo, saudou-o e olhou, por cima do rel-
vado, pata a casa grande. Meggie caminhava para o cemitrio. Delgada,
dourada, envergando um par de calas e uma camisa branca de homem,
exactamente igual  sua, um chapu masculino, de feltro cinzento, ati-
rado para trs da cabea, botas amareladas nos ps. Como um menino,
como o filho, gue deveria ter sido filho dele. Ele era um homem, mas,
quando tambm jazesse ali, no deixaria nada vivo para assinalar o facto.
 Meggie aproximou-se, saltou a cerca branca e chegou to perto
que a nica coisa que Ralph pde ver foram os seus olhos, os olhos
cinzentos, cheios de luz, que no tinham perdido a beleza nem o dom-

451

nio sobre o corao dele. Os braos dela envolviam-lhe o pescoo,
o destino dele estava novamente ao seu alcance, como se nunca tivesse
estado longe dela, a boca vva debaixo da sua boca j no era um
sonho to longamente acalentado, to longamente. Uma espcie dife-
rente de sacramento, escuro como a terra, que nada tinha a ver
com o cu.
- Meggie, Meggie - disse Ralph, com o rosto no cabelo dela,
o chapu dela na relva, os braos dele enlaando-a.

- Isso parece no ter importncia, no ? Nada muda, nunca-
disse Meggie, com os olhos cerrados.
- No, nada muda - confirmou ele, acreditando.
- Isto  Dtogheda, Ralph. Eu avisei-te: em Drogheda s meu,
no s de Deus.
- Eu sei. Eu reconheo-o. Mas vim. - Puxou-a para baixo, para
a relva. - Porqu, Meggie?
- Porque o qu? - A nao dela acariciava-lhe o cabelo, agora
mais branco que o de Fee, mas ainda farto, ainda belo.
- Porque voltaste para Luke e tiveste o filho dele? - pergun-
tou Ralph, ciumento.
 A alma dela olhou por trs das suas luminosas janelas cinzentas
e escondeu-lhe os pensamentos.
- Porque ele me obrigou - disse suavemente. - Foi s uma
vez. Mas tive Dane, por isso no o lamento. Dane valeu tudo por que
passei para consegui-lo.
- Desculpa-me, eu no tinha o direito de perguntar. Em primeiro
lugar, fui eu que te entreguei a Luke, no fui?
-  verdade, foste tu.
-  um rapaz maravilhoso. Parece-se com Lukc?
 Ela sorriu secretamente, arrancou um pedao de relva, enfiou a mo
por dentro da camisa dele e encostou-lha ao peito.
- No. Nenhum dos meus filhos  muito parecido com Luke,
nem comigo.
- Eu amo-os porque so teus.
- Sentimental como sempre. A velhice assenta-te bem, Ralph.
Eu sabia que era assim e esperava ter a oportunidade de o confirmar.
H trinta anos que te conheo e patece que so trinta dias.
- Trinta anos? Tanto tempo?
- Tenho quarenta e um, tem de ser isso mesmo. - Ela ps-se de
p. - Fui oficialmente enviada para vir chamar-te. A Senhora Smith
est a preparar um esplndido ch em tua homenagem e, mais tarde,

quando estiver um pouco mais fresco, haver perna de poreo assada,
com torresmos em quantidade.
 Ele comeou a andar lentamente, ao lado dela.
- O teu filho ri-se exactamente como tu, Meggie. O riso dele
foi o primeiro som humano que ouvi em Drogheda. Pensei que fosses
tu; fui procurar-te e, em teu lugar, dei com ele.
- Queres dizer que foi ele a primeira pessoa que viste em
Drogheda.
- , creio que foi.
- Que tal o achas, Ralph? - pergimtou, ansiosa.
- Gostei. E como poderia no ter gostado, se  teu filho? Mas
senti-me atrado muito vigorosarmente por ele, muito mais do que pela
tua filha. Alis, ela no gosta de mim.
- Justine pode ser minha filha, mas  uma cabrazinha. Aprendi
a dizer palavres depois de velha, graas principalmente a Justine.
E um pouco graas a . E um pouco graas a Luke. E um pouco tam-
bm graas  guerra. l engraado como tudo se acumula.
- Mudaste muito, Meggie.
- Mudei? - A boca suave e cheia curvou-se num sorriso. - Pois
eu no acho.  apenas o Grande Noroeste, que me est a gastar, a arran-
car as camadas, uma por uma, como os sete vus de Salom. Ou como
uma cebola, que seria a comparao escolhida por Justine. No  nada
potica, aquela crana. Sou a mesma velha Meggie, Ralph, apenas um
p_ouco mais nua.
- Talvez.
- Mas tu sim, mudaste, Ralph.
- De que maneira, querida Meggie?
- Como se o pedestal oscilasse  passagem de cada brisa e como
se a vista de cima dele fosse uma decepo.
- E . - Ele riu-se, sem emitir som algum. - Creio que tive,
certa vez, a temeridade de dizer que no eras mais que uma mulher
vulgar! Retiro o que disse. ls a nica mulher, Meggie. A nica!
- Que aconteceu ?
- No sei. Terei descoberto que at os dolos da Igreja tm ps
de barro? Ter-me-ei vendido por um prato de sopa? Estarei agarrado
a uma iluso? -= As suas sobrancelhas uniram-se, como se ele sofresse.
-Talves se)a isso, em poucas palavras. Sou uma massa de clichs.
O mundo do Vaticano  um mundo velho, azedo, petrificado.
- Eu cra mais real, mas nunca o percebeste.
- Eu no podia fazer outra coisa! Eu sabia para onde devia ir,

452 453

PSSAROS FEftIDOS

mas no podia. Ao teu lado, talvez tivesse sido um homem melhor,
ainda que menos clebre. Mas no podia, Meggie. Oh, como eu gostava
de fazer=te compreender tudo isso!
 A mo dela acariciou-lhe com ternura o brao nu.
- Ralph querido, eu compreendo. Eu sei, eu se... Cada um de
ns tem dentro de si alguma coisa que no pode ser negada, ainda que
nos faa gritar, gritar, at ao fim. Samos o que somos, e pronto. Como
a velha lenda celta do pssaro com o espinho no peito que canta at
morrer, porque precisa de faz-lo, porque  levado a isso. Podemos
saber que vamos errar antes at de cometer o erro, mas o conhecimento
de ns mesmos no afecta nem altera o resultado. Cada qual entoa
o seu cntico, convencido de que  o mais maravilhoso que o mundo
j ouviu. No vs? Crimos os nossos esplnhos e nunca nos detivemos
para avallar o custo. A nica coisa que podemos fazer  sofrer a dor
e dizer intimamente que valeu a pena.
-  isso que no compreendo. A dor. - Ralph abaixou os olhos
para a mo dela, pousada com tanta delicadeza no seu brao e que
o magoava de maneira to insuportvel. - Porqu a dor, Meggie?
- Pergunta a Deus, Ralph - respondeu Meggie. - Ele  uma
autoridade no assunto, no ? Ele fez-nos o que somos. Fez o mundo
inteiro. Por conseguinte, fez a dor tambm.
 Bob, Jack, Hughie, Jims e Patsy estavam presentes ao jantar, pois
era sa'bado  noite. No dia seguinte o padre 0at y viria rezar missa,
mas Bob telefonou-lhe dizendo que iam sair. Uma mentirola, destinada
a preservar o anonimato do cardeal Ralph. Os cinco rapazes Cleary
estavaxn cada vez mais parecidos com Paddy, mais velhas, mais lentos
no falar, to firmes e resistentes como a terra. E como gostavam de
Dane! Os seus olhos nunca pareciam deix-lo e seguiam-no at quando
ele saa da sala para ir deitar-se. No era difcil concluir que viviam para
o dia em que o rapazito tivesse idade suficiente para ajud-los a adminis-
trar Drogheda.
 O cardeal Ralph tambm descobrita o porqu da inimizade de
Justine. Dane simpatizara com ele, bebia-lhe as palavras, demotava-se
na sua companhia, e ela estava com cimes.
 Depois de as crianas se irem deitar, ele olhou para os que tinham
fcado: os irmos, Meggie, Fee.
- Fee, deixe a escrivaninha por um instante - pediu. - Venha
sentar-se aqui connosco. Quero falar com todos.
 Ela aInda se movia cam elegncia e ainda tinha um bom corpo;
apenas os seios estvam mais icidos e a cintura engrossara um pouco,

PSSAROS FEftIDOS

mais por efeito da idade do que por um aumento real de peso. Fee sen-
tou-se em silncio numa das grandes poltronas creme defronte do
cardeal, ficando Meggie de um lado e os rmos sentados em bancos
de pedra, bem prximos.
-  a respeito de Frank - disse.
 O nome pairou entre os presentes e ressoou, distante.

- Que aconteceu a Frank? - perguntou Fee com serenidade.
 Meggie deps o tt-ic, olhou para a me e depois para o car-
deal Ralph.
- Conte-nos, Ralph - disse, depressa, incapaz de suportar por
mais tempo a serenidade materna.
- J pensaram que Frank passou quase trinta anos na priso?-
perguntou o cardeal. - Sei que tm sido informados regularmente, con-
forme havamos combinado, mas recomendei que no os afligissem sem
motivo, pois achei que no servia de nada a Frank ou a vocs ouvir
os pormenores pungentes da sua solido e do seu desespero, j que
nenhum de ns poderia fazer coisa alguma. Creio que Frank j teria
sido solto h anos se no houvesse adquirido uma reputao de vio-
lncia e instabilidade nos primeiros anos que passou na Priso de Goul-
burn. At durante a guerra, quando outros presos foram libertados para
servir no Exrcito, o pobre Frank no.
 Fee ergueu os olhos das mos.
- l o seu temperamento - disse sem emoo.
 O cardeal parecia ter dificuldade em encontrar as palavras certas;
enquanto ele as procurava, todos o observavam com um misto de medo
e esperana, se bem que no fosse o bem-estar de Frank que os preo-
cupava.
- Devem estar todas muito intrigados com a razo da minha vinda
 Austrlia depois de todos estes anos - disse finalmente o cardeal
Ralph, sem olhar para Meggie. - Nem sempre pensei em vocs, e tenho
conscincia disso. Desde o primeiro dia em que os conheci, sempre
pensei primeiro em mim, colocando-me em primeiro lugar. E quando
o Santo Padre reeompensou os meus trabalhos em prol da Igreja com
um manto de cardeal, perguntei a mim mesmo que servio eu poderia
prestar  f mlia Cleary para mostrar-lhe, de certo modo, quanto  pro-
fundo o meu interesse por ela. - Fez uma pausa para respirar e con-
centrou o olhar em Fee, no em Meggie. -Voltei  Austrlia a fim
de ver o que poderia fazer por Frank. Lembra-se, Fee, da ocasio em
que Ihe falei, aps a morte de Paddy e de Stu? J passaram vinte anos,

454 455

e nunca me esquecerei da expresso que vi nos seus olhos. Tanta energia
e tanta vitalidade esmagadas.
- Sim - interveio Bob, de repente, com os olhos pregados na
me, - isso naesmo.
- Frank recebeu liberdade condicional - disse o cardeal. - Foi
a nica coisa que pude fazer para demonstrar o me interesse.
 Se ele estivesse  espera de um sbito e ofuscante chamejar de luz
na longa escurido de ee, ficaria muito decepcionado; a princpio no
foi mais que um bruxuleio, e talvez o peso da velhice nunca lhe per-
mitisse brilhar em todo o seu esplendor. Mas nos olhos dos filhos de Fee
viu a verdadeira magnitude, e conheceu um sentido da sua prpria
finalidade que no sentira desde o momento em que, durante a guerra,
conversara com o jovem soldado alemo de nome imponente.
- Obrigada - disse Fee.
- Vocs dar-lhe-o as boas-vindas aqui em Drogheda? - pergun-
tou aos homens da famlia.
- Esta  a casa dele,  aqui que deve ficar - respondeu Bob
elipticamente.
 Todos fizeram gestos de assentimento com a cabea, excepto Fee,
que parecia absorta nalguma viso particular.
- Ele no  o mesmo Frank - prosseguiu o cardeal Ralph com
delicadeza.-Visitei-o na Priso de Goulburn para dar-lhe a notcia
antes de vir para c, e tive de contar-lhe que toda a gente em Drogheda
sempre estivera a par do que lhe acontecera. Se eu lhes disser que
as minhas palavras no o comoveram, podero ter uma ideia da mudana
que nele se operou. Mostrou-se simplesmente... agradecido, e muito
ansioso por tornar a ver a famlia, especialmente Fee.
- Quando ser libertado? - perguntou Bob, pigarreando, e mos-
trando claramente que nele se entrechocavam o prazer que o facto
proporcionaria  me e o medo do que poderia acontecer quando Frank
regressasse.
- Dentro de uma ou duas semanas. Vir no comboio-correio
da noite. Eu queria que viesse de avio, mas ele disse que pteferia
o comboio.
- Patsy e eu iremos busc-lo - ofereceu-se Jims com sofreguido,
mas logo pareceu consternado. - Oh! Mas nem sabemos como ele  !
- No - acudiu Fee. - Eu mesma irei, sozinha. Ainda no estou
caduca; ainda posso guiar o carro at Gilly.
- A me tem razo - interveio Meggie com firmeza, prevendo

um coro de protestos dos irmos. - Deixem-na ir sozinha. Ela  quem
deve v-lo primeiro.
- Bem, tenho que fazer - desculpou-se Fee, com voz rouca,
levantando-se e encaminhando-se para a escrivaninha.
 Os cinco irmos ergueram-se como um homem s.
- Acho que est na nossa hora de dormir - disse Bob, bocejando
cuidadosamente. Sorriu, acanhado, para o cardeal Ralph. - Ser como
nos velhos tempos, o senhor rezar missa para ns amanh de manh.
 Meggie dobrou o tric, p-lo de lado e levantou-se.
- Tambm me vou deitar. Boa noite, Ralph.
- Boa noite, Meggie.
 Os olhos dele seguiram-na at que ela saiu da sala, e depois
voltaram=se para as costas curvadas de Fee.
- Boa noite, Fee.
- Desculpe. Falou comigo?
- Desejei-lhe boa noite.
- Oh! Boa noite, Ralph.
 Ele no queria subir logo depois de Meggie.
- Vou dar um passeio antes de me ir deitar. Sabe uma coisa, Fee?
- Dga. - A voz dela parecia ausente.
- Voc no me engana nem por um niinuto.
 Ela riu-se com desdm, torvamente.
- No? Isso s vezes surpreende-me.
 Noite alta e as estrelas, as estrelas meridonais, revoluteando pelo
cu. Ele perdera, para sempre, o seu poder sobre elas, embora ainds
estivessem l, longe de mais para aquecer, distantes de mais para con-
fortar. Mais prximas de Deus, que era um elo entre elas. Durante
muito tempo quedou-se a olhar para o cu, prestando ateno ao vento
nas rvores, sorrindo.
 No querendo passar junto de Fee, utilizou a escada no extremo
oposto da casa; o lampio sobre a eserivaninha continuava aceso e ele
viu-lhe a silhueta inclinada, trabalhando. Pobre Fee. Como devia
apavor-la a hora de ir para a cama! Quando Frank voltasse para casa,
talvez as coisas ficassem mais fceis para ela.
 No topo da escada o silncio recebeu-o, denso; o lampio de cristal
sobre a mesinha estreita de corredor projectava uma mancha indistinta
de luz para conforto dos noctmbulos, tremulando quando a brisa
nocturna agitava as cortinas da janela mais prxima. Ralph passou,
e os seus ps sobre o tapete pesado no fizeram rudo algum.

456 457

 A porta de Meggie estava escancarada, e jorrava luz; bloqueando
os raios com um movimento sbito, ele fechou a porta atrs de si
e deu a volta  chave. Vestindo um roupo largo, sentada numa cadeira
ao p da janela, ela olhava para o invisvel Home Paddock, mas a sua
cabea voltou-se para v-lo dirigir-se  cama e sentar-se na beira.
Meggie levantou-se devagar e chegou-se a Ralph.
- Espera que eu ajudo-te a tirar as botas.  por essa razo que
nunca uso botas de cano comprido. No consigo tir-las sem uma
descaladeira, e a descaladeira acaba sempre por estragar as melhores
botas.
- Usas essa cor de propsito, Meggie?
- Rosa-cinza? - Ela sorriu. - Sempre foi a minha cor favorita.
Liga bem com o meu cabelo.
 Ralph ps um p no traseiro de Meggie enquanto ela puxava
a bota de uma perna e depois trocou-o pelo p nu.
- Estavas certa de. que eu viria procurar-te, Meggie?
- Eu j te disse. Em Drogheda s meu. Se no tivesses vindo
procurar-me, iria eu procurar-te, no te iludas.
 Ela despiu-lhe a camisa puxando lha por cima da cabea, e, por um
momento, a sua mo descansou, voluptuosa, nas costas nuas de Ralph;
depois, foi at ao lampio e apagou-o, enquanto ele colocava as roupas
no espaldar de uma cadeira. Ralph ouviu-a andar de um lado para outro,
enquanto despia o roupo. <<Amanh cedo rezarei missa. Mas isso ser
amanh cedo, e a magia ter desaparecido. r" inda h a noite, e Meggie.
Eu tenho-a desejado. Ela tambm  um sacramento.

 Dane estav decepcionado.
- Pensei que o senhor vestisse uma sotaina vermelha! - disse.
- As vezes visto, Dane, mas s dentro do palcio. Fora, costumo
usar uma sotaina preta com uma faixa vetmelha, como esta.
- O serhor tem realmente um palcio?
- Tenho.
- Cheio de candelabros?
- Sim, mas Drogheda tambm est cheia deles.
- Ora, Drogheda! - exclamou Dane com tristeza. - Aposto que
os nossos so pequenos comparados com os seus. Eu gostaria de conhecer
o seu palo e v-lo de sotaina vermelha.
 O cardeal Ralph sorriu.
- Quem sabe, Dane? Talvez um dia vejas.
 O rapaz tirrha sempre uma curiosa expresso no fundo dos olhos;

PASSAROSFERIDOS

um olhar distante. Quando se voltou durante a missa, o cardeal Ralph
viu-o, mas no o reconheceu, s lhe sentiu a familiaridade. Nenhum
homem se v ao espelho tal como  realmente, e o mesmo acontece
s mulheres.

' Luddie e Anne Mueller eram esperados para o Natal, como tods
 os anos. A casa grande estava cheia de gente alegre, que festejava
 o melhor Natal dos ltimos tempos; Minnie e Cat trabalhavam can-
 tando, desafinadas, o rosto cheio da Sr  Smith contraa-se num sorriso
 permanente, Meggie desistu de Dane em favor do cardeal Ralph,
 sem fazer comentrios, e Fee parecia muito mais feliz, menos agarrada
  esctivaninha. Os homens aproveitavam o menor pretexto para voltar
 a casa todas as noites, pois aps o jantar, que acabava sempre tarde,
 a conversa aniznava-se na sala de estar. Alm disso, a St Smith
 habituara-se a preparar uma ceia ligeira par ser saboreada por todos
 antes de se recolherem, composta de torradas com queijo derretido,
 bolos quentes com manteiga e bolos de passas. O cardeal Ralph pro-
 testou, dizendo que acabaria por engordar com tanta comida boa, mas,
 depois de trs dias de ares de Drogheda, de gente de Drogheda e de
 comida de Drogheda, parecia j ter=se desfeito do rosto ossudo e maci-
 ento com que chegara.
 O quarto dia despontou muito quente. O cardeal Ralph sara
 com Dane para ir buscar um rebanho de carneiros, Justine passava
 o tempo sozinha, embezerrada, na aroeira-mole, e Meggie descansava
; num sof de bambu almofadado, na varanda. Sentia-se descontrada,
 farta, feliz. Uma mulher pode viver muito bem sem homem durante
 anos a fio, mas era agradvel quando se tratava do homem certo.
 Quando estava com Ralph, o seu corpo recomeava a viver, excepto
 a parte que pertencia a Dane, mas, quando estava com Dane, o seu
 corpo recomeava tatnbm a viver, excepto a parte que pertencia
 a Ralph. S quando os dois se achavam presentes simultaneamente no
 seu mundo, como agora, ela se sentia completa. Bem, tudo aquilo tinha
 a sua lgica. Dan era o seu filho, mas Ralph era o seu homem.
 Uma coisa, todavia, lhe toldava a felicidade; Ralph no vira,
 de modo que a boea dela permanecia fechada, calando o seu segredo.
 Se ele no conseguia ver por si mesmo, porque haveria Meggie de contar-
- lhe? Que fizera Ralph j para merecer que lho dissessem? E o facto
 de ter podido pensar que voltara para Luke de boa vontade fora
 a ltima gota. Ele no merecia saber, j que era capaz de pensar uma
 coisa dessas a seu respeito. As vezes, sentia os olhos plidos e rnicos

458 459

PSSAftOS FERIDOS

de Fee postos nela, e retribua-lhe o olhar, sem se perturbar.
Fee compreendia, de facto, compreendia o meio dio, o ressentimento,
o desejo de vingar-se dos anos de solido. Se Ralph de Bricassart era
um grande caador de arco-ris, porque haveria ela de mimose-lo com
o mais admirvel de todos os arco-ris, o seu filho? Ele que sofresse,
sem saber que sofria.
 O zelefone tocou; era o cdigo de Drogheda; Meggie ouviu-o,
indolente, e, em seguida, compreendendo que a me devia estar noutro
stio, levantou-se com relutncia e foi atender.
- A Senhora Fiona Cleary - disse uma voz de homem.
 Quando Meggie a chamou, Fee apareceu e pegou no auscultador.
-  Fiona Cleary quem fala - disse. E,  proporo que ouvia,
as cores foram desaparecendo, aos poucos, do seu rosto, devolvendo-
-lhe o aspecto que tivera nos dias que se seguiram  morte de Paddy
e Stu; pequenino e vulnervel. - Obrigada - murmurou, recolocando
o auscultador no gancho.
- Que foi, me?
- Frank foi solto. Vem no comboio-correio que chega hoje
 tarde. - Consultou o relgio. - Preciso de sair; j passa das duas.
- Deixe-me ir consigo - ofereceu-se Meggie, to cheia de felici-
dade que lhe era intolervel ver a me decepcionada; e tinha a impresso
de que o encontro, para Fee, talvez no constitusse s alegria.
- No Meggie, no  preciso. Toma conta das coisas aqui,
e aguenta o jantar at  minha chegada.
- No  maravilhoso, me? Frank volta para casa a tempo de
passar o Natal connosco!
- Sim - concordou Fee -,  maravilhoso.
 Naquele tempo j ningum utilizava o comboio-correio, se pudesse
viajar de avio, de modo que, depois de haver percorrido os novecentos
e sessenta quilmetros que separavam Sidnei de Gilly, despejando
passageiros, quase todos de segunda classe, nesta ou naquela cidade,
poucas pessoas havia pata desembarcar em Gillanbone.
 O chefe da estao conhecia de vista a Sr Cleary, mas nunca
sonharia em entabular conversa com ela, de modo que a viu descer
a ponte para pedestres, que passava por cima da estao, e deixoa-a
 espera sozinha, empertigada, na plataforma alta. Velhota vaidosa,
pensou; roupas e chapu modernos, sapatos de salto alto. Bom corpo,
poucas rugas no rosto, considerando-se a idade que devia ter; belo
exemplo do que a vida folgada de um fazendeiro pode fazer por uma
mulher.
PSSAROSFERIDOS

 Assim, Frank, aparentemente, reconheceu a me mais depressa
do que ela a ele, se bem que o corao de Fee no o tivesse esquecido.
Frank tinha cinquenta e dois anos, e o tempo da sua ausncia coincidira
com os anos que o haviam levado da mocidade  idade madura.
O homem que estava de p naquele pr do Sol de Gilly era magro
de mais, quase descarnado, muito plido; o cablo fora cortado rente
no meio da cabea, as roupas disformes pendiam de um cozpo que
ainda dava impresso de fora, pequeno, e as mos, bem torneadas,
apertavam a aba de um chapu de feltro. No estava curvado nem
parecia doente, mas o comboio deixara-o impotente, fazendo girar
o chapu entre as mos, como quem no espera ser recebido por ningam,
mas tambm no sabe o que fazer.
 Senhora de si, Fee caminhou, entgiea, pela plataforma.
- Ol, Frank - disse.
 Ele ergueu os olhos, que costumavam chamejar e brilhar tanto,
engastados agora no rosto de um homem envelhecido. No eram os
olhos de Frank, pareciam exaustos, pacientes, profundamente cansados.
Contudo, quando absorveram a imagem de Fee, uma extraordinria
expresso tomou conta deles, uma expresso ferida, sem defesa, o apelo
de um hamem s portas da morte.
- Oh, Frank! - disse Fee, e tomou-o nos braos, embalando-lhe
a cabea sobre o seu ombro. - Est tudo bem, est tudo bem - canta-
rolou em voz baixa; e, mais suavemente ainda:-Est tudo bem!
 A princpio, Frank ficou sentado, encolhido, no automvel, mas,
 medida que o Rolls ganhava velocidade e saa da dade, principiou
a interessar-se pelas coisas que o cercavam e a olhar pela janela.
- Tudo parece exactamente igual - murmurou.
- Acredito que sim. O tempo aqui custa a passar.
 Atravessaram a ponte barulhenta, de tbuas de madeira, construda
sobre o rio pequeno e lamacento, orlado de salgueiros, tendo a maior
parte do leito exposta num emaranhado de razes e cascalho; os poos
formavam manchas castanhas, e eucaliptos cresciam em toda a parte
no solo vazio e pedregoso.
- O Barwon - disse Frank. - Nunca imaginei que tornaria
a v-lo.
 Atrs deles erguia-se uma enorme nuvem de poeira, diante deles
a estrada corria recta atravs de uma grande plancie cheia de capim
e despojada de rvores.
- A estrada  nova, me? - Frank parea desesperado por encetar
uma conversa, fazer a situao parecet normal.

460 I 461

- , foi feita entre Gilly e Milparinka logo depois de a guerra
terminar.
- Eles podiazn t-la pavimentado com um pouco de alcatro em
vez de deixatem a mesma velha terra.
- Para qu? Ns estamos acostumados a comer poeira, e pensa
quanto custaria fazer um piso capaz de resistir  lama. A estrada nova
 recta, bem canservada e suprimiu treze das nossas vinte e sete cancelas.
Agora s ficaram catorze entre Gilly e a fazenda, e espera um pouco
pata ver o que fizemos com elas, Frank. J no  preciso ningum
para as abrir e fechar.
 O Rolls subiu uma rampa na direco de uma eancela de ao,
que se ergueu lentamente  aproximao do carro; assim que este passou
pot baixo dela e transps mais alguns mctros de estrada, a cancela
desceu e fechou-se sozinha.
- As maravilhas nunca mais acabam! - disse Frank.
- Fomos a primeira fazenda aqui a instalar cancelas automticas...
s entre a estrada de Milparinka e a casa grande, naturalmente. As dos
pastos ainda tm de ser abertas e fechadas  mo.
- Bem, imagino que o tipo que as inventou deve ter-se cansado
de abrir e fechar cancelas no seu tempo, a me no acha?
 Frank somu; pela primeira vez parecia ter achado graa a alguma
coisa.
 Mas depois recaiu no silncio, de modo que Fee concentrou-se
na tarefa de conduzir o crro, no querendo precipitar-se. Quando
passaram debaixo da ltima cancela e entraram no Home Paddock,
ele oonteve a respirao.
- Eu no me lembrava de que isto era to bonito - disse; afinal.
-  a nossa casa - retorquiu Fee. - Ns cuidamos dela.
 Levou o Rolls at  garagem e voltou a p, com ele,  casa grande,
s que, desta vez, Frank transportava a sua mala.
- Queres um quarto na casa grande, Frank, ou preferes uma caisa
de hspedes s para ti? - perguntou Fee.
- Fico na casa de hspedes, obrigado. - Os olhos exaustos des-
cansatam no rosto dela. - Ser bom poder fugir das pessoas - explicou.
 Foi a nica teferncia que Frank fez sobre as condes na cadeia.
- Tambm creio que ser melhor para ti - disse Fee, entrando
antes dele na sala de estar. - A casa grande agora est cheia, pois
o cardeal encontra-se aqui, Dane e Justine esto a passar as frias em
casa e Luddie e Anna IVIueller chegaro depois de amanh, vspera
de Natal.

462
PSSAROSFERIDOS

- Luddie e Anne Mueller? - perguntou Frank.
 Ela deteve-se no acto de totcer um pavio e olhou para ele.
- Passou muito tempo, Frank. Os Mueller so amigos de
Meggie. - Fee espevitou o lampio e foi sentar-se na sua bergre.-
Jantaremos daqui a utna hora, mas ptimeiro tamaremos uma chvena
de ch. Preciso de titar da boca a poeira da estrada.
 Frank sentou-se desajeitadamente na beira de um escabelo de seda
creme, olhando para a sala com respeitoso temor.
- Parece to diferente do tempo da tia Mary!
 Fee sorriu.
- Acho que sim - disse.
 Depois entrou Meggie, e foi mais difcil assimilar o facto de v-la
transformada em mulher madura do que o de encontrar a me enve-
lhecida. Enquanto a irm o abraava e beijava, ele virava o rosto para
o outro lado, encolhia-se dentro do palet largo e procurava, alm dela,
o rosto de Fee, que continuava sentada a fit-lo, como se quisesse dizer:
 No faz mal, tudo parecer normal daqui a pouco, d tempo ao tempo.
Logo a seguir, enquanto ele ainda procurava alguma coisa para dizer
quela estranha, a filha de Meggie entrou, uma mocinha alta, escanifrada,
que se sentou muito tesa, fazendo pregas no vestido com as mos
grandes, os olhos claros cravados primeiro num rosto, depois no outro.
Mais velha do que Meggie quando ele sara de casa, pensou. O filho
de Meggie entrou depois com o cardeal e foi sentar-se no cho ao lado
da irm, um belo rapaz calxnamente distante.
- Frank, isto  maravilhoso - disse o cardeal Ralph, apertando-
-lhe a mo e voltando-se depois para FEe com a sobrancelha esquerda
erguida. - Uma chvena de ch? ptima ideia.
 Os homens da famlia Cleary entraram untos na sala, e foi muito
duro, pois eles no lhe tinham perdoado. Frank adivinhou porqu:
o sofrimento que infligira  me. Mas no sabia dizer coisa alguma
que os fizesse compreender, no poderia contar-lhe o seu sofrimento,
a sua solido, nem pedir-lhes que lhe perdoassem. A nica pessoa que
realmente importava era a me, e esta nunca pensara que houvesse
alguma coisa para perdoar.
 Foi o cardeal quem tentou salvar a noite, dirigindo a conversao
em torno da mesa do jantar, e mais tarde, na sala de estar, conversando
com muita diplomacia, fez questo de incluir Frank na reunio.
- Bob, h uma coisa que queria perguntar-te desde que cheguei...
onde esto os coelhos? - interrogou o cardeal. - Vi milhes de tocas,
mas nenhum coelho.

463

- Os coelhos esto todos mortos - respondeu Bob.
- Mortos? gnio. Sei que isso tinha de ser feito, era absolutamente necessrio

- Isso mesmo, por causa de uma doena chamada mixomatose. e , provavelmente, de todos os feitos cientficos importantes, o menos
Com a invaso dos coelhos e aqueles anos de seca, a Austrlia, divulgado. Contudo,  tambm aterrador.
por volta de 1947, achava-se praticamente liquidada como nao pro- Dane acompanhara a conversa com ateno.
dutora de matrias-primas. Ns estvamos desesperados - disse Bob, 1 - Guerra biolgica? Nunca ouvi falar nisso. Em que consiste ela
entusiasmando-se com o assunto e satisfeito por ter um tema de discusso exactamente, Ralph?
que exclua Frank. -Os termos so novos, Dane, mas, eomo diplomata papal, pre-

 Nesse ponto, sem querer, Frank despertou, com uma observao, ,. ciso estar a par do seu sentido. Numa palavra, <<guerra biolgica>>
o antagonismo do irmo mais novo.  mxomatose. l a eriao de um germe capaz de matar ou inutilizar

- Eu sabia que as coisas estavam ms, mas no pensei que esti- especfica e exclusivamente uma espce de seres vivos.
vessem tanto - disse. Quase inconscientemente Dane persignou-se e encostou-se aos joe-

 E refastelou-se na poltrona, esperando haver agradado ao cardeal lhos de Ralph de Bricassart.
com a sua contribuio para a discusso. - Ser melhor rezarmos, no .
- Pois eu no estou a exagerar, acredite! - insistiu Bob, cido; O cardeal olhou para a cabea loura e sorriu.
como  que Frank poderia saber?
- E que aconteceu? - deu-se pressa em perguntar o cardeal. Se conseguiu ajustar-se, afinal,  vida de Drogheda, Frank deveu-o

- No ano passado, a Organizao de Pesquisa Cientfica e Indus- a Fee, a qual, em face da rgida oposio masculina dos Cleary, conti-
trial da Commonwealth iniciou um programa experimental em Vitria, . nuou a agir como se o filho mais velho se houvesse ausentado por
infectando coelhos com um vrus. No sei bem o que  um vrus, mas pouco tempo, e nunca tivesse envergonhado a famlia nem magoado
acho que  uma espcie de germe. Seja como for, a Organizao cha- profundamente a me. Tranquila e inconspicuamente, introduziu-o no
mou-lhe vrus da mixomatose. A princpio, ele no pareceu difundir-se nicho que ele parecia desejar ocupar, afastado dos irmos; to-pouco
muito bem, embora todos os coelhos que o apanhavam acabassem por o animou a recuperar parte da vitalidade de outros tempos, pois ela
morrer, mas, um ano depois da infeco experimental, esta comeou fora-se, tragada por uma existncia cuja natureza ele se recusava a dis-
a espalhar-se depressa, transmitida por mosquitos; e parece que o cardo cutir com ela. Fee percebera-o no momento em que Frank a fitara na
cor de aafro tambm tem qualquer coisa com isso. Os coelhos pas- "` plataforma da estao de Gilly. O mximo que a me podia fazer pelo
saram a morrer aos milhes e acabaram por desaparecer completamente. filho era torn-lo to feliz quanto possvel e, sem dvida, o modo de
As vezes, avistamos alguns doentes, com enormes caroos no focinho, consegui-lo consistia em aceitar o Frank de agora como o Frank de
coisa muito feia de ver-se. Mas, na verdade, fo um trabalho marav- sempre.
lhoso, Ralph. Exceptuando os coelhos, nada mais apanha a mixomatose, Nem sequer pensou em propor-lhe ir trabalhar para os pastos,
nem mesmo os parentes mais chegados. Por isso, graas  OPCIC, pois os irmos no o queriam, nem ele pretendia voltar a uma espcie
a praga dos coelhos desapareceu. de vida que sempre abominara. Como gostasse de ver coisas a crescer,

 O cardeal Ralph olhou para Frank, que abanou a cabea, dese- Fee p-lo a trabalhar nos jardins, onde o deixavam em paz. E, aos
jando que todos o deixassem recolher-se ao anonimato. poucos, os Cleary foram-se acostumando a ter Frank de volta ao seio

- Guerra biolgica em escala macia. No sei se o resto do mundo da famlia, e comearam a compreender que a ameaa que ele costu-
sabe que se travou aqui na Austrlia; entre 1949 e 1952, uma guerra " mava representar ao seu bem-estar j no existia. Nada mudaria jamais
de vrus contra uma populao de trilies e trilies de seres, que o que a me sentia pelo filho, estivesse ele na cadeia ou em Drogheda,
acabou por perecer! Pois bem! O negcio  vivel, no ? J no se Fee nunca deixaria de am-lo. E como Frank no se metia na vida
 deles, no era nem mais nem menos do que sempre fora.
trata de jornatismo sensacionalista, mas de um facto cientfico. Eles Fee, todavia, no se alegrava por ter Frank em casa outra vez
podem at enterrar as suas bombas atmicas e as suas bombas de hidro- '
 como poderia alegrar-se. V-lo todos os dias era para ela to triste

464

465

como no poder v-lo. Era muito duro ter de presenciar o espectculo
de uma vida arruinada, de um homem arruinado, que outro no era
seno o seu filho mais querido e que devia ter sofrido agonias que
estavam para alm da sua imaginao.
 Um dia, uns seis meses aps a chegada de Frank, Meggie entrou ,
na sala de estar e encontrou a me sentada, a olhar atravs das grandes
janelas para o filho, entretido em podar as roseiras ao longo do cami-
nho. Quando ela desviou o olhar, qualquer coisa no seu rosto calma-
mente composto fez Meggie levar as mos ao corao.
- Oh, me! - exclamou, impotente.
 Fee olhou-a, sacudiu a cabea e sorriu.
- No faz mal, Meggie - disse.
- Se houvesse ao menos alguma coisa que eu pudesse fazer!
- H. Continua a proceder como tens procedido. Estou-te muito
grata. Tornaste-te uma aliada.

466

VI

1954-1965 - DANE

i 17

 Enz - disse Justine  me -, decidi o que vou fazer.
- Pensei que j o tivesses feito. Vais estudar Belas-
- Artes na Universidade de Sidnei, no  isso?
- Oh, isso foi apenas para despist-la e dar-lhe uma
 falsa sensao de segurana enquanto eu fazia os meus planos. Mas
 agora que est tudo resolvdo, posso contar-lhe.
 A cabea de Meggie levantou-se da tarefa que estava a executar-
 cortar massa de bolos, dando-lhe a forma de abetos; a Sr e Smith acha-
 va-se doente e elas ajudavam na cozinha. A me olhou para a filha com
 uma expresso de cansao, impacincia e impotncia. Que se podia fazer
 com algum como Justine? Se ela anunasse que pretendia sair de casa
 para viver como prostituta num bordel de Sidnei, Meggie duvidava
 muito de lograr demov-la. Querida e horrvel Justine, rainha dos carros
 de Jagren.
- Continua, sou toda ouvidos - disse, e voltou  faina de cortar
^ bolinhos
- Vou ser actriz.
- O qu?
- Actriz.
- Misericrdia! - Os abetos fotam novamente abandonados.
-Ouve, Justine, detesto armar em desmancha-prazetes e, sincera-
mente, no pretendo magoar-te, mas julgas-te... bem, achas-te fisica-
mente equipada pata seres uma actriz?
- Oh, me! - disse Justine, enfadada. - No vou ser estrela de
cinema; vou ser actriz! No quero rebolar as ancas, nem empinar os
seios, nem fazer beicinho com os lbios molhados! Quero representar.
-Ela estava a enfiar nacos de carne sem gordura no barril de sal-

469

moura. - Tenho dinheiro suficiente para sustentar-me durante o curso
que escolher, no  assim?
- l , graas ao cardeal de Bricassart.
- Ento est resolvido. Estudarei arte clramtica com Albert Jones,
no Culloden Theater, e escrevi para a Academia Real de Arte Dram-
tica de Londres, pedindo que incluam o meu nome na lista de espera.
- Ests segura do que pretendes, Jussy?
- Absolutamente segura. H muito tempo que sei. - O ltimo
pedao de carne sangrenta foi empurrado para debaixo da superfcie
da salmoura; Justine, com um murro, colocou a tampa no barril.
-Pronto! Espero nunca mais ver outro pedao de carne salgada
enquanto viver.
 Meggie estendeu-lhe uma bandeja completa de bolinhos.
- Pe-os no forno, por favor. Devo dizer-te que isto, para mim,
 uma surpresa. Sempre pensei que as rapariguinhas que desejam ser
actrizes vivem a representat, mas a nica pessoa que j te vi imitar
 a ti mesma.
- Oh, me! Est outra vez a confundir estrelas de cinema com
actrizes. Francamente, no percebe nada.
- Mas, ento, as estrelas do cinema no so actrizes?
- De uma espcie muito inferor. Isto , a no ser que tenham
passado primeiro pelo palco. Quero dizer, at Laurence Olivier faz um
filme de vez em quando.
 Havia um retrato autografado de Laurence Olivier no toucador
de Justine; Meggie considerara-o simplesmente nma paixonite de
criana, embora se lembrasse de que, na ocasio, conclura que Justine,
ao menos, tinha bom gosto. As amigas que ela, s vezes, trazia para
passar alguns dias em Drogheda costumavam guardar retratos de Tab
Hunter e Rory Calhoun.
- Ainda no compreendo - disse Meggie, sacudindo a cabea.
- Ser actriz !
 Justine encolheu os ombros.
- Muito bem, e onde mais poderei gritar, berrar e uvar a no
ser num palco? No me permitem fazer nada disso aqui, nem no col-
gio, nem em parte alguma! E eu gosto de gritar, de berrar e de uivar!
- Mas tens tanto jeito para as artes, Jussy! Porque no ser
artista? - perseverou Meggie.
 Justine afastou-se do imenso fogo e deu um piparote no medidor
da botija de gs.

470

3
PSSAROS FEftIDOS

- Preciso dizer ao ajudante de cozinha que troque as botijas;
estamos com pouco gs, mas este ainda dar para hoje. - Os olhos
claros observ aram Meggie com piedade. - Tem to pouco senso pr-
tico, me! Pensei que fossem os filhos que no se preocupavam com
os aspectos prticos de uma carreira. Deixe-me dizer-lhe uma coisa: no
pretendo morrer de fome numa gua-furtada e ser famosa depois de
morta. Quero gozar um pouco de fama enquanto ainda estou viva,
e levar uma vida financeiramente confortvel. Por isso pintarei para
distrair-me e representarei para viver. Que tal?
- Tens a tua renda de Drogheda, Jussy - disse Meggie, deses-
perada, infringindo o seu juramento de permanecer em silncio acon-
tecesse o que acontecesse. - E com ela nunca chegarias a morrer de
fome numa gua-furtada. Se preferes pintar, pinta. Poders faz-lo tran-
quilamente.
 Justine parecia alerta, interessada.
- Quanto  que eu tenho, me?
- O suficiente para nunca precisares de trabalhat, se no o quise-
res fazer.
- Que aborrecimento! Eu acabaria por falar ao telefone e por
jogar brdege; pelo menos  o que fazem as mes de quase todas
as minhas colegas. Porque eu viveria em Sidnei e no em Drogheda.
Gosto muito mais de Sidnei do que disto. - Um brilho de esperana
surgiu-lhe nos olhos. - Tenho o bastante para mandar tirar as minhas
sardas pelo novo tratamento elctrico?
- Acho que sim. Porqu?
- Porque, assim, a minha cara poder ver-se. S por isso.
- Pensei que a beleza no tivesse importncia para uma actriz.
- Tudo tem limites, me. As minhas sardas so um castigo.
- Tens a certeza de que no preferes ser artista?
- Absoluta, obrigada. - Esboou uns passos de dana. - Vou
pisar o palco, Senhora Worthington!
- Como conseguiste entrar no Culloden?
- Fiz um teste.
- E aceitaram-te?
- A f que a me tem na sua filha  comovente. Est claro que
me aceitaram! Fique sabendo que sou soberba. Um dia ainda serei
muito famosa.
 Meggie despejou um corante verde numa tigela de glnc, misturou
tudo e principiou a deixar cair a mistura sobre os bolos em fotma de
abetos, j  prontos.

471

- A fama  importante para ti, Justine?
- Eu diria que sim. - Ela deitou acar sobre a manteiga, to
mole que se ajustara aos contornos internos da tigeja; embora tives-
sem trocado o fogo de lenha pelo de gs, na cozinha fazia muito calor.
-Estou mesmo decidida a ser famosa.
- No tencionas casar?
 Justine assumiu uma expresso desdenhosa.
-  muito pouco provvel! Passar a vida a lmpar narizes cheios
de ranho e traseiros cheios de merda, e a fazer salamaleques para um
homem muito inferior a mim, embora se julgue melhor do que eu?
Ho, ho, ho, isso  que no!
- Francamente, s o cmulo! Onde arranjaste essa linguagem?
 Justine principiou a quebrar ovos rpida e habilmente numa gtande
tigela s com uma mo.
- No meu distinto colgio de raparigas, naturalmente. - Bateu
os ovos sem misericrdia com um batedor francs. - Na verdade, ra-
mos uma turma muito decente, umas jovens muito cultas. No  qual-
quer grupo de tolas adolescentes que sabe apreciar a delicadeza de um
verso latino :

Existir um romano de Vinidio
Com a camisa feita de iridio;
Perguntado sobre o porgu da veste,
Limitou-se ele a explicar: <<Id est
Bonum sanguinem praesidium.>

 Os lbios de Meggie crisparam-se.
- Quase sinto vergonha pr perguntar, mas que foi que disse
o romano ?
- << uma boa proteco para o sangue.>>
- S isso? Pensei que fosse coisa muito pior. Surpreendes-me.
Mas voltando  vaca fria, minha rica menina, apesar do teu evidente
esforo para mudar de assunto, que h de errado no casamento?
 Justine imitou o riso irnico da av.
- Francamente! E  a me quem me faz essa pergunta?
 Meggie sentiu o sangue latejar-lhe debaixo da pele, e abaixou
os olhos para a bandeja de abetos verdes.
- O facto de teres completado dezassete anos no te d o direito
de seres impertinente.

 72

- No  esquisito? - perguntou Justine  tigela. - No momento
em que nos aventuramos em territrio estritamente parental, tornamo-
-nos mpertinentes. Apenas perguntei: e  a me quem me faz essa per-
gunta? Perfeitamente normal, bolas! No estou a subentendet que  um
fracasso, nem uma pecadora, nem coisa pior. Na realidade, sou de
opinio de que a me demonstrou notvel bom senso, dispensando o seu
marido. Para que precisaria de um? J h toneladas de influncia mas-
eulina para os seus filhos com tanto tio por a, e tem dinheiro suficente
para viver. Concordo consigo! O casamento  para os passarinhos.
- s igualzinha ao teu pai!
- Todas as vezes que a contrario, fico igualzinha ao meu pai.
Be n, terei de confiar na sua palavra, visto que nunca pus os olhos
nesse cavalheiro.
- Quando te vais embora? - perguntou Meggie, desanimada.
 Justine sorriu.
- No admite que se possa ver livre de mim, no ? Est certo,
me, no a censuro. Mas no posso fazer nada, gosto de escandalizar
as pessoas, principalmente a si. Que tal levar-me amanh ao aerdromo?
-  melhor ficar para depois de amanh. Amanh levar-te-ei ao
banco.  melhor que fiques j a saber quanto possuis. E, Justine...
 Justine misturava habilmente farinha com os ovos j batidos, mas
ergueu os olhos ao aperceber-se da mudana de tom na voz da me.
- Sim?
- Se algum dia te vires em dificuldades,  melhor que voltes para
casa. Teremos sempre um quarto para ti em Drogheda. Quero que
te lembres disso. Nada que faas pode set to mau que te impea
de voltares para casa.
 O olhar de Justine adoou-se.
- Obrigada, me. No fundo, afinal, no  uma velha to m
quanto parece!
- Velha? - bradou Meggie, com assombro. - Eu no sou
nenhuma velha ! S tenho quarenta e trs anos !
- Misericrdia, tantos ?
 Meggie atirou um bolinho que acertou no nariz de Justine.
- s um monstro - riu-se. - Agora sinto-me como se tivesse
cem anos.
 A filha sorriu.
 Nesse momento, Fee entrou para averiguar como iam as coisas na
cozinha; Meggie saudou a chegada dela com alvio.

473

- Me, sabe o que Justine acaba de me dizer?
 Os olhos de Fee j no eram capazes de mais nada alm do esforo
extremo de escriturar os livros, mas o esprito, por trs das pupilas
embaciadas, continuava agudo como sempre.
- Como posso saber o que Justine acaba de dizer-te? - indagou,
brandamente, olhando para os bolinhos verdes com um ligeiro estre-
mecimento.
- Porque, s vezes, tenho a impresso de que a me e Jussy
trocam segredinhos que no me revelam, e agora, no momento em
que minha filha acaba de me contar as suas novidades, entra aqui, coisa
que normalmente no faz.
- O gosto deles, pelo menos,  melhor do que a aparncia-
comentou Fee, mordiscando um abetozinho verde. - Asseguro-te,
Meggie, que no animo a tua filha a conspirar comigo  tua revelia.
Que fizeste para a deixares desta maneira, Justine? -perguntou vol-
tando-se para a neta, que deitava a massa em latas untadas de gor-
dura e polvilhadas de farinha.
- Eu disse  me que ia ser actriz, nada mais.
- Nada mais, com certeza? Mas isso  verdade, ou  outra das
tuas piadinhas de mau gosto?
-  verdade. Vou comear no Culloden.
- Muito bem! - disse Fee, encostando-se  mesa e olhando iro-
nicamente para a filha. -  surpreendente como as crianas tm ideias
prprias, no , Meggie?
 Meggie no respondeu.
- A av desaptova? - resmungou Justine, pronta para o combate.
- Eu? Desaprovar? No tenho nada com o que tu fazes da tua
vida, Justine. De mais a mais, acho que dars uma boa actriz.
- A me acha isso? - acudiu Meggie, espantada.
-  claro - disse Fee. - Justine no  das que escolhem mal,
no  verdade filha?
- No.
 Justine sorriu, tirando dos olhos uma madeixa de cabelo. Meggie
surpreendeu-a olhando para a av com uma afeio que nunca sentira
estendida a ela.
- s uma boa rapariga, Justine - disse Fee, e terminou o boli-
nho que comeara a comer com to pouco entusiasmo. - Nada maus,
mas eu preferia que os tivesses coberto de glac branco.
- No se podem cobrir rvores com glac branco - contradisse
Meggie.

-  claro que sim, quando se trata de abetos; o branco pode ser
neve - disse Fee.
- Agora  tarde de mais, eles esto nauseabundamexte verdes-
riu-se Justine.
- Justine!
- Desculpe-me, me, eu no pretendia desagradar-lhe. Esqueo-me
sempre de que tem o estmago fraco.
- Eu no tenho o estmago fraco - retorquiu Meggie, exasperada.
- Eu s vim ver se podia tomar uma chvena de ch - atalhou
Fee, puxando uma cadeira e sentando-se. - S boazinha e pe a cha-
leira ao lume, Justine.
 Meggie sentou-se tambm.
- Acha, na verdade, que isso seria bom para Justine, me?-
perguntou ela, ansiosa.
- E porque no? - respondeu Fee, observando a neta ocupada
com o ritual do ch.
- Pode ser uma fase passageira.
-  uma fase passageira, Justine? - perguntou Fee.
- No - respondeu esta, concisa, colocando chvenas e pires sobre
a velha mesa verde da cozinha.
- Arranja um prato para pr os biscoitos, Justine, no ponhas
a lata na mesa - disse Meggie automaticamente - e, pelo amor de
Deus, no tragas a lata de Ieite para c, despeja um pouco numa leiteira
apropriada.
- Sim, me, desculpe, me - respondia Justine, mecanicamente
tambm. - No vejo o porqu de tantos preconceitos na cozinha.
A nica coisa que eu teria de fazer era repor no lugar o que no foi
comido e lavar mas um par de pratos.
- Faz o que te digo ;  muito mais bonito.
- Voltando ao assunto - prosseguiu Fee -_, no creio que haja
que discutir. Sou de opinio de que se deve deixar Justine experimentar
e ela, provavelmente, sair-se- muito bem.
- Eu gostava de ter a certeza - disse Meggie em tom sombrio.
- Pensas conseguir fama e glria, Justine? - perguntou a av.
- Tudo faz parte do quadro - disse Justine, colocando sobre
a mesa o velho bule e sentando-se depressa. - Agora no reclame, me;
no estou a fazer ch numa chaleira de prata para servir na cozinha.
- O bule est perfeitamente de acordo - disse Meggie, sorrindo.
- Oh, est ptimo! No h nada como uma boa chvena de
ch - suspirou Fee, bebendo aos golinhos. - Justine, porque persistes

474 / 475

em apresentar as coisas  tua me de maneira to desfavorvel? Sabes
bem que a questo no  de fama nem de fortuna.  um questo de
ego, no ?
- Ego, av?
- Naturalmente. Ego. Tu sentes que nasceste para representar,
no  isso?

- Ento, porque no explicaste isso  tua me? Porque a per-
turbaste com uma poro de tolices irreverentes?
 Justine encolheu os ombros, bebeu o ch de uma vez e empur-
rou a chvena vazia na direco da me, pedindo mais.
- No sei - disse. 
- Eu no sei - corrigiu Fee. - Espero que aprendas a falar
melhor no palco. Mas desejas ser actriz por causa do ego, no  ver-
dade?
- Acho que sim - replicou Justine, com relutncia.
- Oh, o teimoso e obstinado orgulho dos Cleary! Ele ainda ser
a tua desgraa, Justine, se no aprenderes a domin-lo. Esse medo est-
pido de ser alvo de chacotas ou de ser ridicularizada, embora eu no
saiba como chegaste  concluso de que a tua me poderia ser to cruel.
-Fee deu umas palmadinhas afectuosas nas costas da mo de Jus-
tine. - Esfora-te um pouco, Justine; coopera.
 Mas Justine abanou a cabea.
- No posso.
 Fee suspirou.
- No sei o que essa vida poder trazer-te, minha filha, mas tens
a minha bno para o teu empreendimento.
- Fico-lhe muito grata, av.
- Ento trata de mostrares a tua gratido de um modo concreto:
descobre onde est o tio Frank e diz-lhe que h ch na cozinha, por
favor.
 Justine saiu e Meggie olhou para Fee.
- A me  assombrosa!
 Fee sorriu.
- Bem, tens de admitir que nunca tentei dizer a nenhum dos
meus filhos o que eles deviam fazer.
- De facto, nunca tentou - concordou Meggie, com ternura.
- E tambm lhe ficmos muito gratos por isso.

476

 A primeira coisa que Justine fez quando chegou a Sidne foi
tnandar tiraz as sardas. Infelizmente no se tratava de um pracesso
r ido; elas eram tantas que a uperao levaria, a roximadamente,
doze meses; al m disso, Justine nunca mais poderia apanhar sal durante
o resto da vida porque, de contrrio, as sardas voltariam. A segunda
coisa que fez foi descobrir um apartamento, o que no era fcil em
Sidnei nessa altura, pois as pessoas construam casas partrculares e consi-
deravam a vida en masse nos prdios de apartamentos como um amtema.
Mas acabou por encontrar um rom duas divises em Neutzal Bay,
numa das imensas e antigas manses vitorianas da raia, que, tendo
conhecido tempos clifceis, haviam sido transformadas em edifcios de
sombrios semiaipartamentos. O luguer, cinco libras e dez xzlins por
semana, era e orb itante se se consderar que a casa de banho e a cozinha
eram comuns a todos os inquilinos. Justine, contudo, sentia-se muito
satisfeita. Conquanto tivesse sido bem preparada para os trabalhos
domsticos, tinha poucos instintos caseiros.
 A vida em Bothwell Gardens fascinava-a muito mais do que a sva
aprendizagem no Culloden, onde a existncia parecia consistir em
meter e atrs dos cenrios ara assistir ao en$aio dos outros, conseguir
um papelzinho de vez em quando e decorar frases e frases de Shakes-
peare, Shaw e Sheridam.
 Incluindo o de Justine, Borhwell Gardens tinha seis a artamentos,
alm do da Sr' Devine, a senhoria. A Sr.a Devine era uma londrina
de sessenta e cinco anos c n um aspecto triste, olhos salientes e um
gran-de desprezo pela Austrlia e pelos Avstralianos, emboza no 2ivesse
escrpulos em roub-los. A sua principal preocupao na vida parecia
ser o eusto do gs e da electricidade, e a sua ,rincipal fraqueza era
o vizinho de a paztamento de Justine, um jovem ingls que e plorava
habilmente a sua nacionalirlade.
- No me inromodo, s vezes, de fazer ccegas  velhinha
enquanto zecordamos o assado - disse ele a Justine. - Isso impede
que ela me d cabo da,pacincia, voc sabe como . As raparigas no
tm licena para ligar calorferos elctricos, nem no Inverno, mas eu
arranjei nm de presente e tenho licena para liglo at no Vero,
se me der na gana.
- Porco - disse Justine sem paixo.
 Ele Chamava-se Peter Q lkins e era caixeiro-viajante.
- Venha ao meu quarto e aferecer-lhe-ei vma boa chvena de Ch
qualquer dia destes - convidou, impressionado pelos olhos plidos, que
o intrigavam.

477

 Justine fo, t,endo tido o cuidado de no escolher uma hora em
que a Sr Devine estivesse  espreita, enciumada, e acabou por habi-
tuaz-se a repelir os avanos de Pete. Os anos que passara a cavalgar
e a tral'>allzar em D rogheda tinham lhe dado uma fora cansidervel,
e ela mo ligava a rertas regras, omo a de na bater abaixo da cintura.
- V ara o inferno, Justine! -arquejou Peter, enxugando as
lgrimas de dar que lhe saltavam das olhos. - Desista! Sabe muito bem
que ter de perder a virgindade um dia! Isto no  a Inglaterra vito-
riana, e ningum espera que a guarde ara o casamento.
- No tenho a menor inteno.de guard la para a casamento-
respondeu ela, compondo o vesMdo. - Acontece apenas que inda no
sei a quem caber essa honra, s isso.
- Como mulher no vale nada! - disse o rapaz brusca e maldosa-
mente; ela magoara-o deveras.
- IVo, no valha. Ora, v bugiar, Pete. Voc no pode ferir-me
com palavras. H muitos homens capazes de carrer arrs de qualquer
uma, desde que seja virgem.
- E mnzitas mulheres tambm. O!bserve a a artamento da frente.
- Eu tenho observado.
 As dvas moas que l moravam eram lsbicas e haviam saudado
com muita alegria a chegada de Justine at compreendetem que ela no
estava interessada e nem, se uer, intrigada. A prinrrpio Justime no
percebera bem o qve estavam las a insinuar, mas, de,pois de porem
as cartas na mesa, encolheu os ombros, sem se deixar impressionar.
Assim, aps nm perado de ajustamento, tarnou-se a caixa de ressonncia
delas, a sua confidente natural, o seu porto de abrigo em tadas as
tempestades: pagou a fiana de Billie para tir-la da eadeia, levau Babbie
para o Hos ital Mater a fim de submet-la a uma lavagem ao estmago,
depois de uma znga particularmente violenta com Billie, e recusou-se
a tomar partido par qualquer uma delas quamdo Pat, Al, Georgie
e Ronnie assomaram alternadamente mo horizonte. Aquela paretia 5er
uma.espcie muito insegura de vida emocional, pensou. Os homens
eram bastante ruins, mas, pelo menos, tinham a vantagem da diferena
intrnseca.
 Assim, com as moas de Culloden e as de Bothwell Gatdens,
alm das ue canhecera em Kincoppal, Justine tinha uma paro de
amigas e era tambm uma boa amiga. Nunca lhes contava todos os seus
segredas, como elas lhe contavam os delas; para issa existia Dane,
embora os poucos prablemas ue admia ter no arecessem oprimi=la.
O que nela mais fascinava as amigas era a sua extraardinria autodisci-
PSSAROSFERIDOS

plina, romo se se houvesse preparado desde a infncia ara no permitir
que as crcunstncias lhe atra alhassem o i>em~estar.
 Contudo, o que mais interessava a todas as pessoas que se diziam
suas amigas era s ber como, qvando e com quem Justine se decidiria
finalmente a realizar-se como mulher. Ela, porm, no tinha pressa.
 Arthur I estrange era o mais antigo intrprete de papis de gal
de Albert Jones, embara se t2vesse despedido melancolicamente do seu
quadrag simo aniversrio no ano anterior  uele em que Justine chegara
ao Culloden. Tinha um bom corpo, era um actor firme e digno de can-
fiana, e o seu rosto viril, cercado de madeixas amarelas, prvocava
infalivelmente os aplausas do rpblico. No rimeiro ano, nem sequer
notou a presena de Justine, que se mantinha muito quietnnha e fazia
exactamente o que lhe mandavam, mas, no fim desse ano, o trata-
mento das sardas terminara, e ela comeau a destacar=se dos cenrios
em vez de se canfundir com eles.
 Tirando as sardas e atrescentando a maquilhagem para lhe acentuar
as sabrancelhas e os cflios, ela era uma anita jovem, de uma beleza
atenuada de elfo. No possua a mstara 2m ressionante de Luke O'Neill,
nem a delicadeza da me. O corpo era sofrvel, sem nada de espec-
tacular, um pouco znagro de mans. S o cabelo intensamente vermelho
sobressaa sempre. No palto, porm, era muito diferente; padia fazer
as essoas 2magin-la e la eomo Helena de Tria ou feia como uma
bruxa.
 Arthur reparou nela pela primeira vez durante um perodo lectivo,
quando lhe pediram que reritasse um trecho de I,ord Jim, de Conzad,
usando vrias inflexes. Justine era realmente extraorrlinria e ele
percebeu a emoo de Albert Jones, compreendendo finalmente por que
razo este lihe dedicava tanto tempo. Mmica nata, mas lnuito mais
do ue isso, Justine valorizava cada palavra que ronunciava. E havia
ainda a voz, dote natural maravilhoso ara qualquer actriz, uma voz
profunda, rauca, penetrante.
 Assim, quando a viu com uma chvena de ch na mo, sentada com
um livro aberto sabre os joelhos, fai sentar-se ao seu lado.
- Que est a ler?
 Ela ergueu os olhos, sarriu.
- Proust.
- No o acha um pouco enfadonho?
- Proust enfadonha? No, a menos que no se goste de m xericas.
Pois  isso que ele , nem mais nem menos. Um velho e terrvel mexeri-
queiro.

478 479

PASSAROS FERIDOS

PASSAROS FERIDOS

- Ele tinha a convico cunstrangedora de que ela o tratava cor
um armnho de surperioridade intelectual, mas iperdoou-lhe. Aquilo nr, A gargalhada que ela soltou gorgolejou atravs do ar fumarento.
 assava de um excesso de juventude. Vrios homens valtaram, curiosos,  acabea.

- Eu ouvi-a a recitar Corand. Esteve muito bem. - P aria? Ser essa uma forma indirecta de perguntar-me se

- Qbrigada. ainda sou virgem, Azthur?
 Ele fez stalar a lngua, exasperado.
- Talvez pudssemos, um dia, tomar caf juntos para discutir . - Justine! Vejo que, entre outras coisas, terei de ensinar lhe
seus planos.
 a bela arte da revaricao.
- Se voc quiser - disse, retornando a Proust. - E re que outras coisas Arthur?
 Ele alegrou-sc ipor haver falado em caf, em lugar de jamtar;
 nt , - Ela encostou as cotovelos
 na mesa e os seus olhos cintilaram no es uro.
a esposa mantinha-o num regime de meia tao, e o jantat exigia um -Qu  que recisa de a render?
grau de gratido que ele no sabia se Justine estava pr parada pra -Tive uma educao quase com leta.
manifestar. Entretanto, deu seguimento ao convite casual e levou-a -Em tnzdo?
a vm lugatmnho escuro, na arte inferior de Elizbeth Street, onde poda - Cus, romo s be dar nfase s alavras! P eciso de no esquecer
ter quase a certeza de que a esposa jamais pensaria em rocur-lo. a maneira como d2sse sso.
 Por uma questo de autad fesa, Justine a rendera a fumar, cansada - E s m coisas q e s podem ser aprendidas atravs da expe-
de armar sem re em santimha, recusando os cigarros que Ihe ofereciam.
Depois de se sentarem, tirou um mao de cigarros, ainda fechado, rina pessoal - clisse Arthur com suavidade, estendendn a mo pata
da bolsa e destacou com cuidado a arte de cima do celofane que
 esconder um an l de cabelo dela atrs da orelha.
envolvia a carteira flip-top, certlficando-se de que a parte maior do -Na verdade, sempre achei essa dbservao adequada.
invlucro continuava entolada na parte maior do mao. Arthur obser- - Pois sim, mas que me diz quando se trata de amor? - Empres-
vava-a, entre divertido e interessado. tou  rpalavra uma profundidade delicada. -Como pode dnterpretar
- Porqve carga de gua tem tanto trabalho? Arranque o cel fane o apel de Julieta sem saber o que  o amor?
todo, Justine. -Um bom argumento. Concordo consigo.
- Que desarrumao! - J esteve a aixonada alguma vez?
 Ele pegou no mao de cigarros e bateu, com expresso rzflexIva, -No.
na mortalha intacta. - Sabe alguma coisa sabre o amor? - Desta feita Arthur deu
- Se eu fosse discpulo do eminente Sigmnnd Freud... nfase  expresso <<alguma coisa > em lugar de acentuar a palavta
- Se fosse Freud, que aconteceria? - Ela ergueu os olhos, <<amor>>.
v iu a emptegada, de p, a seu lado. - Um capuecino, por favor. - Nada de nada.
 Arthur a borreceu-se por ela ter feito o edido, mas deixou assar - Ah! Ento Freud teria razo, hem?
o incidente, mais interessado em desenvolver o pensamento que tinha ustine egou mo mao de cigarros e, sorrindo, ps-se a olhat para
na cab a. o invlucro.
- Um vienense, por favor. Pois bem, voltan.do ao que eu dizia - Nalgumas coisas, talvez.
a res eito de Freud, gostaria muito de saber o que ele pensaria disto. Ele agarrou o fundo do celofane, arrancou-o do mao e segurou-o
Ele diria... na mo. Em segmda, dramatica o zente, amassou-o e deixouo cait no
 ustine tirou o mao da mo dele, abriu-o, tirou um cgarro cinzeiro, onde o papel rangeu e se contorceu, ex pandindo-se.
e acendeu-o, sem lhe dar tempo suficiente para encontraz os fsforos. - Eu gostaria de ensin-la a ser anulher, se pudesse.
- O qu? Por um momento ela no disse nada, absorta nas contot s do
- Ele pensaria que voc gosta de manter intactas as substncia celafane no cinzero, depois acendeu um fsforo e, com todo o cuidado,
membranosas, no  assim? q-ue imou-o.

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481

- Porque no? - perguntou  chama. -  isso mesmo, porque
 io?
- Ser uma coisa divina, de luar e zosas, um cortejaz a paixonado,
ou ser curto e enetrante, como uma se ta? - derlamou ele, com a mo
no corao.
 Justine riu-se.
- Francamente, Arthur! Eu espero que seja lango e enetzante,
mas nada de luar e rosas, or favar. O meu estmago no foi feito
para um cortejar arpaixonado.
 Ele alhou ara ela com alguma tristeza e abanou a cabea.
- Oh, Justine! O estmago de toda a gente  feito ara um
cortejar apaixonado... at o seu, apesr de ser uma vestalzinha insensvel.
Um dia ver. E ansir or ele.
- Ota! - Ela levantou-se. - Vamos, Arthur, vamos arrumar
o assunto antes que eu mude de ideias.
- Agora? Esta noite?
- E porqu no? Ten'ho dinheiro suficiente para pagar o quarto
de hotel se voc estiver liso.
 O Hotel Metrpole no ficava muito longe; caminharam elas ruas
sonalentas com o brao dela enfiado aconchegadamente no dele, rindo-se.
Era tarde de mais ara jantar e cedo de mais para os teatros fecharem
as portas, de modo que havia pouca gente por ali, apenas grupos de
marinheiros norte-americanos, pertencentes a vma es uadra visitante,
e zanchos de raparigas que passavam vendo vitrinas e, de vez em quamdo,
lanavam olhares de esguelha aos marinheiros. Ningum reparou neles,
o que agradou muito a Arthur. Ele entrou numa farmcia, enuanto
Justine esperava na calada, e aiu de l todo contente.
- Agora est tudo pronto, amar.
- Que  que foi comprar? Camisas-de-vnus?
 Ele fez uma careta.
- No. Usar caniisa-de-vnus  como embrulhar-se numa pgina
do Reader's Digest... aderncia condensada. No, arranjei um pouco
de vaselina. A propsito, como sabe da existncia das camisas-de-vnus?
- Dapais de passar sete anos num internato catlico? Que pensa
que fazamos? Rezar? - Ela sorriu. - Reconheo que no fazamos
muita caisa, mas fa lvamos acerca de tudo.
 O Sr. e a Sr  Smith inspeccionaram o seu reino, que no era nada
nau para um quarto de hotel de Sidnei daquela poca. Os dias do Hilton
ainda estavam para vir. Muita grande, tinha vistas saberbas sabre
a ponte do porto de Sidnei. Sem casa de banho naturalmente, mas com

482
PSSAROSFERIDOS

uma bacia e nzm jazzo sobre nma mesinha de tampa de mrmore,
acompanhamento ade uado para as enormes relquas de mablia
vitariana.
- E que fao eu agora? - rperguntau Justine, feohando as corti-
nas. - Bonita vista, no ?
- L. Que  que faz? Tire as cuecas naturalmente.
- S isso? - perguntou, maliciosa.
 Arthur esboou um gesto.
- T2re tudo, Justine!  reciso sentir carne com carne para ser
bom de verdade.
 Ela desfez-se das roupas ra idamente, sem 2imidez, ulyiu ara
a cama e deitou=se com as ernas abertas.
- Assim, Arthnzr?
- Misericrdia! - disse este, dobrando cuidadosamente as calas;
a esposa examinava-as tnpre para ver se estavam amarrotadas.
- O que ? Que aconteceu?
- Voc  mesmo ruiva, no ?
- Que esperava: pernas purpurinas?
- As piadinhas mo ontribuem a a criat a atmosfera apropriada.
Portanto, rpaze com sso. - Ele encol heu a ibrriga, virou-se, encaminhou-
-se omposamente para a cama, subiu e comeou a beijar-lhe o msto,
o pescoo e os seios. - Mmmmmm m, voc  um amot. - Os raos
dele envolveram-na. - Pranto! No  tn?
- Acho que sim. l,  muito bom.
 Seguiu-se o silncio, interrompido apenas pelo som de beijos
e murmrios ocasionais. Havia um imenso e antigo toucador calocado
defronte.dos ps da cama, cujo espelho estava regulado para zeflectir
a arena o amor, naturalmente ahra de algvm ertico ocupante amterior
do quarto.
- Apague a luz, Arthur.
- No, querida! Lio nznero um. Nenhum aspecto do amar
 inconz patv.el com a luz.
 Tendo executado o trabalho reparatrio cam os dedos e depasi-
tado a vaselina onde ela devia car, A7thur conseguiu insinuaz=se entre
as ernas de Justine. Um pouca dolorida mas perfeitamente canfoz-
tvel e, se no esttica, pelo menos maternal, Justine alhou, por cima
do ombro de Arthur, para os s da cama e dali ara o espelho.
 Reflectidas este, as pernas dos dois areoiam esquisitas,
com as dele, recobe tas de plos escuros, ensanduidh as entre as dela,
lisas e sem sardas; entretanto, a arte maiar e mais irmportante da

483

PSSAftOS FERIDOS

imgem refleKtida cansistia no traseiro de Arthur, que,  roporo
que ele manobrava, se es arramava e cantraa, subia e desa, com dois
tufos de plos amarelos como os de Dagwood aparecendo or cima
dos glabos gmeas e acenando alegremente para ela.
 Justine alhou; tornou a alhar. Apertou selvaticamente o punho
de encontzo  baca, gorgalejando e gemendo.
- Pronto, ronto, querida, est tudo bem! Eu j a rompi, de mado
que no pode agora doer muito mais - murmurou ele.
 O peito dela principiou a arfar; Arthur envolveu-lhe o corpo com
os braos, apertando-a com mais fara ainda e murmurando caras
inarticuladas.
 De m pente a cabea dela caiu para trs e a boca abriu-se num
lango e angustiado grito de dor, que se foi transformando aos paucos
em gargalhadas sucessvas, cada qual mais zuidosa. E quanto mais furioso
ele ficava, tanto mais ela se ria, a ontando com o dedo, sem poder falar,
para os s da cama, enqvanto as lgrimas lhe escorriam pelas faces.
Tinha todo o corpo convulsianado, mas no da maneira que o pobre
Arthur prefigurara.

 De muitas maneiras Justine estava mais prxima de Dane do que
Meggie e a ue eles sentiam pela me pertencia  me, o que no
violava os sentimentos recprocos dos irmos nem colidia cam eles.
O ela entre os dais forjara-se muito cedo, e crescera sempre em vez
de diminuir. Quando Meggie conseguira libertar-se do trabalho nos
pastos, eles j eram suficientemente crescidas para estar  mesa da
Sr.a Smith, na cozinha, estudando as suas lies por rorrespondncia;
o hbito de buscarem canforto um no outro fora estabelecido para
sempre.
 Embora possussem ndoles muito diferentes, partilhavam de muitos
gastos e apetites, e os no part2lhados eram toleradas mutuamente com
respeito instintivo, como um tempero neeessrio. Canheciam-se, de facto,
muito bem. A tendncia natural dela era daplorar as falhas humanas
dos'outros e ignorar as suas; a tendncia natural dele era compreender
e perdoar as falhas humanas dos autros e no ter contemplao com
as suas. Justine sentia-se invencivelmente forte; Dane sabia-se perigo-
samente fraco.
 E, de um modo ou de outro, tudo se juntava para uma amizade
quase perfeita, ara a qual nada era imrpossvel. Entretanto, como Justine
fosse muito mis laquaz do que Dane, ele ouNia muito mais as confi-
dncias dela do que ela as dele. Em alguns sentidos, e at certo ponto,

484

Justine era uma imbecil moral, para qem nada havia de sagrado,
e Dane tinha conscincia de que a sua uno consistia em prav-la
dos escrpulos de que ela carecia. Desse modo, aceitava o papel
de ouvinte,passivo com uma ternura e uma compaixo que teriam
agastadn enormemente Justine se esta sus_peitasse delas. Mas nunca
suspeitou; sempre enchera as ouvidos do irmo a respeito de tudo
e de nada desde que ele tivera idade bastante ara prestar-lhe ateno.
- Adivinha o que fiz ontem  noite! - desafiou-o, ajustando
com cuidado o chapelo de palha de modo cjue o rosto e o pescoo
ficassem protegidos do sol.
- Representaste pela primeira vez o papel principal de uma
pea - disse Dane.
- Palerma! Se fosse isso, acre itas que eu o te chamaria para
me veres? Adiwrnha outra vez.
- LevasXe um saco de Bobbie destinado a Billie.
- Frio camo um seio de madrasta.
 Ele encolheu os ombros, enfastiado.
- Falta-me a pista.
 Estavam sentadas na relva, debaixo do vulto gtico da Catedral
de Santa Maria. Dane telefanara a avisar Justine de que chegaria para
assistir a uma cerimnia esperial na catedral e pergunta7a-lhe se no
queria encontrar-se com ele antes disso defronte do templo. Era evidente
que ela queria, pois estava morta por Ihe contar o episdio n ais recente.
 Quase no fim do ltimo ano em Riverview, Dane era c pito da
escola, capito da equipa de crquete, da equipa de rguebi, da equi a
de andebol e da equipa de tnis. E chefe da sua classe, ainda par cima.
Aos dezass te anos, media quase um metro e maventa, possua uma
bela voz de bartono e escapara milagrosamente de aflies como espi-
nhas, falta de jeito e um pomo-de-ado muito saliente. Por ser to louro,
ainda mo cameara a fazer a barba, lnas, em todos os outros sentidos,
o seu aspecto era mais viril do ue juvenil. Somente o uniforme de
Riverview lhe denunciava a idade e a condio.
 O dia estava quente e soalheiro. I ane trrou o chapu que usava
com o un2forme e estendeu-se na relva. Justine sentou-se ao lado dele,
com os raos em torno dos joelhas para se cettificar de que toda
a sua pele nua estava na sombra. Ele abriu um olho azul e rpreguioso
na direr o dela.
- Que fiz ste ontem  noite, Jus?
- Perdi a virgindade. Pelo menas acho que petdi.
 Os dois olhos dele abriram se.

485

- s doida.
- J no fai sem tempo. Como hei,de ser uma boa actriz sem
ter a menor ideia do que arontece entre as homens e as mulheres?
- Devias guardar-te ara o homem com quem va2s casar.
 O zosto dela contorceu-se, exasperado.
- Francamente, Dame, s vezes s to conservador que me deixas
espantada! E se eu s encontrar o homem com quem vau casar depois
dos quarenta? Que esperas que faa? Que fique a aguardar por ele
todos esses anos?  o que tu vais fazer, esperar pelo casamento?
- No creio que me case.
- Nem eu. Nesse caso, porque amarrar uma fita azul em torno
da minha virgindade e enfi-la no meu inexistente ba de noiva?
No quero morrer fazendo conjecturas.
 Ele sorriu.
- Agora j no odes. - Rolando sabre o estmago, apoiou
o queixo na mo e alhou com firmeza para ela, com o rosto indulgente,
preocupado. - Correu tudo bem? Quero dizer, foi horrvel? Detestaste
o que fizeste?
 Os lbios dela crisparam-se, recardando.
- Detestar, no detestei. E tambm no foi horrvel. Por outro
lado, no vejo par que zazo toda a gente fala nisso como se fosse
a melhor coisa do mundo. Recanheo que  agradvel, mas s isso.
E olha que no escalhi qualquer um; e calhi algum muito atraente
e cam idade bastante ara saber o que estava a fazer.
 Ele suspirou.
- s uma tanta, Justine. Eu teria ficado muito mais feliz se te
ouvisse dizer: <<Ele no  menhum Adnis, mas conhecemo-nos e no
pude evit lo.>> Admito que no quisesses es perar at ao casamento,
mas 2sso  uma coisa que se deve querer par causa da pessoa, nunca por
causa do acto, Jus. No me surpreende que te sentisses exttica.
 Todo o jbiloso triunfo desapareceu do rosto dela.
- Ora, bolas! Agora fizeste-me sentir uma prastituta! Se eu no
te conhecesse melhar, diria que estavas a tentar corrom er=me...
ou anular os meus argumentos, elo menos.
- Mas conheces-me, no canh res? Sabes que eu nunca te
corromperia. As vezes, porm, os teus argumentos so egostas
e tolos. - Ele adaptou um tom de voz montono e uniforme. - Eu sou
a voz da tua conscincia, Justlne O'Neill.
- Ora, ora, grande palerma! - Es uecendo-se da sombra,

486

ela deixou se cair na relva ao lado do irmo de modo que ele o
pudesse ver-lhe o rosto. - E sabes porqu, no sabes?
 , ussy - sse ane trlstemente, mas per eu-se o que quer
fosse acrescentar, pois ela valtou a falar, um pouco rudemente.
- Nunca, nunca, nunca amarei ningum! Quando amas s pessoas,
matam-te. Quando precisas das essoas, elas matam-te. Matam,

que

elas
sim, asseguro-te.
 be J 1 'd d

 Sempre magoara Dane sa r que ustine se sentia exc ui a o amor,
e magoava-o ainda 7nais saber=se a causa disso. Uzna razo preponderante
par que a irm fosse to importante para ele era porque o amava
o bastante para no ter ressentimentos, porque nunca o fizera sentir,
nem por um momento, uma diminuio do seu amor atravs do cime
ou de melindres. Dane achava uma crueldade que Justine se tnavesse
na periferia de um crculo cujo centro era ele prprio. Rezara e rezara
para que as eoisas se madifie ssem, mas nunca se modificaram. O que
no lhe diminura a f, a penas lhe mostrara, com nava nfase, que
nalgum lugar, nalguma acasio, teria de agar pela emoo de que era
alvo  custa dela. Justine enfrentava os factos com coragem, conseguira
at conveneer-se de que se achava muito bem na periferia, mas Dane
sentia o seu safrimento. Ele s bia. Havia tanta coisa nela para er amada,
to ouca coisa nele digna de amor! Sem es perana de com reender
de modo diferente, Dane presunaia ter ficado com a parte de leo na
diviso do amor em virtude da sua beleza, da sua natureza mais tratvel,
da sua capacidade de comunicar com a me e com as demais pessoas
de Drogheda. E por ser homem. Muita pouca coisa lhe escapava alm
do que ele sim lesmente mo rpoderia s ber, e tivera as confidncias e a
companhia de Justne camo ningum ainda as tivera. Contu o, a me
era muito mais importante para Justine do que esta mesma queria
admitir.
 <<Mas eu expiarei>>, pensava Dane. <<Tive tudo. De certo modo terei
de restitu-lo de com ens-la disso.>>
De repente, olhando ara o relgio, ps-se de p rapidamente;
 m a irm devia a outrem
por maior que fosse a sua divida para co ,
muito mais do que isso.
- Tenho de ir, Jussy.
- Tu e a tua igreja! Quando crsc,:rs o suficiente para deix-la?
- Espero que unca.
- Quando te verei?
- Como hoje  sexta-feira, amanh, naturalmente, s onze oras,

aqui.

487

- Est certo. Parta-te em.
 Dane j se distanciara alguns metros, cam o chapu de Rivezview
na ca ea, mas voltou-se sorrindo para Justine.
- E deixex eu de faz lo alguma vez?
 Ela sorriu tambm.
-  claro que no. Tu no exstes, eu  que vivo metlda em
apuros. At amanh.
 Havia imensas portas forradas de couro vermelho no interior do
vestbulo da Catedral de Santa Maria; Dane empurrou uma delas e,
abrindo a, esgueirou-se para o interior. Deixara Justlne um ouco antes
do que era estritamente necessrio, mas gostava sempre de entrar na
igreja antes que esta se en hesse e se transformasse num foco mvel
de suspiros, tosses, murmrios. Quando estava s era muito melhor.
Um adre acendia braos de candelbros no altar-mor; um dicono,
sups, com exactido. Cabea inclinada, ajoelhau-,se, fez o sinal a-cruz
ao passar diante do ta bernculo e aconaodou se no anco mais prximo.
 De joelhos, desca sou a cabea sobre as mos dabradas e deixou
que a esp?rito vogasse em liberdade. Em vez de reza7, tornou-se arte
intrnsera da atmosfera, que lhe ureceu densa mas etrea, indizivel-
mente sagrada, convidando  reflexo. Como se ele se tivesse transfor-
mado a chama de ma das quenas lamparinas vermelhas do san-
turio, senupre brux uleando  beira da extino, mas sustentadas por
a guma assncia vital, e rradiando um rilho diminuto mas dutadouro,
para as trevas mais distantes. Quietude, ausncia de formas, es.queci-
mento da sua identidade umana; era isso o que Dane conseguia quando
estava na igreja. Em nen hum otro lu-gar se sentia to bem, to em paz
consigo mesmo, to afastado da dor. Os seus clios aixaram-se, os seus
olhos cerraram,se.
 Da galeria do rgo ve2o um arrastar de ps, um res 8lego prepa-
ratrio, uma ruidosa expulso de ar dos tubos. Era o coro da Escola
Masculna da Catedral de Santa Maria, que chegava um pouco mais
cedo para um ensaio antes do ritual, prestes a comear. Uma simples
bno do meio-dia de sexta-feira, mas, como o oficiante seria um
aznigo e professor de Dane em Riverview, ele quisera estar resente.
 O rgo executou alguns acordes, a uietau-se nutn acompanha-
mento trmulo e, entre cs sombrios arros de pedra, elevau-se a voz
celestial de um menino, fina, alta e suave, to cheia de ureza inocente
que as poucas pessoas que se achavam na grande igzeja vazia feharam
os olhos, saudosas do que nunca mais valtaria a pertenrer lhes.

488

Panis angelicus,
Fit panis hominum,
Dat panis coelicus
Figuris terminum.
O res msrabilis,
Manducat Dominus,
Pauper, pauper,
Servus et humilis.:.

 Po de anjos, o celestial,  coisa maravillzosa. Das pro,fundezas
do abismo gritei para Ti, Senhor; Senhor, ouve a minha voz! Que os
Teus ouvidos se afinem pelos sans da minha splica. To afastes de nim
o Teu olhar, Senhor, no afastes de mim o Teu olhar, pois Tu s meu
Soberano, meu Mestre, meu Deus, e eu sou Teu humilde servo. A Teus
olhos s uma coisa interessa, a bondade. No Te importa que os Teu
ser os sejam bonitos ou feios, s Te 2mporta o corao; em Ti 2udo
se cura, em Ti conheo a az.
 Senhor, isto  solitrio. Rogo-Te que se acabe logo a dor da 4ida.
Eles mo compreendem que eu, to bem datado, encontre tamta dor
no viver, mas Tu compreendes, e o Teu conforto  tudo o que me
sustenta. No importa o que exiges de mim, Senhor, isso set dado,
pois eu amo-Te. E se posso tomar a liberdade de pedir-Te alguma coisa,
 que em Ti tudo o mais se es uea para semrpre...

- Est muito calada, me - disse Dane. - Em que pensa?
Em Drogheda?
- No - retorquiu Meggie, sonalenta. - Penso que estou a ficar
velha. Encontrei meia dzia de fias grisallhos no cabelo e doem-me
os ossos.
- Nunca ficat velha, me - disse ele conforta otamente.
- Eu gostava que isso fosse verdade, amor, mas 2zzfel2zmente no .
J comeo a precisar do oo de gua quente, o ue  sinal guto
de velhice.
 Estavam ambos deitados, ao sol morno do Imverno, sabre toalhas
estendidas no capim de Drogheda, ao  do oo. Na extremidade
mais distante do grande poo a gua a ferver troava e respingava,
o cheiro forte do enxofre pairava e flutuava no ar. Um dos grandes
prazeres do Inverno era nadar no poo. Mitigavam-se todas as dores
e sofrimentos da velhice que avanava, pensou Meggie, e virou-se para
se deitar de castas, com a cabea  sombra do tranco onde ela e o

489

PSSAROS FEftIDOS

padre Ralph se tinham sentado hvia tanto tempo. Havia muitssimo
tempo; ela era at incapaz de evocar um eco tnue do que devia ter
sentido uando Ralph a beijara.
 Depois, ouviu Dane levantar-se e aibriu os olhos. Ele fora sempre
o seu eb, o seu lindo menino; embora o tivesse visto mudar e crescer
com orguilho de proprietria, sobrepusera a imagem do beb risonho
ao zosto que amadurecia. Ainda no lhe acorrera que, na realidade,
ele j no era uma criana.
 Entretanto, o momento de compreenso chegou para Meggie
naquele instante, quando o viu de , recortado no cu frio com o seu
ligeiro fato de banho de algodo.
 Meu Deus, est tudo acabado! A infncia, a meninice. Ele  um
homem. Orgulho, ressentimento, utna profunda ternura feminina,
uma horrvel conscincia de tragwdia iminente, raiva, adorao, tristeza;
tudo isso e muito mais sentiu Meggie ao olllar para o filho. uma
coisa terrivel criat um hamem, e mais terrvel criar um homem
como este, to sunpreendentemente masculino, to surpreendentemente
helo.
 Ralph de Bricassart acrescido dela mesma. Como poderia deixar
de comover-se vendo na sua extrema juventude o corpo do homem
que a ela se juntara no amor? Feehau os olhos, enleada, detestando ter
de pensar no filho como num homem. Quando Dane a mirava, veria
na me uma mulher, ou ela seria ainda para ele um maravilhoso no ser?
- Sabes alguma coisa a respeito de mulheres, Dane? - perguntou
Meggie de repente, abrindo os olhos outra vez.
 Ele sorriu.
- A me refere-se aos pssaros e s abelhas?
- Tendo Justine por irm, no poderias deixar de sab=lo. Quando
descobriu o que havia entre as capas dos compndios de fisiologia,
ela contou tudo, de repente, a toda a gente. No, estou a perguntar-te
se j puseste em prtica algum tratado clinico de Justine?
 A cabea de Dane moveu-se num tpido aceno negativo. Ele deitou-
-se no eho, ao lado dela, e fitou as olhos nzo rosto materno.
- Foi engraado ter-me perguntado isso, me. H muito tempo
que queria falat-lhe a esse respeito, mas no sabia como comear.
- S tens dezoito anos, a nor. No ser um pouco cedo para
pr em prtica a teoria?
 S dezoito. S. Ele era um homem, no era?
-  isso,  sobre isso que eu queria falar consigo. Sabre no pr
em prtica a teoria. N nca.

490

PSSAftOS FEftIDOS

 C ;omo era frio o vento que soprava do grande divisor de guas !
O curioso  que s agora ela dava por isso. Onde estava o seu zou po?

- Sabre no pr em rtica a teoria. Nunca - repetiu, em tom
montono, mas no em tom de ipergunta.
-  isso mesmo. No qvero. Nunca. Mas no pense que no
pensei nisso, que no desejei uma esposa e filhos. Pensei e desejei,
mas no posso, porque no h lgar suficiente para am-los e amar
a Deus igualmente, pelo menos como desejo amar a Deus. H muito
tempo que o sei. No nze lembro de instante algum em que o no
soubesse e, quanto mais velho fico, mais cresce o meu amor por Deus.
 um grande naistrio, amar a Deus.
 Meggie continuava a olhar ara os calmos e distantes olhos azuis.
Os brilhantes olhos de Ralph, no entanto, com alguma coisa muito dife-
rente do que havia nos olhos de Ralph. Tivera-a este aos dezoito anos?
Seria, acaso, alguxna coisa clue s se tem aas dezoito anos? Quando
Meggie entrara na vida de Ralph, ele j tinha vinte e oito. Entretanto
soubera sempre que o filho :era um mstico, e no acreditava que Ralph
tivesse tido,pendores msticos em erodo algum de sua vida. Engaliu
em seco e apertou ainda mais o roupo em torno dos seus assos soli-
trios.
- Por isso perguntei a mim mesmo - prosseguiu Dane - que
podia eu fazer para Lhe mostrar quanto O amava. Lutei contra a resposta
 por mnito tempo, no querendo conhec-la. Eu tambm desejava ser
como qualquer rhomem, desejava tnuito. No entanto, sabia qual teria
de ser o oferecimento... S h uma caisa que Lhe osso oferecer,
para Lhe mostrar que nada mais existr na meu cora acima Dele:
o seu nico rival;  esse o sacri cio que EIe quer de mim. Sou o Seu
servo, e Ele no ter rivais. Tive de escolher. Ele deixar-me- ter e gozar
todas as coisas, menas essa. - Suspirou e arrancou do ctho uma haste
de capim de Drogheda. - Preciso de mostrar-Lhe que compreendo
por que razo Ele me deu tanto quamdo nas. Preciso de tnostrar-Lhe
que compreendo como  pouco importante a minha vida como homem.
- No podes fazer isso, no te deixarei! - gritou Meggie esten-
dendo a mo para lhe pegar no brao. Como era macio, a pesar da suges-
to de ora debaixo da pele, exactamente como o de Ralph. No haveria
ento ra ariga alguma, bonita e meiga, que nivesse o direito de pr
a mo ali?
- Serei adre - disse Dane. - Entrarei paza o Seu servio,
oferecendo-Lhe, como Seu padre, tudo o que tenho e tudo o que sou.

491

PSSAROS FEftIDOS

Pobreza, castidade e abedincia. Ele s exige tudo dos Seus servos
escalhidos. No ser ftil, mas hei-de faz-lo.
 O olhar que havia nos olhos de Meggie! Cumo se Dane a tivesse
matado, como se a tivesse reduzido a p d baixo do p. Ele no soubera
que teria de sofrer isso tambm, pois s pensara no orglho que lhe
daria, no prazer que ela sentiria de oferecer o fil'ho a Deus. Tinham-lhe
dito que a me concordaria, emocianada e enlevada. Ao invs disso,
cravara os alhos nele como se a perspectiva do sacerdci do fi!lho fosse
a sua sentena de marte.
-  tudo o que eu sempre quis ser - insistiu com desespero,
er rentando o olhar moribundo. - Oh,  me no comreende?
Nunca desejei ser utra coisa alm de padre. No,posso ser outra coisa
seno padre!
 A mo dela largou-lhe a brao; baixando os olhos, Dane viu as
pequenas marcas brantas no stio onde as unhas de Meggie Ihe tinham
 penetrado fundo na pele do brao. Ento, ela ergueu a cabea e saltou
uma sucesso de imensas e histricas gargalhadas escarn:nhas.

- l bam de mais para ser verdade! - ofegou, quando recuperou
o uso da voz, enxuganda com mo trmula as lgrimas que lhe perma-
neciam nas cantos dos olhos. - A incrvel ironia! Rosa-cinza, d2sse Ralph
naqu la noite, cavalgando na direco do poo. E eu no com reendi
o que e1e quis di2er. s cinza, e cinza voltars a ser. Pertences  Igreja,
 Igreja sers dado. Oh,  'belo, belo! I us, o ridculo Deus, digo eu!
Deus, o sodomita! O maior inimigo das mulheres, eis o qve Ele !
Tudo o que procuramos fazer, Ele tenta desfazer!
- No fale ass2m, no fale assim, me! No, me! -- Dane chorava
pat ela, pela sua dor, sem com reender essa dar nem aquelas palavras.
As lgrimas caam lhe do retotrido carao; o sacrifcio j comeara,
A  >m modo ue no imaginata, mas se bem.que chorasse por ela,
 em ssIm poderia prescindir do sacrifcio. A aferta recisava de ser
feita e, quanto mais difcil, tanto mais valiosa aos Seus olhos.
 Ela fizera-o chorar, e isso jamais acontecera at aquele mamento.
Meggie ps resalutamente de lado a 7aiva e a dor. No, no seria justo
 uni lo por isso. O que ele era devia-o aos s us enes, ou ao seu Deus
au ao Deus de Ralph. Luz da sua vida, seu filho, ele nunca deveria
safrer por causa d la.
- No chores, Dane - murmurou, passando a mo pelas mar-
cas do brao dele. - Sinto muito. Eu r o estava a falar a srio.
Deste-me um choque, foi isso.  claro que me alegro por ti! Cama no

492

me alegraria? Mas fiquei chocada; a natcia foi muito inesperada,
 s. - Ela riu-se com a boca fechada, um tanto trmula. - Deixaste
que a notcia casse sabre mim como uma pedra.
 Os alhos dele aclararam se, fitaram-se nela com uma expresso
de dvida. Porque Zmaginara que a matava? Aqueles eram os olhos
da sua me como sempre os conhecera; cheios de amor, cheios de vida.
Os braos jovens e fortes puxaram-na para junto de si, abraaram-na.
- Est bem certa de que no tem pena?
- Ora essa! Uma boa me catlica lamentar-se porque o filho
vai ser padre? Impossvel! - Ela ps se de p num salto. - Brr!
Como esfriou! Vamos embara.
 Eles no tinham vindo a cavalo, mas num Land-Rover. Dane
instalou-se atrs do volante e a me sentou-se ao seu lado.

- J sabes para onde vais? - perguntou Meggie, engolindo um
soluo e em urrando a mecha de cabelo que lhe cara sobre os alhos.
- Irei para o Calgio de So Patrcio, pelo menas at me apnxmar.
D pois,  possvel que entre para uma ordem. Eu gostaria de ser jesuta,
mas a2nda no estou ufientemente cer o dissa para ingressat directa-
mente na Sociedade de Jesus.
 Meggie alhou para o capim acastan ado que se agitava para cima
e para baixo atravs do ra brisas coalhado de insectas.
- Tenho uma xdeia melhor, Dane.
- Sim?
 Ele pre eisava de concentrar-se na conduo do automvel; o cami-
nho ia-se estreitando e avia sempre troncos de rvores cados de travs.
- Mandar-te i ara Roma, para o cardeal de Bricassart. Lembras-
-te dele, no te lembras?
- Se me lembro dele? Que pergunta, me! Eu na o esqueceria
nem daqui a um milho de anos.  o meu exemplo do.padre perfeito.
Se eu udesse eer o padre que ele , sentir-me-ia muita feliz.
- A perfeio  o que a perfeio faz! - disse Meggie com
azedume. -Mas eu encarreg lo i de tomar canta de ti, o-rque sei
que ele o far. Par mim. Poders entrar num seminrio em Roma.
- Est a falar a srio, me? Mesmo a srio? - A ans2edade
titava a alegria do rosto dele. - Haver dinheiro suficiente? Seria muto
mais barato se eu ficasse na Austrlia.
- Graas ao mesmssimo catdearl de Bricassart, meu querido,
nuztca te faltar dinheiro.
 A,parta da cozinha ela empurrau-o para dentro.

493

- Vai contar s ra parigas e  Senhora Smith - disse Meggie.
-Vo ficar emocionadssimas.
 Um aps outro, ela s os ps no cho e obrigou-os a subir
a rampa que conduzia  casa gtande,  sala de estar onde Fee, sentada,
conversava com Anne Mueller ao lado de uma bandeja de ch, o que
no deixava de ser um milagre, visto que, ,regra geral, passava o dia
a trabalhar. Quando Meggie entrou, as duas ergueram os olhos e viram-
-lhe no rosto que alguma coisa sria tinha acontecido.
 Havia dezoito anos que os Mueller visitavam Drogheda, esperando
que tudo corresse sempre assim, mas Luddie Mueller morrera de repente
no Outono anterior, e Meggie esoreveta em segizida a Anne perguntando-
=lhe se no gostaria de viver permanentemente em Drogheda. L havia
e pao em quantidade e uma vivenda para h pedes onde ela poderia
marar, se o quisesse, o maior isalmento; e ipoderia tam n agar
uma penso, se a isso a abrigasse o orgulho, em bora os Cleazy tivessem
dinheira suficiente ara manter um milhar de hspedes rmanentes.
Meggie viu n sso a oportunidade de retribuir o que recebera dos Mueller
naqueles solitrios anos de Queensland, e Anne viu nisso a salvao.
Himmelhoch sem Luddie era horrivelmente solitria. Assim, deixara um
administradot a tomar conta da propriedade, pois mo queria vend-la
( quando morresse, Hiznznelhoch seria de Justine ) e instalara-se em
Drogheda.
- Que foi, Meggie? - erguntou Anne.
 Meggie sentou-se.
- Creio que fui atingida por um raio de justia distributiva.
- Como?
- Vocs as duas tinham zazo. Disseram que eu o erderia.
No acreditei, pensei realmente que conseguiria derrotar Deus, rnas
nunca houve mulher ailguma capaz de O derrotar, Ele  Homem.
 Fee serviu~lihe uma xcara de ch.
- Olha, bebe isto - disse, como se o ch tivesse os poderes
restauradares do conhaque. -Como foi que o erdeste?
- Ele vai ser padre.
 E comeou a rir e a chorar eo mesmo tempo.
 Anne apanhou as bengalas, arrastou-se, manquejando, at onde
estava Meggie e sentou-se desajeitada no brao da poltroma, acariciando-
~lhe o cabelo de ouro vermelho.
- Oh, minha querida! Mas isso no  assim to mau!
- Sabe quem  o pai de Dane? - perguntou Fee a Anne.
- Eu sempre o sombe - respondeu esta ltima.

 Meggie controlou-se.
- No  ass2m to mau? Mas no vem que e se  o comeo
do fim, a retaliao? Roubei Ralph a Deus, e agora estou a pagar
cam o meu filho. A me disse-me que isso era um roubo, lembra=se?
Eu no quis acreditar, mas estava certa, como sempre.
- Ele vai para So Patrcio? - perguntou Fee em tom prtico.
 Meggie riu-se quase normalmente.
- No  essa espcie de retaliao, me. Vou mand lo para Ral h,
naturalmente. Metade dele  Ralph; deixemos Ralph desfrut lo,
afinal. - Estremeceu. - Dane  mais imrportante do que Ra ph, e eu
sabia que ele gostaria de ir para Roma.

- Chegou a dizer a Ralph que Dane  seu filho? - perguntou
Anne, ois a uele era um assunto que nunca se discutia.
- No, e jamais o direi. Jamais!
- So to parecidos que ele  ca az de adivinhar.

- Quem? Ralph? Nunca! Isso, ao menos, eu pretendo guardar.
Vou mandar o meu filho, s isso. No vou mandar-lhe o filho dele.

- Cuidado com o cime dos deuses, Megge - disse Anne suave-
mente. - Eles talvez ainda no tenham dito a vltima alavra.
- E que mais podero fazer-me? - !perguntou Meggie, charosa.
 Qnando Justine soube da novidade, icou uriosa, canquanto no ;
ltimos trs ou cjuatro anos tvesse uma furtiva desconfiana do qu
ia acontecer. Sobre Meggie a notcia estourou como o ribom'bo de um
trovo, mas sobre Justine caiu como um duche de gua gelada.
 Primeiro que tudo, porque Justine frequentara a escola de Sidnei
com ele e, como sua confidente, ouvira-o falat em coisas que no
 dizia  me. Justine sabia que a religio tinha uma importncia vital
 para Dane, no somente Deus, mas a mstica significao dos rituais
 catlitos. Se ele tivesse nascido e crescido protestante, pensou ela,
 acabaria por voltar-se para o catolicismo a fim de satisfazer as neces-
sidades da sua alma. Dane no quer:a saber de um Deus austero e calvi-
nista. O seu Deus era pintado em vidros coloridos, cercado de incenso,
envolv ido em bordados de renda e ouro, exalado em formosos hinos
e adarado em belas cadncias latinas.
 Era tambm uma irnica perversidade que algum to bem dotado
de beleza considerasse esse atributo um aleijo e lhe deplorasse a exis-
tncia. De facto, Dane no fazia outra coisa e retraa-se diante de
qualquer aluso  sua aparncia. Justine imaginava que ele tetia
preferido nascer feio, totalmente destitudo de qualquer atraco.
Compreendia, em parte, que se sentisse assim e, porque a sua prpria

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carreira se con undia com uma prafisso notoriamente arcisista, talvez
lhe aprovasse a atitude para com a sua aparncia. O que no conseguia
compreender era que Dane, em vez de apenas ignorar a sua beleza,
a abomlnasse.
 Taznbm no era muito voltado para as coisas do sexo, embora
ela desconhecesse a razo dissa: ou porque tivesse aprendido a sublimar
as suas aixes, ou parque, a despeito dos seus dotes conporais, escas-
s asse n le a indispensvel essncia cerebral. Talvez fosse mais vlida
a imeira hiptese, visto ue praticava todos os dias desporto a fim
de poder ir exausto para a cama. Justine sabia muito bem que as suas
indinaes eram <<normais>>, isto , heterossexuais, e conhecia o tipo
de garota que o atraa - alta, morena, voluptuosa. Mas Dane, sen-
sualmente, no dava ateno a isso; no reparava na sensao que lhe
 roparcionavam as coisas quando lhes pegava, no sentia os cheiros
 o ar que o rodeava, nem compreendia a satisfao especial produzida
pela forma e pela cor. Para que experimentass uma influncia sexual,
era mister que o impacte do abjerto provocador fosse irresistvel, e s
nesses zaros momentos parecia dar-se conta da existncia de um hemis-
frio terrestre palmilhado e escolhido pela maioria dos homens, durante
o maior espao possvel de tempo.
 Dane contou a boa nova a Justine mos bastidares do Culloden,
depois de um espertculo. Tudo fora combinado com Roma naquele
dia e estava morto por confidenci lo  irm, embora soubesse que ela
no gostaria. Nnca discutira com Ju tine as suas ambies religiosas,
por mais que desejasse faz-lo, pois ela zangava-se, mas quando, naquela
noite, chegou aos bastidores do teatro oi=lhe inuito difcil reprnmir
a alegria por mais tempo.
- s um palerma - disse Justine, enfadada.
-  o que mais desejo.
- Idiota.
- O facto de me insultares, Justine, no modifica nada.
- Pensas que no sei? Acontece que os insultos me proporcio-
nam um pequeno escape emocional de que estou muito pterisada neste
momento.
- Eu supunha que encontrasses ocasies suficientes de esca e no
 alco, representando Electra. s mesmo oa, Jus.
- Depois desta notcia serei ainda melhor - disse, sombria.
-Vais para So Patrcio?
- No, vou g>ara Roma, para junto do cardeal de Brirassart. A me
arranjou tudo.

496

PSSAftOS FERIDOS

- Dane, no!  to longe!
- E porque no vais tam'bm, ao menos at  Inglaterra? Com
os teus estudos e a tua capacidade no te ser.difcil arranjar colocao.
 Sentada diante do espelho, Justine tirava do rosto as tintas de
Electra, vestindo ainda as roupas de Eleetra; orlados de pesados ara-
bescos,pretos, os seus olhos estranhos pareciam mais estranhos ainda.
Fez um aceno afirmativo com a cabea.
- Realmente, poderia ir, no ? - perguntou em tom reflexivo.
- J est na altura de sair daqui... A Austrlia est a fica7 peqvena
de mais... Tens razo, com anheiro! Estou de acordo!  para a Ingla-
terra que eu vou!
- Soberbo! Pensa um pouco! Terei frias, ois tmo-las sem re
num seminrio,  como se fosse uma universidade. Podemos arranjat
maneira de gozar as nossas frias ao znesmo tempo, viajar um pouco
pela Eurapa, voltar para Drogheda. Oh, Jus, j tenho tudo pensado
e repensado! Se no ficares muito longe de mim, ser perfeito.
 Ela sarriu, feliz.
- l naesmo assim, no ? A vida nunca mais seria igual se eu
no udesse falar conMgo.
- Era isso mesmo que eu receava que dissesses. - Dane sorriu.
- Mas falando a srio, Jus, tu preocupas-me. Eu preferitia que ficasses
onde eu te pudesse ver de quando em quando. De outro modo, quem
ser a voz da tua conscincia?
 Ele deslizou entre o elmo de um hoplita e a mscara apavoramte
de uma pitonista e foi sentar-se no cho, donde pudesse v-la, enro-
lando-se para formar uma bola, fora do caminho de todos os ps.
Havia a enas dois camarins para os artistas no Culladen e, como Jus-
tine ainda no fizesse jus a nenhum deles, vestia-se na sala colectiva,
entre o perpassar incessante.
- Aquele velho e maldito cardeal de Bricassart! - disse com
raiva. - Odiei-o desde o primeiro momento em que o vi.
 Dane sorriu, divertido, com a i>oca fechada.
- No o odiaste e sabes bem disso.
- Odiei, sim ! Odiei !
- No odiaste. A tia Anne, alis, contou-me uma histria, no
Natal, que eu aposto que no conheces.
- Que  que eu no conheo? - erguntou Justine, na defensiva.
- Quando eras um ebezinho le deu-te o l,ibero, fez-te arrotar
e embalou-te at dormires. Segundo a tia Anne, eras um beb horrivel,

497

PASSAROSFERIDOS

cheio de manhas, no gostavas de colo, mas, quando ele te pegava,
ficavas toda contente.
- Isso  mentira!
- No . - Dane sorriu. - De qualquer maneira, porque o odeias
tanto agora?
- No sei. S sei que o odeio. Ele parece-me um velho abutre
descarnado, que me deixa arrepiada.
- Pois eu gosto dele. Sempre gostei. O padre perfeito,  a sim
que o padre Watty Ihe chama. E eu tambm o considero perfeito.
- Pois eu quezo que ele se foda, a  que est!
- Justine!
- Desta vez escandalizei-te, no foi? Arposto que nem pensavas
que eu conhecesse essa alavra.
 Os olhos dele damaram.
- Sabes o que ela significa? Diz-me, Jwssy! Desafio-te a diz=lo!
 Justine jamais conseguia resistir-lhe quando Dane a arreliava;
os seus olhos principiaram a brilhar.
- Poders vir a ser um adre, meu palerma, mas se ainda no
sabes o que isso quer dizer,  melhor no investigares.
 Ele ficou srio.
- No te preocupes, no investgarei.
 Um par muito bem torneado de pernas femininas parou ao lado
de Dane, e girou sobre si mesmo. Ele ergueu a vista, ficou vermelho,
afastou os olhos e disse, com voz casual:
- Ol, Martha.
- Ol, Dane.
 Era uma jovem extremamente bonita, talvez no muito talentosa,
mas to decorativa que constitua um trunfo para qualquer produo;
alm disso, correspondia exactamente ao ideal de beleza feminina de
Dane, cujos comentrias laudatrios a respeito dela Justine j ouvira
mais de ma vez. Alta, cabelo e olhos muito escuros, ele clara, seios
mgnficos, era o que as rev istas de cinema qualificavam sempre de
<< sexsacional>>.
 Empoleirada no canto da mesa de Justine, ela comeou a balanar
a perna ravocadoramente diante do nariz de Dane, enquanto o obser-
vava com no disfara o interesse, que ele evdentemente achava des-
concertante. Cu s!, que belssimo edao de mau caminho! Como
pudera uma zapariga feia e sem graa como Justine arranjat um irmo
como aquele? Mal completara dezoito anos e ainda cheirava a cueiros,
mas que importncia tinha isso?

498

- Tive uma ideia: vamos tomar caf no meu apartamento?-
- perguntou, olhando ara Dane. - Vocs os dois? - acrescentn
relutante.
 Justine abanou a cabea resolutamente, enquanto os seus ollhos
se acendiam por efeito de um sbito pensamento.
- No, obrigada, no passo. Ters de contentar-te cozn Dane.
 Ele abanou a cabea com a mesma convico, embara um 2anto
pesaroso, pois sentia-se 7ealmente tentado.
- De qualquer modo muito obrigada, Mrtha, 2nas no osso.-
Qlhou ara o relgio como se rocurasse vm slvador. - Misericrdia!
S me resta um metro no meu parqumetro. Ainda te demoras, Jus?
- Uns dez m2nutos.
- Vou esperar-te l fora. Est bem?
- Poltro! - troou Justine.
 Qs olhos escuros de Martha seguram-no.
- Ele  maravilhoso. Porque no olha para mim?
 Justine sorriu com azedume, e comeou a esfregar o rosto para
acabar de limp-lo. As sardas estavam a voltar. Londres talvez ajudasse;
l no havia sol.
- lVo te iludas, ele olha. E garanto que gostaria tamb.m. Mas
no quer.
- Porqu? Que tem ele? No me digas que  maricas! Merda,
 orque ser que todos os homens bonitos ue conheo so maricas?
Mas olha, confesso que nunca pensei que Dane tambm fosse; juro que
no me d essa impresso.
- V como falas, palerma! He certamente no  naaricas. Alis,
no dia em que ele alhar ara Sweet illiam, o nosso conquistador de
garotos, eu esganarei as dois.
- Bem, se ele no  maricas e gosta de mulheres porque no
aproveita o ue lhe uferecem? No zecebeu a minha mensagem? Jl-
ga-me velha de mais ara ele?
- Mesmo que tenhas cem anos, minha querida, no sers dema-
siado velha para homem algum, odes ficar tranquila. Acontece que
Dane jurou renunciar ao sexo para o resto da vida, o tonto. Quer
ser gadre.
 Marbha abriu a I>oca opulenta e atirou para trs o cbelo greto.
- No me digas!
-  verdade.
- Quer dizer que 2udo aqu o ser atirado s baratas?
- Receio que sim. Ele pretende aferecer-se a Deus.

499

- Nesse caso Deus  mais maricas do que o Sweet Wildiam.
- Pode ser que tenhas tazo - disse Justine. - O certo  que
ele no  muito amigo das mulheres. Ns pertencemos  segunda classe,
l em cizna, ao galinheiro. A plateia e os balces so estritamente
masculinos.
- Oh!
 Justine desenvencil hou-se do manto de Eleetra, enfiou um f2no
vestido de algodo pela cabea, lembrou-se de que estava fro l fara,
vestiu uma blusa de ma ga coz pridas e ateu meigamente na cabea
de Martha.
- No te aflijas com isso, querida. Deus foi muito bom para ti,
no te deu um ingo de crebro. Acredita em mim,  muito mais
cmodo; assim, nunca fars con arrna aos Senhores da Criao.
- No sei, no me importaria de discutir com Deus a >osse do
teu irmo.
- Esquece isso. Ests a combater o Establishement, e isso no
se faz. Dou e a minha palavra de que ser muito mais fcil seduzir
Sweet liam.

 Um autamvel do Vaticano foi esperar Dane ao aeraporto, trans-
portando rapidamente atravs das ruas soalheiras e cheias de gente
bonita e sorridente; ele colou o nariz  janela e ebeu de tudo aquilo,
grandemente excitado ao ver pessaalxnente o que at ento s vira em
fotografias - a colunas romanas, os palcios rocacs, a glria renas-
centista de So Pedro.
 E  sua espera, vestido desta vez de escarlate dos ps  cabea,
estava Ralph Raoul, cardeal de Bricassart. Na mo estendida, o anel
rutilava; Dane dabrou os dois joelhos para beij-lo.
- I vanta-te, Dane, deixa-me alhar para ti.
 Dane ficou de p, sorrindo para o homem alto que eta quase
exactamente da sua a ltura:,podiam fitar-se mos olhos. Para Dane, o car-
deal possua uma imensa aura de fora espiritul, que Ihe lembrava
mais um apa do que uzn santo, posto que aqueles olhos intensamente
tristes no fossem os de um papa. Quanto no devia ter sofrido para
assumir este aspecto, mas quo nabremente se elevava acima do pr-
prio safrimento para tornar se o adre perfeitssimo.
 E o cardeal Ral,ph alhava ara o filho que no sabia ser seu e que
amava, supunha-o, por ser filho da sua querida Meggie. Era exactamente
assim que teria desejado ver um filho do rprio mrpo; igualmente
alto, igualmente belo, igualznente gracioso. Nunca, em toda a sua vida,

500

PSSAftOS FERIDOS

vira um homem maver-se to bem. Muito mais sati sfatria, porm, do
que qualquer beleza fsica era a sing la beleza da sua alma, que possua
a fora dos anjos e algo da sua extraterrenalidade. Teriam sido assim
os seus dezoito anos? Tentou recordar, rera itular os eventos aeumu-
lados de trs quintos de uma existncia; no, nunca fara assim. Porqu?
Porque Dane estava ali por s a livre vontade? Ele tivera a vocao,
mas nunca pudeza escolher.
- Senta-te, Dane. Fizeste o que te pedi, j comeaste a aprender
italiano?
- J. At falo om fluncia, embora sem idiotismos, e leio razoa-
velmente bem.  possvel que o facto de ser o meu quarto idioma
o facilite. Parece que tenho jeito para lnguas. Mais duas semanas que
eu passe aqui e falarei como um verdad iro ita;liano.
- Falars, im, no tenhas droidas. Eu tambm tenho jeito para
linguas:
- Elas so fceis - disse Dane, em tom no muito convincente.
A figura escarlate, que lhe inspirava respeito e teverncia, era um tanto
desalentadora; tornou-se lhe, de repente, difcil relembrar o hamem que
montava o cavalo castanho em Dragheda.
 O cardeal Ral h inclinou-se para a frente, abservando-o.
 <<Transfiro-te a responsabilidade dele, Ralph>>, dizia a carta de
Meggie. <<Enrarrego-te do seu bem star, da sua felicidade. Estou
a devolver o que roube i. o que se exige de mim. Garante-me apenas
duas coisas e descansarei sabendo ue agiste de acordo com os interes-
ses dele. Em rimeiro lugar, promete-me, antes de aceit-lo, certrfica-
res-te de que  isso o que ele realmente deseja. Em eegundo lugar,
em caso afirmativo, mantm vigilncia sobre ele, at ficares seguro
de que isso continna a ser o que ele quer. Se Dane vier a perder
o interesse, quero-o de volta, pais foi a.mim que ele pertenceu rimeiro.
Sou eu quem to dou.>>
- Tens a certeza, Dane? - erguntou o ca rdeal.
- Absoluta.
- Porqu?
 Os seus alhos estavam curiasamente distantes, eram incomoda-
mente familiares, mas fami ares de um mado que pertenria ao passado.
- Por ausa do amor que tenho a Nosso Senhor. C uero scrvi-l'O
como Seu padre todos os meus dias.
- Sabes o que o Seu servia impe, Dane?

501

- Que nenhum outro mor dever jamais antepor se entre tu
e Ele? Que sers exclusivamente Seu e abandonazs tudo o mais?
- Sei.
- Que a Sua vontade ser eita em todas as caisas, que ao Seu
servio sepultars a 2ua personalidade, a tua individualidade, o conceito
da tua prpria m ortncia?
- Sei.
- Que, se far necessrio, ters de en rentar a morte, a priso,
a fome, em Seu nome? Que no possuirs nada, nem dars valor a nada
capaz de diminuir o amor que Lhe cansagras?

- Sei.
- s forte, Dame?
- Sou um homem, Eminn ia. Sou rimeiro nm homem. Sei que
ser difcil, mas rezo ara conseguir, com a Sua ajuda, encontrar
a fora.
- Ter de ser isso mesmo, Dane? Nada menos do que isso poder
contentar-te?
- Nada.
- E se, mas tarde, vieres a mudar de ideias, que fars?
- Pedirei ara sair - di se Dane, surpreso. - Se eu mudar de
ideias ser porque me enganei na vocao, e no por outra razo qual-
quer. Portanto, pedirei para sair. No O amarei menos, mas saberei
que mo  desse modo que Ele quer que eu O sirva.
- Mas d pais de teres feito os vatos finais e de te teres orde-
nado, sabes que no poders voltar a trs, que no haver dispensa,
nem possibilidade alguma de libertao?
- Sei - valtou Dane, paciente. - Mas se eu for obrigado e tomar
uma deciso, -lo-ei antes disso.
 O candeal Ralph inclinou-se ara trs aza paltrona e suspirou. Esti-
vera ele algum dia to seguro? Fara alguma vez to forte?
- Porque :me procuraste, Dane? Porque quiseste vir para Roma?
Porque no f2caste na Austrlia?
- A me sugeriu Roma, mas eu j tinha essa ideia na cabea,
camo um sonho, h muito tempo. Nunca imaginei que o dinheiro che-
gasse para tanto.
- A tua me  muito pondetada. Ela no te contou?
- Contou o qu, Eminncia?
- Que tens uma renda de clnco mil libras por ano e muitos milha-
res de libras, no banco, em teu nome?
 Dane retesou-se.

502

PASSAROS FERIDOS

- No, ela nunca me contou.
- Muito ponderada. Mas o dinheiro est no banco e Roma ser
tua, se quiseres. Queres Roma?

- Quero.
- E porque me queres a mim, Dane?
- Por ue Vossa Eminncia  a minha concepo do padre
perfeita.
 O rosto do cardeal Ralph contraiu-se.
- No, Dane, mo podes olhar para mim dessa maneira. Estou
longe de ser o padre perfeito. Infrin-gi tados os meus votos, entendes?
Aprendi da maneira mais penosa para um sacerdote, ela rampimento
dos meus votos, o que tu j parece saberes, e tudo porque me recusei
a admitir que, antes de ser padre, eu era um homem mortl.
- Isso no tem a menar importnria, Eminncia - retorquiu
Dane, com suavidade. - O que Vossa Eminncia me diz em nada
o diminui na minha concepo do padre perfeito. Parece-me apenas que
Vossa Eminncia no percebeu bem o que eu quero dizer. No me
refiro a um autmato inumano, acima da fraqueza da can,ne. Quero
dizer que Vossa Eminncia safreu e cresceu. Pareo presunoso? Asse-
guro-lhe que no  essa a minha inteno. Se o afendi, rogo-lhe que
me perdoe.  que tenho muita clificuldade em expressar os meus senti-
mentos! Mas pretendo dizer que se algum quiser tornar-se um padre
perfeito precisar de muitos anos, de sofrimentos terrveis e de ter
sempre diante de si um ideal e Nosso Senhor.
 O telefone tocou; o cardeal Ralph pegou no aparelho com e mo
levemente insegura e falou em itliano.
- Sim, obrigado, iremos imediatamente.
 Ps-se de p.
- Est na hara do ch da tatde e vamos tom-lo com um velha
e grande amigo meu. Depois do Santo Padre  provavelmente a figvra
mais impartante da Igreja. Disse-lhe que virias e ele expressou o desejo
de conhecer-te.
- Obrigado, Eminncia.
 Atravessaram corredores; jardins aprazveis, muito diferentes dos
de Dragheda, com altos ci restes e choupos, rectngulos exactos de
relva cercados de caminhos ornados de pilaretes e calados de >edras
musgosas; passaram par arcos gticos, por baixo de pontes renascen-
tistas. Dane absorveu tudo aquilo um estado prximo do xtase. Era
um mundo to diferente da Austrlia, to velho, to perptuo!

503

 I.rvaram quinze minutos, estugando o passo, para chegar ao pal-
cio; entraram e galgarana vma grande escadaria de mrmore, da qual
 ndiam tapearias finssimas.
 Vittorio Scarbanza, cardeal cli Contini-Verchese, tinha agora ses-
senta e seis anos e o corpo parcialmente tolhido or vma enfermidade
reumtica, mas a sua mente continuava to lcida e alerta como senzpre
o fora. A sua gata actual, uma russa chamada Natasha, ronronava enro-
dilhada no seu regao. Como no pudesse levantar se para saudar
os visitantes, contentou-se em dirigir lhes um amplo sorriso e em fazer-
-lhes um sinal com a mo. Os seus olhos, ao pas.sarem do rosto amado
de Ralph para Dane O'Neill, alargaram-se e estreitaram=se, cravando-se
neste ltimo, em silncio. Dentro de si sentiu valar o corao, levou
ao g>eito a mo que os cortejara, num gesto instintivo de proteco,
e quedou-se a olihar, abismado, para a edio niais javem de Ralph de
Bricassart.
- Vittorio, sente-se bem? - perguntou, ansioso, o cardeal Ralph,
tomando o urlso frgil entre os de os,  roeura dos atimentos.
 Estou, estou. Uma dorzinha passageira, nada mais que isso.
Sentem-se, or favor.
- Em primeiro lugar, gostaria de apresentar-lhe Dane O'Neill
filho, como j lhe disse, de uma queridssima amiga minha. Dane, este
 Sua Eminna, o Catdeal di Contini-Verchese.
 Dane ajoelhou-se, premiu os lbios o anel; por cima da cabea
inclinada, de um amarelo de ouro, o olhar do cardeal Vittorio procurou
o rosto de Ralph, egaminando-o com mais ateno do que o fazia habi-
tualmente. Contudo, descontraiu-se de maneira imperceptvel: era
evidente que ela nunca lhe contara. E est visto que ele jamais sus-
Qeitaria da primeira coisa que acudia  mente de quem quer que os
visse juntos. No uma redao entre pai e filho, naturalmente, zas um
estreito azentesrn mnsanguneo. Pobre Ralph! Ele nunca se vira
a andar, nurca obser a ra as ex,presses do prprio rosto, nunca sur-
preendera o alteamento da sua sabrancelha esquerda. Deus era real-
mente bom tornando os homens to cegos.
- Sentem-se. O ch no demora. E ento, meu rapaz! Queres
ser adre e par isso procuraste a assistncia do cardeal de Bricassart?
- Sim, Eminncia.
- Pois escolheste bem. Sab os cuidados dele nada de mal poder
acontecer-te. Mas pareres um pouco nervoso, meu filho. Ser, porven-
tura, a estranheza da situao?

504

 Dane sorriu o sorriso de Ralph, desprovido, talvez, do seu encanm
consciente, mas to parecido que o velho e cansado corao de Vitto .,
pareceu esbarrar num pedao de arame farpado.
- Estou perplexo, Eminncia. Eu no tinha avaliado a verda-
dera importncia dos cardeais. Nunca sonhei ser recebido no aeroporto
nem tamar ch com Vossa Eminncia.
- Sim,  inusitado... Compreendo que talvez seja uma fonte de
perturbaes. Ah, eis a o nosso ch! -Satisfeito, observou quando
o colocavam sobre a mesa e levantou um dedo admonitrio. - Ah, no!
Eu serei a <<me>>. Como gastas do ch, Dane?
- Assim como Ralph - zespandeu este, e corou vialentamente.
-Desculpe-me, Eminntia, eu no tencionava falar desta maneira!
- Est certo, Dane, o cardeal di Contini-Verchese compreende.
Quando nos conhecemos ramos Dane e Ral h, e foi assim que se ini-
ciaram as nossas relaes, no foi? A formalidade  nava. Eu preferiria
que continussemos Dane e Ralph em partitular. Sua Eminncia no
se incomodar, no  assim, Vittorio?
-  claro que no. Gosto muito de prenomes crstos. Mas vol-
tando ao que eu dizia a respeito de ter amigos em postos elevados, meu
filho, talvez venha a ser um tanto incmodo para ti, seya qual for
o seminrio escolhido, a longa amizade com o mosso Ralph. A neces-
sidade de dar uma srie de explicaes complitadas todas as vezes que
algum notar a semelhana entre vs poder tornar-se deveras abor-
recida. As vezes, Nosso Senhar permite uma mentirinha sem impor-
tna. - Sorriu e o ouro que havia entre os seus dentes cinMlou.
-E, para conforto de todos, eu preferiria que recorrssemos a uma
mentirola, pois se  difcil explicar de modo satisfatrio as tnues
conexes da amizade,  muito fcil explicar o cotdo vermelho do san-
gue. Por isso diremos a todos que o cardeal de Bricassart  teu tio,
meu caro Dane, e deixaremos as coisas nesse p - rematou, mito
suave o cardeal Vittorio.
 Dane pareceu desagradavelmente surpreso e o cardeal Ralph
resignado.
- No fiques decepcionado, com os grandes, meu filho - disse
o cardeal Vittorio, afvel. - Eles tambm tm ps de barro e valem-se
a mido de pequeninas mentiras inocentes ara confortar os outros.
Acabas de aprender uma lio utilssima, mas, observando-te, duvido de
que saibas tirar proveito dela. Entretanto, con preende que ns, cava-
lheiros escarlates, samos diploznatas at  panta dos dedos. Estou a pen-
sar realmente em ti, meu filho. A inveja e o ressentimento no so

505

estranhos aos seminrios como no o so a quaisquer nstituies
seculares. Safrers m pouco or ue pensaro que Ralph  teu tio,
irmo da tua me, mas sofrerias muito mais se pensassem que no h
entre vs qual-guer lao de angue. Somos homens antes de qualquer
outra coisa, e  com homens que lidars nesse mundo e nos outros.
 Dane inclinou a cabea e em seguida adlantau-se a fim de acariciar
a gata, azendo uma pausa com a mo estendida.
- Posso? Gosto muito de gatos, Eminncia.
 Seria impossvel encontrr um atalho mais curto ara chegar quele
velho mas constante corao.
- Pode . Canfesso que ela est a ficar pesada de mais para mim.
s uma glutona, no s, Natasha? Vai para o colo de Dane; ele
 a nova gerao.

 No havia possibilidade de Justine se transferir e transferir os seus
pertences do hemisfrio sl para o hernisfrio norte com a mesma rapi-
dez com ue Dane o fizera; quando encerrou a temporada no Culloden
e disse um adeus no sem tristeza a Botwell Gar ens, j h dois meses
que o irmo estava em Roma.
- Como consegui juntar tanto traste intil? - perguntou,
rodeada de rou as, papis, caixas.
 Meggie ergueu os olhos donde est va agachada, com uma caixa
de embrulhos de palha de ao na mo.
- Que esto estas cosas a fazer de baixo da tua cama?
 Uma expresso de profundo alvio petpassou pelo rosto corado
da filha.
 ' -Qh, graas a Deus! Era a que elas estavam? Pensei que
o lindo poodle da Senhora Devine as tivesse comido; ele passou mal
a semana inteira e eu no me sentia muito tentada a falar no sumio
da minha palha de ao. Mas desconfiava que o maldito animal a havia
comido; ele come tudo o que no o come rimeiro. No quero dizer
com isso - prosseguiu Justine com expresso reflexiva - que no exul-
taria se o visse esticado.
 Rindo-se, Meggie sentou-se sobre os calcanhares.
- Qh, Jus! Se sou'besses como s engraada! - atirou a caixa
sobre a cama, no meio de uma montanha de caisas que ali j se encon-
`ravam. - Postivamente no contribuis para melhorar a reputao de
 rogheda. D pois de todo o trabalho que tivemos para enfiar ideias
de ordem e asseio na tua cabea!

506

PSSAftOS FERIDOS

- Se me tivessem perguntado, eu ter-lhes-ia dito que era malhar
em ferro frio. No quet levar a palha de ao para Drogheda? Sei que
vou embarcam e que a minha agagem  ilimitada, mas tenho a impres-
so de que deve haver tonelatlas de palha de ao em I,ondres.
 Meggie passou os embrulhos para uma grande caixa de p pelo
onde se lia: Sr D.
- Creio que er melhor do la  Senhora Devine; ela prerisar
de tornar este partamento habitvel para o prximo in uilino. - Uma
torre pouco firme de <pratos sujos erguia-se na extremidade da mesa,
cheia de fiapos horrveis de mofo. -Nunca lavas os teus pratos?
 Justine riu-se com a boca fechada, sem o 7nenor sinal de arrepen-
dimento.
- Dane jura que no. Diz que eu limito-me a pass los por gua.
- Estes, terias de ra5p-los primeiro. Porque no os lavas  medida
que os usas?
- Porque isso significaria ir para a cozinha aps cada refeio
e, como costumo comer depois da meia=noite, ningum aprecia o som
dos meus delicados ps.
- D-me algumas caixas vazias. Eu lev-los-ei l para baixo e darei
um jeito - disse a me, resignada; antes de se aferecer para vir ajudar,
sabia o que lhe estaria reservado, e j o esperava. No era com muita
frequncia que algum tinha aportunidade de ajudar Justine a fazer
alguma coisa; todas as vezes que o tentara, Meggie acabara por se sentir
uma perfeita id iota. Mas em assvntos domsticos, a situao, ao nenos
dessa vez, inverteu-se; ela poderia ajudar e no faria papel de tola.
 De uma maneira ou doutra tudo se arranjou, e Justine e Meggie,
instaladas no carro que esta ltima trouxera de Gilly, rumaram para
o Hotel Austrlia, onde haviam reservado uma suite.
- Eu gostaria que vocs comprassem uma casa em Palm Beach
ou em Avalon - disse Justine, colocando a mala no segundo quarto
da suite. - Por exemplo, logo acima de Martin Place. Imagine estar
to perto do mar! A me no e sentiria tentada a apanhar um avio
em Gilly mais amide?
- E porque viria eu para Sidnei? Estive aqui duas vezes nos
ltimos sete anos... a primeira ara despedir-me de Dane e, agora, para
despedir-me de ti. Se tivssemos uma casa aqui, nunca a utilizaramos.
- Disparate.
- Por u?
- Porqu? Porque o mundo no se resume quela endita Dro-
gheda ! Aquela terra deixa-me meio louca !

507

 Meggie suspirou.
- Acredita-me, Justine, chegar o dia em que ansiars por voltar
Dragheda.
- E isso aplica-se tambm a Dane?
 Silncio. Sem olhar para a filha, Megge tirou a balsa que estava
sobre
mesa.
Che aremos atrasadas. Madame Rocher disse duas horas.
Se quiseres os vestidas antes de embarcar, ser melhor apressares-te.
- Estou a ser colocada no meu lugar - disse Justine, e sorriu.
- Porque no me apresentaste s tuas amigas? No vi sinal de
nenhuma em Bothwell Gardens, cam ext po da Senhora D'evime-
disse Meggie, enquanto me e filha, sentadas no salo de Germaine
Rocher, dl servavam os lnguidos manequins que exibiam vestidos
e sorrisos.
-  que elas so um pouco tmidas... Gosto deste alaranjado;
a me no osta?
- Com o teu cabelo, no. Prefiro o cinzento.
- Ora! Acho que o alaranjado com bina perfeitamente com o meu
cabelo. Com o cimzento fico parecida com uma coisa que o gato trouxe
para dentiro, sujo de lama e j meio porire. Ada te-se aos tempos, me.
Os cbelos verznel'hos j no precisam de contrastar com o branco,
o cinzento, o preto, o verde-esmeralda ou aquela cor horrorosa de que
gosta tanto... como  que se chama? Rosa-cinza? Vitoriano!
- O nome da cor est certo - disse Meggie, que se voltou a fim
de ol'har pata a filha. - ls um monstro - acrescentou com afectuosa
expresso de enfado.
 Justine no lhe prestou a menor ateno; no era a primeira vez
que a ouvia chamar=lhe assim.
- Fico com o alaranjado, o vermelho, o estarr pado cor de pr-
pura, o verde-musgo, o cor de vinho...
 Meggie oscilava entre o riso e a raiva. Que se poderia fazer com
uma filha como aquel?
 O Himalaya largou de Darling Harbor trs dias depois. Era um
belo e anti o navio, de casco dhato e em muito bom estado, construdo
nos dias em que ningum tinha muita pressa e toda a gente aceitava
o facto de que a Izrglaterra ficava a quatro semanas de distncia pelo
eanal de Suez ou cinco semanas dobrando o cabo da Baa Esperana.
Hoje em dia at os 2ransatlnticos so aerodinmicos, com os cascos
afilados como os dos contratorpedeiros para chegarem mais depressa.

508
PSSAROSFERIDOS

lilas o que eles provocam num estmago sensvel produz calafrios em
marinheiros empedernidos.
- Que divertido - riu=se J stine. - Parece que temos um bom
grupo de gente jovem na rimeira classe, de modo que a viagem no
ser to aborrecida como eu supunha. Alguns at so formidveis.
- E no ests contente por eu haver insistido em que viajasses
de primeira classe?
- Aoho que sim.
- Justine, tu despertas em mim o que h de pior. Alis, sempre
despertaste - exclamou Meggie, perdendo a pacincia com o que supu-
nha ser uma demonstrao de ingratido. Ao menos naquela ocasio
no poderia a filha fingir que lamentava estar de pattida? - Teimosa,
cbeuda, obstinada! Exasperas-me.
 De momento, Justine no respondeu. Virou a cabea para o outro
lado, como se estivesse mais interessada no tanger do slno que dia
aos visitantes que deixassem o navio do que naqullo que a me estava
a dizer. Controlou o tremor dos prprios l bios e abriu-os num sorriso.
- Sei que a exaspero - disse jovialmente, encarando a me -,
mas no se incomode, somos o que somas. Como sem re diz, saio
ao meu pai.
 Beijaram-se, constrangidas, e Meggie esgueirou-se por entre a mul-
tido que convergia para as pranchas de desembarque, perdendo-se de
vista. Justine subiu para o convs e ostou-se junto  amurada com
uma fieira de bandeirolas coloridas nas mos. L em aixo, ao longe,
no ears, viu a figura de vestido rosa lnza e chapu da mesma cor enra-
minhar-se para o local combinado, onde ficou a proteger os alhos com
as mos. Era engraado que, quela distncia, a me rparecia realmente
ter cinquenta anos. Ainda havia um trecho de caminho para ercorrer,
mas a idade l estava na sua postura. Elas agitaram os raos ao mesmo
tempo, depois Justine atirou a primeira fieira de bandeirolas e Meggie
agarrou na ponta destramente. Uma vermelha, uma azul, uma amarela,
uma cor de-rasa, uma verde, uma cor de laranja; girando em espirais,
agitadas pelo vento.
 Uma banda de gaitas-de-foles veio despedir-se da equipa de fute-
 ol e l ficou cam os pendes triangulares sacudidos pelo vento,
os mantos axadrezados dra pejando, tocando uma estranha verso de
Esta a Hora. As amuradas do navio estavam cheias de gente debru-
ada, segurando desesperadamente as ext .midades das finas titas de
pa el; no ca2s, centenas de pessoas esticavam o pescoo para cima,
demorando-se, famintas, nos rostos que iam para to longe, quase todos

509

PSSAROS FEftIDOS

jovens, que prtiam para ver camo era realmente o centro da civilizao
do outro lado do mundo. E l viveriam, l trabalhariam, talvez voltas-
sem dali a dois anos, talvez nunca mais voltassem. E todos sabiam isso
e faziam conjecturas.
 O cu azul estava cheio de nuvens de prata e saprava um vento
forte. O sol aquecia as cabeas voltadas para cima e as espduas dos
que se nclina am para baixo; uma grande faixa multicolorida de fitas
que vibravam unia o navio ao cais. Depois, de repente, abriu-se uma
fenda entre o castado do velho barco e o madeirame do embarcadouro,
e o ar encheu-se de gritos e de soluos; uma por uma, as fieiras de
bandeirolas, aos milhares, romperam-se, adejaram em desespero, ende-
ram, frouxas, e entrecruzaram-se sobre a superfcie da gua como um
tear despedaado; depois, juntando-se s cascas de laranja e s alforrecas,
l se oram,  deriva.
 Justine permaneceu aferrada ao seu lugar na amurada, at que
o cais se transformou,  distncia, numas poucas nhas escuras e numas
rseas cabecinhas de al inetes; os rebocadores do Himalaya viraram-no,
rebocaram-no por baixo da ponte do porto de Sidnei, at  corrente
principal daquele admirvel treaho de gua soalheira.
 No era como ir a Manly de balsa, embora seguissem o mesmo
caminho e passassem ao largo de Neutral Bay, Rose Bay, Cremorne
e Vaucluse; no. Desta vez passavam por entre os promontrios, alm
dos recfes cruis e dos altos leques rendados de espuma, chegando
ao mar aberto, para percarrer epois doze mil milhas de oceana, at ao
outro lada do mundo. E, valtassem ou no,pata casa, eles ao perten-
ceriam a um lado nem a outtn, pois tinharn vivido em dois continentes
e haviam experimentado dois estilos diversos de vid .
 Justine descdbriu que o dinheiro fazia de Londres um lugar deli-
cioso. Ela no conheceria a vida quase miservel que se levava em Earl's
Court - o <<Vale dos Cangurus>>, como lhe chamavam em virtude do
grande nmero de australianos que instalara ali o seu quartel-general -,
nem conheceria o destino tpico dos australianos na Inglaterra, aboletados
em abrigos colectivos rom o dinheirinho contado, trabalhando por uma
ninharia num escritrio, escola ou hospital, tremendo de frio junto
de um minsculo calozifero, num quarto frio e hnmido. Ao invs disso,
conseguiu um apartamento em Kensington, perto de Knightsbridge,
com aquecimento central, e um lugar na com anhia de Clyde Daltinham-
-Rdberts, o Grupo Elisabetiano.
 Quando chegou o Vero, viajou at Roma. Anos depois sorriria
ao lembtar-se do pouco que vira na longa jarnada atravs da Frana

510

PSSAftOS FERIDOS

e da Itlia, pois tiniha o esprito ocupado com as coisas que recisava
de contar a Dane, memarnzando as que no pa<leria esquecer de manei ra
alguma. Eram tantas que muito provavelmente ac baria por no as
relatar todas.
 Aquele era Dane? Aquele homem alto e belo na pdatafarma era
Dane? Nada havia de diferente no seu asperto e, no entanto, era um
estranho. J no pertencia ao mundo dela. O grito que ia dar pata
cham-io morreu-lhe na garganta; recuou um pou o a fim de abserv;lo,
pois o cambaio arara a poucos passos do local onde os seus olhos azuis
esquadrinhavam as janelas, sem ansiedade. A conversao entre am os
no passaria de um longo monlago quando ela lhe falasse da vida
que levara desde que ele se fora embora, pois Justine conhecia agora
que no havia em Dane desejo algum de partilhar cozn ela o que
experimentava. Ele j no era o seu irmo mais novo; a vida que
estava a levar tinha ta pouca relao cam ela camo com Drogheda.
Oh, Dane! Que tal  viver como se gosta vinte e quatro horas por dia?
- Hah! Pensaste que tinhas vindo inutilnaente, no foi? - per-
guntou, abeirando-se dele por trs, sem ser pressentida.
 Ele virou-se, apertou~lhe as mos e fitou os alhas nela, sorrindo.
- Pateta - disse cam ternura, pegando-lhe na mala maior
e enfiando-lhe o brao livre no seu. -  muito bom ver-te - acres-
centou, ao faz-la entrar no Lagonda vermelho; Dane sem re fora
fantico por automveis desportivas, e cam rara um lago que atingira
i ade suficiente para tirar a carta de motarista.
-  bom ver-te tambm. Espero que tenhas arranjado um bom
hotel para mim, porque eu no estava a brincar quando escrevi.
Recuso-me a ser enfiada numa cela do Vaticano no meio de um monto
de celibatrios.
- Eles, de qualquer maneira no quereriam saber de ti. Reservei-
-te quarto numa penso no muito longe de mim, onde falam ingls,
de modo que no presars de preocupar-te quando eu mo estiver.
E em Roma quem sabe ingls no se atrapalha; h sempre algum
que o percebe.
- Em ocasies como esta  que eu gostaria de ter a tua rapenso
para lnguas estrangeiras. Mas darei um jeito; sou muito boa mmica.
- Tenho dois meses, Jussy, no  matavilhaso? Poderemos dar
um pulo a Frana e  Espanha e ainda assar um ms em Dragheda.
Sinto saudades da velha fazenda.

511

PASSAROS FERIDOS

- mesmo verdade? - Ela voltou-se e olhou-o, olhou para as
 elas mos que dirigiam o crro com pera atravs do intenso trnsito
romano. - Pois eu no sinto mada. Londres  interessante de mais.
- No me enganas - disse Dane. - Sei o que Drogheda e a me
sig ficam para ti.
 Justine jumtou as mos no regao mas no respandeu.
- No te importas de tomar ch rom dois amlgos meus hoje
 tarde? - perguntou Dane assim que chegaram. - At me antecipei
 tua resposta aceitando o convite em teu azome. Eles esto ansiosos
por conhecer-te, e como s amanh serei um homem vre no quis
dizer que no.
- Palerma! Porque haveria eu de incomadar-me? Se isto fosse
Londres, eu rodear te-ia de amigos meus; nada mais natural, ortanto,
que faas o mesmo. Alegra me que me praporciones nzma viso geral
dos teus camaradas do seminrio, embora seja um pouco injusto para
mim, no achas? Afinal, so todos intocveis!
 Ela encaminlmu e para a janela e olhou para o pe ueno largo
 obre onde cresam dois ltanos cansados no quadriltero avmen-
tado; havia trs mesas espalhadas debaixo deles e, de nm lado, uma
igreja sem taa ou beleza arquitectnica especiais, cujo estu ue estava
a cair.
- Dane...
- Sim?
- Eu compreendo, juro que com reendo.
- Eu sei. - O rosto dele deixou de sorrir. - Eu gostaria que
a me compreendesse tam'bm, Jus.
- A me  diferente, acha que tu a abamdonaste. No consegue
ver as coisas de outro modo. Mas no te preoeupes, ela acabar por
ceder.
- Espero que sim. - Dane riu-se. - A propsito, no so os
camaradas do seminrio que vais conhecer hoje. Eu no as sujeitaria
a uma tentao dessa ordem, nem a ti, to,pouco. l o cardeal de
Bricassart. Sei que no gostas dele, mas promete-me -que sers oazinha.
 Um bril ho espe<ial ilumlnou-lhe os olhos sortlegos.
- Prometo! At rometo ibeijar todos os anis que me o erecerem.
- Qh, ainda te lembras! Fiquei furioso nesse dia! Envergonhas-
-te-me na frente dele!
- Bem, depois disso beijei muitas coisas aimda menos higinicas
do que um anel. ilVa aula de tepresentao dtamtica fui obrigada
a beijar vinte e nave vzzes um tipo horrvel, que safre de mau hlito,

512
PASSAROS FERIDOS

 tem amgdalas em decom osio e um estmago ;podre. Posso garantir-te
 que, depois dele, nada  impassvel.
 Ela ajustou o cabelo e virou-se de costas para o espelho.
- Tenho tempo para mudar de vestido?
- No te preocupes cam isso. Ests muito bem assim.
- Quem mais estar l?
 O Sol j estava to baixo que no aquecia a antiga praa, e a
 leprose nos troncos dos pltanos tinha um aspecto coado, doentio.
 Justine estremeceu.
- O cardeal di Contini-Verchese.
 Ela j ouvira aquele nome e arregalou os olhos.
- Safa! Frequentas os crculos mais elevados, no  assim?
- . E fao por merec-lo.
- Isso quer dizer que algumas,pessoas te tornam as coisas mais
 difceis noutras reas da tua vida aqui, Dane?-perguntou, sagaz.
- Nem por isso. Conhecer pessoas de categoria no  assim to
 importante. Nunea penso nisso e todos fazem como eu.
 A sala, os hamens vermelhos! Nunca como naquele momento
 Justine estivera to consciente da redundncia das mulheres na vida
 de alguns homens, ao entrar num mumdo onde aquelas s tinham lugar
 como humildes sezvas envoltas no burel de monjas. Ela trazia ainda
 o conjunto de linho verde-oliva que vestira logo a seguir a Turim,
 meio amarrotado da viagem, e adiantou-se sabre o macio tapete
 carmesim lamentando a impacincia de Dane, que obstara a que ela
 vestisse qualquer coisa menos marcada pela viagem.
 O cardeal de Bricassart, de p, sorria; era, com efeito, um velho
 muito bonito.
- Minha querida Justine - disse, estendendo o anel com um
 olhar malicioso, a indirar que no se esquecera da ltima vez, e pro-
 curando no rosto da jovem qualquer coisa que ela no compreendeu.-
 No te pareces nada com a tua me.
 Justine dobrou um joelho, beijou o anel, sorriu humildemente,
 levantou-se, sorriu menos humildemente.
- No, de facto no me pareo. A beleza dela ter=me-ia ajudado
 muito na minha profisso, mas no palco sem re se consegue dar um
 jeito. Ali pouco importa,a verdadeira canformao do rosto, entende?
 Ele ser o que ns e a nossa arte quisermos convencer as pessoas do
 que ele .
 Um risinho satisfeito subiu de uma paltrona; mais uma vez ela
 se adiantou para beijar um anel noutra mo envelhecida; dessa feita,

513

PSSAROS FEftIDOS

porm, ao erguer a vista, deu com dois olhos escuros onde viu amor.
Amor, sim, por estranho que fosse, amor por ela, por algum que
o dono dos olhos nunca vira, cujo nome dificilmente teria ouvido
mencionar. Mas l estava ele. A sua averso ao cardeal de Bricassart
no era menor agora do que o fora aos quinze anos, mas ela gostou
daquele velho.
- Senta-te, minha querida - convidou o cardeal Vittorio, indi-
cando com a mo a poltrona mais prxima da sua.
- Ql, bichana - disse Justine, fazendo ceegas na gata cinza-
-azulada refastelada no seu regao escarlate. - Bonita, no ?
- l bonita, com efeito.
- C mo se chama?
- Natasha.
 A porta abriu-se, mas no para deixar passar o carrinho do ch.
Um homem, misericordiosamente vestido  paisana, entrou; mais uma
sotaina vermelha, pensou Justine, e gritarei.
 Contudo, embora fosse um leigo, no era um omem comum.
Devia haver uma regra domstica no Vaticano - continuou a matutar
o esprito indisciplinado de Justine - que arrava especificamente
a entrada de hamens comuns. Se bem que no fosse aixo, Rainer
possua uma compleio to robusta que se diria mais atarracado do
que de facto era. Qmbros macios e peito largo, cabeorra leonina,
braos compridos como os de um tosquiador, parecia um primata,
mas com uma diferena: ressumava inteli ncia e movia-se como algum
que fosse ca az de agarrar o que desejasse to depressa que a mente
no canseguiria segui-lo. Agarrar e talvez esmagar, mas nunca sem
um abjectivo, im ensadamente, antes com apurada deliberao.
Era moreno, mas a sua densa cabeleira tinha exactamente a cor e muito
da consistncia da palha de ao, se esta se pudesse frisar e transformar
em pequenas ondas tegulares.
- Rainer, chega em boa hora - disse o cardeal Vittorio, indicando
a poltrona do outro la o da sua, e falando ainda em ingls. -Minha
querida - continuou, voltando-se para Justine, quando o homem,
acabando de beijar-lhe o anel, se levantou -, quero que conhea um
grande amigo meu, Herr Rainer Moerling Hartheim. Rainer, esta  a
irm de Dane, Justine.
 Ele inclinou-se, batendo meticulosamente os calcanhares, dirigiu-
-lhe um breve sorriso sem calor e sentou-se, colocando-se de lado,
de modo que pudesse v-la. Justine soltou um suspiro de alvio, sobre-
tudo ao ver Dane acomodar-se no cho, com a facilidade do hbito,

514

ao lado da poltrona do cardeal Ralph, bem no centro do seu campo
visual. Enquanto pudesse ver algum que conhecia e amava, estaria bem.
Mas a sala, os cardeais verznelhos e agora aquele homem moreno
comeavam a irrit-la mais do que a resena de Dane conseguia
apazigu-la; doeu=se do 2nodo mmo a excluam da conversao.
Inclinando-se para um lado, voltou a fazer ccegas ma gata, se bem
que erc besse que o cardeal Vittorio reparava nas suas reaces e se
divertia com elas.
- Ela foi castrada? - perguntou Justine.
- Naturalmente.
- Nauralmente! Embora no me pazea que os nhores se
devessem preocupar com isso. S o facto de ser habitante permanente
deste lugar bastaria para neutralizar os ovtios de qualquer criatura
de sexo eminino.
- Pelo contrrio, minha querida - acudiu o cardeal Vittorio,
que se divertia  grande com ela -, ns, os homens,  que nos neutra-
lizamos sicologicamente.
- Peo licena para discordar, Eminncia.
- Quer dizer que o nosso mundozinho desperta o seu antago-
nismo?
- Digamos apenas que 2ne sinto um tanto ou quanto su r lua,
Eminncia. Um stio lindo ara visitar, mas que eu  no gostaria de
habitar.
- No passo censur=la por isso, e tambm duvido de que goste
deste lugar. Mas acabar por habituar-se connosco, pois ar o favor
de nos visitar amide.
 A boca de Justine abriu-se num sorriso largo.
- Detesto ser obrigada a mostrar-me bem-comportada - confi-
denou. - Isso revela tudo o que h de pior em mim... daqui mesmo
estou a ver a expresso horrorizada de Dane sem sequer olhar para ele.
- Eu dizia a mim mesmo que isto j  estava a durar muito - inter-
veio Dane, sem se desconcertar. - Basta raspar a superfcie de Justine
para encontrar uma rebelde, e  por isso que gosto tanto de t a
como irm. No sou zebelde, mas confesso que admiro os rebeldes.
 Herr Hartheim deslocou a oltrona de modo que pudesse continuar
a manter Justine na sua linha de viso at mesmo quando ela endireitou
o corpo e deixou de brincar com a gata. Nesse momento, o belo amimal
cansou-se da mo que exlava um estranho cheiro feminino e, setn se
levantar, arrastando se delicadamente, passou do regao vermelho para
o cinzento e foi enrolar e d baixo das mos robustas e quadradas

 515

de Herr Hartheim, que tambm a acariciavam, ronronando to alto
que todos largaram a rir.
- Perdoe-me por viver - disse Justine, que no era  prova
de piadas, sobretudo quando fazia o papel de vtima.
- O motor dela continua to bom como nunca - disse Herr
Hartheim, em cujo rosto o divertimento produzia mudanas fascinantes.
O seu ingls quase perfeito no tinha praticamente sotaque, conquanto
se lhe notasse uma inflexo norte-americana: sublinhava com nfase
as erres.
 O ch chegou antes que todas voltassem a acomodar-se e, por estra-
nho que parecesse a Justine, foi Herr Hartheim quem o serviu, esten-
dendo-lhe a xcara com uma expresso muito mais amistosa do que
ao ser-lhe apresentado.
- Numa comunidade britnica - disse lhe -, o ch da tarde  a
refeio mais mportante do da. As coisas acontecem entre chvenas
de ch, no  assim? Imagino que a razo seja porque, dada a sua pr-
 ria natureza, o ch pode ser pedido e tomado a qualquer motnento
entre as duas e as cinco e meia da tarde, e conversar  uma actividade
que d sede.
 A meia hora que se seguiu pareceu confirmar este argumento,
embora Justine no patticipasse do congresso. A conversa passou do
estado precrio de sade do Sumo Pontfice para a guerra fria e depois
para a recesso econmica, enquanto os quatro homens falavam e ouviam
com uma vivacdade que Justine achou absorvente, principando a buscar
em vo as qualidades comuns a todos, incluindo Dane, to estranho,
to desconhecido. Ele intervinha activamente na conversa e ela notou
que os trs homens mais idosos o ouviam com singular humildade,
quase como se ele Ihes inspirasse um sentimento de respeitosa reve-
rncia. Se bem que no fossem desinformados nem ingnuos, os seus
comentrios eram diferentes, originais, puros. Seria pela sua pureza
que lhe prestavam to sria ateno? Uma pureza que ele possua
e eles no? Um atributo que eles admiravam e ambicianavam para si?
Uma virtude assim to rara? Trs homens to diversos uns dos outros,
mas muito mais llgados entre si do que a Dane. Para ela era difcil
lev-lo to a srio como eles! No que no tivesse procedido muitas
vezes como irmo mais velho em lugar de agir como itmo mas novo;
no que ela no se desse conta da sua sabedoria, do seu ntelecto ou da
sua pureza. Contudo, se Dane at agora fizera parte da mundo dela,
Justine precisava de acostumar-se ao facto de que ele j na pertencia
a esse mundo.

516

- Se quiser entregar-se directamente s suas devoes, Dane,
acon >anharei a sua irm ao hotel - derlarou Herr Rainer Moerling
Hartheim em consultar os esejos de quem quer que fosse sabre
o assunto.
 E, assim, Justine viu-se a descer, como se tivesse perdido a lngua,
as escadas de mrmore em companhia do homem enconpado e vigoroso.
L fora, no resplendor dourado do ocaso romano, ele pegou-lhe no
cotovelo e guiou-a para uma limusina Mercedes preta, cujo motorista
saiu pressurosamente para Ihes abrir a porta.
- Por certo no gostaria de assar sozinha a sua primeira noite
em Roma, e Dane est ocupado com outras coisas - disse, entrando
no carro depois dela. - Sente-se cansada e aturdida, de modo que
 melhor que algum lhe faa caznpanhia.
- O senhar parece no me deixar qualquer outra escolha, Herr
Hartheim.
- Eu referiria que me chamasse Rainer.
- E deve ser uma pessoa importante, pois tem um belo carro,
com motorista particular e tudo.
- Serei mais importante ainda quando for chanceler da Alemanha
Ocidental.
- Pois surpreende-me que j no o seja.
- Insolente! Ainda sou muito novo.
- Ser? - Justine virou-se a fim de examin-lo com mais ateno,
descobrindo que a pele trigueira era lisa e jovem, e que os olhos,
profundamente engastados nas rbitas, no se achavam embutidos nas
carnosidades fabricadas pela idade.
- Sou pesado e grisalho, mas tenho cabelos ruos desde os
dezasseis anos e este corpanzil desde que passei a comer o que me
apetecia. No momento tenho a penas trinta e um anos.
- Acredito na sua palavra - disse Justine, descalando-se. - Mas
 velho para mim... tenho apenas vinte e um.
- Voc  um monstro - disse Rainer, sorrindo.
- Aaho que devo ser. A minha me diz a mesma coisa. S no sei
o que cada um de vocs subentende por monstro, por isso pe lhe
que me d a sua verso.
- J ouviu a verso da sua me?
- Ela ficaria embaraadssima se eu lhe pedisse.
- E acha que no pode embaraar-me?
-Estou stnceramente desconftada, Herr Hartheim, de que

51'7

PSSAROS FERIDOS

o sen hor  um monstro tambm, de modo que duvido de que alguma
coisa consiga embara lo.
- Um monstro - proferiu, a meia voz outra vez. - Pois muito
bem, Senhorita O'Neill, tentarei definir-lhe o termo. Algum que
aterroriza os outros; que,passa or cima da c bea das pessoas; que se
sente to forte que s Deus pode derrot lo; que no tem escr pulos
e tem pouca moral.
 Ela riu-se, divertida, com a boca ferhada.
- Isso soa-me como uma definio da sua pessoa. Eu, por mim,
tenho mnral e escr pulos. Sou irm de Dane.
- Mas no e parece mada com ele.
- O que  mais lamentvel ainda.
- O rosto dele no condiziria com a sua personalidade.
- Tem toda a razo, mas, com o rosto dele, talvez eu tivesse
adquirido uma personalidade diferente.
- Dgpende do que surgiu rimeiro: a galinha ou o ovo? Calce os
sapatos; ns vamos andar.
 Fazia calor e escurea, mas as luzes eram brilhantes; havia multi-
des onde quer que ossem, e as ruas estavam coalhadas de motoretas
guinchantes, minsculos Fiats agressivos, Goggomobils que areciam
hordas de sa os tomados de pnico. Finalmente ele parou numa pe uena
praa cujas pedras tinham sido alisadas pelos ps de muitos sculos,
e conduziu Justine a m restaurante.
- A no ser que prefira comer ao ar livre - sugeriu.
- Contanto que me alimente, pouco se me d de ficar l dentro,
aqui ora ou no meio do caminho.
- Posso fazer o pedido?
 Os olhos lidos piscaram, talvez um pouco cansados, mas ainda
havia luta em Jusne.
- No sei se estou muito de acordo com todo esse machismo
ditatorial que grassa por a - disse. - Afinal de contas, como  que
sabe o que eu quero?
- Soror Anna carrega o seu pendo - murmurou Rainer. - Diga-
-me a espcie de comida que lhe apetece e eu garanto agradar-lhe.
Peixe? Vitela?
- Uma concesso mtua? Est m, irei at metade do caminho,
porque no? Quero pat, algun s scam i e um,prato de saltimbocca.
Depois, queretei uma cassata e um capuccino. Divirta-se com isso
se puder.

- Eu devia esbofete-la - disse Rainer, sem perder o bom humor.
Transmitiu o pedido ao criado exactamente como ela o estipulara,
mas num italiano rpido.
- O Rainer disse que no me pareo com Dane. Acha que no
tenho semelhana alguma com ele?-perguntou Justine um pouco
pateticamente depois do caf, to faminta que no perdera tempo
a falar enquanto houve comida sobre a mesa.
 Ele acendeu o cigarro dela, depois o seu, e inclinou-se entre as
sombras a fim de observ-la tranquilamente, rememorando o seu pri-
meiro encontro com o rapaz, alguns meses antes. O cardeal de Bricassart
com menos quarenta anos de vida; vira-o de pronto, e depois soubera
que eram tio e sobrinho, que a me do rapaz e de Justine era irm
de Ralph de Bricassart.
- H uma semelhana, sim - admitiu. - s vezes at no rosto,
mas zhuito mais de expresses que de traos. Em torno dos olhos
e da boca, na maneira como fecham os olhos e abrem a boca. Contudo,
por estranho que parea, a Justine no compartilha essa semelhana
com seu tio, o cardeal.
- Meu tio, o cardeal? - repetiu Justine estupidamente.
- O cardeal de Bricassart. No  seu tio? Estou certo de que me
disseram que era.
- O velho abutre? No tem qualquer parentesco connosco, graas
a Deus. Foi nosso proco h muitos anos, muito antes de eu nascer.
 Ela era muito inteligente, mas tambm estava muito cansada.
Pobre rapariguinha - pois no era mais do que isso, uma rapariguinha.
Os dez anos de diferena que havia entre eles pareciam cem. Uma
suspeita arruinar-lhe-ia o mundo, o mundo que ela defendia com tanta
valentia. Provavelmente recusar-se-ia a enxerg=la, ainda que tudo lhe
fosse dito sem rodeios. Como faz=la parecer sem importncia? Era evi-
dente que no se devia continuar a batez na mesma tecla, mas to=pouco
 se devia mudar de assunto de repente.
- Isso, ento, explica tudo - disse Rainer, displicente.
- Explica o qu?
- O facto de as semelhanas entre Dane e o cardeal serem atri-
 butos gerais, como a altura, a tez e a constituio.
- Oh! Segundo a minha av me contou, o nosso pai era muito
parecido com o cardeal - disse Justine,  vontade.
- Nunca viu o seu pai?
- Nem de retrato. Ele e a me separaram-se antes de Dane
nascer. - A jovem fez sinal ao criado. - Outro capuccino, pot favor.

518 519

-  uma selvagem, Justine! Deixe-me fazer o pedido!
- Nada disso, no deixo! Sou perfeItamente capaz de ensar por
mim mesma, e no preciso de hamem nenhum ara dizer-me sempre
o que quero e quando quero, est a ouvir?
- Basta raspar-lhe a superfcie para encontrar uma rebelde,
foi o que disse Dane.
- E ele tem razo. Se o Rainer soubesse como detesto ser apapa-
ricada, mimada e cercada de atenes exagera as! Gosto de agir por
mim mesma, e no quero que me digam o que devo fazer! No eo
quartel, mas tambm no dou quartel a ningum.
- Percebe-se - disse Rainer secamente. - O que foi que a fez
assim, herzchen?  de famlia?
- Ser? Sinceramente no sei. No h mulheres em quantidade
suficiente para contar, acho eu. S uma em cada gerao. A minha av,
a minha me e eu. Mas h montes de homens.
- Menos na sua gerao. Nela no h montes de omens.
A penas Dane.
- Porque a me deixou o meu pai, creio eu. Parece que ela nunca
se interessou por mais ningum, o que foi uma pena, na minha apinio,
pois  uma pessoa intrinsecamente caseira, que gostaria de ter um
marido a quem pudesse cercar de atenes.
- Ela  como a Justine?
- Acho que no.
- E o que  mais importante, gostam uma da outra?
- A me e eu? - Justine sorriu sem rancor, como Meggie prova-
velmente sorriria se algum lhe tivesse perguntado se gostava da
filha. -No estou muito segura de que ns gastamos uma da outra,
mas h ualquer coisa entre ns. Talvez seja um simples elo biolgico;
no sei. - Os seus olhos 'brilharam. - Eu quis sempre que ela se
entendesse comigo como se entende com Dane, e quis sempre dar-me
com ela como Dane se d. Mas ou lhe falta qualquer coisa ou falta
qualquer coisa em mim. Creio que  em mim. Como pessoa,  muito
melhor do que eu.
- No a conheo, de modo que no posso concordar com o seu
julgamento nem discordar dele. Se isto lhe servir de conforto, herzcben,
gosto de si exactamente como . No, eu no mudaria nada em si,
nem mesmo a sua ridcula rebeldia.
- I sso  muito bonito da sua parte, principalmente depois de ter
sido insultado por mim. Na realidade, no sou parecida com Dane,
pois,no?

- Dane no se parece com mais ningum no mundo.
- Quer dizer com isso que ele no pertence a este mundo?
- Acho que sim. - Herr Rainer inclinou-se para a frente, saindo
das sombras para a fraca claridade da velazinha enfiada na garrafa
de Chianti. - Sou catlico, e a minha religio foi a nica coisa na vida
que nunca me falhou, conquanto eu Ihe tivesse falhado muitas vezes.
No gosto de falar em Dane, orqce o corao me diz que  melhor
no discutir certas coisas. A Justine difere decididamente dele na sua
atitude para com a vida ou para com Deus. Deixemos as coisas assim,
est certo?
 Ela fitou-o curiosamente.
- Est certo, Rainer, se  isso que quer. Farei um,pacto consigo:
seja o que for que discutirmos, no ser acerca de Dane, nem da religio.

 . Muita coisa acontecera a Rainer Moerling Hartheim desde o encon-
tro com Ralph de Bricassart, em Julho de 1943. Uma semana depois,
o regimento dele fora enviado para a frente oriental, onde passou o resto
da guerra. Hesitante e sem rumo, jovem de mais ara ter sido bem
doutrinado na Juventude Hitleriana nos dias que antecederam  guerra,
ele enfrentara as consequncias dos erros de Hitler cam raquetas de neve,
sem munies e muma linha de frente to extensa que s havia um
soldado de cem em cem metras. E da guerra trouxera duas lembranas:
a terrvel campanha no frio penetrante e o rosto de Ralph de Bricassart.
Horror e beleza, o Diabo e Deus. Semidementado, semienregelado,
esperando inerme que os guerrilheiros de Krushchev cassem de avies
em voo rasante, sem pra-quedas, nos montes de neve formados pelo
vento, batia no peito e murmurava oraes. Mas no sabia porque
rezava: se para lhe darem balas para a sua espingarda, se para fugir
dos russos, se pela sua alma imortal, se pelo homem que encontrara
 a baslica, se pela Alemanha, se por uma atenuao do sofrimento.
 Na Primavera de 1945, batera em retirada atravs da Polnia,
 frente dos russos, como os soldados seus camaradas, cujo nico
objectivo era chegar a uma zona da Alemanha ocupada pelos ritnicas
ou norte-americanos, pois se os russos os apanhassem seriam fuzilados.
Rasgou os seus documentos em pedaos minsculos, queimou-os,
enterrou as suas duas Cruzes de Ferro, roubou um fato civil e apre-
sentou-se s autoridades britnicas na fronteira dinamarquesa, as quais
o remeteram ara um acampamento destinado a pessoa$ deslocadas na
Blgica. Diveu l um ano comendo po e papas de milho, que era tudo
com que os britnicos exaustos podiatn dar-se ao luxo de alimentar

520 [ 521

os milhares e milhares de pessoas que estavam a seu cargo, enquanto
no compreendessem que a nica sada era solt las.
 Por duas vezes funonrios do acampamento haviam-no convocado
para lhe apresentar um ultimato. Havia um barco  espera no porto
de Ostende para levar imigrantes at  Austrlia. Ele receberia novos
documentos e viajaria de graa para a sua nova terra; em troca disso,
comprometer-se=ia a trabalhar para o Governo australiano durante
dois anos, exercendo a actividade que o citado Governo lhe destinasse.
Depois, seria inteiramente senhor do seu nariz. E no faria trabalho
de escravo, antes receberia os salrios normais. Em ambas as ocasies,
 orm, conseguira persuadir as autoridades a dispens-lo da emigrao
sumria. Odiara Hitler, mas no odiava a Alemanha, nem se envergo-
nhava de ser alemo. O lar, para ele, era a Alemanha, que lhe povoara
feios sonhos por mais de trs anos. A simples ideia de se ver de novo
desamparado num pas em que ningum falava a sua lngua apavorava-o.
De maneira que, no princpio de 1947, sem um centavo no bolso.
viu-se a palmilhar as ruas de Aachen, tentando reunir as peas de uma
existncia, que, sabia-o, desejava com ardor.
 Ele e a sua alma haviam sobrevivido, mas no para voltar  pobreza
e  obscuridade, pois, mais que um homem muito ambicioso, Rainer era
uma espcie de gnio. Foi trabalhar para a Grundig, e estudou o campo
que o fascinara desde que entrara pela primeira vez em contacto com
o radar: a electrnica. As ideias fervilhavam-lhe no crebro, mas ele
recusou-se a vend-las  Grundig pela milionsima parte do seu valor.
Em vez di so, avaliou o mercado com cuidado, casou com a viva de
um homem que conseguira conservar duas pequenas fbricas de rdios
e entrou no negcio por conta prpria. O facto de que ainda mal
passara dos vinte anos no tinha importncia. Possua o esprito caracte
rstico de um homem muito mais velho, e o caos na Alemanha, depois
da guerra, dava oportunidades aos jovens.
 Visto que o seu casamento se realizara apenas no registo civil,
a Igreja permitiu-lhe divorciar-se da esposa; em 1951 ele pagou
a Annelise Hartheim exactamente o dobro do valor corrente das duas
fbricas do primeiro marido, e dvorciou-se dela. Entretanto, no tornou
a casar.
 O que acontecera ao rapazito no terror gelado da Rssia no pro-
duzira a caricatura sem alma de um homem; em lugar disso, detivera
nele o crescimento da doura e da suavidade, e usera em relevo outras
qualldades que possuia - inteligncia, frieza e determinao. O homem
que no tem nada a perder tem tudo a ganhar, e o homem sem senti-
PSSAROSFERIDOS

mentos no pode ser ferido. Era isso, pelo menos, o que dizia a si
mesmo. Na realidade, porm, arecia-se curiosamente com o padre que
conhecera em Roma em 1943; como Ralph de Bricassart, conhecia que
errava no momento de errar. No que a conscincia do mal que havia
nele o detivesse; acontecia apenas que a dor e a eutotortura eram
o preo que pagava pelo seu progresso material. Um reo que, pata
muita gente, talvez no parecesse valer a pena, mas que, para ele,
valia duas vezes o seu sofrimento. Um dia, gavernaria a Alemanha
e faria dela o que sonhara fazer, acabaria com a tica ariana uterana
e aperfeioaria uma tica mais ampla. Por no der rometer que
deixaria tie pecar, vrias vezes lhe fora negada a absolvio no confes-
sionrio, mas, de um modo ou de outro, ele e a sua religio confundiam-
-se muma coisa s, at que o dinheiro e o poder acumulados o colocaram
to acima da culpa que ele ie mostrar-se arrependido, confessar-se
e ser absolvido.
 Em 1955, sendo j um dos homens aais ricos e poderosos da nova
Alemanha Ocidental e deputado no Parlamento de Bona, voltou a Roma,
no intuito de procurar o cardeal de Bricassart e mostrar-lhe o resultado
final das suas oraes. No pde lembrar-se depois do que imaginara
que seria aquele encontro, pois, do princ io ao fim, s tivera conscincia
de uma coisa: de que Ralph de Bricassart estava decepcionado com ele.
Soubera porqu, mo lhe fora preciso perguntar, mas no esperara
a observao do cardeal quando se separaram:
- Rezei para que te sasses melhor do que eu, pois eras muito
javem. No h fim que valha os meios empregados para consegui=lo.
Suponho, orm, que as sementes da nossa runa so semeadas antes
de nascermos.
 De volta ao quarto de hotel, Rainer chorara, mas a almara-se
depois de algum tempo e pensara: o que passou, passou; no futuro,
serei como ele esperava. E se s vezes era bem sucedido, s vezes
fracassava. Mas tentou. A sua amizade com os homens do Vaticano
tornou-se a coisa terrena mais preciosa da sua vida, e Roma assou
a ser o stio ara onde fugia quando s o conforto que lhe proporciona-
vam parecia erguer-se entre ele e o desespero. Conforto: o deles era
de uma es pcie estranha. Nem o pousar de mos, nem o pronunciar
de palavras suaves. Dir-se-ia um blsamo vindo da alma, como se lhe
compreendessem a aflio.
 E caminhando pela clida noite 7omana, d pois de haver acompa-
 hado Justine  penso, ele pensava que nunca mais deixaria de lhe
 ser grato, pois enquanto a observara, enfrentando o ordlio da entre-

522 523

vista vespertina, sentira um agitar de ternura dentro em si. Era uma
rapariga valente e insubmissa. Chegara para eles em todos os sentidos;
t-lo-iam compreendido? Sentia por ela, concluiu, o que poderia ter
sentido por uma filha de que se orgulhasse, s que no tinha filha.
Por isso a roubara a Dane, levara-a a fim de bservar a sua reaco
posterior quele erlesiasticismo esmagador e ao Dane que ela nunca
vira antes; ao Dane que no era e nunca paderia ser uma parte confiante
e compreensiva da sua vida.
 O que havia de melhor no seu Deus pessoal, continuou ele
era a sua capacidade de erdoar qualquer coisa, tanto a irreligiosidade
inata de Justine como o fecho da fbrica de fora emocional dele,
Rainer, at ao momento em que fosse conveniente reabri-la. S por um
momento se sentira tomado de pnico, julgando ter perdido a chave
 ara sempre. Sorriu, atirou fora o cigarro. A chave... Bem, as chaves,
por vezes, tinham formas estranhas. Talvez precisasse de cada volta
de cada anel daquela cab e  a v e rm e I h a para accionar a fechadura;
talvez, numa sala escarlate, Deus Ihe tivesse estendido uma chave
escarlate.
 Um dia fugaz, que se fora num segundo. Contudo, ao consultar
o relgio, viu que ainda era cedo e concluiu que o homem que tinha
tanto poder agora que Sua Santidade se abeirava da mcrte ainda estaria
de viglia, compartilhando dos hbitos nocturnos da sua gata. Os soluos
medonhos que enchiam o pequeno quarto de Castelgandolfo, contraindo
o rosto magro, plido, asctico, que velara debaixo da coroa branca
durante tantos anos; ele estava a morrer E ra um grande papa. Dissessem
o que dissessem, era um grande papa. Se amara os Alemes, se ainda
gostava de ouvir falar alemo  sua volta, isso, acaso, alterava elguma
coisa? No cabia a Rainer julg-lo.
 Castelgandolfo, porm, no era a fonte do que Rainer precisava
sa er naquele momento. E subiu os degraus de mrmore que conduziam
 sala escarlate e carmesim, a fim de falar com Vittorio Scarbanza,
cardeal di Contini-Verchese, que poderia ser o prximo papa, ou poderia
no ser. Fazia agora quase trs anos que Ihe observava os olhos escuros,
sbios e amorosos pousadas onde mais gostavam de pousar; sim,
era melhor procurar as respostas junto dele do que junto do catdeal
de Bricassart.

- Nunca pensei que chegaria a dizer isto, mas, graas a Deus,
vamos pattir para Drogheda - disse Justine, recusando se a atirar uma
moeda para a Fonte de Trevi. - Devamos dar uma volta pela Frana

e peia Espanha; ao invs disso, ainda estamos em Roma e eu sou to
desnecessria como um umbigo. Irmos!
- Quer dizer que considera os umbigos desnecessrios? Lembro-
-me de que Scrates era da mesma opinio - disse Rainer.
- Scrates? No me lembro disso! Engraado, e eu que supunha
haver lido quase tudo de Plato! -Ela virou-se a fim de mir-lo,
pensando que as roupas casuais de um turista em Roma Ihe assentavam
muito melhor do que o trajo sbrio que envergava nas visitas ao
Vaticano.
- Ele estava absolutamente convencido de que os umbigos eram
desnecessrios. E tanto sso  verdade que, para provar o que afirmava,
desatarraxou o rprio umbigo e atirou-o fora.
 Os lbios de Justine contraram-se.
- E que aconteceu?
- A tcga dele caiu.
 Ela soltou uma gargalhada.
- De qualquer maneira, no se usavam togas em Atenas naquela
poca. Contudo, tenho a horrvel impresso de que h uma moral na
sua histria. - O rosto dela tornou-se sbrio outra vez. - Porque se
preocupa comigo, Rain?
- Teimosa! Eu j lhe disse que o meu nome pronuncia-se Ryner
( Rainer ) e no Rayner ( Reiner )
- Voc no compreende - insistiu Justine olhando meditativa-
mente pata os cintilantes jorros de gua e para o tanque sujo cheio
de moedas sujas.-J esteve na Austrlia?
 Os ombros estremeceram, mas ele no emitiu som algum.
- Por duas vezes quase fui para l, herzcben, mas consee i evzt-lo.
- Pois se tivesse ido, compreenderia. Tem um nome mgico para
um australiano, quando pronunciado  minha maneira. Rain, chuva.
Vida no deserto.
 Assustado, ele deixou cair o cigarro.
- A Justine no se est a apaixonar por mim, pois no?
- Que grandes egotistas so os homens! Detesto decepcion-lo,
mas no estou. - Em seguida, como se pretendesse atenuar a dureza
das suas palavras, enfiou a mo na dele e apertou-a. - algo muito
melhor.
- Que  que pode ser melhor do que apaixonat-se?
- Qualquer coisa, creio eu. No quero precisar de algu m dessa
maneira, nunca.

524 525

- Talvez tenha razo. , sem dvida, uma desvantagem incapaci-
tadora quando adquirida demasiado cedo. Par isso mesma, o que  que,
para si, ser muito melhor?
- Encontrar um amigo. - A mo dela alisou a mo dele.-
O Rain  meu amigo, no ?
- Sou. - Sorrindo, ele atirou uma moeda para a fonte. - Pronto !
J devo ter lanado para aqui uns mil marcos alemes, no correr
dos anos, s para ter a certeza de que continuaria a sentir o calor do Sul.
As vezes, nos meus pesadelos, tenho frio outra vez.
- Devia experimentar o calor do verdadeiro Sul - acudiu Jus-
tine. - Quarenta e seis graus  somhra, quando consegue encontrar
alguma.
- No admira que a Ju stine no sinta o calor. - Rainer saltou
o seu riso sem som de sempre; resqueio dos velhos tempos, quando rir
alto poderia significar um desafio lanado ao destino. - E o calor
explica o facto de ser insensvel.
- O seu ingls  coloquial, mas norte-americano - abservou
a raparxga. - Poderia pensar que aprendeu ingls nalguma boa universi-
dade britnica.
- No. Comecei a aprend-lo com soldados cockneys, escoceses
ou dos Midlands num acampamento belga, e no campreendia uma
palavra do que me diziam, a mo ser quando falava com o homem que
mo ensinara. Um dizia abath, outro dizia aboot, um terceiro dizia aboat,
mas todos queriam dizer about. Por isso, quando valtei para a Alemanha,
vi todos os filmes que ude e comprei os nicos drscos em ingls que
havia, gravados por comediantes norte-americanos. Mas toquei-os muitas
e muitas vezes em casa, at falar o suficiente para aprender mais.
 Justine estava sem sapatos, romo sempre; estupefacto, ele vira-a
andar descala em avimentos bastante quentes para frigir um ovo e em
lugares pedregosos.
- Diabrete! Calce os sapatos.
- Sou australiana; os nossos ps so to largos que no se sentem
bem dentro de sapatos. Isto resulta de no terznos realmente tempo frio;
andamos descalos sempre que podemos. Sou ca az de caminhar por
um pasto infestado de cardos e tirar a seguir os picas dos ps sem
senti-los - gabou-se, orgulhosa. - Seria provavelmente capaz de
caminhar sobre brasas acesas. - D pois, de repente, mudou de
assunto. - Amava a sua esposa, Rain?
- No.
- Ela amava-o?

526

- Sim. No tnha outra razo ara casat comigo.
- Coitadinha! Serviu se dela e depois largou-a.
- Isso desaponta-a?
- No. Acho que no. Na verdade, at o admiro por isso.
Mas sinto muita pena dela, e estou mais decidida do que nunca a jamais
cair na mesma esparrela.
- A Justine admira-me?
 O tom dele era desconcertado, espantado.
- E porque no? No proeuro em si as coisas que ela devia
procurar. Gosto de si apenas como amigo. Mas ela amava-o, voc era
seu marido.
- Creio, berzcben - disse Rainer com alguma tristeza -, que os
homens ambiciosos no so muito bons para as suas mulheres.
- Isso acontece porque elas, geralmente, so do ti,po <<sim, que-
rido, no, querido, deixa que eu levo, onde queres que eu ponha?>>
Pabrezinha. Se eu tivesse sido sua esposa, mand=lo-ia pentear macacos,
mas aposto que ela nunca fez isso, no  verdade?
 Os lbios dele tremeram.
- No, pobre Annelise. Ela era do gnero mrtir, de modo que
as suas armas estavam longe de ser to directas e to deliciosamente
 e pressas.
 Os largos dedos dos ps de Justine agarravam-se com fora
  parede interna do chafariz. Ela nclinou-se precariamente para trs
 e endreitou-se com facilidade.
- Bem, o Rainer, no im, foi boni para ela, deixou-a. E ela est
 muito melhor, embora provavelmente no pense assim. Ao contrrio,
 eu posso conserv-lo, porque tomarei o cuidado de nunca me apaixonar
r Xlr S1.
- Insensvel,  o que realmente , Justine. E camo descobriu
 todas essas coisas a meu respeito?
- Perguntei a Dane. Naturalmente que ele apenas me contou
 os factos, mas eu deduzi o resto.
- Baseada, sem dvida, na sua enorme experincia. Que grandes-
 sssima embusteira me saiu, Justine! Dizem que  muito boa actriz,
 mas isto arece-me incrvel. Como consegue fingir emoes que nunca
 experimentou? Como pessoa,  emocionalmente mais atrasada do que
 a maioria das raparigas de quinze anos.
 Ela saltou donde estava, sentou se no murinho e inclinou-se ara
 calar os sapatos, movimentando penosamente os dedos dos ps.
- Os meus ps esto inchados, diabo!

529

PSSAROS FEftIDOS

 Nenhuma reaco de raiva ou de indignao indicava que Justine
ouvira sequer a ltima parte do que ele dissera, como se se limitasse,
quando lhe dirigiam censuras ou crticas, a desligar um a arelho interno
de audio. E deva ter havido grande quantidade delas. Era um milagre
ela no odiar Dane.
- Eis uma pergunta difcil de responder - disse -, mas  preeiso
que eu seja capaz de faz-lo, ois de contrrio no seria boa aetriz,
no  verdade? Mas  como... uma espera. Isto , falo da minha vida
fora do palco. Eu defendo-me, no posso dar-me ao luxo de gastar
o meu talento fora do palco. Temos apenas determinada quantidade
para dar, no  assim? E l em cima no sou eu mesma, ou talvez seja
mais exacto dizer que sou uma sucesso de pessoas, de eus. Todos ns
devemos ser uma profunda mistura de eus, no acha? Para mim
representar , primeiro e acima de tudo, intelecto, e s depois emoo.
O intelecto liberta a emoo e aprimora-a. O problema no consiste
pura e simplesmente em chorar, em gritar, em soltar uma arQalhada
 g b
convincente. Sabe que  uma coisa maravilhosa imaginar-me dentro
de outra pessoa, de outro eu, de algum que eu poderia ter sido se
as circunstncias tivessem sido diferentes? 1\Tisso reside o segredo.
No  tornar-me outra pessoa, mas antes incorpor=la em mim, como se
essa pessoa fosse eu. E, assim, ela torna-se eu.
 A excitao de Justine era to grande que no lhe permitia con-
tinuar parada. De sbito, ergueu-se.
- Imagine, Rain! - prosseguiu. - Daqui a vinte anos poderei
dizer a mim mesma: cometi assassnios, suicidei-me, enlouqueci, salvei
homens, arruinei-os. Qh! As possibilidades so infinitas!
- E ser todas essas pessoas. - Ele ergueu-se, pegou-lhe nova-
mente na mo. - Sm, tem razo, Justine. No pode gastar o seu talento
fora do palco. Tratando-se de qualquer outra essoa, eu diria que o faria,
apesar disso, mas, eonsigo, j no estou assim to certo.

528

18

 E pensassem no assunto, as pessoas de Drogheda seriam capazes
 de imaginar que Roma e Londres no ficavam mais longe do que
 Sidnei e que Dane e Jstine, apesar de adultos, ainda eram
 crianas que iam para o internato. Sabia-se que no oderiam
~ ir a casa nas frias mais curtas, mas, uma vez por ano, vinham passar
 um ms, pelo menos, na fazenda. Geralmente em Agosto ou Setembro.
 Seria de alguma importncia o facto de, naquela altura, terem quinze
` e dezasseis anos e vinte e dois e vinte e trs agora? E se as pessoas
 de Drogheda viviam para esse ms a partir do comeo da Primavera,
 no entanto, ningum andava por ali dizendo coisas como, <<bem, s faltam
 algumas semanas! >, ou, ento, <<misericrdia, ainda no h um ms
 que eles partiram!,> Mas, por volta de Julho, os passos das pessoas
 tornavam-se mais ivos, e sorrisos permanentes instalavam-se em todos
 os rostos. Desde a cozinha at aos pastos e  sala de estar, planeavam-se
 passeios e presentes.
 Entrementes, havia cartas que reflectiam, na maioria, a Qersonali-
 dade dos autores, embora, s vezes, a contradissessem. Julgar-se-ia,
r or exemplo, que Dane seria um corres ondente meticulosamente
 regular e Justine uma irregularssima missivista; que Fee jamais escre-
 veria cartas; que os homens da famlia Cleary as escreveriam duas vezes
 por ano; que Meggie enriqueceria o servio postal com bilhetes dirios,
 pelo menos endereados a Dane; que a Sr Smith, Minnie e Cat
 enviariam cartes de aniversrio e de boas festas; que Anne Mueller
 escreveria com frequncia para Justine, mas nunca para Dane.
 As intenes de Dane eram boas e ele, de facto, escrevia com
 regularidade. Acontecia apenas que se esquecia de pr as cartas no
 eorreio, de modo que se passavam, muitas vezt , dois ou trs meses

529

sem notcias, e depois Drogheda recebia dzias de missivas na mesma
mala postal. A laquaz Justine escrevia epstolas compridas; que eram
 uras correntes de conscincia, suficientemente rudes para provocar
rubores e exElamaes de espanto, e totalmente fascinantes. Meggie s
escrevia uma vez por quinzena, para os dois filhos. Embora Justine
nunca recebesse cartas da av, Dane recebia-as amide, assim como
sabia, atravs dos tios, notcias a respeito da terra, dos carneiros e da
sade das mulheres de Drogheda, pois os Cleary pareciam julgar-se
obrigados a assegurar-lhe que tudo ia s mil maravilhas em casa. Eles,
contudo, no faziam o mesmo com Justine, que, de qualquer maneira,
teria ficado abismada se o fizessem. Quanto aos demars, a correspon-
dncia da Sr Smith, de Minnie, de Cat e de Anne Mueller ocorria
como se poderia esperar.
 Era agradvel ler cartas e penoso escrev-las. Isto , para todos
menos para Justine, que ficava exas erada porque ningum 1he escrevia
o ti po de carta que ela desejava - gordas, prolixas e francas. Justine
fornecia s pessoas de Drogheda a maior parte das informaes a res-
 eito de Dane, cujas missivas nunca mergulhavam os seus leitores bem
no meio de uma cena, ao passo que era exactamente isso que faziam
as de Justine.

 Rain chegou hoje de avio a Londres e disse-me que viu Dane
em Roma, na semana passada. A verdade  que ele est mais
com Dane do gue comigo, visto que Roma ocupa o primeiro lugar
na sua agenda de viagens e Londres o ltimo. Por isso tenho de
confessar gue Rain  uma das principais razes por que me encon-
tro com Dane em Roma todos os anos antes de voltar para casa.
Dane gosta de vir a Londres, s gue eu no o deixo quando Rain
est em Roma. Egoista. Mas vocs no fazem ideia do prazer que
me d a companhia de Rain. uma das poucas pessoas que conheo
gue vale os esforos gue fao para v-lo, e eu gostaria de poder
encontr-Io mais amide.
 Em certo sentido, Rain tem mais sorte do gue eu, pois con-
segue conhecer os colegas de seminrio de Dane, ao passo gue
eu no. Creio que Dane tem medo de gue eu os estupre diante dele,
ou talvez de que eles me estuprem. Isso s aconteceria se me vissem
nos meus trajes de Charmian. ' uma espcie de Theda Bara
uctualizada. Dois escudozinhos redondos de bronze para as tetas,
uma poro de correntes e o gue eu imagino seja um cinto de
castidade - alis, seria preciso um par de abridores de lata para

entrar nele. Com uma longa abeleira preta, o corpo bronzeado
e os meus pedacinhos de metal, sou a mulher fatal por excelncia.
 ... Mas onde estava eu ? ? ? Ah, sim, Rain em Roma na semana
passada encontrando-se com Dane e os colegas. Sairam todos para
uma farra. Rain insiste em pagar, poupa o constrangimento de Dane.
Parece gue a noite foi de arromba. Nada de mulheres,  claro,
mas tudo o mais. Vocs so capazes de imaginar Dane de joelhos
nalgum pifio bar romano dizendo, <<formosos narcisos, apressamo-
-nos a ver-vos chorando to cedo>> a um vaso de narcisos? Ele
tentou, durante dez minutos, coloear na ordem certa as palavras
da citao, mas, no o aonseguindo, desistiu; em vez disso, segurou
um narciso entre os dentes e executou um bailado. Vejam agora
se podem imaginar Dane a fazer uma coisa dessas. Rain diz que
isso  inofensivo e necessrio, visto gue eles s trabalham e no
brincam, etc. No havendo mulheres, a melhor coisa depois delas
 uma bebedeira. Pelo menos  o que Rain afirma. No vo
imaginar agora gue isso acontece com frequncia, porque no  ver-
dade, e calculo gue nessas ocasies Rain  o chefe, de modo que
sai com eles para vigi-los, para tomar conta desse grupo ingnuo
de camares crus. Mas eonfesso que ri ao pensar em Dane
escorregando durante um bailado flamenco, com um narciso na
boca.

 Dane passou oito anos em Roma at chegar ao sacerdeio e, a prin-
cpio, ningum sups que eles udessem 2erminar. Esses oito anos,
todavia, decorreram mais depressa do que quaisquer outros para a gente
de Drogheda. Ningum saba o que ele faria depois de ordenado,
mas presumia-se que regressasse  Austrlia. S Meggie e Justine
desconfiavam de que ele desejaria permanecer na Itlia, embora aquela
ainda pudesse acalentar dvidas, lembrando-se do contentamento dele
quando voltava todos os anos para casa. Como australiano, haveria
de querer voltar. Justine era diferente. Ningum sonhava que ela
tornasse um dia definitivamente. Sendo actriz, a sua carreira no
vingaria na Austrlia, ao passo que Dane poderia seguir sua, com
o mesmo zelo, em qualquer parte do mundo.
 Assim, no oitavo ano, no havia planos acerca do que fariam os
jovens quando chegassem para as frias anuais; ao invs disso, as pessoas
de Drogbeda planeavam ir a Roma, a fim de ver Dane tomar ordens
sacras.

530 531

PSSAROSFERIDOS

- Ns fracassmos - disse Meggie.
- Que foi que disse, querida? - perguntou Anne.
 Elas estavam a ler, sentadas, num canto quente da varanda,
mas o livro de Meggie cara-lhe, abandonado, no regao, e ela observava
com expresso ausente as cabriolas de duas lavandiscas no relvado.
Fora um ano de chuva; havia vermes em toda a parte e os pssaros
estavam mais gordos e felizes do que nunca. Cantos de aves enchiam
o ar desde o -romper da aurora at ao derradeiro bruxulear do crepsculo.
- Eu disse que fracassmos - repetiu Meggie. - Um rastilho
molhado. Tanta promessa ! Quem o diria em 1921, quando chegmos
a Drogheda ?
- Como ?
- Um total de seis filhos, alm de mim. E um ano depois,
mais dois. Que pensaria qualquer pessoa? Dzias de filhos, meia centena
de netos. Mas olhe para ns. Hal e Stu esto mortos, nenhum dos vivos
parece ter a menor inteno de casar, e eu, a nica que no tenho
condies de transmitir o nome, fui a nica que deu herdeiros a Dro-
gheda. E mesmo assim os deuses no esto felizes, no  verdade?
Um filho e uma filha. Vrios netos ao menos,  o que se poderia pensar.
Mas que acontece? Meu filho abraa o sacerdcio e a minha filha
uma carreira de solteirona. Outro beco sem sada para Drogheda.
- No vejo o que h de to estranho nisso - disse Anne. - Afinal
de contas, que esperava dos homens? Enfiados aqui, tmidos como can-
gurus, sem contactos com as raparigas que poderiam desposar. E no
caso de Jims e Patsy, a guerra ainda por cima. Pode imaginar Jims
casado sabendo que Patsy no pode imit-lo? Eles querem-se muito
um ao outro para isso. Alm do mais, a terra  exigente e castradora,
tita deles tudo o que tm para dar, porque no creio que tenham muito.
Isto , num sentido fsico. J pensou nisso alguma vez, Meggie?
Para dizer as coisas cruamente, a sua famlia no se interessa muito
pelo sexo. E o mesmo se aplica a Dane e Justine. Quero dizer, h pessoas
que o procuram compulsivamente, como os gatos, mas os seus, no.
Contudo, talvez seja possvel que Justine se case. H esse alemo, Rainer;
ela arece terrivelmente apaixonada por ele.
- Acertou em cheio - valtou Meggie, que no se achava disposta
a ser consolada. - Ela parece terrivelmente apaixonada por ele. S isso.
Afinal de contas, h sete anos que o conhece. Se quisesse casar,
j o teria feito h muito tempo.
- Acha que sim? Conheo Justine muito bem - respondeu Anne
com razo, pois de facto conhecia-a muito bem, melhor do que qualquer
PSSAROSFERIDOS

outra p e s s o a em Drogheda, incluindo Meggie e Fee. - Creio que
a apavora a ideia de se comprometer com a espcie de amor que
o casamento impe,-e devo dizer que admiro Rainer. Ele parece
compr end-la. No quero afirmar que esteja a aixonada por ela, mas,
se estiver, tem ao menos o bom senso de esperar que ela se repare
para o mergulho. - Inclinou-se para a frente e o livro caiu-lhe, esque-
cldo, sabre os ladrilhos. -Preste ateno a este passarinho. Creio que
nem um rouxinol cantaria melhor. - Em seguida, disse o que desejava
dizer havia semanas. - Meggie, porque no vai a Roma para ver Dane
ser ordenado?
- No irei a Roma! - redarguiu Meggie com os dentes cer-
rados. -Nunca mais tornarei a sair de Drogheda.
- Meggie, no faa isso! No pode decepcion o tanto! V,
por favor! Se no far, Drogheda no ter ali uma nica mulher, porque
s voc ainda tem idade para voar. Mas afiano-lhe que, se julgasse
 por um minuto sequer que o meu corpo sobreviveria ao esforo, iria.
- Ir a Roma para ver Ralph de Bricassart a sorrir com presuno?
Prefiro morrer.
- Oh, Meggie! Meggie! Porque h de vingar-se ztele e no seu
filho das suas frustraes? Vac mesma j disse uma vez que a culpa
 sua. Ponha o orgulho de lado e v a Roma. Por favor!
- No  uma questo de orgulho. - Ela estremeceu. - Oh, Anne,
tenho medo de ir! Porque no acredito, no acredito! A minha carne
fica toda arrepiada quando penso nisso.
- E que me diz da hi;ptese de ele no voltar para casa depois
de ser padre? J lhe ocorreu essa ideia alguma vez? Ele no ter as
longas licenas que gozava no seminrio e, se decidir ficat em Roma,
 muito possvel que a Meggie tenha de ir para l se quiser v-lo.
V a Roma, Meggie!
- No posso. Se soubesse como tenho medo! No  orgulho,
como tambm no o  o facto de no querer que Ralph leve vantagem
sobre mim, ou qualquer uma das caisas ue digo ara impedir que me
faam perguntas. Deus  testemunha de que sinto tanta falta dos meus
dois homens que seria capaz de arrastar-me at l de joelhos, s para
v-los, se julgasse por um minuto que eles me querem. Sei que Dane
ficaria ontente por ver-me, mas Ralph j se esqueceu de que existo.
Repito que estou com nedo. No sei o qu dentro de mim diz-me que,
se for a Roma, acontecer alguma coisa. Por isso no irei.
- Mas, pelo amor de Deus, que poder acontecer?
- Sei l!... Se soubesse, teria algo ara cambater. Ma-s  uma

532 533

sensao. Como posso combater uma sensao, porque  s isso que h?
Um pressentimento, como se os deuses estivessem reunidas.
 Anne riu-se.
- Est a ficar velha, Meggie. Pare com isso!
- No posso, mo osso! Eu sou uma velha.
- Tolice,  apenas uma vigorasa mulher de meia-idade, suficiente-
mente jovem para viajar de avio.
- Ora, deixe me em paz! - bradou Meggie em tom selvagem,
voltando ao seu livro.

 De vez em quando, uma multido com um propsito definido
converge sabre Roma. No se trata de turismo, nem da viso de glrias
passadas em relquias.presentes; to-,pouco  o preenchimento de uma
fatiazinha de tempo entre A e B, em que Roma representa um ponto
na linha entre esses dois lugares. Trata-se de uma multido com uma
s emoo unificante; ela estoura de orgulho, pais vem ver o filho,
o sobrinho, o primo ou o amigo tomar ordens sacras numa grande
baslica que  a igreja mais venerada do mundo. Os seus membros
instalam-se em penses humildes, hotis de luxo, em casas de amigos
ou parentes, mas esto totalmente unidos, em az uns com os outros
e com o mundo. Do, conscienciosos, os seus passeios; o Museu do
Vaticano, rematado pela Capela Sistina como rmio de resistncia,
o Frum, o Coliseu, a Via pia, a gananciosa Fonte de Trevi, o son et
lumire,  espera do grande dia, passando o tempo. Ser lhes- concedido
o privilgio especial de uma audincia privada com o Santo Padre e,
 ara eles, Roma  tudo o que h de melhor.
 Desta vez no era Dane quem esperava J.ustine na plataforma,
como das outras vezes; ele estava no retiro. Em lugar do irmo,
Rainer Moerling Harthim percorria o sujo pavimento como um grande
animal: Ele no a cumprimentou com um beijo, pois nunca o fazia;
apenas colocou um brao em torno dos ombros dela e apertou-os.
- Ccmo um urso - disse Justine.
- Um ursa?
- Eu costumava pensar, quando o conheci, que voe era uma
espcie tle elo perdido, mas acabei por chegar  concluso de que  mais
urso do que gorila. Era uma comparao pouco generosa, a do gorila.
- E os ursos so generosos?
- Bem, eles talvez matem as essoas com a mesma rapidez,
mas so mais jeitosos. - Ela passou o brao pelo brao dele e acertou
o passo com o de Rainer, pois eram quase da mesma altura. - Como

534

vai Dane? Viu-o antes de iniciar o retiro? Senti vontade de matar Clyde,
por no me deixar vir mas cedo.
- Dane est como sempre.
- No o tem desencaminhado?
- Eu? Claro que no. Est muito bonita, berzchen.
- Fao o possvel por portar-me bem e associei-me a todos os
costureiros de Londres. Gosta da minha nova saia curta? Chama-se
minissaia.
- Ande um pouco  minha frente, que eu lhe direi.
 A barra da saia pregueada de seda chegava mais ou menos at
metade da coxa; ela rodopiou quando Justine se virou e voltou para
junto dele.
- Que acha, Rain?  escandalosa? Notei que, em Paris, ainda
ningum usa saias com este comprimento.
- Isso rova uma coisa, berzchen... que o escandaloso  ningum
com pernas bonitas como as suas usar uma saia um milmetro mais
comprida. Tenho a certeza de que os Romanos concordaro comigo.
- O que quer dizer que o meu traseiro demorar uma hora para
ficar preto e azulado em vez de levar um dia. Malditos sejam eles!
Mas sabe uma coisa, Rain?

- Que ?
- Nunca fui beliscada por um padre. Durante todos estes anos
tenho entrado e sado do Vaticano sem nenhum belisco no meu activo.
Por isso pensei que, se usasse minissaia, ainda poderia set a runa
de algum pobre prelado.
- A Justine poder ser a minha runa.
 Ela sorriu.
- Num vestido alaranjado? No acredito. Pensei que detestasse
ver-me com roupas cor de laranja, j que o meu cabelo  da mesma cor.
- Uma cor to activa que inflama as sentidos.
- Est a gozar-me - disse Justine, enfadada, entrando na limusina
Mercedes, que ostentava uma bandeirinha alem presa ao talism do
capot. - Como arranjou a bandeirinha?
- Quando recebi o meu novo posto no Governo.
- No admira que eu merecesse uma meno no News of the
lX orld! Viu?
- Sabe que nunca leio pasquins, Justine.
- Nem eu; mas algum me mostrou o artigo - disse ela; depois,
 imprimindo um tom mais alto  voz, deu-lhe um sotaque rebuscado
 e afectado. -  verdade que uma talentosa actriz australiana com cabelc

535

cor de cenoura est a cimentar relaes cordialssimas com um membro
do Gabinete da Alemanha Ocidentail?
- Eles no sabem h uanto tempo nos conhecemos - disse Rainer
tranquilamente, esticando as.pernas e adqptando uma posio con-
fortvel.
 Justine examinou-lhe as roupas com olhar aprovativo; muito moder-
na s, muito italianas. Ele parecia ter aderido  corrente da moda europeia
e at se atrevia a usar nma camisa que arecia feita de rede de pescar,
das que permitiam aos ntalianos mostrar a pilosidade do peito.
- Nunca devia usar fato, colarinho e gravata - disse, de repente.
- No? Porqu?
- Porque o seu estilo  decididamente machista... sabe como ,
isso que se usa agora, com o medalho e a corrente de ouro e o peito
peludo. Um fato d a impresso de clue a sua cintura est a alargar
quando, na verdade, tal no acontece.
 Por um momento, ele encarou-a, surpreso. Em seguida, a expresso
dos seus olhos tornou-se alerta, transformando-se no que ela chamava
<<olhar pensativo e concentrado .
- A primeira - disse Rainer.
- A primeira o qu?
- H sete anos que a conheo, e  a primeira vez que faz um
comentrio agradvel sobre o meu aspecto fsico.
- Oh, meu Deus, ser verdade? - perguntou Justine, parecendo
espantada. - Juro que tenho pensado nisso muitas vezes, e nunca com
desaprovao. - E por uma razo qualquer, ajuntou,  pressa: - Isto ,
refiro-me a coisas assim, como a sua aparncia quando veste um fato.
 Ele no respondeu, mas sorria, como se acariciasse um ensamento
muito agradvel.
 Esse passeio com Rainer parecia ter sido a ltima coisa ttanquila
que aconteceu durante vrios dias. Pouco depais de voltar da visita
ao cardeal de Bricassart e ao cardeal di Contini-Verchese, a limusina
que Rainer alugara depositou o contingente de Drogheda no seu hotel.
Pelo canto do olho Justine abservou a raco de Rain  sua famlia,
naquele momento inteiramente composta de tios. At ao instante em
que os seus olhos no deram com o rosto da me, Justine estivera
convencida de que ela mudaria de ideias e viria a Roma. O facto
de Meggie no ter vindo foi um golpe cruel para Justine, que no
sabia se aquilo lhe doa mais Qor causa de Dane se por causa de s
prpria. Entretanta, estavam aIi os tias, de quem ela, sem dvida,
devia ser a anfitri.

 Mas eram to acanhados! Quem dentre eles era quem? Quanto
mais envelheciam, mais parecidos ficavam uns com os outros. E em
Roma pareciam - como no podia deixar de ser - turistas australianos
a passar frias em Roma. Todos envergavam a roupa de ver a Deus
dos fazendeiros abastados: botas escuras de montar cozn elstico dos
lados, calas de cor neutra, casacos desportivos escuros de l felpuda,
pesada, com aberturas laterais e mutas remendos de cauro, camisas
brancas, gravatas de l tricotada, hapus cinzentas de capa achatada
e abas largas. Aquela indumentria no constituiria novidade alguma
nas ruas de Sidnei na altura da Exposio Real da Pscoa, mas num fim
de Vero romano era extraordinria.
 aE posso dizer com toda a sinceridade, era reciso agradecer
a Deus a presena de Rain! Como  bom para eles! No acreditaria
que algum fosse capaz de fazer Patsy falar, mas ele conseguiu-o
Conversam como velhas comadres. E onde arranjaria Rainer cerveja
australiana? Parece gostar deles e estar interessado nas suas essoas.
Tudo serve de gro para moer no moinho de um poltico industrial
alemo, no  verdade? Como pode apegar-se  sua f, sendo o que
se sabe? Um enigma, eis o que  Rainer Moertheim. Amigo de papas
e cardeais, meu amigo. Se no fosse to feio dar=lhe=ia um beijo de
gratido. Imagine-se s eu em Roma com os tios e sem Rain! Rain,
ohuva, Rain, o bem-aparecido. ,
 Ele estava recostado ao espaldar da poltrona, .prestando ateno
ao que Bob lhe dizia sobre tosquia, e, no tendo nada rpara fazer porque
ele se encarregara de tudo, Justine observava-o, curiosa. Na maior parte
das vezes notava de pronto todos os atributos fsicos das pessoas,
mas, de vez em quando, essa vlgilncia afrouxava e os outros aproxi-
mavam-se dela sem serem pressentidos, talhando um nicho na sua vida
antes que ela tivesse feito essa primeira e vital avaliao. De facto,
quando no era feita, s vezes passavam-se anos at voltarem
a irtomper-lhe entre os ensamentos, como estranhos, tal como agora,
observando Rain. Est visto que o responsvel fara o seu primeiro
encontro, no decorrer do qual ela, embora cercada de homexrs da Igreja,
atemrizada, assustada, enfrentara a situao. Mas s reparara no mais
evidente: a constituio vigorosa, o cabelo, a pele trigueira. Depois,
quando a levara a jantar, perdera-se a oportunidade de rectificar as coisas,
,pois Rainer obrigara-a a tomar conscincia dele de vm modo que lhe
tr nsoendia os atributos fsicos; ela stivera to interessada no que
a boca dizia que no alhara para a boca.

536 539

 Justine chegava agora  concluso de que ele, na verdade, no tinha
nada de feio. Apenas parecia ser o que era, uma mistura do melhor
e do ior, como um imperador romano. No admirava que amasse Roma,
era o seu lar espiritual. Rosto largo, malares altos e amplos, nariz
pequeno mas aquilino; sabrancelhas grossas e negras, rectas em vez
de seguir a curva das rbitas; crlios femininos e pretos, muito longos,
e olhos bonitos e escuros, quase sempre fechados para esconder os
pensamentos. O trao mais bonito, sem dvida, era a boca, nem pequena
nem grande, mas muito bem modelada, com um corte distinto nas
comissuras dos lbios, nem grossos nem finos, e uma firmeza peculiar
no modo de ser usada, como se ele, caso viesse a afrouxar o seu domnio
sobre ela, se arriscasse a revelar segredos acerca da sua verdadeira natu-
reza. Era interessante pr de parte um rosto j to conhecido, mas que,
na realidade, no era nada conhecido.
 Saindo do seu devaneio, Justine percebeu que Rainer a surpreendera
a observ-lo, e sentiu a impresso de ter sido desnudada diante de uma
multido armada de pedras. Por um momento os olhos dele fixaram-se
nos dela, arregalados e alertados, no exactamente surpresos, mas fasci-
nados. Em seguida, muito calmo, ele transferiu o seu olhar para Bob
e fez-lhe uma pergunta pertinente sobre pntanos. Justine sacudiu-se
mentlmente e disse a si mesma que no devia pr-se a imaginar coisas.
No entanto, era fascinante ver de repente um homem, que fora seu
amigo durante anos, como possvel amante, e no achar a ideia
repulsiva.
 Arthur I,estrange tivera sucessores, e ela no sentira vontade de rir.
<<Percorri um longo trajecto desde aquela noite memorvel. Mas terei
realznente progredido?  muito agradvel ter um homem, mas no
quero saber do que Dane disse a respeito de ser o nico. No farei
dele o nico homem, de modo que no dormirei com Rain. Isso mudaria
muitas coisas e eu perderia um bom amigo. Preciso do meu amigo,
no posso dar-me ao luxo de ficar sem ele. C'onserv-lo-ei como con-
servo Dane, um ser humano do sexo masculino sem qualquer signifi
cado fsico para mim. ,

 Podendo abrigar vnte mil pessoas, a igreja no estava cheia.
Em parte alguma do mundo tanto tempo, tantas ideias e tanto gnio
tinham sido empregados na criao de um templo de Deus, que reduzia
 expresso mais simples as obras pags da Antiguidade. Tanto amor,
tanto suor! A baslica de Bramante, o domo de Miguel ngelo, a colunata
de Bernini. Um monumento erguido no s a Deus mas tambm ao

PASSAROS FERIDOS

 homem. Nas profundezas da confessio, numa alcovazinha de pedra,
 o pr,prio So Pedro estava sepultado; aqui fora coroado o imperador
 Carlos Magno. Os ecos de velhas vozes pareciam sussurrar entre as
 lascas de luz que 'fluam, dedos mortos poliam os raios de ronz atrs
 do altar-mor e acariciavam as brnzeas colunas torcidas do baldaquino.
 Dane estava deitado sobre os degraus, o rosto voltado para baixo,
 como morto. Em que estaria a pensar? Haveria nele um sofrimento,
 que no tinha o direito de existir, porque a me no viera? O cardeal
 Ralph olhou atravs das lgrimas e soube que no havia sofrimento.
 Antes assim; depois, com certeza; mas agora, nenhum. Tudo nele se
 projectava para o momento, para o milagre. Nele s havia lgar para
 o que fosse Deus. No seu grande da, nada importava alm da tarefa
 actual, a entrega da sua vida e da sua alma a Deus. Era provvel que
 ele soubesse faz-lo, mas quantos outros, de facto, o tinham feito?
 No  fizera o cardeal Raliph, embora ainda se lembra.sse da sua orde-
 nao, cheia de sagrado assombro. Tentara-o com todas as suas foras e,
 no obstante, retivera qualquer coisa.
 <<A minha ordenao no foi assim to solene, mas eu revivo,a
 atravs dele. E pergunto-me a mizn mesmo o que  ele realmente
 para que, a despeito dos nossos receios, >assasse entre ns tantos anos
 sem um desafecto, quanto mais um verdadeiro inimigo. Amado por
 todos, a todos ama. Nunca lhe ocorre que esse estado de coisas  invul-
 gar. E, no entanto, quando aqui che ou, no estava to s guro de si;
 ns demos-lhe isso, e isso talvez justifique as nossas existncias.
 Muitos adres foram eitos aqui, milhares e mi ares, mas para ele
 h qualquer coisa de especial. Oh, Meggie, porque no vieste ver
 o presente ue deste a Nosso Senhor - o presente que no pude dat-
- lhe, pois j me havia dado a Ele? E creio que por isso Dane de
 estar hoje aqu livre do sofrimento, porque recebi oderes para ficar
 com o seu sofrimento, a fim de libert-lo dele. Choro as suas lgrimas,
 ponho luto no seu lugar. E  assizn que deve ser.H
 Mais tarde virou a cabea e olhou para a fleira de gente de Dro-
 gheda, que ostentavam estranhos fatos escuros. Bob, Jack, Hughie,
 Jims, Patsy. Um lugar vazio para Meggie, de>pois Frank. O cabelo
 flamejnte de Justine obscurecido por um vu de renda preta, a nica
 rnulher da famlia Cleary que se achava resente. Ao lado dela, Rainer.
 is, uma poro de gente que ele no conheria, mas que participava
 to lenamente da cerimnia como a de Drogheda. S que hoje era
- diferente, era um dia especial. Hoje quase se sentia como se tambm

538 539

tivesse um filho para dar. Sorriu e suspirou. Que sensao experimen-
taria Vittorio, otorgando o sacerdcio a Dane?

 Talvez por sentir to agudamente a ausncia da me, Justine foi
a primeira pessoa com quem Dane conseguiu falar a ss na recepo
que o cardeal Vittorio e o cardeal Ralph Ihe ofereceram. Com a batina
preta e o colarinho branco e alto, estava magnfico, pensou ela, s que
no arecia um padre. Dir-se-ia antes um actor que representasse o Qapel
de padre, at repararmos nos olhos dele. E l estava ela, a luz interior,
aquele algo que o transformava de um homem muito bem~parecido
num omem nico.
- Padre O'Neill - disse.
- Ainda no me habltuei a isso, Jus.
- No  difcil de compreender. Nunca me senti como hoje em
So Pedro, de modo que nem posso imaginar romo foi tudo para ti.
- Creio que podes, sim, n lgum lugar do teu ntimo. Se realmente
no pudesses, no serias to boa actriz. Mas, Jus, isso vem do incoms-
ciente; s aparece na mente quando precisas de us-lo.
 Estavam sentados num sofazinho num canto afastado da sala,
e ningum apareeeu para erturb-los.
 Volvido algum tem po, Dane disse:
- Fiquei contente ipor Frank ter vindo - disse, olhando para onde
o tia conversava com Rainer, com uma expresso animada no rosto que
os sabrinhos ainda no lhe tinham visto. -Conheo um velho padre
romeno refugiado - continuou Dane - que tem uma maneira de dizer
 cpabrezinho! >, com tamta compaixo na voz... no sei, mas, seja como
for,  o que sempre me surpreendo a dizer quando penso no nosso
Frank. E, no entanto, Jus, porqu?
 Justine ignorou o jago e foi directamente  questo.
- Eu seria capaz de matar a me! - murmurou, entre dentes.-
Ela no tinha o direito de te fazer o que fez!
- Oh, Jus! Eu compreendo. E tu tambm precisas de tentar
compreender. Se ela o tivesse sido feito por maldade ou por es,prito
de vingana, poderia magoar-me, mas tu conhece-la to bem como eu
e sabes que no foi por isso. Irei a Drogheda e, quando for, conversarei
com ela e deseabrirei o que aconteceu.
- Suponho que as filhas nunca tm tanta pacincia para as mes
como os filhos. - Ela baixou os cantos da boca com ex presso.pesarosa
e estremeceu. - Talvez seja bom eu pertencer to entranhadamente
ao tipo solitrio, assim nunca me imporei a ningum no garpel de me.

540

 Os olhos azuis transbordavam de bondade e ternura; Justine sen-
tiu a pele arrepiar-se-lhe toda ao pressentir que Dane sentia pena dela.
- Porque no casas com Rainer? - perguntou ele, de repente.
 O queixo dela caiu, enquanto abra a boca, assombrada.
- Porque ele nunca me pediu em casamentc - respondeu, com
voz fraca.
- Talvez porque no o aceitarias. Mas isso pode arranjar-se.
 Sem pensar, ela agarrou-o pela orelha, como costumava fazer
quando eram crianas.
- No te atrevas, meu palerma de coleira! Nem uma palavra,
entendeste? Eu no amo Rain! Ele  apenas um amigo e quero conser-
v-lo assim. Se chegares a falar nisso, juro que me sentarei e rogarei
uma praga, e deves lembrar-te de como isso costumava apavorar-te, no
te lembras ?
 Ele lanou a cabea para trs e riu-se.
 . -No resultaria, Justine! Hoje em dia, a minha mgica  mais
forte do que a tua. Mas no  preciso ficares to nervosa por causa
disso. Enganei-me, mais nada. Pensei que houvesse um caso entre ti
e Rain.
- No, no h. Aps sete ans? S por um milagre. - Fazendo
uma pausa, ela pareceu procurar as palavras e depois olhou quase tmida
para ele. -Dane, sinto-me to feliz por ti! Se estivesse aqui, creio
que a me sentiria o mesmo. No  preciso mais nada; basta que te
veja agora, assim. Espera um pouco, que ela acabar por aparecer.
 Com extrema delicadeza ele tomou-lhe o rosto afilado entre as mos,
sorrindo com tanto amor que as mos de Justine se ergueram para
agarrar=lhe os pulsos e absorv-lo por todos os poros, como se todos
os anos de infncia fossem recordadas e entesourados.
 Entretanto, por trs do que viu nos olhos dele, Justine sentiu
uma dvida vaga; a palavra dvida, alis, talvez fosse demasiado forte;
 possvel que ansiedade soasse melhor. Ele estava quase certo de que
a me acabaria por compreender, mas era humano, conquanto todos,
menos ele, tendessem a esquecer o facto.
- Jus, fazes-me um favor? - perguntou, quando a largou.
- O que quiseres - disse a jovem, com sinceridade.
- Tenho uma espce de folga, para pensar no que vou fazer.
Dois meses. E pretendo pensar com calma montado num cavalo de
Drogheda, depois de ter falado com a me... de certo modo sinto que
no poderia resolver coisa alguma enquanto no tiver falado com ela.
Ma5 przmeiro, bem... Preciso criar coragem para ir para casa. Por isso,

541

PASSAROS FERIDOS

se for possvel arranjares maneira de ir ao Pelaponeso comigo passar
duas semanas, d-me vrias descomposturas at que eu fique to can-
sado de ouvir a tua voz que me enfie num avio e fuja. - Ele sorriu-
-lhe. - Alm disso, Jussy, no quero que penses que tenciono excluir-te
da minha vida, como tambm no tenono excluir a me. Precisamos
de ter Qerto a sua velha conscincia, de vez em quando.
- O h, Dane,  claro que irei!
- ptimo - disse ele; depois sorriu, fitando-a com malcia.
-Preciso realmente de ti, Jus. Ter-te de zzovo rezingando aas meus
ouvidos  como voltar aos velhos tempos.
- I1h, hwh, uh! Nada de obsce ndades, :padre O'Neill!
 Ele cruzou os braos atrs da cabea e apoiou-se no encosto do
sof, com uma expresso de contentamento.
- Eu sou! No  maravilhoso? E talvez, dpois de ter visto
a me, possa concentrar ne em Nosso Senhor. Creio que  para isso
que tendem as minhas inclinaes, camo abes. Pensar simplesmente
em Nosso Senhor.
- Devias ter entrado para uma ordem, Dane.
- Ainda posso faz=lo e pravavelmente f-lo-ei. Tenho uma vida
inteira  frente; no h ressa.

 Justine deixou a festa em com anihia de Rainer e, depois de ela
falar em ir para a Grcia com Dane, ele falou em ir para o seu escri-
trio em Bona.
- J no  sem tempo - disse ela. - Para um ministro, no
parece rttabalhar muito, no  verdade? Todos os jornais lhe chamam
playboy, dizem que anda a divertir-se or a com aetrizes australianas
com cabelo cor de cenoura.
 Ele brandiu o punho enorme para ela.
- Eu pago bem pelos meus poucos prazeres, e de uma maneira
que jamais ser capaz de imaginar.
- Importa-se de andar, Rain?
- No, se a Justine no descalar os sapatos.
- Hoje no posso. As minissaiais tm as suas desvantagens;
os dias das meias que se podiam tirar com facilidade j se foram. Inven-
taram uma verso de meias calas que no se podem tirar em sblico
sem rovocar um escndalo igual ao de Lady Godiva. E por isso mesmo,
a no ser que eu queira estragar um par de meias-calas que me custa-
ram cinco guinus, estou aprisionada nos meus sapatos.

542

- Pelo menos, aprimora a minha educao em matria de rou as
femininas, tanto de baixo como de cima - disse Rainer, suavemente.
- Pois sim! Aposto que tem pelo menos uma dzia de amante5
 es a todas.
e as d pe
- S
>zglig.

uma, que, como todas as boas amantes, me es pera de

- Sbe que at agora nunc
coisa fascinante! Como  a sua
- Loira, gorda, quarentona
 Ela arou de sbito.
-Est a gozar-me

i discutimos a sua vida sexual? Que
 znante?
e flatulenta.
disse, de agar. - No consigo imagin-lo
com uma mulher assim.
- Porque no ?
- Porque tem muito bom gosto.
 . -Chacun  son gout, minha querida. Eu tambm no sou l
grande coisa para se olhar... e, portanto, porque haveria de su por-me
capaz de seduzir uma mulher jovem e banita e fazer dela zninha amante?
- Porque pode! - disse Justne, indignada. -  claro que pode!
- Por causa do meu dinheiro?
- No, no  por causa do seu dinheiro! Est a arreliar-me como
sempre! Sabe muito bem como  atraente, pois de contrrio no andaria
por a com medalhes de ouro nem camisas transparentes. A beleza
no  tudo... e, mesmo que fosse, eu ainda teria as minhas dvidas.
- A sua preocu ao comigo  tocante, herzcben.
- Porque ser que quando estamos juntos tenho a impresso de
estar sempre a correr para alcan-lo e nunca consigo? - A sua explo-
so de clera morreu; Justine quedou-se a olhar ambiguamente para ele.
-No est a falar a srio, ois no?
- Acha que estou?
- No! Embora no seja vaidoso, o Rainer sabe como  atraente.
- Se sou ou no, pouco importa. O importante  que a Justine
me julgue atraente.
 Ela ia dizer: u claro que o julgo; no h muito tempo experi-
mentei-o mentalmente como amante, mas cheguei  concluso de que
no daria certo; prefiro continuar a t-lo como amigo.>> Se Rainer
a vesse deixado dizer isto, concluiria que o seu momento ainda no
chegara e agiria de modo diferente. Acontece, porm, que, antes que
Justine pudesse modelar as palavras, ele tomou-a nas braos e beijou-a.
Durante sessenta segundos, pelo menos, ela sentiu-se morta, dividida,
esmagada, enquanto a sua fora interior gritava em selvagem exaltao

543

por encontrar uma fora semelhante. A boca de Rainer era bela! E o seu
cabelo, incrivelmente basto, vital, era algo para agarrar furiosamente
com os dedos. Depois ele tomoulhe o rosto entre as mos e fitou-a,
sorrindo.
- Eu amo-a - disse.
 As mos de Justine haviam-lhe agarrado os pulsos, mas no
os envolveram com delicadeza, como tinham feito aos ;pulsos de Dane;
as unham penetraram a carne, laceraram-na selvatcamente. Ela recuou
dois passos e quedou=se a esfregar a boca com o brao, os olhos dila-
tados de medo, o peito arfando.
- No daria certo - arquejou. - Nunca poderia dar certo, Rain!
 Os sapatos caram=lhe dos ps; ela abaixou-se para apanh-los,
voltou-se e largou a correr, e dali a trs segundos o rudo rpido e macio
dos seus ps desvanecera-se.
 Embora Ralner no tivesse intenes de segui=la, Justine pensou
que ele poderia faz=lo. No entanto, Rainer limitou-se a olhar os pulsos,
que sangravam e lhe doam. Conlprmiu o leno primeiro num e depois
no outro, encolheu os ombros, guardou-o e ali se quedou, concentrado
na dor. Volvido algum tempo, tirou do bolso a cigarreira, puxou de
um cigarro, acendeu-o e ps-se a caminhar sem pressa. Ningum que
passasse por ali poderia dizer, ao ver-lhe o rosto, o que ele estava
a sentir. Acabara de perder tudo o que almejava ter ao seu alcance,
bastando-lhe para isso estender a mo. Criana idiota. Quando cres-
ceria? Sentira-o, respondera lhe e repudiara-o.
 Contudo, ele era um jogador, do tipo que ganha pouco e perde
pouco. Esperara sete longos anos para tentar a sorte, e pressentira
a mudana que se operara nela no dia da ordenao. Aparentemente,
 orm, movera-se demasiado cedo. Pacincia. Havia sempre o amanh-
ou, conhecendo Justine, o ano seguinte, dois anos depois. Ele, por
certo, no desistiria. Se a vigiasse com ateno, um belo dia teria sorte.
 O riso sem som estremeceu dentro de Rainer; loira, gorda, quaren-
tona e flatulenta. Ele prprio no sabia o que o levara a preferir essa
frase, a no ser que, muitos anos antes, lhe fora dita pela sua ex-esposa.
A tpica definio das vtimas de clculos biliares. A pobre Annelise
vivera martirizada por eles, se bem que fosse morena, magra, cinquen-
 tona e to bem arrolhada como um gnio numa garrafa. <<A troco de
qu estou a pensar agora em Annelise? A minha paciente campanha
 de anos falhou, e no posso haver-me melhor do que a pabre Annelise.
Mas no perde por esperar, Fr ulein Justine O'Neill!

544

Havia luzes nas janelas

do palcio; subiria por alguns minutos
e daria dois dedos de conversa com o cardeal Ralph, que areua ter
envelhecido. No estava com bom aspecto, talvez devesse ser persua-
dido a submeter-se a um exame mdico. Rainer sofria, mas no por
 ustine ela era nova havia tem. Sofria, antes, pelo cardeal Ralph,
que vira ordenar=se o prprio filho, e no o sabia.

 Ainda era cedo, de modo que o trio do hotel estava cheio de
gente. Justine atravessou-o, r,pida, em direco  escada e galgou
os degraus de cabea baixa. Como as suas mos trmulas no encon-
trassem a chave do quarto na bolsa, sups que talvez tivesse de descer
outra vez e enfrentar a multido aglomerada diante do balco de recep-
o. Mas l estava ela; os seus dedos deviam t la tocado uma dzia
de vezes.
 Entrando, afinal, chegou tacteando  cama, sentou-se na eira
e deixou que os pensamentos coerentes Ihe voltassem aos poucos. C;om
os olhos tristemente fitos no am lo rectngulo de luz plida que o cu
nocturno projectava atravs da janela, sentindo vontade de roferir
obscenidades, sentindo vontade de horar, dizia a si mesma que estava
revoltada, horrorizada, desiludida. Agora nunca mais seria a mesma coisa
e isso era uma tragdia. A perda do amigo mais querido. Traio.
 Palavras vazias, falsas; de sbito, compreendeu erfeitamente
o que tanto a ass;xstara, o que a levara a fugir de Rain como se ele
tivesse tentado mat-la e no beij-la. A certeza de tudo! A sensao
de tegresso ao lar quando ela no queria voltar ao lar, como no queria
o compromisso do amor. O lar era a frustrao, como a frustrao era
o amor. E no era s isso, ainda que admiti-lo fosse humilhante; ela
no tinha a certeza de poder amar. Se fosse capaz, ter-se-ia, por certo,
descuidado uma ou duas vezes; teria, por fora, experimentado uma
ou duas vezes algo mais que a tolerante afeio pelos seus amantes
ocasionais. No Ihe ocorria que ela escolhia de propsito parceiros que
nunca ameaariam o alheamento que a si mesma se impusera e que,
agora, de tal modo fazia parte dela que o considerava totaln,ente natu-
ral. Pela primeira vez na vida faltava-lhe um ponto de referncia. No
havia ocasio no passado em que pudesse encontrar conforto, nenhum
envolvimento outrora rofundo, nem para si nem para esses vagos
amantes. To pouco a gente de Drogheda Ihe rpoderia valer, porque ela
tambm a evitara sem re.
 Fora=lhe precisn fugir de Rain. Dizer sim, comprometer=se com
ele, e, depois, v-lo recuar ou descobrir a extenso das suas falhas?

545

Isso ser-lhe-ia insuportvel! Ele ficaria a saber como ela era realmente,
e deixaria de am-la. Ser=lhe-ia insuportvel dizer sim e acahar por ser
repelida para sempre. Era muito melhor que ela mesma o tepelisse
primeiro. Desse modo, pelo menos, salvava-se o orgulho, e Justine Qos-
sua tanto orgulho como a me. Rain nunca deveria saber como ela era
debaixo de toda aquela petulncia.
 Rain apaixonara-se pela Justine que via, pois ela nunca lhe dera
a oportunidade de desconfiar do mar de dvidas que havia sob a super-
fcie. Destas, s Dane desconfiava - ou melhor, sabia.
 Justine inclinou a cabea e encostou a testa ao tampo frio da mesi-
nha-de-cabeceira, enquanto as lgrimas Ihe corriam pelo rosto. Era por
isso, naturalmente, que amava tanto o irmo, pois ele embora soubesse
como era a verdadeira Justine, contlnuava a querer-lhe. O sangue aju-
dava, como ajudava tambm uma existncia inteira de recordaes,
problemas, sofrimentos e alegrias partilhadas, ao asso que Rain era
um estranho, no estava comprometido com ela como Dane, nem mesmo
como os outros membros da famlia. Nada o obrigava a am la.
 Justine fungou, assou a palma da mo pelo rosto, encolheu
os ombros e encetou a difcil tarefa de empurrar o safrimento para
algum canto afastado do esprito, onde poderia ficar pacificamente
esquecido. Sabia que poderia faz-lo, pois passara a vida inteira a a per-
feioar a tcnica, s que isso significava uma actividade incessante, uma
contnua absoro em coisas exteriores. Estendeu a mo e acendeu a lm-
pada da mesa-de-cabeceira.
 Um dos tios devia ter levado a carta ao quarto dela, pois estava
em cima do toucador uma carta azul-celeste com a rainha Isabel no
canto superior.
 <<Querida Justine>>, escrevia Clyde Dltinham-Roberts, < volta ime-
diatamente ao aprisco, onde ests a ser necessria! H um papel a mais
no repertrio da prxima tempotada, e um passarinho dsse-me que
talvez o desejes. Desdmona, querida? Com Marc Sim son no papel de
Otelo? O s ensaios para os actores rincipais comearo na prxima
semana, se estiveres interessada. >
 Se estava interessada! Desdmona! Desdmona em Londres! E com
Marc Si mpson como Otelo! A aportunidade da sua vida. A disposio
de esprito melhorou a tal panto que a cena com Rain perdeu todo
o significado, ou melhor, assumiu um significado diferente. Se fosse
muito, muito cuidadosa, talvez lograsse conservar o amor de Rain; uma
 actriz muitssimo aplaudida e muitssimo bem-sucedida andava sempre
 to ocupada que no podia repartir grande parte da sua vida com

546

os amantes. Valia a pena tentar. Se ele parecesse estar a aproximar-se
demasiado da verdade, Justine poderia reeuar outra vez. Para manter
Rain na sua vida, sobretudo esse novo Rain, faria qualquer coisa,
extepto tirar a Znscara.
 Nesse interregno notcias como aquela mereciam uma comemora-
o especial. Ela ainda no se sentia preparada para en;frentar Rain,
mas havta outras pessoas  mo que poderiam partilhar do seu triunfo.
Tornou a calar os sa atos, desceu o corredor at chegar  sala de estar
dos tios e, quando Patsy lhe abriu a porta, assomou  soleira, radiante,
de braos abertos.
- Tragam a cerveja, que eu vou ser Desdmona! - anunciou em
tom triunfante.
 Por um momento ningum respandeu. Depois Bob exclamou,
calorosamente :
- Isso  ptimo, Justine.
 O prazer dela no se evaporou; ao contrrio disso, cresceu at se
transformar numa exaltao incontrolvel. Rindo-se, deixou-se cair
numa paltrona e ps-se a olhar para os os. Que homens realmente
encantadores eram eles!  claro que a notcia no l!hes dizia coisa
alguma, pois no faziam a menor ideia de quem fosse Desdmona.
Se ela tivesse vindo contar-lhes que ia casar, a resposta de Bob seria
a mesma.
 Desde que se considerava gente, os tios faziam parte da sua vida,
e tristemente dispensara-os com o mesmo desdm com que dispensara
tudo o que dizia res peito a Dragheda. Os tios, uma luralidade que
nada tinha que ver com Justine O'Neill. Simples membro de um con-
glomerado, que entravam e saam de casa, sorriam timidamente para ela
e evitavam-na quando a sua presena significava conversao. Justine
com reendia agora que eles no o faziam por no gostarem dela, mas
s por sentirem quanto lhes era alheia, o que os deixava constrangidos.
Mas naquele mundo romano, estranho para os tios e familiar para ela,
Justine comeava a compreend-los melhor.
 Sentindo por eles um calor que poderia chamar amor, Justine
passou de um rosto enrugado e risonho para o seguinte. Bob, que era
a fora vital da unidade, o patro de Drogheda, mas de uma forma
discreta; Jack, que a penas parecia seguir o irmo de um lado para
outro, ou talvez desse essa impresso por se entenderem ambos to
bem; Hughie, dono de um trao de malcia que os outros dois no
 ossuam, mas que, apesar disso, se parecia tanto com eles; Jims e Patsy,
os lados positivo e negativo de um lnesmo todo auto uficiente;

547

PASSAROSFERIDOS

e o pabre e apagado Frank, o nico que parecia atormentado pelo
medo e pela insegurana. Todos, com excepo de Jims e Patsy, esta-
vam grisalhos, e Bab e Frank tinham at o cabelo inteiramente ranco,
mas no pareciam diferentes dos tios que ela conhecera quando
 equena.
- No sei se te devo dar cer eja - disse Bab em tom de dvida,
segurando uma garrafa g lada de Swan na mo.
 A observao t-la-ia enfadado rofundamente seis horas antes,
mas, naquele momento, sentia-se to feliz que no poderia ofender-se.
- Oua, tio, sei que nunca lhe ocorreu oferecer-me um copo de
cerveja durante as nossas reunies com Rain, mas posso garantir-lhe
que j sou crescida e capaz de enfrentar uma cerveja. Juro que no
 pecado-acrescentou, sorrindo.
- Onde est Rainer? - perguntou Jims, tirando da mo de Bob
um copo cheio e estendendo-lho.
- Zanguei-me com ele.
- Com Rainer?
- Com ele, sim, mas a culpa foi minha. Irei v-lo mais tarde
e dir-lihe i que estou arrependida.
 Nenhum dos tios fumava. Conquanto nunca ivesse bebido cerveja
com eles, noutras ocasies ela desafiara-os, fumando na sua resena
enquanto conversavam com Ran; agora precisaria de uma coragem
de que no dispunha pra exibir os seus cigarros, de modo que se
contentou com o triunfo menor da cerveja, morta por emborcar o co o
e beb-la de um s golo, mas atenta ao olhar dbio dos tios. <<Pequenos
sorvos, como convm a uma dama, Justine, mesmo que estejas mais
seca do que um limo em segunda mo.>i
- Rainer  um sujeito formidvel - disse Hughie, com os olhos
a brilhar.
 Espantada, Justine compreendeu de repente porque subira tanto
no conceito dos tios: atrara um homem que eles gostariam de ter
na amlia.
- Ile facto,  farmidvel - disse secamente, e mudou de assunto.
-Foi um dia delicioso, no foi?
 Todas as cabeas oscilaram em unssono, at a de Frank, mas
no ipateciam dispostos a discutir o caso. Embora percebesse que esta-
vam cansadssimos, ela no se arrependeu do seu impulso de visit-los.
Era preciso algum tempo para que sentidos e sentimentos quase atro-
fiados aprendessem as funes corres pondente-s, e os tios constituam
um bom alvo para essa prtica. Era o inconveniente de se ser uma ilha;

548

uma pessoa esquecia-se de que aconteciam coisas alm das prprias

plagas.
- Quem  Desdmona? - perguntou Frank do meio das sombras
em que se escondia.
 Justine fez uma descrio an;mada, encantada pelo harror que eles
demonstraram ao saber que ela seria estrangulada uma vez por norte,
e ; se lembrou de que deviazn estar a morrer de cansao meia hora
depois, quando Patsy bocejou.
- Vou-me embora - anunciou, colocando o copo vazio sabre
a mesa. No lhe haviam aferecido segundo copo; um, aparentemente,
era o limite para as damas. - Obrigada por prestarem ateno s minhas
palermices.
 Para grande surpresa e confuso de Bob, Justine deu-lhe um beijo
ao dizer-lhe boa noite; Jack tentou sair de lado, mas foi apanhado com
facilidade, ao passo que Hughie aceitou jubiloso a despedida. Jims ficou
muito vermelho, e suportou a provao sem dizer uma palavra. Para
Patsy, u m beijo e um abrao, pois ele prprio era uma ilha tam!bm,
e para Frank, que desviou a cabea, nada de beijos; quando, no entanto,
o abraou, ela sentiu o tnue eco de uma intensidade qualquer que no
abservara nas outros. Pobre Frank. Porque era assim?
 Do lado de fora da porta, Justine encostou-se por um momento
 parede. Rain amava-a. No entanto, quando tentou telefonar para
o quarto dele, a telefonista informou-a de que ele pagara a conta
e regressara a Bona.
 No fazia mal. Ile qualquer maneira, talvez fosse mel hor v-lo
em Londres: um contricto pedido de desculpas pelo correio e um con-
vite para jantar na prxima vez que ele visitasse a Inglaterra. Havia
muitas coisas que ela ignorava a respeito de Rain, mas de uma carac-
terstica no tinha dvida alguma; ele viria, porque no possua um
nico osso mesquinho em todo o corpo. Desde que os assuntos relativos
ao estrangeiro se haviam tornado o seu forte, a Inglaterra era um dos
seus mais constantes portos de escala.
- Espera e vers meu rapaz - disse, olhando para o espelho
e vendo nele o rosto de Rain em lugar do seu. - Farei da Inglaterra
o teu assunto estrangeiro mais importante, ou no me chame Jus-
 O ill

une 'N.
 Na lhe ocorrera que talvez, no que lhe dizia
dela era, com efeito, o ponto crucial do prablema.
de comportamento haviam sido est belecidos e o
inclua entre eles. Nunca lhe passara pela c bea a

respeito, o nome
Os seus adres
 asamento no se
hiptese de Rain

549

PASSAROS FERIDOS

poder querer transform la em Justine Hartheim, pois estava demasiado
oc<vpada em lembrar-se da qualidade do beijo dele e em sonhar com mais.
 Restava-lhe apenas participar a Dane que no poderia acompanh-lo
 Grcia, mas no estava reocupada com isso. Dane compreenderia,
s que, de um modo ou de outro, Justine pensava que no lhe devia
contar todas as razes por que no poderia ir. Embora o emasse muito,
no se sentia disposta a ouvir a homilia severssima que ele, por certo,
no deixaria de pregar-lhe. Dane queria que ela casasse com Rain e, por
isso mesmo, se Justine lhe contasse quais eram os seus planos em relao
a Rain, ele lev-la-ia at  Grcia, nem que fosse  fora, dentro de
alguma carroa. O que os ouvidos de Dane no ouvissem, o seu cotao
no sentiria.

 <<Querido Rain>>, dizia a nota. <<Desculpe-me por haver sado
a correr como uma cabra espantada maquela noite, no sei o que me
 assou pela cabea. Creio que foi o dia agitado e tudo o mais que
aconteceu. Peo lhe que me perdoe por haver-me com ortado como
uma perfeita idiota. Sinto-me envergonhada por haver feito tanto baru-
lho por uma coisa to insignificante. E suponho que o dia tambm
o perturbou a si. Refiro-me s suas palavras de amor e ao resto. Por isso
vou fazer-lhe uma proposta : voc perdoa-me e eu perdoo-lhe. Sej amos
amigos, por favor. No suporto a ideia de estarmos zangados. Da pr-
xima vez que vier a Londres, venha jantar comigo e redigiremos for-
malmente um tratado de az.>>
 Como de costume, estava apenas assinado <<Justine>>, sem sequer
uma alavra de afeio; ela nunca as usava. De sobrolho catregado,
Rain estudou as frases artificiosamente casuais, como se pudesse ver
atravs delas o que se passava zealmente na cabea de Justine. Era, por
certo, um ofereeimento de paz, mas que mais? Suspirando, viu=se abri-
gado a admitir que provavelmente havia muito pouco mais. Rain assus-
tara-a, e o facto de Justine querer conser ar a sua amizade tevelava
quanto ele significava para ela. Contudo, Rain duvidava muito de que
Justine compreendesse com exactido o que sentia por ela. Afinal de
contas, sabia agora que ele a amava; se se tivesse examinado o sufi-
ciente para compreender que tambm o amava, t-lo-ia dito directa-
mente na carta. Entretanto, porque voltara a Londres em lugar de ir
 Gra com Dane? Rain sabia que no poderia ter sido a causa, mas,
apesar das dvidas, a esperana entrou a colorir-lhe to alegremente
os pensamentos que chamou a sua secretria. Er m dez horas da manh,
hora de Greenwich, o melhor momento para encontr-la em casa.

550

PASSAROS FERIDOS

- Ligue-me ao partamento da Senhorita O'Neill em Londres-
ordenou, e esperou os segundos subsequentes com uma contraco dos
cantos internos das sobrancelhas.
- Rain! - exclamou Justine, aparentemente encantada. - Rece-
beu a minha carta?
- Neste preciso instante.
 Depois de uma delicada pausa, a rapariga perguntou:
- E vir jantar comigo?
- Passarei em Inglaterra o prximo fim-de-semana. O prazo
 muito curto?
- No, se puder ser sbado  noite. Estou a ensaiar Desdmona,
por isso no pode ser outro dia.
- Desdmona?
-  verdade, no sabe! Clyde escreveu-me quando eu estava em
Roma e ofereceu-me o papel. Marc Simpson ser Otelo, e Clyde dirlgir
pessoalmente. No  maravilhoso? Voltei para Londres no primeiro
avio.
 Ele protegeu os olihos com a mo, dando graas a Deus par a sua
secretria estar na outra sala e no lhe po<ler ver o rosto.
- Justine, herzcben, que notcia maravilhosa! - conseguiu dizer
 ima inar o ue a teria feito voltar
eom entusiasmo. Eu estava a g q
a Londres.
- Qh, Dane compreendeu - disse ela, sem dar importncia ao
caso - e, de certo modo, creio at que gostou de ficar sozinho.
Andou a inventar uma histria a respeito de precisar de mim para
instig-lo a ir ara casa, mas creio que a razo era outra: no quer que
eu me sinta excluda da sua vida agora que  padre.
- Provavelmente - anuiu Rain, polido.
- Ento, sbado  noite - isse Justine. - Por volta das seis.
Poderemos redigir tranquilamente o nosso tratado de paz com a ajuda
de uma ou duas garrafas e eu dar-lhe- de comer depois de termos
chegado a uma soluo satisfatria. Est certo?
- Est naturalmente. Adeus, herzchen.
 O contacto foi cortado de repente pelo som do receptor de Jus-
tine ao ser desligado; Rainer ficou sentado por um momento com o seu
ainda na mo, depois encolheu os ombros e recolocou-o no gancho,
Dibo de rapariga! Estava a comear a intrometer se entre ele e o seu
ttaba'Iho.
 Isso continuou a acontecer nos dias que se seguiram, se bem que
fosse muito para duvidar de que algum suspeitasse de tal facto. E no

55I

sbado  tarde, pouco depois das seis, Rain a resentou-se no aparta-
mento de Justine, de mos a abanar como sempre, pois ela era uma
criatura difcil de lisonjear. Indiferente s flores, no comia doces e ati-
raria qualquer presente, por mais caro que fosse, descuidadamente para
um canto, depressa se esquecendo dele. Os nicos presente5 que Justine
parecia apreciar eram os que Dane Ihe dera.
- Cham anhe antes do jantar? - perguntou Rainer, olhando-a
surpreendido.
- Eu acho que a ocasio merece, no lhe parece? Afinal de con-
tas, foi o nosso primeiro rompimento definitivo e esta  a nossa ri-
meira reconciliao definitiva - respondeu Justine plausivelmente,
indicando-lhe uma poltrona confortvel e nstalando-se no tapete de pele
de canguru, com os lbios entreabertos. como se j tivesse ensaiado
as respostas para o que quer que ele pudesse dizer.
 Mas Rain sentia-se incapaz de conversar, pelo menos enquanto
no udesse avaliar melhor a disposio de esprito dela, de modo que
ficou a abserv=la em silncio. At o momento em que a beijara fora
fcil manter-se parcialmente  distncia, mas agora, tarnando a v-la
pela rimeira vez depois disso, reconheceu que as difculdades aumen-
tariam no futuro.
 At mesmo quando fosse velha era provvel que Justine ainda
conservasse algo no de todo amadurecido no rosto e no porte, como se
a feminilidade essencial passasse por ela sem se dar conta. Aquele cre-
bro frio, lgico, egocntrico, parecia domin-la completamente; para
Rain, contudo, Justne possua um fascnio to poderoso que ele duvi-
dava de poder um dia substitu-la por outra mulher. Nem ma vez
perguntara a si mesmo se ela merecia a longa luta. De um ponto de
vista filosfico era at possvel que no, mas teria isso alguma impor-
tncia? Justine era uma meta, uma aspirao.
- Est muito bonita esta noite, herzchen - disse por fim,
erguendo o copo de champanhe num gesto que era um misto de brinde
e de reconhecimento de um adversrio.
 Um lume de carvo ardia, tmido e desprotegido, na lareirazinha
vitoriana, mas Justine no parecia fazer caso do calor, enrodilhada perto
dele, com os alhos fitos em Rain. Em seguida, deps o copo na lareira
com um estalido estridente e inclinou-se ara a frente, os braos cru-
zados em torno dos joelhos, os ps nus escondidos entre as pregas de
um vestido esruro.

552

- No suporto rodeios - disse. - Foi sincero, no outro dia, Rain?
Descontraindo-se prafundamente, ele reclinou-se no espaldar da
poltrona.
- Sincero acerca de qu?
- Acerca do que disse em Roma... Que me
- Essa  a causa de tudo isto, herzchen?
 Justine afastou os olhas, encolheu os ombros,

amava

tornou a olhar para
Rain e assentiu com a cabea.
- Naturalmente.
- Porque volta ao assunto? Disse me o que pensava, e eu imagi-
nei que o convite desta noite no vsasse trazer de volta o passado, mas
antes planear o futuro.
- Oh, o Rain age como se eu estivesse a fazer uma tempestade
num copo de gua! E anda que isso fosse verdade, pade ver porqu.
- No, no posso. - Deps o copo e inclinou-se mais para
a frente a fim de observ a melhor. - A Justine deu-me a entender,
da maneira mais enftica possvel, que no queria saber do meu amor,
e eu alimentava a esperana de que tivesse pelo menas a decncia de
no discutir o assunto.
 Jamais ocorrera a Justine que esse encontro, fosse qual fosse o seu
resultado, poderia ser to desagradvel; afinal de cantas, Rainer colo-
cara-se na posio de suplicante, e devia estar  espera, com toda a humil-
dade, que ela alterasse a sua deciso. Em vez disso, ele parecia ter virado
completamente a mesa, e Justine sentia se como uma menina de escola
chamada a contas por alguma travessura idiota.
- Oua, foi voc quem alterou o status guo, no fui eu! No lhe
pedi que viesse aqui hoje  noite para eu lhe pedir perdo por haver
ferido o grande ego de Hartheim!
- Est na defensiva, Justine?
 Ela agitou-se com impacincia.
- l claro que sim, homessa! Como  que consegue fazer isso
comigo, Rain? Eu gostaria que me deixasse levar vantagem pelo menos
uma vez !
- Se eu cansentisse nisso, jogaria-me fora como um trapo velho
e sujo - disse ele, a sorrir.
- Ainda passo fazer isso, companheiro!
- Tolice! Se no o fez at agora, nunca o far. Continuar a ver-me
porque eu conservo-a em movimento... nunca saber o que h-de espe-
rar de mim.

553

- E por isso disse que me amava? - perguntou Justine dolorosa-
mente. - Foi apenas uma brincadeira para manter-me em movimento?
- Que acha?
- Acho que  um grandessssimo bastardo! - disse a jovem entre
dentes e caminhando de joelhos sobre o tapete at chegar suficientemente
perto dele para Ihe mostrar toda a sua clera. -Diga outra vez que
me ama, seu alemo de uma figa, que eu cuspo-lhe na cara!
 Ele tambm estava zangado.
- No, no tornarei a diz lo! No foi para isso que me convidou
a vir, ou foi? Os meus sentimentos no a preocupam minimamente,
Justine. Convidou-me a vir a fim de poder experimentar os seus pr-
prios sentimentos, e nem sequer pensou se estava a ser ou no justa
comigo.
 Antes que Justine pudesse afastar-se, Rainer inclinou-se para
a frente, agarrou lhe os braos perto dos ombros e ptendeu-lhe o corpo
entre as pernas, segurando-a com firmeza. A raiva dela dissipou-se de
pronto: achatou as palmas das mos sabre as coxas dele e ergueu o rasto.
Mas Rainer no a eijou. Soltou-1!he os braos e virou-se para apagar
a luz que brilhava atrs dele, depois afrouxou o seu domnio sobre
Justine e descansou a cabea no espaldar da poltrona, de mado que
ela ficou sem saber se ele escurecera a sala, deixando-a alumiada apenas
pelas brasas ardentes, como primero passo para a batalha do amor ou
simplesmente para ocltar a expresso do seu rosto. Insegura, temerosa
de uma rejeio completa, esperou que lhe dissessem o que devia fazer.
Deveria ter compreendido antes que no se brinca com pessoas como
Rain, to invencveis como a morte. O que  que a impe ia de deitar
a cabea no calo dele e dizer: <<Rain, ame-me, preciso tanto de si
e estou to arrependida.>> Se conseguisse lev lo a fazer amor com ela,
alguma chave emocional, decerto, giraria e tudo acabaria por cair,
libertado...
 Ainda afastado, remoto, ele deixou-a tirar-lhe o casaco e a gravata,
mas, quando comeo a desabotoar-lhe a camisa, ele conheceu que no
daria certo. No figurava no seu re,pertro a espcie de habilidades
erticas instintivas capazes de tornar excitante a mais mundana das
aperaes. Aquilo era muito importante e ela estava a meter os ps
pelas mos. Tremeram=Ihe os dedos, eontraiu-se-lhe a boca e Justine rom-
peu em pranto desfeito.
- Oh, no! Herzchen, liebchen, no chore! - Rain puxou-a para
s, at coloc=la no colo e encostar-lhe a cabea no ombro, enquanto lhe

554

enlaava o corpo com os braos. - Desculpe-me, herzchen, eu no que-
ria faz-la chorar.
- Agor j sabe - disse Justine entre soluos. - Sou um fracasso
miservel; eu disse-lhe que no daria certo! Eu queria tanto conseiv lo,
Rain, mas sabia que no daria certo se o deixasse ver a mulher orrvel
cjue sou !
- No,  claro que no daria certo. Nem poderia dar! Eu mo
a estava a ajudar, herzehen. - Puxou-lhe o cabelo a fim de erguer-
-lhe o rosto at  altura do seu, beijou-lhe as plpebras, as faces molha-
das, os cantos da boca.- A culpa foi minha, herzchen, no foi sua.
Eu queria pagar-lhe com a mesma moeda, queria ver at onde iria sem
ser encorajada. Mas creio que interpretei mal os seus motivos, nicht
wahr? - A sua voz tornou-se mais grossa, mais alem. - E digo-lhe
uma coisa: se  isso que quer,  isso que ter, mas t-lo-emos juntos.
- Por favor, Rain, vamos desistir! No tenho o que  preciso.
S conseguirei decepcion-lo!
- Tem, sim, herzchen, j a vi no ;palco. Como pode duvidar de si
quando est comigo?
 E ele tinha tanta razo que as lgrimas dela secaram.
- Beije-me como me beijou em Roma - murmurou.
 S que no foi, de maneira alguma, como o beijo de Roma. Aquele
havia sido algo cru, assustado, explosivo; este, lnguido e profundo,
era uma oportunidade ara sahorear, cheirar, sentir, instalava-se por
camadas em voluptuoso bem-estar. Os dedos de Justine voltaram aos
botes, os de Rainer procuraram o fecho do vestido; e ele, cobrindo
a mo dela com a sua, enfiou-a por dentro da camrsa, sobre a pele
recoberta de finos plos macios. O sbito endurecrmento da boca dele
de encontro  sua garganta provocou uma respasta to aguda que Justine
teve a impresso de perder os sentidos, ;pensou estar a cair, e verifieou
que realmente caa sobre o tapete sedoso, enquanto Rain tombava
sdbre ela. Tirara a camisa, talvez mais, porm Justine no podia ver
outra caisa seno o lume lm dos ombros dele, com rimidos sobre ela,
e a boca bem feita. Decidida a destruir-lhe a disciplina para tndo
o sempre, enclavinhou os dedos no cabelo de Rain e f lo beij-la
de novo, com mais fora ainda.
 E aquele contacto! Era como voltar para casa, reconhecendo cada
parte do corpo dele com os lbias e as mos, e achando-o, apesar disso,
fabuloso e estranho. Enquanto o mundo se resumia  diminuta ampli-
tude do fago na lareira, que lambia a escurido, Justine abriu-se ara
o que Rainer queria, e aprendeu uma coisa que ele ocultara sempte,

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durante o tempo em que se tinham conhecido: deveria ter feito amor
com ela, em imaginao, um milhar de vezes. Diziam-lho a sua rpria
experincia e a sua intuio recm-nascida. Com qualquer outro homem
a intimidade e a surpreendente sensualidade t-la-iam apavorado,
mas ele obrigou-a a ver que eranz coisas que s ela tinha o direito
de exigir. E exigia-as, at gritar Ihe, afinal, que terminasse, abraando-o
com tanta fora que pde sentir-lhe os contornos dos prprios ossos.
 Os minutos fugiram, envoltos numa paz saciada. Os dois tinham
adoptado um ritmo dntico de respirao, lento e tranquilo, a cabea
de Rainer re,pousando no ombro de Justine, a perna dela atirada sabre
ele. A pouco e ouco, o a perto rgido nas costas dele afrouxou, tornou-se
uma carcia sonhadora, circular. Rainer suspirou, virou-se e inverteu
o modo como estavam deitados, convidando-a, sem dar conta disso,
a entir ainda mais profundamente o prazer de estar com ele. Justine
colocou a palma da mo sabre o flanco dele, a im de lhe sentir a con-
textura da pele, deixou que a mo escorregasse sobre o msculo quente
e envalveu com ela a massa macia e pesada na virilha. Era uma sensao
inteiramente nova, a dos movimentos vivos, independentes, dentro da
mo; os seus amantes anteriores nunca a haviam interessado ta nto que
ela desejasse pralongar a sua curiosidade sexual at esse resultado
lnguido, inexigente. De sbito, porm, ele deixou de ser lnguido
e inexigente, mas to excitante que ela pretendeu-o de novo.
 Mesmo assim, foi tomada de surpresa, conheceu um sahressalto
sufocado quando Rainer lhe enfiou o brao por trs, lhe segutnu a cabea
entre as mos e a manteve suficientemente rxima para que ela visse
que no havia nada controlado na sua boca, modelada agara exclusiva-
mente por ela e,pata ela. A ternura e a humildade nasceram nela,
literailmente, nesse momento, e devem ter-se-lhe estampado no rosto,
pois ele fitava-a com olhas to brilhantes que Justine no pQde suport-
-los e inclinou-se para prender-lhe o lbio superior entre os seus.
Pensamentos e sensaes fundiram-se por fim, mas o grito dela, abafado,
transformou-se num lamento no expresso de alegria, que a sacudiu
com tanta fora que perdeu a conscincia de tudo alm do it pulso,
da direco indiferente de cada minuto urgente. O mundo concluiu
a ua derradeira cantraco, girou sobre si mesmo e desapareceu.

 Rainer devia ter alimentado o fogo, pos quando o delicado alvo-
recer de Londres se infiltrou pelas dabras das cortinas o quarto ainda
estava quente. Desta vez, quando ele se mexeu, Justine percebellhe
os mavimentos e a arrou-lht o brao, com medo.

556

PSSAftOS FERIDOS

- No te vs!
- No me vou, herzchen. - Rainer tirou outra almofada do sof,
ajeitou-a atrs da cabea e puxou a rapariga para mais perto de si,
suspirando suavemente. - Tudo bem?
- Tudo.
- No ests com frio?
- No, mas se estiveres poderemos ir para a cama.
- Depois de fazer amor contigo durante horas sabre um tapete
de pele? Que decadncia! Nem que os teus lenis sejam de seda preta.
- So lenis brancos, velhos e vulgares. Esse pedao de Dro-
gheda, apesar de tudo, no foi mau!
- Pedao de Dra heda?
- O tapete !  feito de peles dos cangurus de Drogheda - e pli-
cou ela.
- No  suficientemente extico nem
Vou enccmendar uma pele de tigre da fndia
- Isso lembra-me um poema que ouvi c

suficientemente ertico

erta vez:

Gostarias de pecar
Com Elinor Glyn
Sobre uma pele de tigre?
Ou preferirias
Errar om ela
Sobre outra pele qualguer?

- Bem, herzchen, devo dizer que j est na hora de reagires
outra vez. Entre as exigncias de Eros e Morfeu, h doze horas que
no consegues ser irreverente - disse Rainer a sorrir.
- No sinto necessidade disso neste momento - disse Justine com
um sorriso que respondia ao sorriso dele, colocando lhe mo confor-
tavel2nente entre as suas pernas. - Os versinhos de p quebrado satam
 orque eram to bons que no pude resistir-lhes, mas mo tenho
nada para te esconder, por isso no vejo a necessidade da irreverncia.
Vs? - Aspirou o ar, subitamente cnscia de um leve cheiro de peixe
estragado. - Cus! No jantaste e j estamos na hora do pequeno-
-almoo. No podemos viver de amor!
- Pelo menos no podem es,perar-se to estrnuas manifestaes
dele!

557

PASSAROS FERIDOS

- Ora, no negues! Apreciaste bem cada um dos seus momentos.
 isto se pode resolver por algum outro modo que no seja o casamento.

-  verdade. - Suspirou, espreguiou-se, bocejou. - Duvido de No desejo ser conhecido como algum menos importante para ti do que
 um marido.
que faas ideia de toda a felicidade que estou a sentir. - No desistirei do teatro! - exclamou Justine, em tom agressivo.
- Acho que fao, sim - disse Justine tranquilamente. - Verfluchte kiste! Ningum te pediu que o fizesses! Cresce um
 Rain ergueu-se sobre um mtovelo a fim de contempl-la. pouco, Justine! Qualquer um pensaria que te estou a condenar  priso
- Diz-me uma coisa: Desdmona foi a unica razo do teu regresso perptua entre o tanque e o fogo! Sabes que no estamos na fila
a Landres? dos mendigos que esperam a distribuio do po. Paders ter quantas
 Agarrando a orelha de Rainer, Justine torceu-a. criadas quiseres, amas para as crianas e o mais que for necessrio.
- Agora  a minha vez de me vingar de todas essas erguntas - Diabo! - disse Justine, que no havia ensado em filhos.
de director de escola! Que achas? Ele atirou a cabea para trs e riu-se.
 Ele afastou com facilidade as dedos dela, sorrindo. -Oh, herzchen, isto  o que se chama a manh seguinte como
- Se no me responderes, herzchen, eu estrangular,te-ei muito manda o figurino! Eu sei que  tolice minha trazer  baila to cedo
mais eficientemente do que Marc. as realidades, mas a nica coisa que deves fazer nesta altura dos aconte-
- Voltei a Landres para interpretar o papel de Desdmona, cimentas  pensar nelas. Embora eu te esteja a avisar... enquanto tomas
mas por tua causa. No consegui ser dona de mim mesma desde a noite uma deciso, no te esqueas de que, se eu na uder ter-te por mulher
em que me beijaste em Ro ma, e ests cansado de saber disso. s um no te quererei de qualquer outro modo.
 omem muito inteligente, Rainer Moerling Hartheim. Justine abraou-o, agarrando-se-lhe com mpeto.
- To inteligente que soube que te queria para mulher desde - Oh, Rain, no faas as coisas to difceis - lamentou-se.
o ;primeiro momento em que te vi - disse ele.
 Justine sentou-se depressa. Sozinho, Dane dirigiu o seu Lagonda pela bota italiana, passando
- Mulher? por Persia, Flarena, Bolonha, Ferrara, Pdua, Veneza, indo pernoitar
- Mulher, sim. Se te quisesse para amante, t-lo-ia feito h muitos em Trieste. Era uma das suas cidades favoritas, de modo que ficou mais
anos. Sei como funciona a tua naente; seria relativamente fcil. A nica
 dois dias na costa adritica antes de enveredar pela estrada montanhosa
razo por que no o fiz foi devido a querer=te para mulher, e sabia que canduzia a Ljubljana e passar outra noite em Zagreb. A seguir,
que no estavas ainda preparada para aceitares a ideia de um marido. desceu,pelo grande vale da rio Sava, entre campos azuis de flores
- E no sei se j estou preparada agora - disse Justine, dige- de chicria, at Beograd e dali para Nis, onde voltou a pernoitar.
rindo-a. Macednia e Skopje, ainda em runas por motivo do terramoto ocorrido
 Rainer levantou-se e -puxou-a para junto de si, de modo que ficaram
 dois anas antes, e Tito-Veles, uma estncia de frias, pitorescamente
ambos de p, abraados. turca com as suas mesquitas e minaretes. urante todo o trajecto pela
- Bem, podes comear a praticar arranjando-me o pequeno-almoo. Jugoslvia comera com frugalidade, pois a vergonha no lhe consentia
Se esta casa fosse minha, eu encarregar-me-ia de te fazer as honras, sentar-se diante de um grande prato de carne quando os abitantes
mas na tua ozinha a cozinheira s tu. do lgar se contentavam com o.
- No me importo de te preparar hoje o queno-almoo, mas com- A fronteira grega em Evzane, mais adiante Tessalnica. Os jornais
prometer-me teoricamente a isso at ao dia da minha morte? - Abanou italianos tinham andado cheias de notcias acerca da revoluo que
a cabea. - No sei se  esse o meu ideal na vida, Rain. se preparava na Grcia; de p no seu quarto de hotel observando os
 Era o mesmo rosto de imperador romano, imperialmente imper- milhares de tochas agitadas que se moviam, inquietas, na escurido
turbvel ante ameaas de insurreio. da noite, alegrou=se por Justine no ter vindo.
- Justine, isto no  uma coisa com que se possa brincar, nem eu " - P p-an-dre u! Pap-an-dre-ou! Pap-an-dre-ou! - rugiam as mul-
sou pessoa para brincadeiras. Tens todos os motivos para pen$ares que tides, cazztando, formigando entre as tochas at depois da meia-naite.
sei esperar, mas tira da cabea, de uma vez por todas, a ideia de que

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559

PASSAROS FERIDOS

 N-o entanto, a revoluo era um fenmeno de cidades, de densas
concentraes de pessoas e de pobreza; a regio da Tesslia, costurada
de cicatrizes, ainda devia apresentar o aspecto que tivera para as
legies de Csar quando marchavam pelos campos de restolho queimado
no encalo de Pompeu, em Farslia. Pastores dormiam  sombra de
tendas de peles, cegonhas equilibravam-se numa perna s em ninhas
construdos sobre velhos prediozinhos brancos, e em toda a parte
a aridez era aterradora. Com o cu alto e claro, os ermos escuros e sem
rvores, a paisagem lembrou lhe a Austrlia. E as irou profundamente
o ar, comeando a sorrir  ideia de ir para casa. A me compreenderia,
quando falasse com ela.
 Acima de Larissa, chegou ao mar, parou o carro e apeou-se. O mar
homrico, escuro e cor de vinho, delicada e clara gua-marinha erto
das raias, manchada da prpura das uvas, estendia-se no rumo do
horizonte curvo. Num relvado verde, l em baixo, ergua-se um mins-
culo templo rodeado de pilares, alvejando ao sal, e na enrosta do mono
que avultava atrs dele subsistia uma estranha fortaleza do tem;po
das Cruzadas. <<Grcia, s muito formosa, mais formosa que a Itlia,
por mais que eu a ame. Mas aqui est o eterno bero.>>
 Desejando chegar depressa a Atenas, continuou, fazendo o carro
vermelho disparar peIas subidas e descidas do Passo de Domokos at
chegar ao outro lado, ao panorama maravilhoso da Becia, feito de
olivais, encostas enferrujadas e montanhas. Apesar da sua pressa,
parou ara examinar o monumento estranhamente hollywoodiano
erguido em homenagem a Lenidas e aas seus espartanos nas Term-
pilas. Dizia a pedra: <<Estrangeiro, vai dizer aos Es;partanos que aqui
morremos em obedincia s tuas ordens.>> Aquilo feriu uma corda
dentro dele, quase como se foss m palavras que pudesse ter ouvido
num contexto diferente; Dane estremeceu e seguiu viagem, depressa.
 Debaixo do sol escaldante, deteve-se acima de Kamena Voura,
nadou na gua clara enquanto olhava para o estreito de Eubeia; dali
deviam ter zarpado os mil navios que, de Aulis, demandaram Tria.
Era uma corrente forte que turbilhonava na direco do rnar, no lhes
devia ter sido necessrio remar com muita fora. Os extticos arrulhos
e as mos cariciosas da velha vestida de reto na casa de anhos
embaraaram-no; fugiu dela o mais rpidamente que de. As pessoas
j no se referiazn  sua beleza diante dele, de modo que, na maior
parte das vezes, conseguia esquec-la. Demorando-se penas o suficiente
para con prar dois imensos bolos recheados de creme, na padaria,
continuou a descer pela costa tica e chegou afinal a Atenas quando

560

PASSAROS FERIDOS

o Sol principava a baixar, dourando a grande rocha e a sua linda eoroa
de ilares.
 Mas encontrou Atenas tensa e maldosa, e a admirao franca das
mulheres mortificou ; as romanas eram mais sofisticadas, mais subtis.
Um sentimento guiava a multido, onde germinavam tumultos, onde se
 ressentia uma torva deterzninao da parte do povo de ter Papandreou.
No, Atenas estava diferente; era lnelhor ficar noutro lugar. Guardou
o Lagonda numa garagem e apanhou um ferry-boat para Creta.
 E l, por fim, entre os olivais, o tomilho selvagem e as montanhas,
encontrou a paz. Depois de um longo trajecto de nibus com frangos
amarrados que no paravam de gritar e o cheiro forte de alho nas
narinas, Dane encontrou uma estalagenzinha pintada de branco com
uma colunata arqueada, trs mesas protegidas por guarda-sis sabre
as pedras da calada e alegres cestas gregas penduradas e enfeitadas
como lanternas. Aroeiras-moles e eucaliptos, lantados em solo dema-
siado rido para rvores europeias; o estrpito enrgico das cigarras;
a pOeira, rodapiando em nuvens verxnelhas.
 A noite, dormiu nutn quarto minsculo, semelhante a uma cela,
com os postigos escancarados, no lusco-fusco da aurora celebrou uma
missa solitria, durante o dia caminhou. Ningum o incomodou, ele no
incomodou ningum. Mas,  sua passagem, os olhos dos camponeses
seguiam-no com lento assombro, as rugas de todos os rostos acentuavam-
-se num sorriso. Fazia calor, havia calma e era tudo muito sonolento.
Paz perfeita. Os dias seguiam-se nns aos outros, como contas que
deslizassem por uma coricea mo cretense.
 Dane orava em silncio, um sentimento, uma extenso do que lhe
ia no ntimo, pensamentos como contas, dias como contas. Senhor,
sou verdadeiramente Teu. Agracleo-Te pelas Tuas muitas nos.
Pelo grande cardeal, a sua ajuda, a sua profunda amizade, o seu amor
seguro. Por Roma e pela oportunidade de estar no Teu corao, por me
haver rostrado diante de Ti na Tua prpria baslica, por ter sentido
a rocha de Tua Igreja dentro de mim. Tu abenoaste-me alm dos meus
merecimentos; que posso fazer por Ti, para mostrar a minha dedicao?
No sofri o bastante. A minha vida tem sido uma longa e absnluta alegria
desde que principiei a servir-Te. Preciso sofrer, e Tu, que sofreste,
sab-lo-s. S atravs do sofrimento poderei elevar-me acima de mim
mesmo, compreender-Te melhor, pois nisso se resume esta ida:
a passagem para a compreenso do Teu mistrio. Mergulha a Tua lana
no meu peito, enterra-a ali to rofundamente que eu jamais eonsiga
arranc-la! Faz-me sofrer... Por Ti renuncio a todos os outros, incluindo

561

a minha me, a zninha irm e o cardeal. S Tu s a minha dor e a
minha alegria. Humilha-me e eu cantarei o Teu adorado Nome.
Destri-me e eu regozijar-me-ei. Eu amo-Te. S a Ti...
 Ele chegara  praiazinha onde gostava de nadar, um crescente
amarelo entre roohedos que se projectavam para cima, e ficou por um
momento a olhar, ,por sobre o Medterrneo, para o que devia ser a Lbia,
muito alm do horizonte escuro. Depois desceu ligeiramente os degraus
em direco  areia, chutou as alpargatas, apanhou-as e caminhou,
atravs dos contornos que cediam, macios, para o lugar onde costumava
desenvencilhar-se dos sapatos, da camisa, das calas. Dois jovens ingleses,
que falavam com um arrastado sotaque de Oxford, estavam deitados
como duas lagostas cozidas no muito longe dali, e, alm deles, duas
mulheres falavaln, sonolentas, em alemo. Dane olhou para as mulheres e,
envergonhado ajeitou o calo de banho, ao perceber que elas tinham
 arado de conversar e se haviam sentado a fim de ajeitar o cabelo
e sorrir para ele.
- Como vo as coisas? - perguntou aos rapazes, embora Ihes
chamasse mentalmente o nome que todos os australianos do aos ingle
ses, pommies. Eles pareciam fazer parte da paisagem, pois estavam na
praia todos os dias.
- Esplenddamente, meu velho. Mas tome cuidado com a cor-
rente...  forte de mais para ns. Deve estar prestes a rebentar uma
tempestade algures.
- Obrgado.
 Dane sorru, correu para as ondaznhas que se encrespavam,
inocentes, e mergulhou com perfeio na gua rasa, como o nadador
perito que sempre fora.
 Era surpreendente como a gua calma podia ser enganadora.
Ele eentia a corrente forte puxar-lhe as pernas, tentando arrast-lo
para baixo, mas, bom nadador, no podia preocupar-se com isso.
Com a cabea baixa, deslizou suavemente pela gua, deleitando-se com
o seu frescor, com a liberdade. Quando fez uma pausa e esquadrinhou
a rpraia, viu as duas alems caloeando as toucas de banho e eorrendo,
a rir-se, na direco das ondas.
 Juntando as mos ao redor da boca, gritou-lhes em alemo que
no se afastassem, por cusa da corrente. Rindo-se, elas acenaram-lhe,
como a dizer que haviam compreendido. Dane tornou a enfiar a cabea
dentro de gua, voltou a nadar, e julgou ouvir um grito. Mas nadou
um pouco mais, depois,parou para ficar de p num local onde a corrente
do fundo no puxava tanto. Eram gritos, sim; ao virar-se, viu as mulhe-

562

PSSAROS FEftIDOS

res lutando e gritando, com o rosto eontrado; uma delas tinha as mos
erguidas para o alto e afundava-se. Na praia, os dois ingleses aproxima-
vam-se, relutantes, da gua.
 Dane girou sabre si mesmo e nadou, clere, em direco das mulhe-
res. Braos tomados de pnico estenderam-se para ele, aferraram e a ele,
arrastaram-no para baixo; Dane canseguiu segurar uma delas rpela cin-
tura o tempo suficiente para lhe desferir um golpe seco no queixo,
depois agarrou a outra pela ala do fato de banho, empurrou-lhe as
costas com o joelho e deixou-a retomar flego. Tossindo, pois engolita
gua ao ser arrastado para baixo, voltou=se de costas e princtpiou
a reboear os seus fardos inertes em direco  raia.
 Os dois pommies, com gua pelos ombros, estavam to assustados
que se recusavam a ir mais longe, e Dane no os censurou. Os dedos
dos seus ps mal tocavam na areia; ele suspirou, aliviado. Exausto,
fez um derradeiro esforo sobre-humano e deixou as mulheres em segu-
ran. Recabrando rapidamente os sentidos, elas voltaram a gritar,
debatendo-se, desesperadas. Ofegante, Dane conseguiu sorrir. J fizera
a sua parte; os poms que se encarregassem do resto. Enquanto descan-
.sava, arquejante, a corrente voltara a pux-lo, e os seus ps j no
tocavam o fundo. Fora tudo por um triz. Se no estivesse presente,
as raparigas ter-se-iam, certamente, afogado; os poms no tinham fora
nem habilidade para salv-las. <<Mas>>, disse uma voz interior, uelas s
queriam nadar para poder estar perto de ti; s depois de te verem
se lembraram de entrar na gua. Foi por tua cul pa que correram perigo,
por tua culpa>>.
 E enquanto boiava placidamente, sentiu uma dor lancinante no
peito, como a que experimentaria, sem dvida, se fosse atingido par
uma lana, um longo dardo aquecido ao rubro que Ihe trespassasse
o corpo. Gritou, atirou os braos para cima, enrijecendo os membros,
os msculos convulsos; mas a dor exacerbou-se, abrigou-o a baixar
os braos, a enfiar os punhos nas axilas, a erguer os joelhos. O meu
corao! um ataque do corao, estou a morrer! O meu corao!
Eu no quero morrer! Ainda no, enquanto no tiver comeado o meu
trabalho, enquanto no tiver tido a oportunidade de dar provas de mim
mesmo! Senhor, ajuda-me! Eu no quero morrer, eu no quero morrer!
 O corpo convulsionado aquietou-se, distendeu e; Dane virou-se
de costas, deixou que os braos flutuassem bem abertos e moles,
apesar da dor. Atravs dos clios molhados olhou para cima, para a ab-
bada alta do cu.  isso mesmo;  este o Teu dardo que, no meu
orgulho, Te s pliquei h menos de uma hora. D-me a oportunidade

563

PASSAROSFERIDOS

de sofrer, disse eu, faz me safrer. Agora, quando o sofrimento se apre-
senta, eu resisto=lihe, incapaz do amor total. Adorado Senhor,  a Tua
dor! Devo aceit-la, no posso combat-la, no posso lutar contra a Tua
vontade. A Tua mo  poderosa e esta  a Tua dor, como a que deves
ter sentido na Cruz. Meu Deus, meu Deus, eu sou Teu! Se esta  a Tua
vontade, ela que se cuxn ra. Como uma criana coloco-me na Tua mo
infinita. s bom de mais para mim. Que fiz eu para merecer tanto
de Ti e das pessoas que me amam mais e melhor do que a qualquer
outra? Porque me deste tanto, se no sou digno? A dor, a dot! s to
bom ara mim! Pedi que ela no demorasse, e ela no demorou.
O meu safrimento ser breve, depressa passar. Depressa verei o Teu
rosto, mas agora, ainda nesta vida, eu agradeo-Te. A dor! Meu adorado
Senhor, s om de mais para mim. Eu amo-Te!
 Um imenso tremor sacudiu o corpo quieto, expectante. Moveram-se
os laios, murmuraram um Nome, tentaram sorrir. Depois as upilas
dilataram-se, expulsando todo o azul dos seus olhos para sempre.
Chegamdo, afin l, sos e salvos  praia, os dois ingleses deixaram cair
na areia as seus fardos, que choravam, e ficaram  espera dele.
Mas no lcido mar azul vazio e vasto, as ondazinhas precipitavam se
para a praia e recuavam. Dane desaparecera.
 Algum ;pensou na base da Fora Area dos Estados Unidos,
que ficava perto, e correu a pedir socorro. Menos de trinta minutos
depois um helicptero subiu, bateu o ar freneticamente e entrou
a descrever crculos cada vez maiores, a artir da praia, procurando.
Ningum esperava ver coisa alguma. Os afogados costumam imergir
e s alguns dias depois surgem  tona. Passou-se uma hora; e ento,
a uns vinte e tantos quilmetros da raia, avistaram Dane a boiar
pacificamente no seio do mar prafundo, de braos bem abertos e rosto
voltado para o cu. Por um momento surpuseram-no vivo e alegraram-se,
mas, quando o aparelho baixou o suficiente ara fazer a gua espumar
e sibilar, tornou-se evidente que estava morto. TransmitiranZ-se as
coordenadas pelo rdio do helicptero, uma lancha saiu  pressa e,
trs horas depois, voltava.
 Espalhara-se a notcia. Os Cretenses gostavam de v-lo passar,
apreciavam trocar com ele algumas palavras tmidas. Gostavam dele,
se bem que no o conhecessem. Correram todos para o mar, as mul heres
de reto como pssaros desengonados, os homens vestindo velhas calas
muito largas, camisas brancas de colarinho aberto e mangas arregaadas.
E ficaram em grupos silenciosos, esperando.

564

 Quando a lancha chegou, um sargento corpulento saltou em terra
e voltou-se,para receber nos braos uma forma envolta num cabertor.
Deu a lguns passas na praia, alm da linha de gua, e, com a ajuda
de outro homem, deps a sua carga no cho. O cobertor abriu-se;
ouviu-se um murmrio alto, farfalhante, que parnu dos Cretenses.
Estes aproximaram-se ainda mais, beijando crucifixos com la'bios curti-
dos pelo tempo, as mulheres entoando suavemente urma melopeia,
um ohhhhh! sem palavras quase meldico, triste, paciente, terra a terra,
feminino.
 Eram aproximadamente cinco horas da tarde; o Sol li trado descia
para o ocaso por trs do rachedo carrancudo, mas ainda estava suficiente-
mente alto ara iluminar o gn>pinho preto na praia, a longa forma
imvel na areia, com a pele dourada, os olhos cerrados de clios eriados
por causa do sal que principiara a secar, o tnue sorriso nos la'bios
azulados. A areceu uma padiala e, em seguida, juntos, creten9es e fun-
cionrios americanos levaram o corpo de ane.
 Atenas estava num t bulio, multides amotinadas anarquizavam
tudo, mas o coronel da USAF cons guiu comunicar com os seus supe-
riores numa faixa de frequncia es ecial, com o passaporte australiano
azul de Dane na mo. Como todas esses documentos, aquele nada dizia
a seu respeito. Diante da palavra <<,profisso>> estava escrito apenas
<<estudante>> e, no verso, debaixo da epvgrafe <<parente mais prximo>>,
lia-se o nome de Justine e o seu endereo em Londres. Pouco preo<-<upado
com o significado legal do termo, ele escrevera o nome da irm Qorque
Londres ficava muito mais perto de Roma do que Dragheda, No seu
quartinho na estalagem, a maleta preta quadrada onde guardava os seus
implementos sacerdotais no tinha sido aberta; esperava, com a mala
da rou a, as instrues para onde devia ser remetida.

 Quando o telefone tocou s nove horas da manh, Justine rolou
na cama, abriu um olho e ali ficou a maldizer o aparelho, jurando que
mandaria deslig lo. L porque a maioria das essoas julgava certo
e apropriado comear a trabalhar s nove da manh, teria ela de fazer
o mesmo?
 Mas o telefone tocou, tocou, tocou. Talvez fosse Rain; esse pensa-
mento fez pender a balana em favor da conscincia. Justine levantou-se
e arrastou-se cambaleante at  sala de estar. O Parlamento alemo
estava em sesso urgente; h j uma semana que ela no via Rain,
e no se sentia optimi ta quanto s oportunidades de v lo na semana

565

PASSAROS FERIDOS

seguinte, mas talvez a crise tivesse sido resolvida e ele telefonasse para
dizer-lhe que estava a caminho.
- Est?
- Senhorita Justine O'Neill?
- Sim,  a rpria quem fala.
- Aqui  da Casa da Austrlia, em Alrlwych, sabe o que ?
 A voz tinha uma inflexo inglesa, dizia um nome que o cansao
no lhe permitia ouvir porque ainda estava a assimilar o facto de que
no era a voz de Rain.
- Sei, sei. Casa da Austrlia. Que  que se passa?
 Bocejando, ela equilibrou-se sobre um p e esfregou-lhe o dorso
com a sola do outro.
- A senhorita tem um irmo chamado Dane O'Neill?
 Os olhos de Justine abrlram-se.
- Tenho, sim.
- Que est agora na Grcia, Senhorita O'Neill?
 Os dois ps apoiaram-se no tapete e ficaram ao lado um do outro.
- Est.  isso mesmo.
 No Ihe ocorreu corrigir a voz, e plicar que era padre e no
<<senhor>>.
- Senhorita O'Neill, lamento muito dizer-lhe que tenho o ingrato
dever de lhe dar uma notcia m.
- Uma notcia m? Que foi? Que notcia? Que amnteceu?
- Lamento inform=la de que seu irmo, o Senhor Dane O'Neill,
morreu afogado ontem em Creta e, segundo consta, em hericas circuns-
tncias, efectuando um salvamento. Entretanto, como h uma revoluo
na Grcia, a informao que nos chegou  um tanto vaga e talvez
no muito exacta.
 O telefone estava sobre uma mesa perto da parede e Justine
apoiou-se no slido suporte que a parede lhe oferecia. Os seus joelhos
vergaram-se, comeou a escorregar muito devagar para a frente e acabou
por formar um volume enrolado no cho. Sem rir e sem chorar,
emitia ruidos estranhos, uma espcie de suspiros audveis. Dane afogado.
Dane morto. Creta, Dane, afogado. Morto, morto.
- Senhorita O'Neill? Est a, senhorita O'Neill? - perguntou
a voz, insistente.
 Morto, afogado. O meu irmo.
- Senhorita O'Nell, responda-me!
- Sim, sim, sim Oh, meu Deus estou a ui

566

- Consta que a senhorita  o parente mais prximo dele, Qortanto
 solicitamos as suas instrues sabre o que fazer com o conpo. Senhorita
 O'Nzill, est a?
- Sim, sim!
- Que quer que se faa com o corpo?
 Corpo! Dane era um corpo, e eles no diziam sequer <<o seu corpo>>,
 tinham de dizer o corpo, Dane, meu Dane.
- O patente mais prximo? - Ela ouviu a pr,pria voz, fina
 e tnue, rasgada pelos grandes suspiros. - No sou o parente mais
 prximo de Dane. Creio que o parente mais rximo  a minha me.
 Seguiu-se uma pausa.
- O caso est a tornar-se muito difcil, Senhorita O'Neill. Se no
  o parente mais prximo, perdemos um tempo precioso. - A compai-
 xo polida foi substituda pela impacincia. - A senhorita parece no
 compreender que h uma revoluo na Grcia e que o acidente aconteceu
 em Creta, ainda mais distante e mais difcil de contactar. Francamente!
 As comunicaes com Atenas so virtualmente impossveis e recebemos
 instrues para transmitir sem demora os desejos pessoais e as instrues
` do parente mais prximo em relao ao corpo. A sua me est a?
 Posso falar com ela, por favor?
- A minha me no est aqui, est na Austrlia.
- Na Austrlia? Misericrdia, ento ainda  pior! Agora teremos
 de mandar um telegrama ara a Austrlia; novos atrasos. Se no  o
 parente mais prximo, Senhorita O'Neill, por que razo o passaporte
 do seu irmo diz isso?
- Sei l - disse Justine, e surpreendeu-se a rir.
- D-me o endereo da sua me na Austrlia. Enviar-lhe~emos
 imediatamente um telegrama. Precisamos saber o que fazer com o conpo!
 Espero que a senhorita compreenda que, com o tempo que demoram
 os telegramas, haver um atraso de doze horas. J era bem difcil,
 mesmo sem esta confuso toda.
- Ento, telefone=lhe. No perca tempo com telegramas.
- O nosso oramento no prev telefonemas internacionais,
 Senhorita O'Neill - replicou a voz dura. - Agora, por obsquio,
 d-me o nome e o endereo da sua me.
- Senhora Meggie O'Neill - recitou Justine - Drogheda, Gil-
 lanbone, Nova Gales do Sul, Austriia.
 Ela soletrou os nomes pouco famillares.
- Mais uma vez, Senhorita O'Neill, as minhas mais sentidas
 condolncias.

567

PASSAROS FERIDOS

 O receptor deu um estalido, comeou o som gutural e interminvel
do telefone automtico. Justine sentou-se no cho e deixou-o escorregar
para o seu colo. Deva haver um engano, tudo se acabaria por esclarecer.
Dane afogado, ele que nadava como um campeo? No, no era ver-
dade. uMas , Justine, bem sabes que , no foste com ele para pro-
teg lo e ele afogou-se. Tens sido a sua protectora desde beb e devias
estar l. Se no pudesses salv-lo, devias estar l ara morreres afogada
com ele. E a nica razo por que no o acompanhas-te foi or quereres
estar em Londres ara que Rain fizesse amor contigo.>
 Pensar era to duro. Tudo era to duro. Nada parecia funcionar,
nem mesmo as suas pernas. No conseguia levantar-se, nunca mais
se levantaria. No havia lugar na sua mente para mais ningum
excepto Dane, e os seus pensamentos descreviam crculos cada vez
menores em torno do irmo. At que pensou na me, nas pessoas
de Drogheda. Oh, meu Deus. A me no tivera sequer a ltima viso
adorvel do rosto de Dane em Roma. uSupondo que eles mandem
o telegrama para a polcia de Gilly, o velho sargento Ern meter-se-
no seu carro e ir at Drogheda para dizer  minha me que o seu
nico filho est morto. No  homem talhado ara isso,  quase um
estranho. "Senhora O'Neill, os meus mais profundos, mais sentidos
psames, o seu filho est morto." Palavras perfunctrias, corteses,
vazias... No! No posso deixar que Ihe faam uma coisa dessas, a ela
no, ela  minha me tambm! No dessa maneira, no da maneira
que eu tive de ouvir.>>
 Puxou a outra parte do telefone de cima da mesa, deixou-a cair
no colo, colocou o auscultador no ouvido e discou para a telefonista.
- Telefonista? Telefonista intrnacional, por favor. Est? Desejo
uma ligao urgente para a Austrlia, Gillanbone, um dois um dois.
E depressa, pelo atnor de Deus!
 A rpria Meggie atendeu o telefone. Era tarde, Fee j se
recolhera. Normalmente ela no sentia a menor vontade de deitar-se
cedo, preferia ficar sentada, prestando ateno aos grilos e aos sapos,
dormitando com um livro aberto  sua frente, recordando.
- Est?
- Chamada de Londres, Senhora O'Neill - anunciou Hazel em
Gilly.
- Ol, Justne - disse Meggie com voz calma. Jussy telefonava
de vez em quando, para saber como iam as coisas.
- Me?  a me?

568

- Sim, sou eu - respondeu Meggie suavemente, percebendo
a aflio de Justine.
- Oh, me! Oh, me! - Seguiu-s-e o que soou como um ofego,
ou um soluo. -Me, Dane est morto, Dane est morto!
 Um poo abriu se a seus ps. Descia, descia e no tinha fundo.
Meggie deslizou para dentro dele, sentiu que a boca do poo se fechava
por cima da sua cabea e compreendeu que nunca mais sairia dali
enquanto vivesse. Que mais poderiam fazer os deuses? Ela no o sou-
bera ao pergunt-lo. Como oderia t-lo perguntado, como poderia no
ter sabido? No se deve desafiar os deuses, eles no gostam disso.
Quando no fora v lo no mais belo momento da sua vida, a fim de
pattilh-lo com eles, pensara finalmente estar a pagar. Dane estaria livre
disso, e livre dela. Quando no fora ver o rosto mais querido entre
todos os outros zostos, julgara estar a restituir. O poo fechou-se, sufo-
cante. Meggie l estava, e com reendeu que era demasiado tarde.
- Jnstine, minha querida, tem calma - disse Meggie, enrgica,
sem um tremor na voz. - Acalma-te e conta-me. Tens a certeza?
- A Casa da Austrlia telefonou-me... pensaram que eu fosse
o parente mais prximo. Um homem horroroso que s queria saber
o que eu desejava que se fizesse com o corpo. <<O corpo>>, era como
lhe chamava. Como se Dane j no lhe fizesse jus, como se p ten-
cesse a qualquer um. - Meggie ouviu-a soluar. - C us! Acredito que
o pobre homem odiasse o que foi obrgado a fazer. Oh, me, Dane
est morto !
- Como, Justine? Onde? Em Roma? Porque no me telefonou
Ralph?
- No, no foi em Roma. O cardeal provavelmente nem sa e
de nada. Foi em Creta. O homem disse que ele se afogou quando ten-
tava salvar ulgum. Dane estava de frias, me, convidou-me para irmos
juntos, e eu no fui, eu queria zepresentar Desdmona, queria estar
com Rain. Se eu, pelo menos, estivesse com ele, isto talvez no hou-
vesse acontecido. Qh, Deus, que posso eu fazer?
- Pra com isso, Justine - disse Meggie, severa. - No penses
assim, ests a ouvir? Dane no gostaria, e sabes bem disso. As coisas
acontecem, e no sabemos porqu. O importante agora  que estejas
 m, que eu no tenha perdido os dois. ls tudo o que me resta.
Oh, Jussy, Jussy, ests to longe! O mundo  grande,  grande de mais.
Volta para casa, para Drogheda. Detesto pensar que vives a completa-
mente sozinha.

569

- No, reciso de trabalhar. O trabalho  a nica resposta para
mim. Se eu no trabalhar, enlouquecerei. No quero saber das pessoas,
no quero saber de conforto. Oh, me!- Justine comeou a chorar
com amargura. -Como iremos viver sem ele?
 Como, realmente? Era isso viver? Era de Deus, a Deus voltara.
O p ao p. A vida  para os que falham. Deus cpido, juntando
os bons, deixando o mundo aos outros, aos que apodrecem.
- Nenhum de ns pode dizer por quanto tempo viveremos-
rnsistiu Meggie. - Jussy, muito obrigada, minha filha, por contares-me
tudo, por telefonares.
- No uportei a ideia de ser qualquer pessoa a dar-lhe a notcia,
me. Eu no queria que a ouvisse dessa maneira pela boca de um estra-
nho. Que  que vai fazer? Que  que pode fazer?
 Com toda a sua vontade, Meggie tentou transmitir calor e con-
forto, atravs dos quilmetros,  filha arrasada. O filho estava morto,
a filha ainda vivia. Urgia torn-la inteira, se fosse possvel. Em toda
a sua vida, Justine parecera ter amado apenas Dane, e a mais ningum,
nem a si mesma.
- Justine, no ehores. Procura no te afligires. Dane no que-
reria isso, no  verdade? Vem para casa, esquecer. Traremos tambm
Dane para c, para Drogheda. Por lei  meu outra vez, j no pertence
 Igreja e ningum pode deter-me. Telefonarei imediatamente  Casa
da Austrli e  Embaixada em Atenas, se uder.  preciso que ele
volte para casa! Eu abominaria a ideia de sab-lo num stio qualquer,
longe de Drogheda. l aqui que ele deve estar, ele tem de voltar para
c. Vem com ele, Justine.
 No entanto, Justine no era mais que um montculo no cho,
sacudindo a cabea como se a me pudesse v a. Voltar ara casa?
Nunca mais poderia faz-lo. Se tivesse acompanhado Dane, ele no
teria morrido. Voltar para casa e ter de olhar para o rosto da me todos
os dias durante o resto da vida? No, era-lhe insuportvel a ideia.
- No, me - disse, enquanto as lgrimas lhe deslizavam pela
cara, quentes como metal derretido. Quem dissera certa vez que as pes-
soas tomadas de violenta emoo no choravam? Nin gum sabia nada
sobre isso. - Ficarei aqui e trabalharei. Irei para casa com Dane, mas
de,pois voltarei. No posso viver em Drogheda.
 Durante trs dias esperaram num vcuo sem prapsito, Justine em
Londres, Meggie e a famlia em Dro heda, encontrando no silncio ofi-
cial uma tnue esperana. Depois de tanto tempo, com certeza se veria
que tudo no passara de um equvoco, com certeza j teriam sabido de

570

PSSAROS FEftIDOS

a guma coisa se a primeira notcia fosse verdadeira! Dane surgiria, riso-
nho,  porta de Justine e explicaria que no passara tudo de um engano.
A Grcia estava a ser sacudida por uma revaluo e deviam cometer-se
enganos de toda a ordem. Dane cruzaria a soleira da porta rindwse ante
a notcia da sua morte. Surgiria, alto, forte e vivo, e daria boas garga-
lhadas. A esperana comeou a crescer e cresceu com cada minuto de
espera. Traioeira e horrvel esperana, Dane no estava morto, no
podia ter-se afogado! Ele, Dane, to bom nadador que seria c paz de
desafiar qualquer espcie de mar e continuar vivo. E assim esperaram,
no tomando conhecimento do que acontecera na esperana de que tudo
fosse um equvoco. Haveria tempo, mais tarde, para notificar as pes-
soas, para avisar Roma.
 Na quarta manh, Justine recebeu a mensagem. Como uma velha,
pegou no telefone mais uma vez e pediu uma ligao para a Austrlia.
- Me?
- Justine?
- Oh, me, j o enterraram; no podemos lev-lo para casa! Que
vamos fazer? S sabem dizer que Creta  uma grande ilha, no se
conhece o nome da aldeia, quando o telegrama ohegou ele j havia sido
scpultado. Est num tmulo sem nome, num sitio qualquer! No con-
sigo arranjar visto para a Grcia, ningum quer ajudar,  o caos. Que
vamos fazer, me?
- Encontra-te comigo em Roma, Justine - disse Meggie.
 Todos, excepto Anne Mueller, estavam ali, em torno do telefone,
ainda em estado de choque. Os homens pareciam ter envelhecido vinte
anos em trs dias, e Fee, encarquilhada como um pssaro, branca
e torva, andava pela casa repetindo sem cessar.
- Potque no morri eu ? Porque o levaram a ele ? Sou to velha
to velha! Eu no me importaria de ir, porque teve de ser ele? Porque
no eu? Sou to velha!
 Anne desmoronara-se, e a Sr.a Smith, Minnie e Cat caminhavam
e dormiam chorando.
 Meggie contemplou-os em silncio ao recolocar o auscultador no
ganeho. Aquilo era tudo o que ficara de Drogheda. Um grupinho de
velhos e de velhas, estreis e alquebrados.
- Dane est perdido - disse. - Ningum consegue encontr-lo;
foi enterrado algures em Creta.  to distante! Como poder descansar
to longe de Drogheda? Vou a Roma,  procura de Ralph de Bricassart.
Se algum pode ajudar-nos,  ele.
 O secretrio do cardeal de Bricassart entrou na sala.

571

- Lamento perturb lo, Eminncia, mas uma senhora deseja v-lo.
Expliquei lhe que h um congresso, que Vossa Eminncia est muito
ocupado e no pode receber ningum, mas ela afirma que ficar sen-
tada no vestulo at que Vassa Eminncia tenha tempo para v-la.
- Ela est em dificuldades, padre?
- Em grandes dificuldades, Eminncia. Isso, pelo menos,  fcil
de ver. Pediu-m que lhe dissesse que se chama Meggie O' \Teill.
 O secretrio pronunciou o nome com uma inflexo estrangeira
e cadenciada, de modo que e>le soou como Meghee Onill.
 O cardeal Ralph ergueu-se, ao mesmo tempo que o sangue lhe
fugia do rosto e  deixava to branco como o cabelo.
- Vossa Eminncia est a senr-se mal?
- No, padre, estou perfeitamente bem, muito abrigado. Cancele
todas os meus compromissos at aviso em contrrio, e faa entrar ime-
diat mente a Senhora O'Neill. Na deixe ningum interromper-nos,
excepto o Santo Padte.
 O padre inclinou-se e saiu. O'Neill. Naturalmente! Ele devia ter-se
lembrado de que era o apelido do jovem Dane. Acontece que no palcio
do cardeal s o chamavam pelo primeiro nome. Ele cometera um grave
erro, fazendo-a esperar. Se Dane era o sobrinho muito amado de
Sua Eminna, Meggie O'Neil1 era a sua muito amada irm.
 Quando Meggie entrou na sala o cardeal Ralph mal a reconheceu.
H treze anos que a vira pela ltima vez; ela j completara cinquenta
e trs e ele, setenta e um. Os dois tinham envelheeido. O rosto dela
no n udara muito, mas dir-se-ia talhado por um molde muito dife-
rente do que a imaginao dele idealizava. A doura fora substituda
por um tom cortantemente incisivo, a suavidade por um toque de ferro;
ela arecia uma mrtir vigorasa, avelhentada e pertinaz em lugar da
santa resignada e contem lativa dos sonhos dele. A sua beleza conti-
nuava impress:onante, os seus alhos conservavam ainda a mesma clata
cor prateada, mas ambos haviam endurecido, e o cabelo, outrora bri-
lhant , adquirira um tom bege, descolorido, como o de Dane, mas sem
a sua vida. E, o que era ainda mais desconcertante, ela recusava-se
a mir-lo o tem o suficiente para satisfazer lhe a curiosidade ardente
e amante.
 No podendo saudar aquela Meggie com naturalidade, ele indi-
cou-lhe uma cadeira com um gesto rgido.
- Senta-te, por favor.
- Obrigada - disse ela, igualmente rgida.

572

 S quando Meggie se sentou, Ralph pde olhar para toda a sua
pessoa e notar-lhe o visvel inchao dos ps e tornozelos.
- Meggie! Voaste da Au strlia at aqui sem interromper a via-
gem ? Que aconteceu ?
- Sim, fiz um voo directo - disse. - Passei as ltimas vinte
e nove horas sentada em avies entre Gilly e Rama, sem nada que
fazer alm de olhar para as nuvens e pensar. - A voz dela era s era
e fria.
- Que aconteceu? - repetiu Ralph com impacincia, ansiedade
e temor.
 Meggie ergueu os olhos dos prprios ps e cravou-as, firmes, no
rosto dele.
 Havia algo de medonho nos olhos dela: algo to escuro e enre-
gelante que,a pele da sua nuca ficou toda arrepiada e ele, automatica-
mente, ergueu a mo para tocar-lhe.
- Dane morreu - disse Meggie.
 A ma de Ralph escorregou, caiu como uma oneca de trapo no
regao escarlate quando ele desabou sabre uma cadeira.
- Morreu? - perguntou, devagar. - Dane est morto?
- Sim. Morreu afogado h seis dias, em Creta, salvando umas
mulheres no mar.
 Ele inclinou-se para a frente, cabrindo o rosto com as mos.
- Morto? - ouviu-o Meggie perguntar, indistintamente. - Dane
morto? Meu belo menino! Ele no pode estar morto! Dane... era
o padre perfeito... tudo o que eu no pude ser. O que me faltava, ele
possua. - Tremeu-lhe a voz. - Sempre o teve... era o que todos ns
lhe mecon'hecamos... todos os que no somos padres perfeitos. Morto?
Oh, meu Deus !
- No te preocupes com o teu Deus, Ralph - disse a estranha
sentada diante dele. - Tens coisas mais importantes para fazer. Vim
pedir-te ajuda... no vim testemunhar o teu sofrimento. Tive todas
essas rhoras ara decidir sobre o modo de contat-te isto, todas as horas
que passei alhando, pela janela, para as nuvens e sabendo que Dane
est naorto. Depois disso, o teu pesar no tem fora para comover-me.
 Entretanto, quando Ralph ergueu o rosto que as mos j no
cobriam, o carao morto e frio dela saltou, contorceu-se, ressadtou.
Era o rosto de Dane, com um sofrimento estampado que Dane nunca
viveria para entir. Graas a Deus! Graas a D us, ele est morto e j
 pode passar pelo que este homem passou, elo que eu assei.
no
l melhor estar morto do que sofrer uma coisa como esta.

573

PSSAROS FEftIDOS

- Como posso ajudar, Meggie? - perguntou Ralph, calmo, aba-
fando as prprias emoes a fim de vestir a capa do conselheiro espi-
ritual, que lhe permitia r ao fundo das almas.
- A Grcia est mergulhada no caos. Enterraram Dane algures
em Creta e no consigo descobrir onde, quando, nem porqu. Suponho
a;penas que as minhas instrues no sentido de que o colocassem num
avio e o mandassem para casa foram interminavelnaente adiadas pela
guerra civil, e Creta  quente como a Austrlia. Quando ningum
o reolamou, ensaram, < >m certeza, que no tinha parentes e enter-
raram no.-Ela inclinou-se para a frente, tom a expresso tensa.
- Quero o meu filho de volta, Ralph, quero encontr-lo e lev-lo para
casa a fim de que possa dormir no lugar que Ihe compete. Prometi
a Jims conserv-lo em Drogheda e ali o conservarei, nem que tenha
de percorrer de joelhos todos os cemitrios de Creta. Nada de tmulos
luguosos de padre catlico para ele, Ralph, enquanto eu estiver viva
e puder lutar nos tribunais. Dane ter de valtar para casa.
- Ningum te negar isso, Meggie - disse o cardeal delicada-
mente. -  terra catlica, consagrada, e a Igreja no pede mais do
que isso. Tambm deixei expresso no meu testamento que desejo ser
enterrado em Drogheda.
- No consigo passar por toda essa burocracia - prosseguiu
Meggie, como se ele no tivesse falado. - No sei falar grego e no
tenho poder nem influncia. De modo que vim procurar-te, a fim de
usares os teus. Devolve-me o meu filho, Ralph!
- No te preocupes, Meggie, ters o teu filho de volta, se bem
que as coisas talvez no aconteam com a desejada rapidez. A esquerda
agora est no Poder e os seus elementos so muito anticatlicos. Entre-
tanto, tenho amigos na Grcia, de modo que tudo se resolver. Deixa
que u ponha imediatamente as rodas em movimento, e no te preo
cupes. Ele  um padre da Santa Igreja Catlica, ns t-lo emos de volta.
 A sua mo estendera-se para o cordo da campainha, mas o olhar
friamente feroz de Meggie deteve-a.
- No compreendes, Ralph. No quero que se ponham rodas em
movimento. Quero o meu filho de volta... e no na semana que vem,
nem no ms que vem, mas agota! Falas grego, podes obter vistos para
ns dois, alcanars resultados. Quero que vs  Grcia comigo e me
ajudes a trazer o meu filho de volta.
 Havia muita coisa nos olhos dele - ternura, compaixo, choque,
dor-, mas eles tinham-se tornado, tambm, olhos de padre, sos,
lgicos, sensatos.

574

- Meggie, amo o teu filho como se fosse meu, mas no posso
sair de Roma neste momento. No sou um homem livre... tu, mais do
que ningum, deverias sab-lo. Por maior que seja a tristeza que sinto
por ti, por maior que seja a minha prpria tristeza, no posso deixar
Roma no meio de um congresso importantssimo. Sou o assistente do
Santo Padre.
 Ela inclinou-se para trs, estupificada e escandalizada, sacudiu
a cabea com um meio sorriso, como se presenciasse as cambalhotas
de um abjecto inanimado que no lhe era dado influenciar; depois
estremeceu, molhou os lbios, pareceu chegar a uma deciso e 5entou-se,
direita e rgida.
- Amas realmente o meu filho como se ele fosse teu, Ralph?-
perguntou Meggie. - Que farias por um filho teu? Poderias sentar-te
e dizer  me dele, no, sinto muito, mas no tenho tempo agora?
Dirias isso  me do teu filho?
 Os olhos de Dane, mas que no eratn os olhos de Dane, olhavam
para ela atnitos, doridos, impotentes.
- No tenho filhos - disse -, mas entre as muitas coisas que
aprendi com o teu foi que, por mais duro que seja, o meu Qrimei2n
e nico dever de abedincia  para com Deus Todo-Poderoso.
- Dane era tambm teu filho - disse Meggie.
 Ralph olhou para ela estupidamente.
- O qu?
- Eu disse que Dane era teu filho. Quando sa da ilha de Matlock
estava grvida. Dane era teu filho, no era filho de Luke O'Neill.
- No  verdade!
- Eu no queria que soubesses, nem mesmo agora - continuou
ela. - Achas-me capaz de mentir-te?
- Para ter Dane de volta? Sim - disse Ralph com voz fraca.
 Meggie levantou-se, foi colocar-se diante dele na poltrona de bro-
cado vermelho, tomou nas suas mos a mo do cardeal, fina, aperga-
minhada, inclinou-se e beijou o anel, enquanto o seu hlito Ihe emba-
ciava o rubi, deixando-o leitosamente apaco.
- Por tudo o que te  sagrado, Ralph, juro que Dane era teu
filho. Ele no era nem poderia ter sido filho de Luke. Juro-o pela
morte dele.
 Ouviu-se um gemido, o som de uma alma passando pelos portais
do Inferno. Ral h de Bricassart caiu para a frente, e chorau, enrodi-
Ihado, sobre o tapete carmesim num charco escarlate, como sangue

575

novo, o rosto escondido entre os braos dobrados, as mos enfiadas
no cabelo.
- Isso, chora! - disse Meggie. - Chora agara que j sabes!
 justo que um dos progenitores seja capaz de derramar lgrimas por
ele. Chora, Ralph! Durante vinte e seis anos tive o teu filho sem que
o soubesses, sem que o percebesses. No compreendeste que ele era a tua
reencarnao! Ao tir-lo de mim quando nasceu, minha me soube-o
logo, mas tu nunca o descabriste. As tuas mos, os teus s, o teu
rosto, os teus olhos, o teu corpo. S a cor do cab lo era dele mesmo;
tudo o resto eras tu. Comprerndes agora? Quando eu o mandei para
c, ara ti, escrevi na minha carta: <<Devolvo o que roubei.>> Lem-
bras-te? Ns dois roubmos, Ralph, roubmos o que tu votaras a D us,
e axnbos tivemos que pagar.
 Ela sentou-se na cadeira, im lacvel e sem misericrdia, e contem-
plou a farma escarlate torturada no cho.
- Eu amei-te, Ralph, mas nunca foste meu. O que tive de ti, fui
obrigada a roubar. Dane era a minha arte, tudo o que pude obter de ti.
Jurei que nunca o saberias, jurei que nunca terias ocasio de tir-lo
de mim. E ele acabou por entregar-se a ti por sua iivre e espontnea
vontade. A imagem do padre,perfeito, era como Dane te chamava.
Quanto me ri ao lembrar-me disso! Mas por nada deste mundo eu te
teria dado uma arma como o sabenes que ele era teu. A no ser por
isto! Por nenhuma outra coisa eu te contaria, se bem que no creia
agora que isso tenha alguma importncia. Dane j no pertence a nenhum
de ns, pertence a Deus.

 O cardeal de Bricassart fretou um avio art:cular em Atenas;
ele, Meggie e Justine levaram Dane para Drogheda, os vivos sentados
em ilncio, o morto deitado em silno no atade, j no precisando
de mais nada desta terra.
 <<Ten ho de dizer esta missa, esta missa de reguiem elo meu
filho. Osso do meu osso, meu filho. Sim, Meggie, acredito em ti. Depois
que retomei flego eu teria acreditado em ti mesmo sem aquele ter-
rvel juramento. Vittorio soube assim que ps os olhos nele e, no
meu corao, eu tambm devo ter sabido. O seu riso atrs das rosas
-mas os meus olhos erguidos para mim, como costumavam ser na
minha inocncia. Fee sabia, Anne Mueller sabia, mas ns, homens, o.
No fomos feitos para saber. Pois assim pensam vocs, mulheres, e abra-
am os seus mistrios, voltando-nos as costas ara ss vingarem da
descortesia que Deus lhes fez no as criando  Sua imagem. Vittorio

576

sabia, mas a mulher que havia nele no lhe permitiu falar. Uma vin-
gana magistral.
 Di la Ralph de Bricassart, abre a boca, move as mos na no,
mmea a entoar as palavras dati'nas pela elma do que partiu. Que era
teu filho. Que tu amavas mais do que amaste a me dele. Sim, mais!
Pois ele eras tu feito de novo, num molde maie erfeito.>>
 In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti...
 A capela regurgitava de gente; estavam todos os que l cabiam.
Os King, os O'Routke, os Davies, os Pugh, os Mac Queen, os Gorddon,
os Carmichael, os Hopeton. E os Cleary, a gente de Drogheda. A espe-
rana crestada, a luz apagada. Na frente, num gran e caixo forrado
de ahumbo, padre Dane O'Neill caberto de rosas. Porque estavam
as rosas sen pre des brochadas quando ele voltava a Droght da? Era
Outubro, plena Primavera. claro que estavam desabrochadas. Na poca
certa.
 Sanctus... Sanctus... Sarratus...
 nSabiam que o Santo dos Santos est sabre vocs. Meu Dane, meu
belo filho. L naelhor assim. Eu no queria que tu chegasses a isto, ao
que j sou. No sei porque te diga estas misas. No precisas, nunca
prerisaste de que eu as dissesse. O que procuro s a ai padelas, tu sabias
por instinto. No s tu o infeliz, somos ns aqui, ns, os que ficamos.
Tem piedade de ns e, quando chegar a nossa hora, ajuda-nos.>
 Ite, Missa est... Reguiescant in pace...
 L fora, atravessando o relvado, passando pelos eucaliptos, elas
roseiras, pelas atoeiras-moles, para o cemitrio. <<Continua a dormir,
Dane, porque s as Ons morrem joo ns. Porque choramos? Tiveste
sorte de escapar to cedo desta vida eborrecida. Talvez seja isso
o It erno, uma longa sentena de escravido terrena. Talvez soframos
os nossos infernos vivendo... >>
 O dia passou, os que tinham vindo foram-se embora, as pessaas
de Drogheda arrastavam-se pela casa e evitavam-se mutuamente; o car-
deal Ralph alhou a princpio para Meggie, mas no pde olhar outra
vez. Justine saiu com Jean e Boy King a fi7n de apanhar o avio da
tarde para Sidnei e o da noite para Londres. Ele no se lembrava de
lhe ter ouvido a roz rouca e feiticeira, nem de ver-lhe os estranhos
ol hos plidos. Desde o momento em que ela se encontrara com ele
e com Meggie em Atena$ at  hora em que saiu com Jean e Boy King,
#ora como um fantasma, com a sua camuflagem bem apertada em torno
de si. Porque no comunicara com Rainer Harrheim, no lihe pedira
que lhe fizesse companhia? Devia saber quanto ele a amava, quanto

577

PSSAftOS FEftIDOS

desejaria estar com ela num momento assim. O pensamento, orm,
nunca se demorou o tempo suficiente no esprito cansado do eardeal
Ralph para que ele mesmo o chamasse, conquanto pensasse nisso de
tempos a tempos, antes mesmo de partir de Roma. Era estranha, a gente
de Drogheda. No gostava de companhia quando sofria; preferia ficar
s com a sua dor.
 S Fee e Meggie se sentaram em com anhia do cardeal Ralph
na sala de estar, depois do jantar que ningum comeu. Ningum disse
uma rpalavra; o relgio de bronze dourado tiquetaqueava tanitruante-
mente sobre a consola de mrmore da lareira e os olhos pintados de
Mary Carson lanavam um desafio mudo, atravs da sala,  av de
Fee, na parede aposta. Fee e Meggie estavam sentadas juntas no sof
creme e os seus ombros tocavam-se levemente; o cardeal Ralph no
se lembrava de t-las visto assim to prximas nos velhos tempos.
Mas elas no diziam palavra, no se entreolhavam, nem olhavam
para ele.
 O cardeal de Bricassart tentou descobrir o que fizera de errado.
Errara de mais, era essa a dificuldade. Orgulho, ambio, certa falta de
escrpulos, o amor por Meggie florescendo no meio de tudo. Mas ele
jamais conhecera a glria que coroara esse amor. Que diferena teria
feito saber que o filho dela era seu filho? Ter=lhe-ia sido possvel am-lo
mais do que o amara? Seguiria um caminho diferente se tivesse sabido
o que sabia agora sobre o filho? Sim!, gritava-lhe o corao; no, escar-
necia-lhe o crebro.
 Virou-se amargamente contra si mesxno. i Tolo! Devias ter visto
que Meggie no voltaria para Luke. Devias ter visto logo quem era
o pai de Dane. Ela orgulhava-se tanto dele! Tudo o que pde conseguir
de ti, foi o que te disse em Roma. Pois bem, Meggie... Com ele con-
seguiste o melhor. Meu Deus, Ral ph, como te foi possvel no saberes
que ele era teu? Devias t-lo compreendido quando ele te procurou
homem feito, se no antes. Meggie estava  espera de que tu o visses,
morria por que tu o visses; se o tivesses visto, ela ter-te-ia seguido de
joelhos. Mas estavas cego, no querias ver. Ralph Raoul, cardeal de
Bricassart, era isso o que querias; mais do que a ela, mais do que a teu
filho. Mais do que a teu filho !
 A sala enchera-se de gritinhos, ruge-ruges, murmrios; o relgio
batia os segundos em eompasso com o seu corao. E depois deixou
de bater em compasso, j no Ihe acompanhava o ritmo. Megge e Fee
pareciam nadar, tentando levantar-se, vagueando com rastos assustados

578

numa nvoa lquida insubstancial, dizendo-lhe coisas que ele no
conseguia ouvir.
- Aaaaaaaah? - ritou, compreenendo.
 Mal teve consncia da dor, atento apenas aos braos de Meggie
 sua volta, ao modo como a sua cabea se inclinava pata ela. Mas con-
seguiu virar-se at poder ver-lhe os olhos, e fitou a. Tentou dizer,
 erdoa-me, e viu que ela lhe,perdoara havia muito tempo, Meggie sabia
que acabara por levar a melhor. Depois quis dizer algo to perfeito
que ela se sentisse consolada para sempre, e compreendeu que isso tam-
bm no era necessrio. Fosse ela o que fosse, era capaz de suportar
tudo, tudo! Por isso Ralph cerrou os olhos e, pela derradeira vez,
esqueceu-se de Meggie.

579

VII

1965-1969 - JUSTINE

19

 rrrano  sua escrivaninha em Bona, com uma chvena matinal
 de caf, Rainer soube, pelo jornal, da morte do cardeal de Bri-
 cassart. A tempestade poltica das ltimas semanas estava a amai-
 nar, de modo que ele sentara-se para saborear a leitura na ers-
 ctiva de depressa ver Justine a fim de alrviar o seu estado de esprito,
perturbado pelo silncio dela, que, apesar de tudo, considerava tpico;
Justine ainda no se achava preparada para admitir a extenso do seu
com romisso gara com ele.
 Contudo, a nota da morte do cardeal afugentou-lhe todos os pen-
samentos acerca de Justine. Dez minutos depois, ao volante de um
Mercedes 200 SL corria p la auto-estrada. O pobre Vittorio estaria to
sozinho, e o seu fardo j era to pesado mesmo nas ocasies normais!
Seria mais rpido ir de automvel; o tempo que perderia  espera de
um voo, indo a aeroponos e voltando deles, era o suficiente para chegar
ao Vaticano. E era algo de positivo que podia faz r, algo que seria
capaz de contralar, considerao sem re importante ara um homem
como ele.
 Da boca do cardeal Vittorio sombe de toda a histria, chocado de
mais a princ,pio para perguntar a si mesmo por que razo Justine no
pensara em procur-lo.
- Ralph veio procurar-me e perguntou-me sr eu sabia que Dane
era seu filho - contou a voz suave, ao passo que as mos delicadas
alisavam o dorso cinzento azulado de Natasha.
- E que disse?
- Eu res pondi que desconfiara. No poderia dizer-lhe outra coisa.
Mas o rosto dele! O rosto dele! Eu chorei.

583

- Foi isso, naturalmente, que o matou. Da ltima vez em que
o vi, no me pareceu muito em, mas ele riu-se da minha sugesto de
procurar um mdico.
-  como Deus quer. Creio que Rarlph de Bricassart foi um dos
 omens mais atormentados que oonheci. Na morte encontrar a Qaz que
no arhou em vida.
- O rapaz, Vittorio. Uma tzagdia.
- Acha? Pois eu pr firo pensar na morte dele como nu ma coisa
linda. No posso a teditar qu ela fosse para Dane algo menos bem-
- vindo, e no admira que Nosso Sen hor estives5e im aente por ha-
m-lo a Si. Choro, sim, mas no pelo rapaz. Choro pela me, que deve
sofrer tanto! E pela irm, pelos tios, pela av. No, no choro por ele.
O padre O'Neill vivia numa pureza quase total de esprito e de alma.
Que mais,poderia ser a morte para ele seno o ingresso na vida eterna?
Para ns, outros, a passagem no  to feil.
 Do hotel, Rainer mandou um telegrama para Lnndres, em que
no poderia permitir que transparecesse a sua raiva, a sua mgoa ou
a sua decepo. Dizia apenas:

 PRECISO VOLTAR BONA, MAS ESTAREI LONDRES FIM-DE-SEMANA
PORQUE NO ME CONTASTE? PUSESTE EM DVIDA MEU AMOR

 Sobre a mesa da sua sala em Bona havia uma carta de Justine
e um acote registado que, segundo a secretria, provinha dos advoga-
dos romanos do cardeal de Bricassatt. Abriu rixneiro o embrulho e ficou
a saber que, de acordo com as clusulas do testamento de Ralph de
Bricassart, teria de acrescentar outra companhia  lista j farmidvel
de empresas que dirigia: Michar Limitada. E Drogh:eda. Exasperado,
mas curiosamente comovido, compreendeu que era esse o modo como
o cardeal lhe dizia que, no cmputo final, ele fora achado  altura do
que dele se esperava, que as oraes ditas durante os anos da guerra
haviam produzido frutos. Nas mos de Rainet entregava ele o futuro
 em-estar de Meggle O' Teill e da sua gente. Ou foi essa a sua inter-
pretao, pois era totalmente impessoal a redaco dada ao testamento
pelo cardeal, que no deria, alis, t-lo tedigido de outra forma.
 Atirou o embrulho ara o cesto da conespondna geral no
 ecrzta, que e igia resposta imediata, e abriu a carta de Justine. Come-
ava mal, sem nenhuma espcie de saudao.

584

PSSAROS FEftIDOS

 Obrigada pelo telegramn. No fazes ideia de quanto me alegra
no termos estado em contacto um com o outro nas duas ltimas
semanas, porque eu detestaria ter-te perto. Na ocasio, a nica coisa
gue eu poderia pensar em relao a ti era gue, graas a Deus, no
sabias. Isto talvez te parea dificil de compreender, mas o caso
 gue no te quero em parte alguma perto de mim. A dor no
tem nada de bonito, Rain, nem o facto de presenciares a minha
pflderia alivi-la. Com efeito, s capaz de dizer gue isso provou
quo pouco te amo. Se te amasse de verdade, ter-te-ia procurado
instintivamente, no  verdade? Vefo-me, parm, cada vez mais
longe de ti.
 Portanto, eu gostaria muito gue dssemos tudo por termi-
nado, Rain. No tenbo nada para dar-te, e no quero nada de ti.
A morte de Dane ensinou-me quanto significam as pessoas umas
para as outras quando vivem untas vinte e seis anos. Eu amais
suportaria passar pelas mesmas coisas outra vez, e foste tu mesmo
quem o disse, lembras-te? Ou casamento, ou nada. Opto pelo nuda.
 A minha me contou-me que o velho dardeal morreu Glgumas
horas depois de eu sair de Drogheda. Engraado, a me ficou muito
chocada com u morte dele. No gue ela tenha dito alguma coisa,
mas eu conhe a. No entendo por que razo ela, Dane e tu gos-
tavam tanto dele. Nunca pude estim-lo, sempre me pareceu
untuoso de mais. Uma oplnio que no estou preparada para modi-
ficar s porque morreu.
 E ai est. Isto  tudo. Fui sincera no que disse, Rain. O que
desefo ter de ti  nada. Tem cuidado contigo.

 Ela assinara a carta com o seu habitual e att'evido nJustinen,
e escrevera-a com a nova pena de ponta de feltro que saudara com
tanta alegria quando ele lha dera, como um instrumento rosso, escuro
e positivo, capaz de satisfaz la.
 Rainer no dobrou a carta, nem a enfiou na carteira, nem a quei-
mou; fez o que fazia com toda a correspondncia que no exigia res-
posta - assou- a pelo marcador elctrico, que estava ligado ao cesto
da correspondncia, assim que acabou de l-la, pensando com os seus
 otes que a morte de Dane pusera termo ao despertar emocional
de Justine, e sentindo-se amargamente infeliz. No era justo. Esperata
tanto tempo!
 No fim-de-semana voou, na mesma, para Londres, mas no para
v-la. No entanto, viu-a no palco, como a es posa adorada do mouro,

585

PSSAROS FEftIDOS

D'esdmona. Formidvel! No havia nada que Rainer pudesse fazer por
ela que o palco no o fizesse, pelo menos durante lguzn tempo.
 assIm mesmo, rapariga, utiliza tudo isso fora do palco.

 No entanto, ela no podia faz-lo, pois ainda no tinha idade para
desem >enhar o papel de Hcuba. O palco era o nico lugar que lhe
oferecia paz e olvido. S podia dizer a si mesma: o tzmpo cura todas
as feridas... conquanto no acreditasse nisso. E perguntava a si >rpria
porque continuava a doer tanto. Enquanto Dane estivera vivo, realmente
no pensara muito nele, a no 5er quando estava na sua con panhia,
e depois de crescidos o tempo que assavam juntos fora limitado,
j que as suas prafisses eram quase antagnicas. Contudo, a partida
dele criara um vazio to grande que ela no tinha esperana de conseguir
preenh-lo algum dia.
 O ohoque de precisar de refrear-se no meio de uma reaco espon-
tnea - <<hei-de falar a Dane sobre isto, ele vai divertir-se  grande>>-
eta o que mais a magoava. E, como continuava a acontecer com muita
frequncia, prolongava o sofrimento. Se as circunstncias de que se
haviam c~ercado a sua morte tivessem sido menos estranhas, ela ter-se-ia
recom posto mais depressa, mas os acontecimentos daqueles poucos dias,
que se diriam tirados de um pesadelo, permaneciam vvidos. Ela sentia
muitssimo a falta do irmo, e o seu es rito valtava sempre ao facto
incrvel de que Dane estava morto, de que Dane jamais voltaria.
 Depois, havia a convico de que Justine no o ajudara o suficiente.
Toda a gente menos ela parea julg-lo pPrfeito, imune s ansiedades
que as outros hamens conheciam, mas Justine sabia que ele fora tortu-
rado por dvidas, que se atormentara com o seu desmererimento, e se
admirara de que as pessoas pudessem v-lo alm do rosto e do corpo.
Pabre Dane, que nunca parecia compreender que os outros amavam
a sua bondade. Doa-lhe lembrar-se de que era tarde de mais agora
 ara ajud-lo.
 Justine tambm safria ela me. Se a morte do irmo a deixara
nesse estado, como no estaria Meggie? Este pensamento fazia-a querer
fugir, gritando e chorando, da memria, da conscincia. O quadro dos
tios em Roma para a ordenao do sabrinho, inflando o peito orgulhoso
como pombos papo-de ento, no Ihe sa da ideia. Isto era o pior
de tudo, visualizar a desolao da me e do resto das pessoas de Dro-
gheda.
 <<S franca, Justine. Era isso francamente o pior? No havia algo
muito mais perturbador?>> Ela no conseguia afastar Rain do pensa-

586

mento, mas continuava a pensar que por sua causa trara Dane. A fim
de satisfazer os seus prprios desejos, mandara-o sozinho para a Grcxa,
quando a sua ida talvez tivesse significada a salvao dele. No havia
outra maneira de ver o caso. Dane morrera e2n virtude do seu ego-sta
nteresse por Rain. Agora era tarde de mais para trazer de valta o irmo,
mas se o facto de nunca mais tornar a ver Rain servisse, de certo modo,
para faz-la pagar a sua falta, a fame e a solido valeriam a pena.
 Desse modo assaram-se as semanas, depoi-s os meses. Um ano,
dois anos. Desdmona, Oflia, Prcia, Clepatra. Desde o princpio ela
orgulhara-se de proceder externamente como se nada tivesse acontecido
para Ihe arrasar o mundo; tomava um cuidado especial no falar, no rir,
no rwlacionar-se com as pes oas. Se mudana houvera, esta otava-se
no facto de ela ser agora mais bondosa do que outrora, pois os safri-
mentos das pessoas tendiam a interess-la como se fossem seus. De um
modo geral, no entanto, era exteriormente a mesma Justine - rrreve-
rente, exuberante, im.petuosa, desprendida, amarga.
 Por duas vezes tentou fazer uma visita a Drogheda e, na segunda,
chegou a pagar a passagem de avio, mas em qualquer delas uma razo
de ltima hora, importantssima, rmrpedira-a de ir, se bem que ela
soubesse que o verdadeiro motivo era um misto de senso de culpa
e cobardia. Ela simplesmente no tinha cotagem de enfrentar me;
faz-lo $ignificava trazer de novo  tona toda a triste histria, talvez no
meio de uma ruidosa tempestade de dor que, at ento, conseguira
evitar. A gente de Drogheda, sabrrtudo a me, precisava de continuar
convencida de que Justine pelo menos estava bem, de que Justine
sabrevivera relativamente inclume. Portanto, era melhor ficar longe
de Drogheda, muito nielhor

 Meggie srpreendeu-se a suspirar e reprimiu o suspiro. Se os seus
ossas no lhe doessem tanto, poderia ter selado um cava lo e montado,
mas hoje s o pensar nisso  lhe era doloroso. Fl ia outro dia
qualquer, quando a artrite no revelasse to cruamente a sua presena.
 Ouviu um cano, o bater da cabea do veado de ronze na porta
da frente, vozes que murmuravam, a maneira de falar da sua me.
No era Justine, iportanto no tinha importncia.
- Meggie - disse Fee da entrada da varanda -, temos visitas.
Quer fazer o favor de entrat?
 A visita era um ujeito de aspecto distinto, h pouco enttado na
meia-idade, embora udesse ser mais moo do que aparentava. Muito
diferente de qualquer outro homem que ela j vira, possua a mesma

587

espcie de poder e de confiana em si que Ralph costumara ter. Costu-
mara ter: pretrito mais que perFeito, agora g>erfeitssimo.
- Meggie, este  o Senhor Rainer Hartheim - disse Fee, de p,
ao lado da sua cadeira.
- Oh! - exclamou Meggie sem querer, muito surpreendida com
a aparncia do homem que figurara to a mido nas cartas da Justine
dos velhos tempos. Depois, lembrando-se de que era a dona da
casa: -Tenha a bondade de sentar-se, Senhor Hartheim.
 Ele tambm a olhava, espantado.
- A s nhora no  nada parecida com Justine! - observou,
um tanto ou quanto estupidamente.
- l Vo, no sou.
 Ela sentou-se diante dele.
- Vou deixar-te a ss com o Senhor Hartheim, Meggie, pois ele
diz que deseja ver-te em particular. Quando quiserem tomar o ch,
podes tocar - rematou Fee, afastando-se.
- O senhor  o amigo alemo de Justine, naturalmente - disse
Meggie, sem saber o que dizer.
 Ele tirou a cigarreira do balso.
- D-me licena?
- Tenha a bondade.
- Aceita uzn cigarro, Senhora O'Neill?
- Muito obrigada. No fumo. - Ela alisou o vestido. - Est
muito longe de casa, Senhor Hartheim. Tem negcios na Austrlia?
 Rainer sorriu, perguntando a si mesmo o que diria ela se soubesse
que ele, de facto, era o dono da propriedade. Mas no tencionava
contar-lhe, pois preferia que toda a gente de Drogheda imaginasse que
o seu bem-estar se encontrava nas mos mpessoais do cavalheiro que
ele empregava para agir como seu intermedirio.
- Por favor, Senhora O'Neill, o meu nome  Rainer - disse
pronunciando-o como Justine, enquanto pensava com desagrado que
aquela mulher levaria algum tempo para us=lo espontaneamente;
ela no era do ti po de se descontrair diante de estranhos.-No,
no tenho qualquer assunto oficial para ttatar na Austrlia, mas arranjei
um bom motivo para vir. Queria v-la.
- Ver-me? A mim? - perguntou Meggie, surpresa. Como se
qusesse disfarar uma sbita confuso, abordou imediatamente um
assunto mais seguro. - Os meus irmos falam sempre do senhor, que
foi to bom com eles quando estiveram em Roma pata assistir  ordena-
o de Dane. - Ela pronunciou o nome do filho sem sofrimento, como se

588

o dissesse com frequncia. - Espero que possa ficar aqui alguns dias,
a fim de poder v-los.
- Posso, Senhora O'Neill - respondeu Rainer com caltna.
 Para Meggie a entrevista revelava-se de repente difcil; ele era um
estranho, anunara que tinha percorrido quase vinte mil quilmetros
para v-la e no parecia ter pressa alguma de esclarec-la acerca do
,porqu. Ela, .provavelmente, acabaria por gostar dele, mas achava-o um
tanto intimidante. Era possvel que esse gnero de homem nunca tivesse
surgido dentro da sua esfera de aco, e era por isso que a presena
dele a desequilibrava um pouco. Uma concepo muito nova de Justine
entrou-lhe no esprito ne-sse momento: a filha tinha realmente facili-
dade em se relacionar com homens com Rainer Moerling Hartheim!
Pensou afinal em Justine como nu na igual.
 Embora envelheda e com o cabelo branco, Meggie era ainda
muito honita, ponderou Rainer enquanto ela o fitava com polidez;
ainda o sur preendia o facto de no a achar nem um pouco parecida
com a filha, ao passo que Dane se assemelhava tanto ao cardeal.
Como ela devia sentir-se terrivelmente s! Apesar disso, no tinha pena
dela como de Justine; era evidente que chegara a um acordo consigo
mesma.
- Como vai Justine? - perguntou Meggie.
 Rainer encolheu os ombros.
- Confesso que no sei. No a vejo desde pouco antes da morte
de Dane.
 Meggie no se mostrou espantada.
- Tambm no a vejo desde o enterro de Dane - disse, e suspi-
rou. - Esperei que ela voltasse para casa, mas comeo a supor que
nunca vir.
 Rainer emitiu um ruido tranquilizador que ela no pareceu ouvir,
pois continuou a falar, mas eom voz diferente, mais para si do que
para ele.
- Drogheda  oomo um lar para os velhos hoje em dia - pros-
seguiu.-Precisamos de sangue jovem, e Justine  o nico sangue
jovem que resta.
 A piedade abandonou-o; Rainer inclinou-se, rpido, para a frente,
com os olhos faiscantes.
- A senhora refere-se he como se fosse um mvel de Dro-
gheda - dis se, com aspereza na voz. - Participo-lhe, Senhora O'Neill,
que ela no  nada disso!

589

- Que direito tem o senhor de julgar o que Justine  ou
no ? - replimu ela com raiva. - Afinal de contas, o senhor mesmo
disse que no a v desde pouco antes da morte de Dane, e isso foi
h mais de dois anos!
- Sim, tem razo. H mais de dois anos. - Rainer falava com
mais delicadeza, voltando a comprc' ender como devia ser a vida dela.-
Suporta muito bem a sua provao, Senhora O'Neill.
- Acha? - perguntou Meggie, forcejando por sorrir, enquanto os
olhos no desfitavam os dele.
 De repente, Rainer comeou a compreender o que o cardeal vira
nela para a amar tanto. Algo que Justine no tinha, mas le to-pouco
era um cardeal, procurava coisas diferentes.
- Sim, a senhora suporta muito bem a sua provao - repetiu.
 Ela captou de imediato a insinuao e retraiu=se.
- Como sabe a respeito de Dane e Ralph? - petguntou, em tom
inseguro.
- Palpitou me. No se preocupe, Senhora O'Neill, nngum mai
o soube. Desconfiei porque conheci o cardeal muito antes de conhecer
Dane. Em Roma toda a gente o supunha seu irmo, tio de Dane,
mas Justine tirou-me essa iluso no dia em que nos conhecemos.
- Justine? Justine? - quase gritou Meggie.
 Rainer estendeu o brao para segurar a mo dela, que batia freneti-
camente no joelho.
- No, no, Sernhora O'Neill! Justine no tem a menor noo disso,
e rogo a Deus que nunca a tenha! O seu lapso foi totalmente involun-
trio, acredite-me.
- Tem a certeza?
- Tenho, jro-o.
- Ento, em nome de Deus, porque no volta ela para casa?
Porque no vem ver-me? Porque se recusa a alhar para o meu rosto?
 No somente as palavtas mas tambm o sofrimento que percebia
na voz dela revelaram-lhe o que atormentara a me de Justine no tocant
 ausncia da filha nos ltimos dois anos. A importncia da prpria
misso foi diniinuindo aos poucos; agora tinha outra, uma nova mis o,
que era atenuar os temores de Meggie.
- A culpa  nzin ha - disse com firmeza.
- Sua? - etguntou Meggie, atnita.
- Justine planeara ir  Grcia com Dane, e est convencida de que,
se tivesse ido, ele ainda estaria vivo.
- Tolice! - disse Meggie.

- Eu sei. Mas embota ns saibamos que  talice, Justine no sabe.
Compete  senhora faz-la ver isso.
- A mim? O senhor no compreende, Rainer Hartheim. Justine
nunca me ouviu durante toda a sua vida e, depois do que aconteceu,
qualquer influncia que eu possa ter tido desapareceu. Ela no quer
nem olhar para o meu rosto.
 O seu tom era de derrota, mas no de abjeco.
- Ca na mesma armadilha em que caiu minha me - prosseguiu
ela em tom normal. - Drogheda  a minha vida... a casa, as livros...
A ui sou necessria, a minha existncla tem nm propsito. Aqui h
pessoas que contam comigo. Os meus filhos nunca cantaram, o senhor
entende. Nunca contaram.
- Isso no  verdade, Senhora O'Neill. Se o fosse, Justine poderia
voltar para casa, para junto da senhora, sem qualquer dificuldade.
A senhora subestima a qualidade do amor que a sua filha lhe consagra.
Quarido digo que sou o culpado pelo que Justine est a sofrer, quero
dizer que ela ficou em Londres por minha causa, para estar comigo.
No entanto,  pela senhora que sofre, no  por znim.
 Meggie tornou-se rigida.
- Ela no tem o direito de sofrer por mim! Ela que safra por
si mesma, se quiser, mas no por mim. Nunca por mim!
- Ento a senhora acredita-me quando Ihe afiano que Justine
no tem a menor ideia do que havia entre Dane e o cardeal?
 Os modos de Meggie modificaram se, como se Rainer lhe tivesse
recordado a existncia de outras coisas, que ela estava a perder inteira-
mente de vista.
- Sim - assentiu -, acredito.
- Vim v-la porque Justine necessita do seu aux io e no pode
pedi-lo - anunciou Rainer. - A senhora precisa de convenc-la de que
ela tem de retomar os fios da sua vida... no da sua vida em Drogheda,
mas da sua prpria vida, sem qualquer relao com Drogheda.
 Rainer recostou-se no espaldar da poltrona, cruzou as pernas
e acendeu outro cigarro.
- Justine vestiu uma espcie de camisa de cilcios, mas, por todos
os motivos, est errada. E se algum pode faz-la enxergat o seu erro,
esse algum  a senhora. Entretanto, advirtwa de que, se decidir faz-lo,
a sua filha nunca regressar a casa, ao passo que, se continuar assim
 possvel que acabe or voltar definitivamente para c. O palco
no  suficiente para uma pessoa como Justine - prosseguiu - e apro-
xima-se o dia em que ela o percebet. Quando chegar esse dia, optar

590 591

PSSAROSFER DOS

por pessoas... pela fam ia e Drogheda ou por mim. - Rainer sorriu
para Meggie com profunda compreenso. - Mas as pessoas tambm
no so suficientes para Justine, Senhora O'Neill. Se ela me eseolher
poder ter o teatro tambm, e essa vantagem Drogheda no pode
oferecer-lhe. - Ele fitava-a agora severamente, como a um advers-
rio. - Vim pedir-lhe que a faa optar por mim. Talvez lhe parea
uma crueldade diz-lo, mas eu preciso muito mais dela do que a senhora
imagina.
 A dureza voltou  voz de Meggie.
- Drogheda no  uma alternativa assim to m - contrariou.
- O senhor fala como se a fazenda fosse o fim da vida dela, mas no ,
e sabe bem disso. Justine poderia continuar no palco. Somos uma
verdadeira comunidade. Anda que casasse com Boy King, como o av8
dele e eu espermos durante anos, os filhos dela seriam to bem tratados
na sua ausncia como se ela casasse com o senhor. Este  o lar de Justine,
ela conhece e compreende este tipo de vida, Se a escolhesse, saberia por
certo o que escolhia. Pode o senhor dizer o mesmo da espcie de vida
que Ihe quer oferecer?
- No - redarguiu Rainer, fleumtico. - Mas Justine adora sur-
presas. Em Drogheda estagnaria.
- O que o senhor quer dizer  que ela seria infeliz aqui.
- No, no exactamente. No tenho dvidas de que, se ela optasse
por voltar para c e desposasse o tal Boy King... a propsito, quem
 esse Boy King?
- O herdeiro de uma propriedade vizinha e um velho amigo de
infncia, que gostaria de er mais que um amigo. O av pretende o casa-
mento por motivos dinsticos eu desejo-o por achar que  disso que
Justine preeisa.
- Entendo. Pois bem, se ela voltasse para c e casasse com Boy
King, aprenderia a ser feliz, mas a felicidade  um estado relativo.
No creio que ela viesse sequer a conhecer a espcie de satisfao que
encontraria ao meu lado. Porque, Senhora O'Neill, Justine ama-me,
no ama Boy King.
- Nesse caso, ela tem um modo muito estranho de demonstr-
-lo - disse Meggie, puxando o cordo da campainha para pedir
o eh. - Alm disso, Senhor Hartheim, como eu j disse, creio que
o senhor sobrestimou a m;nha influncia junto dela. Justine nunca ligou
a menor importncia a qualquer coisa que eu tenha dito, e muito menos
desejou ouvir-me.

592

- A senhora no  tola - respondeu Rainer.- Sabe que poder
faz-lo se o quiser. No lhe posso pedir mais nada seno que pense
no que eu Ihe disse. E v devagar, no h pressa. Sou um homem
paciente.
 Meggie sorriu.
- Nesse caso, o senhor  uma raridade - disse.
 IVem Rainer, nem Meggie voltaram a tocar no assunto. Durante
a semana da sua estada, ele procedeu como qualquer outro hspede,
conquanto Meggie tivesse a impresso de que estava a tentar mostrar-
-lhe a espcie de homem que era. Os seus irmos, evidentemente,
gostavam muito dele; assim que a notcia da sua chegada lcanou
os pastos, todos voltaram para casa e l ficaram at ao dia em que
partiu de volta para a Alemanha.
 Fee tambm gastou dele; os seus olhos haviam-se estragado tanto
que ela j no podia escriturar os livros, mas estava longe de ser senil.
A Srg Smith morrera em pleno sono durante o Inverno anterior,
j bem entrada em anos, e, em vez de infligir uma nova governante
a Minnie e a Cat, ambas velhas mas ainda fortes e sadias, Fee preferira
transferir para Meggie a escriturao dos livros e fazer ela m a,
mais ou menos, as vezes da Sr Smith. Foi Fee quem compreendeu
pela primeira vez que Rainer era um elo directo com a parte da vida
de Dane que ningum em Drogheda tivera a oportunidade de partilhar,
de modo que Ihe pediu que falasse a esse rrspeito. Ele assentiu, pta-
zenteiro, tendo logo percebido que, em Drogheda, longe de se oporem
a falar em Dane, todos sentialn grande prazer em ouvir novas histrias
a seu respeito.
 Por trs da mscara de alidez, Meggie no conseguia esquecer-se
do que Rain Ihe dissera, nem podia deixar de pensar nas alternativas
que ele lhe oferecera. Havia muito tempo j que renunciara  esperana
de ver Justine tegressar, e ele agora quase lhe assegurara que ela voltaria,
admitindo ainda que Justine seria feliz se o fizesse. Havia outro motivo
tambm por que ela lhe estava muito grata: Rainer exorcismara o fan-
tasma do seu medo de que Justine, de um modo ou de outro, tivesse
descoberto o elo entre Dane e Ralph.
 Quanto ao casamento com Rain, Meggie no via o que poderia
 azer para obrigar Justine a ir aonde ela no quisesse ir. Ou dar-se-ia
o caso de no querer ver? Meggie cabara por gostar muito de Rain,
mas a felicidade dele no poderia ter tanta importncia para ela como
o bem-estar da filha, da gente de Drogheda e da prpria Drogheda.
A,pergunta crucial resumia-se ao seguinte: at que ponto Rain era vital

593

para a futura felicidade de Justine? A despeito da afirmao dele
de que Justine o amava, Meggie no conseguia lembrar-se de ter ouvido
da filha alguma indicao de que Rain tinha para ela a mesma es cie
de im portncia que Ralph tivera para si.
- Imagino que o senhor ver Justine mais cedo ou mais tarde-
disse Meggie, ao conduzi-lo de automvel ao aeroporto. - Quando
o fizer, eu preferiria que no Ihe falasse nesta sua visita a Drogheda.
- Como quiser - disse ele. - Eu s lhe pediria que pensasse
no que eu disse e no se apressasse.
 No entanto, at no momento de fazer o pedido, Rain no pde
deixar de sentir que Meggie colhera maiores benefcios da sua visita
do que ele mesmo.

 Quando chegou o ms de Abril e fez dois anos e meio que Dane
falecera, Justine ex erimentou um desejo irresistvel de ver alguma
coisa que no fossem enfiadas de casas e multides carrancudas.
De sbito, na uele belo dia de suave Primavera e sal frio, a Londres
urbana pareceu-lhe intalervel. Por isso me$mo, apanhou o comboio
para Kew Gardens, satisfeita porque o dia era uma tera eira e o local
seria quase exclusivamente seu. E como ela tambm no trabalharia
naquela noite, pouco i portava que se esfalfasse a percorrer os atalhos.
 Eta evidente que ela conhecia bem o parque. Londres representava
uma alegria para qualquer pessaa de Dragheda, com as suas massas
de canteiras formais, mas Kew pertencia a uma classe nica. Nos velhos
tempos ela costumava frequent-lo de Abri1 at ao flm de Outubro,
pois cada ms aferecia uma diferente ex osio floral.
 Abtil era a sua poca favorita, o perodo dos narcisos, azleas
e rvores floridas. Havia um local que, na sua opinio, padia reivindicar
o ttulo de uma das vistas mais bonitas do mundo, em escala pequena
e ntima, de modo que ela sentou-se no cho hmido, um pblico
de uma pessoa s, a fim de apreci-lo znelhor. At onde a vista alcanava
estendia-se um lenal de narcisos; a meia distncia, a horda amarela
e agitada de campnulas rodeava uma grande amendoeira em or,
com os galhos inclinados para o cho sab o peso das flores alvssimas
que formavam arcos perfeitos e imveis como os de uma intura
japonesa. Paz. Era to difcil consegui-la!
 E ento, quando ela atirou a cabea bem para trs a fim de memo-
rizar a beleza absaluta da amendoeira carregada de flores no meio do
seu ondulante mar de ouro, algo muito menos elo apareceu: Rainer
Moerling Hartheim, brindo caminho, com todo o cuidado, por entre

594

as moitas de narcisos, a seu vulto abrigado da risa elada pelo inevi-
tvel casaco de couro alemo, enquanto o sal lhe rebrilhava no cabelo
cor de prata.
- Acabars por sentir frio nos rins - disse, tirando o casaco
e estendendo-o do avesso no cho para que os dois udessem sentar-
-se nele.
- Como me encontraste aqui? - perguntou Justine, procurando,
com movimentos caleantes, um cantinho de cetim pardo.
- A Senihora Kelly disse-me que tinhas vindo pata Kew. O resto
foi fcil. Limitei-me a caminhar at encontrar-te.
- Hs-de pensar, com certeza, que eu devia estar agora a danar
e a cantar de alegria  tua volta.
-  assim que pensas?
- O mesmo velho Rain, respondendo a uma pergunta com outra
pergunta. I lo, no tenho prazer algum em ver-te. Pensei que avia
conseguido guardar-te para sempre num tronco oco.
-  difcil conservar um homem bom num tronco oco. Como vais?

- Ainda no te eansaste de lamber as tuas feridas?

- No.
- Suponho que isso fosse de esperar. Mas comecei a compreender
que, depois de me mandares embora, nunca mais te rebaixarias a fazer
o primeiro movimento para te reconciliares comigo, enquanto eu,
berzchen, sou suficientemente esperto para saber que o otgulho  um
triste companheiro de cama.
- No comeces a imaginar que podes egpuls-lo da cama a panta-
ps a fim de arranjares lugar para ti, Rain. Ouve bem o que estou
a dizer, no te quero para isso.
- Nem eu te quero pata isso.
 A presteza da resposta dele irritou-a, mas adoptou um ar aliviado
e perguntou:
-  verdade?
- Se te quisesse, achas que teria supartado a tua ausncia por
 tanto tempo? Nesse sentido, foste para mim uma fanta ia passageira,
 mas ainda penso em ti como uma querida amiga, e sinto falta de ti,
 nessa qualidade.
- Oh, Rain, eu tambm!
- Isso  bom. Estou admitido como amigo, ento?
- l claro que sim.

595

PASSAROS FERIDOS

 Ele deitou-se sabre o casaco, ps os braos atrs da cabea e sorriu
preguiosamente para ela.
- Quantos anos tens? Trinta? Com essas roupas vergonhosas
,pareces-te mais com uma raqutica menina de escola. Se no precisas
de mim na tua vida por nenhuma outra razo, Justine, ser-te-ei til
pelo menos, como teu mnselheiro de elegncia.
 Ela riu-se.
- Reconheo que, quando te imaginava capaz de sair de repente
do meo do mato, eu interessava-me mais pela minha aparncia. Mas se
tenho trinta anos, tambm no s nenhum adolescente, pelo menos
quarenta. E a diferena j no parece assim to grande, no  verdade?
Emagreceste. Tens assado bem, Rain?
- Nunca fui gordo, s forte, de modo que essa histria de passar
a vida atrs de uma secretria acabou por me encolher.
 Escorregando e deitando se de bruas, ela colocou o rosto perto
do dele, sorrmdo.
- Oh, Rain,  to bom ver-te! At parece que valorizas o meu
dinheiro.
- Pobre Justine! E dinheiro  o que no te tem fltado ultima-
mente, no  verdade?
- Dinheiro? - Ela fez que sim com a cabea. - l estranho que
o cardeal me tivesse deixado tudo a mim. Ou melhor, metade a mim
e metade a Dane, mas  claro que sou a nica herdeira de Dane.-
O rosto dela contraiu-se, mau grado seu. Virou a cabea e fingiu olhar
para um narciso perdido num mar de narcisos at poder controlar
novamente a voz. - Sabes, Rain, eu daria tudo o que tenho a fim de
descobrir o que o cardeal representava para a famflia. Um amigo,
somente? Mans do que isso, de algum modo misterioso. Mas precisa-
mente o qu, no sei. Eu gostatia de saber.
- No, no gostarias. - Ele ps-se de p e estendeu a mo. - Vem
berzchen, pagar-te-ei unz jantar ande aches que existem olhos capazes
de ver que a desavena entre a actriz australiana de cabelo cor de
cenoura e certo membro do Gabinete alemo deixou de e istir. A minha
reputao de playboy deteriorou-se depois de me teres mandado embora.
- Tens de estar mais atento, meu amigo. J no me chamam
aa actriz australana de cabelo de cenoura... >>, actualmente sou <<a exube-
rante e magnfica actriz britnica de cabelo ticianesco>>, graas  minha
interpretao de Clepatra. No me digas que no sabes que, para os
crlticos, passei a ser a mais egtica Cleo surgida nos ltimos anos?
 Ela ergueu os braos e as mos na postura de um hierglifo egpcio.

596

PASSAROS FERIDOS

Os olhos dele fascaram.
- Extica? - perguntou, em tom de dvida.
- Extica - repetiu Justine com firmeza.

 O cardeal Vittorio falecera, de modo que Rain j no ia a Roma
com tanta frequncia. A princpio, encantada, Justine no via mais
que a amizade que ele lhe oferecia, mas,  me dida que assavam os
meses e ele no aludia, por palavras ou por olhares, s anteriot s rela-
es de ambos, a sua indignao converteu-se em algo mais Qerturbador.
No que desejasse reatar o outro tipo de relaes, dizia constgntemente
de si para si; acabara de uma vez por todas com aquele gnero de misas,
j no precisava delas nem as desejava. Tolpouco permitia que o seu
esprito acariciasse uma imagem to bem sepultada de Rain que s
lhe acudia  mente em sonhos traioeiros.
 Os primeiros meses depois da morte de Dane tinham sido terrveis,
quando resistira ao desejo de procurar Rain, sentindo-o junto de si
em corpo e alma e sabendo perfeitamente que ele estaria ali se ela
o deixasse. Mas no podia permiti-lo agora que o seu rosto era abscure-
cido pelo de Dane. Devia mand-lo embora, sim, devia lutar pata elimi-
nar os derradeiros bruxuleos de desejo por ele. E  praporo que
flua o tempo e tudo indicava que Rainer ficaria permanentemente fora
da sua vida, o corpo acomodara-se num torpor no despertado e a
mente disciplinara-se para esquecer.
 Mas agora que Rain voltara estava a ficar muito mais difcil.
Justine morria por perguntar-lhe 5e ele se lembrava do que se assara
entre os dois - como poderia t-lo esquecido? Quanto a ela, acabara
de vez com essas coisas, mas ter-lhe-ia sido grato saber que Rain no
acahara; isto , contanto que essas coisas, naturalmente, se chamassem
Justine e penas Justine.
 Planas fantsticos e impraticveis. Rain no tinha o aspecto de um
homem que estivesse a definhar por causa de um amor no correspon-
dido, mental ou fsico, e nunca manfestava o menor desejo de reabrir
aquela fase da vida de ambos. Queria-lhe como amiga, gozava da sua
com anhia como atnigo. Excelente! Era tambm o que ela queria.
S que... poderia ele ter esquecido? No, no era possvel, mas que
l7eus o castigasse se ele esquecera!
 Na noite em que as processos entais de Justine chegaram a esse
ponto, a sua interpretao do pap de Lady Macbeth assumiu uma
selvajaria de todo alheia ao dese nho habitual. Ela no dormiu

5 7

PASSAROS FERIDOS

muito bem, e a manh seguinte trouxe-lhe uma carta da me que
a encheu de vaga inquietao.
 Meggie j no escrevia amide, sintoma da longa separao que
afectava as duas, e as cartas chegavam lhe demasiado formais, anmicas.
Esta, eontudo, era diferente, continha um distante sussurro de velhice,
um can ao subjacente que fazia surgir uma ou duas palavras acima
das futilidades superficiais, como um icebergue. Justine no gostou.
Velha, a me, velha!
 Que estaria a acontecer em Drogheda? Tentaria a me esconder
alguma dificuldade sria? A av estatia doente? Ou um dos tios?
Ou, Deus nos livre, a prpria me? H trs anos que no via nenhum
deles, e muita coisa poderia acontecer nesse es ao de tempo, ainda que
nada tivesse sucedido a Justine O'Neill. L porque a sua vida era
estagnada e montona, no devia presumir que a de toda a gente
o fosse tambm.
 Aquela era a noite de folga de Justine, e s lhe faltava mais um
espectculo de Maobeth para representar. As izoras do dia haviam-se
arrastado insuportavelmente, e nem mesmo a ideia do jantar em compa-
nhia de Rain encerrava o habitual prazer anteci ado. A amizade deles
era intil, ftil, esttica, disse para si, enquanto se enfiava a custo
num vestido cor de laranja, do tom que ele mais abominava. Velho
conservador! Se Rain no a apreciava tal e qual ela era, que fizesse
meia volta. Em seguida, ajeitando o corpete baixo em torno do colo
magro, surpreendeu os rprios olhos no espelho e soltou uma risada
triste. Uma tempestade num copo de gua! Ela estava a agir exactamente
como o tipo de mulher que mais desprrzava. Era tudo, com certeza,
muito sim les. Sentia-se esgotada, necessitava de descanso. Graas
a Deus, Lady M estava no fim! Mas que acontecera  me?
 ITdtimamente, Rain passava cada vez mais tempo em Londres,
e Justine admirava-se da facilidade com que ele ia e vinha entre Bona
e Londres. No havia dvida de que a posse de um avio particular
ajudava, mas devia ser exaustivo.
- Porque vens visitar-me com tanta frequncia? - perguntou
de repente. - Todos os jornalistas mundanos da Europa acham que
 formidvel, mas confesso que, s vezes, eu pergunto-me se no me
estars a usar como descul a para visitar Londres.
-  verdarle que te utilizo como disfarce de vez em quando,
- admtiu Rain calmamente. - Na verdade, tens servido muitas vezes
de cortina para certos olhos. Mas, para mim, no  sacrifcio estar contigo,
,porque gosto da tua co mpanhia. - Os olhos escuros dele demoraram-se,

598

pensativos, no rosto dela. - Ests muito inquieta esta noite, herzcben.
Alguma coisa te reocupa?
- No, a bem dizer, no. - Ela brincou com a sobremesa e depois
emputrou-a para o lado, sem comer. - Ou melhor, nada de importncia.
A minha me e eu j no nos escrevemos todas as semanas... H tanto
tempo que no nos vemos, existe pouca coisa para contar uma  outra...
mas hoje recebi uma carta muito estranha, que nada tezn de nortnal.
 Confrangeu-se-lhe o corao; Meggie, de facto, devia ter pensado
com vagar no assunto, mas o instinto dizia he que aquele era o comeo
do seu movimento, e que ele no lhe era favorvel. Ela comeava o seu
jogo para ter a filha de volta a Drogheda, a im de penpetuar a dinastia.
 Estendeu o brao sobre a mesa e pegou na mo de Justine; a matu-
ridade deixava-a mais bonita, pensou, apesar do vestido horroroso.
Minsculas rugas principiavam a dar-lhe dignidade ao rosto de criana,
de que ele muito precisava, e personalidade, que a pessoa por trs
do rosto sem re possura em enormes quantidades. Mas at onde che-
gava a sua maturidade superficial? Era isso que atra alhava Justine;
ela no queria sequer olhar.
- Herzchen, a tua me est sozinha - disse Rainer, fazendo saltar
todas as pontes atrs de si. Se o desejo de Meggie se resumia a isso,
como padia ele continuar a julgar-se certo e a julg-la ertada? Justine
era sua filha; ela devxa conhec-la muito melhor do que ele.
- Sim, talvez - conveio Justine franzindo o sobrolho -, mas no
posso deixar de sentir que h algo mais no fundo de tudo. Quero dizer,
h muitos anos que ela est sozinha, e porqu agora esta atitude repen-
tina? No consigo atinar com a causa, Rain, e talvez seja isso o que
mais me preocupa.
- Ela est a envelhecer, e parece-me que esqueces esse pormenor.
 muito possvel que a esteja m a perturbar coisas que ela enfrentava
com mais facllidade no passado. - Os seus olhos, de repente, pareceram
remotos, como se o crebro tentasse concentrar-se em algo que divergia
do que estava a dizer. - H trs anos, Justine, ela perdeu o nico filho.
Julgas que a dor diminui  proporo que o tempo vai passando?
Eu acho que aumenta. Dane foi-se, e ela h,de sentir agora que tu te
foste tambm. Afinal de contas, nem volta5te a Drogheda para visit-la.
 Ela cerrou os olhos.
- Eu irei, Rain, eu irei! Juro que irei, e depressa. Tens razo,
 claro, como de costume. Nunca imaginei que viesse a sentir falta
de Drogheda, mas, nestes ltimos tempos, parece que se est a desen-
volver em mim uma afeio pela fazenda, como se eu fizesse parte dela.

599

 Ele consultou o relgio e sorriu com expresso,pesarosa.
- Receio muito que esta noite seja uma das ocasies em que
 te utilizei, herzchen. Detesto pedir-te que voltes sozinha para casa,
mas daqui a uma hora deverei encontrar-me com alguns cavalheiros
importantssimos, num lugar secretssimo; terei de ir  reunio no meu
prprio carro, conduzido pelo discretssimo Fritz.
- Hstria de capa e espada! - disse alegremente, escondendo
 a mgoa. -Agora sei o porqu desses nxis repentinos. Eu serei con-
 fiada a um motorista de txi, mas o futuro do Mercado Comum no
pade s-lo, no  assim? Pois bem, s para mostrar-te que no preciso
de um txi nem do teu diseretssimo Fritz, voltarei para casa de metro.
Ainda  cedo. - Os dedos dele j aziam frouxos entre os dela;
ela ergueu-lhe a mo, encostou-a ao rosto e beijou-a.-Oh, Rain,
no sei o que faria sem ti!
 Ele ps a mo no bolso, levantou-se, deu a volta da mesa e puzou-
-lhe a cadeira com a outra mo.
- Sou teu amigo - disse. -  para i$so que servem os amigos
e no para serem poupados.
 lVlas depois de se separarem, Justine voltou para casa imersa em
prafunda reflexo, que se transformou em depresso. Aquela fora
a noite em que Rainer mais se aproximara de uma espcie de discusso
pessoal, cuja essncia era a seguinte: a me estava terrivelmente s,
envelhecia, e ela devia voltar ara casa. Fazer uma visita, dissera ele;
Justine, no entanto, no podia deixar de pPrguntar a si mesma se ele
no sbentendera ficar, o que indicava que, fosse ual fosse o senti-
mento que Rainer tivera por ela no passado, tal sentimento pertencia
mesmo ao passado e ele no tinha desejo algum de ressuscit-lo.
 Nunca lhe ocorrera at ento indagar se Rainer no a consideraria
uma estopada, uma parte do seu passado que gostaria de ver enterrada,
em decente obscuridade, em algum lugar como Drogheda; era bem
possvel. Nesse caso, porm, porque havia reingressado na sua vida
nove meses antes? Por ccndoer-se dela? Por achar que tinha uma
espcie de dvida para com ela? Por entender que precisava de um
empurrozinho a fim de voltar para junto da me, por amor de Dane?
Ele gostava muito de Dane, e quem sabe sobre o que haviam conver-
sado nas longas visitas a Roma em que ela no estivera presente!
Pode ser que Dane lhe tivesse pedido que a trouxesse debaixo de olho,
e era isso o que Rainer estava a fazer. Esperara o tempo suficiente para
se certificar de que Justine no lhe bateria com a porta na cara,
depois tornara a entrar na vida dela para cumprir alguma romessa

 que fizera a Dane. Sim, era essa, provavelmente, a resposta. Rain,
 com certeza, j no a amava. Fosse qual fosse a atracc que exercera
 outrora sobre ele, devia ter morrido h muito tempo; afinal de contas,
 tratara-o de maneira abominvel. A culpa era toda sua.
 Na esteira desse pensamentc chorou todas as lgrimas que tinha;
 d pois, conseguindo dominar-se o suficiente para dizer a si mesma que
 fora uma estpida, deu voltas na cama e espancou o travesseiro na
 tentativa baldada de conciliar o sono; pot fim, deixou-se ficar, der-
 rotada, tentando ler uma pea. Aps algumas pginas, as pa lavras come-
 aram traioeiramente a toldar-se e a nadar uxna sobre as outras e,
 por mais que tentasse aplicar o velho truque de encafuar o desespero
 num canto dos fundos da mente, ele acabou por apoderar-se dela.
 Afinal, quando a claridade baa de uma serdia aurora londrina se coou
 pelas janelas, sentou-se  escrivaninha, sentindo o frio, ouvindo o res-
 mungo distante do trfego, cheirando o desalento, provando o azedume.
 De sbito, a ideia de Drogheda pareceu-lhe maravilhosa. O suave ar puro,
 o silncio quebrado naturalmente. Paz.
 P ou numa das canetas pretas com ponta de feltro e comeou
 a eserever uma carta para a me, ao passo que as lgrimas lhe secavam
 enquanto escrevia.

 Espero que compreenda por gue no voltei para casa dcsde gue
 Dane morreu, ma.r, seja o que for gue pense a esse respeito, sei guc
 ficar contente ao saber gue rectificarei a minha falta, e de modo
 definitivo.
 Sim,  isso mesmo, vou voltar definitivamente para casa.
 A me tinha razo - chegou o momento em gue anseio por Dro-
 gheda. Fiz o balarro da vida que levo aqui, e descobri que ela
 r :
 no significa nada para mim. Que posso eu esperar disto, arrastan-
 do-me  volta de um palco durante o resto da vida? E gue mais
 h agui para mim alm do palco? Quero algo seguro, permanente,
 duradouro, de modo gue voltarei para Drogheda, gue  tudo isso.
 Chega de sonhos vazios. Quem sae? Talvez case com Boy King,
 se ele ainda me quiser, e farei por fim da minha vida alguma coisa
 gue valha a pena, como ter uma tribo de homenzinhos das planfcies
 do Noroeste. Estou cansada, me, to cansada que nem sei o que
 digo, mas gostaria de escrever o que sinto.
 Bem, lutrei contra isso noutra ocasio. Lady Mucbeth acubou-
- se e eu ainda no havia decidido o gue fazer na prxima tempo-
 rada, de modo que no atrapalharei ningum ao decidir deixar

601

de representar. Londres fervilha de atrizes. Clyde poder substituir-
-me em dois segundos, mas a me no pode, no  verdade?
Sinto muito ter Ievado trinta e um anos para compreend-Io.
 Se Rain nv me tivesse ajudado, talvez demorasse mais tempo
ainda, mas e1e  um sujeito muito perspicaz. Nunca a viu e,
no entanto; parece compreend-Ia melhor do gue eu. Dizem, alis,
que o espectador v melhor o jogo do gue os participuntes, e isto ,
sem dvida, verdadeiro em relao a ele. No o posso suportar,
pois passa a vida a vigiar-me das suas alturas olimpicas. EIe parece
imaginar gue tem uma espmie de divida para com Dane, ou Ihe
fez alguma promessa, sei l! O certo  que est sempre a chatear-me
e aparece de repente, a toda a hora, para me ver, acabei por
compreender guais as razes que o levam a fazer isso. Se eu estiver
segura em Drogheda, a divida, ou promessa, ou seja l o que for,
ficar cancelada, no  Gssim? E, de gualguer maneira, ele agra-
decer-me- as viagens de avio que lhe pouparei.
 Assim gue eu tiver preparado tudo tornarei a escrever,
e dir-lhe-ei guando dever esperar-me. Por ora, no se esgue a
de gue eu amo-a,  minha estranha m neira.

 Assinou o nome sem o floreio habitual, mais como a <<Justine ,
qur costumava apat erer no fim das cartas abedientes, escritas no inter-
nato, sob o olhar de guia de uma freira censora. Depois dabrou as
folhas, enfiou-as num sabrescrito e escreveu o endereo. A caminho
do teatro para o ltno espectculo de Macheth meteu-a no correio.
 Ps ime iatamente em prtica os s us planos para deixar a Ingla-
terra. Clyde, transtornadssimo, teve uma erise de nervos to violenta
que o deixou todo trmulo; depois, da noite para o dia, mudou comple-
tamente de atitude e cedeu com rabugenta boa vontade. No Ihe foi
difcil arranjar quem quisesse o apartamento, pois este pertencia a uma
categoria muito,procurada; com efeito, lago que a nota se espalhou,
telefonavam de nco em cinco minutos, et que ela desligou o aparelho.
A Sr.a Kelly, que se encarregara da limpeza do apartamento desde os
dias distantes da sua chegada a Londres, trabalhava incansvel e pesarosa
no meo de um mante de aparas e caixotes de madeira, lamentando o seu
destino e recolocando sub-repticiamente o auscultador no gancho, na
esperana de que algum com o poder de persuadir Justine a mudar
de ideias se lembrasse de telefonar.
 No meio da confuso, algum que tinha esse poder telefonou,
s que no o fez para convenc-la a alterar os seus prnjectos. Rain no

602

sabia sequer que ela estava de malas aviadas. Queria apenas pedir he
que fizesse de anfitri num jantar que ia afercrr na sua casa de
Park Lane.
- Que hrstria  essa da casa em Patk Lane? - ritou Justine,
espantada.
- Bem, com a crescente articpao britnica na Camunidade
Emnmica Europeia, passo tanto tempo em Inglaterra que se tornou
mais prtico para m2m ter uma espcie de pied--terre local, de modo
que aluguei uma casa em Park Lane - explicou.
- Rain, s um mentiroso e um hipcrita! H quanto tempo
tens casa?
- H eerca de um ms.
- E deixaste-me quebrar a cabea diante daquela charada idiota
sem me dizeres nada? Maldito s jas!
 Estava to zangada que quase no conseguia falar.
- Eu ia contar-te, ma achei to divertido pensares que eu estava
sempre a voar entre Roma e Londres que no pude resistir  tentao
de fingir por mais algum tempo - disse, com riso na voz.
- Seria capaz de matar-te! - resmungou Justine entre dentes,
piscando as olhos para a fugentar as lgrimas.
- No, herzchen, por favor, no te zangues! Se quis res ser a
minha anfitri, poders inspeccionar a casa e as suas dependncias
inteiratnente  vontade.
- C:onvenientemente acon panhada por cinco milhes de outros
convidados,  claro! Rain, tens to pouca canfiana em ti que no te
arriscas a ficar sozinho comigo? Ou ser em mizn que no coz ias?
- No sers uma convidada - volveu ele, respondendo  primeira
parte da tirada dela. - Sets a minha anfitri, o que  muito diferente.
Ests disposta a faz-lo?
 Justine enxugou as lgrimas com o dorso da mo e disse, rspida:
- Estou.
 O jantar ac bou por se revelar mais agradvel do que ela se atrzvera
a esperar, pois a casa de Rain era deveras onita e ele estava to em-
-humorado que a contagiou com a sua boa disposio. Justine chegou
bem vestida, embora um tanto vistosa de mais para o gosto dele, mas,
aps uma careta rnvoluntria ao ver o cetim rosa sbocking das sandlias,
Rain enfiou o brao dela no seu e deram ambos uma volta pela casa
antes da chegada dos convidados. Ilepois, durante a noite, ele houve-se
to bem, tratando-a diante dos outras com uma intimidade to es,pon-
tnea que a fez sentir-se, ao mesmo tempo, til e desejada. A impor-

603

PASSAROS FERIDOS

tncia g>oltica dos convidados era tal que o crebro dela nem quis pensar
na espcie de deses que teriam de tomar. Alm disso, pessoas to
vulgares, o que piorava ainda as coisas.
- Eu no me incomodaria tanto se pelo menos um deles houvesse
manifestado sintomas de ser um dos <<pouco eleitos>> - disse Justine
depois de todos terem sado, contente com o oportunidade de ficar a
ss com Rin e imaginando o tempo que ele levaria para mand-la
embora. - Tu sabes, como Napoleo ou Churchill. H muita coisa a
dizer sobre algum convendo de que  um homem predestinado, quando
se trata de um estadi-sta. Consideras-te um redestinado?
- Devias escolher melhor as perguntas quando as fazes a um
alemo, Justine. No, no me considero, e no  bom que os polticos
se mnsiderem como tal. Isso talvez d certo para alguns, se bem que eu
duvide, mas a grande maioria causa a si mesmo e aos seus pases difi-
culdades interminveis.
 Justine no tinha vontade de esgotar o tema, que servia o seu
propsito de inaugurar certa linha de conversao; ser-lhe-ia fcil mudar
de assunto sem parecer demasiado intencional.
- As mulheres formavam um grupo m heterogneo, no repa-
raste? - perguntou com naturalidade. - A maioria estava menos
apresentvel do que eu, mesmo que no aproves o rosa shacking.
A Senhora Fulano no preria muito mal, mas a Senhora Sicrano sim-
 lesmente desaparecia diante do papel de parede, que combinava com
o padro do s u vestido, e a Senhora Beltrano era abominvel. Como 
que o marido consegue viver com ela? Os homens so to tolos na altura
de escolher!
- Justine! Quando aprenders a lembrar-te dos nomes? Ainda
bem que no quiseste saber de mim, pois ter-me-ias sado uma ela
mulher de poltico. Eu bem te ouvi enrolando as palavras quando no
conseguias lembrar-te quem eles eram. Muitos com mulheres abominveis
triunfaram, ao passo que outros, com mulheres perfeitas, fracassara7n.
A longo prazo, is o no tem importncia, porque  o calibre do omem
que se pe  rova. Poucos shomens casam por motivos meramente
polticos.
 A velha capacidade de coloc-la no devido lugar ainda conseguia
choc-la; Justine fez-lhe um arremedo de salamaleque para esconder o
rosto e sentou-se no tapete.
- Ora, levanta-te, Justine!
 Em lugar de obedecer ela do'brou os ps desafiadoramente debaixo
do corpo e encostou-se  parede de um lado da lareira, acariciando

60

lVatasha. Descobrira ao chegar que, a,ps a morte do cardeal Vittorio,
Rain ficara com a gata; parecia-lhe muito afeioada, se bem que fosse
velha e manaca.
- J te disse que vou de vez para Drogheda? - perguntou de
repente.
 Rain tirava um cigarro da cigarreira; as suas mos no hesitaram
nem tremeram, antes levaram suavemente a cabo a sua tarefa.
- Sabes muito bem que no me disseste - respondeu.
- Ento, digo-te agora.
- Quando chegaste a essa deciso?
- H cinco dias. Espero embarcar no fim da semana. J no  sem

tempo.
- Entendo.
- s o que tens ara dizer a esse respeito?
- Que mais haver para dizer se no desejar-te felicidades em tudo
o que fizeres?
 Rain falou com to perfeita compostura que Jusrine estremeceu.
- Ora essa! Muito obrigada! - acudiu, displicente. - No te
alegras por saberes que nunca mais te incomodarei?
- Tu no me incomodas, Justine - respondeu.
 Ela abandonou Natasha, pegou no atiador e ps-se a empurrar,
com certa selvajaria, os troncos que se haviam queimado at se trans-
formarem em eascas ocas, e que se desmoronavam para dentro da lareira,
numa breve comoo de fagulhas. O calor do fogo diminuiu de sbito.
- Deve ser o demnio da destruio que existe em ns, o impulso
de desafiar as vsceras do fogo. Isso apenas apressa o fi7n. Mas que belo
fim, no , Rain?
 A arentemente, Rain no estava interessado no que acontece nesses
casos, pois limitou-se a erguntar:
- No fim da semana? Pelos vistos, no perdeste muito tempo.
- Que adianta esperar?
- E a tua carreira?
- Estou farta da minha carreira. De qualquer modo, depois de
Lady Macbeth, que posso fazer mais?
- Ora, cresce, Justine! Sinto vontade de sacudir-te quando come-
as com essas patvoces de menina de escola que se julga omnisciente!
Porque no clizes simplesmente que j no tens a certeza de que o teatro
ainda pode interessar-te e que ests eom saudades de casa?
- Est bem, est em, est bem! Como quiseres! Eu quis ser
petulante, como sempre. Sinto muito se te ofendi! - Ps-se de p num

605

salto.-Diabo, onde esto os meu s sapatos? Qu aconteceu ao meu
casaco?
 Fritz a ateceu com as duas eas de vesturio, e levou-a a casa.
Rain desculpou-se por no a acompanhar, dizendo que tinha coisas para
fazer, mas, quando Justine partiu, estava sentado ao p do fogo recm-
-renovado, com Natasha no colo, e parecendo tudo, menos ocupado.

- Bem - disse Meggie  me -, espero que tenhamos feito o que
devamos.
 Fee olhou com ateno para ela e acenou com a cabea.
- Estou certa de que sim. Sendo Justine incapaz de tomar uma
deciso como esta, no nos resta outra sada. Temos de tom-la por ela.
- No sei se me agrada rincar aos deuses. Acho que conheo as
suas verdadeiras intenes, mas ainda que pudesse diz-lo na cara dela,
tenho a certeza de que Justine me mentiria.
- O orgulho dos Cleaty - observou Fee, com um leve sorriso.
- Aflora nas pessoas em que menos se espera.
- Pois sim! Nem tudo  o orgulho dos Cleary! Sempre me pareceu
que havia nisso tambm uma pontinha de Armstrong.
 Fee sacudiu a cabea.
- No. No que quer que eu tenha feito, a participao do orgulho
foi mnima. Essa  a inalidade da velhice, Meggie. Dar-nos um espao
para respirar antes de morrermos, de modo que possamos ver o que
fizemos e porque o fizemos.
- Contanto que a senilidade no nos incapacite antes - disse
Meggie, seca. - Embora a me no corra esse rzsco. Nem eu, suponho-o.
- A senilidade talvez seja uma merc concedida aos que no tm
fora pata enfrentar uma retrospectiva. De qualquer maneira, ainda no
viveste o bastante para dizeres que a evitaste. Espeta mais vinte anos.
- Mais vinte anos ! - repetiu Meggie, esmorecendo. - Isso 
muito tempo !
- Bem, tu poderias ter tornado esses vinte anos menos solitrios,
no  verdade? - perguntou Fee, tricotando cam diligncia.
- Sim, poderia, mas no valeria a pena, me. - No acha? - Ela
bateu na carta de Justine com o fundo de uma velha agulha de tric.
Havia um levssimo trao de dvida na sua voz. - J vibrei de mais.
Aqui sentada desde que Rainer apareceu, esperando no precisar fazer
coisa alguma, esperando que no me coubesse tomar deciso. No en_-
:anto, ele tinha razo. No fim, foi a mim que coube decidir.

606

- Poderias reconhecer que tambm contribu com a minha parte,
- protestou Fee, ofendida. - Isto s, depois de renunciares ao teu orgu-
Iho e xne contares tudo.
- Sim, a zne ajudou - concordou Meggie, gentil.
 O velho relgio bateu as horas; os dois pares de mos continuaram
a agitar-se em torno das hastes de tartaruga das suas agulhas.
- Diga-me uma coisa, me - disse Meggie de sbito. - Porque
foi que sucumbiu  morte de Dane, mas aguentou a do pai e de Stu
e a desgraa de Frank?
- Sucumbir? - As mos de Fee imabilizaram-se, pousaram as
agulhas: ela ainda tricotava to bem como nos dias em que via perfei-
tamente. - Que  que queres dizer com sucumbir?
- Como se essas coisas a tivessem matado.
- Todas me mataram, Meggie, mas eu era mais nova quando acon-
teceram as trs primeiras, de modo que tive energia suficiente para
escond-lo melhor. E mais razes, tambm. Como tu agora. Mas Ralph
soube o que eu senti quando o pai e Stu morreram. Eras muito jovem
para not-lo. - Ela sorriu. - Eu adorava Ralph, tu sabes. Ele era...
algum muito especial. Muitssimo parecido com Dane.
- Era, sim. Nunca me passou pela cabea que o tivesse percebido,
me... quero dizer, a natureza dos dois. Engraado, a me ainda  um
mistrio para mim. H tantas coisas a seu respeito que ignoro!
- Ainda bem ! - disse Fee com um frouxo de riso. As suas mos
permaneceram quietas. - Voltando ao assunto original... se podes fazer
isso agora por Justine, Meggie, eu diria que lucraste mais com as tuas
dificuldades do que eu com as minhas. Eu no queria fazer o que Ralph
me pediu e olhar por ti. Queria as minhas recordaes... s as minhas,
ao passo que tu no tens escolha: s tens recordaes.
- So um consolo, depois de a dor acalmar, no acha? Tive vinte
e seis anos inteiros de Dane, e aprendi a dizer a mim mesma que o que
aconteceu deve ter sido o melhor, que com certeza Ihe foi poupado um
sacrifcio horroroso, que ele talvez no tivesse foras suficientes para
suportar. C;omo o de Frank, embora diferente. H coisas iores do que
morrer, e ns duas sabemo-lo em.
- IVo te ficou nenhum ressentimento? - perguntou Fee.
- A princpio, sim, muito. Mas, por amor deles, eu aprendi a
afugent lo.
 Fee voltou ao tric.
- Isso quer dizer que, quando nos formos, no haver mais nin-
gum - disse suavemente. - No haver mais Drogheda. Oh, sim,

60

PASSAftOS FERIDOS

conceder-lhe-o uma linha nos l.ivros de histria, e algum rapaz zeloso
vir a Gilly a fim de entrevistar algum que porventura se lemhre de
ns, para o livro que tenciona escrever sabre Drogheda, a ltima das
grandes fazendas de Nova Gales do Sul. Mas leitor algum sa ber jamais
como era ela na realidade, porque no oder sab-lo. Precisaria ter feito
parte dela.
- Si na - diss Meggie, que no parara de tricotar. - necessrio
ter feito arte dela.

 Dizer adeus a Rain nuxna carta, arrasada pela dor e pelo choque,
fora fcil; na realidade, fora at cruelmente agradvel, pois ela ento
retribura as vergastadas - estou a sofrer, sofre tu tambm. Desta vez,
porm, Rain no se colocara na posio de receber uma carta que come-
asse com o clssico uQuerido Joo>>... , teria de ser um jantar no restau-
rante favorito de ambos. Ele no sugerira a casa de Park Lane, o que
a decepcionou, mas no a surpreendeu.Pretendia, sem dvida, dizer o
ltimo adeus snb o olhar benigno de Fritz. O certo  que no se arriscava.
 Pela primeira vez na vida Justine diligenciou or agradar a Rain;
o diabrete que costumava induzi-la a enfeitar-se com folhas cor de laranja
parea ter-se retirado de orelha murcha. Como Rain apreciava vestidos
simples, enfiou um longo de seda vermelho-borgonha opaco, fecharlo
at o pescoo, com mangas compridas e apertadas. Acrescentou-lhe um
grande colar de ouro cravejado de granadas e prolas e, em cada pulso,
braceIetes que combinavam com o colar. Que cabelo horrivel, horrvel!
Nunca estava suficientemente disciplinado para lhe agradar. Mais maqui-
lhagem do que a normal, para disfarar as olheiras. Pronto. Resultaria
se ele no olhasse com muita ateno.
 Rain no areceu faz-lo; pelo menos no teceu comentrios sobre
cansao nem sobre uma possvel doena, nem sequer aludiu s exigncias
dos preparativos de viagem, o que, alis, estava em completo desacordo
com o Rainer que ela conhecia. Passado algum tempo, Justine comeou
a ex,perimentar a sensao de que o mundo devia estar a acabar, to
diferente se mostrava ele da sua personalidade habitual.
 Rain no queria ajud-la a fazer do jantar um xito, ao qual
poderiam referir-se mais tarde em cartas com prazet e divertimento
reminiscentes. Se Justine, ao menos pudesse persuadir-se de que ele
estava apenas perturbado pela partida dela, tudo poderia ter corrido bem,
mas no podia. O estado de esprito de Rainer no era desse tipo.
Ele mostrava-se to distante que ela teve a impresso de estar sentada

608

PASSAROS FERIDOS

ao lado de uma efgie de papel, unimensional e ansiosa por sair voando,
impelida pela brisa, para longe da sua esfera de aco. Como se ele
Ihe tivesse dito adeus e esse encontro fosse suprfluo.
- Recebeste carta da tua me? - perguntou, amvel.
- No, mas tambm no espero receber. O mais provvel  que
ela no saiba o que h-de dizer-me.
- Gostarias que Fritz te levasse ao aeroporto amanih?
- Obrigada, posso apanhar um txi - retorquiu Justine, desabtida.
- No quero privar-te dos servios ele.
- Tenho reunies o dia inteiro. Posso assegurar-te, portanto, que
isso no me far dferena alguma.
- Eu disse que apanharei um txi.
 Rain ergueu as sobrancelhas.
- No h necessidade de gritar, Justine. O que quiseres estar
bem para mim.
 Ele j no lhe chamava herzchen; ultimamente ela notara que a
frequncia da velha palavra carinhasa decl2nava a olhos vistos e, naquela
noite, Rain no a empregara nem uma vez. Oh, que jantat melanclico
e de,primente aquele! Totnara que ac be depressa! Justine surpreendeu-se
a olhar para as mos dele enquanto tentava lembrar-se da sen5ao que
produzia o toque delas. Em vo. Por que razo a vda no era clara e
d>em organizada, por que motivo coisas como Dane tinham de acontecer?
Talvez por haver pensado em Dane, o seu humor g>iorou de repente e
deixou de conseguir permanecer sentada, quieta, um nico momen2o.
Ps as mos nos braos da poltrona.
- No te importarias se nos fs emos embora? - perguntou.-
Estou a comear a sentir uma dor de cabea alucinante.
 Na esquina de High Road e da rua do apartarmento de Justine,
Rain ajudou-a a apear do carro, ordenou a Fritz que desse voltas Qelo
quarteiro e segurou lhe cortesmente o cotovelo com a mo, a fim de
gui la, com um toque tatalmente impessoal. Na humidade glacial da
 noite londrina caminiharam devagar sobre as perlras da rua, enquanto os
 seus passus ecoavam em toda a volta. Passas tristes e solitrios.
- Ento, Justine, vamos dizer adeus - disse.
- Bem, pelo menos por enquanto - retrucou ela suavizando o
 semblante -, mas sabes que no ser para sempre. Virei c de vez em
 quando, e espero que encontres tempo para r a Ihogheila.
- No. Isto  um adeus, Justine. No creio que voltemos a servir
um para o outro.

609

- O que queres dizer  que eu j no sirvo ara ni - disse ela,
e conseguiu soltar uma risada aceitvel. -Est certo, Rain. No me
potrpes, que eu aguento!
 Ele pegou-lhe na mo, inclinou-se,para baij-la, endireitou o corpo,
sorriu para os olhos dela e afastou-se.
 Havia uma carta da me sobre o capacho. Justine inclinou-se para
apanli-la, deixou cair a bolsa e o casaco no cho, atirou os sapatos
para perto e entrou na sala de estar. Sentou-se pesadamente sobre uma
mala mordendo os lbios, os olhos postos com asmada e confusa pie-
dade num magnfico estudo da c bea e dos ombros de Dane feito para
comemorar a sua ordenao. Depois sur,preendeu os dedos nus dos ps
no acto de acariciar o tapete enrolado de pele de canguru, fez uma careta
de nojo e levantou-se depressa.
 Uma rpida excurso  cozinha era do que estava a precisar.
Levantou-se e dirigiu-se para l. Abriu o frigorfico, estendeu a mo
para pegar no jarro de creme, puxou a porta do congelador e tirou
uma lata de caf. Com uma das mos na torneira de gua fria,
circunvagou os olhos arregalados, como se nunca tivesse visto
o aposento at ento. Olhou para as falhas no papel da patede,
pata o pretensioso filodendro na sua cesta endente do tecto, para
o relgio preto que representava um gatinho e que abanava a cauda
e girava os olhos diante do espectculo do tempo to frivolamente desper-
dlad0. GUARDAR ESCOVA DE CABELO, dl2iam na lousa as maisculas
grandes. Sobre a mesa jazia um desenho a lpis de Rain, que ela fizera
semanas antes, e mao de ci garro s. Pegou num cigarro, acendeu-o
 s a chaleira no fogo e lembrou-se da carta da me, que segurava
ainda numa das mos. Poderia l-la enquanto esperava que a gua
aquecesse. Sentou-se  mesa da cozinha, atirou ao oho, com um piparote,
o desenho de Rain e ps os.ps em cima dele. Levanta os teus tambm,
Rainer Moerling Hartheim! V se me incomodo, meu alemozo dogm-
tico, parvo, rabugento e teimoso. Eu no sirvo para ti? Pois tambm
no serves para mim!

Minba guerida Justine

Deves estar a agir, sem dvida, com a tua habitual e impulsiva
rapidez, por isso espero que esta carta chegue a tempo. Se alguma
coisa gue eu disse ultimamente nas minhas cartas provocou a tua
sbita resoluo, perdoa-me, por favar. No era mlnha inteno
originar uma deciso to drsticvr. Eu devia estar apenas  procura

610

de um pouco de simpatia, mas erqueo-me sempre de que, debaixo
da tua pele rija, tu s bem mole.
 Sim, estou s, terrivelmente r. Entretanto, no  nada que
o teu regresso possa rectificar. Se pensares um pouco, vers conro
isto  verdadeiro. Que esperas realizar voltando para casa? No
tens o pader de restituir-me o que perdi, e to-pouco podes
ressarcir-me da perda. Nem esta  s minha. Ela  tambm tua,
da av e de todos os outros. Pareces ter uma ideia, alis inteira-
mente errada, de ser, de certo modo, respansvel. Esse impulso
actual cbeira-me suspeitamente a um acto de contrio. Issa  orgu-
lbo e presuno, Justine. Dane era um homem adulto e n uma
criancinha indefesa. Eu deixei-o partir, no deixei? Se me per-
mitisse sentir o que senies, estaria agui sentada a censurar-me
e acbando que devia ir para um asilo de doentes mentair porque
o deixei viver a prpria vida. Mas no estou aqui sentada a cen-
surar-me. Nenbum de ns  Deus, embora eu creia que tive mais
oportunidade para aprend-lo do que tu.
 Voltando para casa, entregar-me-s a tua vida como um sacri-
ficio. No o quero, nunca o quis e recuso-o agora. No pertences
a Drogheda, nunca pertenceste. Se ainda no de.r obriste a qne
lugar pertences, sugiro-te que te sentes e comecer 4 pensar vam
seriedade. As vezes, s, de facto, muito complicada. Rainer  um
bomem excelente, mas ainda no conheai nenbum que fosse to
altruista como pareces pensar que ele . Pelo amor de Deus,
Justine! Cresce um pouco!
 Minha querida, uma luz apagou-se para todos ns, uma luz
apagou-se. E no compreends que no b absolutamente nada que
possas fazer a esse respeito? No vou insultar-te tentando fingir
gue estou felicissima, pois essa no  a ondio bumana, mas se
pensas que aqui em DroghedG passamos os dlas a chorar e a gemer,
ests muito enganada. Gozamor os nossos dias, e uma das razes
de o fazermos  porque as nossas luzes, para ti, continuam acesas.
A 1uz de Dane foi-se para sempre. Por favor, querida Justine,
tenta aceitar este facto.
 Vem a Drogheda,  claro, pois gostaramos imenso de ver-te,
mas no para sempre. Nunca serias feliz se te instalasses agui
permanentemente. No farias apenas um sacrificio desnecessrio
mas tambm um sacrifcio intil. No teu tipo de vida, basta um
ano passado longe para te custar muito caro. Por isso fica no lugar
a gue pertences e s um boa cidad do teu mundo.

611

PASSAROS FERIDOS

 A dor. Era como nos primeiros dias depois da morte de Dane.
A mesma espcie de dor ftil, esbanjada, nevitvel. A mesma impo-
tencia angustiada. iNo,  claro que no havia nada que ela pudesse fazer.
No havia modo de compensar, modo nenhum.
 A chaleira j estava a assobiar. <<Quieta, chaleira, quieta! Quieta,
pela minha me! Que tal  ser iliha niea, chaleira? Pergunta  Justine,
ela sabe. Sim, Justine sabe tudo a zespeito de ser filha nica. Mas eu
no sou a fiilha que ela quer, a pobre velha que est a murchar l na
fazenda. Qh, me... Achas ento que, se fosse humanamente possvel,
eu no o faria? Novas lmpadas elas velhas, a minha vida pela dele!
No  justo que fosse Dane o que morreu... Ela tem razo. O meu
regresso a Drogheda nu pode alterar o acto de que ele nunea regressar.
Embora descanse l,para sempre, nunca regressar. Uma luz apagou-se
e no passo reacend-la, nnas ercebo o que ela quer dizer. A minha luz
ainda arde nela, s que no arde em Drogheda. >

 Fritz atendeu  porta. No vestia o belo uniforme de motorista
mas sim o austero uniforme matutino de mordomo. Enquanto ele sorria
e se inclinava, muito teso, batendo os calcanhares  boa e antiga maneira
alem, um pensamento ocorreu a Justine; ele faria, por acaso, servio
dobrado tanrbm em Bona?
- Voc  implesmente o humilde criado de Herr Hartheim, Fritz,
ou , na realidade, o seu co de guarda? -perguntou Justine, entre-
gando-lhe o casaco.
 Fritz continuou impassvel.
- Herr Hartheim est no escritrio, Senhorita O'Neill.
 Sentado, um pouco nnclinado ara a frente, Rain contemplava
o fogo. Natasha, enradilhada, dormia na lareira. Quando a porta se abriu,
ele ergueu os olhos, mas no falou, no pareceu contente pot v-la.
 Justine atravessou a sala, ajoelhou-se e encostou a testa no colo
dele.
- Rain, sinto muito por todos estes anos, e no. osso reparar
o mal que fiz - murmurou.
 Ele no se levantou ara a erguer, mas ajoelhou-se tam bm ao
seu lado, no cho.
- Um milagre - disse.
 Ela sorriu-lhe.
- Nunca deixaste de amar-me?
- No, herzchen, nunca.
- Devo ter-te magoado muitssimo.

612

PASSAROS FERIDOS

- No tanto como pensas. Eu sahia que me amavas e podia
esperar. Sempre acreditei que um omem paciente acaba por vencer.
- E por isso decidiste deixar-me resolver sozinha a situao.
No ficaste sequer levemente preocupado quando anunciei que voltaria
para Drogheda?
-  claro que fiquei. Se tivesse sido outro homem, eu no me
preocuparia, mas Drogheda  um adversrio ormidvel. Fiquei, sim,
fiquei Qreocupado.
- Sabias da minha ida antes de eu te dizer?
- Clyde deixou escapar o segredo. Telefonou para Bona a fim
de perguntar-me se eu teria maneira de evitar que partisses. Respondi-
=lhe que procurasse segurar-te u2na ou duas semanas, pois nesse inter-
valo eu veria o que era possvel fazer. No por ele, herzchen, mas por
mm. No sou altrusta.
- Foi o que a me me disse. Mas esta casa! J a tens h muito
tempo ?
- No, nem  minha. Entretanto, como precisaremos de uma
casa em Londres, se quiseres continuar a tua carreira, verei o que
 preciso fazer para adquiri la. Isto , se ostares dala. At ne deixarei
redecor-la, se me prometeres fielmente que no a forrars de cor-de-rosa
nem de cor de laranja.
- Eu no fazia ideia de que fosses to tortuoso. Porque no
disseste apenas que ainda me amavas? Eu queria que o dissesses!
- lVo. As provas estavam ali para que as visses sozinha, e tinhas
de v-las sozinha.
- Receio ser cronica mente cega. Na verdade no as vi sozinha,
precisei de ajuda. A minha me, afinal, abriu-me os olhos. Recebi carta
dela esta noite, dizendo-me que no voltasse para casa.
- A tua me  uma pessoa maravilhosa.
- Sei que a conheceste, Rain... quando foi?
- Fui v-la h cerca de um ano. Drogheda  magnfica, mas no
serve para ti, berzchen. Naquela ocasio ui at l para tentar #azer
com que a tua me visse i-sso. No fazes ideia quanto me alegra que
tal tenha acontecido, conquanto no me parea que o que eu disse
fosse muito elucidativo.
- Justine ergueu os dedos e tocou-lhe na boca.
- Eu mesmo duvidava, Rain. Sem re duvidei. Talvez duvide
sempre.
- Oh, herzchen, espeto que no ! Para mrm no ;poder ser mais
 ngum. -S tu. O mundo inteiro sabe clisso h anos, mas palavras

613

PASSAROS FERIDOS

de amor nada significam. Eu poderia t las proferido mil vezes por dia
sem intluir minimamente nas tuas dvidas. Por isso no falei do meu
amor, Justine, vivi-o. Como oderias duvidar dos sentimentos do teu
mais fiel galanteador? - Ele suspirou. - Bem, pelo menos no veio
de mim, e talvez continues a achar a palavra da tua 7ne suficientemente
digna de crdito.
- Por favor, no fales assim! Pobre Rain, creio que abusei ao
mximo da tua pacincia. No te magoes por isso ter vindo da minha
me. No tem importncia! Eu ajoelhei-me humilhei-me aos teus ps!
- Graas a Deus a humilhao durar a enas esta noite - disse
Rain alegremente. - Amanh voltars an teu estado normal.
 A tenso de Justine principiou a abrandar; o pior j passara.
- O que eu mais gosto... no, amo, em ti  que valorizas tanto
o meu dinheiro que nunca me ponho em dia.
 Os ombros dele estremeceram.
- Ento olha para o futuro dessa maneira, herzcben. Vivendo
comigo na mesma casa, ters oportunidade de ver como isso se faz.-
Beijou-lhe as sobrancelhas, as faces, as plpebras. -Eu no te quereria
de qualquer outro modo seno como tu s, Justine. No dispenso uma
sarda do teu rosto nem uma clula do teu crebro.
 Justine atirou os braos ao pescoo de Rain e enfiou os dedos
no seu ca belo farto.
- Qh, se soubesses quanto desejei fazer isto! - disse. - Nunca
pude esquec-lo.

O telegrama diza o seguinte

 ACABO TORNAR-ME SRA. RAINER MOERLING HARTHEIM. CERI-
M NIA PARTICULAR NO VATICANO. BNO PAPAL PAR TODOS.
ISTO  POSITIVAMENTE SER CASADA! ESTAREMOS A NUMA
LUA-DE-MEL ADIADA ASSIM QUE FOR POSSVEL MAS EUROPA SER
NOSSO LAR. SAUDADES PARA TODOS E DE RAIN TAMBM. JUSTINE

 Meggie p&s o pedao de papel sobte a mesa e olhou, de olhos
 em abertos, pela janela, para a abundncia das rosas outonais no
jardim. Perfume de rosas, abelhas de rosas. E o hibisco, os eucaliptos,
as buganvilias, que subam to alto acima do rmundo, as aroeiras-moles.
Como estava bonito o jardim, como estava vivo! Ver as coisas peque-
ninas crescer, flotir e murchar; e novas coisas,p queninas surgirem
de novo, no mesmo ciclo interminvel, incessante.

614
PASSAROSFERIDOS

 Era tempo de Drogheda parar. Sim, mais do que tempo. Que o ciclo
se renovasse com desconhecidos. Fiz tudo isto sozinha, no posso
culpar ningum, e no me arrependo de nada.>>
 O pssaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutvel;
im pelido por ela, nn sabe o que  empalar-se, e morre cantando.
No instante em que o espinho penetra, no h nele conscincia do
morrer futuro; limita-se a cantar e canta at que no Ihe sobra vida
.para emitir uma nica nota. Mas ns, quando enfiamos os espinhos
no peito, ns sabemos, compreendemos. E assim mesmo fazemo-lo.

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NDICE

I. 1915-1917 Meggie ... 11
II. 1921-1928 Ralph
III. 1929-1932 Paddy ... 197
IV. 1933-1938 ... Luke
V. 1938-1 53 Fee ... 381
VI. 1954-1965 Dane ... 467
VII. 1965-1969 Justine ... 581
